vultos da música
Tiago Coelho Jul 2024 15h30
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O cantor entrou na van pouco depois das três da manhã e jogou o corpo cansado no banco de trás do veículo. Perto do Estádio do Mangueirão, em Belém, ainda se ouvia o barulho animado dos milhares de jovens que haviam assistido ali, no início da madrugada de 7 de outubro de 2023, ao show de João Gomes no Festival Viiixe Forró e Piseiro. “Pode apagar a luz, por favor. Dá para fazer a entrevista no escuro”, ele disse ao motorista.
O carro partiu e as luzes brancas da iluminação pública da capital paraense projetaram lampejos no rosto do cantor, cujo semblante cansado o deixava com a aparência de mais velho. Liguei o gravador. Numa folha de papel dobrada em minha mão havia uma série de perguntas para um artista que eu supunha estar entusiasmado com o sucesso. Mas, quando perguntei a João Gomes sobre o que mais desejava conquistar, a resposta veio com uma voz fraca e resignada: “Não tem mais nada. Acho que já consegui tudo. Tudo já foi provado, toda promessa já foi cumprida.”
Aos 22 anos, um dos músicos mais promissores do país estava triste. Alguma coisa havia mudado na vida de João Gomes, que, dois anos antes, não disfarçava seu otimismo e acreditava que poderia mudar a vida difícil que ele e sua família levavam na periferia de Petrolina, no sertão pernambucano.
“Prova esse suco de uva, é daqui da região, uma delícia. Sabe aquelas uvas sem caroço, bem docinhas? São de Petrolina”, diz Kátia Gomes, de 42 anos, a mãe do cantor João Gomes, na sala de jantar de sua casa moderna, de pé-direito alto e com um lustre enorme pendendo do teto. A casa fica no bairro de Boa Esperança, antes uma periferia pobre de Petrolina e agora um local de condomínios fechados de residências ricas, como aquela em que Kátia vive.
Ao seu lado na mesa, está Josilene Valério, de 74 anos, a avó paterna do cantor. As duas falam com orgulho de João Gomes, quando o celular da avó toca. Ela responde: “Oi, João, estou aqui na sua casa, com visita… O rapaz da revista. Você já desembarcou? O quê? Tem uma surpresa para mim?” E desliga o telefone. “João é cheio de surpresas, ele anda vendo um apartamento para dar de presente para mim”, ela comenta.
Meia hora depois, chega o cantor. É início de outubro do ano passado, e ele vem de uma maratona de shows pelo país. Veste um conjunto esportivo da Nike e boné, que retira ao entrar na casa. Seu rosto está abatido, com uma leve olheira acinzentada. O cantor dá um abraço apertado na avó e, propositalmente, de forma marota, solta um pum. Josilene enrubesce e, como reprimenda, dá um tapinha no braço do neto. “Era essa a surpresa? Pelo amor de Deus, João, a gente está com a visita.” O cantor de tez pálida também fica corado. Depois, me cumprimenta educadamente. Dá para ver que é retraído com estranhos.
Em seguida, ele abraça a mãe e aninha nos braços o irmão caçula, Matheus. “Como é que estão as coisas na escola nova? Os meninos são legais com você?”, pergunta João Gomes. O caçula faz que sim. “Você brincou na rua hoje?” O menino faz que não. “Ô, mãe, tem que levar ele para brincar na rua, andar de bicicleta, jogar bola com os meninos. Você sabe que aqui no condomínio não tem perigo”, diz o cantor. “Eu faço isso, João, mas hoje o Sol estava muito forte.” A visita do cantor dura pouco tempo: ele logo sai para levar a avó até a casa dela.
Na casa da mãe do cantor, sobre a mesa farta, com pães, bolos e sucos, ela exibe orgulhosa os boletins e provas escolares que atestam como seu filho foi um bom aluno. Em uma redação escolar do oitavo ano do ensino fundamental, o adolescente de 14 anos se apresentou assim: “Meu nome é João Fernando Gomes Valério. Nasci em 31 de julho de 2002, na cidade de Serrita, Pernambuco, e com poucos dias de vida eu vim para Petrolina.”
Foi em Serrita, conhecida como a Capital do Vaqueiro, que João Gomes conheceu a vaquejada, tradição do sertão nordestino que remonta ao século XVII. É um esporte e também uma festa: em uma arena, dois vaqueiros montam em seus cavalos e disputam para derrubar um boi, puxando-o pelo rabo. Para entrar no torneio, o vaqueiro tem que obter uma senha, que custa caro – algo em torno de 500 reais. Por isso, os sertanejos pobres promovem a Pega de Boi no Mato, que é quase como a vaquejada, só que mais informal: o boi é solto na Caatinga e a senha custa cerca de 70 reais.
Nas férias, João Gomes amava voltar a Serrita, a cerca de 240 km de Petrolina, para a disputa da Pega de Boi no Mato promovida por seu avô e seu tio. Depois de consagrado o campeão, começava a festa. O menino ficava atento, num canto, ouvindo os forrós. Ele se lembra da vez que, em cima de um caminhão, uma banda tocava uma música de amor de Petrúcio Amorim: Um rádio a meio volume/Um cheiro de amor e de perfume pelo ar/Numa esteira, o meu sapato pisando o sapato dela. Ele conta para a piauí: “Eu ficava num canto pensando: ‘Oxe, um sapato pisando no outro? Que diabo é isso?’ Eu via o povo dançando e viajava interpretando o sentido da letra.” Até hoje, João Gomes gosta das palavras e suas intenções. E das histórias de vaqueiros.
Em Serrita ele aprendeu a montar, aboiar, fazer toada. O aboio é um canto gutural, algumas vezes sem palavras, com o qual os vaqueiros conduzem a boiada. Sua origem é polêmica, mas o folclorista Câmara Cascudo diz que remonta à cultura moura e berbere, tendo vindo do Norte da África para o Brasil trazido por negros escravizados da Ilha da Madeira. Já as toadas são cantigas de versos curtos e cadenciados. “E feitos de improviso”, diz João Gomes, que em seguida improvisa:
Êeeaa! Pra revista piauí canto e faço [na hora
João Gomes que tá na voz, rima agora [e sem demora
Vou cantando e vou vivendo pra ser [feliz alguma hora.
Ele nunca se desgarrou do sertão nem de sua família do interior. “A minha família é muito importante na minha vida. Merecia que alguém nela vencesse e os ajudasse a superar tanto sofrimento”, diz. “Eu não podia imaginar que esse alguém seria eu.”
Quando João Gomes nasceu, Petrolina não era mais uma cidade pequena e pobre. Já havia se tornado o maior polo de cultivo de frutas do país e o maior exportador brasileiro no setor. A mudança começou a se desenhar graças à iniciativa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), estatal criada em 1973, que ao longo das décadas ajudou a desenvolver na região projetos de irrigação do solo e de domesticação de frutas resistentes às altas temperaturas do semiárido. Com a expansão dos cultivos, Petrolina ficou mais rica.
As coisas corriam bem na cidade, mas não na casa do pequeno João Gomes. Ele estava prestes a completar 3 anos quando seus pais se separaram – e a família se desfez. O pai, Fábio Valério, era barbeiro. A mãe, Kátia Gomes, viera de Serrita ainda adolescente fugindo da pobreza e trabalhou como empregada em Petrolina. Quando João Gomes nasceu, ela tinha 20 anos e um trabalho temporário como embaladora de manga em uma das grandes empresas da região. Voltou a Serrita apenas para ter o filho.
A separação afetou fortemente o menino. “João era muito apegado ao pai”, conta Kátia. Na redação escrita no ensino fundamental, ele registrou o episódio da separação: “Esse é um trauma que carrego até hoje. Minha relação com meus pais é boa, mas sempre fui muito solitário por causa das brigas deles, sempre ficava ausente da minha família, de meus primos. Mesmo assim, fui bem-educado. Aprendi com minha mãe que tenho que colocar a humildade acima de tudo. E que não posso me desfazer de ninguém.”
Logo depois da separação, Kátia foi dispensada do trabalho de embaladora. Mudou-se com o filho para a casa de uma tia e arrumou trabalho junto a uma família abastada. A tia ficava com o menino, mas certa vez precisou ir ao médico, e Kátia teve que levar João Gomes para o serviço. “A patroa falou que não queria criança na casa dela”, recorda Kátia. “Aquilo me apertou o coração. João era tão quietinho. Eu sempre prezei os princípios da obediência e da educação.” Magoada, ela pediu demissão.
Empregou-se na casa de um advogado. “Fui logo dizendo que tinha um filho pequeno e que ele estava na escola.” O advogado percebeu que o menino era inteligente e sugeriu que ela o presenteasse com livros, a fim de estimular nele o gosto pela leitura. Estabilizada no novo trabalho em Petrolina, Kátia se mudou com o filho para uma casinha alugada na periferia, que se expandia com a chegada de trabalhadores à procura de emprego. João Gomes escreveu na sua redação: “Sou cria do bairro Quati II, foi lá que aprendi a jogar bola, bolinha de gude, empinar pipa e jogar fliperama.”
Quando a mãe saía para trabalhar, ele ficava sob os cuidados das vizinhas Mazinha ou Tereza. No Dia das Mães, a escola organizou uma festa, na qual João Gomes cantaria uma música. Mas sua mãe não pôde ir. Na hora de se apresentar, o menino correu os olhos pela plateia, procurando-a, mas quem ele avistou foi Mazinha. “Até hoje ele se recorda e fala: ‘Eu sabia que minha mãe não ia me deixar só.’ Quando me lembro disso, dói. Mas eu fazia o que era preciso para sustentá-lo”, diz Kátia.
Por medo da violência, o garoto foi criado praticamente dentro de casa. “Eu dizia para ele: ‘João, a polícia passou e deu uns tapas nos meninos, se você levar uma sacudida da polícia por aí, não vá dizer que sou sua mãe e me envergonhar.’ Ele respondia: ‘Se é pra dizer que não tenho mãe, melhor não ir’”, recorda Kátia. Na redação escolar feita aos 14 anos, João Gomes relatou outro evento traumático: “Nunca pensei em usar drogas e já recebi vários conselhos do meu primo que era usuário. Minha melhor lembrança é com ele, e ele se foi.” O primo de João Gomes foi assassinado. “Meu sobrinho era como um irmão para ele”, conta Kátia. “Embora tivesse envolvido com drogas, sempre dava conselhos para que o João jamais aceitasse droga de alguém. Muitos garotos do bairro morreram ou foram presos. Por isso, eu ficava vigilante 24 horas por dia.”
No início dos anos 2010, o rap começava a atrair a atenção de garotos da periferia de Petrolina. Na escola, João Gomes se inscrevia nas batalhas de rima durante o recreio. “Depois, o movimento foi ficando mais fraco. Não tinha nenhum incentivo da prefeitura. Éramos vinte, depois dez, cinco…”, ele diz. O clube dos cinco se reunia aos domingos à tarde no parque municipal para trocar ideias, declamar poesias, falar de músicas e livros. “Eu estava começando a ler Machado de Assis porque queria aprender as palavras difíceis, rebuscadas.” Ele lia as obras do escritor carioca em exemplares comprados no sebo com os 10 reais que o pai às vezes lhe dava. “Uma coisa que me impressionava em Machado é que, no tempo do realismo, ele sempre falava sobre o delírio, a sandice.”
Num desses encontros, o amigo Francisco Henrique mostrou para a turma uma música que ele próprio havia feito e registrado num gravador. “Eu nunca tinha visto aquilo: um garoto da mesma realidade que a minha tinha feito uma música.” A composição dava voz a três personagens. Os dois primeiros, Mary e Crazy, eram um casal em vias de terminar um relacionamento. “Ele usava esses alter egos para falar coisas da sua vida que não tinha coragem de dizer. E, na terceira parte, assumia o próprio ponto de vista e dizia: ‘Oi, eu sou eu, e eu preciso falar comigo, aflito, com meu eu no espelho…’ Cara, era foda! Ele é um dos melhores compositores que conheci”, diz João Gomes, com empolgação. “Tenho saudades do tempo que passei junto desses meninos. Isso me protegeu de muita coisa: dos perigos da rua, da ignorância, de não saber das coisas…”
Em 2019, aos 16 anos, João Gomes ingressou no curso técnico em agropecuária do Instituto Federal do Sertão Pernambucano, na zona rural de Petrolina. Foi morar no alojamento da escola, onde retomou o contato com os clássicos do forró que os colegas gostavam de cantar nas horas de folga: Luiz Gonzaga, Santanna, o Cantador e Jorge de Altinho. Os colegas registravam cantorias no celular e postavam nas redes sociais. João Gomes era feliz ali.
Mas veio a pandemia, e ele teve que se refugiar em casa com a mãe. De vez em quando, cruzava Petrolina de bicicleta, procurando amigos que quisessem gravar vídeos de música. Numa tarde, saiu do bairro onde vivia, Cacheado, e foi até o Alto do Cocar. O sanfoneiro Jeovanny Gabriel, na época com 17 anos, conta sobre a primeira vez que viu João Gomes: “Ele estava tomando um enquadro da polícia, com a mão na cabeça. Eles normalmente param os garotos. Eu o reconheci dos vídeos que ele fazia no Instituto Federal.” Quando João Gomes voltou ao bairro Alto do Cocar, Jeovanny disse: “Você não é o garoto dos vídeos? Eu toco sanfona. Qualquer dia aparece aí para a gente gravar junto.” Ele apareceu, e os dois formaram uma dupla: um cantava, o outro tocava sanfona. “O João tem um gosto mais eclético. Me apresentou Cartola, Belchior… Eu achava massa, pois conhecia basicamente forró”, comenta Jeovanny Sanfoneiro, nome com o qual é mais conhecido atualmente.
Depois das aulas remotas do ensino médio, Jeovanny trabalhava como faz-tudo em um mercadinho do bairro para tirar uma grana e comprar uma sanfona nova. “O João só pensava em gravar vídeo, e eu não podia porque estava trabalhando”, diz Jeovanny. Certa vez, João Gomes disse a ele: “Eu vou te tirar desse mercadinho nem que eu tenha que pagar sua diária.” O sanfoneiro sugeriu: “E se a gente montar um repertório para tocar em barzinho?” Mas o amigo não queria. “Ele falava para eu não me preocupar, que era para a gente continuar ali, ensaiando, se divertindo. Ele parecia saber que alguma coisa ia acontecer. Que havia um propósito maior para a gente.”
Os amigos mais próximos estranhavam aquela confiança em um momento tão incerto quanto o da pandemia. “Eu estava muito determinado a seguir com a música, como se fosse um sentido que me guiasse”, afirma João Gomes. Mas, como nada estava garantido no futuro, Jeovanny resolveu se matricular num curso técnico em administração. “Quando ele me disse que tinha se matriculado, eu falei: ‘Você nasceu para ser sanfoneiro. Não faça algo de que não goste realmente’”, conta João Gomes à piauí. “Eu não queria que ele se tornasse um… Como eu posso falar? Um medíocre.”
João Gomes vinha escrevendo versos em um caderno. Quando sua mãe saía de madrugada para trabalhar, o filho insone já estava acordado, redigindo letras de músicas como Eu tenho a senha:
Levanta cedo pra labuta que eu tô [pronto.
Eu muito conto com o meu Deus que [tá no Céu.
Eu tenho a senha pra correr em todo [canto,
Humildade, a disciplina dos ‘sermão’ [que mãe me deu.
Eu tenho a senha e meu cavalo já tá [pronto.
E em cima da sela eu mostro que eu [mereço meu troféu.
Eu vou, eu vou, colar na vaquejada.
Segunda-feira com certeza tô por cá.
Pessoal e uma galera animada
Quem gosta de comer água,
Tá em brasa a me esperar.
Na segunda parte, a letra fala sobre os amores do vaqueiro:
Eu tô perdido nas curvas de uma [morena.
Vou chegar junto pra sentir o seu [perfume.
É minha sina, é a força da natureza.
Mulher bonita é a fraqueza dos [vaqueiros desse mundo.
Se a minha sina é a força da natureza.
Tenho a senha e a certeza: vou dar [conta disso tudo.
“Música boa da zorra. De quem é?”, quis saber Jeovanny. “É de um artista que eu vi no YouTube”, mentiu João Gomes. “Ele não disse que era dele. Nunca entendi por quê”, diz o sanfoneiro. O cantor explica o motivo: “Eu queria que ele tivesse uma reação sincera. Ele gostou tanto que um dia eu revelei o segredo.” A frase “Eu tenho a senha” remete à festa da vaquejada, mas também significa estar preparado para um desafio futuro.
Depois que João Gomes cantou a melodia, Jeovanny tirou a canção em sua sanfona. O resultado agradou aos dois, e eles resolveram mostrar para algum músico profissional. “Quer mostrar ao Tarcísio ou ao Mano Walter?”, perguntou o sanfoneiro. Tarcísio do Acordeon e Mano Walter são dois cantores de piseiro – gênero derivado do forró – que estouraram na pandemia. João Gomes resolveu procurar Tarcísio do Acordeon, que fazia mais sucesso.
A música acabou parando nas mãos de Jeovane Guedes e Daniel Mendes, sócios e diretores artísticos da Top Eventos, uma produtora de Petrolina. “Senti uma emoção grande quando ouvi a canção e pensei: ‘Isso é ouro, vai ser sucesso.’ Na mesma hora, eu falei: ‘Quero essa música’”, conta Mendes. Também sócio da Top Eventos, Geraldo Estrela Neto diz que o escritório fez duas propostas: ou comprar a música, ou cobrar um valor para Tarcísio do Acordeon gravá-la. João Gomes preferiu fazer uma contraproposta: “Eu dou a música de graça para Tarcísio gravar. Mas quero uma chance de fazer um disco.”
Em junho de 2021, Tarcísio do Acordeon lançou Eu tenho a senha. “A música foi bem, mas ficou aquém do sucesso que Tarcísio fazia”, diz Estrela. Ainda assim, Guedes cumpriu sua palavra. No início do segundo trimestre de 2021, chamou João Gomes para gravar um álbum com dez canções, que foi lançado em junho de 2021, com o nome de Eu tenho a senha. Foram necessários apenas trinta dias para o cantor explodir e colocar dez músicas no Top 200 Brasil do Spotify. Três delas permaneceram por mais de sessenta dias entre as dez mais ouvidas na plataforma. Seu sucesso foi quase simultâneo à sua estreia. Transformada em hit, Eu tenho a senha acabou incluída na trilha sonora da novela Pantanal, da Rede Globo.
Um mês depois do lançamento do disco, um ônibus preto com o nome e a imagem de João Gomes parou na frente da casa de sua avó Josilene Valério. Era nele que o cantor, Jeovanny Sanfoneiro e outros músicos e produtores viajariam por cerca de 1,5 mil km, de Petrolina até Belém do Pará. Ao descerem do ônibus, os amigos e familiares se abraçaram, choraram e festejaram. João Gomes pediu que a avó benzesse o veículo. Ele tinha comprado um presente para Jeovanny. Quando os dois voltaram para dentro do ônibus, o presente foi entregue. “João disse que ia me tirar do mercadinho e me dar uma sanfona nova. Eu confiei, e ele cumpriu”, diz o sanfoneiro.
Foram dois dias de viagem de ônibus de Petrolina até o Pará, em julho de 2021. Em cidades na rota da Transamazônica cujos acessos eram por estradas de terra, como Medicilândia e Itaituba, a trupe de músicos precisou usar veículos menores, porque o ônibus não conseguia avançar. No caminho, foram cercados por pessoas que conheciam o disco de João Gomes. A equipe chegou a viajar oito horas de barco para se apresentar na Ilha de Marajó e a pegar aviões anfíbios para alcançar cidades ribeirinhas. Em seu primeiro show em Belém, ele cantou para milhares de pessoas.
João Gomes se tornou artista da produtora Top Eventos. Mas, agora, ele precisaria mostrar se, afinal, tinha mesmo a senha para enfrentar os desafios futuros: o mercado competitivo da música, a enxurrada súbita de dinheiro e a nova condição de responsável financeiro por sua família e por dezenas de pessoas agora dependentes do seu sucesso.
Logo que João Gomes se tornou conhecido, as pessoas começaram a falar do descompasso entre a aparência daquele jovem de 1,77 metro, 74 kg, rosto de adolescente, e sua voz grave e forte, que parecia a de um homem bem mais velho. “Quando João ficou famoso, uma conhecida me disse: ‘Eu pensei que era um velho que cantava Eu tenho a senha’”, conta sua avó Josilene Valério. “Fiquei para morrer. Meu neto só tinha 18 anos.”
Em seu canal no YouTube, o professor de técnica vocal Daniel Lotoy fez um vídeo falando de sua estranheza inicial com a voz de João Gomes. Ele explicou no vídeo que, depois, entendeu que era a própria voz um dos motivos do sucesso do cantor. “As pessoas não aguentam mais ouvir as mesmas coisas, iguaizinhas […] elas querem sentir coisas verdadeiras, elas querem se conectar”, disse Lotoy. “Ele é carismático e a voz tem um balanço”, completou. Jeovane Guedes, o diretor artístico dos discos do cantor na Top Eventos, comenta: “A voz do João é muito representativa do povo sertanejo. E é única na música brasileira.”
Ao ouvir o cantor pela primeira vez, o jornalista e pesquisador musical GG Albuquerque notou outras particularidades. “No disco que tem influência do forró de vaquejada [Eu tenho a senha], comecei a perceber uma levada que fazia referência ao aboio, mas também desembocava em outros lugares, em ritmos eletrônicos e no hip-hop. Há um ancestral comum que liga o aboio, as toadas e o rap”, diz Albuquerque, doutor em estéticas e culturas da imagem e do som pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). “E João Gomes tem um carisma tímido, meio Zeca Pagodinho, pouco falante, mas muito magnético. Sem falar na sua autodeterminação em romper com certas imagens que são impostas aos artistas do sertão nordestino. Ele reformula e atualiza um ideário que muita gente tem do sertão.”
As cenas do rap, do trap e do funk abraçaram João Gomes. “Ele é uma renovação na música brasileira. O seu som ultrapassa barreiras. Os versos e o canto têm um flow que as pessoas da cultura hip-hop reconhecem”, diz o rapper carioca BK’, amigo de João Gomes e um dos nomes da extensa lista de pessoas com as quais o pernambucano já fez parcerias (a lista inclui ainda L7nnon, MC Poze do Rodo, MC Cabelinho, Flora Matos e MC Ryan SP). João Gomes seria como um elo entre Luiz Gonzaga e Mano Brown.
O projeto do cantor de reformular a música e o imaginário sertanejos fica nítido em seu primeiro DVD, Acredite, gravado em 2022 na Praça do Marco Zero, na região central do Recife. Os produtores tentaram dissuadi-lo da ideia, pois seria trabalhoso mobilizar um show numa área tão movimentada, mas João Gomes tem temperamento obstinado e bateu o pé.
Na praça, foi montado um palco com a réplica de uma casinha sertaneja feita de pau a pique. O DVD começa com João Gomes atrás do palco, dentro da casa, de costas para a câmera, vestido com um gibão de couro preto reluzente, estampado com a imagem de Nossa Senhora Aparecida. Ele está sentado em uma cadeira, ao lado de uma mesa sobre a qual há uma garrafa de café, uma lamparina e um caderno escolar. Acompanhado pelos acordes tristes de um acordeão, o cantor declama alguns versos, enquanto se levanta e caminha em direção ao palco: Lancei minha sorte na estrada./E toda a vez que o Sol cruza o céu,/eu sou seu, meu Jesus./Meu papel cada dia é tentar ser melhor./Tem lágrima misturada com meu suor, e olha só o que aconteceu. Antes de chegar à porta da casinha cenográfica, ele solta a voz nos primeiros acordes de Eu tenho a senha – e, então, abre a porta e entra no palco para delírio da plateia.
Na praça, estão 150 mil pessoas gritando o nome de João Gomes, chorando e cantando com ele a música. No palco gigantesco, com um grande aparato de telões, jogos de luzes e fogos de artifício, o cantor, com seu sorriso tímido, passa o recado: sua origem é a casinha de barro, mas ele está pronto para grandes espetáculos e para afirmar o novo momento da música do Nordeste. “Ele passa a realizar não só para si, mas toma como missão divulgar gente nova de sua região e reverenciar os clássicos”, diz o empresário Geraldo Estrela. Por isso mesmo, o cantor convidou para os DVDs que gravou duas cantoras: a baiana Raquel dos Teclados, chamada de A Rainha da Sofrência, e a pernambucana Joyce Alane.
A peça-chave nessa reinvenção da música nordestina é o piseiro. Daniel Mendes, diretor artístico dos discos de João Gomes, explica: “O forró é a música-mãe do piseiro, que é uma vertente contemporânea, caracterizada essencialmente pela ausência de uma bateria física e pelo uso de uma bateria eletrônica de programação, que é acoplada ao teclado.” O piseiro surgiu em festas populares das periferias, atualizando o forró com a batida eletrônica que caracteriza a produção musical do funk e do tecnobrega.
Embora João Gomes se apresente na Missa do Vaqueiro, um dos eventos mais tradicionais do sertão e cujo patrono é Luiz Gonzaga, o cantor é alvo constante de questionamentos sobre sua real ligação com a tradição do forró, porque gosta de incorporar ritmos eletrônicos em suas músicas. Mas há quem o defenda, como o pesquisador GG Albuquerque: “Tradição não significa estar estagnado. Se faz todo dia. Cada vez que um aboiador canta um aboio é de uma maneira diferente.” Ele avalia que a discussão está relacionada à reformulação da estética do sertão e do Nordeste, à medida que ela se associa ao imaginário do pop.
Mas o piseiro ainda enfrenta obstáculos, apesar de João Gomes ser acolhido por parte da cena da MPB – ele participou do festival Doce Maravilha, com a curadoria de Nelson Motta, e foi convidado para um jantar na casa de Gilberto Gil. “O piseiro e o funk são músicas de origem negra e periférica”, diz GG Albuquerque. “No caso do João Gomes, vai levar um tempo para entendermos como ele fura certos bloqueios. Talvez pela presença magnética dele, mas também pela qualidade.”
Exemplo desse preconceito, mesmo em Pernambuco, foi um fato ocorrido em março de 2023. Um divulgador musical enviou por e-mail à Rádio Universitária de Recife duas cópias da gravação que Vanessa da Mata e João Gomes fizeram de uma música de Belchior, Comentário a respeito de John. O e-mail trazia o seguinte aviso: “Com e sem João Gomes.” Ou seja, uma das versões continha as vozes dos dois cantores, outra apenas a de Vanessa da Mata. Para Cássio Uchoa, radialista da Rádio Universitária, a mensagem do divulgador musical era clara: “Se fosse outro artista de piseiro, a música nem chegaria na rádio, que toca MPB. João Gomes tem esse trânsito. Ainda assim, a ressalva do divulgador mostra que há preconceito contra o piseiro.”
Os empresários da Top Eventos veem a situação como um jogo de tabuleiro, em que o objetivo é ampliar a difusão do piseiro, inclusive nas regiões Sul e Sudeste, que são as mais resistentes ao gênero. Há dois anos, a Top Eventos e as produtoras Tapajós e Vybbe se juntaram e criaram o Festival Viiixe, que percorre várias capitais e é o maior evento de piseiro do país. Eles já consideram ter feito grandes conquistas ao promover uma festa do piseiro em uma boate badalada de Florianópolis, realizar shows no interior do Paraná ou ter João Gomes participando no disco ao vivo de Luan Santana gravado em Porto Alegre. “Cada região tem sua predileção. Qualquer ritmo para entrar no Nordeste também tem seus desafios. João conseguiu quebrar essas barreiras exaltando sua cultura”, diz Estrela. GG Albuquerque enxerga essas barreiras como um sintoma do preconceito contra nordestinos. “O entrave é o preconceito e a visão paternalista de uma parte do Brasil, que vê o Nordeste como atrasado, de chão rachado e seco. E não percebe que os artistas do piseiro estão renovando essa paisagem cultural, quebrando velhas ideias com o próprio fazer artístico e inteligência comercial.”
A Top Eventos foi criada há treze anos por empresários de Petrolina e tinha uma presença modesta na cena musical. O mercado de forró era totalmente voltado para a realização de shows ao vivo, mas com a pandemia a produtora foi obrigada a interromper seus trabalhos. “A gente viu que a saída era investir no digital”, diz Estrela. Para não sucumbir, o mercado do forró investiu em lives, músicas para as plataformas digitais, videoclipes e estratégias de marketing adaptadas à nova realidade. “Quando o mercado voltou ao normal, a gente estava grande e preparado.” Estrela conta que atualmente a ligação de João Gomes com a produtora não é apenas a gestão de sua carreira: “Ele é também sócio. O seu crescimento é exponencial, e isso nos obrigou a evoluir junto.”
Em Petrolina, os sócios da Top Eventos me mostram o prédio moderno em construção onde a produtora ocupará um andar inteiro, deixando para trás a modesta sala comercial onde nasceu. Depois, me levam até uma grande construção na periferia que eles chamam de “usina de talentos”. O local tem estúdios de gravação e ensaios, dez suítes, sala de jogos, churrasqueiras e garagem para mais de seis ônibus de turnê. A ideia é reunir ali talentos de todo o Nordeste, hospedá-los e testá-los como cantores, compositores e instrumentistas.
A estratégia da Top Eventos de expandir o piseiro tem dado certo, com a ajuda do talento de João Gomes. Em outubro de 2022, ele se apresentou no Rock in Rio, depois de ser escolhido para tocar no festival em uma votação feita com usuários do TikTok. Foi a primeira vez que um músico do piseiro participou do festival, embora não no palco principal. O repórter Rodrigo Ortega, na época do g-1, disse que o espaço dado ao cantor, num palco alternativo, era desproporcional ao seu sucesso e ao seu empenho. No fim do show, diante de uma plateia empolgada, João Gomes, em sintonia com o público reunido ali, disse ao microfone, com um sorriso meio gaiato: “Ei, Bolsonaro!” E a plateia completou: “Vai tomar no cu.”
Dias depois, o Sindicato Rural de Imperatriz, no Maranhão, apoiador de Jair Bolsonaro, afirmou que João Gomes não pisaria no Parque de Exposições da cidade, onde ele tinha um show marcado. A apresentação foi transferida às pressas para outro local. O cantor se desculpou nas redes sociais: “Errei e desrespeitei alguns fãs. Não apoio qualquer bandeira, mas fui irresponsável. Queria pedir desculpas por citar um nome que jamais poderia citar. Errei. E peço muitas desculpas. Sou um eterno aprendiz.” Estrela minimiza o episódio: “Não existiu posicionamento político algum. Foi uma brincadeira. Mas ele é figura pública e pediu desculpas.”
No olho do furacão, cumprindo uma agenda de trinta shows por mês, João Gomes sentiu a pressão do sucesso. Em fevereiro de 2022, antes mesmo do show no Recife, desabafou nas redes sociais: “Tô postando isso fora do roteiro, turma. Porque só Deus sabe o quanto estava me sentindo esses dias. Meio ansioso, com a mente cansada. E quem estava próximo de mim sentia muito isso. Estava sentindo vontade de sumir e pedindo a Deus muita força.”
Pedro Henrique Porto tem 21 anos e é amigo de João Gomes desde os tempos da escola. Hoje trabalha com o artista, cuidando de tarefas burocráticas e das propriedades do cantor. Porto me buscou no Aeroporto de Petrolina e, no caminho, mostrou os bairros onde os dois cresceram. “E aonde vocês iam para baladas, festas?”, perguntei. “A gente não teve muito isso”, respondeu. “Quando a nossa adolescência começou, estávamos presos na pandemia. Quando a pandemia acabou, estávamos na estrada.”
Ele viu João Gomes dar os primeiros sinais de que não estava bem. “Teve um período em que a voz dele ficou rouca, ele achou que não ia conseguir mais cantar e isso o deixou angustiado”, conta Porto. “Lembro de ele dizer: ‘Eu sou responsável pelo emprego de vários pais de família. Não só os da nossa equipe, mas os que montam o palco, vendem bala em show.’ Ele se cobra muito para fazer o melhor, para não desistir, porque passou a ser responsável por muita gente.”
Jeovanny Sanfoneiro diz que a rotina na estrada esgota emocionalmente. “Alguns amigos falavam: ‘Vocês viajam, conhecem lugares diferentes, se divertem.’ Mas nem sempre é assim. Às vezes, estamos cansados e só queremos cair na cama e dormir. Pesa no psicológico”, diz. “O João não se abre muito quando está passando por um momento difícil. Nas viagens de ônibus, ele brinca com a galera, mas tem um momento em que fica na dele, assistindo desenho animado, jogando videogame ou lendo livros. Ele lê muito.”
João Gomes passou a dormir pouco e se alimentar mal. “Em trinta dias de carreira, ele estava em primeiro lugar nas plataformas. Com o sucesso, vieram as cobranças. A gente entendeu que seria um processo duro no qual ele teria que amadurecer num espaço curto de tempo. Então diminuímos a agenda, em concordância com ele.” Desde 2023, o cantor faz dezesseis shows por mês, segundo Estrela. Um show de João Gomes custa em torno de 400 mil reais.
O cantor mal tinha completado dois meses de carreira quando sua equipe contratou como segurança pessoal dele o alagoano Johny Black, professor de jiu-jítsu e produtor que havia trabalhado por quase vinte anos com artistas de forró. Black tinha fama de durão e não conhecia João Gomes. “Me disseram que eu teria que orientá-lo para que ele se tornasse um profissional e aprendesse a cumprir uma rotina de artista”, recorda. “Ele era um menino tímido, fechado.”
O gelo foi quebrado aos poucos. Durante as viagens, Black contava a João Gomes suas experiências de garoto criado em favelas de Maceió. O cantor também falava de seu passado. “João mistura o profissional com o coração. Mesmo não sendo este o meu perfil, passei a cuidar dele como se fosse meu filho. Aliás, ele tem a idade de meu filho”, afirma o segurança.
Black chegou na vida de João Gomes no momento que o sucesso e o acúmulo de responsabilidades estavam causando danos psicológicos ao cantor. “Eu enfrentava uma depressão enorme. Black era meu amigo, segurança e foi como um pai na minha vida”, diz João Gomes à piauí. “Eu tinha muito dinheiro, mas não sabia o que fazer com tanto. Mesmo feliz no palco, vendo a galera cantar minhas músicas, eu não sabia o que fazer com tudo aquilo que estava acontecendo. Não sabia como lidar com problemas de família. Aí ele foi me dando uma direção.”
Black estava ao lado de João Gomes quando o cantor comprou seu primeiro carro, uma Hilux branca, e foi quem lhe deu aulas de direção. Depois, viajou com ele até a cidade de Serrita para que mostrasse a conquista à avó materna. “Esse carro é nosso, minha avó”, disse. Black comenta: “Ali, eu vi o menino bom que ele era. Sempre ajudando e surpreendendo todo mundo.” A avó batizou o carro de Nato Gomes, o nome do avô. Black lembra que, certa vez, depois de uma bateria de shows, João Gomes disse que queria fazer “algo bom” com seu dinheiro, mas não sabia o quê. “Sugeri que ele doasse trezentas cestas básicas para sua quebrada”, conta Black. “Ele foi lá e doou 3 mil.”
João Gomes tomou seu primeiro porre quando tinha 14 anos. “Um virote de vodca que me deixou doido. Dormi na calçada, com o povo tentando me acordar”, lembra o cantor. Seu pai ficou sabendo e ralhou: “Honre seu nome, tenha postura.” Envergonhado, João Gomes só voltou a beber quando completou 18 anos. A mãe também pediu que ele parasse de beber. Até Ivete Sangalo já lhe passou uma reprimenda. A cantora estava em uma festa na casa de sua família em Juazeiro, e João Gomes foi visitá-la. Aproveitou para tomar algumas cervejas, horas antes de subir ao palco. “Você vai beber e vai cantar? Que história é essa, rapaz?”, alertou a veterana. “Aí eu dei uma maneirada. Vez ou outra eu bebo, quando estou tenso”, afirma João Gomes.
Black também o patrulhava para não exagerar. “Ele teimava e bebia. E no dia seguinte era uma dificuldade para acordar cedo”, diz o segurança. “Tinha dia que ele não dormia e pedia que eu fizesse companhia. Ele conversava por horas, falava dos sonhos, das ideias, dos sentimentos, dos problemas familiares, até de estar apaixonado. Todo mundo achava que ele ia ficar com uma artista global, famosa, mas ele se apaixonou por uma garota comum do Recife.” A jovem é Ary Mirelle, estudante de odontologia e influenciadora de 22 anos, com quem ele vive numa das torres de apartamento de alto padrão, erguidas em Petrolina de frente para o Rio São Francisco.
Nos aeroportos ou saguões de hotel, o cantor jamais recusava um pedido para fotografia, mesmo estando atrasado para compromissos. “A hipótese de alguém dizer que ele não é humilde acabava com o dia dele. Por vezes, as pessoas se aproximavam contando uma situação financeira difícil, e eu via ele dizendo: ‘Tem mil reais no seu Pix.’”
Depois de um show em um festival no Maranhão, uma caminhonete esportiva emparelhou em uma rodovia com a van em que João Gomes e sua equipe estavam. Na escuridão da estrada, os homens dentro da caminhonete gritaram para o cantor, pedindo que ele parasse no acostamento para fazer uma foto. João Gomes falou para o motorista parar, mas Black impediu.
– Tá escuro. Você não sabe quem está dentro do carro – disse o segurança.
– São meus fãs – protestou o cantor.
– Nosso carro não vai parar nessa escuridão. Eu sou pago para garantir sua segurança. Quando chegarmos num posto de gasolina, junto de nosso ônibus, a gente para.
O motorista da van gritou para os homens que João Gomes faria a foto na próxima parada. Os homens na caminhonete insistiram em fazer a foto num acostamento da estrada. Quando o carro do cantor se aproximou do posto de gasolina e se preparava para parar, a caminhonete seguiu adiante. O cantor e sua equipe ficaram sem saber se eram fãs de fato ou se pretendiam outra coisa.
– João, independente de serem seus fãs, eu sou pago para medir o que é arriscado para você. Então abaixe o fogo e me escute – disse Black.
– Eu devia ter parado. Sou humilde.
– Sei que você é. Mas eu não tenho como saber se quem estava naquele carro era humilde também.
No dia seguinte, às três da manhã, os dois seguiram em silêncio para o aeroporto, até que João Gomes perguntou ao segurança:
– Tá com raiva de mim?
– Não. A raiva foi só ontem – respondeu Black.
– Promete? Então vamos mergulhar nesse mar juntos.
– Nossas malas já foram despachadas para o aeroporto, não tem roupa seca para trocar.
– Esqueça isso.
– João, me chamaram para te dar o exemplo. Eu tenho que te orientar a fazer o que é certo. Vamos para o aeroporto.
– Você não é meu irmão? Vamos dar um mergulho.
Eles tiraram o tênis, a camisa e pularam de calça no mar. Quando saíram, João Gomes propôs que fizessem uma foto com pose de quebrada.
– Eu sou de quebrada, mas tenho que ter postura – argumentou Black.
– Nós somos de quebrada – respondeu João Gomes.
“Se o escritório descobrisse, iam achar que eu tinha negligenciado meu trabalho”, diz o segurança à piauí. “Mas quis que o João soubesse que eu estava com ele e que ele não perderia minha amizade por qualquer bobagem.”
Outra vez, no Rio de Janeiro, o cantor cismou que queria conhecer uma favela em Copacabana. “Expliquei que não se sobe em favelas do Rio sem planejamento. Mas, se ele pede para ir a algum lugar e você diz não, se prepare. Ele vai fazer tudo o que você odeia”, diz Black, rindo.
No Rio de Janeiro, nos curtos intervalos que tinham entre compromissos, João Gomes insistiu com Black para conhecer as ruas citadas nas obras de Machado de Assis. “A primeira vez que fui ao Rio, eu quis conhecer bairros e ruas dos livros. Ficava imaginando como era a cidade naquele tempo, como era a Rua do Ouvidor, que o Machado sempre cita”, diz João Gomes. “Quando vi a Praia de Botafogo, me lembrei de um personagem que dizia que, ao passar por ali, ouvia as ondas baterem alto, mas não tão alto quanto seu coração batia pela mulher que amava.” (Ele se refere ao romance Quincas Borba: O mar batia com força, é verdade, mas o meu coração não batia menos rijamente; com esta diferença que o mar é estúpido, bate sem saber por quê, e o meu coração sabe que batia pela senhora.)
Teve uma noite em que Black foi se certificar se João Gomes já estava dormindo. E o viu sentado na cama, chorando. “Ele me disse: ‘O que é isso tudo que está acontecendo?’” Black o tranquilizou: “Tenha calma, eu estou aqui contigo, me diga o que aconteceu.” E o cantor respondeu: “Hoje eu tenho dinheiro, posso comprar o que for, eu faço acontecer e ainda é pouco para algumas pessoas.” Black fez companhia ao artista até que ele se acalmasse e dormisse. “João tem boa memória. Ele se lembra de quem jogou pedra nele e de quem lhe deu a mão. Vivia um momento de depressão profunda. Ele dormiu pobre e acordou rico, com a obrigação de manter um monte de gente”, diz Black. “O sonho dele era só gravar uma música. E o que veio depois? Responsabilidades, tristeza e um monte de gente em cima. Por outro lado, ele tinha medo de que tudo aquilo acabasse. Não queria ser um artista que dura seis meses e depois desaparece.”
Black conta que, nas noites mais agônicas, João Gomes não queria sair do quarto para cantar. “Ele falava: ‘Não quero mais fazer show, não vou conseguir.’ E eu dizia a ele que se lembrasse de que o sonho de gravar uma música o tinha levado até ali. Que Deus o havia abençoado e que não o abandonou. E que, ao subir ao palco, deveria dizer para si mesmo: ‘Aqui é minha morada.’ Depois eu o lembrava que tinha um monte de criança esperando no show e na porta do hotel. E isso sempre mexia com ele.”
Estrela diz que João Gomes se cobra muito. “E não para ser o primeiro, segundo ou terceiro. É para entregar algo bom. Um feedback positivo é algo que vale mais que dinheiro para ele”, afirma. “Mas uma crítica na internet o deixa mal. E a gente sabe o quanto a internet é dura nas críticas. Imagina então para um menino no primeiro momento de carreira. Nós conversamos com ele, procuramos psicólogos para ajudar nesse processo.”
Num evento em que se apresentaram vários artistas, João Gomes quis ir até o camarim de um veterano que ele admirava. Foi recebido com simpatia, mas o artista disse que não gostava de piseiro, que achava esse gênero musical ruim. “Na hora, João levou na brincadeira. Mas, quando chegou ao seu camarim, não parava de dizer: ‘Ouviu o que ele disse?’”, conta Black. “Eu dizia: ‘Esquece isso daí.’ Mas cadê que ele esquecia?” De volta à van, o segurança disse a João Gomes: “Você quer impressionar o Sudeste, o Sul. Mas, entenda, o nordestino é visto de outra forma por eles. Você tem que ficar feliz e se orgulhar porque os nordestinos estão felizes de ter você como representante.” O agravante, no caso, é que o artista que criticou o piseiro era também nordestino – o que magoou ainda mais João Gomes.
Os olhos do cantor brilhavam pelas coisas que ele não teve quando garoto: tênis, roupas de marcas esportivas, chuteiras. Um dia, ele confidenciou a Black que tinha um desejo de consumo, mas que temia realizar porque os outros podiam achar que era mera ostentação. Seu sonho era ter um sítio com uma casa e uma longa varanda para espalhar as redes, além de uma piscina e baias para cavalos. “Realiza seu sonho, o seu trabalho deve ser para isso”, aconselhou Black. Dois meses depois, começaram as obras do sítio numa região rural de Petrolina. É para lá que João Gomes vai quando quer descansar.
Em março de 2023, Black decidiu voltar para Maceió. “Eu cuidei do João como um filho. Mas não dei a atenção que meu próprio filho precisava. Eu tinha me tornado avô e não podia ser ausente com meu neto. Quando você vive a vida de um artista, você perde a vida das pessoas que ama”, diz o segurança. Ele procurou João Gomes e comunicou a sua decisão.
Depois do último show em que estiveram juntos, eles se abraçaram e choraram. “João, eu tô ficando velho. Estou indo embora, mas eu te amo do mesmo jeito. Eu deixei de ser seu funcionário, mas nunca vou deixar de ser seu irmão. O que você precisar de mim, você sabe onde me encontrar”, disse Black, que tem 40 anos, ao cantor. “O João foi um presente na minha vida. Quando fui trabalhar com ele, João era um garoto, e quando saí ele tinha se tornado um grande artista”, ele afirma à piauí.
Das últimas palavras trocadas com Black na despedida, uma frase marcou mais forte a memória de João Gomes: “Estou indo embora, mas estou feliz porque você sabe o que tem que ser feito, sabe o caminho a seguir.” Mas o cantor pensa diferente: “Black foi embora me dizendo que eu sabia o que tinha que fazer. Mas eu não sei nada o que tenho que fazer, até hoje. Ficou aquele vazio quando ele se foi. Perdi uma parte da minha cabeça muito importante. Eu tinha um professor comigo todo dia. Chorei muito. Na estrada, nos momentos mais difíceis, existiu esse cara ao meu lado.”
No bairro Dom Avelar, um local de casas simples na periferia de Petrolina, há uma via que se chama Rua do Otimismo. É lá que fica o estúdio Arine Music, numa casa residencial de um único pavimento e telhado de duas águas. No início de outubro de 2023, João Gomes estava jogado em um sofá preto do estúdio, com o semblante fechado, enquanto dava sugestões ao diretor Jeovane Guedes na mixagem de algumas faixas. O cantor trabalhava na finalização de seu terceiro disco.
Guedes começou a trabalhar com música aos 13 anos. Ele desempenhou uma função essencial do mercado de artistas populares: era um pirateiro, um sujeito que vai aos shows, grava as apresentações e pirateia as músicas em CDs, pen drives ou na internet. Para os artistas do mainstream, ligados às grandes gravadoras, a pirataria é um pesadelo, mas para artistas populares é uma forma de divulgação do trabalho. Foi assim que Guedes apurou o faro para identificar hits como Eu tenho a senha.
No estúdio, ele botou para tocar Céu azul, do Charlie Brown Jr., cantada por João Gomes em ritmo de piseiro. “Tô achando acelerado demais”, disse o músico. O diretor desacelerou. Enquanto Guedes mixava, João Gomes olhava no celular, enfastiado, os olhos semicerrados. Ele vestia uma camiseta de Naruto (uma série de mangá), calção da Nike, boné e chinelos Kenner, a marca preferida dos crias de favela. Era a segunda vez que nos encontrávamos em Petrolina. Àquela altura, eu já tinha entendido que ele só se abria no tempo dele. “Sabe aquela dor que dá bem aqui e fica latejando?”, ele me perguntou, apontando com o dedo o lado esquerdo da testa, bem acima dos olhos. “É enxaqueca?”, perguntei. “Não sei. Mas dói muito. Acordei bem hoje. Mas peguei o celular e tinha um milhão de demandas e problemas para resolver. Aí apareceu essa dor. Preciso de um café.”
O clima no estúdio não era nada cerimonioso. Outros jovens ali da periferia que trabalham como carregadores e montadores de palco de João Gomes entravam, assistiam à gravação, sentavam no sofá ao lado do cantor e lhe mostravam vídeos engraçados no celular. João Gomes ria, se sentia à vontade com eles. Mas naquele dia o cantor não estava bem. Parecia distante. Enquanto Guedes equalizava as gravações, João Gomes pegou um violão para matar o tempo, apoiou a perna direita no sofá e dedilhou no violão os acordes de Alucinação, do Belchior, cantando num tom baixo, quase sussurrado: Eu não estou interessado em nenhuma teoria/Nem nessas coisas do Oriente, romances astrais/ A minha alucinação é suportar o dia a dia/E meu delírio é a experiência com coisas reais/Um preto, um pobre…
Guedes chamou a atenção de João Gomes para uma música que considerava boa para o repertório. Era uma canção romântica, mas com certa picardia. Falava de um casal de amantes apaixonados que trocam mensagens pelas redes sociais. Guedes enviou a letra para o cantor e soltou a batida. João Gomes levantou-se e pegou o microfone: Tá bagunçando a minha mente/Nenhum de nós três merece/Tá com a aliança no dedo/E o coração no meu direct/Fugindo do erro e você vem e pede. Depois disse, meio sério, meio brincalhão: “A música é boa, mas eu não posso aparecer lá em casa cantando isso. Como minha mulher vai encarar?”, disse João Gomes. Os jovens no estúdio riram e o provocaram: “O cabra tá com medo da mulher.”
João Gomes voltou a se recostar no sofá e a mexer no celular. Um produtor artístico chegou e foi até a mesa de mixagem cumprimentar Guedes e saber como estava indo o trabalho. Guedes respondeu que tinham chegado na reta final e mostrou algumas faixas. O homem comentou, com certo tom de censura: “Está ótimo. Praticamente pronto. Agora é só não ficar inventando moda, mexendo no que já está bom.” Mas ele não teve sorte, porque João Gomes ouviu o comentário e disse: “O trabalho não é meu? Eu sou artista, e é meu trabalho inventar.” O produtor rebateu no mesmo tom: “O trabalho é seu. Só estou dando uma opinião de que, para mim, não precisa mexer em mais nada.” João Gomes continuou: “Pois é, o trabalho é meu. Eu decido quando está bom.” Com o climão que tomou conta do estúdio, o produtor artístico fez por bem sair logo.
O empresário Geraldo Estrela pediu pizzas para a equipe, todos deram uma pausa na gravação e devoraram as encomendas num clima descontraído. João Gomes puxou conversa: “Quer dizer que a revista é piauí, mas fica no Rio? Que curioso. Você escreve artigos? O Bukowski também escrevia artigos para revistas.” Respondi que escrevo reportagens. “Bukowski é um cabra que só foi reconhecido como escritor depois de velho”, ele continuou. Eu não podia deixar a conversa esfriar em razão da minha ignorância sobre a obra de Bukowski, então tirei da manga outro artista, Cartola, de quem João Gomes é fã. “Cartola também só foi reconhecido muito tarde, já velho. Foi gravar seu primeiro disco aos 65 anos”, eu disse. “Rapaz, como pode uma coisa dessa? A vida tem dessas injustiças. Um gênio como o Cartola, as coisas sensíveis que ele cria, demorar para ser reconhecido…”
Uma jovem morena, baixinha e de cabelos muito compridos chegou com uma sacola e uma garrafa térmica. “Era disso que eu precisava”, disse João Gomes, dando um beijo em Ary Mirelle, sua mulher, àquela altura grávida de seis meses e meio. Na sacola tinha pão e mortadela. Da garrafa térmica saiu um café cheiroso. O lanche e a visita mudaram o humor de João Gomes. Ela disse que precisava voltar para casa. Ele pediu que Mirelle fosse com cuidado.
Por volta de nove da noite, chegou a hora de ouvir a mixagem de uma composição de Lucas Arcanjo, Luan Vitor e Lealzinho, Leão do dia. A canção deixou João Gomes particularmente animado, e era fácil de entender por quê. A letra diz:
Passei por tanta coisa nessa vida
Que não desejo a ninguém
Lutei, chorei, venci
A minha fome que eu sentia
Me aliei ao meu leão do dia
Quem diria chegar até aqui.
E no vale das sombras eu andei
Sem temer mal algum
E quando pelas sombras tropecei
Me levantei e me tornei mais forte
Quem me vê hoje fala que foi sorte
Tô carimbando o meu passaporte
Viajando o mundo do Sul ao Norte.
Olha onde eu cheguei?
Pra quem falou que e não ia chegar
Só sabe o que eu passei quem tava lá.
“Essa frase é tão bonita: ‘Me aliei ao meu leão do dia’”, disse João Gomes ao diretor artístico. “Tem gente que enfrenta um leão por dia, mas o cabra vai lá e faz melhor: se alia ao leão. Bom demais isso.” Ele ficou tão animado que pediu para refazer a gravação. João Neto, maestro da banda, assumiu o teclado. Arine, o dono do estúdio, pegou a sanfona. A voz grave de João Gomes encheu a sala. Arriscou um tom mais agudo, não deu certo. O maestro pediu para ele experimentar um tom médio grave. Ele tentou uma, duas, e na terceira vez acertou. Contente consigo mesmo, jogou o chinelo para um canto e, enquanto cantava, balançava o corpo do seu jeito meio sem jeito. O humor havia mudado. Ele gostou tanto da música que batizou o disco De Norte a Sul.
Poucos dias depois, em 6 de outubro do ano passado, João Gomes estava às cinco da manhã no Aeroporto de Petrolina, preparando-se para ir a Belém. Com a cara sonolenta, fez fotos sorrindo ao lado de fãs. Ao chegar à capital paraense, foi para o Radisson Hotel, e só saiu de lá por volta das 22 horas, para ir de van até o Estádio do Mangueirão, onde se apresentaria no Festival Viiixe.
No camarim, traçou um prato farto de cuscuz com linguiça e tomou uma latinha de Pitú, uma aguardente pernambucana adocicada. Torcedor do Santos, João Gomes passou grande parte do tempo conversando sobre futebol e planejando a próxima pelada com os músicos, quase todos da mesma faixa etária dele e também talentos da periferia de Petrolina. “João até que joga direitinho, mas é muito individualista. Pega a bola e sai sozinho”, disse um músico. “É meu estilo de jogo. Eu jogo com sangue no olho”, defendeu-se o cantor. O show começaria às duas da madrugada.
Antes de subir ao palco, João Gomes e sua equipe fizeram uma oração. Havia cerca de 20 mil pessoas no gramado, que gritaram alucinadamente quando ele apareceu no palco. Além de seus hits, João Gomes cantou clássicos do forró, trap, funk, tudo ao ritmo do piseiro. O entusiasmo do público foi às nuvens com a canção Eu tenho a senha. Em dado momento da apresentação, ele levou Jeovanny Sanfoneiro para tocar no centro do palco, como se dissesse que o amigo está no centro de sua história.
No palco, João Gomes parece feliz e animado. Quando sai de lá, fica introspectivo. No caminho de volta ao hotel, de madrugada, quando pediu ao motorista da van para apagar as luzes, suas palavras iam saindo com a sinceridade de quem está cansado demais para medi-las. Comento que, quando ele canta, mesmo que esteja vivendo um dia ruim, seu humor melhora. “Acho que é a liberdade. Mesmo que aquilo que gravei não faça sucesso, naquele momento eu me apaixonei pela música, me entreguei, me diverti e não me preocupei com mais nada, só em entregar meu melhor.”
Ele explica por que continua fazendo tantos shows, apesar do cansaço e da tristeza que vem sentindo. “Faço arte para me expressar, para sobreviver. Porque a arte é a única coisa que sobrevive e é maior que a vida. Também faço para transformar a vida das pessoas”, diz, num tom monocórdio, sem emoção. “É muito difícil ser um artista quando ninguém sabe mais o que é arte, ninguém está esperando arte, só querem tirar teu sangue…” Então faz uma pausa. “Ou quando gente da sua família não entende o seu suor, quando uma pessoa muito próxima não entende o quanto você derrama de suor para alcançar algo. A paixão ainda existe. Falta eu saber lidar com toda essa novidade na minha vida.”
Ele fala do passado e da necessidade de amadurecer bem rápido. “Eu era um adolescente tendo que ser adulto quando tudo aconteceu. Ainda tenho coisas de adolescente, um tanto idiotas. Porque todo adolescente é um pouco idiota. Morro de chorar quando alguém da equipe é demitido.” E comenta mais uma vez sobre a sua tristeza com o afastamento de Black. “Ele me mostrou as coisas boas que estavam acontecendo. Mas chegou um momento que nem o Black mais sabia o que estava acontecendo comigo. Quando ele se foi, eu não sabia o que fazer. Ainda hoje não sei.”
A conversa vai ganhando um contorno sorumbático. “A vida parece que está sempre por um fio…”, ele diz, a voz fraca, quase um murmúrio. “E nessas horas a gente precisa relembrar a fé em Deus. Quando comecei a cantar e a falar de Deus, as pessoas olhavam meio esquisito. Aí eu pensei: ‘Porra, não tem ninguém que vai entender e acreditar nessa fé que eu tenho?’ Aí fui perdendo a minha fé…”
A van chegou ao Radisson Hotel por volta das quatro da manhã. João Gomes entrou no saguão e ainda havia fãs esperando para fazer fotos. Ele atendeu a todos, apesar de visivelmente cansado. A Avenida Comandante Braz de Aguiar, na capital paraense, estava deserta. Dobrei o papel com as vinte perguntas otimistas que achei adequadas para fazer a um jovem artista de sucesso e meti no bolso. Não faziam sentido. Se tivesse tempo, teria perguntado se ele era uma pessoa triste.
Em 30 de outubro, quase um mês depois da conversa pessimista na van, reencontrei João Gomes numa torre de vidro espelhado no Brooklin, sede de sua assessoria de imprensa na Zona Sul de São Paulo. Como diz Machado de Assis, um dos autores preferidos do cantor, em Esaú e Jacó: o tempo é um tecido invisível em que se pode bordar tudo. Agora, o cantor parece mais animado.
Faltavam duas semanas para o Grammy Latino, no qual ele concorria na categoria Melhor Álbum de Música de Raízes em Língua Portuguesa. João Gomes tinha mandado fazer um traje de gala sob medida para a festa: um gibão de couro preto criado pelo artesão cearense Espedito Seleiro. “Já ganhei! Não o prêmio em si, mas vai ser uma vitória estar lá”, ele me diz. “Cobra-se muito da gente quando atingimos o topo das paradas. Mas não se pode desesperar, Deus sempre tem algo guardado para a gente. Tem que ter fé e colocar os pensamentos no lugar e entender que tudo é um dia depois do outro. E olha com quem eu estou concorrendo!” Seus concorrentes eram Elba Ramalho, Almir Sater, Carminho, Gabriel Sater e Gaby Amarantos.
De repente, ele se entusiasma feito um adolescente. “Acho que Bad Bunny vai estar lá”, diz, referindo-se ao rapper de maior sucesso na América Latina. “Meu irmão, ele é lendário! Ele é de Porto Rico e disse que fica feliz de cantar para o mundo em sua própria língua.” Eu comento: “É meio parecido com você cantando piseiro no Rock in Rio, não?” Ele respondeu, sorrindo: “Não é mesmo? Às vezes a gente tenta mudar, fazer diferente, mas a galera já gosta quando a gente é o que é.”
Lembro a João Gomes que o prédio no Brooklin fica muito próximo de onde era a quebrada do Sabotage. Ele sorri e cantarola um verso do rapper, assassinado em 2003: Um bom lugar se constrói com humildade, é bom lembrar… Depois pergunta: “Não existe mais a favela do Canão?” Uma sombra de pesar atravessa rapidamente o rosto dele quando conto que a favela em que Sabotage viveu foi removida em 2013. “Tem fatos na vida que acontecem para mexer com uma geração”, comenta. “A morte dele impactou o hip-hop e uma cultura inteira. Tanto tempo depois, o hip-hop é gigante.”
João Gomes, então, reflete sobre sua própria trajetória. “Tem uma frase do rapper Don L que diz: ‘Não é de onde você vem, mas aonde quer chegar.’ O lugar de onde saí ainda hoje é minha casa, onde tenho meus amigos e me sinto à vontade. Eles estão se virando do jeito deles”, diz. “Na minha escola, ninguém tinha muita perspectiva de futuro. Eu sempre quis cuidar das pessoas que gosto. Me dediquei muito, e veio o resultado. Queria, mesmo que de longe, fazer com que os garotos de onde cresci se orgulhassem de mim e pudessem acreditar que, mesmo sendo difícil, com dedicação e trabalho a gente consegue. Hoje, uma pessoa simples pode pegar o celular e, se tiver muito talento e for escolhido por Deus, vai chegar lá.”
O cantor explica seu sucesso por um fator que também elucida sua época. Apesar de católico, vê o mundo por uma ótica protestante de orientação neopentecostal, segundo a qual, se você acredita em Deus e se esforça, será recompensado. Ele não é o único de sua geração. A cantora Iza diz na música Fé: Hoje eu só vim agradecer/por tudo que Deus me fez/Quem me conhece sabe/o que vivi e o que passei/O tanto que ralei/pra chegar até aqui. No trap Me sinto abençoado, Filipe Ret e Poze do Rodo cantam: Vários bagulho doidão que eu passei/Hoje vivendo essa vida de rei/[…] Hoje o mundo girou, louvado seja o Senhor/Que minha vida mudou, me abraçou e me abençoou.
João Gomes canta em Terra prometida:
Os que confiam no Senhor são como [os montes de Sião
Os dias “difícil” vêm, mas eles não se [abalarão
O tempo tá ruim, tudo tá horrível
Deus não disse que era fácil, só que era [possível.
Ele abriu o Mar Vermelho pro povo [passar
Disse que eu ia vencer, é só acreditar.
Cada fase pra avançar e meta a ser [vivida
E o prêmio é chegar à terra prometida.
Nos anos 2000, os Racionais MC’s também tinham a religiosidade como tema. Em Vida loka, parte 2 dizem: O que tiver que ser, será meu/Tá escrito nas estrelas, vai reclamar com Deus. Mas, mesmo depositando esperanças na fé, os rappers paulistanos entendiam que os jovens da periferia emperram na vida não porque lhes falta esforço, mas porque não têm oportunidades, em um mundo excludente: Sempre fui sonhador, é isso que me mantém vivo/Quando pivete, meu sonho era ser jogador de futebol, vai vendo/Mas o sistema limita nossa vida de tal forma/Que tive que fazer minha escolha, sonhar ou sobreviver.
Da cultura hip-hop, João Gomes disse ter tirado uma lição. “O hip-hop ensina que a união de gêneros deixa ele mais forte e te leva mais longe. Eu também venho de um movimento, o piseiro. A gente quebrou barreiras porque é unido. O forró antes era mais carrasco. Um queria ser maior que o outro.” E, se ele já sofreu com as críticas ao piseiro, naquele dia estava tratando esses ataques com humor e certo desdém. “É um ritmo que a galera gosta, acelerado. O piseiro pode ser eletrônico, mas é uma coisa muito boa. O pessoal que critica, Ave Maria!, é uma galera muito da chata”, diz, rindo.
Voltei à pergunta feita na van sobre se ele achava que não havia mais nada a ser conquistado. A resposta foi a mesma, mas veio num tom diferente. Menos pessimista e mais realista. “Eu nunca esperei um Grammy e veio a indicação. Sabe, a vida acontece de verdade quando a gente calça as nossas botas e se pergunta: ‘Meu Deus, o que vai acontecer hoje?’”
Vendo-o animado naquela segunda-feira ensolarada em São Paulo, pensei em fazer a pergunta que não tinha feito antes: “Você é triste?” Mas decidi reformulá-la. “Tem um lado seu que é triste?”, pergunto. “Tem, sim. Sempre aflito, sempre ansioso”, diz ele, rindo outra vez, agora de si mesmo. “Eu escuto muito Belchior, me ajuda a botar as coisas no lugar. Ele tem uma música que fala desse meu momento: Eu estou sempre em perigo/E a minha vida sempre está por um triz/Se eu vejo correr uma estrela no céu, eu digo:/Deus te guie, zelação, amanhã vou ser feliz. Se eu não tivesse a música na minha vida, eu não ia aguentar, sabia? É minha respiração, meu trabalho, mas é também onde encontro a direção das coisas.”
O filho de João Gomes nasceria em poucos meses, e esse assunto botou um sorriso em seu rosto: “Era um desejo grande. Talvez vá ser a chama que falta, o sentido real que a vida tem. Me sinto feliz pela mulher que tenho ao lado. Estou ansioso para chegar a hora de dividir minha vida com essa pessoa que não conheço. O que vai ter refletido de mim nele? Não sei. Mas o amor vai ser imenso, me sinto mais esperando por esse momento do que tudo nessa vida.”
João Gomes não ganhou o Grammy Latino em 16 de novembro passado – a vencedora foi Gaby Amarantos. Em junho deste ano, foi indicado em duas categorias do prestigioso Prêmio da Música Brasileira: Melhor Intérprete de Canção Popular e Melhor Lançamento de Canção Popular, e ganhou nesta última, pelo álbum Raiz. Mas ele não pôde comparecer à premiação no Rio de Janeiro, pois tinha uma agenda de 36 shows em festas de São João.
No dia 17 de janeiro, Jorge Gomes nasceu em Petrolina, num parto de emergência, com 48 cm e 2,4 kg. Naquela redação feita por João Gomes aos 14 anos, no ensino fundamental, ele escreveu sobre seu ideal de felicidade: “Queria terminar a redação com algo mais feliz. Só que até agora não encontrei a felicidade. Talvez ter meus pais vivos seja uma felicidade. Só que eu acho que, quando tiver meus filhos, uma mulher firmeza, uma família, eu seja feliz de verdade.”