questões vultosas
David Frum Jul 2024 12h04
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Tradução de Isa Mara Lando
Quando um louco atacou com um martelo e quase matou o marido da democrata Nancy Pelosi, então presidente da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, Donald Trump zombou da agressão violenta e debochou à vontade. Com apetite voraz, um dos filhos de Trump, além de seus apoiadores próximos, espalharam falsas alegações de que o próprio Paul Pelosi havia provocado o ataque ao se envolver numa aventura sexual que deu errado.
Quando as autoridades apreenderam um plano de extremistas de direita para sequestrar a atual governadora de Michigan, a democrata Gretchen Whitmer, Trump desdenhou a ameaça durante um comício e ainda tratou de menosprezar Whitmer. Seus apoiadores começaram a gritar: “Cadeia nela!” Trump riu e respondeu: “Cadeia para todos eles!”
O fascismo se deleita com a violência. Nos anos que se passaram desde que os trumpistas atacaram o Capitólio tentando reverter o resultado da eleição presidencial de 2020 – muitos deles ameaçando agredir Nancy Pelosi e o vice-presidente Mike Pence –, Trump sempre defendeu os invasores, que pretendiam sequestrar e assassinar seus inimigos, como se eles fossem mártires e reféns. Já prometeu inclusive perdoá-los se voltar à Casa Branca. Seus próprios assessores testemunharam a satisfação demonstrada por Trump enquanto assistia pela tevê à destruição daquele 6 de janeiro de 2021.
Agora, o derramamento de sangue que Trump tantas vezes incitou contra outras pessoas chegou até ele mesmo. A tentativa de assassinato de Trump – e a morte de uma pessoa que estava perto – causou horror e indignação. Ainda saberemos muito sobre o autor desse ato abominável, que acabou morto pelos agentes do serviço secreto. Mas, qualquer que tenha sido o seu motivo, a única coisa importante a respeito do atentado é o erro cometido pelo serviço de segurança, que permitiu que alguém portando uma arma mortífera chegasse perto de um evento da campanha presidencial e conseguisse ter uma visão livre na direção do candidato. Afora isso, o nome do atirador deve ser apagado e esquecido.
Infelizmente, não é correto dizer, como tantos já disseram, que a violência política “não tem lugar” na sociedade americana. Assassinatos, linchamentos, tumultos e pogroms mancharam cada uma das páginas da história política dos Estados Unidos. E isso continua sendo verdade até os dias de hoje. Nas eleições de 2016, e ainda mais no pleito seguinte de 2020, os apoiadores de Trump chegaram armados aos locais de votação para intimidar os opositores e os funcionários responsáveis pela contagem de votos. Agora, Trump e seus apoiadores enxergam a legitimação da violência como peça fundamental de sua mensagem política na eleição de 2024.
Os movimentos fascistas são religiões seculares. Como todas as religiões, oferecem seus mártires como prova da verdade. Na Itália, o movimento pró-Mussolini construiu monumentos imponentes em homenagem aos seus camaradas tombados. O movimento pró-Trump aperfeiçoou a ideia: o próprio líder será o mártir principal, seu próprio sangue será a base da sua aspiração ao poder e à vingança.
A eleição de 2024 já estava se apresentando como uma disputa simbólica entre dois polos: de um lado, um liberalismo idoso e enfraquecido, demasiado frágil e incerto para proteger a si mesmo, e, de outro, um movimento reacionário e autoritário pronto para arrebentar todas as barreiras e jogar no lixo todas as instituições. Até o momento, as pesquisas indicam que Trump lidera apenas uma minoria de eleitores nos Estados Unidos, mas a paixão e a audácia dessa minoria vêm compensando o que lhes falta em número. Depois do atentado, Trump e seus seguidores passaram a usar a nova iconografia – a orelha, o rosto manchado de sangue, o punho erguido, o brado “À luta!” – para convocar os indecisos para a sua causa: instalar Trump como um governante anticonstitucional, autorizado a desobedecer às leis comuns, conforme decisão de seus aliados na Suprema Corte.[1]
Outras sociedades caíram no autoritarismo devido a alguma crise extraordinária: depressão econômica, hiperinflação, derrota militar, guerra civil. Em 2024, o Exército americano não está em guerra em nenhum lugar do mundo. A economia do país está em crescimento acelerado, proporcionando uma prosperidade espetacular que abrange amplos setores da sociedade. Um breve espasmo inflacionário pós-pandemia foi superado. Os indicadores de saúde social se tornaram positivos, depois que Trump deixou o cargo, encerrando anos de deterioração durante seu mandato. Em 2024, a taxa de criminalidade está caindo, assim como os casos fatais de overdose de drogas. Os casamentos e nascimentos estão aumentando. Até os problemas confirmam, indiretamente, o sucesso do país: os migrantes estão atravessando a fronteira às centenas de milhares, porque sabem – mesmo que os americanos não saibam – que o mercado de trabalho do país é um dos mais aquecidos do planeta.
E, no entanto, apesar de todo esse sucesso, os americanos estão considerando realizar um ato de autoagressão, do tipo que em outros países normalmente se seguiu aos piores fracassos nacionais. Ou seja: estão considerando deixar o autor de um fracassado golpe de Estado voltar ao cargo, para tentar outra vez.
Uma das razões pelas quais essa autoagressão está próxima de se concretizar é que a sociedade americana está mal preparada para compreender e enfrentar desafios radicais, quando esses desafios ganham maior dimensão. Durante quase um século, “radical”, na política americana em geral, significou “marginal”: comunistas, Ku Klux Klan, Panteras Negras, o Ramo Davidiano, jihadistas islâmicos. Esses radicais podiam ser marginalizados sob o peso do grande consenso americano, que se estende dos sociais-democratas aos conservadores. Às vezes, um Joseph McCarthy ou um George Wallace davam um susto nesse poderoso consenso. Mas, no passado, esse tipo de gente raramente formava uma coalizão estável, com integrantes aceitos pela sociedade. Sempre nas franjas, sem nunca conseguir um lugar sólido e duradouro nas instituições do Estado, essas tentativas ardiam por um breve tempo e depois se extinguiam.
Trump é diferente. Seus abusos foram ratificados por poderosos grupos de eleitores. Ele conseguiu conquistar e colonizar uma das duas principais legendas do país, o Partido Republicano. Já derrotou – ou está em vias de derrotar – todas as tentativas de impeachment e todos os processos judiciais visando responsabilizá-lo por suas fraudes e seus crimes.[2] Conseguiu reunir uma massa de seguidores que é maior, mais estável e mais nacional em sua abrangência geográfica do que qualquer demagogo anterior na história dos Estados Unidos. Já faz nove anos que Trump domina a cena, e seus apoiadores, claro, esperam aproveitar o deplorável acontecimento do dia 13 de julho para prolongar a era Trump até o final de vida dele e mais além.
O sistema político e social dos Estados Unidos não pode tratar uma pessoa assim como um forasteiro, um outsider. É inevitável que venha a acomodá-lo e naturalizá-lo. Seus conselheiros, até mesmo os bandidos e criminosos, se integram ao diálogo que se trava nas altas esferas da elite americana. O presidente Joe Biden destruiu sua campanha porque se sentiu obrigado a encarar Trump em um debate.[3] Como Biden poderia fazer o contrário? Trump foi três vezes indicado candidato pelo Partido Republicano. É estranho e constrangedor tratá-lo como um insurrecionista contra o Estado americano – ainda que Trump tenha sido, e continue sendo, exatamente isso.
O desprezível tiro contra Trump, que também causou uma morte e ferimentos em outras pessoas, colocou o candidato – imerecidamente – como participante dos rituais de proteção à democracia – rituais, diga-se outra vez, que ele tanto despreza. As corretas expressões de consternação e condenação do atentado, vindas de todas as vozes mais proeminentes da vida americana, têm o efeito adicional de habituar o eleitorado à legitimidade de Trump. Diante de um evento chocante como o atentado, a prática costumeira e mais adequada consiste em enfatizar a unidade, proclamar que os americanos têm mais coisas em comum do que coisas que os dividem. São palavras que acalmam. Eram verdadeiras no passado. Agora, são menos verdadeiras do que nunca.
Parece que ninguém é capaz de dizer duas verdades ao mesmo tempo. A primeira: que nós abominamos, rejeitamos, repudiamos e punimos toda e qualquer violência política. A segunda: que o próprio Donald Trump continua promovendo essa mesma violência que abominamos, a violência que subverte as instituições americanas e é o exato oposto de tudo que há de decente e patriótico na vida americana.
Todas as verdades urgentes e necessárias agora ficam subordinadas ao ritual de invocar “nossos pensamentos e nossas orações” em favor de alguém que jamais ofereceu nenhum pensamento, nenhuma oração por qualquer vítima de seus muitos incentivos ao derramamento de sangue. O presidente que usou seu cargo para defender o direito de pessoas perigosas terem armas do tipo militar diz agora que foi atingido de raspão pela bala de um rifle de assalto.
As frases convencionais e a boa educação hipócrita preenchem uma função útil na vida social. Os americanos dizem “Obrigado pelo seu serviço” aos seus militares, quando se trata de um herói de guerra condecorado e, também, quando se trata de um veterano que mal e mal escapou de ser expulso do Exército com desonra. É mais fácil do que decifrar quem é quem. Desejamos “Feliz Ano-Novo!” mesmo quando esperamos com temor e apreensão os meses seguintes.
Mas as frases convencionais são ouvidas. Carregam significados – e significados que não deixam de ser poderosos só porque aparecem em dizeres cotidianos, mecânicos, automáticos. Ao denunciar a violência – e é correto fazê-lo –, estamos oferecendo um perdão implícito à pessoa mais violenta da política contemporânea dos Estados Unidos. Ao reafirmar a unidade – e é correto fazê-lo –, estamos absolvendo um homem que busca o poder através da humilhação e da subordinação daqueles que despreza.
As frases convencionais estão colocando Trump em um lugar na vida dos Estados Unidos que ele deveria ter perdido, sem qualquer possibilidade de redenção, naquele 6 de janeiro de 2021. Todas as pessoas decentes ficaram aliviadas ao saber que sua vida foi poupada. O acerto de contas de Trump deve ser no âmbito dos processos legais, e não por meio do derramamento de sangue, que ele tanto celebrou quando atingiu outras pessoas.
Trump e seus aliados vão explorar ao máximo a criminalidade cruel de um atirador como forma de exonerar os crimes passados e fortalecer os novos crimes. Os que estão contra Trump e seus aliados devem encontrar a vontade e as palavras corretas para explicar por que esses crimes, os passados e os planejados, são, todos eles, errados, todos eles intoleráveis – e como o atirador e Trump, embora estivessem colocados nas extremidades opostas da trajetória de uma bala, estão unidos como dois inimigos da lei e da democracia.
O artigo foi publicado originalmente na revista The Atlantic
[1] No dia 1º de julho, por 6 votos a 3, a Suprema Corte, no âmbito da ação em que Trump é acusado criminalmente pela tentativa de subverter o resultado da eleição de 2020, decidiu que um presidente dos Estados Unidos goza de “imunidade processual por todos os seus atos oficiais”, de modo que, uma vez fora do poder, não fique sujeito a acusações criminais de inimigos motivados por vingança política. Em voto contrário, escrevendo em nome da minoria derrotada, a ministra Sonia Sotomayor disse que a decisão da Corte “zomba do princípio, fundamental para a nossa Constituição e sistema de governo, de que nenhum homem está acima da lei”. E completou: “O presidente, agora, é um rei acima da lei.”
[2] Em 15 de julho, dois dias depois do atentado, uma juíza da Flórida, Aileen Cannon, nomeada para o cargo pelo próprio Trump, decidiu encerrar o processo em que o ex-presidente era acusado de reter documentos sensíveis à segurança nacional em sua propriedade em Mar-a-Lago. De todos os processos que Trump enfrenta na Justiça, esse era um dos que mais preocupavam seus advogados.
[3] Em 21 de julho, três semanas depois de seu desempenho desastroso no debate com Trump, o presidente Joe Biden cedeu às pressões dos democratas e desistiu de sua candidatura à reeleição. Para substituí-lo, Biden apoiou o nome de sua vice-presidente, Kamala Harris. A convenção do Partido Democrata, que definirá a chapa, será realizada entre os dias 19 e 22 de agosto, em Chicago.