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“MADURO NÃO VAI RECONHECER A DERROTA”

Um mês de protestos e medo
Imagem “Maduro não vai reconhecer a derrota”

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28 DE JULHO DE 2024, DOMINGO_Pela primeira vez em anos, acordei pensando nas eleições na Venezuela. Quando eu morava no país e cobria o noticiário político, costumava acordar às quatro da manhã nos dias de eleição, por causa de um costume militar que Hugo Chávez trouxe à cena política: o Toque de Diana no dia das eleições. Esse toque militar utilizado há séculos na Espanha, no alvorecer, para despertar os soldados, ganhou na Venezuela de Chávez a função de motivar as pessoas a irem votar logo cedo.

Chávez foi escolhido presidente nas eleições democráticas de 1998. Eu me lembro como se fosse hoje, apesar de, na época, nem ter idade para votar. O tenente-coronel reformado fez história ao vencer os dois partidos que dominavam a política havia quatro décadas. Para seu projeto de poder de longo prazo, Chávez recorreu a um instrumento essencial da democracia – o voto. Para ele, era importante que suas sucessivas reeleições tivessem respaldo nas urnas, pois isso disfarçava suas tendências ditatoriais e assegurava à opinião pública mundial que representava a vontade democrática da maioria dos venezuelanos. Tudo que Chávez queria fazer no país era submetido ao voto, e no princípio a maioria dos eleitores, de fato, apoiou todos os seus referendos.

Mas os anos passaram e, pouco a pouco, o sistema de freios e contrapesos desenhado para proteger a democracia na Venezuela foi sendo desarticulado. A desigualdade social se expandiu, o autoritarismo dos herdeiros do chavismo predominou. A ponto de, neste ano, um quarto de século depois da vitória histórica de Chávez, o presidente Nicolás Maduro ter impedido a principal figura da oposição de concorrer às eleições que acontecem hoje. O próprio dia de eleição foi escolhido para celebrar o culto a Chávez: 28 de julho é a data de aniversário do ex-presidente, que faria 70 anos. O apelo emocional é uma das estratégias de Maduro para impulsionar o apoio popular, que lhe falta cada vez mais.

Eu e meu melhor amigo, que também vive fora da Venezuela, começamos desde cedo a teorizar sobre o desenlace do dia de hoje (por razões de segurança, vou omitir o nome dos venezuelanos com os quais conversei ao escrever este diário). É evidente que a maioria da população do país agora está contra Maduro. Mas na Venezuela isso quer dizer pouco – ou nada. A oposição aceitou concorrer com uma desvantagem enorme: seu candidato, Edmundo González, é um diplomata aposentado de 74 anos, que os venezuelanos não conheciam bem até ser lançado na disputa presidencial. Seu nome só chegou às cédulas eleitorais depois que a candidatura de María Corina Machado, líder da oposição, foi cercada por uma série de obstáculos. Ela foi impedida até mesmo de viajar em voos comerciais, tendo que fazer a campanha unicamente por terra.

Minha aposta nas primeiras horas da manhã era que o governo Maduro acharia um jeito de cantar vitória, mesmo que perdesse. Caso houvesse uma forte abstenção, tudo ficaria mais fácil para ele. A oposição responderia que a eleição foi uma fraude e iria às ruas protestar. O governo reprimiria as manifestações e, depois de semanas de tensão, apesar do protesto de algumas vozes internacionais, a situação toda esfriaria. Maduro continuaria na Presidência e, em alguns meses, o país voltaria à mesa para negociações que levariam a… uma nova eleição.

Hoje, porém, à medida que as horas foram passando e as filas nos locais de votação não paravam de aumentar, cresceu em mim a dúvida sobre como Maduro poderia se dizer vitorioso. Com milhões de pessoas decididas a votar, a situação estava se complicando para ele.

O governo sempre garantiu que o sistema de votação venezuelano é totalmente seguro – e a oposição nunca conseguiu reunir provas de fraudes. De fato, dentro da cabine eleitoral, uma vez enviado o voto, não há como fraudá-lo. Na Venezuela, a tramoia não ocorre manipulando os votos depois que foram depositados nas urnas, mas antes. Graças aos recursos oficiais, o governo consegue mobilizar uma parte da população a seu favor, amedrontar outra para não ir votar ou votar nele, além de comprar votos e limitar o voto de seus oponentes, como impedir a participação nas eleições dos milhões de venezuelanos que vivem fora do país (segundo estimativas, 6 milhões, provavelmente contrários a Maduro).

Uma das minhas ex-cunhadas viveu uma situação tensa na cidade de Valencia na hora de votar. Ela foi com seu marido à zona eleitoral logo pela manhã, e cada um seguiu para a sua fila, porque eles votavam em seções diferentes. A fila em que ele estava começou a andar, embora lentamente, mas a dela permanecia parada. Ninguém dava explicações sobre o que estava acontecendo. Seu marido conseguiu votar por volta das 11 horas, enquanto ela continuava na mesma posição na fila. “As pessoas reclamavam, e a única resposta que recebemos foi que tinha ocorrido um problema técnico na máquina”, ela me contou. “Mas ninguém queria ir embora, todos suspeitávamos que era outra armadilha do governo para não deixar a gente votar. Passamos fome e sede, mas aguardamos. Eu queria votar, todos queríamos votar.”

Infelizmente, ela não conseguiu. “Eles simplesmente lavaram as mãos, colocando a culpa na máquina, mas ninguém me tira da cabeça que estavam mentindo.” Foi a primeira vez que minha ex-cunhada, apoiadora de Chávez no passado, não votou numa eleição.

Eu acompanhava sem parar as notícias, me perguntando que tipo de estratégia o governo usaria para enfrentar a multidão de eleitores que conseguiram votar, uma vez que na matemática de Maduro e de seu Conselho Nacional Eleitoral (CNE) não existe a palavra “derrota”.

Logo depois que a votação foi encerrada, a oposição começou a dizer que seus fiscais estavam sendo impedidos de entrar nos principais centros de apuração dos votos em Caracas. A tensão aumentou, com pessoas descendo das favelas para protestar – as mesmas favelas que no passado carregaram Chávez nos ombros. No exterior, os protestos começaram a pipocar em frente às embaixadas da Venezuela.

Enquanto isso, o CNE permanecia em silêncio, o que não era um bom sinal. “Devem estar pensando em alguma falcatrua”, disse uma amiga que mora em Maracaibo, minha cidade natal, a única de quatro irmãos que permanece no país. Ela contou que teve de esperar horas em seu local de votação. “Queriam que a gente fosse embora, mas não fomos. Dessa vez, são eles que têm que ir embora”, disse ela, na nossa conversa por telefone.

Finalmente houve uma movimentação na sede do CNE. “Já estão saindo para anunciar o resultado”, me escreveu outra amiga, de Caracas, pouco depois da meia-­noite, por WhatsApp. “Já estão indo”, também disse meu melhor amigo, que hoje vive em Buenos Aires e assistia a tudo na tevê. Em Los Angeles, onde eu moro e trabalho, eram nove da noite, e de repente apareceram na tela do computador os rostos dos membros do CNE: nada em suas expressões faciais indicava derrota.

O presidente do CNE, Elvis Amoroso, anunciou: Maduro estava reeleito pela terceira vez, com 51,2% dos votos. Amigo do presidente e seu antigo companheiro no Congresso, Amoroso aproveitou para contar que um hacker tinha atacado o sistema de votação e que, por isso, o CNE havia demorado para divulgar o resultado eleitoral. Só estavam disponíveis 80% das atas.

O site do CNE, que permitiria verificar essas atas, logo saiu do ar.

29 DE JULHO, SEGUNDA-FEIRA_No início da madrugada, Maduro apareceu em um pódio instalado no Palácio de Miraflores, sede da Presidência, para comemorar sua propalada vitória. Estranhamente, em seu discurso, sempre naquele tom antiquado da retórica revolucionária, falou que estava com “a consciência limpa e tranquila”.

María Corina Machado, acompanhada por Edmundo González, usou seu tempo na tevê para contradizer o cne. Anunciou que sua enorme rede de fiscais havia guardado cópia de mais de 40% das atas eleitorais, que indicavam outro resultado: González, ele sim, havia ganhado a eleição, com 70% dos votos. Machado falou de maneira clara, serena e não deslegitimou o sistema eleitoral, como outros opositores em eleições anteriores. Disse apenas que o anúncio do CNE não tinha fundamento e que estava errado.

Caracas amanheceu com panelaços. O protesto vinha das comunidades populares, continuava nos bairros de classe média. Enquanto isso, relatos de jornalistas estrangeiros na Venezuela começaram a circular na internet. Amoroso anunciou uma investigação para esclarecer o suposto ataque hacker, que, segundo ele, vinha da distante Macedônia do Norte, nos Bálcãs, mas fora encomendado ali mesmo, na Venezuela, por Machado e outros opositores.

Em várias cidades venezuelanas, estátuas de Hugo Chávez começaram a ser derrubadas. A repressão não demorou a chegar, causando a primeira morte, em Maracay, cidade a cerca de 120 km da capital. À noite, Machado e González deram outra entrevista coletiva e disseram que tinham o resultado de 73% das atas eleitorais do país, mesa por mesa.

O voto na Venezuela não é obrigatório e funciona assim: o eleitor vai até o local de votação em que está cadastrado, apresenta a cédula de identidade e tem sua digital conferida em um aparelho de scanner. Na cabine de votação, ele tecla em seu candidato em um terminal, onde o voto é impresso e depositado em papel numa urna a ser encaminhada para uma contagem adicional (além da contagem eletrônica, feita no local). Assim que a votação é encerrada, é impressa uma ata em cada seção eleitoral com o total dos votos de cada candidato. Os fiscais dos partidos, que estão por perto para conferir todo o processo, recebem uma cópia dessa ata com um único QR Code e a assinam, confirmando o resultado da votação naquela seção eleitoral. Então, todas as máquinas que registraram os votos são conectadas a uma rede fechada e transmitem os resultados para o CNE, que emite o resultado final do pleito.

Graças à posse das atas, Machado e González puderam questionar o anúncio do CNE. Essas mesmas atas foram disponibilizadas num site da oposição e indicavam que González obtivera 6,3 milhões de votos, bem mais que Maduro, com apenas 2,7 milhões. Foi essa informação que levou alguns governos a não reconhecerem o resultado divulgado pelo CNE. Imediatamente, Maduro rompeu relações com sete países – entre eles, a Argentina e o Chile ­–, expulsando seus embaixadores da Venezuela. Outros governos, como o brasileiro, estão até agora condicionando o reconhecimento do resultado à apresentação das atas pelo órgão eleitoral venezuelano.

A União Europeia emitiu um comunicado pedindo “máxima transparência” na apuração dos resultados. “A UE reconhece o empenho da oposição no processo eleitoral, apesar das condições de concorrência desiguais. A vontade do povo da Venezuela tem de ser respeitada”, diz o texto assinado pelo alto representante do bloco de 27 países, Josep Borrell. “Os resultados das eleições não foram verificados e não podem ser considerados representativos da vontade do povo da Venezuela até que todos os registros oficiais das assembleias de voto sejam publicados e verificados.”

A página do CNE na internet continua fora do ar.

30 DE JULHO, TERÇA-FEIRA_Algumas das grandes avenidas de Caracas amanheceram com pouco trânsito para um dia de semana, me contou um amigo que saiu de casa bem cedo. “Parece 1º de Janeiro”, ele disse. O vazio nas ruas é por causa da dura repressão desencadeada por Maduro. Até políticos já foram detidos. Circula na internet um vídeo em que se veem pessoas vestidas de preto prendendo Freddy Superlano, coordenador do partido Vontade Popular, que faz parte da coalizão que apoia González e Machado. O Sindicato Nacional de Trabalhadores da Imprensa fala em três jornalistas presos, ataques e ameaças. O site da ONG Foro Penal contou seis mortos nos mais de duzentos protestos que já sacudiram o país. O próprio governo declarou que há mais de setecentos presos – e prometeu endurecer contra os manifestantes.

Ao ficar sabendo que houve uma forte repressão aos protestos ocorridos em San Antonio de Los Altos, onde fica a minha zona eleitoral, escrevi para um conhecido, vizinho dessa pequena cidade na Região Metropolitana de Caracas. “Foi brutal”, ele me relatou. “Levaram muita gente presa.”

A oposição criou um novo site para publicar as cópias das atas eleitorais em seu poder. Graças a isso, fiquei sabendo que na mesa em que eu votaria em San Antonio de Los Altos, González derrotou Maduro, com 443 votos contra 95. O site também permite que as pessoas que participaram como fiscais ou integrantes das mesas de votação possam conferir se a ata publicada é igual à que eles fotografaram no dia da eleição – o que possibilita dar mais legitimidade aos documentos da oposição.

Até hoje, especulava-se que as Forças Armadas poderiam se dividir depois do resultado da eleição. Pelo jeito, era apenas wishful thinking, como dizem os americanos. Esse pensamento otimista caiu hoje por terra depois que o ministro da Defesa, Vladimir Padrino, fez um pronunciamento para apoiar Maduro e disse que está havendo um “golpe de Estado midiático” contra o governo.

Enquanto isso, o site do CNE continua fora do ar.

31 DE JULHO, QUARTA-FEIRA_Como anunciado, a repressão se intensificou hoje. A Embaixada da Argentina em Caracas, onde se refugiaram manifestantes e políticos venezuelanos, amanheceu rodeada de viaturas policiais. O governo e a polícia política criaram aplicativos para que as pessoas denunciem quem está envolvido nos protestos. Calcula-se que mais mil manifestantes foram presos, mas os protestos não param.

Maduro agora acusa os manifestantes de serem pagos para protestar e se fingirem de morto nas ruas. “É o cúmulo”, me disse uma das minhas primas em San Cristóbal. “Eles são os donos do país e não há como tirá-los daqui, nem pelo voto, nem pela força.” Ela ficou com medo de ir às manifestações. “Não quero ser detida nem receber uma bala.” Um de seus vizinhos sumiu depois que saiu para protestar. Começam a circular em redes sociais vídeos de pessoas que, identificadas por vizinhos como fiscais da oposição nos locais de votação, estão sendo levadas presas pelas forças do governo.

Numa estranha tentativa de legitimar o resultado anunciado pelo CNE, Maduro – que precisava dessa vitória para melhorar sua imagem internacional – pediu ao Supremo Tribunal de Justiça uma auditoria das eleições, tarefa que, porém, não compete a essa instituição. Em meio aos protestos e críticas, Maduro apareceu na tevê pedindo um ato de fé e lendo a Bíblia: “Bem-aventurados os que não viram e creram.”

As atas eleitorais continuam a chegar ao site da oposição, que agora conta com 81,2% delas. O resultado ali foi atualizado: González tem 7,1 milhões de votos, e Maduro, 3,2 milhões.

O site do CNE continua fora do ar.

1º DE AGOSTO, QUINTA-FEIRA_O número de mortos subiu para dezessete. Os meios de comunicação não alinhados com o governo estão sob censura. “Nem no rádio você consegue ouvir um programa ao vivo”, me disse uma amiga em Caracas. Num artigo para o Wall Street Journal, María Corina Machado disse estar escondida, por medo de represália do governo, e pediu à comunidade internacional que pressione Maduro para fazer uma transição pacífica do poder.

Machado é perseverante. Filha de uma família da classe alta de Caracas, estudou nos Estados Unidos na juventude e depois se formou engenheira na Venezuela. Trabalhou numa empresa do setor do aço, de sua família, e criou uma organização para ajudar crianças carentes. A empresa foi desapropriada pela revolução chavista, que também fechou as portas da organização social. Em 2002, Machado despontou para a política como uma das fundadoras da organização Súmate, dedicada a observar os processos eleitorais. Seu primeiro grande confronto com o governo ocorreu quando a Súmate ajudou a mobilizar o país em um referendo destinado a saber se Chávez deveria ou não continuar no poder. O presidente venceu o referendo em 2004. Seis anos depois, Machado foi eleita deputada e teve um enfrentamento cara a cara com Chávez, quando o convidou para um debate público. Chávez se esquivou, dizendo que Machado não tinha estatura para debater com ele: “Águia não caça moscas, deputada”, afirmou.

Machado seguiu depois uma trajetória errática. Tentou as primárias para ser candidata da oposição a presidente da República, mas perdeu. Conclamou os venezuelanos para uma insurreição, que nunca ocorreu. Chegou a pedir uma intervenção militar internacional na Venezuela, que não houve. Mas a sua tenacidade lhe deu uma base de seguidores que passaram a vê-la como uma figura essencial para mudar o rumo do país. Em 2023, Machado venceu as primárias da oposição para as eleições presidenciais ocorridas neste ano, mas foi impedida pela Justiça de concorrer a cargos públicos por quinze anos, acusada de corrupção. Nem assim desistiu. “Ela é realmente muito corajosa. Se algo acontecer com ela, o país vai enlouquecer”, disse uma amiga que mora em Guarenas, na periferia de Caracas.

Num pronunciamento na tevê, Maduro mostra vários dos detidos pelas manifestações sendo forçados a fazer uma saudação ao falecido Chávez. Depois anuncia que os enviará a uma prisão de segurança máxima.

Com a ruptura entre Argentina e Venezuela, o Brasil passou a representar diplomaticamente os argentinos em Caracas. Encarregou-se também de cuidar da embaixada argentina, onde estão refugiados vários opositores de Maduro. Os presidentes Lula, Andrés Manuel López Obrador, do México, e Gustavo Petro, da Colômbia, emitiram um comunicado conjunto pedindo a divulgação dos resultados oficiais, mesa por mesa, para uma “verificação imparcial”.

Mas o site do CNE continua fora do ar.

3 DE AGOSTO, SÁBADO_Milhares de venezuelanos foram às ruas dentro e fora do país para protestar contra a recusa do governo em aceitar o que eles consideram o legítimo resultado eleitoral e exigir que o CNE apresente as atas de votação, mesa por mesa.

Um rapaz de 32 anos que mora em Caracas ficou em dúvida se deveria ir ao protesto. “Eu estava com esperanças, pelo que tínhamos conseguido, mas fiquei assustado com a repressão. Foi difícil decidir. A gente pensa na família, nos amigos, eu não quero prejudicar ninguém”, ele me disse. A maior parte de sua vida transcorreu sob o chavismo. “No final, decidi ir ao protesto de hoje. Achei que tinha que ir, porque, emocionalmente, precisava sentir que não estava sozinho.” Antes, porém, ele se mudou da casa de sua família, para não comprometê-la, deletou todas as informações pessoais do celular e calculou como agir caso fosse detido. Foi para o ponto de concentração do protesto apenas com o telefone “vazio” e a carteira de identidade. O dia terminou mais ou menos bem para ele: não foi detido. Entretanto, não poderá voltar tão cedo para junto de sua família.

O site de CNE continua fora do ar.

4 DE AGOSTO, DOMINGO_ O número de mortos nas manifestações já passa de vinte. Aconteceram novas detenções de jornalistas, inclusive estrangeiros. Alguns deles foram expulsos do país. Roland Carreño, um jornalista muito conhecido e que já tinha sido preso pelo governo, foi detido em Caracas. O site do Wall Street Journal, que publicou o artigo de Machado, está bloqueado em vários dos provedores de internet do país.

Com o aumento das detenções e as pressões das forças de segurança, alguns venezuelanos passaram a fazer uso da ferramenta do WhatsApp que deleta as mensagens de maneira automática. “A gente pode ser preso só por causa de algumas mensagens no WhatsApp”, me disse um amigo que vive em Caracas. Com isso, as conversas por essa plataforma diminuíram bastante.

Um coletivo de 51 ONGs venezuelanas pede transparência ao CNE e questiona a não divulgação das atas eleitorais. O site que a oposição criou para divulgar o resultado das eleições foi atualizado com 83,5% das atas, que indicam a vitória de González com 67% dos votos (7,3 milhões), enquanto Maduro chega a 30% (3,3 milhões).

O site do CNE continua fora do ar.

5 DE AGOSTO, SEGUNDA-FEIRA_Passam de 2 mil os detidos nos oito dias desde as eleições, segundo o procurador-geral da Venezuela, Tarek William Saab. Ele diz que muitos serão acusados de terrorismo. O governo anuncia que está de olho nas redes sociais, como Instagram e TikTok, que Maduro chama de “multiplicadores do ódio”. Ele está pedindo aos venezuelanos que deletem o WhatsApp e passem a utilizar o Telegram ou o chinês WeChat.

O controle das comunicações no país é tal que não é fácil conversar sobre a situação política com venezuelanos, que, além de tudo, temem a repressão. “Fico muito assustada”, disse minha amiga de Guarenas, que viu uma das suas vizinhas ser detida no fim de semana. “Não sei o que ela fez, não sei nem se ela fez algo, porque a gente evita conversar sobre política.”

O Brasil assumiu formalmente o cuidado da Embaixada do Peru, depois que Lima também rompeu relações diplomáticas com a Venezuela. Enquanto isso, Machado e González fazem um novo chamado aos militares e à polícia venezuelana para darem fim à repressão e às detenções. A resposta? Uma investigação penal da parte da Procuradoria-Geral.

O site do CNE continua fora do ar.

6 DE AGOSTO, TERÇA-FEIRA_ONGs venezuelanas afirmam que há pelo menos 91 adolescentes na lista de detidos nos protestos. O país entrou num torvelinho diário de protestos, detenções, mortos, violações dos direitos humanos, ataques à imprensa. “Não sei em que vai dar isso tudo”, disse uma das minhas primas em San Cristóbal. “Às vezes, sinto que vamos conseguir, outras que não.”

Minha família, o que resta dela na Venezuela, é contrária ao governo, com exceção de uma tia, que me disse por telefone: “Isso aí é vontade de tumultuar.” Convencida que Maduro venceu a eleição, ela vê os protestos e o pedido de divulgação das atas como mais uma tentativa da oposição de não reconhecer um governo legítimo. Minha tia tem 80 anos e é a prova de que o governo ainda tem um tanto de respaldo no país.

Há também pessoas que, por trabalhar em instituições governamentais ou nos ministérios, sentem-se obrigadas a comparecer às manifestações de Maduro. “Sempre vou, porque não quero arriscar meu trabalho. Não tenho como ir embora do país, tenho uma filha adolescente para cuidar, contas a pagar, não posso arriscar”, me disse uma amiga que trabalha em um ministério. Uma das mágoas de minha amiga é não ter tido mais filhos, por causa da dura situação econômica e social do país. Ela votou em González, mas conta que na sua repartição várias pessoas, por medo, votaram em Maduro.

O presidente do CNE, Elvis Amoroso, levou as supostas atas eleitorais à Corte Suprema, mas não as divulgou publicamente.

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8 DE AGOSTO, QUINTA-FEIRA_A ONG Provea elevou para 24 o número de mortos. O próprio Partido Comunista da Venezuela, que chegou a ser aliado de Chávez e Maduro, denuncia a “política de terror” instaurada pelo governo após as eleições. Quatro jornalistas foram acusados de “terrorismo” pela Justiça, sem direito a defesa, segundo o Sindicato Nacional de Trabalhadores da Imprensa. Williams Dávila Barrios, um conhecido integrante do partido Ação Democrática, foi detido por pessoas armadas, sem identificação, em Caracas.

Alguns venezuelanos colocam suas esperanças nas possíveis negociações empreendidas pelos governos de Lula, do colombiano Gustavo Petro e do mexicano López Obrador. Mas há também ceticismo, pois na Venezuela é senso comum que a política exterior é um jogo entre amigos e que Lula foi um dos apoiadores de Chávez no passado. “Estou achando bom que Brasil, Colômbia e México continuem em diálogo com a Venezuela, porque pela força a gente não sai dessa. Maduro não vai reconhecer a derrota”, me disse um colega que trabalha em Caracas. “Talvez o único jeito seja negociar, talvez esses países ofereçam algum tipo de alternativa para Maduro aceitar uma transição.”

O Centro Carter, entidade internacional que reuniu observadores na eleição de 28 de julho, concluiu que, conforme as evidências analisadas, Edmundo González venceu a eleição com 60% dos votos e que não há indícios de ataque hacker ao sistema do CNE. A resposta do governo? Acusou o Centro Carter de apoiar um golpe de Estado.

Em meio à troca de insultos com Elon Musk, o governo venezuelano mandou tirar do ar durante dez dias a rede social X, muito utilizada na Venezuela para comunicações em geral, difusão de informações e denúncias.

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9 DE AGOSTO, SEXTA-FEIRA_María Corina Machado ofereceu garantias a Maduro para uma transição de governo, mas o presidente respondeu que a única negociação possível é ela “se entregar à Justiça”. A oposição insiste na transição, pede a liberação dos detidos e promete novas mobilizações dentro e fora do país.

Várias pessoas contam que seus passaportes estão sendo anulados pelo Saime, o departamento de migração da Venezuela. “Escutei que alguns tiveram o passaporte anulado e fui checar o meu. Estava anulado”, me contou uma amiga que vive em Maracaibo. Ela suspeita que isso ocorreu porque trabalha numa revista digital recém-lançada. Anular o passaporte deixa os venezuelanos em uma situação de vulnerabilidade enorme, porque mesmo quem tem dupla nacionalidade fica impedido de sair do país. Eu, que levei alguns anos para poder renovar meu passaporte venezuelano e não visito o país desde 2019, fiquei também curiosa e fui verificar meu documento no portal do Saime. “Vigente” – estava escrito.

O site do CNE continua fora do ar.

28 DE AGOSTO, QUARTA-FEIRA_Um mês se passou desde que os venezuelanos foram às urnas. Milhares de manifestantes continuam a exigir que o CNE apresente os resultados detalhados, mesa por mesa, das eleições. Estima-se que 27 venezuelanos morreram nos protestos, inclusive dois militares. Foram feridas 200 pessoas e há mais de 1 780 detidas, entre elas, 100 menores de idade.

Dias atrás, Maduro pediu a prisão de Machado e González – que só têm feito aparições públicas esporádicas, por receio de ataques. Mais isolado do que nunca, o presidente tem confrontado os líderes da América Latina e da União Europeia, que pedem a divulgação das atas eleitorais.

O que mais me surpreendeu nesse mês tenso foi o otimismo das pessoas. Minha ex-cunhada tem certeza de que nas próximas eleições não será impedida de votar. “Isso tem que acabar”, me disse. Em Caracas, o jovem manifestante que se afastou de sua família para não colocá-la em risco participou hoje de uma nova manifestação na capital. “Podemos estar tristes no momento, mas temos que seguir nas ruas exigindo o que sabemos ser a verdade das urnas no 28 de julho”, ele me disse. “Não sei se em breve ou daqui a um ano, mas é certo que vamos recuperar a liberdade na Venezuela.”

O site do CNE continua fora do ar.

30 DE AGOSTO, SEXTA-FEIRA_Hoje a Venezuela amanheceu sem luz. O apagão atinge total ou parcialmente todos os estados do país.

Pela primeira vez, o CNE tem uma desculpa plausível para continuar com seu site fora do ar.


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Jornalista venezuelana, é correspondente da AFP em Los Angeles e autora de Mãe pátria: a desintegração de uma família na Venezuela em colapso (Companhia das Letras)