anais do crime
Thallys Braga Set 2024 15h22
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Reportagem atualizada em 17 de setembro de 2024
Em fevereiro de 2023, viralizou nas redes sociais um vídeo em que o primeiro-sargento Claudio Gouveia, da Polícia Militar de Salto, no interior de São Paulo, aborda educadamente um motoqueiro. Nas imagens, o policial explica que está havendo uma operação destinada a garantir a segurança das rodovias paulistas: “Desce um pouquinho, põe [a moto] no pezinho, apresenta para a gente o documento do senhor.”[1] A cena rendeu alguma fama ao sargento, além do título de “policial exemplar”. Para seus colegas de farda, fazia sentido. Gouveia era um policial sensível, compartilhava alegrias e angústias com os companheiros de trabalho e tinha um aguçado senso de humor.
Em maio de 2018, quando ainda era segundo-sargento, Gouveia atendeu a uma ocorrência de estupro, cuja vítima era uma menina de 13 anos. Ciente da sensibilidade do caso, passou horas conversando com a família da vítima para tentar identificar o agressor. Gouveia empenhou-se em localizá-lo, e conseguiu. Era um vizinho, que assumiu o crime e foi preso. Na mesma época, Gouveia foi chamado para socorrer uma vítima de esfaqueamento, que acabou morrendo. De novo, fez de tudo para achar o criminoso e prendê-lo. Também conseguiu. Sucessos como esses acabaram rendendo a ele uma Láurea de Mérito Pessoal, a primeira distinção da sua carreira.
Em julho de 2020, Gouveia foi promovido a primeiro-sargento. Para comemorar, saiu com a mulher para jantar no restaurante favorito dos filhos. Sua carreira seguia de vento em popa. Em janeiro de 2023, num único dia, o capitão Josias Justi, chefe da PM de Salto, registrou de uma só vez três elogios ao registro militar de Gouveia – “por seu desempenho e dedicação, o policial é um exemplo a ser seguido por seus pares e subordinados”, escreveu o capitão. Em março, o chefe acrescentou novo elogio à ficha do sargento. Em abril, mais um. Gouveia queria ser alçado a subtenente e, com seus bons exemplos, mostrava estar no caminho certo para chegar lá.
Um mês depois do registro do último elogio, na manhã do dia 15 de maio, uma segunda-feira, Gouveia, 52 anos de idade e 32 de carreira, pegou um fuzil de calibre 5.56, o único disponível na companhia de Salto, se dirigiu à sala do capitão Josias Justi, abriu a porta e disparou treze tiros. Nove atingiram o capitão na cabeça, no tórax, nas costas, no braço e na perna direita. O capitão morreu na hora. Outros quatro tiros acertaram o sargento Roberto da Silva, três no tórax e um no braço esquerdo. O sargento também morreu na hora.
A cidade de Salto fica na Região Metropolitana de Sorocaba, a uma hora e meia de carro de São Paulo num dia de trânsito tranquilo. Em certos aspectos, se assemelha a qualquer cidade brasileira pequena ou média. Boa parte dos 134 mil moradores trabalha nas indústrias que margeiam as rodovias e gasta seu dinheiro no comércio local – mercadinhos, hortifrútis, farmácias, creches, dentistas, lojas de móveis. A diferença é o sossego nas ruas, com poucos transeuntes, e nas praças, quase sempre vazias. À primeira vista, a sensação de esvaziamento é tão viva que fica difícil imaginar para quem são vendidos todos os chuveiros elétricos das lojas de construção do Centro da cidade.
O Dia das Mães do ano passado, que caiu em 14 de maio, foi uma amostra do clima plácido em que trabalham os policiais militares de Salto. Não houve nenhuma ocorrência grave e, no começo da noite, os três sargentos escalados para o serviço dominical – Leandro Barbosa, Alex Barreto e Roberto da Silva – repousavam no alojamento da 3ª Companhia do 50º Batalhão de Polícia Militar do Interior (BPMI). Conversavam banalidades, até Barbosa dizer que estava preocupado com a segurança da equipe. Na terça-feira anterior, dia 9 de maio, Barbosa havia passado quatro horas tentando acalmar a cabo Camila Gouveia, de 32 anos, casada com o primeiro-sargento Gouveia. Durante uma tarde de ronda pela cidade, Camila (como ela é chamada na PM) reclamou que a escala de serviço proposta pelo capitão Justi estava prejudicando sua vida pessoal, e por isso ela o mataria.
Os outros policiais entenderam a declaração como um blefe ou desabafo, mas Barbosa achou prudente comunicá-la à chefia. Na sexta-feira, dia 12, o capitão Justi, que já vinha tendo dores de cabeça com Camila, decidiu então recolher a arma da policial e a encaminhou para o Centro de Atenção Psicossocial. Camila reagiu à notícia dando dois socos contra uma pilastra. Levada ao hospital, saiu com a mão direita engessada. A situação piorou quando Camila descobriu que o seu revólver, recolhido mais cedo, havia sido entregue ao marido. De saída do hospital, ela dirigiu até o trabalho, pois não queria voltar para casa sem a arma. Quando chegou à Companhia, se trancou num alojamento e os policiais a ouviram gritar no telefone com alguém que parecia ser o seu marido. Não se passou muito tempo e Gouveia apareceu na Companhia com o revólver da sua mulher em mãos.
Dois colegas alertaram Gouveia para não entregar a arma para Camila. Ele respondeu que conhecia sua mulher e sabia que ela se acalmaria. Em seguida, ao entregar o revólver, pediu que Camila entrasse em sua caminhonete. Ela disse que queria voltar para casa sozinha, de bicicleta. O casal seguiu caminhos distintos.
Então, naquela noite do Dia das Mães, o sargento Leandro Barbosa temia que, a qualquer momento, Camila entrasse na Companhia com o revólver em punho e atirasse no capitão ou em qualquer outra pessoa que estivesse à sua frente. Mais tarde, ele observaria: “Conheço a Camila há seis anos e ela sempre foi insubordinada e rebelde com o comando. Não sei por que nunca foi penalizada. Se eu fosse o chefe, com certeza a teria penalizado.”
Mas, ao contrário dos receios de Barbosa, a noite transcorreu com tranquilidade. Na segunda-feira de manhã, com Sol pálido e vento frio, Gouveia chegou à Companhia faltando 15 minutos para as 9 horas. Estava fardado, mas a esposa, que também desceu do carro, estava à paisana. Camila tinha ido apenas buscar os documentos para regularizar o afastamento médico do trabalho. Depois de retirar a papelada na administração, ela se despediu dos colegas que chegavam para o expediente e tomou a estrada rumo à Unidade de Saúde Integrada da PM de Votorantim. O filho caçula, um bebê de 11 meses, foi a sua companhia no trajeto de 50 km pela Rodovia Santos Dumont.
Naquela manhã, o fuzil 5.56 estava sob os cuidados do sargento Alex Barreto, cuja viatura estacionou na companhia às 9h20. Antes que Barreto saísse do carro, o sargento Claudio Gouveia o abordou e pediu a arma emprestada, dizendo que naquele dia faria muitas operações na rua. Barreto disse que emprestaria, mas pediu que Gouveia pegasse o fuzil mais tarde, quando estivesse saindo para a patrulha.
O capitão Justi, o chefe, chegou em seguida e convocou os sargentos Alex Barreto e Roberto da Silva para conversar na sua sala. Quis saber o que tinha acontecido depois do afastamento de Camila na sexta-feira anterior. Soube então que ela acabara engessando a mão. Em tom preocupado, disse: “Vou ter que conversar com ela.” Enquanto isso, alguns jovens policiais foram para o pátio externo aguardar a instrução de uso de arma longa que Gouveia ministraria. A certa altura, Gouveia entrou na administração da Companhia e pediu que todos os policiais fossem ao pátio. Os colegas ficaram confusos, já que nem todos fariam o treinamento. Quando um cabo sinalizou que não sairia, Gouveia gritou: “Vai lá pra fora, caramba!”, e, para tranquilizá-lo, enfatizou: “Não é nada com você.”
O grupo que se formou na área externa viu Gouveia se aproximando da entrada principal da Companhia, mas estranharam ao vê-lo se trancar do lado de dentro da porta gradeada. Ficou em posição de sentido, bateu continência para os colegas e se virou, vasculhando o interior do prédio com o fuzil em posição de tiro. Caminhou rumo à sala do capitão Justi. Queria, segundo contou depois, conversar sobre o que havia ocorrido com sua mulher na sexta-feira. “Mas, quando cheguei perto da porta, ouvi o capitão falando o nome da Camila.” Ele ficou nervoso. Abriu a porta e disparou os tiros de fuzil contra o capitão Justi e o sargento Roberto da Silva.
Assim que os tiros começaram, o sargento Alex Barreto, que estava na sala, encolheu-se e berrou. Então, Gouveia começou a gritar: “Vocês vão ter que me ouvir.” Quando os estampidos cessaram, Barreto levantou o rosto e viu os corpos do capitão e do sargento estirados no chão, enquanto o atirador retomava seu estado de normalidade. “Você não tem nada a ver com isso, não vou atirar em você”, avisou Gouveia. “Vou precisar de um negociador. Pode ser você?” Barreto assentiu ao pedido. Quando os dois saíram da sala, Barreto correu rumo à saída da Companhia, e Gouveia subiu para o segundo andar, onde encontrou o cabo Márcio da Silva.
– Sargento, por que isso? O que está acontecendo? – perguntou Silva, assustado, segundo rememorou em seu depoimento.
– Márcio, cadê a sua arma? – perguntou Gouveia.
– Sargento, não vou te dar a minha arma. Vamos conversar, a gente é amigo.
– Márcio, me dá sua arma – insistiu Gouveia.
– Sargento, vamos conversar…
Gouveia, então, mudou de assunto abruptamente e perguntou:
– Eu preciso de um intermediador. Você pode ser meu intermediador?
– Posso – concordou Silva.
– Então vem comigo.
Gouveia levou Silva até uma sala da administração e ordenou que ele chamasse o comandante-geral do 50º Batalhão de Polícia Militar do Interior, Emerson Drague. Também pediu para chamar os jornalistas, pois queria falar à imprensa sobre o crime que acabara de cometer. Calmo, explicou: “Eu só quero ser ouvido.” E logo fez outra exigência: “Eu quero que você faça uma live para mim, Márcio.” O cabo Silva disse que estava sem o celular. Gouveia ordenou que fosse buscá-lo. Quando Silva voltou com o aparelho em mãos, viu que Gouveia havia se rendido e fora algemado por outro agente. O cabo perguntou por que o sargento cometeu os crimes, então Gouveia se justificou: “O capitão Josias era uma pessoa má. E o sargento Silva influenciava o capitão, era ele que montava as escalas.”
Na Unidade de Saúde em Votorantim, um policial abordou Camila para avisá-la do crime cometido pelo seu marido. Em lágrimas, com seu bebê no colo, ela ligou para um advogado cujo número havia encontrado na internet uma semana antes. O criminalista Rogério Augusto Duarte, de Campinas, pegou imediatamente a estrada para Salto. Ao chegar, cerca de uma hora depois, encontrou Gouveia algemado no pátio da Companhia e assumiu a defesa do sargento ali mesmo.
Em um vídeo gravado pouco antes da chegada do advogado, Gouveia explicou a motivação dos assassinatos. Com seu rosto oval, testa franzida, disse: “Quando ele [o capitão Justi] me trocou de escala, mexeu na nossa vida […]. Eu implorei, expliquei a situação, mas ficou por isso mesmo.” Gouveia enumerou uma série de problemas que teve com o capitão e concluiu: “Estou estressado com isso, não aguento mais. Não estou dormindo, o meu casamento acabou. Eu abri aquela porta para dar o pagamento que ele merece, é só isso. Ele não deveria ter destruído a minha vida. […] Se alguém quiser ouvir, esse é o depoimento.”
Exibidos em primeira mão pelo Fantástico, fragmentos do vídeo também foram reproduzidos pela Folha de S.Paulo e pelo g-1. As notícias do crime, além do choque natural, provocaram um espanto duplo. Dois assassinatos em Salto? Logo na cidade que registrou apenas quatro homicídios por 100 mil habitantes em 2022, uma taxa que rivaliza com a Finlândia? E o autor dos crimes é o sargento Gouveia? O policial exemplar?
O pai do sargento Claudio Henrique Frare Gouveia passou a maior parte da vida trabalhando numa lavoura no Oeste do Paraná. Analfabeto, dizia aos filhos que seu sonho era ter ingressado no Exército ou na polícia, e costumava presenteá-los com viaturas e distintivos de brinquedo. A família se mudou para Araçatuba, no interior paulista, e o jovem Gouveia arranjou emprego numa locadora de vídeos. Criou gosto por filmes americanos sobre patinadores e quis ser patinador profissional. No começo da vida adulta, mudou de ideia e decidiu honrar o sonho do pai. Com 21 anos e o segundo grau incompleto, Gouveia tornou-se soldado do Comando de Policiamento de Araçatuba.
Sua primeira mulher, Liliane Fabri Ribeiro, o conheceu nessa época. “Ele era uma pessoa como outra qualquer”, disse Ribeiro à piauí. “Cheio de sonhos e vontade de crescer na vida.” O primeiro filho do casal nasceu em 1994. Um ano depois, Gouveia foi aprovado no concurso para cabo da PM de São Paulo. Os anos iniciais na corporação foram exaustivos, mas ele arranjou tempo para dar aulas de patinação ao filho e aos sobrinhos. Sua ideia era ensiná-los a se equilibrar sobre os patins para depois introduzi-los no hóquei em linha, modalidade do esporte olímpico jogada fora do gelo. As aulas de patinação aconteciam numa quadra pública e atraíram a atenção de jovens de Araçatuba. Quando Gouveia se deu conta, estava coordenando uma escolinha de hóquei em linha com sessenta alunos.
Seu comportamento como policial só foi questionado uma vez, em 2004, quando o seu então chefe abriu um processo disciplinar por desrespeito à autoridade. A sindicância acabou arquivada, mas causou um desgaste na relação de Gouveia com a chefia. Ele então pediu transferência para outro batalhão, ainda em Araçatuba. Em casa, as coisas também começaram a sair dos eixos. O casamento estava ruindo, Gouveia se apaixonou por outra mulher e a engravidou. Pouco antes do nascimento do bebê, o policial foi morar com a nova companheira, Cibele Sakae. Em 2006, formalizou o casamento com ela.
Depois do nascimento do filho, Sakae tornou-se melancólica e introspectiva. Gouveia acreditava que era depressão pós-parto. Certa noite, ao chegar em casa, encontrou a mulher na cama, estirada sobre uma poça de sangue, com o bebê chorando ao seu lado. Ela havia se suicidado com o revólver do marido. Gouveia ficou sozinho com o filho. Quando saía para trabalhar, deixava o bebê com a mãe e as irmãs. A rotina no batalhão o ajudava a esquecer os pesadelos com Sakae que o faziam saltar da cama durante a madrugada. O comandante de Gouveia não achou necessário encaminhá-lo ao apoio psicológico, e os colegas da corporação, receosos de parecerem invasivos, não falavam sobre a morte de Sakae.
Aos sábados de manhã, Gouveia se distraía do trabalho e da viuvez com os alunos do projeto de hóquei em linha. No fim das aulas, os jovens rodeavam o tio Gouveia para ouvir histórias de abordagens policiais. Uma aluna tinha interesse especial nos relatos, pois queria ser policial militar, e o professor a incentivava. O entrosamento entre eles evoluiu para a intimidade. Aos 18 anos, a jovem Camila Siqueira teve um filho de Gouveia, então com 38 anos. Ela o apoiava no luto da segunda mulher. Ele a ajudou a se preparar para o concurso da PM.
Pela primeira vez, Gouveia sentia que estava ao lado de uma mulher que o entendia. Os dois esperavam construir carreiras brilhantes. Em 2013, quando o filho do casal fez 5 anos, Gouveia e Camila deixaram Araçatuba e se transferiram para a 3ª Companhia da PM de Salto. Gouveia também levou para a nova cidade o filho que tivera com Sakae. Camila passou os primeiros meses trabalhando no setor administrativo da PM, pois estava grávida pela segunda vez. Deu à luz uma menina. Gouveia dedicou-se como nunca ao trabalho e foi promovido a terceiro-sargento. Em dois anos, virou segundo-sargento. Em 2020, ascendeu a primeiro-sargento. Tinha 50 anos, três filhos e uma filha – e seu bom desempenho já era uma unanimidade.
Em setembro de 2021, o anúncio da chegada do capitão Josias Justi à chefia da 3ª Companhia da PM de Salto foi bem recebido pela tropa. Ele tinha 38 anos e uma elogiada experiência no comando do posto do Corpo de Bombeiros de Salto. Natural de Sorocaba, Josias Justi da Conceição Júnior se formou na Academia de Polícia Militar do Barro Branco ao lado de Guilherme Derrite, o atual secretário de Segurança Pública de São Paulo. Embora fosse baixo – 1,64 metro – e relativamente jovem, conquistou logo a simpatia dos policiais de Salto, inclusive a dos veteranos. Justi adotou o WhatsApp como principal meio de comunicação com a equipe. Pedia que os agentes enviassem fotos e áudios das operações, a fim de supervisionar o trabalho da tropa. O sargento Gouveia, que nunca usou celular, não gostou da novidade.
Em três décadas de PM, Gouveia sempre se comunicara pelo sistema de rádio das viaturas. Camila tentou convencê-lo a comprar um celular e a criar perfis nas redes sociais, mas ele achava perda de tempo. Quando o capitão o chamou para conversar e pediu que arranjasse um telefone, Gouveia disse que o uso do aparelho não era uma exigência do trabalho na corporação. Justi argumentou que o WhatsApp otimizava o desempenho da equipe. Camila então comprou um aparelho antigo para o marido, que fazia apenas ligações e não tinha acesso à internet. Para irritação de Gouveia, seus colegas fizeram troça por ter cedido à pressão do novo chefe. Ao chegar em casa, Gouveia arremessou o celular contra a parede e o aparelho parou de funcionar.
Àquela altura, rompantes de estresse já eram parte da rotina doméstica dos Gouveia. No fim de 2021, Camila fez um teste de gravidez, que deu positivo. Era sua terceira gestação. Os colegas da Companhia sabiam que Gouveia havia feito uma vasectomia depois do nascimento da sua menina. Começaram então os rumores de uma traição de Camila. Quando Gouveia a questionava, ela não sabia explicar o que tinha acontecido, mas garantia que o bebê era dele. Durante uma aula para os jovens policiais, o próprio Gouveia disse, em tom jocoso, que ninguém estranhasse se o filho de Camila nascesse com os olhos azuis. Os policiais caíram na gargalhada, já que Gouveia era dado a brincadeiras do gênero. Mas o soldado Mateus Fogaça não achou graça. Tinha olhos azuis e, nos últimos tempos, havia integrado a mesma equipe que Camila.
Incomodado com a insinuação, Fogaça reclamou com o capitão Justi, que instaurou um inquérito para averiguar a conduta de Gouveia e o transferiu para a 1ª Companhia da PM de Itu, a 25 km de Salto. Assim que souberam da notícia, Camila e Gouveia foram à 3ª Companhia falar com Justi. “Quando chegamos lá, o capitão me olhou e disse que eu estava muito nervosa e deveria me preocupar com a minha gravidez”, contou Camila, mais tarde. “Na verdade, eu estava cansada por ter trabalhado o dia todo, e emotiva pela situação do meu filho.” Ela se referia à tentativa de suicídio de seu enteado, então com 17 anos, ocorrida duas semanas antes. “A transferência do meu marido naquele momento me fez pensar que eu ficaria sozinha. Eu tinha medo de que algo ruim acontecesse com meu filho. Pensar nisso às vezes me faz chorar.” Durante a conversa, Justi insistia em se referir à criança que estava sendo gestada pela policial como “o filho da Camila”, o que irritou Gouveia. “Ele também é meu filho, capitão. Meu filho”, disse o sargento. Camila contou que se sentiu exposta. Os rumores sobre a paternidade do bebê a constrangiam, logo ela que era conhecida pela personalidade rígida, inflexível.
Mais tarde, o sargento disse que a sua transferência para Itu tinha sido motivada pela recusa em usar o celular. Camila lembra que, nas semanas anteriores à decisão de Justi de transferi-lo, o marido chegava em casa “estressado, inconformado e chateado”. O deslocamento para Itu o obrigou a passar mais tempo longe de casa, no momento em que a família mais precisava de atenção. Sua mulher, no sexto mês de gravidez, tinha agora que se dividir entre os cuidados dos filhos e o trabalho na Companhia de Salto.
Em Itu, Gouveia se reaproximou de Emerson Drague, o comandante do 50º Batalhão da PM que conhecera anos antes em Araçatuba. Drague havia acompanhado de perto alguns momentos importantes da vida de Gouveia. Estava lá quando o sargento perdeu a segunda mulher, por exemplo. E achava que aquele tempo longe de Salto era fundamental para Gouveia preservar sua boa reputação. Em encontros nos corredores da corporação, Gouveia chegou a dizer a Drague, mais de uma vez, que ainda era perturbado pelo suicídio de Cibele Sakae. Um cansaço profundo o abatia. Embora já pudesse se aposentar, ele precisava do abono de permanência da PM para concluir a reforma de sua casa em Salto.
Passados dois meses da abertura do inquérito para investigar a conduta de Gouveia, o capitão Justi não encontrou indícios suficientes para culpar o sargento por transgressão disciplinar com a piada dos olhos azuis. Gouveia foi readmitido à 3ª Companhia da PM em Salto. Aos poucos, estabeleceu uma relação cordial com o chefe, enquanto Camila se tornava cada vez mais hostil ao capitão. Toda manhã, quando o chefe chegava para o serviço, Camila era a única a não se levantar para prestar continência. Nas fofocas do corredor, os policiais estranhavam que, apesar de tudo, o capitão poupasse Camila de qualquer repreensão.
Em julho de 2022, nasceu o caçula dos Gouveia, e Camila entrou em licença-maternidade. Sua permanência em casa alegrou os outros filhos, que finalmente podiam passar algum tempo ao lado da mãe. O nascimento também deu novas energias a Gouveia, que melhorou o desempenho no trabalho e, aparentemente, conquistou a simpatia do chefe. Foi nesta época que o capitão inseriu três elogios na ficha de Gouveia. Aos colegas, no entanto, o sargento dizia que estava exausto em razão do trabalho e da obra que estava fazendo em casa.
Quando retornou da licença, no início de 2023, Camila se reuniu com o capitão Justi para conversar sobre a sua escala de serviço. Explicou que não podia trabalhar nos mesmos horários que o marido, pois um deles precisava ficar em casa para cuidar das crianças. Os pais não podiam deixar o bebê sob a supervisão do filho adolescente, em razão do tratamento psiquiátrico que vinha fazendo. O capitão assentiu e, num primeiro momento, organizou a escala de serviço da maneira como Camila havia solicitado.
Na noite do dia 24 de abril de 2023, Gouveia estava de plantão, quando o rádio da Companhia tocou com uma denúncia de tráfico de drogas numa praça do Centro da cidade. No comando da operação, o sargento preparou a tropa e partiu para o local da ocorrência. Quando a equipe chegou, os policiais abordaram um suspeito. O homem reagiu, iniciando uma confusão. Os policiais olharam ao redor e perceberam que estavam sendo cercados por outros cinco ou seis sujeitos. Um deles disparou um tiro contra a tropa, atingindo dois integrantes da equipe de Gouveia.
Os policiais foram internados e se recuperaram bem. Um deles era Mateus Fogaça, o soldado de olhos azuis com quem Gouveia tivera problemas antes. O capitão Justi decidiu mudar Gouveia de equipe, sob a justificativa de que queria evitar novos atritos entre ele e Fogaça. Gouveia sabia que a operação fora mal conduzida, mas não entendia aonde o capitão queria chegar com aquela decisão. Ele disse outra vez aos colegas que estava sendo perseguido pelo chefe. A mudança de equipe implicou uma nova desordem na rotina familiar. Os horários de Gouveia passaram a coincidir com os de Camila. O casal não tinha com quem deixar as crianças. Ao fim de um dia de expediente, o sargento pegou a estrada até Itu e bateu à porta de coronel Drague, do 50º Batalhão.
Gouveia desabafou sobre como as mudanças de escala vinham afetando sua dinâmica familiar. A essa altura, disse, a desarmonia havia escalado de tal forma que Camila ameaçava pedir o divórcio. Drague, tentando acalmá-lo, sugeriu que eles fizessem uma reunião com o capitão. O encontro aconteceu naquela mesma noite. Gouveia explicou aos dois chefes, Justi e Drague, a situação que enfrentava em casa, com os filhos exigindo supervisão constante. Justi disse que tinha sugerido horários alternativos, mas que Camila havia recusado, argumentando que não podia perder as aulas do curso de violino. A reunião terminou de forma amistosa. O capitão se comprometeu a solucionar o problema de Gouveia e eles se despediram com um aperto de mãos. O comandante Drague assistiu à cena com satisfação.
A conversa, porém, não surtiu efeito e os horários foram mantidos. A relação do casal, às voltas com o cuidado dos quatro filhos e uma suspeita de adultério, continuou se deteriorando. As brigas do trabalho eram levadas para casa, as discordâncias se avolumavam. Os gritos e objetos jogados contra as paredes cobraram um preço na saúde das crianças. Manchas vermelhas espalharam-se na pele do caçula, agora com 8 meses, enquanto ele ardia em febre. A menina, de 9 anos, foi levada ao hospital com dores abdominais. O adolescente de 17 anos teve uma infecção intestinal.
No começo da tarde de 4 de maio de 2023, depois de uma noite de insônia, Camila chegou à Companhia contando as horas para voltar para casa. Juntou-se aos colegas em uma aula rotineira sobre atendimento de ocorrências. A certa altura, o segundo-tenente Rodrigo Gianezi, que ministrava a instrução, citou como mau exemplo a ocorrência comandada por Gouveia em que dois policiais saíram baleados. Camila levantou-se num rompante e gritou que tudo aquilo era uma mentira orquestrada pelo capitão Justi. “Ele é mentiroso, eu posso provar”, gritou. Ela disse que tinha vídeos no celular que poderiam comprovar que o chefe estava mentindo para prejudicar o seu marido, mas os colegas se recusaram a assistir. A pressão arterial de Camila subiu e ela precisou ser levada ao pronto-socorro. Na maca, desculpou-se com o segundo-tenente Gianezi pela confusão e disse que estava tensa por causa das mudanças nos horários de serviço do marido. “Isso não pode ficar assim”, disse Camila a Gianezi. “O capitão não vai sair impune.”
Para Gianezi, bem como para o resto da tropa, o comportamento de Gouveia e Camila havia rompido a harmonia da companhia policial de Salto. Os colegas, que antes se divertiam com as fofocas de corredor levadas com bom humor, agora faziam de tudo para evitar trabalhar na mesma equipe que o sargento e sua mulher. Na terça-feira, 9 de maio, o sargento Leandro Barbosa e o cabo Tiago Araújo Vaz foram escalados para trabalhar com Camila na patrulha das ruas. Ela tinha acabado de sofrer outra alteração na escala de serviço e estava mais nervosa que nunca. Batia os punhos no volante, repetia coisas como: “Isso não pode ficar assim”, “Dessa vez o capitão não vai sair impune”, “Eu vou matar o capitão”. O sargento Leandro Barbosa achou prudente registrar uma denúncia sobre as ameaças, o que resultou no afastamento de Camila do trabalho e no soco contra a pilastra.
O drama dos Gouveia culminaria na sangrenta manhã de 15 de maio.
Cerca de uma hora e meia depois de disparar contra os dois colegas de farda, Gouveia estava em bom estado físico. A pele corada indicava boa hidratação e a respiração seguia em ritmo regular. O sargento relatou a um médico da UPA que estava se sentindo “estressado” e sofrendo “pressão psicológica.” Depois do exame de corpo de delito, ele foi conduzido à sede do 50º Batalhão do Interior, onde as testemunhas do crime começavam a ser ouvidas.
Quinze policiais, além do réu e sua mulher, falaram à polícia sobre o que aconteceu na manhã de 15 de maio. Os depoimentos convergem num ponto: ao chegar para o trabalho naquele dia, Gouveia parecia perfeitamente bem. Antes do dia dos assassinatos, no entanto, ele parecia estressado com a vida familiar e o trabalho. “Certa vez, eu ouvi ele dizer que tinham armado uma situação em desfavor da esposa dele”, disse o soldado Carlos Alberto Banin Júnior. “Há alguns dias, o sargento me disse que estava mal porque um dos filhos dele tinha fugido de casa e tentado suicídio”, disse o cabo Lucas Menezes Silva. “No dia 12, ele me falou que o capitão Josias estava acabando com a vida dele”, disse o cabo Marcel Zimbres.
Algumas horas depois do crime, o comandante Emerson Drague instaurou um inquérito para investigar a conduta profissional de Camila. E a equipe policial de Salto, que tinha acabado de testemunhar uma tragédia, teve que se sentar diante do chefe e opinar sobre o comportamento de Camila, que, agora, era suspeita de tramar o crime com o marido. O sargento Leandro Barbosa e o cabo Tiago Araújo Vaz relataram ter ouvido a policial ameaçar o chefe na viatura no dia 9 de maio, mas outras seis testemunhas afirmaram que nunca tiveram notícia ou mesmo desconfiança de que Camila cogitasse tirar a vida do capitão.
Camila acompanhou o andamento do inquérito em liberdade, enquanto Gouveia cumpria prisão cautelar no Presídio Militar Romão Gomes. Passadas 72 horas do crime, um médico da PM receitou duas medicações psiquiátricas para o sargento. Gouveia passou a tomar um antipsicótico e um remédio indicado para o tratamento de transtorno bipolar. Três semanas depois, outra psiquiatra prescreveu uma dose diária de um ansiolítico. Durante as visitas da família à prisão, ele permanecia calado e apertando os dentes, num estado quase catatônico. As crianças ficavam perturbadas em ver o pai naquele estado.
Antonio Serafim, professor de neuropsicologia clínica e forense da Universidade de São Paulo (USP), observou em Gouveia traços de uma personalidade obsessiva. “Ele parece ser convicto do que acredita e da maneira como organiza a própria vida. Sujeitos assim não abrem mão das próprias regras e têm pouca flexibilidade cognitiva para aceitar mudanças feitas pelos outros, porque isso ameaça a sua ordem pessoal”, disse o neuropsicólogo à piauí, depois de ler os autos do processo criminal. Um exemplo é a maneira desproporcional como Gouveia agiu quando o capitão lhe pediu para adotar o uso do celular no trabalho.
Serafim contou a história de um paciente seu que tem personalidade obsessiva. Conhecido como um homem bom e pacato, ele juntou pouco a pouco uma fração do salário de pedreiro para comprar uma televisão. Quando chegou em casa com o novo eletrodoméstico, o filho de 5 anos jogou uma bola no televisor sem querer. O aparelho ficou levemente danificado. O homem conteve a raiva calado. Na sequência, a criança correu para a cozinha, abriu a geladeira e derrubou um pote de requeijão, que se espatifou no chão. Então o pai pegou o menino e jogou-o contra a parede, causando uma contusão cerebral. Desesperado ao ver o sangue escorrer das orelhas do filho, o homem pegou uma faca e cortou o próprio pescoço. (Os dois sobreviveram. O filho não teve sequelas, mas o pai desenvolveu um quadro depressivo.)
“Conto isso para você entender que todas as pessoas têm um potencial violento, mesmo aquelas com bom histórico comportamental”, disse Serafim. “Quando passamos por um processo de grande carga emocional, pulamos etapas fundamentais do processo de tomada de decisão. Somos levados a uma espécie de dissonância cognitiva, a uma dificuldade de pensar racionalmente e inibir comportamentos cujo desfecho pode ser negativo.” Segundo o Código Penal Militar, para que seja considerado inimputável por doença mental, o autor de um crime deve ser incapaz de compreender a natureza ilícita de seus atos enquanto os pratica. “Essa é uma leitura muito cartesiana”, definiu Serafim. Tensões emocionais podem levar uma pessoa à privação temporária de racionalidade, mas a Justiça quer saber se o autor de um crime tem psicose ou não. E, embora os médicos da PM tenham receitado três remédios, a avaliação psiquiátrica de Gouveia concluiu que ele é um homem plenamente lúcido. A piauí não teve acesso ao laudo psiquiátrico, mas a conclusão foi confirmada por todas as partes: a defesa, a acusação e o próprio juiz do caso.
No início da tarde de 26 de outubro, mais de cinco meses depois do crime, um guarda apareceu na cela de Gouveia no Presídio Romão Gomes para anunciar que estava na hora do seu julgamento. De pé, Gouveia estendeu os braços à frente do corpo para ser algemado. Acompanhado por dois agentes penitenciários, ele foi conduzido a uma sala do setor administrativo iluminada por luzes brancas e com as paredes em cinza-claro. O julgamento foi conduzido por videochamada: Gouveia acompanhou de um notebook do presídio. A promotora, o advogado de defesa, o juiz e os membros do Conselho Permanente de Justiça se reuniram no Tribunal de Justiça Militar. (Na Justiça Militar, as penas para os praças que infringem a lei são definidas coletivamente por um juiz e outros três oficiais, que formam o Conselho Permanente.) A sala virtual tinha treze espectadores, entre parentes e ex-colegas de Gouveia. O juiz José Álvaro Machado Marques iniciou a sessão apresentando a denúncia do Ministério Público contra o sargento.
No dia 15 de maio de 2023, por volta das 9 horas da manhã, na sede da 3ª Companhia de Polícia do 50˚ Batalhão da PM no Interior de São Paulo, situada no município de Salto, o réu, agindo com manifesto ânimo homicida, por motivo fútil, mediante surpresa – recurso que dificultou a defesa das vítimas –, efetuou disparos de arma de fogo contra o capitão Josias Justi da Conceição Júnior e o 2˚ sargento Roberto Aparecido da Silva, provocando-lhes os ferimentos que foram a causa de suas mortes. Segundo o apurado, cerca de dez dias antes do ocorrido, a vítima capitão Josias alterou a escala de serviço do Batalhão, e o sargento Gouveia se sentiu prejudicado. Segundo ele, o capitão teria desarrumado a sua vida particular.
O sargento Gouveia, continuou Marques, chegou para o trabalho naquele dia com nítido animus necandi. “Ele solicitou […] uma arma do tipo fuzil emprestado, justificando que, naquele dia, faria várias operações e iria precisar do armamento.” No jargão jurídico, o termo animus necandi, do latim, significa intenção de matar. Marques adotou o termo, ainda que todas as testemunhas, incluindo o próprio Alex Barreto, tenham relatado que o comportamento de Gouveia era perfeitamente normal na manhã do crime. O juiz avançou na leitura. “Diante disso e das proporções da sala [onde ocorreram os homicídios], do tipo de janelas existentes e, ainda, que havia somente uma porta de entrada e saída, as vítimas não tiveram chance de fuga, proteção ou reação.” A essa altura, o advogado de Gouveia já estava perdendo antes mesmo de entrar em campo. Ele teve certeza da derrota quando Marques concluiu a leitura da denúncia enfatizando a tese da acusação: “Esses crimes foram cometidos por uma razão fútil: mudanças na escala de serviço.”
O juiz passou a palavra para a representante do Ministério Público, a promotora Giovana Ortolano. Para sustentar a tese do homicídio qualificado por motivo fútil, o Ministério Público usou o depoimento do comandante Emerson Drague. Embora soubesse do suicídio da segunda mulher de Gouveia, dos pesadelos sobre a morte dela, dos altos e baixos do relacionamento com Camila e da tentativa de suicídio do filho, Drague disse à Justiça que nunca identificou nenhum sinal de que Gouveia precisasse ser encaminhado ao Centro de Atenção Psicossocial. O comandante também alegou que nunca foi informado de que a escala de serviço estava afetando a vida pessoal do sargento, ainda que tenha promovido o encontro entre Gouveia e seu chefe para discutir o assunto. (Procurado pela piauí, o comandante não quis dar entrevista.)
A promotora Ortolano prosseguiu apresentando as razões pelas quais Gouveia deveria ser condenado pelos dois homicídios: “Treze tiros foram disparados naquela sala, sendo nove contra o capitão Josias Justi e quatro contra o sargento Roberto da Silva. O réu agiu de surpresa, entrando na sala do capitão sem autorização, movido por motivos fúteis: mudanças na escala e, talvez, a exigência do uso de celular durante a jornada de trabalho.” A promotora disse que a história avaliada naquele plenário teve início no dia em que o réu insinuou, perante os colegas, que sua mulher estava se relacionando com outro policial. “Após o ocorrido, o sargento Gouveia chegou a ser movimentado de Companhia, a fim de evitar problemas. Depois, ele quis voltar para a Companhia de Salto e foi atendido. Ele não aceitava os horários de serviço que lhe designavam, afirmando que atrapalhavam sua vida pessoal e familiar.”
Sem mencionar os eventos familiares que deixaram Gouveia em estado de tensão, a promotora disse apenas que, na Companhia de Itu, outros três sargentos tiveram que mudar seus horários para que os interesses do réu fossem atendidos. Para rebater uma eventual alegação de inimputabilidade, a promotora argumentou: “Nada indica que o réu possa ser considerado inimputável. Ainda que tenha sofrido com o suicídio da ex-mulher, isso diminuiu ao longo do tempo e ele não apresentou qualquer indício de alteração emocional”, disse. “Não há prova nos autos de perseguição ou qualquer tipo de assédio sofrido pelo réu ou por sua esposa naquela Companhia. O fato é que houve uma tragédia e não há reparação possível nos crimes de morte.” Gouveia não reagiu ao discurso da acusação. Permaneceu ereto e com os ombros levemente caídos durante todo o julgamento. Sua expressão facial parecia imutável.
Parte da estratégia do Ministério Público era convencer o juiz e o Conselho Permanente de Justiça de que Gouveia planejou os homicídios para pôr fim ao sofrimento da sua mulher. A promotora retornou ao dia 4 de maio: “Camila diz a colegas que o capitão Josias mentiu sobre o fracasso de seu marido em uma operação.” Depois, avançou para o dia 9 de maio: “Camila bate os punhos no volante e, diante de duas testemunhas, diz coisas como: ‘Eu preciso cuidar do meu filho’; ‘Isso não pode ficar assim’; ‘Dessa vez o capitão não vai sair impune’, ‘Eu vou matar o capitão’.” Em seguida, descreveu o dia 12 de maio: “Ao receber a notícia de que foi afastada do trabalho, Camila profere dois socos contra uma pilastra e precisa ser levada ao hospital para cuidar dos ferimentos.” A promotora concluiu: “Portanto, este crime foi premeditado.”
A análise do telefone de Camila poderia ajudar o Ministério Público a sustentar ou abandonar a suspeita de crime premeditado, mas os peritos da Corregedoria da PM não dispunham de um software para entrar no aparelho, bloqueado por senha. (Camila não deu a senha. Nenhum investigado tem a obrigação legal de fazê-lo.) Durante seu testemunho, ao negar ter tramado os homicídios com o marido, Camila relatou que eles nem se falaram no fim de semana do Dia das Mães em razão de uma briga. Gouveia também negou ter calculado a ação. Disse que foi à sala do capitão para discutir o afastamento de sua mulher – “eu queria falar poucas e boas”. Contudo, ao se aproximar da sala e escutar o chefe mencionar o nome de Camila, ficou nervoso e abriu a porta. Ele diz que, nesse momento, viu o capitão puxando o revólver da cintura para reagir à sua entrada na sala. “Então disparei o fuzil para me defender”, disse. “Eu estava em surto. Nem ouvi o barulho dos tiros.” Neste ponto, Gouveia é a única testemunha de sua versão. O sargento Alex Barreto, que estava na cena do crime, disse que não se lembra de ver o capitão puxar o revólver da cintura. E, se Gouveia foi à sala do capitão com intenção de conversar, por que mandou os colegas evacuarem a Companhia, se trancou do lado de dentro e carregava um fuzil?
Rogério Duarte, o advogado do réu, é um homem corpulento de 51 anos que anda sempre com a testa suada. Sua aparência é a de um grande bebê. Tem olhos azuis esbugalhados e nenhum pelo no rosto, age desengonçado e veste ternos acima das medidas do seu corpo. Quando ele se aproximou do microfone e iniciou a argumentação da defesa, selou-se um contraste agudo com a promotora. Enquanto ela foi assertiva, o advogado começou confuso e cheio de meandros. “A autoria e a materialidade não comprovam a existência desse crime”, disse. “No momento dos fatos, cinco policiais permaneciam dentro da Companhia, em salas vizinhas. Por que eles não abateram o réu?”
O advogado sugeria que os colegas de Gouveia poderiam tê-lo impedido de disparar o fuzil, mas, voluntariamente, não o fizeram. Depois, disse que outro sargento era “intocável” para o capitão Justi, o que prejudicava os horários de trabalho de Gouveia. Para defender seu cliente da acusação de planejamento do crime, argumentou que “o celular de Camila foi apreendido e ficou comprovado que não havia nada”. A promotora interrompeu para lembrar que o celular não chegou a ser periciado. Duarte ignorou o comentário e retomou dizendo que o capitão viu uma oportunidade de prejudicar Gouveia quando o sargento fez a piada sobre seu filho nascer com olhos azuis. “Ele se aproveitou da situação para instaurar uma investigação que terminou arquivada por falta de provas.”
Duarte não construiu uma linha de raciocínio convincente. A certa altura, começou a elencar eventos que careciam de conexão lógica. Disse que, ao saber da alteração em sua escala de serviço, Gouveia desobedeceu a uma ordem do capitão e foi falar com o comandante Emerson Drague. Que havia um tratamento diferenciado naquela Companhia para a equipe comandada pelo “sargento intocável”, que nunca foi identificado. Que, certa vez, o carro de Camila sofreu uma busca sem a presença dela e, depois disso, ficou com uma infiltração no assoalho. Que não se pode privilegiar ninguém em escalas de serviço. Que o tenente que fez a vistoria no carro de Camila cometeu abuso de autoridade.
O juiz e os membros do Conselho Permanente de Justiça já exibiam impaciência quando Duarte, finalmente, abordou aspectos relevantes para a defesa do seu cliente. Alegou que a cena do crime foi alterada antes da chegada da perícia. Um tapete preto e branco da sala do capitão parecia ter sido revirado. Os coldres das vítimas estavam desafivelados e os revólveres sumiram, indicando que alguém havia recolhido as armas para que os investigadores, segundo Duarte, não percebessem que houve confronto. Lembrou que o laudo balístico concluiu que o primeiro disparo do fuzil atingiu Josias na panturrilha e os seguintes pegaram o braço direito e as costas. “A arma estava virada para o chão, em posição Sul”, disse o advogado, reforçando sua tese de que o crime não foi planejado. “Portanto, o réu começou a disparar de baixo para cima, pois foi pego de surpresa. Ele agiu para preservar a própria vida.” Duarte ponderou que a mudança na escala de serviço não foi a única razão do destempero do sargento. “Era difícil para o réu administrar todos os filhos. A ex-mulher dele se suicidou e o filho tentou suicídio. Ele estava pressionado por sua vida familiar, conjugal e profissional.”
A promotoria não apresentou réplica. Terminado o debate, o juiz manteve a sua convicção inicial: Gouveia disparou contra os colegas em razão da mudança dos horários de trabalho, uma futilidade. O julgamento já durava quase três horas quando o juiz propôs uma pena de 45 anos de prisão em regime fechado. Os oficiais do Conselho Permanente de Justiça concordaram com a pena sugerida pelo juiz. Ao ouvir a decisão, Gouveia, com o rosto apático, inclinou levemente a cabeça para o lado esquerdo. Um policial surgiu no centro do vídeo e desligou o computador. Fim da videochamada.
Ao saber do desfecho do processo, o neuropsicólogo Antonio Serafim disse que a defesa deveria ter pedido que Gouveia fosse submetido a uma avaliação psicológica. O estudo, segundo Serafim, poderia mapear a carga emocional que levou o sargento a cometer os crimes, jogando luz na zona de sombras que separa a insanidade e a lucidez. As explicações simplistas – “ele teve um surto” – são comuns nos casos em que o agressor teve uma mudança brusca de comportamento. James Knoll, professor da Universidade Estadual de Nova York e psiquiatra renomado, escreveu que pode ser mais reconfortante acreditar que uma doença mental assumiu o controle e induziu o ato violento do que reconhecer que pessoas sãs também podem agir como sádicas. Classificar um atirador como alguém perturbado serve para nos convencer de que somos radicalmente distintos daquele que infringiu o contrato social.
Embora as definições legais de insanidade ainda estejam focadas na psicose, a medicina reconhece uma ampla gama de comportamentos, pensamentos e sentimentos insólitos. “O que sabemos com certeza é que todo ato de violência quer passar uma mensagem”, disse o psiquiatra Thiago Fernando da Silva, do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica da USP. No caso de Gouveia, a mensagem mais evidente apareceu quando, dirigindo-se aos colegas policiais, disse: “Vocês vão ter que me ouvir.” “O que causa estranheza nesse caso é que, em geral, as pessoas cometem atos repetidos de violência antes da investida final”, disse o psiquiatra. O ato inaugural de violência de Gouveia são os dois homicídios.
A falta de clareza sobre a saúde mental de policiais também atrapalha o entendimento de casos como o de Salto. Em 2023, 110 policiais militares – e oito policiais civis – se suicidaram no Brasil. O dado foi levantado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mas o número real é certamente mais alto, já que alguns estados não quantificam as mortes de agentes por lesão autoprovocada e outros alegam que o dado é sigiloso. “Policiais não têm cultura de falar sobre sentimentos”, disse Thiago da Silva, o psiquiatra forense. “Junte a isso uma rotina violenta, assédio moral de superiores hierárquicos, pressão por entregas e um contexto familiar conturbado. O resultado do quebra-cabeça pode ser uma tragédia.”
Nas redes sociais e nas ruas, os moradores de Salto lamentam a repercussão do crime de Gouveia na vida dos dois filhos do capitão Justi, hoje com 4 e 6 anos, e dos três filhos do sargento Roberto da Silva, de 16, 19 e 30 anos. Wellison Brienze da Silva, o primogênito do sargento Roberto, é um jovem advogado de Sorocaba. Ele participou do julgamento de Gouveia como assistente de acusação, mas não se manifestou. Brienze da Silva também não quis dar entrevista. A viúva de Josias, Flávia Justi, tampouco quis falar.
Quatro meses depois do veredito do sargento Gouveia, no começo da tarde de uma quinta-feira, bati à porta do escritório de Rogério Dini Duarte, um casarão de tijolos numa rua arborizada de Campinas. Sentados à mesa de madeira escura, conversamos sobre o processo de Gouveia, enquanto aguardávamos a chegada de Camila. Duarte ligou a tela de um monitor e projetou o processo de Gouveia. Repetiu a tese que apresentou no tribunal: “Veja bem, é importante você mentalizar que o fuzil do Gouveia estava na posição Sul. Ele entrou na sala do capitão com a arma apontada para baixo, portanto não tinha intenção de atirar. Mas, então, quando ele abriu a porta, viu o capitão Josias puxar o revólver da cintura e se sentiu obrigado a atirar em legítima defesa.”
Duarte alega que Gouveia deveria ser julgado pelo Tribunal do Júri, mas é improvável que isso aconteça, pois o Código Penal Militar prevê que crimes contra a vida envolvendo agentes devem ser julgados na Justiça Militar. “Eu vou fazer com que eles percebam o erro que estão cometendo”, disse. O advogado apresentou um recurso especial e outro extraordinário no Superior Tribunal de Justiça, pedindo a nulidade da competência do juízo que sentenciou Gouveia. O recurso ainda não foi julgado.
Quando abriu a porta, Camila vestia uma calça jeans clara colada ao corpo e calçava um tênis de cano alto branco com detalhes em rosa e verde-néon. O piercing na língua e a roupa lhe conferiam um aspecto juvenil e destoavam dos músculos do tronco e dos ombros saltando de uma regata rosa. “No que eu posso ajudar vocês?”, perguntou ela, olhando para Duarte. O advogado disse que estávamos conversando sobre o processo de Gouveia, e Camila olhou para mim pela primeira vez: “Você viu as fotos da perícia? Percebeu que o tapete da sala foi puxado?” Camila acredita que outros policiais da Companhia mexeram na cena do crime para remover a arma do capitão Justi, a fim de omitir que ele puxou seu revólver e estimulou Gouveia a disparar o fuzil.
“O capitão é uma pessoa boa, mas se torna difícil quando não gosta de alguém”, disse Camila. Percebendo que havia se referido ao chefe no presente, agitou-se para corrigir. “Desculpa, ele era uma boa pessoa. Ainda não sei como falar dele.” Camila tamborilava os dedos na perna, seus olhos corriam entre a mesa, as paredes e o celular. Interrompeu o advogado várias vezes para acrescentar informações do processo. Sobre seus filhos, disse: “Eles continuam adoecendo. Às vezes, meus pais vêm de Araçatuba para ajudar, mas na maior parte do tempo somos só eu e as crianças. Tem dias que penso em fazer uma loucura. Só não desisti de tudo ainda porque meus filhos ficariam sem ninguém.”
Depois da prisão do marido, Camila passou a tomar remédios para ansiedade e depressão, receitados por um psiquiatra. Embora o médico tenha aconselhado um atendimento psicológico, ela reluta. Tem receio de que suas confidências sejam expostas legalmente. “Quebraram o sigilo do prontuário do meu marido na primeira oportunidade”, disse. Camila costumava visitar Gouveia no Presídio Romão Gomes todos os fins de semana, às vezes acompanhada pelos filhos, mas, diante do custo alto da viagem de Salto a São Paulo, passou a visitas quinzenais. “Ele anda quieto, não conversa muito.” Pedi uma folha ao advogado e redigi uma carta para Gouveia, manifestando o meu desejo de entrevistá-lo, e Camila se comprometeu a entregar em sua próxima ida ao presídio. Algumas semanas depois, ela retornou dizendo que o marido não queria falar.
Em nossa conversa, Camila contou que estava sem trabalhar desde 12 de maio de 2023 – o dia em que o capitão Justi a afastou da Companhia e ela socou uma pilastra. O tempo ocioso, disse ela, a faz pensar na ruína de sua família. A promotora Giovana Ortolano, do Ministério Público, propôs uma ação penal contra Camila por ter desrespeitado e ameaçado seu superior hierárquico. “Até aquela tragédia acontecer, nunca tinham apontado qualquer desvio na minha conduta”, disse Camila. Seu comportamento era classificado como “excelente” no registro militar. “Eu tenho certeza de que eles vão dar um jeito de me considerar culpada.” Duarte, que também atua em defesa de Camila, interveio para anunciar a data que o juiz escolhera para o julgamento dela: 15 de maio, dia do primeiro aniversário dos assassinatos cometidos por Gouveia.
Na tarde do dia 22 de fevereiro, o juiz José Álvaro Marques reuniu Camila e as testemunhas de acusação para prestarem depoimento no processo administrativo movido contra ela – e então veio à tona uma nova informação com potencial para alterar toda a trama.
O juiz Marques buscava provas de que a policial revelara intenção de matar o capitão Justi. Os dois agentes, Tiago Araújo Vaz e Leandro Barbosa, confirmaram ter ouvido Camila dizer “eu vou matar o capitão”. Camila negou. Seu advogado interveio e fez questão de voltar ao assunto: “A denúncia diz que você ameaçou o capitão de morte, o que inclusive é corroborado por duas testemunhas de acusação. Você falou que iria matar o capitão?” Camila negou outra vez. O advogado pediu então que Camila explicasse por que Leandro Barbosa disse que, no dia 9 de maio, ficara quatro horas tentando acalmá-la.
Camila então revelou a razão do seu nervosismo: “Eu tive um relacionamento com o capitão Justi durante um período”, disse. “Inclusive, vou ter que pedir o reconhecimento da paternidade do meu filho, porque o capitão Justi pode ser o pai dele.” Camila se referia ao bebê que nasceu em julho de 2022, em meio aos conflitos que ela e o marido travavam com Justi. Era o ingrediente novo, que podia alterar o enredo do crime. O juiz encarou Camila em silêncio, como quem calculava o impacto da revelação, depois olhou para o teto e respirou fundo.
Camila continuou. Naquele dia 9, ela estava aflita porque pensava se deveria contar ao marido sobre o caso extraconjugal. O capitão a chamara de canto para perguntar se Gouveia sabia ou desconfiava de alguma coisa. “Quando fiquei grávida, parei de falar com o capitão pessoalmente e pelo celular. Eu tinha medo de descobrir que o filho era dele”, disse. Segundo Camila, foi depois de saber de sua gravidez que o capitão decidiu transferir Gouveia para Itu. Nesse momento da audiência, Duarte, incapaz de esconder que estava simulando sua surpresa, disse que aquela informação era uma novidade para ele. O juiz continuou quieto, alisando o queixo enquanto observava a dinâmica encenada pelo advogado e sua cliente.
“A fala de Camila é mentirosa e tem como finalidade tentar justificar o crime cometido pelo marido dela, visando, talvez, a uma redução de pena por violenta emoção ou algo assim”, escreveu André Thomaz da Silva, advogado da família do capitão Justi. “Essa tentativa é bastante cruel com a família do capitão, agora major, Josias. Ele deixou dois filhos e uma esposa que merecem respeito.”
Na semana anterior aos assassinatos, disse Camila, ela se sentia esgotada pelos conflitos entre o capitão e seu marido. “Eu já estava cansada dessa situação de gato e rato.” Quando falou que o capitão Justi “não poderia ficar impune”, ela tinha em mente as investidas do chefe para afastar Gouveia de Salto e prejudicá-lo com alterações no horário de serviço. “Eu deveria ter documentado tudo, mas estava sem cabeça”, disse. Por que não contou tudo isso no julgamento do seu marido? “Eu queria falar, mas não sabia como a família do capitão Josias ou do meu esposo iam reagir. Agora, com certeza, todos vão ficar sabendo, mas para mim já não faz diferença todo mundo saber. Se quiserem provas, eu mostro. Também tem provas no celular dele [refere-se ao capitão Justi].” O juiz agradeceu os testemunhos, não disse uma palavra sobre a novidade que surgira e encerrou a sessão de oitivas.
Duarte e Camila decidiram poupar Gouveia da informação sobre o caso extraconjungal. Eles têm receio de que possa piorar o seu estado emocional na prisão. Pela mesma razão, o advogado preferiu não usar a informação para pedir a anulação do julgamento do sargento, mesmo sabendo que reforçaria a tese de que Gouveia poderia, efetivamente, estar sendo perseguido por Justi, como o próprio sargento vinha se queixando. Sem que a defesa tivesse apresentado qualquer prova de hostilidade do capitão, o juiz e a promotoria entenderam que a acusação de uma relação hostil não passava de uma tentativa de justificar um crime injustificável. Será que, diante da revelação do caso entre Camila e o capitão, a promotoria manteria a tese de que o motivo do crime fora a banalidade de uma mudança de escala?
“Sim”, disse a promotora Ortolano, numa entrevista por telefone. “Esse sargento nunca foi prejudicado de forma nenhuma. Todos sabiam que ele era um homem são.” Ao ser designada para trabalhar no processo de Gouveia, a promotora acreditou estar diante de um caso sem paralelo nos seus 21 anos de carreira – o de um policial exemplar que, do dia para a noite, revela-se um homicida. Sua percepção mudou completamente ao ler as provas apresentadas pelas testemunhas. Ela concluiu que, se Gouveia teve problemas no trabalho, foi porque ele mesmo os provocou. “Há notícias de que o sargento era bastante ciumento”, disse Ortolano. “Ele estava em abono de permanência e só não se aposentou para não perder o controle sobre a esposa. Inclusive, a suspeita que corria era de que o filho dela seria de um tenente, não do capitão Josias.”
– Essa informação está no processo? – perguntei.
– Não – disse Ortolano.
– Por quê?
– Porque ninguém falou.
– E como a senhora soube disso?
– Eu ouvi da boca da Camila, no interrogatório do processo administrativo dela.
– A Camila falou que o filho dela poderia ser de um tenente? – insisti.
– Não, isso surgiu durante o processo do Gouveia. Mas foi en passant, ninguém se aprofundou.
Ortolano prosseguiu: “O que também não está nos autos do processo, mas as pessoas acabam comentando nos bastidores, é que a Camila tinha muito contato com policiais do sexo masculino, o que incomodava o marido. Dizem, inclusive, que a Camila era enteada do Gouveia, filha da esposa que se suicidou.” A maledicência não tem nenhuma evidência documental ou factual. Ao contrário. Antes de se casar com Gouveia, Cibele Sakae teve uma filha, em abril de 1990. Camila nasceu em julho daquele mesmo ano, o que elimina a hipótese de que pudesse ser filha de Sakae. Além disso, o registro civil de Camila, examinado pela piauí, informa que ela é filha de Elia Marta de Souza Siqueira.
No início da noite do dia 15 de maio passado, um funcionário da assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça Militar de São Paulo esperava no hall do edifício para me levar à sala onde Camila seria julgada. Tomamos o elevador e, numa conversa informal, ele perguntou se eu conhecia a ré. Respondi que sim. “Ela é muito difícil. É chapa quente”, disse. Percebi que ele tinha intenção de continuar despejando adjetivos sobre Camila, mas o elevador chegou ao terceiro andar.
A ré e o advogado de defesa aguardavam no corredor, próximo à porta do auditório, onde o juiz conduzia o julgamento de outro caso. Camila vestia uma calça de veludo azul-bebê e um casaco cinza estampado com uma caveira. Seus cabelos, tingidos de loiro, pareciam bem cuidados. Ela estava gripada e disse que a filha também passara as últimas semanas com uma febre misteriosa. “Eles adoecem o tempo todo”, disse, sobre os filhos. Perguntei se as crianças sabiam do julgamento e Camila respondeu que não fala desse assunto com elas. Duarte andava de um lado para o outro com ar bonachão. “Pelas provas, deveriam absolvê-la”, disse. “Mas temos que esperar sempre o pior de um julgamento como esse.”
Camila abriu uma pasta cheia de papéis e me mostrou cartas que civis e outros policiais escreveram para o juiz depois que Gouveia cometeu os assassinatos. São textos de pessoas dizendo que o conheciam há muitos anos, que ele era um profissional exemplar e um bom cidadão. As cartas foram escritas a pedido de Camila, seguindo o conselho do advogado. Havia também cadernos de jornais com matérias sobre o projeto educacional de hóquei em linha que Gouveia comandou. Ela disse que, nas últimas visitas ao presídio, incentivou o marido a voltar a desenhar tirinhas cômicas para se distrair. Gouveia está fazendo aulas de inglês para reduzir a pena, mas é difícil manter a rotina porque, com frequência, os antipsicóticos acabam e a direção do presídio demora duas semanas para entregar novos comprimidos. Nessas situações, Gouveia mal consegue se expressar.
– Como assim? Ele pode ficar sem a medicação? – perguntei.
– Não sei – respondeu Camila, virando-se para o advogado. – Ele pode, doutor?
– Eu só estou sabendo disso agora – disse Duarte, olhos esbugalhados. – Vou procurar me informar.
– Ele morde os dentes, fica balançando a perna e as mãos. Sabe o que ele me disse? Quando os remédios acabam, ele sonha com o capitão. Ele não quer sonhar com o capitão – disse Camila.
– Fala para ele rezar – recomendou Duarte.
Ela ficou em silêncio. O advogado anunciou que visitaria Gouveia na semana seguinte.
– Vai dizer o quê? – perguntou Camila.
– Para ele conversar com Deus quando tiver esses pesadelos.
O juiz anunciou a abertura da sessão. Camila sentou-se de frente para Marques e os quatro oficiais do Conselho Permanente de Justiça. No banco à sua direita, colocou uma mochila e o capacete da moto que a levou de Salto à capital paulista. A mesa do advogado estava à sua esquerda. Na leitura da denúncia, Marques enfatizou que aquele processo havia sido instaurado para apurar apenas a conduta da policial, portanto não tinha qualquer relação com o crime cometido pelo marido. Camila retirou um cubo mágico da mochila e começou a montá-lo. Evitava contato visual com o juiz.
A promotora Ortolano começou questionando o laudo psiquiátrico segundo o qual Camila deveria ser considerada semi-imputável. “O perito disse que ela não é portadora de moléstia mental instalada, mas sim de suscetibilidade a rompantes comportamentais com traços patológicos. […] Bastante impressionada com esse resultado, consultei um processo que julgamos semana passada, cujo laudo pericial foi escrito pelo mesmo médico psiquiatra.” Ortolano se referia ao caso de um PM acusado de desviar munições. “O réu foi encontrado em situação de suposta embriaguez e estava bastante exaltado, dizendo que pretendia atentar contra a própria vida. O laudo disse que não havia moléstia mental instalada. Naquele caso, era porque ele bebia em excesso, o que alterava sua capacidade de determinação. […] O laudo de Camila é igual — para não falar igual, semelhante. O perito fala que ela não é portadora de moléstia mental instalada, mas é suscetível a rompantes comportamentais. Ou seja: ela é impulsiva.” A promotora deu então sua cartada final: “Impulsividade pode caracterizar semi-imputabilidade? Não nos termos legais.”
Camila continuava montando o cubo mágico, com as mãos trêmulas e lágrimas no rosto. O advogado então apresentou a defesa, com seu ar desajeitado e inseguro. Disse que sua cliente estava sendo julgada pelo crime do marido, uma vez que as provas reunidas no processo indicavam que Camila era apenas vítima de um esquema de sabotagem orquestrado por colegas que não gostavam dela. Antes de dar seu veredito, o juiz pediu licença para dizer que achava uma triste desgraça o que acontecera em Salto. Perguntou a Duarte como estava o processo de Gouveia. Ouviu que a sentença de 45 anos fora confirmada, mas o advogado contou que planejava recorrer – e nada disse sobre a possibilidade de usar o caso extraconjugal. Com a sentença de Camila em mãos, Marques enfatizou outra vez que o julgamento dela não tivera qualquer relação com os assassinatos do marido (o inquérito que investigou a conduta de Camila, no entanto, só foi instaurado na tarde do crime).
“Ser policial deixa qualquer um maluco”, disse Marques. “Paga um salário legal, oferece um bom plano de saúde, mas também é muito perigoso. Quando sai na rua fardado, o policial é um alvo ambulante. O mundo é perigoso para eles. As Companhias de Polícia não podem ser perigosas também. É preciso ter respeito à hierarquia e aos colegas da caserna. Portanto, se a ré sair daqui impune, vai acabar estimulando outros casos de desordem na corporação.” O juiz sugeriu pena de 6 meses e 28 dias em regime aberto. Os oficiais do Conselho concordaram por unanimidade. Camila prestou continência e deixou a sala enxugando as lágrimas.
Duarte tentou acalmar a cliente argumentando que a pena foi branda. “Você vai prestar alguns serviços comunitários e, quando se der conta, estará livre.” Camila fixou o olhar no movimento de carros em frente ao tribunal. Sua vida se transformou numa coleção de incertezas. Embora não tenha sido presa, a condenação pode atrapalhar sua busca por emprego. Ela decidiu ser PM quando ainda era criança – “jamais tolerei injustiças e sempre defendi os mais fracos” –, mas agora a corporação tornou-se passado. Deixou a igreja evangélica depois da prisão do marido porque sente que Deus a abandonou. Não sabe dizer quem é o pai do seu filho caçula, mas tampouco tem coragem de fazer o teste de paternidade. Até hoje não contou ao marido do caso extraconjugal e da dúvida quanto à identidade do pai da criança. Ela pensa em fazer uma tatuagem com o nome “capitão Josias”, para levar consigo a culpa que acredita ter pela ruína de sua família. “Vai para casa, amanhã é outro dia”, aconselhou Duarte. Camila pôs o capacete, subiu em sua moto e tomou o caminho de volta a Salto.
[1] Este trecho da reportagem foi alterado para fins de precisão.