questões democráticas
Kate Conger e Ryan Mac Set 2024 15h04
21 min de leitura
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Tradução de Bruno Mattos, Christian Schwartz, Marcela Lanius e Mariana Delfini
As demissões no Twitter continuaram durante todo o mês de janeiro de 2023.[1] Nos Estados Unidos, rodadas intermináveis de cortes foram desmantelando as equipes de engenharia que trabalhavam na parte de produto e anúncios, bem como na área de confiança e segurança. Na Austrália, os poucos funcionários que ainda restavam foram mandados embora. No meio disso tudo, tinha gente que não sabia se tinha sido demitida ou não.
No início de janeiro, um designer que vivia na Europa e pedira demissão havia dois meses tentou descobrir de uma vez por todas o que é que estava acontecendo. Ele continuava com acesso ao e-mail corporativo e aos canais do Slack, o aplicativo de comunicação interno, mesmo depois de ter saído da empresa. Além disso, ainda estava recebendo o salário. O ex-funcionário tentara entrar em contato com o pessoal do RH, mas não sabia se tinha alguém recebendo suas mensagens já que várias pessoas do departamento também haviam sido mandadas embora durante as rodadas de demissão em massa.
Sem ter mais para onde correr, o designer enviou uma mensagem de Slack para algumas pessoas que poderiam ser as responsáveis pela gestão dos funcionários: “Eu sou tipo o cara do grampeador que aparece no Como enlouquecer seu chefe”, declarou. Era uma referência ao filme de 1999, em que um dos personagens acaba transferido para um escritório no meio do porão e o resto da empresa se esquece dele. Em determinado momento, alguém do Twitter finalmente tomou as rédeas da situação e concluiu o desligamento do designer.
Steve Davis, assistente de Elon Musk, por sua vez, continuava a eliminar os benefícios corporativos, incluindo o auxílio para planejamento familiar e o suporte financeiro para fertilização in vitro. As funcionárias do Twitter que haviam congelado seus óvulos ficaram atônitas, sem saber como arcar com um custo que até pouco tempo atrás era responsabilidade da empresa. Fora que tudo isso parecia cruel demais e até mesmo traiçoeiro: afinal, não era Elon Musk que dizia que as pessoas deveriam repovoar o planeta?
O bilionário havia se recuperado do “imprevisto” no final de dezembro de 2022,[2] mas seus tuítes continuavam no mesmo tom desvairado de sempre. Neles, era possível entrever uma mente fervilhando dentro de um filtro-bolha muito particular. Ainda que Musk sempre tivesse se posicionado como um libertário mais ao centro, isso não o impediu de tuitar que “Kevin McCarthy deveria ser o presidente da Câmara” na madrugada do dia 5 de janeiro. McCarthy era um deputado republicano da Califórnia e tinha apoiado as alegações de Trump sobre fraude eleitoral em 2020.
O início do novo ano trouxe também mudanças políticas no Brasil, que acabara de eleger seu novo presidente – o chefe do Twitter cravou as garras no que ainda restava da equipe de moderação de conteúdo, invalidando toda e qualquer decisão de remover tuítes que questionavam a derrota de Jair Bolsonaro. Logo depois da vitória de Lula, bolsonaristas começaram a alegar que a eleição tinha sido roubada, tal qual os apoiadores de Trump fizeram em 2020. Os moderadores de conteúdo do Twitter sabiam que precisavam agir rápido para evitar uma situação parecida com a invasão ao Capitólio e começaram a tirar do ar os tuítes que violavam as regras da plataforma.
Assim que descobriu o que estava acontecendo, Musk decidiu impedir os próprios funcionários, alegando que apenas tuítes que incitassem abertamente atos violentos ou então esbarrassem em decretos governamentais poderiam ser removidos. Ele estava fulo da vida com um juiz brasileiro que mandava várias solicitações para a empresa pedindo a remoção dos tuítes.[3] No dia 8 de janeiro, bolsonaristas invadiram o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal numa tentativa de golpe de Estado para manter o ex-presidente no poder.
Musk, por seu lado, não fazia mais questão de esconder que se tornara um direitista radical. Ele agora respondia a tuítes de perfis da direita americana e até se oferecia para investigar as reclamações que gente como @Catturd2 e Jack Posobiec faziam à plataforma. O primeiro era o alter ego de um homem da Flórida que se declarava apoiador de Donald Trump, e o segundo, um ativista que tinha alardeado a conspiração do Pizzagate.[4] Além disso, o bilionário também convidou Dave Rubin, que comandava um podcast reacionário, a conhecer a sede do Twitter – e permitiu que Rubin passasse dois dias lá para questionar os funcionários sobre o motivo pelo qual a conta dele agora tinha um alcance limitado.
A atividade política de Musk no Twitter começou a gerar alguns questionamentos. Em uma reunião de resultados da Tesla que aconteceu no dia 25 de janeiro, alguém perguntou se a politização do chefe não acabaria prejudicando a montadora de carros e assustando possíveis clientes. Só que Musk não enxergava a situação da mesma forma. Afinal, a marca de 127 milhões de seguidores comprovava que ele era “mais ou menos popular”.
Aos analistas e investidores, Musk também declarou que “na verdade, o Twitter é uma ótima ferramenta pra gerar demanda”.
No dia seguinte, ele foi até Washington para se reunir com Kevin McCarthy. Era aniversário do novo presidente da Câmara e os dois conversaram sobre as políticas do Twitter. Musk também encontrou um tempinho na agenda para falar com Jim Jordan, deputado de Ohio que servia como cão de guarda de Trump, e James Comer, um deputado do Kentucky que agora era responsável pelo Comitê de Supervisão e Responsabilidade e já anunciara suas intenções de investigar o presidente Joe Biden. Musk tinha um interesse especial no tópico, uma vez que várias de suas empresas estavam sofrendo com algum nível de investigação governamental. Ele queria saber se Biden teria os recursos necessários para usar as agências federais em iniciativas contra o Twitter.
Com a investigação da Comissão Federal de Comércio (FTC, na sigla em inglês) correndo há alguns bons meses, o bilionário acreditava que ele próprio era um alvo da Casa Branca e, por isso mesmo, estava determinado a se aproximar de pessoas que pareciam bem equipadas para proteger seus interesses. Ele também queria achar um jeito de evitar uma briga com a agência reguladora, pois havia recebido uma intimação para depor em fevereiro. A equipe de Musk chegara a propor uma conversa despretensiosa a Lina Khan, presidente da FTC. Ela rejeitou a ideia e, em uma carta, disse que seria melhor se o dono do Twitter respondesse às perguntas que os investigadores haviam mandado meses antes.
“Sugiro que o Twitter tente priorizar suas obrigações jurídicas e forneça as informações que foram solicitadas pela FTC”, ela escreveu. “Assim que a empresa tiver feito isso, estarei à disposição para agendar uma conversa com o sr. Musk.”
Um mês mais tarde, James Comer chefiou uma audiência na Câmara dos Representantes para investigar os possíveis vínculos entre as grandes empresas de tecnologia e o governo. Yoel Roth (ex-chefe do departamento de segurança do Twitter), Vijaya Gadde (ex-diretora jurídica da rede social) e outros compareceram para prestar esclarecimentos sobre aquilo que, na opinião de políticos conservadores, era uma suposta ditadura contra a direita; enquanto isso, os republicanos não se cansavam de elogiar a postura de Musk. Marjorie Taylor Greene, deputada da Geórgia que simpatizava com o QAnon e tivera sua conta no Twitter suspensa em 2022 depois de divulgar informações falsas sobre a vacina contra a Covid, resumiu bem o sentimento do seu lado do espectro político. “Graças a Deus que o Elon Musk comprou o Twitter.”
De fato, a direita tinha vários motivos para celebrar a presença de Musk no Twitter. Para muitos, ele era uma liderança que afrouxaria as regras da plataforma, responsáveis por banir as contas de tantas pessoas influentes. O perfil de Marjorie Taylor Greene tinha sido reativado no fim de novembro, depois de um pedido de McCarthy à nova gestão do Twitter, e marcou o início do que Musk chamou de “anistia geral” de perfis anteriormente suspensos.
A partir daquele momento, uma lista insólita de celebridades da extrema direita retornou à plataforma. Ali Alexander, suspenso do Twitter depois do caos do 6 de janeiro no Capitólio, estava de volta. Ele era o organizador do movimento Stop The Steal, que alegava fraude nas eleições. Ron Watkins, o possível criador da teoria QAnon, também voltou. E além deles, Nick Fuentes, um supremacista branco e autoproclamado incel (involuntary celibates/celibatários involuntários) com um discurso tão cheio de ódio que encontrou seguidores em um grupo racista chamado Groypers. Fuentes, contudo, não durou muito tempo na plataforma. Na mesma noite em que sua conta foi reativada, ele entrou em um Twitter Spaces para berrar a plenos pulmões que simpatizava com Adolf Hitler e iria “começar uma guerra contra os judeus”. Acabou sendo suspenso de novo – embora Musk tenha permitido que ele retornasse mais uma vez em maio de 2024.
A presença de Musk se fez sentir para além da anistia. Em um tuíte postado no dia 16 de janeiro de 2022, ele declarou: “As pessoas da direita deveriam ver mais coisas ‘de esquerda’ e as pessoas da esquerda deveria ver mais coisas ‘de direita’.”
Na prática, o que aconteceu foi um alargamento das vozes vindas da direita radical. Por mais que Musk tivesse defendido a ideia de “proporcionar liberdade de expressão, mas não liberdade de alcance”, os algoritmos da plataforma passaram a recomendar mais e mais perfis e tuítes conservadores. Do mesmo modo, novos usuários agora recebiam recomendações para seguir perfis como o de Ron DeSantis, o governador republicano da Flórida; Ted Cruz, senador do Texas; e Jack Posobiec, que ganhara fama divulgando teorias da conspiração.
Grupos que vigiavam plataformas e redes sociais, como o Centro de Combate ao Ódio Digital (CCDH, na sigla em inglês) e a Liga Antidifamação (ADL, na sigla em inglês), registraram números estarrecedores. Desde o início da nova gestão, xingamentos contra afro-americanos haviam triplicado no Twitter, e o discurso antissemita crescera em 60%. A presença de contas com algum tipo de filiação a grupos terroristas, como o Estado Islâmico, também aumentara.
Em meados de janeiro, os algoritmos da plataforma recomendaram o vídeo de um homem esfaqueando uma mulher repetidas vezes antes de matá-la. O conteúdo apareceu na aba “Para você” dos feeds de diversos usuários e acumulou mais de 1,2 milhão de visualizações, 7,5 mil retuítes e quase 22 mil curtidas. Era uma consequência direta de duas diretivas de Musk: a priorização do engajamento e a remoção dos parâmetros de segurança do site.
O Twitter também estava abarrotado com conteúdo de abuso sexual infantil, algo que não era um problema simples de resolver. Uma vez que olhar esse tipo de material é proibido pela lei, as empresas não podiam alocar funcionários para vasculhar as plataformas atrás de imagens, fotos e vídeos com crianças. Por esse motivo, o trabalho ficava a cargo de bancos de dados compostos por funções hash, que nada mais são que assinaturas digitais criadas para identificar imagens de agressões com base em materiais já apreendidos pela polícia. Com as funções hash, as empresas podiam tirar os materiais do ar sem que nenhum funcionário tivesse que descumprir a lei.
Esse mesmo mecanismo vinha sendo usado pelo Twitter já há algum tempo, mas vários conteúdos de caráter sexual continuavam circulando pela plataforma. Parecia que, no meio de todo aquele caos de demissões e corte de gastos, a empresa de Musk perdera parte da capacidade de detectar e remover o material. Um dos contratos que o Twitter tinha deixado de pagar, por exemplo, era o da Thorn – uma empresa de tecnologia que construíra um banco de dados com funções hash para detectar vídeos de abuso infantil.
Foi assim que um vídeo bem explícito de um menino sendo sexualmente assediado ficou rolando pelo Twitter e acabou acumulando 120 mil visualizações, de acordo com uma investigação conduzida pelo New York Times. O algoritmo da plataforma também começou a sugerir perfis que postavam imagens de outras crianças em situações similares.
Na mesma época em que o Twitter ia dando cada vez mais palco para vozes radicais de direita, o novo chefe da empresa começava a desenvolver uma amizade sincera com um político republicano especial: Jim Jordan, que, durante a audiência realizada no dia 8 de fevereiro na Câmara dos Representantes, deixara explícita sua crença de que a gestão de Musk era benéfica para o Twitter. Ele era um aliado capaz de defender o bilionário diante do escrutínio cada vez maior vindo de legisladores e agências reguladoras democratas.
Boa parte desse escrutínio vinha da FTC, que no início de fevereiro já mandara doze cartas para a empresa. Os investigadores queriam respostas e haviam entrevistado gente como a ex-chefe de segurança da informação do Twitter, Lea Kissner, e Damien Kieran, um ex-diretor de privacidade da mesma empresa.
Na opinião de Elon Musk, isso era inadmissível. Ele autorizou Christian Dowell, um dos advogados seniores que ainda trabalhavam na empresa, a compartilhar não apenas as demandas da FTC, mas também outros documentos relevantes com o escritório de Jim Jordan. Assim, o deputado teria algo valioso em mãos e conseguiria tirar do papel a comissão para investigar “o governo federal e seus mecanismos de ataque”. A equipe de Jordan também recebeu um convite especial de Musk para visitar a SpaceX no Texas.
O bilionário encontrara ainda um ombro amigo em Christine Wilson, a única comissária republicana da FTC. Os dois tiveram uma reunião em fevereiro, e na ocasião o chefe do Twitter abriu o jogo, alegando que sofria uma perseguição por parte do governo. James Kohm, um dos líderes do setor de investigação da agência, estava presente à conversa. Wilson também achava que a FTC tinha feito de tudo e mais um pouco para perseguir Musk, mas não havia nada que pudesse fazer. Ela acabara de pedir demissão e, portanto, estava de mãos atadas. Kohm, por sua vez, não pareceu muito preocupado, tanto que sua equipe continuou a mandar cartas pedindo esclarecimentos da empresa.
Ainda assim, Elon Musk conseguiu fazer com que a FTC adiasse a data do depoimento. Ele não tinha a menor vontade de responder nada sob juramento em uma situação dessas.
A cabeça de Musk estava a mil, e não só por conta da situação com o governo. A plataforma do Twitter vinha enfrentando problemas internos desde o desligamento do SM(o centro de processamento de dados do Twitter na cidade de Sacramento) e pelos inúmeros ajustes desleixados feitos nas ferramentas e serviços do site. Mas, para além de tudo isso, o dono da empresa estava obcecado pelo fato de que seus tuítes já não tinham mais os mesmos níveis de engajamento.
Os engenheiros do Twitter também haviam notado a queda no engajamento, mas não sabiam explicar o ocorrido. A verdade é que o algoritmo do Twitter (bem como o próprio serviço do site) passara por diversas mudanças desde o início da gestão Musk, de modo que vários fatores diferentes poderiam estar causando aquilo. O chefe chegou a deixar seu perfil no modo privado para ver se o problema se resolveria caso apenas seus seguidores pudessem ver os tuítes. No dia 1º de fevereiro, ele postou a afirmação de que “Há algo muito errado acontecendo” e passou a noite inteira no escritório, tentando solucionar um problema que, segundo ele próprio, era de natureza existencial.
Para os funcionários que se viram na posição de ter que responder às perguntas de Musk sobre o alcance dos tuítes, a situação pareceu um pouco absurda. Ali estava o homem mais rico do mundo, obcecado pelos níveis de engajamento dos tuítes que continuavam juntando milhões e mais milhões de visualizações, mesmo com uma suposta queda. Por outro lado, havia quem entendesse que era possível que isso fosse uma mostra do que aconteceria com outras contas dali para a frente. Ainda assim, os testes realizados não registraram nenhuma queda brusca no engajamento de outros usuários.
No dia 7 de fevereiro, a raiva do bilionário atingiu seu ápice. Ele convocou uma nova reunião para tratar do engajamento de seus tuítes, dizendo que a situação era “ridícula”. Steve Davis, sempre bajulador, mostrou tuítes antigos do chefe e foi comparando as estatísticas dessas postagens com os números mais recentes, para reforçar a reclamação. Num estado de irritação crescente, Musk ordenou: “Alguém tem que me explicar o que está acontecendo.”
As pessoas que estavam ali não tinham nenhuma explicação para oferecer. Até que Yang Tang, um engenheiro que se especializara na área de aprendizado de máquina (machine learning) e estava há quase uma década na empresa, deu um passo à frente. Tang sabia muito sobre a inteligência artificial por trás dos feeds personalizados do Twitter, mas não tinha experiência em lidar com Elon Musk. Aqueles que já haviam estado na mira dos raios de explosão do bilionário sabiam que era proibido falar fora de hora ou abrir a boca para oferecer palpites. Também sabiam que era sempre melhor criar apresentações que o chefe pudesse acompanhar pelo celular, já que ele quase nunca usava um computador. Tang, no entanto, não tinha recebido nenhum desses avisos.
O engenheiro começou a improvisar algumas falas com base na apresentação que tinha em seu laptop. E, em vez de dizer que não sabia como explicar a situação, Tang começou a mencionar outras métricas dignas de nota, como o número de curtidas, que estava caindo em toda a plataforma.
Ele foi logo interrompido por um rosnado de Musk: “Eu não estou falando de curtidas. Eu estou falando de visualizações.”
Tang tentou mais uma vez, fazendo questão de citar fatores externos. O número de buscas pelo nome de Musk no Google também tinha caído, e isso poderia estar relacionado aos números de engajamento registrados no Twitter. Talvez as pessoas só estivessem menos interessadas no bilionário agora que a aquisição da empresa fora finalizada. Vai ver o problema todo não tivesse nada a ver com o algoritmo.
Musk apenas vociferou: “Você está demitido! Demitido!”
O engenheiro fechou o laptop e se dirigiu para fora da sala de reuniões. Aqueles que permaneceram lá dentro foram engolidos pelo silêncio e tentaram evitar o olhar de Musk, rezando para não serem intimados a oferecer uma resposta.
Por fim, um dos funcionários com mais tempo de casa disse que a equipe iria estudar a situação e teria uma resposta em 24 horas.
Contudo, o prazo chegou e passou sem que o problema fosse solucionado. No sábado dessa mesma semana, vários engenheiros trabalharam até altas horas da noite junto com Musk para tentar encontrar a solução. A certa altura, uma das pessoas da equipe ligou para um engenheiro que trabalhara por mais de uma década na empresa e que muito possivelmente seria a única pessoa com o conhecimento necessário para resolver aquilo. Ele tinha saído do Twitter não fazia muito tempo e, ainda assim, foi parar numa ligação em viva voz com Musk. Embora meio chocado com a situação, o engenheiro tentou oferecer algumas respostas. Impressionado, o bilionário perguntou se ele não gostaria de voltar para o escritório só por algumas horas, para tentar solucionar o problema de uma vez por todas.
“Eu te pago um valor ótimo, para compensar”, Musk ofereceu. Só que o ex-funcionário tinha visto em primeira mão o tratamento que seus antigos colegas haviam recebido nos últimos meses. Ele recusou o convite e, logo depois, desligou.
No dia seguinte, um Musk cabisbaixo estava sentado no camarote de um estádio de futebol americano em Glendale, no Arizona. Era noite de Super Bowl e o Philadelphia Eagles competia contra o Kansas City Chiefs. Mas, apesar de estar lá como convidado do magnata Rupert Murdoch, que comandava a emissora responsável por transmitir o evento, o dono do Twitter não desgrudava os olhos da tela do celular. Logo no início da partida, Musk lançara o tuíte “Bora, @Eagles!!!” – uma mensagem a princípio inocente para o time da Filadélfia, cidade na qual o bilionário vivera alguns anos quando frequentara a Universidade da Pensilvânia.
Uns quarenta minutos mais tarde, no perfil oficial da Presidência dos Estados Unidos (@potus) no Twitter, o presidente Joe Biden postou um vídeo da primeira-dama vestindo uma camisa personalizada do Eagles e declarou: “Como presidente deste país, não estou torcendo para nenhum time. Mas, como marido da Jill Biden, digo apenas: Vai, Eagles.”
O tuíte do presidente correu a plataforma e conquistou 29 milhões de visualizações, enquanto a singela torcida de Musk atingira apenas 8,4 milhões. Para piorar, o perfil @potus tinha um número bem menor de seguidores do que o perfil do bilionário.
Uma partida emocionante se desenrolava nos gramados do campo, só que Musk estava alheio aos gritos da torcida e aos encontrões dos jogadores. Ele não parava de comparar o próprio tuíte com aquele postado pelo presidente, e a certa altura chegou a excluir seu “Bora, @Eagles!!!”. A raiva era tanta que ele começou a enviar um e-mail atrás do outro para os engenheiros da empresa, ordenando que encontrassem uma explicação o mais rápido possível. Ainda colado no celular, disparou mensagens para que os trabalhadores batessem ponto na sede do Twitter dali a algumas horas. Antes de o jogo terminar com a vitória do Chiefs, Musk já estava em seu jatinho particular rumo a São Francisco.
Dezenas de engenheiros foram até o escritório da empresa nessa noite. Uma boa parte deles tinha vindo direto das festinhas para assistir ao Super Bowl só para lidar com o chilique do chefe.
Um pouco mais calmo, ele declarou aos funcionários: “Não sei se o que está acontecendo é sabotagem ou pura incompetência.”
Agora que James Musk, primo de Elon, sinalizara a questão como de “altíssima urgência”, cerca de oitenta engenheiros viraram a noite elencando justificativas plausíveis para a queda no engajamento dos tuítes do chefe. Uma das teorias que circulou era a de que Elon Musk fora bloqueado ou silenciado por tantos usuários naqueles últimos meses que o número de pessoas que de fato via os tuítes dele acabou caindo, e isso tinha feito com que o algoritmo da plataforma penalizasse o perfil dele.
Na segunda-feira, alguns engenheiros enfim encontraram a causa do problema e descobriram que o algoritmo da plataforma não estava exibindo os tuítes de Musk dentro da cadência esperada nos feeds de seus seguidores. Isso, por sua vez, impactava um sistema conhecido como “tuítes externos à rede”, responsável por recomendar tuítes vindos de perfis que os usuários não seguiam. O objetivo do sistema era incentivar as pessoas a se conectarem com contas mais variadas dentro do Twitter, só que ele não estava sugerindo os tuítes de Musk para pessoas que não o seguiam. O resultado, portanto, era a redução do alcance da conta. A equipe de engenheiros também conseguiu determinar que o erro vinha afetando apenas alguns poucos usuários com perfis muito populares.
Por mais que o problema tivesse sido identificado, ainda não havia uma solução elegante para ele. E os engenheiros sabiam que precisavam arranjar um jeito de consertar a situação logo e acalmar os ânimos do chefe. Foi assim que eles introduziram um novo código no algoritmo de recomendação, para garantir que o sistema tratasse com prioridade os tuítes do bilionário e passasse a exibi-los nos feeds dos usuários: author_is_elon (autor_é_elon). Na prática, isso significava que os tuítes de Musk passariam a ter uma importância muito maior do que qualquer outra postagem.
Na tarde dessa mesma segunda-feira, usuários do Twitter começaram a reparar que a seção “Para você” estava abarrotada de tuítes postados por Musk e não havia quase nenhum outro tipo de conteúdo aparecendo como sugestão. Elon finalmente tinha a sua própria câmara de eco.
Ele se deu conta de que isso poderia ser um pouco ridículo demais e recorreu ao humor para tentar colocar panos quentes na situação. Às 21h35 de segunda-feira, tuitou um meme com uma mulher forçando comida garganta abaixo de outra. A primeira tinha “Tuítes do Elon” escrito em cima dela; a segunda, “Twitter”. Enquanto isso, os engenheiros da plataforma precisaram varar mais uma noite para remover a ênfase exagerada nos tuítes do chefe.
Apesar de tudo, Musk estava cada vez mais desconfiado das pessoas que trabalhavam para ele. Numa tentativa de impor a política de trabalho presencial, chegou mesmo a pedir que Steve Davis e outros correligionários monitorassem quando e se os funcionários estavam batendo ponto no escritório. Aqueles que não cumprissem o número esperado de horas ficavam marcados para possíveis demissões e eram forçados a participar de “planos para melhorar a performance”. O resultado era que muita gente ia até o escritório só para bater ponto e voltava para casa, evitando assim um confronto com o chefe ou seus lacaios.
Na quinta-feira, 23 de fevereiro, o Slack da empresa saiu do ar para uma chamada “manutenção preventiva”. O volume de conversas nos canais mais movimentados do serviço havia diminuído bastante desde a rodada de demissões em novembro, e quase ninguém ousava enviar mensagens que pudessem ser interpretadas como críticas a Musk ou à sua gestão. Contudo, o Slack ainda era a principal plataforma de comunicação interna da empresa, e era nele que os funcionários monitoravam problemas no site e acompanhavam o lançamento de novos recursos. Muita gente ficou desconfiada do que estava acontecendo, e uma parte considerável do trabalho na empresa foi interrompida. Na verdade, o Twitter não havia pagado a assinatura para continuar usando o Slack, mas um porta-voz do aplicativo garantiu que o serviço não seria suspenso.
Dias antes, Steve Davis tinha pedido a alguns gerentes de equipe que começassem a listar seus melhores funcionários, pois, segundo ele, essas pessoas receberiam um bônus. Algumas semanas antes, três dos principais engenheiros da empresa tinham sido demitidos depois de pedir um aumento de salário, para si próprios e suas equipes, como forma de minimizar o desgaste inevitável das longas horas de trabalho e da carga emocional dos eventos recentes. Mas quem sabe o pedido de Davis não seria o sinal de uma trégua por vir? Talvez o novo alto escalão tivesse se dado conta de que precisava oferecer incentivos para que as pessoas ficassem na empresa.
No sábado, o real motivo foi revelado. Musk estava se preparando para mais uma rodada de demissões, e desta vez ele queria cortar gente de todas as áreas da empresa. Um engenheiro que era responsável por gerenciar vinte trabalhadores e assinalara quatro integrantes da equipe como pessoas de “alto desempenho” de repente se deu conta de que, a partir de agora, só aquelas quatro pessoas continuariam trabalhando ali. O “bônus” prometido nada mais era do que a honraria de poder continuar no Twitter.
Nesse mesmo dia, Esther Crawford, diretora de gestão de produto, teve seu acesso a e-mail e computador da empresa bloqueado. A jornada dela debaixo da asa de Musk chegara ao fim, em grande parte porque ela fazia parte de um seleto grupo de funcionários bem remunerados que haviam chegado ao Twitter depois da aquisição de suas empresas. Os contratos das pessoas de tal grupo estipulavam um alto valor em distribuição de dividendos acumulados ao longo do tempo, ou então pagamento integral, caso fossem demitidas antes do prazo acordado. Musk, no entanto, achava que havia margem para contestar esses contratos, e também acreditava que os salários elevados precisavam ser extirpados. Crawford, que na opinião de muita gente tinha sido adepta dos métodos de Musk, não postou nenhum tuíte sobre a demissão.
Trecho do livro Limite de caracteres, a ser publicado em outubro pela editora Todavia.
[1] Elon Musk comprou o antigo Twitter, atual X, por 44 bilhões de dólares (cerca de 235 bilhões de reais na época) em outubro de 2022 e logo iniciou uma série de demissões. (Todas as notas são da Redação.)
[2] Em dezembro de 2022 saiu o resultado de uma enquete feita por Elon Musk no Twitter perguntando se ele deveria renunciar ao cargo de chefe da rede social. Mais de 17,5 milhões de perfis votaram, e 57,5% dos participantes pediram a renúncia.
[3] Trata-se do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, com quem Elon Musk tem tido atritos frequentes. No mais recente, depois que Musk fechou o escritório de sua rede social no Brasil, o ministro exigiu que nomeasse um representante no país em 24 horas, sob pena de bloqueá-la. O prazo se esgotou e, até o fechamento desta edição, a rede social continuava operando normalmente.
[4] Pizzagate foi o escândalo político provocado por uma fake news que, em 2016, relacionou a então senadora Hillary Clinton, candidata à Presidência dos Estados Unidos, bem como outros políticos democratas, a uma suposta rede de prostituição e tráfico de crianças, cuja base de atuação seria uma pizzaria em Washington.