cartas
Set 2024 16h15
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UM DEFEITO DE COR
Armando Antenore me deixou sem fôlego com seu perfil de Ana Maria Gonçalves e resenha do livro Um defeito de cor (A guardiã, piauí_215, agosto). Confesso que somente agora estou vencendo o catatau, perguntando-me por que não o li antes. A necessidade e o receio de continuar a escrever depois de uma obra dessas, revelados por Ana Maria, são semelhantes ao que viveu Euclides da Cunha. Depois de Os sertões, iria realizar Um paraíso perdido, o segundo “livro vingador”, relativo à Amazônia. Foi assassinado antes e só restaram excertos aglutinados em À margem da história. Nem todos têm o privilégio de serem tocados por Jorge Amado e iniciar sua carreira literária, mas foi um deleite saber das múltiplas sagas da autora. O único “defeito” dela é temer a química, colando no ensino médio (que coisa!). Isso explica por que Primo Levi, o “quimiscritor”, não consta das fartas listas de autores e referências na matéria.
ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP
PISEIRO
Maravilha, verdade e coragem, na humildade de João Gomes e a conversa com Tiago Coelho (João Gomes tem a senha?, piauí_215, agosto). Tiro certo na música brasileira que o Sul/Sudeste, metidos a besta, desconhecem – a raras exceções.
CAETANO LAGRASTA NETO_SÃO PAULO/SP
SUGESTÃO E CONSELHO
Sou colecionador da revista e leio quase tudo. Confesso que ultimamente as ocupações da vida têm me impedido de, deitado na rede, escolher – a paráfrase é de Italo Calvino – o que começar a ler, o que ler até o fim e o que solenemente ignorar.
Dito isso, tenho uma sugestão e peço um conselho.
Sugestão: organizem, à moda de efeméride, um livro (capa dura, capa de tecido – tenho fetiche em livros com capa de tecido) com os melhores textos de todos os tempos, os mais comentados etc.
Conselho: como meus coleitores guardam suas mais de duzentas revistas? Mandaram fazer um móvel sob medida (com que dinheiro?)? Empilham? Arquivam?
Saúde e paz.
VINÍCIUS LETTI FLORES_PORTO ALEGRE /RS
NOTA NARCISISTA DA REDAÇÃO: E um livro com as melhores respostas às cartas dos leitores.
FORMAS ANÁLOGAS À ESCRAVIDÃO
Ainda sob o impacto da leitura do artigo de Angélica Santa Cruz (Sorriso, uma biografia, piauí_215, agosto), resolvi enviar esta mensagem, não apenas para dizer o quanto aprecio esta publicação (aqui em casa compramos assiduamente a versão física em banca, há anos), mas também para comentar brevemente sobre essa chaga medonha da exploração humana, que ainda aflige a maior parte do planeta.
Em 1994, defendi, na USP, uma dissertação de mestrado abordando o destino das crianças nascidas livres a partir da Lei nº 2040 de 1871 (Lei do Ventre Livre), em que constatava o uso do vínculo tutelar para sujeitar crianças livres às piores condições de trabalho. Note-se que o vínculo tutelar, que originalmente destinava-se a proteger crianças órfãs, foi longamente usado para sequestrar os filhos livres das famílias escravizadas. E, posteriormente, para obter mão de obra facilmente explorável, ao tutelar crianças oriundas de famílias pobres ou miseráveis. Por ser um vínculo com chancela judicial, raramente é visto como abusivo ou ilegal.
Minha pesquisa foi pioneira e gerou algumas dezenas de trabalhos que perseguiram a mesma pista. Fico imaginando que algum jornalista expedito, se resolver pesquisar nos dias atuais, talvez encontre aí pistas de exploração e escravização semelhantes às da desventurada Sorriso, cuja história despertou-me os ecos de tantas do século XIX.
Quanta tristeza e vergonha da nossa sociedade!
Agradeço a atenção e congratulo a redação por manter a qualidade da revista, sem perder o humor e a versatilidade.
ANNA GICELLE GARCÍA ALANIZ_CAMPINAS/SP
LÍTIO
Parabenizo a piauí_214, julho, na qual a excelente matéria da Karla Monteiro fala da mineração de lítio em Araçuaí (Pobre cidade rica). Faltou acrescentar que essa região do estado, longe de ser inóspita, possui grande endemismo de cactos que só ocorrem ali e que podem desaparecer em virtude dessa exploração. Infelizmente não há unidades de conservação nesses municípios para salvaguardar as espécies ameaçadas (cada vez mais) de extinção.
DANIELA ZAPPI_BRASÍLIA/DF
AGOSTO
A piauí_215, agosto, começou bem com a necessária matéria O atirador e o candidato a ditador, de David Frum. Afiada nas charges ao longo da edição, a revista fechou com o comovente relato De patas pro ar, de Armando Antenore. Seguindo o ritmo, sugiro, em uma próxima edição, reportagens sobre Cacau, a quatro patas vencedora do concurso de surfe para cães na Califórnia, o Cavalo símbolo das enchentes no Rio Grande do Sul que ficou dias em cima do telhado de uma casa até ser resgatado, ou também uma matéria a respeito do conhecido perfil “Malcom Salsicha” no Instagram, sobre dois casais de caninos e felinos que vivem aprontando na mesma casa. No mais, saudações piauienses aqui da Bahia.
ERIVAN AUGUSTO SANTANA_TEIXEIRA DE FREITAS/BA
NOTA ESPECISTA DA REDAÇÃO: Já ouviu falar na Cães e Cia?
VARIEGADOS
Como assinante há alguns anos, já tive várias ocasiões em que considerei escrever para a revista após ler algumas de suas reportagens. Hoje, escrevo esta mensagem para compartilhar minhas impressões sobre alguns textos que li (ou pelo menos comecei a ler) neste ano.
Como amante do futebol e frequentador de estádios, apreciei especialmente o belo relato de João Moreira Salles sobre sua relação com o Botafogo, seu clube do coração, na piauí_210, março (O que eu tenho a ver com tudo isso). Também gostei do artigo de Rodrigo Barneschi (A negação do outro, piauí_212, maio), que discorre sobre as consequências da torcida única nos jogos de futebol no estado de São Paulo.
No entanto, gostaria de compartilhar um certo desconforto que experimentei ao ler as reportagens de Breno Pires sobre o TCU (“Vai, Bruno!”, piauí_214, julho) e sobre as disputas dos donos da IBS na Justiça e nas cortes de arbitragem (O vale-tudo, piauí_209, fevereiro). Não quero desmerecer o trabalho do repórter, que acredito ter sido hercúleo para tornar essas matérias tão minuciosas mais acessíveis ao leitor. No entanto, as histórias, repletas de idas e vindas em instâncias administrativas e tribunais, onde predominam os jargões burocráticos e jurídicos, tornaram a leitura monótona e árida para mim.
Embora eu compreenda que muitos leitores possam ter uma percepção diferente, continuarei a ser um leitor assíduo, esperando que, em futuras edições, a revista continue a dedicar algumas páginas ao esporte bretão.
OSVALDO PACÍFICO_CORONEL FABRICIANO/MG
CAETANISMO
Somente agora tive a satisfação de ler o texto do Luigi Mazza (A síndrome caetanista, piauí_212, maio). Lúcido a ponto de incomodar.
LEONARDO PÁDUA_SÃO PAULO/SP
ABELHAS
A Esquina Que venham as abelhas, na piauí_214, julho, mostra como a música é um registro. A música Canoeiro registrou que há cem anos, quando o Rio Pardo enchia muito, ele cobria as taboas, plantas aquáticas de 1,5 metro de altura; hoje, quando esse rio enche muito, ele alcança os telhados das casas das margens.
DJALMA ROSA_SÃO SIMÃO/SP
NOTA MUSICAL DA REDAÇÃO: É a famosa M(c)PB – Mudança Climática Popular Brasileira.
CADÊ AS CARTAS?
Todos os meses começo a leitura da revista pela seção Cartas. Assim, vejo a repercussão das reportagens entre meus colegas leitores e, frequentemente, me divirto com as notas da Redação.
Mas, para minha decepção, a edição de agosto teve apenas duas cartas publicadas. Nem as já tradicionais missivas do Dirceu e do Adilson apareceram, me deixando com a sensação de incompletude.
O que houve? O editor saiu de férias, adoeceu ou não teve ânimo para elaborar mais notas irônicas da Redação? Estou preocupado com a saúde dele e dos nossos tradicionais missivistas!
E, se o problema for a falta de novas cartas, deixo aqui meu apelo aos colegas para que voltem a encher a caixa de entrada da Redação. Como diria Alcione, não deixemos a seção de cartas morrer.
RICARDO ROSADO_SÃO PAULO/SP
NOTA EMOTIVA DA REDAÇÃO: Sabe Roberto Baggio depois da Copa de 1994? David Luiz após o 7 a 1? João Moreira Salles após o Campeonato Brasileiro de 2023? Pois foi assim que este respondedor de cartas se sentiu no mês passado, diante de tão pouco material recebido. A culpa era minha? Não estaria mais à altura do nobre cargo? Deveria me espelhar no exemplo de Joe Biden, abrindo espaço às novas gerações? A resposta é não, pois a sua carta vem como um bálsamo, Ricardo – uma resposta aos milhares e milhões que tentam sem sucesso me calar, recusando-se a enviar novas missivas à Redação. Mas vide a fartura espalhada por essas duas páginas! Os tempos são outros: habemus cartam!
BOTAFOGO X PALMEIRAS II
Creio que o botafoguense João Moreira Salles nos deve um artigo complementar sobre a nova partida sobrenatural que reuniu as duas equipes em destaque.
Não vejo o 4 a 3, placar acumulado nas oitavas da Libertadores, como vingança do destino, trapaça da sorte ou coisa que o valha. Sim, porque a forma com que se deu a classificação para as quartas revelou-se extremamente cruel para com os torcedores do Fogão, que insistem em se queimar nesse relacionamento tóxico.
Algo similar à Lei Maria da Penha voltada ao futebol poderia ser tentado para inibir a tortura a que são submetidos os masoquistas mais sensíveis.
SÉRGIO CARVALHO BANDEIRA DE MELLO_RIO DE JANEIRO/RJ
SUPERFAKES
Gostaria de parabenizá-los pela matéria A era dos superfakes (piauí_215, agosto). Trabalho no mercado premium e achei todos os assuntos contundentes.
Mas gostaria de falar algo que me incomodou. O comportamento da geração Z é muito pautado pela complexidade que o próprio pós-capitalismo selvagem nos colocou. Comprar ou não produtos originais se tornou, em suma, uma questão esdrúxula ao lado da perspectiva de futuro desta mesma geração, sentimento causado em grande parte pelas grandes corporações. Questionamentos comuns são: “Não sei nem se o mundo vai existir daqui a dez anos.” Esse tipo de pensamento hedonista tem relação direta com as mudanças climáticas e pilhagem do planeta por grandes corporações e imbui nesta geração uma urgência (com auxílio das redes sociais). Não se tem mais o pensamento de comemorar um grande marco da vida com a compra de luxo, como era comum na geração passada. Se quer tudo agora; afinal, o futuro pode não existir.
Senti falta no texto das notícias recentes de marcas como Loro Piana, utilizando mão de obra mal remunerada no Peru, em relação a seus preços estratosféricos e estratégia quiet luxury, além das recentes acusações contra a Dior por uso de trabalho semiescravo e aumento do lucro.
Vale também ressaltar uma recente “surgência” no TikTok de profissionais “desconstruindo” bolsas e artigos de luxo para comprovarem sua qualidade, algo tido como uma chancela do preço praticado. O chocante é que muitos dos itens testados não resistem aos testes e requisitos mínimos, couros de má qualidade, acabamentos de plástico e, mais uma vez, valores estratosféricos. Isso tem gerado uma consciência coletiva que induz à perda de valor dessas mercadorias antes tidas como materiais de qualidade intocáveis, ao mesmo tempo que inflaciona o mercado de segunda mão. A própria Chanel tem sido pressionada pela queda da qualidade em suas bolsas, que possuíam suas ferragens banhadas a ouro 18 quilates até 2010, e hoje enfrenta uma crise publicitária sobre a qualidade recente de seus produtos e aumento “abusivo” dos preços.
Não sei se o que falei faz sentido ou é relevante, mas senti um ímpeto de trocar esta mensagem. Parabéns pela escrita!
THARCISO AZANKI_SÃO PAULO/SP
MINHAS CONSIDERAÇÕES
Vocês não têm a revista em outro papel? Esse papel áspero tem um toque tão distante do meu gosto. A não ser que haja algum motivo bem específico, além do conforto da textura ao toque.
Por que as reportagens são narrativas de tristeza e melancolia? Eu parei de assinar aquela plataforma Mubi. A vibe “filme europeu triste” não combina com as notícias que um homem preto e gay brasileiro precisa escutar. Se eu der um Ctrl+F e colocar “pobreza e fome” só restam os poemas tortos do Ricardo Aleixo.
Por que a reportagem do Trump (O atirador e o candidato a ditador, piauí_215, agosto) é a primeira da revista? A gente não combinou de ser mais brasileiro daqui pra frente?
UBIRACY DO AMARAL JUNIOR_RECIFE/PE
NOTA CONSTERNADA DA REDAÇÃO: Já cogitou ficar só na seção de cartas?
ERRATAS
*Ao contrário do que está escrito na reportagem A camaleoa (piauí_215, agosto), Gabriel Lindenbach não foi chefe de gabinete de Sâmia Bomfim, mas sim integrante da equipe de relações públicas da então vereadora. Ele também não é o criador do Bancada Ativista, embora tenha integrado esse movimento pluripartidário.
*Na Esquina Os olhos do cortiço (piauí_215, agosto), a diretora musical Rach Araújo foi erroneamente identificada como atriz.