Imagem Memórias póstumas de Antonio Candido

questões culturais

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE ANTONIO CANDIDO

Em dois documentários, o legado extraordinário do crítico

20 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

Entre início de abril e julho deste ano, dois filmes sobre Antonio Candido estrearam em sessões especiais realizadas em São Paulo e no Rio de Janeiro. O primeiro, Antonio Candido – Anotações finais 2015-2017, do diretor, montador e crítico Eduardo Escorel,[1] se baseia nos cadernos do professor e crítico literário. Sua estreia nos cinemas está prevista para 26 de setembro. O segundo, O avô na sala de estar, a prosa leve de Antonio Candido, dirigido por Marcelo Machado e Fabiana Werneck, foi concebido a partir de entrevistas realizadas pela neta Maria Clara Vergueiro, então com 29 anos, com seu avô, que já chegara aos 91 anos.[2]

Os filmes são contrastantes e, de certa forma, complementares. Na sala de estar, Antonio Candido está vivo; nos diários, morto. Nos depoimentos colhidos pelo segundo filme, predomina a linguagem espontânea da fala; na escrita exposta no documentário de Escorel, a linguagem formal vazada numa letra que começa a dar sinais de instabilidade.

O surgimento simultâneo dos dois filmes não foi planejado, mas é uma coincidência feliz: o retrato que daí decorre é mais completo. Não houvesse a fala, o espectador não saberia que Antonio Candido, nascido no Rio de Janeiro no ano da gripe espanhola, criado em Poços de Caldas, com passagem por Paris, se exprimia com o “erre retroflexo”, marca do caipira que ele estudou em Os parceiros do Rio Bonito (1964).

Anotações finais é um filme feito segundo os padrões profissionais, com equipe e processos da indústria,  enquanto O avô na sala de estar não esconde a fatura amadora, modesta nos meios de que dispunha, sem prejuízo da expressividade conferida pela espontânea presença da neta na casa do avô. O Sesc São Paulo foi coprodutor de ambos, por meio do canal SescTV.

Antonio Candido era conhecido como grande conversador. Dominava uma reunião social sem esforço. Dotado de um repertório impressionante de histórias e recordações, favorecido por uma memória espantosa, capaz de rivalizar com “Funes, o memorioso”, o personagem de Borges, cantava, assobiava e imitava com graça, apesar da voz velada e pequena. Era a garantia do sucesso de um encontro. Os amigos que frequentavam sua casa tiveram acesso ocasional a essas performances, mas a família convivia regularmente com elas. Eram célebres os almoços de domingo. Foi certamente essa atmosfera que Maria Clara Vergueiro tentou preservar em gravações amadoras realizadas em 2005 em encontros exclusivos com o avô excepcional.

O avô na sala de estar inicia em Poços de Caldas no final dos anos 1980. A casa da família vai ser vendida, e a família reunida se despede dela. A menina Maria Clara é entrevistada pelo tio Lauro Escorel ao lado dos primos Antônio e Elisa. Ela lamenta a perda da casa: “Onde vamos passar as férias? […] Essa casa é famosa pro vovô. Significa bastante pro vovô.” Na sala ampla do solar, Antonio Candido acolhe os netos pequenos que mostram os ovos de Páscoa.

A textura dessa filmagem é borrada, devido à degradação da imagem em vídeo colhida há 35 anos. Em corte, numa imagem nítida, surge uma mão feminina que limpa carinhosamente uma página de livro, de onde aparece o nome do autor. A dedicatória com letra desenhada, “À minha mãe, o primeiro exemplar [de Formação da literatura brasileira], 1959”, introduz o elemento que vai alternar as imagens das conversas: o tratamento que recebe na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) a coleção de livros raros doados pelo professor. Nesse ambiente, Maria Clara é observadora atenta e curiosa. O expediente introduzido pelos diretores transforma a neta em personagem do filme do avô.

No corredor do amplo apartamento da Alameda Joaquim Eugênio de Lima, em São Paulo, Maria Clara tenta desvendar a trama da família, em meio a retratos emoldurados. Perdida na genealogia, a neta é socorrida pelo avô que identifica os ancestrais do seu lado e os do da avó, Gilda de Mello e Souza.

Sentado no sofá, ao lado de Maria Clara, Candido lamenta morar sozinho. Em Cuba, onde vigora “um socialismo estrito”, isso seria proibido. Provavelmente duas famílias dividiriam o apartamento com ele. Aponta a tela de Walter Lewy na parede da sala e acrescenta: “Quando eu morrer, aquele quadro ficará para Teresa”, referindo-se à irmã mais nova de Maria Clara. Bem pequena, Teresa identificou três cubos da pintura abstrata como “papai, mamãe e eu”. Maria Clara retruca de imediato: “Eu quero só conversa.”

Ao fim do prólogo, o filme apresentou habilidosamente seus personagens, o avô e a neta, e os temas: memória, livros, família, política e morte. Os créditos de abertura são então convocados.

No almoço com a neta, enquanto espera ser servido, Candido demonstra impaciência batendo nervosamente as mãos na mesa. A presença da ausência futura é insinuada no contraponto da imagem do professor com a sala vazia.

Na biblioteca da Unicamp, Maria Clara manipula cuidadosamente um exemplar de Primeiras estórias. Abre o livro na dedicatória, em letra redonda: Para Antonio Cândido [sic], o maior!, maior, mesmo que as palavras possíveis da gente… Guimarães Rosa (1962). Moço ainda, aos 44 anos, Candido já havia angariado extensa fama, que atingiu o exterior. A obra extraordinária, a precisão e clareza nas aulas e conferências, a atuação institucional discreta na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e na criação do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP) e da Unicamp, e no campo cultural do Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo, entre outras iniciativas, conferiram a ele um prestígio imenso. Candido se tornou uma unanimidade.

Embora tenha construído laboriosamente essa aura, a partir da maturidade passou a se incomodar com ela e chegou a pedir aos discípulos mais próximos que o elogiassem menos. Ao mesmo tempo, a sombra do pai, o ilustre médico Aristides Candido de Mello e Souza, o perseguia. Na sua avaliação, ele recebera demais, e o pai, de menos. Passou então a elaborar conscienciosamente um personagem que se deprecia, que se desmistifica, que contraria o admirador, seja ele parente, discípulo ou estranho. O efeito era desconcertante, e no primeiro momento poderia confundir-­se com modéstia vaidosa. Na verdade, era manifestação de angústia.

Sob a “prosa leve” do professor que recebe a neta para conversar, repousa esse sentimento de rebaixamento, que se manifesta em quase todas as confissões, presentes nos dois filmes. Militante político de esquerda, declara: “Eu sou um socialista. […] Tenho temperamento conservador, atitudes liberais e ideias socialistas.” Contrariando expectativas, afirma: “Eu sou morno, indiferente pelas pessoas. Sua avó era mais afetiva.”

Candido não perde ocasião de cantar no filme, com voz abafada, mas afinada. Entre as canções, lembranças da infância como a do Boi amarelinho, que se despede do sertão enquanto segue ao matadouro. A mãe lhe ensinava canções francesas, que ele repete num francês perfeito, aprendido em Paris quando tinha 10 anos.

A paixão pelos livros, que cultivou a vida toda, irrompeu quando a biblioteca da família, que estava encaixotada no Rio de Janeiro, chegou a Poços de Caldas, logo depois do retorno da Europa. “Aí eu fiquei louco.” Organizou a biblioteca e recebeu de presente um livro em edição limitada sobre Anatole France e o pensamento contemporâneo. Um convite premonitório do pai à vocação de crítico literário.

“Sempre fui muito tímido, muito obediente, muito conformado.” Nessa condição, não confronta o pai quando ele determina que deveria seguir também a carreira de médico. Preparou-se para o exame de admissão e foi “reprovadíssimo” na Faculdade de Medicina. Assim liberado, matriculou-se no exame de filosofia. Nesse relato, Candido atesta o talento de ator histriônico; reproduz com uma careta a reação do pai, que exigiu do filho que estudasse direito ao mesmo tempo.

Os diretores do filme abandonam o sofá da sala e levam Maria Clara a passear pela coleção de livros raros da Unicamp, onde ela descobre os volumes e a extensão da obra do avô. A melhor imagem do filme surge nessa hora. Maria Clara vasculha os volumes; seu rosto caminha atrás das estantes.

O relato mais saboroso desse filme de confissão é o do encontro de Antonio Candido e Gilda de Moraes Rocha, sua futura mulher. Ele vê uma mocinha na janela, magrinha, acha-a parecida com o Térbio, colega do curso preparatório. Passa a chamá-la Terbiolina. Encontra com ela por acaso no clube Harmonia, em São Paulo, numa matinê dançante. Na Faculdade de Filosofia é abordado para participar do grupo de teatro que iria encenar a peça Asmodeus, de François Mauriac, por ela traduzida, com direção de Décio de Almeida Prado. Ele recusa: “Não tenho jeito pra isso!” A ironia secreta é que Asmodeus é um demônio que tenta impedir o casamento de Sara.

Passaram quatro anos como amigos. Um dia, Candido deixou a namorada esperando na porta do cinema. “Sempre fui fraco. Que cafajeste que eu sou!” Procurou Gilda: “Ambos no fundo do poço. De repente peguei na mão dela. Deu choque elétrico. O namoro começou em 12 de dezembro de 1942. Ficamos apaixonados. Casamos um ano depois.” Os dois venceram Asmodeus. Maria Clara quer saber como ele pegou na mão da avó. Candido repete o gesto com a neta.

A lembrança emocionada de Gilda é um dos motivos recorrentes nos dois filmes. “Sempre fui implicante. Implicava muito com sua avó. Era um chato. Com o tempo melhorei. Ela nasceu pronta”, ele conta à neta. A foto de Bob Wolfenson com o casal de mãos dadas é a melhor representação da felicidade duradoura de parceiros que nunca deixaram de conversar. O filme não escapa da tentação de fundir a imagem para a casa morta, com as poltronas vazias.

Poços de Caldas retorna com textura de vídeo. “Infância muito feliz não é muito bom, porque a minha casa era de extrema felicidade. Toda noite depois do jantar o meu pai lia para nós. Ele lia para nós Os sertões, de Euclides da Cunha, na primeira edição. Minha mãe cantava. Resultado: você fica criança a vida inteira. Meus irmãos e eu soubemos lutar pouco pela vida, porque no fundo nós queríamos voltar para o paraíso. […] A casa de Poços era o nosso paraíso.”

Um dobrão melancólico na trilha sonora de O avô na sala de estar anuncia o fim. A casa montada no apartamento vazio acusa a ausência do dono. A conversa acabou.

Ao som de chuva miúda, o narrador de Antonio Candido – Anotações finais diz: “Na madrugada de 12 de maio, oito meses antes desta tarde de chuva em São Paulo, eu morri.” Com essa frase, Eduardo Escorel define a filiação de seu filme às Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. No livro de 1881, o narrador informa: “Expirei às duas horas da tarde de uma sexta-­feira do mês de agosto.” A diferença não desprezível é que Brás Cubas era um “defunto autor”, já Antonio Candido é um “autor defunto”.

Poltrona vazia, corredor do apartamento com foto nas paredes e estante com inúmeros cadernos, uma foto de família, a câmera passeia pelo apartamento inabitado, imagens que introduzem a ausência; a voz do autor está “suspensa no ar”.

Os cadernos de anotações escritos desde os 15 anos foram sugestão da mãe, uma “mulher luminosa”. A imagem apresenta o caderno 89 – 22 de outubro de 2015 – 10 de agosto de 2016.

Um dos maiores acertos desse filme rigoroso é a escolha de Matheus Nachtergaele para ler as anotações de Antonio Candido. Grande ator, ele compreendeu perfeitamente o personagem que interpreta, conferiu-lhe um timbre adequado e caloroso, que imediatamente estabelece empatia com o espectador. Sabe dizer o texto, sabe pronunciar as citações francesas que permeiam as lembranças e comentários. É forte candidato ao prêmio inédito de melhor ator/narrador em filme documentário.

Ao preparar o roteiro, Escorel editou o texto dos cadernos no sentido de selecionar aqueles que melhor conduzissem a jornada ao fim de um tempo. Cadernos que são uma espécie de diário com entradas evocadas ora pela data, ora pelo assunto ou inspiração.

A primeira situa o autor de 96 anos: “Na minha extrema velhice as funções orgânicas estão bem, […] – mas as pernas… ‘lentamente, mas sempre’, elas vão pifando de tal maneira que não saio mais sem a bengala.” Candido reduz regressivamente o percurso diário percorrido de 15 para 6 quadras. Ah!, vieillesse ennemie (Ah!, velhice inimiga) é a primeira citação em língua estrangeira que comparece com frequência nas anotações do professor.

Ele seleciona um artigo na Folha de S. Paulo sobre o romance de Mia Couto que aborda o reinado de Gungunhana, soberano do território que hoje corresponde a Moçambique e que foi deposto e exilado pelos portugueses. Candido se lembra das memórias do jardineiro António Lopes que conheceu em Poços de Caldas, imigrante que evadira com a mulher mestiça. Havia participado da batalha da Rotunda, pela implantação da República Portuguesa, em 1910. Menino, Candido lia para o casal analfabeto o romance Amor de perdição, de Camilo Castelo Branco.

O filme apresenta imagens raras do rei Gungunhana preso com algumas de suas mulheres. A pesquisa de imagens fixas, de fotos ou ilustrações, ou de filmes é outra característica que define o feliz partido narrativo do documentário de Escorel. Citação adaptada de Euclides da Cunha permite trazer o assunto até nós: “No martírio secular da África, no qual estamos todos historicamente envolvidos.” Uma coisa puxa outra, Candido queria na verdade chegar à responsabilidade que nos cabe no flagelo da escravidão. “O pai da vovó Mariana enriqueceu no tráfico. O fato do dinheiro resultante não ter chegado sequer até a minha mãe, é um magro consolo que não nos desliga da sinistra teia de interesses que está na base do Brasil via escravidão. Du passé nous en sommes faits (Somos feitos do passado).” O velho professor não perdoa a ancestralidade, que preza tanto.

Da catástrofe histórica estende a tipologia às naturais e políticas. A imagem poderosa do rompimento da barragem de Mariana, em 2015, introduz o então deputado Eduardo Cunha conduzindo o impeachment de Dilma Rousseff. O Brasil vive um momento sinistro: “Economia em alta crise, política desastrada, natureza em desordem, […] a microcefalia se alastrando […], que contraste com a euforia do governo Lula, caímos num buraco sem fundo.”

Em 17 de janeiro de 2016, o pensée du jour (pensamento do dia) é: “Ao acordar me veio a ideia que talvez eu já tenha ultrapassado a hora certa para morrer.” A irrupção na trilha sonora da Sonata para violino e piano de César Franck introduz uma tonalidade melancólica que continua na evocação da ausência de sua mulher, Gilda. “Ultimamente tenho pensado muito em que não fui de certa forma solidário com sua mãe, pois deixei que ela se fosse e eu ficasse, não que eu devesse ter me matado, mas ter ficado parece uma forma de egoísmo além de gerar uma nostalgia mutiladora.” Sintoma da culpa do sobrevivente.

Um diário, ou caderno de anotações, que recolhe impressões íntimas, tem um destinatário explícito ou oculto. Dificilmente é dirigido ao leitor desconhecido. Aqui, Antonio Candido, que até então fizera comentários aparentemente sem endereço, nomeia leitoras as três filhas: Ana Luisa, Laura e Marina. Embora vivendo só, elas estavam presentes no final da vida dele, em maior ou menor grau; mesmo assim, ele tem necessidade de expressar a “nostalgia mutiladora”. Dessa maneira, o filme nos faz cúmplices de um “léxico familiar”; entramos sem convite num almoço de domingo, com direito a jogo da verdade, cujo protagonista é um homem de qualidade.

Em Anotações finais, a protagonista é igualmente Gilda de Mello e Souza. Professora de estética do curso de filosofia, estudiosa da moda, das artes visuais, do cinema, da dança, dona de um estilo de escrita original, morreu em dezembro de 2005. Na solidão da viuvez, Candido vislumbra as duas poltronas Bergères da sala, onde se sentava ao lado de Gilda, para conversar ou apenas dividir o silêncio, “silêncios muito ricos porque eram fonte de um bem-estar profundo”, ele diz. “Sua mãe morreu há mais de dez anos. […] Por que se foi? Por que me deixou?” Ele sente uma “privação insuportável”, uma “injusta mutilação”.

No dia em que Gilda faria aniversário, lembra com amargura que ela sofreu para morrer, aos 86 anos. O médico assistente falhou. Ele se sente culpado, pois não percebeu, sendo filho de médico. “Quando penso no que fui, no que fiz, no que não fui, no que deixei de fazer, concluo que é muito desigual porque recebi sempre muito mais do que dei. Tudo que recebi de básico graças a meus pais, o ponto de partida, não teria tido a modesta, mas articulada consequência positiva que teve, se eu não tivesse tido a sorte extraordinária de casar com sua mãe. Do ponto de vista tanto afe­tivo, quanto social, digamos, para mim a nossa vida em comum, com seus altos e baixos, foi o que considero a minha maior realização. […] A lembrança de sua mãe me habita sempre e me nutre, […] imerecido prêmio que me coube.”

Em memória de Gilda, Candido transcreveu em alemão no diário o poema em prosa Was wär ich ohne dich gewesen?: O que teria sido de mim sem você/ sem você o que eu não seria? Primeiro verso de um hino luterano, foi aproveitado por Novalis em seus Geistliche lieder (1802). Gilda tinha “graça e encanto incomparáveis”. Candido não se importa em viver em isolamento, “contanto que eu tenha sempre a possibilidade de estar com minhas filhas, continuação da mãe delas”.

Os alívios dramáticos do caderno provêm às vezes das ilustrações oferecidas pelo filme de Eduardo Escorel. A propósito dos ladrões atuais que matam, sem avaliar as consequências, ao contrário dos de antigamente, que podiam ser gentlemen, Escorel nos oferece o saboroso trailer de Arsène Lupin returns, de 1938. A nota burlesca vem da canção mexicana da época da revolução, que Carybé uma vez cantou na casa de outro artista plástico, Arnaldo Pedroso D’Horta: Mata, que Dios perdona, interpretada originalmente pelo Trio Matamoros.

Outra nota de prazer chega com a visita do crítico e curador de cinema Amir Labaki. Candido demonstra vontade de rever um filme da infância, Monsieur Beaucaire, com Rodolfo Valentino, lançado em 1924. Dias depois, Labaki lhe envia uma cópia, e Candido se compraz com as aventuras do espadachim. Na revisão, se dá conta de que Beaucaire era um disfarce de Philippe Égalité, duque de Orléans, primo de Luís XVI, que era jacobino e liberal. O menino Candido não podia saber disso aos 7 anos, quando viu o filme com Valentino, mas talvez tenha sido esse o motivo secreto de sua adesão ao herói da aristocracia.

Na política, Candido lamenta não militar mais como fez no impedimento de Collor. “Pôr em cena um personagem que fui e não sou mais.” Em digressão sobre o impeachment de Dilma, afirma que “Lula tem de ser avaliado historicamente. Espero que o futuro ofereça outra oportunidade semelhante para avançar”.

Sobre a invasão da sede do PT pela Polícia Federal reconhece: “Infelizmente o partido deu ensejo para isso.” Aflige-­se com “o momento histórico, brasileiro e estrangeiro, bem como a atrofia das esperanças sociais”, mas anima-se em “verificar que, embora de leve, participei de um movimento político, representado pelo pt, que tirou da miséria dezenas de milhões de miseráveis”.

Candido cola no caderno um recorte da Folha de S.Paulo, com texto de Lula publicado em 18 de outubro de 2016. Nele, o então ex-presidente se defende das acusações que lhe foram imputadas. “É a sombra do estado de exceção que vem se erguendo sobre o país.” Nesse momento, a montagem do filme sai do esperado. Com efeitos sonoros, a voz do narrador por vezes some, se sobrepõe a outros trechos, sofre abalos, pula pedaços, é perturbada por elementos externos.

A reflexão torna-se ainda mais amarga quando Candido constata as ilusões políticas vividas na luta pela restauração da democracia. Uma democracia concebida para atender aos interesses da classe superior, que traria o povo a reboque, pois na verdade ignorava suas necessidades. Estávamos “trabalhando para confundir a democracia com os nossos interesses desinteressados de classe”.

A questão do negro segue irresolvida. “No Brasil, o trabalhador foi durante séculos o escravo e a solução obnubilada foi, depois da Abolição, descartá-lo em vez de incorporá-lo. Esse é o drama social e político fundamental que deveria ter sido a mola de um socialismo ajustado à nossa realidade. Nesse sentido, fracassamos.” Vislumbrando o fim, Candido não se poupa, nem a sua geração. “Uma frustração por omissão.” Na sua revolta, queria ter se atirado como uma tocha contra os políticos.

No trecho do diário que ele intitula Os vícios do sistema, Candido se defronta com o “diabólico Eduardo Cunha”: “Se ele se tornar presidente será a apoteose da iniquidade.” Escorel, conhecedor do gosto de Candido pela ópera, introduz com precisão uma ária do Fausto, de Gounod: Satã conduz o baile.

Petróleo, armas, drogas e prostituição corroboram o “culto do mal”. Frei Benevenuto, o amigo cristão, da Livraria e Editora Duas Cidades, vem em socorro: “Vocês não acreditam no pecado original, de modo que não entendem nada. Somos uma fruta com bicho dentro. E isso é irremediável.”

Na Folha de S.Paulo, mais um artigo, desta vez de Drauzio Varella, sobre a roubalheira no Brasil. Em compensação, o mesmo jornal traz duas fotos da atriz Maria Flor: “Uma de nudez lateral, outra de seminudez frontal. […] São de uma graça deslumbrante e desperta em quem as contempla a bem-vinda alegria de viver.”

A beleza convoca o professor. “Só na literatura e em alguns momentos fugazes o homem viveu sob o lema Là, tout n’est qu’ordre et beauté. Luxe, calme et volupté (Lá tudo é ordem e beleza. Luxo, volúpia e leveza)”, do poema O convite à viagem, de Baudelaire. O professor de literatura ensina que o poeta introduziu o moderno, mas com versificação tradicional. Foi Verlaine quem rompeu com ela em benefício da fluência. O moderno de Baudelaire é com relação aos temas proibidos: carniça, amor das lésbicas, linguagem das ruas.

Candido menciona os livros que provocaram nele uma emoção (“taquicardia, pranto”) que passava do cérebro ao corpo. Foram arrepios de leitura: Os miseráveis, de Victor Hugo; No caminho de Swann, de Marcel Proust; Pai Goriot, de Balzac; Os demônios, de Dostoiévski; Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. Machado de Assis é grande, mas deixa o corpo em paz. “Uma das coisas boas é reduzir a vida a palavras. Elas podem ser uma espécie de sobrevida.”

O memorialista se alegra com o disco de Carlos Vergueiro, que interpreta músicas antigas do tempo de moço de Antonio Candido. Desperta lembranças da juventude em 1934, dos companheiros de bailes e festas em Poços de Caldas. Evoca nomes – Maria Lúcia, Ana Maria – e suspeita que as parceiras “devem estar dormindo profundamente”. Com exceção de duas, uma com mais de 100 anos e outra de 97, que já não dá mais acordo de si. O filme oferece fotos lindas de alegria e juventude, de um tempo remotamente perdido.

O lento despovoamento do mundo começa a se acelerar. O caderno registra mortes em sucessão: de Roberto Pinto de Souza, do grupo da revista Clima; de Myrthes, a prima remanescente; de Fidel Castro, que promoveu a emancipação do negro em Cuba; de dom Paulo Evaristo Arns, “um dos maiores brasileiros do nosso tempo”.

Candido caminha até a agência do banco, mas sente-se fatigado e volta de táxi, sente a proximidade da morte, que ele encara com “indiferença”, como Mário de Andrade. Confessa não ter medo da morte, mas “em compensação muito pouco apego à vida”. Como será na hora H? Ele agirá como o lenhador da fábula de La Fontaine? Medo ele tem “da morte lenta, desgastante, sofrida, como se quisesse se vingar de alguma coisa”. Baudelaire aponta o rumo: Ô mort, vieux capitaine, il est temps! levons l’ancre! (Ó morte, velho capitão, é chegada a hora de levantar âncora!), do poema A viagem, de As flores do mal.

O filme introduz na trilha sonora o ruído delicado do vento. Um assobio. O clima de despedida se instaura. “Quero registrar para minhas filhas que na minha idade sou um homem pacificado. […] Um homem que foi sempre e até tarde inquieto, tenso, insatisfeito, mas tendo sempre uma dose forte de bom humor.”

Vemos imagens do apartamento vazio. Do último retrato depois de um almoço de domingo.

Em 28 de abril, ocorre a última entrada no diário, Ricordanze (lembranças) sobre a peça de Ibsen, Um inimigo do povo, lida em 1935 em Águas da Prata. Um médico sofria a oposição de colegas e do povo por dizer a verdade. Faz alusão ao pai, “um justo hostilizado”.

As páginas do último caderno dos diários estão preenchidas até a 65, mas foram numeradas até 81. Estas últimas ficaram em branco.

Num corte temporal e de atmosfera, o filme chega ao “Epílogo”. Em entrevista, gravada em primeiro plano em 1995, um homem vigoroso, afirmativo, seguro, relata a sua experiência com a miséria do povo brasileiro. A opção de curto prazo para superá-la seria adotar o socialismo, porque enfoca a igualdade. Se tivesse de escolher, ele preferia a igualdade à liberdade. “A liberdade é sempre a minha liberdade, enquanto a igualdade por definição é de todos.”

Candido manteve o controle até o fim. No hospital, com um gesto, pediu que desligassem os tubos de oxigênio e soro que ajudavam a prolongar sua vida.

Anotações finais é um sóbrio retrato de corpo inteiro de um dos maiores intelectuais brasileiros do século XX. O que ele pensava, o que fez, o que sonhou, suas frustrações participam do acervo do país no seu mais alto grau. Interessa aos contemporâneos, assim como interessa ao habitante do futuro.

Oxalá as herdeiras se animem a publicar logo os diários na íntegra. Poderão ter o impacto das memórias de Pedro Nava, da correspondência de Mário de Andrade, do Journal de André Gide ou dos Cahiers de Paul Valéry.

Os dois filmes – o com a neta Maria Clara Vergueiro e o do genro Eduardo Escorel –, a “biografia ilustrada” (A formação de Antonio Candido) publicada por Ana Luisa Escorel, filha mais velha e mulher do diretor, e a organização da documentação do crítico no IEB-USP, sob a coordenação da neta Laura Escorel, fazem parte de um esforço do clã em preservar o legado extraordinário do casal Gilda de Mello e Souza e Antonio Candido. Quem os conheceu sabe o valor dessa herança.

[1] Eduardo Escorel escreve quinzenalmente sobre cinema no site da piauí.

[2] O filme de média-metragem O avô na sala de estar, a prosa leve de Antonio Candido, depois de exibições em universidades e feiras literárias, estará disponível na plataforma Sesc Digital, em data ainda a definir.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.


Professor universitário, cineasta e gestor cultural, é presidente do Conselho de Administração da Cinemateca Brasileira