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COMO NASCE UM PITBULL

Os métodos do advogado Walfrido Warde nos maiores litígios do país

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Quem chega à Ranieri Tabacaria, na Alameda Lorena, por volta das 19 horas das terças-feiras, invariavelmente encontrará um grupo de renomados advogados fumando charuto. Nem todos apreciam as baforadas, mas a presença na roda dá acesso às últimas fofocas jurídicas. Entre um cubano puro, goles de negroni, vinho ou uísque escocês, e fatias de pastrami, o falatório logo começa a correr solto. Num meio acostumado a litígios de cifras bilionárias, os bastidores mais picantes envolvendo as grandes bancas de advocacia costumam vir acompanhados de um nome: Walfrido Warde (o W é pronunciado como V).

Warde não frequenta a roda, mas é o sujeito das melhores histórias, segundo as quais suas estratégias jurídicas triscam os limites do direito e seus clientes são sempre os mais encrencados. Parte das críticas advém de uma rivalidade elementar: Warde está envolvido nos principais contenciosos do país, o que o torna um concorrente de peso. Outra parte tem fundo tático: na ascensão fulminante de sua carreira, Warde levou para a advocacia de São Paulo a prática brasiliense de povoar seu escritório com sócios egressos de tribunais, de autarquias e do governo federal, ou donos de alto pedigree, como a mulher de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Nada disso é ilegal. Mas, tal como ocorre na capital federal, sugere que os sócios abram mais portas do que as teses jurídicas.

Nas rodinhas – e não apenas na do charuto – as opiniões sobre Warde são divididas e, quase sempre, viscerais. Há quem elogie seu estilo implacável de advogar, porque aumenta as chances de vitória dos clientes. Há quem classifique seus métodos como desleais, como o de notificar criminalmente o outro lado, mesmo quando se trata de um processo civil empresarial. A tática escala o tom da briga e força o adversário, na base do susto, a fazer um acordo. Foi usada nos últimos anos contra empresários graúdos, que hoje estrilam quando sabem que Warde está do outro lado da briga. Por esses e outros ataques considerados “abaixo da cintura”, há colegas que, maliciosamente, tratam Warde com um trocadilho infame: “cowarde.”

Os mesmos colegas que o criticam não têm coragem de falar sobre Warde abertamente. Entre os mais de trinta advogados ouvidos pela piauí durante quatro meses, poucos autorizaram a publicação de seus nomes por receio de retaliação. Pelo menos dez fontes que procurei, logo acionaram Warde para contar que foram contatadas. Uma delas se negou a dar entrevista, avisou Warde e, em seguida, voltou a me acionar para reafirmar que o advogado era “brilhante” e alertar que qualquer informação em sentido contrário poderia ser produto de manipulação. Um ex-sócio, que também não quis dar entrevista, fez uma súplica: “Não quero ser citado nominalmente, mesmo que seja apenas para dizer que fui procurado e não quis falar.” Em seguida, procurou Warde para contar sobre o contato da piauí. Outro colega, que atuou em casos contra clientes de Warde, insistiu em pedir que nossas trocas de mensagem fossem apagadas. Ele temia que o advogado conseguisse, de alguma forma, acesso ao meu celular. Warde não quis dar entrevista à piauí.

Sua reputação foi construída com notável velocidade. Nos últimos dez anos, ele se projetou sob o impulso de três preceitos: advocacia agressiva, defesa do lobby e crítica à penalização de empresas envolvidas em corrupção. Em dois livros, lançados entre 2015 e 2018, fez a defesa do lobby e das empresas, com um enfoque que ganhou a simpatia dos críticos da Lava Jato. Com isso, seu escritório atraiu como sócios ex-procuradores, ex-desembargadores, ex-juízes e ex-membros do alto escalão do Executivo. Entre eles, está Valdir Simão, ministro da Controladoria-Geral da União (CGU) no governo Dilma Rousseff, que iniciou as tratativas para os acordos de leniência das empresas condenadas por corrupção. Leandro Daiello, ex-diretor da Polícia Federal, que, apesar de comandar a corporação durante a Lava Jato, operação que Warde combatia fortemente, também foi contratado pelo seu escritório.

A Lava Jato tornou Warde relativamente conhecido no meio penal, mas foi na briga empresarial que seu barulho chamou a atenção. Os clientes começaram a se avolumar – vindos de todos os cantos. Advogou para o doleiro Lúcio Funaro, para a ex-presidente Dilma, para o empresário José Seripieri Filho, o bilionário dono da Amil, para o banqueiro angolano Álvaro Sobrinho, que processa Portugal por racismo num caso de repercussão mundial. Advogou para mamutes empresariais como a J&F, holding dos irmãos Batista, a CSN, a maior siderúrgica do país, e o Bradesco, em seu contencioso contra as Lojas Americanas. Nos últimos anos, não há briga entre gigantes da qual Warde não tenha tomado parte. Ele costuma atribuir o sucesso de seu escritório a uma conduta de “fazer de tudo para ganhar” e “saber se comunicar”. Nesse receituário, não entra apenas advocacia, mas também a criação de um instituto que emula preceitos do lobby, um programa de entrevistas no YouTube e a estratégia de influenciar a política nacional por meio de ações no STF.

Recentemente, seu escritório apresentou uma ação em nome do Psol destinada a bloquear o repasse de emendas do orçamento. Na ação, destacou a delinquência dos parlamentares no uso do dinheiro público em benefício próprio. Flávio Dino, ministro do STF, acatou a ação e provocou um pandemônio no Congresso, pacificado depois num acordo entre os três poderes. A ação mostrou o quanto havia avançado o poder de Warde, um advogado que, há menos de dez anos, mandava e-mails aos gabinetes de Brasília para ser recebido e, quase sempre, era ignorado. Em 20 de agosto, data da pacificação entre poderes, Warde encerrou o expediente fumando, sozinho, um “puro”.

Walfrido Jorge Warde Júnior tem 50 anos, é pai de uma menina de 9 e namora uma ex-estagiária de seu escritório. Tornou-se mais vaidoso com a ascensão na carreira. Em 2022, por ordem médica, fez uma cirurgia bariátrica depois de chegar a 130 kg num corpo de 1,76 metro, compleição física que lhe dava uma aparência de “colchão amarrado”, como ele próprio já disse. Hoje, pesa 83 kg.

Trocou os ternos azuis de microfibra dos tempos bicudos por modelos bem cortados. Prefere sapatos italianos e, seguindo a tendência nos últimos anos, usa óculos de silhueta geométrica e grossa. Adotou o uso de lenço de seda no bolso do blazer, uma escolha com poucos adeptos na advocacia. O conjunto lhe confere um ar meio excêntrico que os maldosos julgam ser produto de uma consultoria de imagem para criar “fama de mau”. Em fotos em uma rede social, ele eventualmente sugere que seu novo estilo segue a estética de O poderoso chefão. Em imagem de 2022, em que aparece sentado, fumando um charuto, escreveu: “Uma singela homenagem a Mario Puzo”, em referência ao autor da obra. (A ilustração desta reportagem, de autoria de Kleber Sales, foi baseada na foto de 2022.)

Na entrevista à revista Capital Aberto em 2015, época em que apresentou sua “solução de mercado” para salvar as empresas da Lava Jato, Warde foi indagado sobre o que o motivava a promover “causas sem cliente”, já que não trabalhava para empreiteiras. Respondeu que fazia tudo pelo futuro de sua filha. “Sim, por causa dela.” Emendou em seguida: “Seria mais honesto dizer que é menos por causa da minha filha e mais por causa do meu superego, meu projeto de ser humano, de não querer aos 80 anos me olhar no espelho e ver alguém que só acumulou coisas.”

O projeto de ser humano começou a se materializar na Faculdade de Direito na Universidade de São Paulo (USP), no início da década de 1990. Warde não estava entre os alunos mais brilhantes, nem os mais populares. Não se interessava por política, não se envolvia com o Centro Acadêmico XI de Agosto, por onde passaram Michel Temer, Dias Toffoli e Fernando Haddad. Quase não ia às festas da faculdade. Tinha poucos amigos. No último ano na USP, o PSDB estava no auge, comandando a Presidência da República e o governo de São Paulo. Warde era contemporâneo de Veronica Serra, filha de José Serra, um dos próceres do tucanato. Mas ele não circulava no mesmo meio. Não tinha afinidade e sentia-se inferior. Aquilo não era sua realidade.

Filho de pais que se separaram quando ainda era bebê, Warde vivia com a mãe e a avó, ambas comerciantes da região do Brás, numa família de classe média. Estagiava e poupava tudo o que ganhava. Com o dinheiro que juntou, pagou a pós-graduação na Universidade de Nova York. Quando voltou, um ano depois, advogou por conta própria e fez doutorado em direito comercial na USP sob a orientação do jurista Fabio Konder Comparato. Fez parte do curso na Alemanha, graças a uma bolsa do Instituto Max Planck. Com boa formação acadêmica, decidiu abrir o próprio escritório em vez de tentar vaga nas grandes bancas paulistas, como Pinheiro Neto e Mattos Filho. Foram tempos difíceis. Vivia apertado e aceitava o caso que aparecesse: disputas triviais de família, mulher que fez escova progressiva e perdeu os cabelos, troca de sopapos entre um lutador de boxe e uma pessoa com nanismo.

Seu pai, de quem herdou o nome e o gosto pela advocacia, não se interessou em manter contato ou prover nada ao filho. Numa ocasião, quando já estava na USP, Warde encontrou o pai na escadaria da faculdade. Houve uma tentativa de reconciliação, que acabou falhando. Chegou a dizer que, mesmo notando o esforço da mãe para demonizar o ex-marido, percebeu que ela tinha alguma razão. Quando o pai estava com idade avançada, Warde e seu meio-irmão foram denunciados por “abandono de idoso”, numa ação em que a meia-irmã pedia ajuda financeira. Warde e o meio-irmão alegaram que o pai tinha recursos para seu próprio sustento. Em depoimento, o advogado disse que pagou o plano de saúde e cuidadores do pai por um breve período. Deixou de fazê-lo depois que o pai, numa briga com sua meia-irmã, sacou uma arma e apontou contra ela. Assustados, os cuidadores abandonaram o trabalho. Seu pai morreu em 2021. Deixou um testamento deserdando Warde e seu meio-irmão.

Warde fez concurso para professor da USP em 2009 e 2010. Não passou. No início da década seguinte, sua sorte começou a mudar. Depois de atuar em algumas disputas societárias de empresas médias, um amigo, o advogado Ernesto Tzirulnik, indicou-o para três clientes de peso: a CSN de Benjamin Steinbruch, a América Latina Logística (ALL) e o doleiro Lúcio Funaro. Tzirulnik era o homem de confiança de Steinbruch, o que servia como um eficaz cartão de visita para um advogado, até então desconhecido na advocacia de elite. Na causa da ALL, Warde levou a melhor. Como o caso era de 6 bilhões de reais, a briga lhe rendeu não só dinheiro, mas também prestígio.

Em 2012, começou a advogar para Funaro e outros clientes que tinham negócios com fundos de pensão. O doleiro conta que, em 2016, quando sua situação se complicou na Lava Jato, Warde se distanciou. Mas a relação só se rompeu mais tarde, quando Funaro batalhava para receber uma comissão da J&F. Em dado momento, o doleiro soube que o acordo com a empresa havia desandado. Suspeitou que a interferência de Warde tenha atrapalhado as coisas. “De uma hora para a outra, as tratativas foram rompidas, justamente quando surgiram informações de que ele estava envolvido no acordo”, diz. Funaro procurou Warde para expor sua desconfiança, mas o advogado nunca admitiu ter agido contra ele.

Quando a Lava Jato começou a avançar sobre as empreiteiras, Warde, mesmo sem advogar para elas, formulou a tese que o deixou conhecido: dizia que a operação quebraria as construtoras, que funcionavam como ponte entre o mercado de capitais e o Estado tomador de serviços. Sem elas, sucumbiria não só o mercado, mas também o Estado. Para solucionar o impasse, ele lançou mão de um dispositivo da Lei Anticorrupção que previa a indisponibilidade de bens de malfeitores e sugeriu que os empresários corruptos transferissem suas ações ao Estado, que as negociaria na Bolsa de Valores. Para Warde, era a saída perfeita. Além de não inviabilizar a empresa, diluiria no mercado financeiro o controle de um setor hiperconcentrado que atuava em conluio.

Warde expôs sua tese aos juristas José Francisco Siqueira Neto e Gilberto Bercovici, e os três assinaram um estudo sobre o tema. Depois, Warde passou a enviar e-mails a ministros pedindo uma audiência para falar da proposta. Por meio de Siqueira Neto, conseguiu ser recebido pelo então ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Valdir Simão, da CGU, também o recebeu. Mas a ideia não saiu do papel. “Como você vai pegar uma empresa cheia de dívida, de passivo e vender em Bolsa? Você não vai conseguir nada. O valor de uma empresa está ligado ao que o controlador vale, ao que a administração vale”, critica um advogado, que pediu o anonimato. Frustrado com o fracasso, Warde não entendia por que o setor público não encampava o projeto. Daí veio a ideia de criar uma ponte para dialogar com o Estado, o que resultou, em 2016, na fundação do Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa (Iree).

Naquela época, José Eduardo Cardozo, ex-ministro da Justiça, estava em busca de um advogado para defender Dilma em três processos administrativos – um no Tribunal de Contas da União (TCU) e dois na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), todos sobre a conduta da ex-presidente nos investimentos que deram prejuízo à Petrobras. Cardozo consultou Simão, que acabara de deixar o governo, e ouviu a sugestão de procurar Warde. O advogado aceitou na hora e trabalhou de graça.

Cardozo lembra que, em meio à conflagração política do período, não era fácil encontrar um advogado que atuasse no mercado de capitais e, ao mesmo tempo, estivesse disposto a defender Dilma. É uma área jurídica dominada por profissionais de viés mais à direita. Embora Warde não tivesse uma atividade política explícita, só o fato de ser contra a Lava Jato já lhe rendia simpatias à esquerda. Naquele tempo, ainda não era pública sua amizade com Guilherme Boulos, que remontava ao curso de filosofia que fizeram juntos na USP, no início dos anos 2000. “Ele era um dos poucos da área empresarial que tinha uma visão mais progressista. E esse foi um dos fatores que me serviram de referência”, disse Cardozo à piauí. Dilma foi absolvida nos três casos.

Depois de advogar para a ex-presidente, Warde pegou um caso de repercussão ainda maior: a defesa dos irmãos Joesley e Wesley Batista, os donos da J&F, que eram acusados de usar informação privilegiada para faturar alto no mercado. No dia em que veio a público a gravação feita por Joesley Batista, na qual o então presidente Michel Temer diz o famoso “tem que manter isso aí”, aparentemente referindo-se a pagamentos em favor de Eduardo Cunha, os irmãos Batista ganharam muito dinheiro com o caos que o áudio provocou no mercado financeiro, num dia que entrou para a história da Bolsa como “Joesley Day”. A CVM achou o lucro estranho e passou a investigar.

O escritório de Warde não era o único a trabalhar no caso dos Batista. Como os irmãos corriam sério risco de ir para a cadeia – o que, de fato, ocorreu meses depois –, havia outras bancas atuando na defesa da dupla. Warde, já demonstrando sua verve de ataque, queria judicializar a ação, que era administrativa, entrando com processo na Justiça contra a própria CVM. A J&F não aprovou, mas o trabalho agressivo de Warde agradou uma parte do departamento jurídico da empresa. Outra parte achou que ele atropelava os colegas na tentativa de estreitar laços com Francisco de Assis e Silva, o diretor jurídico da holding.

Com casos na Justiça que podem acabar lhe custando até 12 bilhões de reais, a J&F tem uma das áreas jurídicas mais atarefadas do país e, para os advogados, trabalhar ali é sinal de prestígio. Assis e Silva é dado a estimular colegas a produzirem teses inventivas. Depois, submete as mais lunáticas à avaliação de múltiplas bancas para ver se são viáveis ou apenas maluquice. Nessa lógica de colegiado, algumas teses de Warde foram enviadas a advogados de outros escritórios, que nem sempre avalizavam o material. “É comum que o Francisco goste desses caras loucos, que atraia essas teses malucas. Depois, ele filtra”, diz um advogado que trabalha na companhia. Às vezes, mesmo as maluquices são adotadas.

Na disputa entre a J&F e a indonésia Paper Excellence pelo controle da Eldorado, uma das maiores fabricantes de celulose, a Justiça recebeu o argumento de que a Paper, por ser estrangeira, não podia ser proprietária de terras no Brasil – em que pese o fato de que a Eldorado não é um empreendimento rural, mas industrial. A tese, duvidosa mas engenhosa, acabou obtendo parecer técnico favorável do Incra e até o apoio público de ministros do governo Lula. No mercado jurídico, circula uma fofoca – jamais confirmada – de que a ideia veio da lavra criativa de Warde. Um advogado da Paper especula que a fofoca faz sentido, já que “as novas ações da J&F são tão criativas e tão bizarras juridicamente”. A J&F, porém, nega de maneira enfática. Diz que Warde não poderia advogar no litígio contra a Paper porque fora contratado para fazer a perícia de um suposto hackeamento na comunicação da J&F, e quem trabalha na perícia não pode atuar juridicamente no caso para preservar a imparcialidade.

Quando foi contratado pela J&F, Warde era visto como um advogado discreto. Não era considerado um orador eloquente, tampouco um sujeito excêntrico. Vestia-se e comportava-se sem afetação. Nem colecionava mobiliário de escritório assinado por Jorge Zalszupin – a primeiríssima evidência visual de uma carreira bem-sucedida no direito. Uma coisa, no entanto, já destoava: sua advocacia não era como as outras.

Ao criar o Iree em 2016, Warde anunciou que seria um think tank para repensar os laços entre os setores público e privado num momento em que as relações haviam se esgarçado com a Lava Jato. O Iree começou a fazer seminários (na pandemia, eram lives) com autoridades e empresários. Conforme os eventos foram se multiplicando, o instituto passou a ser visto como ferramenta para aproximar o escritório de Warde do poder público. Um encontro em outubro de 2019 tornou-se o emblema dessa percepção. O Iree reuniu num hotel de São Paulo sete ministros do Superior Tribunal de Justiça para falar sobre a “visão do STJ” a respeito de “temas societários e de recuperação judicial”. Na plateia, a maioria dos convidados tinha dois dados em comum: eram clientes de Warde e moviam ações de direito societário no STJ.

Juntar membros das cortes superiores com empresários interessados em suas decisões não era inovação de Warde. O ministro Gilmar Mendes, do STF, já cumpria esse papel havia alguns anos por meio de seu Fórum Jurídico, realizado anualmente em Lisboa. Escritórios de advocacia se integravam a essa dinâmica, mas sempre como coadjuvantes ou promovendo encontros restritos e discretos. A inovação de Warde veio do alarde público. Ele gosta de dar publicidade aos seus eventos. É uma atitude coerente com sua defesa da regulamentação do lobby – atividade que virou farra despudorada, pois, embora esteja em toda parte e reúna até membros da mais alta cúpula do Judiciário, continua oficialmente proibida no país.

Até 2016, o escritório de Warde levava os nomes dos três sócios: Rudi Lehmann, Walfrido Warde e Rodrigo Monteiro de Castro. Naquele ano, mesmo com o sucesso batendo à porta, Monteiro de Castro deixou a sociedade. Lehmann, sócio desde os magros anos 1990, aceitou algo incomum na fogueira das vaidades da advocacia: permitiu que seu nome fosse excluído do escritório, que passou a chamar-se apenas Warde Advogados. Os funcionários foram informados de que a mudança decorria de uma consulta com um numerólogo.

A partir daí, a chegada de sócios envernizados na lida do Executivo e das autarquias começou a chamar a atenção do mercado. Depois da entrada de Valdir Simão, ex-CGU, e Leandro Daiello, ex-PF, chegou Isaac Sidney, ex-procurador do Banco Central. Formou-se um trio, que passou a comandar a recém-
criada área de compliance. Simão e Daiello seguem na banca até hoje. Sidney ficou apenas um ano e assumiu o comando da Federação Brasileira de Bancos. Em sua página no LinkedIn, esqueceu-se de mencionar o breve período que passou pelo Warde Advogados.

Em 2018, quando lançou O espetáculo da corrupção, pela editora LeYa, Warde fez pouco barulho com a sua crítica à Lava Jato. A operação ainda tinha apoio da sociedade, pois seus bastidores obscuros seguiam ocultos. Mas, já então, Warde apontava irregularidades na investigação. No ano seguinte, vieram à tona as maquinações espúrias da Lava Jato, e Warde finalmente começou a colher os louros do seu investimento editorial, valendo-se da máxima “Eu avisei”. Estreitou laços com a esquerda e ganhou clientes – ainda que tivesse de investir contra as empreiteiras que tanto defendia. Foi contratado por José Carlos Grubisich, ex-presidente da Braskem, para defendê-lo em ação contra a Odebrecht, a rainha dos esquemas da Lava Jato. A ação, na qual Warde pediu o bloqueio de bens de Emílio Odebrecht, tornou-se a principal pedra no sapato da recuperação judicial da empreiteira, que hoje se chama Novonor.

Uma das decisões favoráveis a Grubisich foi tomada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. Entre seus sócios, o escritório de Warde contava com três ex-desembargadores do TJ: Carlos Renato de Azevedo Ferreira, Marco Antonio Marques da Silva e Fernando Antonio Maia da Cunha. Não há nada que desabone a conduta dos três, que, aliás, não são os primeiros magistrados a migrarem para a advocacia, passo muito comum nesse meio. Mas a coincidência entre a presença dos ex-desembargadores no escritório e a decisão favorável a Grubisich elevou, da noite para o dia, o nível de influência atribuído a Warde nos tribunais paulistas. Também chamou a atenção a rapidez com que Warde atraiu nomes bem posicionados em instituições de poder. Caetano de Vasconcellos Neto deixou o Fundo Garantidor de Créditos, Arnaldo Hossepian aposentou-se do Ministério Público, Fernando Marcelo Mendes abandonou a magistratura, Marcel Mascarenhas dos Santos saiu da procuradoria do Banco Central, Henrique Machado e Isac Costa deixaram a CVM – e todos foram para a banca de Warde. (Isac Costa saiu do escritório neste ano).

Um criminalista de São Paulo, que não concorre com Warde em nenhum processo, diz que o fluxo migratório despertou curiosidade porque os grandes escritórios paulistas não costumam buscar talentos na administração pública de forma tão ostensiva. “É uma advocacia típica de Brasília. Em São Paulo, os grandes não fazem isso”, diz. “Você sabe quem são: Pinheiro Neto, Machado Meyer, Mattos Filho, Mariz [o criminalista Antonio Cláudio Mariz] e Toron [o criminalista Alberto Zacharias Toron]. Eles não ficam capturando gente da administração pública.” Neste ponto, Warde inspirou-se no escritório Sergio Bermudes, do Rio de Janeiro,  cujo quadro de sócios inclui o advogado Henrique Ávila, nome com excelente trânsito no Judiciário, e Guiomar Feitosa Mendes, mulher do ministro Gilmar Mendes, do STF.

Warde costuma dizer aos amigos que odeia futebol, mas gosta de comparar seu estilo de advogar aos alemães que meteram 7 a 1 no Brasil. “Quem aprecia futebol vai dizer que os alemães foram malvados. Mas eles só jogaram futebol”, disse em certa ocasião. A tese ilustra seu desempenho no caso em que defendeu o israelense Benjamin Steinmetz – disputa contada em detalhes na piauí_171, dezembro de 2020 (O bilionário do futuro). A Vale, maior mineradora brasileira, processou Steinmetz ao descobrir que recebeu dele licenças obtidas ilegalmente para explorar minas na Guiné, na África. Um tribunal arbitral em Londres condenou Steinmetz a pagar 2,2 bilhões de dólares à Vale. O israelense contratou Warde para processar a mineradora. Diante das evidências de que as licenças eram ilegais, a tese de Steinmetz era provar que a Vale sabia das ilegalidades desde o início. Para isso, Steinmetz contratou uma agência de espionagem israelense, que recorreu até a gravações ilegais para obter provas de sua tese.

No Brasil, Warde começou o jogo procurando intimidar a diretoria da Vale, ao notificar seus integrantes na esfera criminal. A estratégia era forçar a empresa a desistir de cobrar os 2,2 bilhões, dado que a Vale tinha dificuldade para provar sua suposta inocência. Ao relembrar o caso, um dos advogados da mineradora fez uma analogia de capa e espada: “Representar [criminalmente] contra o presidente da empresa [num processo civil] não é um duelo de cavalheiros. Você tem um duelo, cada um dá vinte passos, vira e atira. Ele vira e atira com quinze passos, com o oponente ainda de costas.”

Neste ano, recuperada da bala nas costas, a Vale, junto com a BHP Billiton, sua parceira na tragédia de Mariana, chamou o escritório de Warde para representá-la na briga contra a Pogust Goodhead, firma britânica que atua em nome das vítimas dos desastres de Mariana e Brumadinho, numa ação que corre em Londres. Meses antes disso, Warde foi convidado pela Pogust para mediar uma solução amigável com as mineradoras. A firma acabou surpreendida pelo advogado pouco depois. Em julho, Warde publicou um artigo na Folha de S.Paulo acusando a Pogust de usar o processo em Londres “como instrumento de guerra comercial para tomar a Vale e, com ela, subtrair do Brasil a mais preciosa mina de ferro do mundo”. E acrescentou: “As mineradoras envolvidas, em especial a Vale, são alvo de uma massacrante campanha midiática.”

Com a derrocada da Lava Jato e a soltura de Lula, em 2019, as forças políticas começaram a se fortalecer à esquerda – e Warde foi junto.

De início, o Grupo Prerrogativas, formado por advogados anti-Lava Jato, concentrava os contatos da advocacia com o PT, sobretudo por meio do advogado Marco Aurélio de Carvalho. Warde queria o seu próprio caminho. Estreitou laços com o Psol do amigo Guilherme Boulos e, ao mesmo tempo, aproximou-se do novo grupo de poder que se formava. Convidou o advogado Rafael Valim, um acadêmico, para ser seu sócio e braço direito no Iree. Valim acabara de publicar o livro Lawfare: uma introdução, escrito em parceria com o casal Cristiano Zanin Martins e Valeska Teixeira Martins. Lançado pela editora do próprio Valim, a Contracorrente, o livro destrincha a tese de que a Lava Jato foi uma perseguição judicial, ideia desde o início defendida por Zanin. Warde virou sócio de Valim no escritório e na editora.

O advogado aproximou-se também de Silvio Almeida, atual ministro de Direitos Humanos, que também ingressou no escritório naquele período. Embora fosse jurista e doutor em filosofia, Almeida não tinha experiência na advocacia contenciosa, foco do escritório de Warde, nem em compliance, a área que vinha sendo desenvolvida. Sua chegada à banca produziu comentários sobre as intenções políticas de Warde, considerando que Almeida, embora sem filiação partidária, já era visto como um candidato natural para integrar o STF ou o governo, caso o PT voltasse ao poder.

Warde ainda capturou o advogado Pedro Serrano, há muito ligado ao PT. A clientela de Serrano, especialista em direito público e professor da PUC-SP, minguou na Lava Jato. As empresas atingidas pela operação eram as que mais procuravam seus serviços, como a própria Odebrecht. A maioria delas, àquela altura, estava quebrada ou queria evitar a contratação de um advogado ligado ao PT em tempos de governo Bolsonaro. Depois de um desentendimento com um antigo sócio, Serrano aceitou a proposta de Warde. Em abril de 2022, um mês depois de oficializar a nova sociedade, Serrano já colocou sua influência à prova ao oferecer um jantar a Geraldo Alckmin e Fernando Haddad, que aqueciam os motores para a campanha daquele ano. Quem esteve no evento conta que Warde parecia mais um coanfitrião do que um convidado.

Warde ofereceu dois jantares para Lula em 2022, com o objetivo de arrecadar fundos para a campanha do petista. A lista de convidados era graúda e a presença do candidato sugeria que o advogado poderia ser um nome forte no governo. Segundo o colunista Lauro Jardim, de O Globo, o primeiro jantar para Lula contou com a presença de Boulos, de Steinbruch, o dono da CSN, do empresário Marco Belo Galinha, dono de um grupo de mídia em Portugal, e do ex-primeiro-ministro português José Sócrates. Na ocasião, Warde sugeriu a Lula que usasse o Iree para se aproximar das Forças Armadas.

No segundo jantar, a colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, informou que Warde reuniu novamente Steinbruch, além de acionistas da Alstom, da Siemens e da Iochpe-Maxion, e o empresário José Seripieri Filho, dono da Amil e um dos maiores clientes de Warde. Num outro evento gastronômico em seu apartamento nos Jardins, Warde reuniu Seripieri com o núcleo duro do Psol, incluindo Boulos e a deputada Erika Hilton. O empresário, contudo, não financiou candidaturas do PSOL naquele ano. Mas as doações de Warde chegaram a 250 mil: 200 mil para a campanha de Boulos e 50 mil para a de Paulo Teixeira, do PT, hoje ministro do Desenvolvimento Agrário.

Enquanto o escritório se estruturava de olho na nova gestão do PT, o Iree era mais plural. Além de Rafael Valim, o instituto é conduzido pelo general Sérgio Etchegoyen e o ex-ministro Raul Jungmann, ambos integrantes do governo Temer e escolados no mundo do lobby. Quando ingressaram no Iree, os dois assumiram também o Ibric, entidade que faz o lobby das empreiteiras, da qual, aliás, participa Valdir Simão, outro “wardista”. Jungmann ainda integra o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), lobista das mineradoras. (O contrato de Warde para defender a Vale contra as ações das vítimas de Mariana e Brumadinho é assinado pelo Ibram.)

Em entrevistas a canais de esquerda no YouTube, Warde justifica sua relação com o campo mais conservador. À TV 247 disse que considerava o governo Temer “ilegítimo”, mas nem por isso deixaria de dialogar com seus ex-ministros. “Seria de uma ingenuidade política atroz dizer ‘tô de mal porque vocês participaram do governo que se afirmou com um impeachment ilegítimo da presidente Dilma’. Isso é de uma ingenuidade política da qual nós temos que nos despir.” Nem o Oito de Janeiro frustrou sua amizade com o general Etchegoyen, que minimizou a intentona golpista, espinafrou o STF e o TSE, e postou-se na trincheira dos que acham “legítimo duvidar do resultado” das eleições. Warde considera Etchegoyen um democrata.

Por essas e outras, quando encontrou Fabio Wajngarten, assessor de Bolsonaro, durante um voo para Brasília neste ano, Warde recebeu um sutil convite para advogar para o ex-presidente. “Ele me abordou no embarque e, coincidentemente, sentamos lado a lado”, disse Wajngarten à piauí. Ao dizer que Bolsonaro precisava de bons advogados, Wajngarten sugeriu que Warde jantasse com o ex-presidente. Warde disse que toparia o jantar, mas trabalhar para Bolsonaro seria o mesmo que Wajngarten assumir a comunicação de Lula. A conversa terminou em tom amistoso. “Ele foi muito educado, gentil”, disse o assessor, antes de relatar a Warde detalhes do contato da piauí.

Quando Lula venceu, Warde dispunha de conexões políticas aparentemente ideais para se tornar influente na Esplanada. Mas não foi bem o que ocorreu. Ele integra o grupo de 245 pessoas no “conselhão” do petista, mas está distante do núcleo duro do governo e do PT. Um dos canais que o aproximam do poder é o programa de entrevistas que tem feito no YouTube, em parceria com o jornalista e amigo Reinaldo Azevedo. Em 2023, Azevedo foi procurado pela plataforma para fazer uma série de videocasts. O jornalista propôs que fosse um programa de entrevistas apresentado por ele e Warde. Assim, o advogado tornou-se entrevistador de autoridades. O YouTube se comprometeu a pagar os oito primeiros episódios. O restante – foram 64 até agora – são custeados por Warde, que construiu um estúdio de gravação em um dos andares de seu escritório. Assim, todas as autoridades entrevistadas invariavelmente têm de pousar em seus domínios – um privilégio que nenhum escritório de advocacia tem.

Entre os entrevistados pela dupla, treze são membros do governo federal, incluindo os ministros Fernando Haddad, Rui Costa, Alexandre Padilha, Márcio Macêdo, Marina Silva, Silvio Costa Filho e Silvio Almeida. Dos onze políticos ouvidos, a maioria é da base do governo. No mundo jurídico, já entrevistaram Gilmar Mendes, do STF, e Paulo Gonet, procurador-geral da República. A dupla também abriu o microfone para expoentes da direita, como Cláudio Castro, governador do Rio de Janeiro, e Ronaldo Caiado, de Goiás. Para entrevistar estrelas do poder, conduzir os eventos do Iree com estrelas do poder e advogar em causas pesadíssimas para estrelas do poder, Warde, nas palavras de Azevedo, “trabalha muito”. Diz o jornalista: “Ele tem uma capacidade de trabalho impressionante. Não conhecia ninguém que trabalhasse mais do que eu, até conhecê-lo.”

As conexões de Warde com o STF, a exemplo do que ocorre com o governo Lula, tampouco se mostraram tão azeitadas quanto o advogado desejava. Ele tem relações espinhentas com Zanin, Dias Toffoli e André Mendonça. Zanin está convencido de que Warde trabalhou contra sua ida para o Supremo, seja porque tinha outro candidato em mente (Pedro Serrano), seja porque nunca foram próximos. Zanin desconfia que Warde estimulou o advogado Roberto Teixeira a desaconselhar Lula de indicar seu nome. E Teixeira não é um personagem qualquer nesta ciranda: além de compadre de Lula há quase meio século, ele é pai de Valeska, a mulher de Zanin. (Em 2022, o casal se desentendeu com Teixeira, rompeu a sociedade no escritório e ainda discordou da divisão de honorários no período em que eram sócios.)

As relações azedas com Dias Toffoli têm motivo, sobretudo, pessoal. A esposa do ministro, a advogada Roberta Rangel, foi a primeira mulher a associar-se ao escritório de Warde, em 2021. A passagem pela banca não foi feliz. Houve desacordo sobre métodos de atuação e honorários. Em dado momento, Rangel percebeu que, na nova sociedade, sua competência como advogada contava menos do que as portas que seu nome poderia abrir no Judiciário. Dois anos depois, deixou o escritório. Toffoli não gostou da conduta de Warde. Até então, tinha uma boa relação com o advogado, e chegou a convidá-lo para uma de suas festas de aniversário. Depois disso, a relação gelou. Publicamente, o advogado atribuiu a saída a jato da sócia à falta de sinergia entre eles. Rangel, procurada pela piauí, não quis falar. Disse, no entanto, que a sociedade acabou “em bons termos”.

O ministro André Mendonça, por sua vez, não gostou de uma manobra jurídica de Warde. Em nome de três partidos (Psol, PCdoB e Solidariedade), o advogado pediu em 2023 a revisão dos acordos de leniência das empresas da Lava Jato, sob o argumento de que elas foram coagidas a fazê-lo. Mendonça, relator da ação por sorteio, ficou duplamente irritado. Sentiu-se desprestigiado com o pedido de Warde, apresentado nos autos, para que o caso fosse relatado por Gilmar Mendes, e não gostou de ouvir nos bastidores que o advogado estaria se vangloriando de ter influência sobre a revisão das leniências. Inicialmente vista com descrédito, a ação acabou motivando dezenove empresas e fundos de pensão a buscarem a revisão de seus acordos – e também causou celeuma no Psol. Guilherme Boulos, hoje principal liderança do partido, e o então presidente Juliano Medeiros, não consultaram colegas de legenda antes de colocá-la à disposição do advogado. A ação em defesa das empreiteiras tem tudo a ver com a história de Warde, mas nada a ver com os pleitos do Psol até então.

Em sua coluna na Folha de S.Paulo, o professor de direito constitucional da USP, Conrado Hübner Mendes, criticou os termos esponjosos da ação – “sem nuance jurídica, sem delicadeza política, sem distinção analítica, sem noção” – e fez ataques cifrados aos autores. Warde e seis sócios acusaram o golpe e responderam em um artigo divulgado pelo site Conjur. “Por que, nesta terra de miseráveis e desnutridos, de desempregados e despossuídos, o musculoso Conrado Hübner ousou atacar os advogados, e não os clientes?”, escreveram. Mais adiante, mencionaram que o professor havia trabalhado para Warde. Hübner depois veio a público explicar que o trabalho consistia em participar de uma palestra remunerada no Iree.

A pendenga não terminou aí. Hübner recebeu uma notificação por danos morais de autoria de Warde e sócios. Não deu em nada. Depois, foi alvo de uma representação no Ministério Público proposta pelo advogado Carlos Henrique Bastos Silva Mendes, um completo forasteiro na história. Na ação, ele pedia que Hübner fosse denunciado por improbidade administrativa. Seu delito: fazer a palestra remunerada no Iree, escrever como colunista da Folha, ter uma participação minoritária numa empresa do seu irmão e integrar um centro de pesquisas – esse compêndio, segundo o texto, violava o regime de dedicação integral à USP. O objetivo era que Hübner fosse exonerado do cargo.

A USP saiu em favor do professor. Mesmo assim, Silva Mendes, o forasteiro, insistiu e apresentou inúmeros recursos. O caso terminou arquivado em agosto deste ano. Segundo a colunista Monica Bergamo, da Folha, por uma grande coincidência, dentre os documentos que embasavam a ação do advogado no MP havia um documento assinado por uma advogada do escritório de Warde. “Vivi o assédio jurídico por ter feito uma crítica ao teor de uma ação ajuizada no STF. Pertinente ou impertinente a crítica, eu preciso ter a liberdade de fazê-la. Se não fizer porque tenho medo, eu traio a minha profissão. Há quem se diz progressista, defensor da democracia e crítico do lawfare em público. Mas, em privado, pratica aquilo que critica. Não me convidaram para um debate aberto. Me ameaçaram de sanção jurídica”, disse o professor à piauí.

Como acontece em períodos de crise, o pós-pandemia aumentou as disputas empresariais na Justiça, agravadas por uma equação infeliz: baixa liquidez no mercado de capitais e alta de fusões e aquisições, que requerem financiamento. Ou seja: no momento em que havia múltiplas operações em busca de dinheiro, a oferta de dinheiro estava escassa. A equação resulta num convite para brigas, que, cada vez mais, estão se deslocando das câmaras de arbitragem para os tribunais – onde Warde e outros advogados, alguns dos quais muito mais influentes que ele, prosperam em ritmo vertiginoso. O crescimento dos litígios vem dando origem a novas formas de brigar. E as inovações de Warde, nesses casos, são classificadas, na descrição de um colega e concorrente, como “guerrilha”, porque se dão em múltiplas frentes – autarquias, imprensa e varas criminais.

Em junho de 2023, uma reclamação protocolada na CVM  acusava o Grupo Delta Energia de manter uma sociedade oculta com duas concorrentes em situação pré-falimentar, a Brasil e a Argon, numa conduta supostamente fraudulenta que envolvia desvio de recursos. O autor da acusação era Paulo Enrique dos Santos Rocha Filho, ex-executivo das duas empresas. Antes que a Delta fosse notificada pela CVM, o jornal Valor Econômico obteve o documento da denúncia e noticiou o fato. Quando o caso chegou à Justiça, descobriu-se que o ex-executivo não havia sido a fonte primária da informação de que uma denúncia chegaria à CVM.

Quem seria? Quem teria interesse em dar publicidade à suposta sociedade da Delta com duas empresas falidas? Por uma coincidência, meses antes do registro da reclamação na CVM, a Delta recebera notificações extrajudiciais do escritório de Warde, representando três concorrentes. Todas denunciavam a sociedade oculta, dando o primeiro passo de uma estratégia de encurralar a Delta. Uma das notificações continha trechos idênticos à denúncia de Paulo Rocha à CVM. Outra dizia que o escritório de Warde continuaria o litígio, mesmo que o caso fosse levado às autoridades – como a CVM, por exemplo. Rocha e o escritório de Warde pareciam alinhados nas intenções.

Os advogados da Delta suspeitaram de uma manobra engenhosa: as três concorrentes queriam imputar à Delta as dívidas das duas empresas falidas. “Trata-se de uma absurda coincidência? Ou há um contato de vossas senhorias com o denunciante [Paulo Rocha], que propicia a obtenção de informações das empresas a que ele está (ou estava) atrelado?”, escreveu o criminalista Celso Vilardi, em nome da Delta, numa notificação enviada às três empresas. O escritório de Warde explicou que a “absurda coincidência” decorria do fato de que Rocha também tinha recebido a notificação.

Se a sociedade oculta ficasse comprovada, os credores da Brasil e da Argon poderiam pleitear que a Delta, uma companhia saudável, pagasse o que tinham direito a receber. Entre os credores das falidas estão – nova coincidência – as três clientes do escritório de Warde: Máxima, Deal e Ekoa. Além delas, havia outro credor que poderia se beneficiar indiretamente do caso: a Âmbar Energia, dos irmãos Batista, que deseja receber 53 milhões de reais das duas empresas falidas.

Em mais uma coincidência, cinco dias depois da publicação da reportagem no Valor, o caso despertou o interesse do então deputado Guilherme Boulos, amigo de Warde. Em sua conta no Twitter, Boulos escreveu: “relações promíscuas: O jornal Valor Econômico noticiou na sexta (16) uma denúncia na CVM contra a Delta Energia, maior grupo privado de comercialização de energia do país e gestor de dois fundos de investimentos que captaram bilhões de reais no mercado de capitais. A denúncia na CVM acusa os gestores dos fundos da Delta de realizarem contratos fraudulentos e simulados de compra e venda de energia para desviar dinheiro dos fundos em favor… da própria Delta.”

Diante do barulho, das notificações e das provas, as três empresas representadas pelo escritório de Warde tinham tudo para processar o Grupo Delta Energia e tentar reaver os valores que lhe eram devidos. Mas nenhum processo foi aberto. Quem acompanha o caso diz que é um método próprio de Warde. Em vez de arriscar uma ação judicial cara – que, em caso de derrota, levaria seus clientes a pagarem os honorários dos advogados da outra parte –, ele prefere criar um ambiente de tensão para forçar um eventual acordo.

Na tramitação de outro caso, o escritório de Warde defende o KaBuM!, varejista de e-commerce que processa o Itaú BBA, braço de investimentos do Itaú[1], e o Magazine Luiza, a rede varejista. Em 2021, o banco intermediou a venda do KaBuM! para o Magazine Luiza, que propôs pagar uma parte em dinheiro, outra parte em ações. Fechado o negócio, as ações do Magalu despencaram, e os donos do KaBuM!, irritados, buscaram reparação pelas perdas. Bateram à porta do escritório de Warde, que entrou no caso contratando a Kroll, firma americana de investigações, para produzir um dossiê sobre os oponentes. Era o começo da guerrilha.

Os irmãos Leandro e Thiago Ramos, fundadores do KaBuM!, abriram a disputa acusando o Itaú BBA de priorizar a oferta do Magalu em detrimento de outras empresas. Também acusam o banco de organizar uma oferta de ações do Magalu depois da conclusão do negócio, o que diluiria a participação acionária dos irmãos na varejista. Por último, ao saberem que o banqueiro encarregado da venda, Ubiratan Machado, era concunhado de Frederico Trajano, executivo do Magalu, os irmãos Ramos passaram a defender a tese de que se tratava de uma negociação viciada desde o início. Diante disso, queriam uma reparação de mais de 2 bilhões de reais.

Warde entrou no jogo requerendo a quebra de sigilo das comunicações de todos os envolvidos e de contratos do banco, além de informações sobre pagamentos do Itaú BBA a Ubiratan Machado. A Justiça atendeu ao pedido parcialmente, mas o escritório de Warde ganhou um presentaço: foi procurado por Erickson Justus, ex-cunhado de Ubiratan Machado, que revelou trocas de mensagens antigas com a sua ex-mulher mostrando que os executivos do Itaú BBA e do Magalu eram “melhores amigos”. Como os donos da KaBuM! juntaram ao processo diálogos íntimos da família de Machado, o banco pediu que fossem condenados por litigância de má-fé. Os irmãos apresentaram uma queixa-crime contra Frederico Trajano. Nenhum pedido foi deferido.

Apesar das tensões, Warde não entrou na Justiça pedindo os 2 bilhões de reais, reivindicados por seus clientes. Tal como no caso da Delta Energia, adotou a estratégia de esticar a corda e escalar o conflito até um eventual acordo vantajoso. E a briga, de fato, esquentou tanto que, até agora, o Magalu não conseguiu encontrar alguém disposto a representá-lo numa câmara de arbitragem para resolver a disputa. Quando sabem que Warde advoga para a outra parte, os árbitros pulam fora.

Na bilionária fraude das Lojas Americanas, a maior da história corporativa do Brasil, Warde elevou a temperatura do caso aos píncaros. Contratado pelos bancos Bradesco e Safra, dois dos maiores credores da Americanas, Warde iniciou o jogo na pressão. Pediu a quebra do sigilo dos e-mails da diretoria, conselheiros e acionistas – no caso, o trio Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira. Obteve liminar proibindo que vendessem qualquer bem no curso do processo e conseguiu fazer com que Sergio Rial, o presidente da Americanas que trouxe as fraudes a público, fosse intimado pela polícia. Rial nada sabia do esquema, antes de assumir o cargo, mas sua intimação ajudava a saturar o ambiente. “Warde queria forçar os acionistas a aceitarem uma composição com o Safra e o Bradesco”, diz um advogado do caso.

Sua tática teve um sucesso parcial. No início, para fazer frente ao rombo de 40 bilhões de reais na Americanas, o trio de acionistas propôs entrar com módicos 1 bilhão de reais. Depois, sob pressão constante, aumentaram a oferta para 7 bilhões. No fim, quase um ano depois da descoberta da fraude, aceitaram rachar com os bancos a capitalização de 24 bilhões da empresa: os acionistas entraram com 12 bilhões e os bancos com o restante. Isso porque, no curso das investigações, descobriu-se que as instituições financeiras não colocaram no balanço as operações de crédito que abasteciam o esquema da Americanas. Podiam não saber da fraude contábil lá na ponta, mas ficou claro que, em alguma etapa do processo, tiveram uma participação indireta.

Mesmo diante disso, Warde não estava satisfeito. Queria seguir brigando. Quando os valores da capitalização foram definidos, ele continuou brigando. Quando o negócio foi fechado, ele continuou brigado. A situação já virara um constrangimento para o Bradesco. A diretoria do banco queria que o advogado parasse a briga, mas Warde não seguia as orientações da área jurídica. O Bradesco chegou a cogitar cassar sua procuração para atuar no caso, mas recuou com receio de provocar uma violenta disputa por honorários. O advogado só foi contido depois que a Americanas ameaçou processar o Bradesco por litigância de má-fé e recorrer a outros instrumentos jurídicos de pressão – os mesmos, aliás, que Warde usara contra a Americanas.

Em rodas de advogados, Warde gosta de falar sobre sua insistência. Reconhece que só desistiu da briga depois que o acordo foi homologado pela Justiça, já em 2024, mais de um ano depois de sua assinatura. Em certa ocasião, gabou-se que os acionistas ficaram chateados com os transtornos que causou. Na prática, Warde nunca se sentou à mesa de negociação com os banqueiros envolvidos – ao todo, eram quatro: José Olympio (Safra), Octavio de Lazari Júnior (Bradesco), André Esteves (BTG) e Milton Maluhy Filho (Itaú) – e nem com o representante do trio de acionistas, o empresário Roberto Thompson. No âmbito jurídico, quem comandava as negociações era o escritório Pinheiro Neto. “Foi difícil trazer o Bradesco e o Safra para a mesa de negociação feita com os outros bancos. Mas nada que o Warde tenha feito influenciou a decisão de fazer um acordo. O acordo saiu porque os bancos entenderam que, para eles, valia a pena encerrar a briga”, diz um advogado ligado aos acionistas.

A vitória mais ruidosa do estilo de Walfrido Warde ainda estava por vir. Em 2017, ele entrou num caso para defender Steinbruch, da CSN, seu cliente mais litigante e a quem ele próprio chama de “carne de pescoço”. Steinbruch alegava que a empresa ítalo-argentina Ternium estava adquirindo o controle da siderúrgica Usiminas de forma irregular. Numa acusação jamais comprovada, dizia que a Ternium fizera um acordo secreto com outra acionista da Usiminas, a japonesa Nippon Steel, para assumir o controle por baixo dos panos – e não pagar o que deveria aos sócios minoritários da Usiminas, entre os quais se encontrava a CSN de Steinbruch. A manobra, se verdadeira, configuraria o que a lei chama de “alienação de controle”.

O rolo foi parar na CVM, que não viu indício de irregularidade. Steinbruch contratou o advogado José Roberto de Castro Neves e recorreu ao Tribunal de Justiça, onde também perdeu, por unanimidade. Warde entrou na jogada e Castro Neves saiu. Em setembro de 2017, o processo subiu para o STJ, em Brasília, mas só começou a andar depois de dois anos. O ministro Paulo Dias de Moura Ribeiro, presidente da Terceira Turma do STJ, finalmente nomeou o relator do caso: Ricardo Villas Bôas Cueva. (Por coincidência, no mês seguinte, o Iree de Warde promoveu aquele seminário sobre “a visão do STJ” a respeito de “temas societários e recuperação judicial”. O seminário era coordenado pelo ministro Moura Ribeiro. Seu colega no STJ,  Villas Bôas Cueva, também estava presente.)

Em razão da pandemia, o caso só foi retomado em 2022. As duas partes então montaram um exército de advogados com bom trânsito nos tribunais superiores. Steinbruch recorreu a Cesar Asfor Rocha, ex-presidente do STJ, e Marcus Vinicius Furtado Coêlho, ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil e talvez o advogado mais influente no Judiciário hoje. A Ternium optou pelas cercanias do PT, convocando João Paulo Cunha, ex-deputado petista, José Eduardo Cardozo, ex-ministro de Dilma, e Marco Aurélio de Carvalho, o petista que lidera o Grupo Prerrogativas. Além deles, contratou o advogado Nabor Bulhões e o afamado escritório de Sergio Bermudes.

A Ternium levou a melhor. Conquistou os votos do relator, Villas Bôas Cueva, e dos ministros Paulo de Tarso Sanseverino e Marco Aurélio Bellizze. A CSN, por sua vez, ganhou apenas dois votos: o da ministra Nancy Andrighi e do presidente da turma, o ministro Moura Ribeiro, o mesmo que abrira o seminário do Iree. Enquanto a CSN lambia as feridas da derrota, a Ternium anunciou a compra de metade das ações da Nippon Steel na Usiminas. A CSN considerou um ultraje e uma prova de que, de fato, havia um acordo por baixo dos panos. Steinbruch recorreu ao STJ com um “embargo de declaração”. Depois de uma decisão sobre o mérito, o embargo é usado apenas para sanar omissões e contradições. Mas o efeito foi impressionante: causou uma reviravolta.

Em um capítulo dramático, o ministro Sanseverino morreu de câncer aos 63 anos, em abril do ano passado. Foi substituído por Humberto Martins, cuja posição era favorável à CSN. Era boa notícia para Warde. No capítulo nebuloso, Warde contratou como sócio um jovem brilhante, mas inexperiente, de 27 anos. Chamava-se Marcelo Bellizze, filho do ministro Bellizze, que votara contra a CSN. Em razão da contratação do filho, o pai declarou-se impedido de votar o recurso. Era outra boa notícia para Warde. Bellizze, o pai, foi substituído pelo ministro Antonio Carlos Ferreira.

Em junho deste ano, na sessão de votação do embargo, Villas Bôas Cueva, o relator, demonstrou desconforto quando Moura Ribeiro e Humberto Martins votaram para mudar a decisão de mérito tomada no ano anterior – ainda estipularam uma indenização altíssima de 5 bilhões de reais e fixaram uma fortuna para os honorários dos advogados, o equivalente a 500 milhões de reais. “Esse é um caso de grande relevância. […] Há a sentença de um juiz estadual paulista. Há um acórdão muito sólido no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Eu mantive o acórdão e agora há dois votos pelo acolhimento dos embargos”, reclamou.

A ministra Nancy Andrighi, que votara a favor da CSN no ano passado, já não estava mais tão certa de sua decisão e determinou que o caso devia voltar à primeira instância. Cueva, que negara o recurso, mudou seu voto e seguiu a decisão de Andrighi, na intenção de formar maioria para o caso voltar ao início. “É uma questão de segurança jurídica. Se há dúvida, vamos deixar que a primeira instância esclareça”, disse.

O novo cenário colocava a Ternium entre a derrota (a indenização bilionária) e o risco (a volta do processo à estaca zero). Nesse contexto, o risco era a melhor opção. A essa altura, quando a discussão estava empatada em 2 a 2, faltava o voto do ministro Antonio Carlos Ferreira, que substituíra Bellizze. Ferreira votou a favor da CSN.

A derrota da Ternium representou uma vitória espetacular do esquadrão de advogados integrado por Warde. Além da contratação do filho que neutralizou o voto do pai, a decisão do STJ reverteu tudo o que havia sido votado no mérito. A tese da CSN de que a Ternium atuava em conluio com a Nippon Steel pode até ser verdadeira, mas não foi comprovada em nenhuma fase do processo.

Apesar das rasteiras e cotoveladas, a advocacia de Warde é considerada competente pela maioria dos seus pares ouvidos pela piauí. Mas quase todos afirmam que seu trabalho é especialmente indicado para um tipo específico de cliente: o desesperado. “Ele vai criar o caos. É um pitbull”, define um advogado que já indicou casos para Warde. “Essa combatividade enche os olhos do empresário que está numa situação ruim.” Para situações em que o excesso de atrito não é bem-vindo, sua advocacia não funciona tão bem. “Eu não recomendo o Warde quando o caso é delicado. Ele não é construtivo. Você coloca o Warde para quebrar tudo. E, depois de quebrar tudo, você eventualmente tenta reconstruir algumas pontes.”

Além da fama de combativo, Warde também é tido como um dos advogados mais caros do país. Quando negociava com uma empresa alemã do setor de transportes que desejava atuar no Brasil e precisaria de bom atendimento em direito regulatório e bons contatos, Warde foi direto ao ponto. Disse que o estrangeiro que deseja entrar no país precisa estar preparado para gastar dinheiro, informou que parte do trabalho de relacionamento seria feito por meio do Iree e apresentou a fatura pesada: 10 milhões de reais. A empresa alemã não topou. Um advogado, que levou a Warde o caso de uma multinacional de tecnologia, recorda o que ouviu: “Ele falou: ‘Ótimo, mas eu preciso de orçamento garantido para poder entrar.’ Ele se coloca como a pessoa que vai gerir a situação para a empresa dentro do governo.” Outro empresário do setor industrial, ao ouvir a fatura, cerca de 3 milhões de reais, desistiu da briga. Preferiu negociar com a outra parte. “Gastei muito menos que isso e resolvi. Mas se você tem uma empresa de 200 milhões e corre o risco de perdê-la, você contrata o Walfrido ao preço que for, porque aquela empresa é tudo o que você tem”, conta.

Warde tornou-se um homem rico e gosta de demonstrar poder por meio do dinheiro. Seus eventos de fim de ano são realizados no hotel Rosewood, o mais luxuoso de São Paulo. Neles, mistura clientes, concorrentes, autoridades, artistas e atabaques de candomblé. Católico e rezador de novena, também frequenta o terreiro. Ingressou na nova religião depois de conhecer dois pais de santo na casa do jornalista Paulo Henrique Amorim, falecido em 2019. Costuma dizer aos mais chegados que não precisou passar por todas as etapas do rito de iniciação ao culto dos orixás. Trata-se de um privilégio que candomblecistas notórios jamais tiveram, como Gilberto Gil, Maria Bethânia ou Jorge Amado. Diz que, na Casa de Oxumarê, em Salvador, foi escolhido como ogã, uma autoridade religiosa, o que o dispensou do isolamento, do silêncio e da raspagem do cabelo. Já contou que tentou fazer sessões de análise algumas vezes, mas desistiu, incomodado com os silêncios do psicanalista. Em 2022, antes da cirurgia bariátrica, fez uma nova tentativa, mas parou depois de tornar-se amigo do terapeuta.

Além das paródias com O poderoso chefão, Warde tem outros meios de alimentar uma certa mística de homem mau. Na entrada do seu escritório, há uma caricatura inserida num pôster da série Breaking bad. O pôster retrata os personagens Walter White e Jesse Pinkman, sujeitos triviais que acabaram se tornando traficantes de droga. Eles aparecem sentados, com ar cansado, tomando cerveja. Na caricatura, Warde é White, o grande alquimista da metanfetamina, e seu sócio, José Luiz Bayeux Neto, é Pinkman, o garoto perturbado que se torna seu parceiro no esquema. Sobre o quadro, Warde escreveu em uma rede social que todo mundo pode “virar mau”:

– Walter e Jesse são, na verdade, dois caras do bem, que, diante das circunstâncias, como qualquer um, podem simplesmente breaking bad.

[1] A família do fundador da piauí é acionista integrante do bloco de controle do Itaú.


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Repórter da piauí. Foi editora de política na Veja, editora do Globo em Brasília e editora-chefe na Época