cartas
Set 2024 17h25
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O TURBANTE DE MARÇAL
Imagino o turbante exibido na capa da piauí meio torto, cambado para a direita. Se o personagem era indestrutível, creio que não há de resistir à cadeirada ao vivo, sem cortes.
SÉRGIO C. BANDEIRA DE MELLO_ RIO DE JANEIRO/RJ
Causou-me surpresa e desapontamento ver uma figura desprezível na capa da piauí_216, setembro. Uma das melhores partes da nossa piauí é justamente a capa, que anuncia o momento e, às vezes, está associada a uma reportagem relevante. Que tristeza ver esse espaço de alento manchado por um personagem que só merece desprezo e ostracismo. Que o meu protesto replique, e tal ultraje, aos fiéis leitores, não volte a acontecer.
Um abraço cheio de protesto.
CLARA DAVIDOVICH_RIO DE JANEIRO/RJ
NOTA ENVERGONHADA DA REDAÇÃO: A redação lamenta e esclarece que fará o possível para retomar a qualidade de um espaço que já foi frequentado por notáveis como Eduardo Cunha, Arthur Lira, Jair Bolsonaro, Vladimir Putin, Donald Trump e o saudoso Olavo de Carvalho.
CAPAS, CARTAS E CARACTERES
Somente o boçal criminoso que estampa a capa da piauí de setembro seria capaz de provocar a distorção dos caracteres do título da revista, fato que aconteceu apenas outras duas vezes (piauí_187, abril de 2022, em cirílico, e piauí_157, outubro de 2019, em perspectiva). Pequenas intervenções, com caracteres na vertical ou introdução de estrelinhas, chifres, cores alternadas etc., não foram consideradas distorções. Pergunto se o que está refletido na bola de cristal segurada pelas mãos levianas seria uma suástica. Talvez a capa seja prenúncio dos Caracteres radicais do bilionário das esmeraldas de sangue, conforme trecho do livro de Kate Conger e Ryan Mac. Bom jogo de palavras entre caráter e caractere junto à simbologia disso tudo.
Haveria na edição da piauí_216, setembro, outras correlações nesta premonitória edição entre a privatização da educação paranaense (O experimento, de Felippe Aníbal), O filho bastardo (de Fernando de Barros e Silva), retratando o retratado da capa, e Como nasce um pitbull (de Ana Clara Costa) para dar a dimensão da distopia em que vivemos, quer seja política, quer seja jurídica. Mas há um mister a cumprir. Em resposta e alívio ao colega leitor Ricardo Rosado (Cartas), e agradecendo pela preocupação, digo que minha saúde, ao menos a mental, segue em ordem, apesar de o país arder em chamas. Informo também que contribuí com minha carta e que o “tão pouco material recebido” é inverdade ou o respondedor de cartas não teve acesso a tudo o que foi enviado, ou, ainda, reconheço, as palavras deste missivista não atingiram a qualidade necessária para publicação. De qualquer forma, retornar ao mínimo de espaço destinado às cartas não pode ser chamado de “fartura”. Sem a pretensão de que nossas cartas tenham relevância semelhante à dos cadernos de Antonio Candido, que ao menos sejam publicados, como esperamos que assim o façam as herdeiras do grande professor e crítico literário, compartilhando os anseios de Carlos Augusto Calil em Memórias póstumas de Antonio Candido.
ADILSON ROBERTO GONÇALVES_CAMPINAS/SP
NOTA EMOTIVA DA REDAÇÃO: Bom tê-lo de volta, Adilson.
SUPIMPA
Como sou fã da revista, procuro lê-la com apurado senso crítico (se é que o tenho), para não me deixar levar pela afinidade e simpatia que possuo pela piauí. Mas devo confessar que há algum tempo não observava uma edição tão supimpa – como diria minha avó – como a piauí_215, agosto. Vamos aos fatos.
Começamos com A camaleoa, de autoria de Lara Machado, abordando a trajetória de vida da deputada federal Erika Hilton. Ficamos imaginando a carga de ódio que Erika deve receber na Câmara dos Deputados, onde a imensa maioria é conservadora, preconceituosa e deixa claro sua aversão a pessoas que, digamos, fujam do normal, na visão dos defensores da família e dos valores cristãos. É muito bom termos acesso à batalha que a deputada enfrentou para chegar até aqui.
Já em Sorriso: uma biografia, Angélica Santa Cruz nos mostra a máquina de hipocrisia e o aproveitamento que as famílias, principalmente as abastadas, fazem, da maneira mais cínica e deslavada possível, de meninas-crianças, e permitem que sejam absorvidas, na engrenagem familiar, como “valorosos e leais” membros das famílias. Exploradas, humilhadas, abusadas e que tais, Angélica deixa claro como é bem flexível o fato de integrar um grupo familiar. Isso é uma tradição do Brasil feudal, que até hoje se repete com frequência.
Saindo das “meninas que fazem parte da família”, adentramos no mundo do glamour, da superexposição, da ostentação e do espírito trambiqueiro que grassa em solo tupiniquim. João Batista Jr., em sua matéria A era dos superfakes, retrata de forma direta o mundo “real” das falsificações, de como impostos são burlados, de como as falsas necessidades são forjadas e de como vivemos em um mundo que dá valor à exposição e posse de bens materiais, mesmo que sejam falsificados com incrível competência.
Em João Gomes tem a senha?, Tiago Coelho teve a sensibilidade e a delicadeza de mostrar o mundo em que o cantor viveu e de como apreendeu coisas básicas e importantes que estão retratadas em suas músicas, que alcançam um público considerável, com enorme sucesso. Tiago analisa e nos traz um pouco da alma tímida, carregada de passado, angústias e valores familiares que o jg despeja em suas canções.
Por fim, não poderia deixar de registrar a bela matéria de Armando Antenore, A guardiã, sobre a autora de Um defeito de cor, Ana Maria Gonçalves. Havíamos lido esse livro, “séculos atrás”, por uma dica do Millôr Fernandes, que afirmara que era espetacular, imperdível e importante para termos noção da diáspora africana. Como, para nós, Millôr era um gênio, não poderíamos deixar de seguir sua recomendação. O livro figura como um dos mais importantes e impactantes que tivemos a oportunidade de ler. A persistência, podemos dizer a bravura, o trabalho de pesquisa, os desafios encarados por Ana Maria, alterando rotas e caminhos de sua vida, para nos proporcionar esse belo livro, ela pode ter absoluta convicção de que valeu a pena.
Sei que não consegui enxugar o texto, mas a culpa não é nossa. A piauí de agosto nos motivou a deixar nossos encômios aos autores de textos que levou ao nosso conhecimento.
ANTONIO CARLOS DA FONSECA NETO_SALVADOR/BA
POLÍCIA
A leitura do excelente artigo “Vocês vão ter que me ouvir” (piauí_216, setembro) nos causa alguma preocupação e nos leva a refletir sobre a forma de ser de uma corporação militar que pode ser considerada o “segundo maior Exército da América Latina” (quantitativo) e, também, sobre o que se pode pensar/esperar em termos de “segurança” pública oferecida por aquela que é considerada a mais bem “preparada e aparelhada” (qualitativo) polícia do continente sul-americano.
No contexto, é de se indagar se são vilãs as armas, diante dos trágicos números de suicídio praticados por integrantes da corporação militar, bem como os homicídios entre militares.
Ou serão vilões os seres humanos com suas contingências, por se deixarem conduzir por uma sociedade violenta, desajustada?
A história de vida do sargento Gouveia, especialmente no que toca ao viés funcional, é trágica aos destinos de várias vidas humanas, inclusive à sua própria. Contudo, não nos iludamos, porque esse tipo de tragédia na seara militar não é exclusividade atribuível somente a este personagem.
Neste particular, percebe-se que a canalização de frustrações/violências, por parte de integrantes das agências públicas de segurança, pode ter como alvo não somente colegas, amigos e familiares, mas de uma forma bem mais acentuada e quase invariável pode acabar por atingir aquelas pessoas eleitas e designadas pelas polícias de governos como “inimigos sociais”, seja por raça, cor, condição social etc.
O juiz da causa penal militar, por ocasião do julgamento da esposa do sargento Gouveia (Camila), enalteceu, entre outros aspectos, o salário, o plano de saúde inerentes à condição funcional de policial militar (seriam os socialmente afortunados) como sendo os acessórios dos “sonhos brasileiro/paulista”, o que está a demonstrar o quão desigual é a nossa sociedade e que se não deve ignorar que uma sociedade melhor é construída na sua base.
É de se repetir que a transformação da sociedade, ao contrário do que apregoam alguns “homens de Estado”, só se dará por meio da educação, da redução das desigualdades, da implantação de políticas afirmativas etc.
MARLÔNIA DIAS DE OLIVEIRA_SÃO PAULO/SP
Ao ler o texto sobre o assassinato do capitão e do sargento pelo primeiro-sargento Gouveia, que no julgamento foi considerado motivo fútil (a não concordância com a escala de trabalho), após o desdobrar da história, podemos supor que ele ficou sabendo da traição da esposa. Como diz o ditado: a pessoa traída é sempre a última a saber. A fala de que ele não sabia me parece ingênua. Geralmente em casos como esse todos já sabiam, menos ele, até o desfecho final.
LUIS COUTINHO_VALINHOS/SP
CARTAS
Andamos tão assustados e atordoados, e a associação desse grupo político com seres animalescos é tão automática, que passei a leitura inteira da matéria Como nasce um pitbull, da piauí_216, setembro, pensando em que parte do texto seria explicado o porquê de Walfrido Warde ser o pitbull da direita. Só depois reparei que era “o pitbull do direito”.
JOÃO ALCÂNTARA_BELO HORIZONTE/MG
NOTA CINÓFILA DA REDAÇÃO: Até porque a direita tem trocado os serviços de defesa do pitbull pelos da cadeira.
ESCOLAS
A matéria O experimento, na piauí_216, setembro, confirma que estamos na Era do Inacreditável.
A extrema direita, com sua pregação aceita por grande parte da população de que uma pessoa armada e fardada é um Deus, resolveu colocá-la nas escolas.
Não conseguem apresentar um só argumento. Fazer os alunos ficarem em filas, cantar o Hino Nacional, marchar, bater continência etc., é risível.
O critério de seleção dos agentes é o apadrinhamento, pois são salários altíssimos; sendo pessoas com formação repressora, como irão lidar com os questionadores, que são imprescindíveis, e os desafiadores, que são inevitáveis?
Usar as escolas militares como referência é um embuste. As pessoas se impressionam com a escola limpa, boa merenda, os alunos bem-vestidos, marchando, fazendo continência; essas escolas não têm avaliações externas, e nenhuma se destaca em olimpíadas de conhecimento, apesar de custarem até vinte vezes mais por aluno que uma escola normal.
A extrema direita destruiu o país, está destruindo e contratando mais destruição futura. O projeto de manter a população submissa por meio de uma deseducação irá atingir proporções dantescas com a extrema direita.
DJALMA ROSA_SÃO SIMÃO/ SP
ERRATAS
Ao contrário do que diz o texto Memórias póstumas de Antonio Candido (piauí_216, setembro), o filme Antonio Candido – Anotações finais 2015-2017, de Eduardo Escorel, não foi financiado pela Agência Nacional do Cinema (Ancine). No mesmo texto, está escrito que o crítico Antonio Candido participou da criação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Ele, na verdade, participou da criação do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O disco ouvido por Candido foi o de Carlos Vergueiro, e não de Carlinhos Vergueiro, como consta no texto. Natasha é o apelido da amiga Ana Maria, e não o nome de uma amiga do crítico.
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A reportagem “Vocês vão ter que me ouvir” (piauí_216, setembro) informou equivocadamente que a BBC News Brasil veiculou uma matéria sobre a reputação exemplar do sargento Claudio Gouveia antes dos crimes que ele cometeu. Na verdade, a emissora divulgou a matéria depois dos crimes e, para fundamentar a surpresa generalizada que os assassinatos causaram, sublinhava que Gouveia era considerado um policial exemplar.
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Ao contrário do que está escrito no texto Da cor do Crato (piauí_216, setembro), o artista visual Samuel Macedo foi o vencedor do Prêmio Pipa Online 2024, e não do Prêmio Pipa 2024.
nota orgulhosa da redação: E nenhum erro da parte do editor de cartas.