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NOSSO MUNDO

Eu, Édouard Louis, a homofobia e a mobilidade social

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Desde o dia em que nasci, havia duas expectativas sobre mim: eu deveria emular o comportamento moral da minha mãe e me distanciar de qualquer semelhança com o meu pai. Cresci sem tê-lo por perto, sem compreender muito bem quem ele era. Minha mãe o conheceu quando tinha 20 anos, na festa de uma amiga do bairro, no subúrbio carioca. Engravidou antes de oficializar um namoro e conhecer a história de vida dele: proveniente de uma família desestruturada, meu pai se envolveu com drogas na adolescência e nunca conseguiu superar o vício. Ao saber da gravidez, ele sumiu e apareceu apenas na véspera do meu nascimento. Acompanhou o meu primeiro ano de vida, mas, numa certa noite, minha mãe encontrou pacotinhos de cocaína escondidos embaixo do meu berço. Ela o colocou para fora de casa, dizendo para não voltar nunca mais. Ele não voltou.

Um dia, aos 10 anos, cheguei da escola e soube que o meu pai fora assassinado a tiros na esquina de sua casa, na Vila da Penha. O motivo de sua execução nunca foi esclarecido, mas a minha mãe, que havia anos tinha apenas contatos esporádicos com ele, suspeitava que o crime poderia ter sido cometido por traficantes de drogas, com os quais meu pai teria dívidas. O fim da vida dele fez com que todos ao meu redor me olhassem com dó e medo. Posso imaginar o que os meus familiares pediram em suas preces: que aquele menino rechonchudo se tornasse um sujeito decente, trabalhador e sóbrio, o oposto do pai. Daí em diante, eles me disseram para ser Homem.

Entendi que bastaria não usar drogas e me dedicar à escola. E assim fiz até que, por volta dos 11 ou 12 anos, percebi um aspecto da minha identidade: eu me atraía por outros meninos. O meu riso era fino, eu apoiava a mão na cintura o tempo inteiro, não resistia à vontade de brincar com as bonecas das minhas primas. Desde cedo, na escola e na rua, meu comportamento era definido pela palavra “viado”, mas apenas agora eu tomava consciência de que ela realmente dizia algo sobre mim. Entendi, sozinho, que deveria me empenhar para me esconder de tios, avós, mãe, amigos, professores, o pastor da igreja. Aos 14 anos, eu me achava um ótimo ator.

Numa segunda-feira de maio de 2013, acordei assustado depois de ouvir um grito. Meu quarto minúsculo estava um breu – as cortinas com blecaute impediam a entrada de luz. Então escutei o segundo berro. A porta do meu quarto se abriu e minha mãe apareceu com o rosto vermelho e em lágrimas. Seus olhos procuraram os meus no escuro. Ela me encarou em silêncio por alguns segundos e deixou o cômodo sem dizer nada. Meus avós, que moravam conosco, haviam despertado com os gritos e estavam na sala da casa, observando minha mãe circular enlouquecida pelos corredores estreitos. Me juntei a eles:

– O que aconteceu, mãe? – perguntei, mas não tive resposta.

– O que houve, Luciana? – insistiu a minha avó.

E então ela respondeu:

– Ele é viado, mãe.

Para comemorar o meu aniversário de 25 anos, me reuni com amigos em um quiosque na Praia do Leme, em fevereiro passado. Na manhã seguinte, de ressaca, deitado com o meu namorado no apartamento dele em Copacabana, decidi começar a ler Mudar: método, então o livro mais recente do escritor francês Édouard Louis lançado no Brasil pela editora Todavia. Já tinha lido outros dois livros de Louis, um sobre seu pai e outro sobre sua mãe. Estava atraído pelo seu ambicioso projeto autobiográfico de contar o que viveu, como um modo de denunciar injustiças sociais. Mudar: método começa com a seguinte frase: “Tenho 26 anos e uns meses, a maioria das pessoas diria que tenho a vida pela frente, que nada começou ainda e, no entanto, vivo já há muito tempo com a sensação de ter vivido demais.”

Louis nasceu na comuna francesa de Hallencourt, ao Norte do país, filho de um operário e uma dona de casa. Conheceu bem cedo a miséria. Atendia às ordens da mãe para bater na porta dos vizinhos e pedir que lhe dessem um pacote de macarrão e uma lata de molho de tomate. Se familiarizou com a violência ao conviver com o alcoolismo e a homofobia do pai e do irmão. “Quando eu tinha 6 ou 7 anos, via esses homens à minha volta e achava que a vida deles seria a minha, que um dia eu iria para a fábrica como eles e que a fábrica me faria curvar as costas também”, escreve Louis. Com muito esforço, ele conseguiu ir embora. Trabalhou no setor de comércio, se prostituiu, foi cobaia em experiências médicas. Enfim, tornou-se acadêmico e um escritor prestigiado. “Quando voltava para ver meu pai ou minha mãe, não sabíamos mais o que dizer uns aos outros, não falávamos mais a mesma língua, tudo o que eu tinha vivido em tão pouco tempo, tudo o que tinha atravessado, tudo nos separava.”

Ao final da introdução do livro, parei e franzi o cenho. Estava dividido entre continuar a leitura ou voltar e ler tudo de novo, até memorizar cada frase.

Inhoaíba, o bairro do Rio de Janeiro onde nasci e fui criado, integra a Região Administrativa cuja sede fica em Campo Grande, o maior e mais populoso bairro do Brasil. Desde que eu nasci, Inhoaíba ocupa as mais baixas posições no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano da capital do Rio, que tem 164 bairros. Conta-se que o nome Inhoaíba é de origem indígena e significa “terra ruim”. Por isso, uma congregação evangélica inaugurou ali uma igreja chamada Ministério Apostólico Terra Fértil. O templo é o símbolo da crença local de que, para subverter a pobreza individual e coletiva, é preciso ter fé. Em minha infância, o que a maioria das crianças do bairro tinha para fazer era ir à igreja, à escola e brincar na rua. As famílias com melhores condições conseguiam levar os filhos para assistir a alguma animação americana no único cinema de Campo Grande.

Meus bisavós maternos deixaram a cidade portuguesa de Aveiro quando o primeiro filho, meu avô, tinha 6 anos. Fugiam  da pobreza dos tempos salazaristas. Se instalaram no Santo Cristo, na zona portuária do Rio de Janeiro, e depois migraram para a Penha, na Zona Norte. Aos 13 anos, meu avô conheceu na escola a menina que viria a ser minha avó, nascida e criada naquela Penha. Quando os dois se casaram, ele conseguiu um emprego de auxiliar no almoxarifado da Varig e minha avó já trabalhava de costureira da DeMillus. Foram morar no que mais tarde viraria  a favela do Grotão. O início da vida conjunta é narrado por eles com pesar e um pouco de orgulho pela superação. Foi lá que eles tiveram a primeira filha, minha mãe, e o segundo, um menino. A situação financeira melhorou aos poucos, conforme o salário do meu avô aumentava. Graças às benesses que a companhia aérea oferecia aos funcionários, meus avós e seus dois filhos visitaram Lisboa, Los Angeles e Miami, onde minha avó engravidou de outro menino – ela sempre diz, orgulhosa, que ele foi feito na “América”.

Durante a adolescência da minha mãe, os meus avós deram entrada no financiamento de uma casa própria em Inhoaíba, cujas parcelas teriam que pagar até a adolescência dos netos. Em Campo Grande, minha mãe concluiu o curso normal e começou a vida adulta alfabetizando crianças, adultos e idosos, o que ainda fazia quando eu nasci. Depois de expulsar o meu pai de casa, eu e ela passamos um tempo na casa dos meus avós, mas logo fomos morar em uma vila de quitinetes. Em poucos meses, o salário de professora mostrou-se insuficiente para criar um filho e manter a casa. A vizinha da quitinete ao lado disse que uma mulher estava recrutando costureiras, para bordarem vestidos de grifes famosas. Minha mãe pegou o endereço e bateu à porta da mulher, que aparentava ser tão pobre quanto nós. Voltamos para casa com uma bolsa de vestidos pretos e paetês dourados. Daquele dia em diante, ela passou dias e noites bordando freneticamente, para receber 3 reais a cada vestido entregue.

Nossa geladeira esvaziou e eu comecei a reclamar de fome. O gerente do mercadinho da nossa rua anotou o nome de minha mãe em um caderno para registrar cada produto que lhe vendia fiado. Ela bordava mais rápido para receber o pagamento e, quando o dinheiro chegava, gastava tudo pagando as dívidas do mercado. Sua vida se tornou uma sequência: pedir fiado para comer, bordar, receber o salário, pagar as dívidas, pedir fiado para comer. Quando meus avós nos visitavam, ela dizia que a nossa vida estava caminhando muito bem. Tinha vergonha de precisar da ajuda financeira do pai. Escondida do meu avô, eu soube anos depois, minha avó a ajudava com uma parte do valor do aluguel.

A mesma vizinha, percebendo a situação difícil em que nos encontrávamos, convidou minha mãe para conhecer uma igreja evangélica que oferecia cesta básica aos fiéis em situação de vulnerabilidade social. Aderimos àquela igreja batista quando eu tinha 6 anos. Frequentávamos os cultos terça e quinta à noite, domingo de manhã e à noite. Lembro de uma madrugada em que um vizinho alcoólatra chegou embriagado na vila em que morávamos e bateu em nossas janelas para pedir dinheiro. Eu e minha mãe demos as mãos e oramos até a gritaria acabar. A cada quinze dias, íamos ao templo buscar uma cesta básica: arroz, feijão, farinha. Com isso, conseguimos restabelecer as três refeições diárias. Nossa vida passou a girar em torno da fé de que Deus nos salvaria.

A pobreza que Édouard Louis experimentou ao crescer numa pequena vila operária, a 148 km de Paris, é descrita em seu livro de estreia, O fim de Eddy, publicado no Brasil pela editora Tusquets. Lançada em 2014, a obra explodiu como uma bomba no meio literário francês. Tratado por alguns como um desertor de classe, Louis foi questionado se realmente poderia escrever sobre aqueles que deixou para trás. Então, ele inverteu a questão: se não tivesse deixado a vila, recebido a melhor educação disponível na França e mudado a maneira como falava, comia e se vestia, ele seria ouvido? Os círculos literários teriam expressado empatia por ele? Teriam se importado com a sua história?

Louis nasceu com outro nome, Eddy Bellegueule, em 1992. Foi o primeiro filho de seu pai (não de sua mãe, que era casada antes e trouxe dois filhos para a nova família). O pai, que deixou a escola aos 14 anos para trabalhar em uma fábrica de peças de latão, deu-lhe o nome Eddy para que fosse como os caras durões das séries americanas. Conforme Louis crescia, o pai ficou alarmado ao constatar que ele não gostava de futebol, garotas ou brigas de bar.

O operário era violento dentro de casa, sobretudo quando bebia. Embriagado, às vezes chorava diante do filho e admitia não entender a natureza do próprio comportamento violento. Esse homem, cujo nome Louis não revela, abandonou a escola na juventude porque acreditava que estudar era coisa de mulher e cresceu sendo orgulhosamente alcóolatra e racista. Houve uma ocasião em que Louis foi flagrado pela mãe dançando no quarto e ela disse que, ao dançar, era quando ele mais se parecia com o pai. A informação consternou Louis. “O fato de que seu corpo já tivesse feito algo tão livre, tão bonito e tão incompatível com sua obsessão pela masculinidade me fez entender que talvez um dia você tivesse sido outra pessoa”, diz o escritor no livro Quem matou meu pai.

Um dia, quando Louis tinha 12 anos, ligaram da fábrica para dizer que um peso havia caído sobre as costas de seu pai. O homem passou a respirar com dificuldade e mal se locomovia. A “loucura masculina”, observa Louis, privou o pai de ter uma vida diferente dos homens que o antecederam na linhagem familiar. “Construir sua masculinidade significava se privar de outra vida, de outro futuro, de outro destino social que os estudos poderiam permitir. A masculinidade o condenou à pobreza, à falta de dinheiro.”

Testemunhar a ruína do pai e viver a pobreza coletiva do bairro perturbava o pequeno Louis, mas era a homofobia que tornava a realidade insuportável. Em Mudar: método, ele conta que, quando sua mãe dizia que não havia mais nada para comer, a fome ficava ainda pior por causa dos insultos homofóbicos que ouvia do pai. Em razão da violência, Louis entendeu muito novo a necessidade de ir embora. “O que eu ainda não sabia é que insultos e o medo iam me salvar de você”, ele diz, dirigindo-se ao pai. “Eu ainda não sabia que a humilhação ia me obrigar a ser livre.”

A frequência com que pegávamos cestas básicas começou a envergonhar a minha mãe. Ela sentia que estava desatualizada para voltar a dar aulas de alfabetização e não tinha dinheiro para pagar um curso profissionalizante em outra área. Apesar das dificuldades, estava se conformando com o lugar que lhe cabia na sociedade. Aceitou a primeira vaga de emprego com carteira assinada que ofereceram. Foi ser babá de um menino na Barra da Tijuca, filho de uma pediatra e um empresário do ramo automotivo. Deixamos a quitinete para morar na casa dos meus avós, que se comprometeram a me criar enquanto minha mãe estivesse no trabalho. Ela saía de casa na madrugada de segunda-­feira e retornava apenas no sábado à tarde. Durante a semana, aproveitava a hora de almoço para me ligar e perguntar como tinha sido o meu dia na escola. Às vezes, conseguíamos nos falar por 5 minutos, mas, quando o menino chorava ou a chamava, a ligação se encerrava abruptamente.

Depois que o meu avô se aposentou da Varig, ele e minha avó abriram uma lanchonete na calçada de casa. Vendiam lanches aos alunos de uma escola pública que ficava em nossa rua. Minha avó dormia depois da meia-noite e acordava às cinco da manhã para preparar rissoles e coxinhas. Eles contavam as moedas para quitar as últimas parcelas do financiamento da casa e arcar com a mensalidade da escola particular onde eu e uma prima estudávamos.

Em nossa casa, porém, nunca houve uma cultura voltada para os estudos. Nunca fomos incentivados a ler. Ao voltar da escola, eu almoçava em frente à televisão, tirava um cochilo, acordava assistindo à televisão, saía para brincar na rua e, à noite, retornava para assistir às novelas na televisão. Mais tarde, ao conhecer pessoas que foram estimuladas a estudar desde muito cedo, tive vergonha da criação que recebi. Evitei pensar nessa parte do meu passado durante um tempo e só tive coragem de encará-la depois de ler este trecho de Mudar: método: “Entendi que o fato de ter assistido à televisão durante toda a minha infância sete, oito horas por dia, me inscrevia numa história específica, a de pertencer ao mundo dos deserdados, dos pobres, daquilo que os ricos viam de fora como infâncias perdidas.” Para Édouard Louis, também foi uma surpresa descobrir que, entre os filhos da pequena burguesia, estudar era um hábito quase natural, “até para aqueles que […] não gostavam da escola, enquanto na nossa cidade estudar devia ser resultado de uma vontade, de uma luta, e que, para aqueles que não tinham boas notas, o óbvio era não estudar”.

Minha referência literária era a Bíblia, que passei a ler com frequência ao entrar na adolescência. Mesmo sem a minha mãe por perto, continuei frequentando a igreja. Me envolvi em projetos para crianças e adolescentes, fazendo planos de construir uma carreira na tradição batista até ser consagrado pastor. Aos 12 anos, fui batizado em uma piscina no altar do templo e virei um tipo de líder para outros adolescentes. Todas as noites, antes de dormir, fazia uma oração pedindo a Deus que curasse a chaga que despertava o meu interesse por outros garotos, o que parecia ser o meu pecado maior.

A igreja promoveu um acampamento para crianças e adolescentes, o que chamaram de “Encontro com Deus”. Durante um fim de semana, assistimos a palestras sobre a Bíblia e a busca pela salvação. Na noite de sábado, nos entregaram um papel em que deveríamos marcar um X em cada pecado que tínhamos cometido: invejar, roubar, desrespeitar pai e mãe, sentir atração por pessoas do mesmo sexo. Assinalei meu pecado-­mor e dormi com o papel embaixo do travesseiro, temendo que alguém visse. No domingo de manhã, fomos guiados aos fundos da igreja, onde uma enorme fogueira havia sido acesa para queimarmos as nossas transgressões. Voltei para casa me sentindo mais perto de Deus.

Eu imaginava que, ao encontrar a cura para a homossexualidade, poderia me tornar um rapaz bem-sucedido em Inhoaíba. Depois de terminar os estudos, obteria a carteira de motorista e arranjaria um emprego no comércio da região. Se conseguisse um bom empréstimo, poderia abrir meu próprio negócio, talvez uma pizzaria ou uma loja de açaí, quem sabe uma igreja. O símbolo máximo do meu sucesso pessoal seria comprar um carro seminovo, casar com uma mulher e morar com ela antes dos 25 anos. Nos fins de semana, sairíamos com nossos filhos para passear no shopping e os levaríamos para um lanche no McDonald’s. Isso era tudo que estava disponível para nós, os bons garotos do bairro, aqueles que resistiam à tentação de se tornar soldados da milícia. Parafraseando Annie Ernaux, não eram sonhos, mas previsões.

Por não conseguir esconder os trejeitos afeminados, Édouard Louis viveu uma rotina de humilhações no colégio. Aos 14 anos, tentando escapar da homofobia e da pobreza familiar, foi estudar em uma escola na cidade de Amiens, onde conheceu os filhos da burguesia francesa. Fez amizade com Elena, uma menina em cuja casa havia um piano antigo, estantes cheias de livros, poltronas e reproduções de quadros para todo lado. Louis dedica um capítulo de Mudar: método para descrever o impacto que a convivência com Elena teve na vida dele: “Eu nunca tinha conhecido alguém tão diferente de nós – e tão socialmente distante.”

Louis narra uma ocasião em que a amiga se virou para ele e disse: “Sabe, acho que agora você deveria aprender a comer, acho que vai ser melhor para você.” Ela pegou um prato e a metade de uma baguete e pacientemente o ensinou a manusear os talheres. “Meu passado estava em mim, por toda parte, no meu jeito de comer, mas também no meu jeito de andar, de me vestir, de falar. Meu corpo contava uma história diferente daquela que eu queria modelar”, comenta Louis.

Um dia, ele tocou a campainha da casa de Elena e quem abriu a porta foi a mãe dela, que disse: “Oi, Édouard.” Diante da confusão do rapaz, que se chamava Eddy, ela perguntou: “Você se incomoda se eu chamá-lo de Édouard? Eddy não é um nome de verdade, e eu prefiro Édouard, acho bem mais elegante.” Assim, o garoto abandonou “Eddy Bellegueule” e adotou “Édouard Louis”, o seu nome de candidato a burguês.

“Você prefere que eu escreva Eddy ou Édouard?”, perguntou a diretora de um teatro, no dia em que o jovem foi assinar o contrato de trabalho. Ele respondeu “Édouard”. Quando a mesma mulher perguntou se ele gostava de teatro, Louis respondeu que sim, afinal esse foi o seu “instrumento de reinvenção da vida”. Ele disse: “O teatro me fez entender que se quisesse ser outra coisa ou outra pessoa, não importa, seria preciso representar, até me tornar.”

Cedo naquela segunda-feira de maio de 2013, minha mãe se engasgava no próprio choro ao tentar explicar como havia descoberto tudo: antes de sair para o trabalho, ela ligou o computador para ver a previsão do tempo e encontrou o meu Facebook aberto. Leu algumas mensagens que eu havia trocado com amigos e com outros meninos, mensagens cheias de segredos e intenções. “Ele é vi-a-do”, minha mãe soletrou, enquanto a minha avó lhe oferecia um copo de água com açúcar. Ela bebeu tudo em um único gole, deu um tapa no meu rosto e ordenou que eu fosse para o banho, pois dentro de uma hora deveria estar na escola para a aula de geografia.

Não tenho certeza se entrei logo no chuveiro, ou se antes fiquei encarando o espelho do banheiro, mas lembro de sentir a frequência cardíaca latejar nos meus ouvidos. Estava mudo, incapaz de pronunciar uma palavra. Quando sentei à mesa para o café da manhã, disse bom dia ao meu avô e não tive resposta (ele ficaria sem falar comigo por seis meses). Ouvi a minha mãe dizendo para alguém no telefone que não estava se sentindo muito bem e por isso ficaria em casa. Entendi que estava prestando satisfações à patroa da Barra da Tijuca e, querendo chorar, imaginei que aquela falta seria descontada do seu salário ao fim do mês.

Então escutei uns passos vindo em direção à cozinha. “Só vou te falar uma vez”, minha mãe disse, segurando o meu queixo. “Eu prefiro ter um filho drogado que um filho viado.” Havia crescido ouvindo ela me dizer para fugir das drogas, que ter um filho drogado lhe tiraria o chão, e agora parecia que, mesmo sóbrio, eu não seria capaz de manter firme o solo debaixo dos seus pés.

Fui submetido a um rígido castigo, que me dava licença apenas para ir à escola. O isolamento foi a estratégia encontrada pela minha mãe para me masculinizar. No terceiro mês, uma amiga do bairro apareceu na nossa porta, me convidando para sua festa de 15 anos. Depois de uma longa negociação, consegui permissão para ir. Na festa, descobri que minha amiga estava namorando uma garota chamada Jéssica, por quem desenvolvi um apreço espontâneo. Em nossa primeira conversa, soube que Jéssica havia se assumido como bissexual para os pais aos 12 anos, e desde então desfrutava de uma certa liberdade. Ela me aconselhou a ter paciência. Disse que o tempo seria o meu aliado na busca pela aceitação familiar.

Foi um período horrível, solitário. Com exceção de uma prima, que se solidarizava discretamente, ninguém conversava comigo em casa. Comecei a frequentar uma livraria próxima ao colégio e convenci minha mãe a me dar dinheiro para comprar um livro da série americana Percy Jackson e os olimpianos, a saga de um jovem semideus, filho do deus grego Posêidon. Daí em diante, desenvolvi interesse pelas aulas de literatura e comecei a frequentar a biblioteca da escola. Pela primeira vez, abri um livro de Machado de Assis. Como era um nome conhecido, supus que fosse um escritor importante. Para conquistar o respeito da minha família de volta, eu queria ler tanto quanto possível.

Um dia, decidi que seria engenheiro químico. Era a profissão do novo patrão da minha mãe, que estava agora cuidando de uma criança em uma casa no Recreio dos Bandeirantes. Acessei o computador da biblioteca da escola e busquei no Google: “Engenharia química Estácio de Sá.” Eu só conhecia essa instituição privada, ninguém nunca tinha me falado sobre universidades públicas. Me convenci de que arranjaria um emprego para pagar os estudos sem depender da ajuda de ninguém. Enclausurado no quarto, eu repetia mentalmente que aquele castigo terminaria em breve, que um dia moraria em um condomínio como o dos patrões de minha mãe, cujos detalhes registrei nas vezes em que a visitei no trabalho: elevador, piscina, jardins floridos.

Superar a homofobia significava enriquecer e ser o patrão, não mais o filho da empregada. Essa lógica se tornou nítida para mim apenas depois de, mais velho, ler Édouard Louis, graças a quem o meu trauma da homofobia se alinhou racionalmente à minha dor de classe. Adolescente, não entendia que o impulso de fugir também havia sido provocado pela pobreza, a insegurança e a falta de bem-estar que Inhoaíba nos oferecia.

Na escola, chamávamos de burgueses os colegas que tinham iPhone. Como todos nós, em diferentes graus, pertencíamos à mesma classe remediada, nossas distinções eram baseadas em detalhes pequenos: quem chegava à aula em um carro melhor, usava tênis da marca Vans ou fazia um curso de inglês. A vida de Jéssica, minha nova amiga, parecia tão simples quanto a minha, mas ela tinha feito intercâmbio em Londres, visitara Paris e tinha o hábito dos estudos. Quando meu castigo finalmente acabou e nós começamos a nos encontrar com frequência, ela logo teve que se ausentar para estudar para o Enem. Eu conhecia essa palavra, Enem, mas não sabia seu significado. Jéssica me explicou. No último ano do meu ensino médio, ela me emprestou o cartão de crédito da mãe para que eu pudesse assinar um curso preparatório online e tentar ingressar numa universidade pública.

Eu assistia às aulas no meu celular, um modelo velho da Motorola. A essa altura, já havia constatado a falta de vocação para a engenharia química. Tinha gosto pelas aulas de redação, percebi uma aptidão para a escrita. Em uma ocasião, o professor convidou a jornalista Flávia Oliveira para discutir os temas cotados para a prova de redação. Maravilhado com o trabalho dela na GloboNews e no jornal O Globo, comecei a cogitar que talvez o jornalismo fosse uma opção para mim: eu poderia acompanhar questões sociais do meu interesse e trabalhar escrevendo. Contudo, meu ânimo sumiu quando soube que a nota necessária para entrar no curso de jornalismo era alta. Pensei em estudar história, a segunda disciplina de que mais gostava. Mas o meu desempenho no Enem não foi suficiente. Minha nota, no entanto, me deu acesso a uma vaga em pedagogia na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, em Seropédica, na Baixada Fluminense.

A notícia da entrada de um neto na universidade deixou os meus avós em êxtase. Pela primeira vez um membro da nossa família acessava o ensino superior. Minha mãe festejou que eu tivesse conseguido uma vaga, enquanto a filha de sua patroa tentava entrar em engenharia civil havia dois anos, sem sucesso. A nota de pedagogia é significativamente inferior à de engenharia civil, um dado que ela escolheu ignorar. Queria festejar a vitória do filho sobre o fracasso da filha da patroa.

Um episódio da infância: meus avós tinham saído, eu pensei que estivesse sozinho em casa. Coloquei Xuxa só para baixinhos para tocar no rádio da sala, avancei para a faixa de número oito, Shake shake, a minha música preferida, e aumentei o volume para dançar. Meu tio, o irmão caçula da minha mãe, estava em casa. Ele saiu do quarto e disse: “Que bonito, a garotinha está dançando Xuxa.” Ele sempre dizia coisas assim, eu sempre ficava calado, mas daquela vez segurei o choro e gritei: “Me deixa dançar.” Eu devia ter 8 anos.

À noite, minha mãe chegou do trabalho e seu irmão lhe disse: “Teu filho é viado e sem educação.” Ela brigou com o irmão, disse que o filho era dela e que ele fosse cuidar da própria vida. Eu me senti protegido. Quando ficamos sozinhos, ela beliscou o meu braço e disse, baixinho: “Você é homem, escutou? Homem.”

Um fragmento do livro Lutas e metamorfoses de uma mulher, de Édouard Louis:

O que é um homem? A virilidade, o poder, a camaradagem com outros meninos? Eu não tinha nada disso. Eu não estava protegido disso. Da mesma forma que Monique Wittig afirma que as lésbicas não são mulheres, que elas escapam dessa identidade restrita, a pessoa que eu sou nunca foi um homem, e é essa desordem da realidade o que mais me aproxima da minha mãe. Talvez aqui, nesse não lugar do meu ser, eu possa tentar compreender quem ela é e o que viveu.

Consegui um emprego durante o primeiro período da faculdade de pedagogia. Aos 18 anos, eu passava as tardes dando aulas de reforço escolar para crianças do ensino fundamental em Campo Grande e, no começo da noite, tomava o ônibus para Seropédica. Por mais que eu me esforçasse, não conseguia me interessar pelas aulas. Eu as frequentava apenas pela simbologia de estar no ensino superior. Ao retornar para Inhoaíba, às onze da noite, encontrava minha mãe em estado de nervos, reclamando do inferno que sua vida tinha se tornado. Ela não dormia mais no trabalho, então tinha que fazer diariamente os trajetos de ida e volta entre Inhoaíba e a Barra da Tijuca, que duravam cinco horas. Quase nunca conseguia um lugar para sentar no BRT, então viajava esmagada junto aos outros passageiros. Por causa do sobrepeso, ela desenvolveu um esporão que fazia os seus pés queimarem de dor.

Eu a incentivei a pedir demissão, o que inicialmente ela achou um absurdo, mas não demorou muito a entender que era a melhor saída para preservar sua pouca saúde. Em dez anos de serviço doméstico, minha mãe serviu quatro famílias diferentes entre Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes. Ajudou a criar quatro crianças, dois meninos e duas meninas. Em 2017, ano em que se demitiu, o Brasil tinha mais trabalhadores domésticos que qualquer outro país do mundo, de acordo com um relatório da Organização Internacional do Trabalho. Eram 7 milhões de pessoas, uma média de 3 empregados para cada 100 brasileiros.

Meus avós deixaram a casa e a lanchonete sob os cuidados da minha mãe e alugaram uma quitinete perto da praia para descansar pela primeira vez em setenta anos de vida. Para alcançar a renda que tinha antes, minha mãe fez como muitas outras mulheres do bairro: anunciou no Facebook que estava vendendo bolos de pote e doces para festas. Não me recordo de ver minha mãe com alguma expressão de tranquilidade no rosto. Ela estava sempre tensa com as faturas do banco, a baixa procura pelos seus doces. O corpo dela se movimentava dia e noite à procura de dinheiro.

Fui demitido do meu emprego e decidi que também largaria a faculdade de pedagogia. Precisava tentar entrar para o curso de jornalismo. Queria ser aprovado em uma universidade que me levasse para perto do Centro da cidade, onde eu poderia construir uma carreira que me garantisse um futuro diferente do da minha mãe. E ela apoiou a decisão, pois sabia que os estudos poderiam garantir um futuro diferente para mim. Ela me disse para focar nos estudos, que venderia mais doces para pagar as nossas contas. Me senti culpado, mas fui em frente.

Com o passar dos meses, enquanto eu estudava para o vestibular, parecia que estávamos sendo levados de volta às quitinetes da minha infância. Os preços do mercado enlouqueciam minha mãe. Em pouco tempo, voltamos a pedir fiado. Um dia, amanhecemos com funcionários da Cedae batendo no portão para comunicar que o fornecimento de água tinha sido cortado por causa das dívidas. Começamos a buscar água em uma antiga associação de moradores da região. Nos revezamos para encher baldes e panelas, que eram usados para lavar louças e roupas e tomar banho. Minha mãe reclamava das dores nos braços e às vezes tinha falta de ar. Não sei dizer quantas vezes a energia elétrica e a internet foram cortadas, mas ainda me lembro da angústia de estudar à luz de velas.

Percebi como a nossa situação financeira era frágil, que o retorno à pobreza estaria sempre à espreita. Ainda não entendo como nem por que, mas minha mãe se mantinha orgulhosa em meio ao colapso. Dizia aos meus avós que o novo trabalho ia tão bem quanto ela havia imaginado. A essa altura, já não ligava para a minha sexualidade, dizia que eu a lembrava de um amigo gay da época da escola. Brigou com extremistas de direita da igreja para defender o casamento igualitário. E tinha orgulho da minha dedicação para levar outra vida. Não falávamos disso, mas eu sabia que ela tinha esperança de que, ao mudar a minha realidade, eu também mudaria a dela.

Eu a examinava, em silêncio, e me perguntava o que mais a minha mãe poderia viver àquela altura da vida. Aos 42 anos, a degradação do corpo a impedia de limpar a casa dos outros. Ela não tinha diploma, tampouco dinheiro para estudar. Reclamava da dificuldade de encontrar um homem que lhe fizesse companhia. No meio da procura por amor, acabou se envolvendo com um sujeito que lhe pediu 400 reais emprestado para pagar a pensão da filha. Depois que ela fez o empréstimo, o homem sumiu. “Porra, mãe, por que você fez isso?”, eu perguntei, com raiva. Ela chorou por minha grosseira, o dinheiro perdido e a solidão.

Quando ela manifestava o desejo de estudar gastronomia para se tornar confeiteira, eu prometia que, depois que ganhasse dinheiro, pagaria uma faculdade para ela.

No dia seguinte à minha prova do Enem, comecei a procurar um novo emprego. Entreguei currículo em uma empresa de telemar­keting, onde alguns amigos do bairro trabalhavam, e consegui uma vaga no mesmo dia. Em vez de comemorar, senti vontade de chorar. Eu tinha medo de me acomodar em um subemprego e passar o resto da vida sobrevivendo com pouco, como meus familiares e vizinhos. Prometi a mim mesmo: sempre levarei um livro para o trabalho, assim não perco de vista o meu projeto de transformação. Quando recebi meu primeiro salário, me matriculei em um curso de inglês, um desejo que eu tinha desde a adolescência.

Em janeiro de 2019, descobri que tinha sido aprovado no curso de jornalismo da UFRRJ, em Seropédica, a mesma universidade em que eu havia estudado antes. Liguei imediatamente para minha mãe, que estava no mercado. Ao ouvir a notícia, ela me perguntou: “E agora, filho, você vai largar o emprego?” Não lembro se ela me deu parabéns. Mas continuei no trabalho, para ajudá-la a pagar as contas e tentar morar sozinho, perto da faculdade.

Assim que as aulas começaram, procurei uma quitinete em Seropédica. Tinha 20 anos e queria viver longe dos olhos da minha família. No entanto, minha mãe também se animou com a ideia de deixar Inhoaíba e começou a fazer planos de uma vida nova em Seropédica. Uma noite, cheguei em casa e a encontrei feliz, de um jeito que não via há muito tempo. “Hoje eu fiquei pensando que posso fazer trufa recheada para vender na porta da sua faculdade, assim te ajudo a pagar o aluguel da nossa quitinete”, ela me disse. Eu respondi que era uma ótima ideia, me sentindo culpado por querer ir embora sozinho.

Em uma segunda-feira de abril, assim que cheguei à universidade, recebi uma ligação da minha avó. Afobada, ela disse que minha mãe havia passado mal e fora socorrida por uma ambulância. Nos últimos meses, ela suava excessivamente e tinha náuseas durante o dia. Achava que eram sintomas da menopausa.

Deixei a aula e tomei o ônibus de volta para Campo Grande, apreensivo com o tom choroso da voz de minha avó. No meio da viagem, liguei para ela, que me atendeu ainda chorando. Lembro de ter pedido algo como: “Me diz a verdade, vó, por favor.” E ouvi como resposta: “Ela morreu, meu filho.” Minha mãe teve um infarto agudo do miocárdio, a principal causa de morte no Brasil.

Hoje entendo a morte dela como o fim do longo processo de degradação a que o seu corpo foi submetido desde a infância. Durante 42 anos, minha mãe se esforçou para superar a penúria da nossa classe social, mas acabou morrendo na mesma situação em que viveu. A escassez de recursos e o excesso de trabalho a arruinaram gradualmente. Primeiro, apodreceram seus dentes, depois queimaram sua pele e inflamaram seus pés, até que, por fim, interromperam o funcionamento do seu coração.

Nesse ponto, a minha história se desencontra da de Édouard Louis. Sua mãe continua viva, e a literatura lhe possibilitou oferecer uma vida digna a ela. Essa é a história que ele conta em seu livro mais recente, Monique se liberta, recém-publicado no Brasil pela Todavia. Nunca saberei o que teria acontecido com a minha mãe diante da minha mudança pessoal e profissional. Minha nova vida me afastaria dela? Eu seria capaz de ajudá-la a comer melhor, ter um plano de saúde, pagar as contas de água e luz?

A imaginação me leva outra vez ao encontro de Louis. Há um trecho de Lutas e metamorfoses de uma mulher em que, depois de se mudar para Paris, o escritor recebe uma ligação da mãe, que reclama da falta de dinheiro: “Eu preciso de um trabalho. E pensei que poderia fazer faxina na sua casa. Eu iria quando você não estivesse, claro, não ia incomodar você. Eu limpo, você deixa o dinheiro em cima da mesa e eu vou embora.” Não apenas imagino, como sei que minha mãe teria me dito exatamente essas frases, sem mudar uma palavra sequer.

O jovem Édouard Louis quis deixar a cidade de Amiens para morar em Paris depois de assistir a uma palestra do filósofo e sociólogo francês Didier Eribon. Ele estudava história na Universidade da Picardia Jules Verne, em Amiens, onde Eribon esteve certa noite para falar sobre um dos seus livros, Retorno a Reims (publicado no Brasil pela Editora Âyiné). A trama do livro é a mobilidade de classe. Eribon nasceu numa família operária no Nordeste da França e, mais tarde, tornou-se um autor e intelectual reconhecido no mundo. “Eu o ouvia, ele falava, eu o ouvia e pensava de repente, eu queria ser como ele, eu queria ser ele”, lembra Louis. “Alguma coisa acontecia dentro de mim, alguma coisa violenta e inédita.”

Louis passou a imaginar a própria vida como a de Eribon, sendo um escritor e morando em Paris. Ele então ouviu falar da École Normale Supérieure, uma das instituições de ensino superior mais prestigiadas na França, por onde passaram Pierre Bourdieu, Michel Foucault e Jean-Paul Sartre. “Comecei a pensar que se chegasse a Paris sem entrar nessa instituição seria apenas um garoto vindo de Amiens chegando a Paris, um náufrago, um intruso, mas entrar nessa escola legitimaria minha presença na cidade.” Depois de um longo processo acompanhado de perto por Eribon, que virou seu amigo e mentor, Louis foi aceito na ENS. Passou a viver na Grande Paris e se infiltrou no círculo gay da cidade. Estudou minuciosamente o comportamento dos abastados, a fim de imitar seus modos de vida.

Embora se empenhasse para acreditar no contrário, Louis não foi incorporado pelo meio burguês. O sentimento de deslocamento, que já lhe era familiar, aparecia para dizer “oi” quando ele se sentava no terraço de um café para ler Jacques Derrida ou Hannah Arendt. A certa altura, ele também passou a lamentar que os burgueses não se maravilhavam com as paisagens que os cercavam.

Experimentava uma certa pena ou ao menos uma tristeza por aqueles que iam aos grandes teatros parisienses sem entender a sorte que tinham, sem se maravilhar. Realizavam esses gestos como tinham feito na infância, como seus pais e avós fizeram antes deles, porque nasceram num mundo mais privilegiado do que eu. Meu privilégio era o de ter conhecido a vida sem privilégio.

Depois da morte da minha mãe, desisti de alugar uma quitinete perto da faculdade e me dediquei a mim mesmo como nunca antes. Perdi noites de sono pensando que, se os meus avós também morressem subitamente, eu ficaria desamparado. Por isso, precisava melhorar de vida, ascender socialmente, logo que possível. Eu acordava às seis da manhã para ir à central de telemarketing, passava o dia no trabalho procurando tempo para ler os textos da faculdade, depois ia à aula e, no fim da noite, retornava a Inhoaíba. A rotina me exauriu em poucos meses. Num sábado de manhã no trabalho, minha vista escureceu diante do computador, enquanto tentava convencer um homem a contratar um plano de celular com mais dados de internet. Quando pedi demissão, porque não aguentava mais a rotina pesada, a supervisora me disse que não dava seis meses para eu retornar ali pedindo o emprego de volta.

Com a ajuda financeira dos meus avós, pude me dedicar exclusivamente à universidade pela primeira vez. Eu chegava algumas horas antes da aula para caminhar pelo campus, lia todos os livros indicados pelos professores. Um dia, encontrei na biblioteca uma pilha de revistas para doação, dentre as quais havia alguns exemplares da piauí. Eu tinha uma parca ideia do que era a revista: publicava reportagens e era lida por uma elite intelectual. Levei os exemplares para casa e, pelos meses seguintes, estudei o estilo dos textos. Comecei a querer trabalhar na revista.

A piauí_157, edição de outubro de 2019, publicou Letra preta, um ensaio da jornalista Yasmin Santos sobre os negros na imprensa brasileira. Não consegui ler o texto, porque não tinha dinheiro para comprar a revista, mas acompanhei a repercussão pelo Twitter. Na época, eu fazia um curso de extensão na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e um colega chegou na aula com a piauí embaixo do braço. Pedi a revista emprestada e fotografei com o celular as nove páginas do ensaio de Santos, que li no ônibus, voltando da Urca para Inhoaíba.

Fiquei em estado de suspensão. Santos era uma jornalista da minha idade, foi criada em um bairro vizinho ao meu, começou a graduação na universidade em que eu estudava e tinha escrito um ensaio maduro e provocativo sobre raça, classe e jornalismo. Senti algo mudar dentro de mim, talvez o mesmo que aconteceu com Édouard Louis ao ouvir a palestra de Didier Eribon. Entendi que na piauí também tinha lugar para pessoas da minha origem social, e que trabalhar lá seria importante para continuar me intelectualizando.

Perdi noites de sono pensando no que poderia fazer para ser aceito na equipe da revista. Comprei uma pilha de clássicos do jornalismo literário americano e os estudei durante a pandemia. Com amigos da universidade, fundei um coletivo que fazia reportagens. Eu queria treinar o meu texto para escrever tão bem quanto os repórteres que admirava. Terminava o dia exausto e, na manhã seguinte, me forçava a continuar escrevendo, dizendo a mim mesmo que a prática me tornaria melhor. Mandei uma mensagem para o repórter Tiago Coelho no Twitter perguntando como a piauí selecionava os estagiários. Coelho respondeu gentilmente que a revista não anunciava processos seletivos e indicou um e-mail para o qual eu poderia enviar meu currículo. Passei dias preparando um texto para enviar à equipe da revista, tentando convencê-­los de que eu era o jovem jornalista ideal para a piauí.

Oito meses depois, fui convidado para participar da seleção do novo estagiário da revista. No dia seguinte à minha entrevista, ligaram para dizer que eu tinha sido aprovado. Corri à cozinha e contei para a minha avó, que me deu um abraço forte e demorado. Ela não conhecia a revista, mas entendeu na minha euforia que aquela era uma conquista importante, que agora a minha vida seguiria um novo rumo.

Então, deixei Inhoaíba para morar numa república universitária em Niterói, a fim de ficar perto do trabalho e da Universidade Federal Fluminense, para onde transferi a matrícula da graduação em jornalismo. Agora, eu fazia caminhadas matinais contemplando o mar e a arquitetura de Oscar Niemeyer. Estava a apenas 5 minutos de um cinema, a 6 de um museu e a meia hora do Centro do Rio (Antes, para visitar os museus da cidade, eu gastava cinco horas no transporte público.) Passei a olhar para o meu passado com o orgulho de não integrar mais a paisagem degradada do bairro em que nasci, como se a ascensão social fosse a minha vingança pelos anos em que estive cercado de homofobia.

Um outro universo se abriu para mim depois da mudança para Niterói e o estágio na piauí: discussões acaloradas sobre literatura e música popular brasileira nos almoços de trabalho, encontros com rapazes da minha idade que tinham viajado para mais de dez países, festas ao som de Caetano Veloso em apartamentos que têm o dobro do tamanho da casa onde cresci. Quando retornava a Inhoaíba para visitar meus avós, eu estranhava a intensidade aguda das luzes brancas da casa, já habituado à discreta iluminação quente dos lugares que eu agora frequentava.

A solidão que experimentei por ser gay em uma casa homofóbica foi como um treinamento para o que eu teria que enfrentar nesse novo meio burguês. Ao conversar com os cidadãos de Ipanema e Icaraí, em Niterói, percebi que, apesar dos meus estudos e leituras, estava longe de ter o rigor intelectual deles. A minha pequena estante de livros era uma vergonha perto da que eles tinham. E, se ter uma ampla visão de mundo é fundamental para ser considerado um bom repórter, como eu poderia construir uma carreira no jornalismo se o meu mundo era obra de um passado limitado que eu agora rejeitava?

Me esforcei para ler ainda mais, buscando superar as deficiências da minha formação intelectual. Enquanto isso, fingia entender os assuntos sobre os quais os meus novos amigos conversavam. Não conhecia seus diretores de cinema favoritos. Nos jantares com os herdeiros da burguesia da Lagoa Rodrigo de Freitas, aprendi a pedir primeiro uma entrada, depois o prato principal. Aproximar a taça de vinho do nariz, cheirar o conteúdo apertando suavemente os olhos e só então dar o primeiro gole. Apoiar o garfo numa colher para enrolar o espaguete (eles não dizem macarrão). Do ponto de vista moral, qual era a coisa certa a se fazer? Resistir aos costumes dessa classe que me dominava ou fingir ser parte dela para me sentir menos isolado? Escolhi o segundo caminho.

Fui contratado como repórter da piauí em abril de 2023. Depois de quase três anos vivendo entre Ipanema e Niterói, ainda me sinto ilhado e perco o sono pensando em nossas diferenças. Convivo com um grande paradoxo, pois essas pessoas arregalam os olhos quando eu digo que venho de Inhoaíba. É difícil para eles acreditar que alguém como eu – branco e modos calculadamente contidos – tenha crescido tão longe, nesse lugar de nome estranho.

A aparente distinção do meu ponto de origem: este é o prêmio que recebo por todo o meu esforço? Se eu não me pareço com meus familiares, sobretudo com meu pai, posso finalmente ser considerado um Homem?

Conversei com Édouard Louis em um sábado recente. Era final de tarde no Rio de Janeiro e  noite em Paris, de onde o escritor falava comigo, por Zoom. Ele mora agora no 15º arrondissement de Paris, um bairro rico próximo à Torre Eiffel. Fazia muito frio na cidade, me disse Louis da sala do seu apartamento, enquanto tomava uma xícara de chá. Eu estava numa pequena sala de reuniões na redação da piauí. Algumas horas antes, o escritor me mandou uma mensagem dizendo que se atrasaria para a nossa conversa, pois precisou ajudar a mãe em uma emergência. “Ela tem problemas com os quais precisamos lidar o tempo todo”, disse, sem dar detalhes. “A realidade está sempre voltando e batendo em mim. É um processo incessante de tentar consertar as coisas.”

Falamos sobre imitar os outros. Louis contou que, ainda na escola, percebeu que esse não era um comportamento exclusivo das pessoas que mudam de classe. “Os burgueses também estão imitando alguém. Eles não nasceram conhecendo Toni Morrison ou Clarice Lispector, foram os seus pais que lhes apresentaram essas escritoras. Eles também imitavam o jeito de andar e de se vestir das pessoas da sua classe social, de vizinhos ou amigos. Então, por que não temos direito de imitá-los?”

A ideia de escrever atraía Louis na infância, mas, para se sentir integrado à família, ele repetia o discurso de que livros e cadernos eram para meninas. Se tentasse estudar, desistia rapidamente para assistir à tevê. “Vejo a minha infância como a história de dois corpos brigando: o desse menino gay que sofreu bullying e precisava escapar e queria contar a sua história e o do menino da classe trabalhadora, que rejeitava a cultura para honrar a família.” Mais tarde, quando já cogitava ser escritor, ele receou não ter espaço para falar sobre essa dor característica do nosso mundo, a de ser um estranho. “Você pode sair na rua e dizer: ‘Eu sou gay e quero que a minha vida seja melhor’, ou ‘Eu sou pobre e quero que a minha família tenha condições melhores.’ É claro que alguns grupos conservadores vão tentar te impedir, mas esse espaço existe como uma estrutura política. Mas não há espaço onde você possa dizer: ‘Venho da classe trabalhadora, cheguei aqui agora e tenho vergonha do meu passado. Tenho vergonha da minha mãe e da maneira como me vestia na infância.’”

Quando Louis mostrou o rascunho do seu primeiro livro a amigos e editores, alguns o aconselharam a não dizer que continuava se sentindo deslocado. O argumento era o seguinte: como ele tinha ascendido socialmente, deixando para trás a vida dura da classe trabalhadora, e estava prestes a publicar um livro, não tinha razões para continuar lamentando. “Se a burguesia é melancólica, dizemos que é poesia. Existem correntes literárias em torno disso. Mas, se você é da classe trabalhadora e é melancólico, dizem que você só está reclamando. Nós não temos direito à melancolia.” Perguntei se, no início da carreira, ele teve receio de que falar sobre sua sexualidade poderia comprometer o seu futuro como escritor. A pergunta era também um pedido de conselho. Louis me disse: “Eu sabia que estaria exposto à homofobia, mas homens gays sempre estiveram no centro da literatura. Pense em Jean Genet, James Baldwin, Truman Capote. Estamos aqui desde sempre, porque somos de fora. Se você está à vontade no mundo, não tem nada a dizer sobre ele. Você tem que ser de fora para vê-lo de um jeito diferente.”

A mãe de Louis rejeitou o projeto literário do filho no primeiro momento. Depois de ler O fim de Eddy, ela disse que nunca tinha sido homofóbica. Louis, então, perguntou o que ela realmente queria dizer quando afirmava que ele se comportava como uma menininha, e ela respondeu que era apenas uma piada. “Então, um dia, minha mãe ligou para contar que tinha colocado todas as coisas do marido em sacos de lixo e jogado pela janela. Ela me disse que queria mudar, assim como eu tinha mudado. Que queria fugir como eu tinha fugido. E eu consegui ajudá-la financeiramente a construir uma vida nova. Com isso, a literatura se tornou para mim uma coisa física, capaz de salvar a pele de alguém, o corpo da minha mãe.”

Sábado, dia 27 de julho, a mais recente visita a Inhoaíba. Meu tio me pergunta se eu conheço um homem apelidado de Pará. “Cresceu comigo e com a sua mãe, era pedreiro”, ele explica, para em seguida descrever a aparência física do homem. Digo que não tenho lembrança de Pará. “Ele morreu ontem.” Com quantos anos, tio? “Acho que tinha a minha idade, 45. Morreu de infarto também.” Ele desvia os olhos dos meus. Sei que está pensando em sua irmã, na minha mãe. (A expectativa de vida da população de Inhoaíba é de 66 anos. Na Gávea, 80 anos.)

Ao fim do dia, minha avó me entrega um envelope de papel pardo com os documentos da minha mãe, a única herança material que ela me deixou. Uma ficha médica informa que, no mês de sua morte, ela esteve três vezes no Posto de Saúde para medir a pressão. Em sua carteira de trabalho, vejo os nomes de todas as suas patroas, personagens que habitaram a minha imaginação infantil. Minha mãe prestou seus “serviços gerais” pela primeira vez em 2008, recebendo 500 reais (O salário mínimo na época era 415 reais). Encaro a garota de 19 anos na fotografia 3×4 e tento adivinhar que planos ela tinha no dia em que tirou aquele documento. Me pergunto se imaginou que, durante a sua curta vida, nunca teria um salário que lhe proporcionasse uma história diferente da de sua mãe ou de sua avó.

É difícil para mim acreditar que ela foi feliz se tornando mãe aos 21 anos e limpando a sujeira dos outros em troca de pouco dinheiro. Me lembro dela quando estou em Ipanema e vejo essas senhoras de bermuda jeans e camiseta branca lisa, o uniforme moderno das babás e empregadas domésticas. No calçadão da Praia de Icaraí, perto da minha casa em Niterói, imagino o quanto ela teria se divertido conhecendo essa nova vida. As caminhadas que poderíamos ter feito ali, parando de vez em quando por causa das suas dores nos pés. Foi para ela que eu quis ligar quando, aos 24 anos, o maior grupo editorial do país me convidou para escrever o meu primeiro livro, uma biografia da Gal Costa.

Ao pensar no meu futuro, oscilo entre duas versões: uma em que sou bem-sucedido, tenho uma casa, família e recursos, e outra em que perco tudo, volto para Inhoaíba e passo o resto da vida contando a história de como quase superei a pobreza aos 20 anos. Os abastados nunca poderão entender o que o medo de perder tudo faz com a vida de alguém. Eles sempre terão meios para se manter. As redes de contatos que herdaram de suas famílias e amigos são infalíveis.

Ando pelo quintal dos meus avós e me lembro que, há três anos, estendia um lençol naquele chão e me deitava para observar o céu. Quando um avião atravessava os ares, eu fechava os olhos e me imaginava dentro dele, a caminho de qualquer destino. Esse era o tipo de sonho que eu tinha, viajar de avião, e que os meninos do bairro ainda têm. Quais seriam os nossos sonhos se tivéssemos crescido em outro mundo?

Penso no futuro o tempo inteiro, na continuidade do meu processo de transformação, mas ainda não fui capaz de me livrar do desejo insanável de mudar o passado.


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Repórter da piauí