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A CARTA QUE RESTA

Stênio Gardel, o primeiro brasileiro a ganhar o National Book Award

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É a primeira vez que o escritor Stênio Gardel usa um smoking. Em seu quarto no hotel Holiday Inn, no Lower East Side, em Nova York, ele termina de vestir o traje, coloca as abotoaduras e ajusta a gravata-borboleta de laço pronto e fecho de velcro. Depois, borrifa um perfume da marca Avon no pescoço e caminha até o Hotel Indigo, a cinco quadras de distância, onde está hospedada a tradutora potiguar Bruna Dantas Lobato. Os dois apanham um Uber e vão para o restaurante Cipriani Wall Street.

Naquela noite de 15 de novembro de 2023, acontece no restaurante a cerimônia de entrega do National Book Award, um dos principais prêmios literários dos Estados Unidos. The words that remain, a edição americana do livro de estreia de Gardel, A palavra que resta (lançado no Brasil em 2021), é um dos concorrentes da premiação, na categoria melhor livro de literatura traduzido – a parte do National Book Award dedicada aos autores estrangeiros. O cearense de Limoeiro do Norte não é um pavão, mas está envaidecido com a escolha.

O escritor e a tradutora chegam ao Cipriani pouco antes das oito da noite, horário do início da cerimônia. Atravessam o salão do restaurante e se sentam no lugar reservado para eles, perto do palco. Nove obras concorrem com The words that remain, entre elas, A mais recôndita memória dos homens, do senegalês Mohamed Mbougar Sarr, que em 2021 ganhou o principal prêmio literário da França, o Goncourt. Os demais concorrentes são os colombianos Juan Cárdenas e Pilar Quintana, a alemã Jenny Erpenbeck, a sul-coreana Bora Chung, a mexicana Fernanda Melchor, a surinamesa Astrid Roemer, o sírio Khaled Khalifa (que morreu semanas antes do prêmio) e o francês David Diop.

Oprah Winfrey entra no palco. Ela é a principal apresentadora da cerimônia, que repete o mix de formalidade, glamour e humor dos eventos de premiação americanos, com rodízio de apresentadores e narrações emocionantes sobre os concorrentes. As histórias e curiosidades sobre as obras que concorrem ao prêmio de melhor livro traduzido, como o de Gardel, são narradas pelo ator Matthew McConaughey.

Não são apenas os escritores estrangeiros e seus tradutores que estão tensos, aguardando o resultado. Há muitos autores americanos esperando para saber quem ganhou nas categorias de melhor ficção, não ficção, poesia e literatura para jovens (um filão que movimenta milhões nos Estados Unidos). Gardel terá que esperar até que, quase no fim da noite, suba ao palco o escritor Jeremy Tiang para anunciar o resultado na categoria de melhor livro de literatura traduzido.

Finalmente, chega a vez de Tiang. Ele diz: “Em um momento de grande turbulência e desconfiança, a literatura traduzida é mais vital do que nunca, com sua capacidade de nos ajudar a navegar em um mundo cada vez mais fraturado.” E anuncia o vencedor: The words that remain. Surpresos, Bruna Lobato e Stênio Gardel sobem ao palco.

Gardel está custando a segurar as lágrimas. Ele coloca o troféu de bronze no púlpito, tira um papel do bolso e, com a voz entrecortada pela emoção, dedica o prêmio à mãe, Raimunda Irene Maia, que morreu em 2021, vítima de um câncer. Agradece a Lobato, por capturar “o coração e a respiração do livro” e em seguida  lê, em inglês, seu discurso de agradecimento:

Tendo crescido como um garoto gay no sertão do Nordeste brasileiro, era impossível para mim pensar, sonhar com tamanha honra, com estar aqui nesta noite, na condição de homem gay, recebendo este prêmio por um livro a respeito da jornada de aceitação de outro homem gay. A todas as pessoas que já se sentiram erradas a respeito de si mesmas, eu gostaria de dizer que sua emoção e seu desejo são verdadeiros, e que vocês merecem, como todo mundo, ter uma vida plena e realizar os sonhos impossíveis.

Depois, é Lobato quem faz seu agradecimento. Numa fala breve, ela destaca: “É tão raro que eu consiga ver o Brasil que conheço nos livros, e ainda é mais raro ver um livro como este receber esse tipo de homenagem.” O cearense e a potiguar são os primeiros brasileiros, e os primeiros nomes em língua portuguesa, a receber o prestigioso prêmio americano.

O National Book Award foi criado em 1936 e atualmente é decidido por painéis de jurados compostos por 25 profissionais, incluindo escritores, críticos, tradutores, bibliotecários e livreiros. Quando chega o mês de setembro, eles escolhem uma lista de dez títulos por categoria. No início de outubro, a lista é reduzida para cinco finalistas. No dia da cerimônia, cada painel decide o vencedor de sua categoria. Os vencedores recebem 10 mil dólares cada (no caso de livro traduzido, o valor é dividido entre autor e tradutor). Recebem também um troféu.

Ganhar um National Book Award transforma a carreira de um escritor e joga muitos holofotes sobre seu livro. O panteão de premiados é notável. Entre eles, estão Saul Bellow (com o recorde de três vitórias), William Faulkner (duas), Philip Roth (duas), John Updike (duas), Ralph Ellison e Cormac McCarthy. A premiação de traduções, apenas para autores e tradutores vivos, de ficção ou não ficção, começou em 1967. Foi interrompida em 1984 e voltou em 2018. Antes do livro de Gardel, apenas um livro brasileiro havia sido indicado, em 2019, nessa categoria: The collector of leftover souls (O colecionador das almas sobradas), a coletânea de reportagens da jornalista Eliane Brum, traduzida por Diane Grosklaus Whitty.

Outros países latino-americanos têm mais indicações, como Argentina (três indicações e duas vitórias), Colômbia (quatro indicações) e Chile (três). Isso se deve, em parte, ao fato de que a difusão da literatura de língua espanhola nos Estados Unidos é muito maior que a de língua portuguesa. Apesar de algumas bem-sucedidas traduções recentes de autores canônicos, como Machado de Assis e Clarice Lispector, e mesmo de contemporâneos, como Caio Fernando Abreu e Milton Hatoum, o interesse dos editores americanos pela literatura brasileira ainda é minúsculo – o que transforma o esforço dos editores brasileiros para vender as obras nos Estados Unidos em uma verdadeira saga.

Como a que viveu Fernando Rinaldi, coordenador de direitos autorais para o exterior da Companhia das Letras, editora que publicou A palavra que resta. Ele encaminhou uma tradução para o inglês do romance de Gardel, realizada pela própria Companhia das Letras a várias casas editoriais americanas de grande porte, mas recebeu sempre a mesma resposta: “Não.” Até que chegou à pequena New Vessel Press, fundada em 2012 em Nova York, cujo foco principal é a tradução de literatura estrangeira.

Na New Vessel Press, A palavra que resta chamou a atenção do publisher Michael Wise, cofundador da editora. “Fiquei intrigado com a combinação de uma comovente história de amor gay com a exploração da alfabetização na formação do eu”, conta Wise à piauí. A tradutora Bruna Lobato diz que o publisher americano foi arrebatado pela “sensibilidade de um romance de formação, mas formação que acontece quando a pessoa já está bem mais velha”, referindo-se à saga do protagonista do livro para aprender a ler e descobrir outras formas de afeto já em uma idade avançada.

Em outubro de 2021, a New Vessel fechou o contrato com a Agência Riff, que representa Gardel. Em janeiro de 2023, The words that remain chegou às livrarias americanas, trazendo na capa a imagem de uma típica casa do interior do Nordeste, com a enorme sombra de um homem tingindo a fachada verde com janelas amarelas. Hoje, o livro – que nos Estados Unidos já chegou à segunda edição – traz na capa o selo dourado da premiação: “National Book Award Winner”. Gardel é o primeiro autor brasileiro que a New Vessel publica. É também a primeira vez que a editora é premiada no National Book Award, embora já tenha lançado traduções de Karl Ove Knausgård, Pedro Mairal e Salman Rushdie.

Bruna Lobato, de 33 anos, foi recomendada a Wise por uma editora-assistente da New Vessel Press que conhecia seu trabalho em traduções para o inglês de autores como Giovana Madalosso, Jeferson Tenório e Caio Fernando Abreu. Para convencer o editor americano de sua aptidão, Lobato traduziu uma cena de violência logo do início de A palavra que resta. “Era o trecho que tinha mais chance de alguém traduzir errado. Precisava ter a emoção certa, acertar o tom”, ela diz.

A tradução foi trabalhosa. “Eu queria que tivesse uma linguagem específica para cada personagem, e que isso soasse natural”, conta Lobato. Para resolver detalhes, ela consultava Gardel, que pouco interferiu no trabalho. Terminada a tradução, Lobato leu tudo em voz alta, para ver se tinha encontrado a exata dicção em inglês. “Quando terminei de ler, fiquei emocionada”, diz.

Ela trabalhou oito meses para chegar à versão final do livro, que tem 160 páginas na edição americana (o mesmo tamanho da brasileira). Até chegar ao ponto certo, precisou cruzar vários desfiladeiros da obra, como esta passagem lírica e sensual, em que o protagonista Raimundo Gaudêncio de Freitas, que não teve oportunidade de estudar e precisou trabalhar na roça desde cedo, se apaixona pelo jovem Cícero, à beira de um rio:

Um de frente para o outro. O rio correndo por eles. O mundo, lá, a rodar em torno deles. Raimundo girou o corpo e se encaixou no peito de Cícero, que o amarrou com os braços de pouca carne. O queixo largo, de barba mal formada, se aninhou no ombro de Raimundo. Olhares pareados buscavam a nascente. Eles arquearam as costas, dobraram as pernas em direção ao torso e mergulharam nas águas antigas do mundo, no líquido embrionário do homem.

Na tradução de Lobato, o trecho ficou assim:

Facing each other. The river running through them. The world, out there, spinning around them. Raimundo turned around and his back fit perfectly into Cícero’s chest. Cícero wrapped his thin arms around him. His broad chin, his patchy beard, nestling on Raimundo’s shoulder. Together, their eyes searched for the headwaters. They arched their backs, their knees up toward their torso, and they plunged into the world’s ancient water, into man’s embryonic fluid.

Os dois jovens vivem um amor intenso, mas breve. O desenlace da relação é uma carta entregue por Cícero a Raimundo, antes de sua partida. Raimundo guarda a carta, sem saber o que ela contém, pois não foi alfabetizado e se sente incapaz de pedir que alguém a leia, com receio de que ela revele o segredo de sua vida. Apenas aos 71 anos ele decide se alfabetizar para poder finalmente saber o conteúdo da carta.

Além de traduzir, Lobato se dedica à sua própria literatura. Neste mês, lança nos Estados Unidos o seu primeiro romance, escrito em inglês, Blue light hours, pela editora Grove Atlantic (a tradução será publicada pela Companhia das Letras no ano que vem). O romance é o retrato de uma jovem nordestina que viaja para os Estados Unidos para cursar uma faculdade americana.

Nascida em Natal, Lobato foi para os Estados Unidos aos 18 anos, depois de obter uma bolsa de estudos em um colégio de ensino médio no estado de New Hampshire. Depois do curso, voltou ao Brasil, onde ficou apenas nove meses. Regressou aos Estados Unidos como bolsista da Faculdade Bennington, no estado de Vermont, onde estudou literatura, escrita e tradução. Fez dois mestrados: um em criação literária e escrita criativa na Universidade de Nova York, outro em tradução literária na Universidade de Iowa.

Hoje Lobato trabalha como professora de escrita criativa com foco em ficção na Faculdade Grinnell, também no estado de Iowa. Depois de tantos anos nos Estados Unidos, seus planos de voltar a morar no Brasil ficaram para trás. “Aqui eu sempre vou ter trabalho”, explica. “Vejo a situação de amigos no Brasil e penso que seria muito mais difícil trabalhar aí. Aqui todos os tradutores que conheço estão com muita demanda.”

A palavra que resta levou Stênio Gardel duas vezes aos Estados Unidos em menos de um ano. Foram as suas primeiras viagens ao exterior. Em março de 2023, oito meses antes da entrega do National Book Award, passou três dias em Nova York, onde apresentou seu romance em uma livraria. Vindo do Ceará, ele se espantou com a temperatura em Nova York: apenas 8ºC. Apesar do frio, assistiu a um musical na Broadway e andou pela Times Square, refazendo itinerários de filmes, como se fosse um personagem solitário de Woody Allen.

De volta ao Brasil, retomou a sua rotina de funcionário concursado do Tribunal Regional Eleitoral (TRE). Até que, em 23 de setembro de 2023, quando estava checando os e-mails no trabalho, deparou com uma mensagem de Michael Wise. Ele avisava sobre a indicação de seu livro ao National Book Award. Gardel achou que era brincadeira. “Nem nos meus sonhos mais intranquilos imaginei isso”, diz o escritor à piauí.

Assim como a premiação surpreendeu Gardel, ele próprio pegou de surpresa alguns de seus familiares ao lançar um romance em que dois jovens da roça aparecem transando debaixo de um cajueiro, entre outras cenas tórridas. De personalidade contida, o escritor nunca escondeu sua sexualidade da família, mas também não a alardeava. “Eu sempre soube que ele era gay, e nunca meu amor por ele diminuiu”, diz o irmão mais velho do escritor, Charles Jardel Maia, de 50 anos, que leu o romance ainda no prelo.

Só depois do lançamento de A palavra que resta, Gardel começou a falar mais abertamente sobre a homossexualidade. “As pessoas percebem, todo mundo sabe”, ele comenta. O escritor reconhece que, ao contrário do personagem Raimundo, que sofre violência da família por causa da sexualidade, ele sempre teve acolhimento dos que lhe eram próximos. “Eu percebi que era gay quando comecei a sentir pelos meninos aquilo que meus colegas sentiam pelas meninas.” Menos fácil foi na escola. Aos 7 anos, quando estava na primeira série, o apelidaram de coelhinho. “Talvez fosse meu jeito de ser, no geral.” Quando o assediavam, Gardel saía pela tangente, desconversava. “Eu não queria ser olhado, queria observar”, diz.

Stênio Gardel Maia nasceu em 28 de fevereiro de 1980. Por pouco não veio à luz a caminho do hospital, dentro do Fusca de um vizinho que conduziu sua mãe e seu pai às pressas até Limoeiro do Norte. Quando foi iniciado o parto, o médico constatou: o cordão umbilical estava enrolado no pescoço do bebê. Foi uma turbulenta vinda ao mundo, que poderia ter deixado sequelas graves no pequeno, mas o marcou apenas com uma pequena cavidade na glabela, espaço entre as sobrancelhas.

O pai do escritor, Joaquim Neto, era pedreiro e topógrafo, ofício que aprendeu na prática e ensinou à sua mulher, Irene. O casal autodidata projetou casas e comércios em Limoeiro do Norte numa época em que ter um diploma universitário era coisa rara no interior do Brasil. “Os dois tinham o dom da matemática”, conta Maria do Carmo Maia, irmã de Irene. “Eles trabalhavam juntos, se ajudavam, queriam dar uma vida boa para os filhos. E o estudo era tudo.”

O pai empregou-se na Construtora Queiroz Galvão, para a qual percorria o interior, mapeando os terrenos dos próximos negócios da empresa. Passava dias longe da família. Em 1986, Charles Jardel ouviu tocar a campainha da casa na hora em que assistia ao filme Fúria de titãs na tevê: era um tio que trazia a notícia da morte do pai, em um acidente de carro. Gardel tinha 6 anos; seu irmão, 11. “Lembro que no dia do enterro do meu pai, por um momento, fiquei sozinho com minha tia Socorro, que sempre cuidou de todo mundo. Ela me levou para debaixo de uma laranjeira e me deu um abraço forte. É uma das minhas memórias mais antigas”, conta o escritor. O pai foi velado na sala da casa da família – um costume na época. “Depois disso, eu não conseguia ficar sozinho em casa quando anoitecia”, confessa.

Ainda com 6 anos, ele começou a aprender a ler, com a ajuda da mãe, que atuou como professora no Mobral, um programa da ditadura militar para alfabetizar adultos. O menino também tinha facilidade com números, como seus pais. “E sempre foi desse jeito, calmo. Mais escuta do que fala”, diz a tia Maria do Carmo Maia, que leu A palavra que resta três vezes. “Conforme crescia, ele ficava mais reservado”, palpita o irmão. “Era uma criança muito diferente das outras. Gostava de ficar em casa, ler, estudar, ficava na dele.” Graças aos esforços da família, Gardel conseguiu concluir seus estudos básicos sempre em colégios particulares. Aplicado, também se interessava pela língua inglesa e chegou a tomar algumas aulas com um americano que morava em Limoeiro do Norte.

Um dia, o menino pediu à mãe uma máquina de escrever. Demorou até que ela pudesse pagar por uma Olivetti Tropical. Viúva e com dois filhos para criar, Irene trabalhava como revendedora de roupas. Ao fazer 13 anos, Gardel ganhou a Olivetti, e foi nela que escreveu seus primeiros textos. Mas confessa: “Sou um péssimo datilógrafo.” Depois que adotou o computador, a máquina de escrever virou para ele uma relíquia da adolescência.

Quando pequeno, ao contrário do irmão, ele ficava longe das traquinagens e não se aventurava muito pelas matas do Córrego de Areia, na zona rural de Limoeiro do Norte, onde passou a infância. Preferia os jogos de peteca e os banhos no tanque construído para ajudar a irrigar a terra na época da seca. Cresceu cercado por mulheres: além da mãe, as tias Maria José Maia (hoje com 66 anos), Maria do Carmo Maia (64 anos) e Maria do Socorro Maia (69 anos). Solteiras, elas moravam numa casa próxima a dos pais de Gardel na roça, onde também vivia um tio, Francisco de Assis Maia, falecido em 2020. Hoje, as tias moram no Centro de Limoeiro do Norte, junto de Charles Jardel, que também é solteiro.

Em janeiro, a piauí acompanhou o escritor em uma visita a Córrego de Areia, a cerca de três horas de carro de Fortaleza. Uma estrada de terra e pedregulhos leva até o terreno de sua família, que está à venda há tempos. “Tudo aqui parece menor”, comenta o escritor ao chegar no local que não visitava havia uns dez anos. Menor, talvez, mas tudo ali é parte de sua memória. Ele abre o portão para entrar no terreno da criança. O capinzal tomou conta dos lugares onde antes havia acácias e buganvílias. Hoje só restam ruínas: em um pequeno terreno, dois esqueletos de casas modestas resistem ao tempo, bem próximas uma da outra (numa moravam os avós e as tias, em outra os pais de Gardel). Pela fresta de uma janela, Gardel observa por um momento dentro da casa de seus avós, em silêncio, e vê o vazio. Bem à sua maneira, fecha os olhos, medita, os músculos da face se contraem suavemente.

Aos 17 anos, ele se mudou para Fortaleza para fazer o antigo curso científico (hoje ensino médio). Na capital, teve as primeiras relações com outros homens, mas só quando já estava cursando engenharia civil na Universidade Federal do Ceará, no começo dos anos 2000. Ele nunca exerceu a profissão de engenheiro. Aos 25 anos, passou em um concurso de técnico judiciário da área administrativa do TRE-CE e está lá até hoje. Conquistada a tão sonhada estabilidade financeira, seu próximo objetivo foi “aprender a escrever”, como ele mesmo conta. Levou algum tempo ainda. Só em 2011, quando já estava com 31 anos, decidiu entrar no curso de letras da Universidade Estadual do Ceará, que não terminou, porque não fez o estágio como professor – o que o obrigaria a deixar o emprego no TRE, sua única fonte de renda.

No TRE-CE, atualmente ele trabalha no setor de manutenção e inspeção das urnas eleitorais. Chega ao trabalho às 10 horas e sai às 16 horas (em época de eleição, como agora, das 8h às 17h). Depois da morte de sua mãe, em 2021, o escritor se mudou de Fortaleza para um apartamento térreo de cinco cômodos na cidade de Eusébio, a 24 km da capital cearense. Os amigos o descrevem como “generoso” e “prestativo”, além de “recatado”. Gardel é o oposto do escritor boêmio: não bebe, não fuma, não sai noite adentro fazendo loucuras. Fica em casa, cercado por seus livros e os gatos Artur, Tomaz e Luma, que resgatou na rua. A colega escritora Ana May Brasil conta que, nos convescotes literários, Gardel prefere beber suco de frutas. “Como ele mora longe, se a festa vai até tarde e as pessoas se animam, falam demais, desabafam, Stênio sai à francesa”, diz ela.

“Stênio é a pessoa mais medrosa que eu conheço”, diz Jean Marques, coordenador pedagógico de uma escola em Fortaleza, o melhor amigo de Gardel. Eles se conheceram em 2013 durante as aulas do curso de letras, quando o interesse por literatura e cinema uniu as personalidades dissonantes. Marques cansou de tentar falar de assuntos mais picantes com o amigo. Gardel sempre desconversa. A escritora e amiga Socorro Acioli – uma pessoa central para o sucesso de A palavra que resta – analisa: “Stênio fez um livro com um personagem rebelde, muito diferente do ser regrado e previsível que ele próprio é.”

Foi em 2013 que Gardel, passando os olhos no jornal O Povo, se deparou com a notícia de um curso de escrita criativa de Acioli, colunista do diário. “Não sabia nem que existia uma coisa dessas, achava que escrita literária era tudo inspiração”, ele conta à piauí. O curso durava três sábados, sempre em uma sala da Avenida Aguanambi, no coração de Fortaleza.

Há anos às voltas com ideias literárias esparsas, nunca executadas, Gardel viu nas aulas uma chance de aprender a ser “um escritor de verdade”. “Eu me lembro de que, logo no primeiro encontro com Stênio, me chamou a atenção o seu comportamento de escritor profissional, de alguém que levava a escrita muito a sério”, recorda Acioli. Dos três sábados do curso, ele faltou ao segundo, mas entregou a lição de casa: um conto de uma página, chamado Ele e o tempo, sobre um homem que se dava conta do tempo que estava perdendo.

Gardel passou a fazer todos os cursos da escritora. Ela lembra que o aspirante era caxias: não deixava de ler nenhum dos textos recomendados, fazia as tarefas com esmero e evitava distrações. Ele explica o motivo de tanto afinco: “Precisei assumir uma postura de começar a escrever com planejamento, a me arriscar e vencer o medo de me expor nos textos.”

Em 2016, em outro curso de Acioli, ele apresentou a ideia de A palavra que resta. Na época intitulado A palavra Raimundo, o livro já estava pronto – com começo, meio e fim –, mas na cabeça de Gardel. “Quando ele me apresentou A palavra Raimundo pela primeira vez, a sinopse já veio inteira: era a história de um homem idoso que queria fazer um curso de alfabetização de adultos para ler a carta deixada por aquele que foi o grande amor de sua vida. E é desses dois pilares, a carta guardada e o desejo de lê-la, que o livro se constrói”, diz Acioli. “Depois disso, eu passei a usar essa sinopse com a história do Stênio como exemplo de boa síntese. Porque era uma coisa que o García Márquez falava muito: ‘Você tem que saber resolver a sua história do mesmo jeito que você resume Chapeuzinho Vermelho.’”

Um privilégio para os alunos mais engajados do curso era receber o convite de Acioli para conversar sobre literatura fora do horário das aulas. Nesses encontros com a professora, Gardel aproveitava para desenvolver os detalhes de seu romance. Ela recorda que as conversas fluíam “muito bem”, porque ele sabia exatamente como queria construir o protagonista idoso do seu livro, que tinha uma postura homofóbica e violenta, porém frequentava às escondidas um cinema de encontros gays. “O trabalho que Stênio fez foi pegar uma história com estrutura resolvida e trabalhar muito a linguagem. E foi aí, nessa procura pelas palavras exatas, que comecei a ficar mais fascinada por ele”, diz Acioli. “Quando a gente sentou para planejar a estrutura de um capítulo de A palavra que resta, vi como funcionava a objetividade do Stênio.”

Gardel diz que o romance começou a nascer para ele quando trabalhava no atendimento ao público de um cartório. Havia muita gente analfabeta, homens e mulheres, velhos e novos, que precisavam assinar os documentos com a digital. “Isso criava momentos de tensão, quando as pessoas ficavam como que em suspenso. Era fácil imaginar que elas estavam pensando naquilo que não tiveram acesso: a educação, a possibilidade de escrever”, ele conta. Essa visão das pessoas analfabetas impotentes diante de um escrito ficou revirando na mente de Gardel por anos.

As suas principais referências literárias são os escritores americanos William Faulkner, John Steinbeck e Carson McCullers. Leu Faulkner pela primeira vez em meados de 2017, quando ainda esboçava seu livro. Começou por Enquanto agonizo (1930), sentado nos bancos da clínica Pronutrir Oncologia e Nutrição, em Fortaleza, onde sua mãe fazia o tratamento contra o câncer. Na sequência, leu O som e a fúria (1929), que lhe causou um grande espanto: “O Faulkner fragmenta o tempo no início do livro, é difícil para o leitor ir montando as cenas.”

A pesquisadora Giovana Proença, da USP, especialista nos escritores do Sul dos Estados Unidos, ressalta a importância de Faulkner para a construção do livro de Gardel: “A palavra que resta ressoa o estilo labiríntico de Faulkner, com períodos longos, arquitetônicos, a fluidez de frases quase colossais em uma região segregada, estrangulada por sua contraparte dentro dos Estados Unidos.” Ela acrescenta outra influência, que acha essencial: a escritora, também sulina, Carson McCullers. “A afinidade com McCullers é notável. A pulsão amorosa guia Raimundo através da carta, símbolo de uma paixão sem esperança. Como em McCullers, a ideia de amor ultrapassa o signo de Eros e se torna o significado do mundo interior do personagem. No livro de Gardel, o protagonista dá forma a essa pulsão: a aprendizagem da escrita. O amor por um homem é também o amor por uma ideia: ler e escrever.” Gardel conta que admira o modo como McCullers constrói seus personagens marginalizados, mas dotados de certa beleza.

A primeira versão de A palavra que resta foi quase toda escrita em três semanas de maio de 2017, quando Gardel estava de férias do TRE-CE. Ele acordava às quatro da manhã e, em suas palavras, “ia até onde desse”. Trabalhou um pouco mais no texto em julho – e o entregou no dia 1º de agosto à professora Socorro Acioli.

De personalidade carismática, Acioli tem 49 anos e vive rodeada de amigos e alunos. Sabe tudo o que ocorre no meio literário. “São as pessoas que vêm e me contam o que fulano fez para sicrano, qual editora quis tal livro e qual recusou. Quem se separou, traiu ou está amando”, ela diz, com um largo sorriso. Quando conversou com a piauí, Acioli tinha acabado de fazer uma cirurgia de diverticulite, mas se mostrava animada. “Diverticulite, ao contrário do que diz o nome, não é nada divertida”, brinca, enquanto amassa com o garfo um pedaço de mamão formosa. Embora devesse ficar ainda em repouso, continuava trabalhando: em seu apartamento no Centro de Fortaleza, estava aconselhando a servidora pública Milena Sousa, sua aluna. “Você tem que encarar a escrita como um trabalho como outro qualquer. Ter disciplina”, disse à pupila.

Acioli publicou seu primeiro livro, O pipoqueiro João, quando tinha 8 anos. Ela cogitou seguir a carreira diplomática, mas pendeu para o jornalismo, curso no qual se formou na Universidade Federal do Ceará. Durante anos, conciliou a atividade na imprensa com a literatura, dedicando-se principalmente aos livros infantis e juvenis. Em 2013, ganhou o Prêmio Jabuti na categoria Literatura Infantil com Ela tem olhos de céu, sobre uma criança que nasce com dons fantásticos em uma pequena cidade nordestina, causando espanto em todos à sua volta. Também escreveu duas biografias: Frei Tito (2001), sobre o religioso torturado pela ditadura, e Rachel de Queiroz (2003), a respeito da autora de O quinze. Mas vivia adiando sua entrada no romance adulto.

Ao completar 30 anos, em 2005, iniciou um pioneiro curso de escrita, para o qual utilizava, entre outros livros, Como contar um conto, registro das aulas dadas por Gabriel García Márquez (1927-2014) na Escola Internacional de Cinema e Televisão, em San Antonio de los Baños, em Cuba. Por coincidência, naquele ano, ficou sabendo que o escritor colombiano estava prestes a dar um novo curso ali. Acioli resolveu mandar um e-mail à escola para pedir informações – e foi informada que as dez vagas eram só para convidados. “Por indicação, responderam”, ela recorda. “Mas não engoli aquilo. Mandei outro e-mail. Queria saber se existia algum jeito de ser indicada. Nada. Eu já estava virando piada entre os professores da escola em Cuba.”

Ela colocou na cabeça que García Márquez ia ler um texto dela. Chegou a pedir ajuda a Frei Betto, amigo do escritor. Mas foi desencorajada pelo religioso. Acioli, porém, persistiu. “Então apelei para o drama: era a tentativa final.” Achou o e-mail de uma professora do curso e escreveu para ela uma mensagem que terminava assim: “Adeus, Socorro.” A professora respondeu pedindo que enviasse, por fax, uma história que gostaria de discutir no curso, junto com o currículo. Mas ela não tinha história nenhuma na cabeça.

Acioli correu para procurar alguma, até que encontrou uma notícia antiga, de 1984, sobre a iniciativa do prefeito de Caridade, a 100 km de Fortaleza, de erguer em um morro uma estátua de Santo Antônio, padroeiro da cidade. A estrutura do corpo do santo, de quase 20 metros, ficou pronta em dois anos, mas sem a cabeça, que a prefeitura não conseguiu transportar até o alto do corpo, de tão pesada que era. A cabeça enorme ficou então largada em um conjunto habitacional. Ao longo dos anos, abrigou transeuntes, serviu de motel e até de moradia para um homem. Mas quem era esse homem que vivia dentro da cabeça de Santo Antônio? E assim nasceu o argumento do romance A cabeça do santo. “Gabo de início não acreditou na história, mas, mesmo assim, adorou. Levei os recortes de jornal pra ele ver.”

A cearense foi aceita para a turma de 2006. O disputado curso durou cinco dias em dezembro, com aulas das nove da manhã às duas da tarde. Em Cuba, com García Márquez, ela aprendeu duas lições importantes. A primeira: só começar a escrever uma história quando já souber o fim. A segunda: escrever movida por uma espécie de arrebatamento. “O autor só deve escrever uma história que precise contar de fato e que sempre o surpreenda”, ela explica.

Em 2014, o romance A cabeça do santo foi publicado pela Companhia das Letras – e é um sucesso. Está na 18ª reimpressão, já foi traduzido na Inglaterra, na França e nos Estados Unidos, e agora vai virar filme, dirigido por Joana Mariani. A fama da Acioli escritora e da Acioli professora pôde ser comprovada durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) do ano passado. Aonde quer que ela fosse, era tietada e fotografada. Também foi a autora mais vendida durante o evento.

Acioli diz que em seu curso de escrita literária, além de estimular a disciplina e o trabalho duro, chama a atenção dos alunos para duas coisas importantes. Uma é reconhecer que o livro que querem escrever é realmente uma necessidade. Ela cita uma frase da escritora americana Toni Morrison (1931-2019), Prêmio Nobel de 1993: “Se existe um livro que você quer ler, mas que ainda não foi escrito, então você deve escrevê-­lo.” Outra é que o aspirante deve ter claro qual é o “coração da história” a ser contada, mesmo que ele seja mais vocacionado ao trabalho com a linguagem, como é o caso de Gardel, do que à elaboração da narrativa. “Stênio não iria escrever um romance de quatrocentas páginas, com uma história caudalosa e cheia de peripécias, mas sabia muito bem o coração do que queria contar em A palavra que resta”, diz a escritora.

Socorro Acioli levou três meses para devolver, devidamente anotada, a primeira versão do livro de Gardel. O romance ainda não estava pronto. A história era forte, o início era bom, mas havia um derramamento na escrita que não combinava com o conjunto. Gardel ainda se lembra dos cortes sugeridos por Acioli antes da primeira versão. Ele dá um exemplo: “Raimundo, em determinado momento, se envolvia, não romanticamente, com um adolescente traficante que ameaçara a sua professora.” Essa história dentro da história, desdobrada por alguns capítulos, saiu de cena. “Aquele personagem não tinha lugar ali, e com razão.”

Animada com o desenvolvimento do romance, Acioli o sugeriu à editora Julia Bussius, da Companhia das Letras. No meio do caminho, entrou em cena a editora Vanessa Ferrari, que trabalhou na Companhia das Letras e é professora do curso de escrita criativa do Instituto Vera Cruz, em São Paulo. “A Socorro mandou mensagem falando do romance de Stênio, achava que o livro podia ainda ser afinado”, conta Ferrari. “O texto já tinha uma oralidade sofisticada, que é diferente da oralidade transposta. Isso eu gostei. Quando o autor já tem uma qualidade bastante clara, a discussão fica no miúdo – o miúdo que é fundamental para o texto, mas fica imperceptível para o leitor.”

Gardel e Ferrari trabalharam durante seis meses, por e-mail e teleconferência. Ela fez sugestões para amenizar frases palavrosas. “O prosador poético pode se derramar no clichê, é fácil, porque há uma linha muito tênue. Eu chamo esse processo de ‘disparador de luas que brilham no céu’”, diz Ferrari, autora de O lugar das palavras, sobre o ofício da edição. “Stênio foi retrabalhando as sugestões, não pesou a mão e pôde construir uma prosa lírica com uma voz única, sem cair em localismos.” Em agosto de 2019, Ferrari então enviou um parecer para Fernando Rinaldi, o coordenador de direitos autorais da Companhia das Letras, no qual dizia:

Tenho lido vários originais (no Vera Cruz e fora dele, por causa desse trabalho de edição com os escritores) e há qualidades no Raimundo [o título do livro na época] difíceis de achar: o cuidado com a linguagem é nítido, o rapaz sabe o que está fazendo; depois ele mandou muito bem ao narrar os nós da descoberta da homossexualidade, as crises, o desejo e o autoflagelo. Nesse sentido, por acaso o livro se passa no sertão, mas o que está lá vai além de uma região específica. Por último, o que poderia ser uma armadilha, representar a linguagem sertaneja (que com frequência vem carregada de equívocos constrangedores, estereótipos de quem não entende do riscado), ele dominou sem imitar ninguém. Os tempos são difíceis, mas se fosse apostar uma das fichas num autor estreante eu certamente incluiria o Stênio nessa seleção. É um baita livro.

A editora resolveu levar adiante a publicação. A definição do nome do livro foi um dos únicos impasses que balançaram Gardel. Quando soube do interesse editorial em renomear o livro, ele bateu o pé. Encontrar um argumento que atravessasse toda a candura e diplomacia do autor foi um desafio para a equipe da Companhia das Letras.

Acioli interveio, sem muito sucesso no início. Lá pelas tantas, Fernando Rinaldi levantou um ponto: vender o livro no exterior com o título A palavra Raimundo seria mais difícil. Gardel contra-­argumentou e manteve sua posição. Foi então a vez de Julia Bussius preparar um bom truque. Novos títulos pululavam, houve trocas entre a equipe. Passaram-se semanas. Até que, de um trecho do livro, Bussius pinçou a frase “a palavra que resta”. De uma perspectiva sonora, dava liga, e combinava com o primeiro título, apreciado por Gardel. O escritor pediu algumas horas para pensar – e aprovou a mudança.

De olho nas tendências globais, a Companhia das Letras achou que A palavra que resta se ajustaria muito bem às demandas identitárias do público LGBTQIA+. Mas não foi esse o principal argumento usado para publicá-lo. O mais importante era que se tratava de um livro bem escrito, com potencial para arrebatar o mesmo público de outro sucesso literário da época – o fenômeno Torto arado, de Itamar Vieira Junior, publicado pela editora Todavia em agosto de 2019 (que já está na 31ª tiragem, com mais de 850 mil exemplares vendidos).

A palavra que resta só foi publicado em abril de 2021 e sofreu os prejuízos decorrentes da pandemia – seu lançamento ocorreu de maneira apenas virtual. Isso não impediu que o romance de Gardel avançasse até a 12ª impressão (a Companhia das Letras não informa quantos exemplares foram vendidos). No início deste ano, o livro teve um relançamento, agora presencial, que lotou a Livraria da Travessa –Pinheiros, em São Paulo.

Em maio de 2021, antes mesmo de ser lançado, A palavra que resta teve os direitos para o cinema comprados pela Pródigo Filmes. Ficará a cargo do diretor Fernando Nogari levar o romance às telas. O diretor de teatro Daniel Herz também se interessou pelo livro e adquiriu os direitos em 2023. A peça estreia neste mês de outubro no Rio de Janeiro, com o ator Charles Fricks no papel de Raimundo. Traduções em países europeus também estão em curso. A edição italiana já foi lançada pela Mendel. Chama-se La parola che resta.

Em janeiro, o Prêmio Literário Internacional de Dublin, um dos mais tradicionais do mercado editorial europeu, colocou o romance de Gardel e Vieira Junior par a par, quando anunciou ambos como semifinalistas da edição de 2024. Mas nem The words that remain, nem Crooked plow (o título da edição inglesa de Torto arado) chegaram à lista dos seis finalistas. O ganhador foi o romeno Mircea Cărtărescu, com Solenoid. Ainda neste ano, Crooked plow, traduzido para o inglês por Johnny Lorenz, foi um dos finalistas do não menos famoso International Booker Prize, do Reino Unido. O prêmio foi dado à alemã Jenny Erpenbeck, por Kairos, cuja tradução para o inglês (por Michael Hoffmann) havia concorrido com The words that remain no National Book Award.

Todo o processo de publicação de A palavra que resta foi feito a distância. Apenas em janeiro deste ano, dois meses depois de receber o prêmio americano, Gardel foi a São Paulo para conhecer, pessoalmente, seus editores na Companhia das Letras, no bairro do Itaim Bibi. Quem o recebeu na sede da editora foi Matinas Suzuki, então diretor executivo de operações da empresa: “Eu estava em Nova York na semana passada e passei na livraria Barnes & Noble”, contou Suzuki ao escritor. “Adivinha o que eu vi logo na entrada da livraria, em uma mesa larga? O seu livro, com todo destaque.” Gardel apertou a mão do executivo com um sorriso tímido.

Às três horas da tarde, o escritor foi a uma reunião com Antonio Castro, na época editor na Companhia das Letrinhas. O assunto ali passou por A palavra que resta, mas o objetivo era tratar do novo livro de Gardel, Bento vento tempo, um cordel para crianças (publicado em junho). O livro foi feito em parceria com o ilustrador Nelson Cruz, indicado neste ano ao prestigioso Prêmio Hans Christian Andersen, na categoria Ilustração (o canadense Sydney Smith foi o ganhador). É o primeiro cordel feito por Gardel, escrito em apenas quatro dias, e conta a história da relação de um menino com o avô, que tem a doença de Alzheimer. “Foi um exercício que deu certo”, diz o escritor, com certa modéstia.

No caminho de volta ao flat onde estava hospedado em São Paulo, ele contou à piauí que está escrevendo um novo romance, ainda sem título, sobre uma família que vive em um lixão. Seu objetivo é narrar a história de três gerações das mulheres dessa família. “Estou ainda na fase de escolher e explorar ideias para o livro.”

Os leitores de A palavra que resta terminam a leitura do livro com uma grande indagação – e a piauí alerta que esta reportagem contém um spoiler. A indagação diz respeito ao conteúdo da carta deixada por Cícero, a mesma que Raimundo carregou consigo a vida inteira e move a trama do romance. O leitor – e aqui começa o spoiler – espera, espera, espera até o final, mas Gardel não revela o teor da carta. Nos encontros de que participa para discutir o livro, o escritor quase sempre precisa explicar aos admiradores do romance o motivo dessa decisão.

Foram pensados, escritos e editados três finais para o romance expondo o conteúdo da carta – mas nenhum deles agradou. Até que veio a decisão de não revelar as palavras deixadas por Cícero. “Como você faz com que uma carta traduza, ao final do livro, toda uma expectativa que o leitor vem carregando o romance inteiro?”, diz a editora Vanessa Ferrari. Gardel concordou com a decisão: “Depois de toda a vida, tanto faz o conteúdo da carta, esse suspense é quase tão poderoso quanto seria a revelação.”

Se a carta foi ou não lida por Raimundo, que se alfabetizou apenas para isso, é outro mistério deixado para o leitor. O protagonista do livro apenas diz, quase ao final de A palavra que resta:

A carta fechada nas mãos e a decisão pendurada na cabeça. Levantei a aba do envelope e tirei a folha de dentro. […] Fiquei meio encandeado, amassei o envelope apoiando-me no rebordo da janela. A folha na outra mão tremia. O vento queria soprar a metade pra cima e tomar a atitude que eu não tomava. A carta continuou dobrada, redobrada, mas o peito desdobrou, sei nem quantas vezes, faltava não caber. Agora o lugar dela é em cima da máquina de costurar que era da mãe. 


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