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poesia

LESMAS QUE ROMPEM EM BRASAS E DESAFIAM OS DEDOS A CUTUCÁ-LAS

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SÍLEX

 6.

sobre as ervas daninhas no esquerdo caminho

até a distância dela    antes de parir as cabras bêbadas   ela nunca se desviara

sentou-se anamburucu

seu nome feio feito moranguinho que se esconde no céu da boca

mercado para a noite quando se diz bom dia

e no dia    boa noite

com a cabeça tombada no colo pé com pé

o cheiro do leito o eiro do índigo em sua baba

os meses-não à nana nutriz

os meses-não à cerimônia da sorte

ao festejo em que arde a queda deslembrada

e sua insistência fedida à faísca

do pau às pedras

a febre em que ardeu ardilosa a aroeira o seu erreno

*

um ordinário deserro – a baía – não tem lama

tem apenas lesmas

lesmas que rompem em brasas e desafiam os dedos

a cutucá-las

será possível que esquecera seu ibiri na porta?

7.

será possível que se esqueceu de abrir a porta?

certeza que não

se escondeu mole no quartzo

com seu chambre àwọ pupa ou escarlate

mandou madame sosostriz – célebre vidente desolada

mandou madame sosostriz avisar que desmaiara

devia é ter deixado um recado

nas cartas – um cão fica com o amo que o alimenta e guarda

hu hu devíamos ter deduzido um ritmo

de suas babuches trinta e quatro

seus passos lesmentos

mas que nada

mas que nãna néné

nanadora bruquenta e siliciosa

9.

de volteio pra casa

sapateia de sapatos imales ao largo do lamaçal

a bem da verdade        se Inie lhe dá     ela toma

a bem da verdade        sente que foi arrastada

pelos pés durasnos das antepassadas

golpe de um ressentimento

duplamente barroso

tanto quanto duvidoso

lamento

mas por quais antepassadas veio?

13.

[com] folhas de plátanos apanhadas à enxada

[com] fios de barbantes apertados às vassouras

[com] golpes abaixo da linha da cintura

bem nos rins

[com] conchas marinhas nas narinas narigueiras e trampas

[com] ossadas sem o tumulto dos túmulos ou vinganças

[com] restos de lâminas laminarias orelheiras

[com] fiascos e vergonhas com cheiro de bergamota

o cômputo dos destroços termina é nunca


Os poemas acima fazem parte do livro Sílex, que será publicado em março pela Fósforo Editora, na coleção Círculo de Poemas.


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É psicanalista, ensaísta, poeta e tradutora. Publicou Relicário e E Se Alguém o Pano (Prêmio Açorianos de Literatura de 2016)