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almanaque do lobby I

DE FUMAÇAS E VAPORES

Como a indústria trabalha para confundir a plateia e legalizar o cigarro eletrônico

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– Mas isso é passado.

A senadora So­raya Thronicke não esqueceu a cena. Ela estava visitando as instalações da Philip Morris, a gigante do tabaco, em Bolonha, no Norte da Itália. Fora conhecer a fabricação dos cigarros eletrônicos, a novidade que chegou ao mercado mundial por volta de 2005 e já conquistou mais de 80 milhões de fumantes no mundo. A certa altura do tour, percorrendo a linha de produção dos cigarros eletrônicos, a senadora voltou-se para o seu guia e perguntou onde ficava o setor que fabricava os velhos cigarros convencionais de tabaco. O funcionário não soube responder e, com desinteresse, disse a frase que ficou na cabeça da senadora: “Mas isso é passado.”

Thronicke, eleita pelo Podemos de Mato Grosso do Sul, gosta de relembrar o episódio aos seus interlocutores. Julga que é uma ilustração adequada sobre o caráter visionário e inovador dos cigarros eletrônicos: eles são o futuro. O futuro do emprego, o futuro dos investimentos e, acredita ela, até o futuro de uma população de fumantes mais saudável – ou menos doente. A senadora concorda com a maior bandeira da propaganda dos fabricantes: que os cigarros eletrônicos – também chamados de vaporizadores, ou apenas vapes – são uma alternativa menos prejudicial ao organismo do que os cigarros tradicionais. Acredita, também, que os vapes servem inclusive como um estímulo para quem quer deixar de fumar maços e maços dos velhos cigarros.

Para defender seu ponto de vista com mais conhecimento de causa, Thronicke visitou a fábrica da Philip Morris no dia 29 de maio de 2024, acompanhada por outros dois senadores do PSD, Sérgio Petecão e Irajá. No gigantesco complexo da empresa, o grupo conheceu todas as etapas da produção do cigarro eletrônico, da trituração das folhas de tabaco – importadas do Sul do Brasil – ao empacotamento do produto final nas caixinhas da Philip Morris. Thronicke ficou impressionada com o que viu. “Não se investe mais em cigarro comum. Só países de Terceiro Mundo, subdesenvolvidos, incluindo o Brasil”, comentou mais tarde.

A Philip Morris bancou todas as despesas da viagem. É um bom investimento da empresa, já que a senadora é quem assina o projeto de lei que concentra todas as atenções das gigantes do tabaco e legaliza o comércio dos cigarros eletrônicos no Brasil. Se for aprovado, derrubará a decisão de 2009 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que proibiu os cigarros eletrônicos por considerá-los um produto altamente nocivo à saúde e que causa dependência em seus usuários.

A viagem, no entanto, é tratada com enorme discrição. A piauí perguntou à Philip Morris sobre o patrocínio da visita, mas a empresa, em nota, limitou-se a dizer que “a viagem foi organizada pela Câmara de Comércio Italiana de São Paulo (Italcam)”. O vice-diretor geral da Italcam, Alfredo Pretto, disse que não comentaria o patrocínio, porque se trata de “informações organizativas internas”, e disse que o responsável pela visita foi o ex-senador paraibano Cássio Cunha Lima. Procurado, Cunha Lima, dono de uma consultoria que faz lobby para a Philip Morris em Brasília, não quis falar sobre o assunto devido a “restrições contratuais”. Recomendou à piauí que procurasse a Philip Morris – e, assim, fechou-se o círculo do silêncio.

Embora sejam de gerações diferentes do Senado, Cunha Lima e Thronicke se conhecem há algum tempo. Perguntei ao ex-senador quando exatamente eles travaram relações, mas esse também não é um assunto público. “Isso tem vinculação com o trabalho que presto. Não posso comentar”, disse. A própria senadora, quando conta a história de que ouviu em Bolonha que o cigarro tradicional “é coisa do passado”, não costuma informar que a viagem teve o patrocínio da Philip Morris. Indagada sobre essa omissão, a assessoria da senadora disse que, na sua visão, basta dizer que a visita ocorreu a convite da Italcam.

O que aconteceu nos anos que antecederam a visita à Itália talvez explique por que o assunto tornou-se sensível.

De tempos em tempos, a Anvisa publica sua agenda regulatória no site e no Diário Oficial da União, informando os temas que serão discutidos pela autarquia nos anos seguintes. É uma forma de dar transparência e previsibilidade ao processo regulatório. Em 2017, quando a agenda saiu, o conteúdo causou um alvoroço na área técnica especializada em produtos de tabaco, conhecida pela sigla GGTAB. Na lista dos 126 temas, constava a “regularização de novos tipos de produtos fumígenos”. Era uma referência aos dispositivos eletrônicos para fumar (DEF), o nome técnico dos cigarros eletrônicos.

A agenda pegou a equipe técnica de surpresa. Não havia nenhuma informação nova que justificasse uma revisão da proibição imposta em 2009. Pelo contrário: as atualizações científicas confirmavam o potencial destrutivo do produto. Os técnicos logo descobriram que a iniciativa partira de Renato Alencar Porto, então diretor de Regulação da Anvisa – e que ele atendia a um pedido das grandes empresas de tabaco. Apesar de não terem sido consultados, os integrantes do GGTAB tinham confiança de que os rigores do processo regulatório blindariam a Anvisa da pressão que a indústria tabagista vinha fazendo – e tocaram o assunto em frente.

Ao longo de 2018, seguindo a praxe, coletaram informações e realizaram mesas de discussão, em que diferentes atores – inclusive as empresas interessadas – puderam contribuir. Em 2019, surpreendendo os técnicos pela segunda vez, Renato Porto pediu que o GGTAB fizesse logo o Termo de Abertura de Processo (TAP), instrumento que formaliza o início da regulação. Porto defendia que o cigarro eletrônico deveria ser legalizado porque já estava sendo fartamente usado de forma ilegal e entrava no país por meio de contrabando – o que, aliás, acontece com inúmeros outros produtos. A equipe do GGTAB achava que o debate ainda não estava maduro para iniciar a regulação, mas acatou a decisão do superior hierárquico. Em junho saiu o TAP, dando início ao processo que consiste numa análise profunda do tema, com audiências públicas, pesquisas científicas, pareceres nacionais e internacionais.

Composta por uma dúzia de especialistas, a equipe técnica da Anvisa decidiu que só consideraria estudos independentes, sem patrocínio das empresas de tabaco. Chegaram a rastrear o financiamento de todas as pesquisas, aplicando um processo interno para classificar a qualidade dos estudos e, assim, separar o joio do trigo. Enquanto isso, a Philip Morris e a British American Tobacco (BAT), que assumiu o controle da antiga Souza Cruz, arregaçavam as mangas. Desde 2017, haviam feito seis reuniões oficiais com diretores da Anvisa. Do início do processo de regulação em diante, foram mais 27 reuniões.

As atas dos encontros, às quais a piauí teve acesso, mostram que a conversa sempre seguia um roteiro parecido. Depois de uma breve explanação informativa sobre o cigarro eletrônico, citando dados e estudos, os representantes da indústria questionavam a demora do processo regulatório e se diziam preocupados com a saúde da população, que estava sendo forçada a se arriscar no consumo de produtos ilegais, cuja origem ninguém conhece.

Para azeitar o lobby, as empresas recorreram a ex-servidores da Anvisa, que tinham a missão de se aproximar dos antigos colegas. A Philip Morris contratou a empresa Haramefá, especialista em “consultoria, registro e regulação junto à Anvisa”. O sócio-administrador da Haramefá, Bento Aureliano Lacerda Corrêa, trabalhou como servidor temporário da Anvisa no início dos anos 2000. Corrêa ligava para integrantes da agência fora da agenda oficial. (A Haramefá confirma que foi contratada, mas nega que sua missão fosse defender a legalização de cigarro eletrônico, embora o nome de Corrêa apareça nas atas das reuniões que trataram do assunto com diretores da Anvisa.)

A bat, por sua vez, recorreu a Alessandra Bastos Soares, ex-diretora da Anvisa, para ocupar o cargo de consultora científica da empresa. Contratada menos de um ano depois da sua saída da agência, Soares é farmacêutica, não tem especialização na área de tabaco e integra a Sociedade Brasileira de Coaching, com certificação em “Leader as Coach” e “Personal & Professional Coaching”. Segundo dois servidores da Anvisa ouvidos pela piauí, Soares também ligava para marcar cafés e conversas fora da agenda oficial. (Ela nega. Diz que em uma oportunidade procurou uma ex-colega, então diretora da Anvisa, apenas para prestar condolências pela morte do marido.) No Congresso, Soares também costuma visitar gabinetes de parlamentares para defender a legalização. “Alguns são totalmente contrários”, diz ela. “Mas muitos senadores estão entendendo o que eu digo.”

Se o lobby no Congresso corre a olhos vistos, na Anvisa é um movimento subterrâneo. Faz sentido que seja assim. Uma convenção da Organização Mundial da Saúde (OMS), assinada pelo Brasil, alerta para o fato de que as decisões das autoridades sanitárias não devem sofrer interferência dos empresários, já que “existe um conflito fundamental e irreconciliável” entre os interesses da indústria do tabaco e os interesses das políticas de saúde pública”. “Às vezes a diretoria [da Anvisa] não entende que o tabaco tem uma característica diferente de outros produtos sujeitos à vigilância sanitária”, diz uma técnica do GGTAB, referindo-se ao conflito de interesses.

Em meio a pressão e aproximações temerárias, a equipe do GGTAB concluiu seu trabalho em julho de 2022. Apresentou um relatório de 323 páginas, no qual recomendava que a proibição do cigarro eletrônico fosse mantida e, como manda a lei, abriu uma consulta pública para receber novos documentos e estudos até tomar uma decisão final. Para propor a manutenção da proibição, os técnicos estudaram a situação de outros países e analisaram pesquisas que vinham sendo publicadas. Os diretores também receberam documentos de órgãos do governo e instituições médicas. Em seu parecer, o Ministério da Saúde recomendava manter a proibição. O Ministério da Justiça, que controla a Polícia Federal, também defendia a proibição e afirmava que a legalização não reduziria o contrabando – e, portanto, ao contrário do que diz a indústria, parte da população continuaria se arriscando com produtos ilegais, como acontece hoje com o cigarro de tabaco que, embora legal, também é fartamente contrabandeado. Na verdade, os agentes da PF e especialistas em autenticação ouvidos pela piauí acham que a legalização até poderia complicar o cenário. Devido à grande diversidade de modelos de cigarro eletrônico, seria mais difícil distinguir os produtos legais daqueles que continuariam vedados, já que a diferenciação demandaria o uso de uma tecnologia sofisticada. Hoje, o trabalho é mais fácil: qualquer modelo deve ser apreendido.

A indústria do tabaco, temendo que a Anvisa acabasse por manter a proibição em definitivo, começou a se mexer para o que chamava internamente de “solução legislativa”. Ou seja: virou seus canhões para o Congresso. Era a hora de bater na porta do gabinete de Soraya Thronicke. A senadora agiu rápido: em setembro de 2023, convocou uma audiência pública para discutir o cigarro eletrônico. Assim que a audiência se encerrou, ainda no corredor do plenário, ela anunciou à imprensa que faria um projeto de lei propondo a legalização. A Associação Brasileira da Indústria do Fumo (Abifumo), que congrega as gigantes do setor em atuação no Brasil – Philip Morris, BAT e, até maio deste ano, Japan Tobacco International – logo enviou ao gabinete da senadora exemplos de regulamentação em diferentes países, para embasar seu projeto. Em outubro de 2023, apenas três semanas depois da audiência pública, o projeto já estava pronto e publicado no sistema do Senado.

A proposta tem 37 artigos e três páginas de justificativa. Define regras para a fabricação, estabelece limite de nicotina nos dispositivos eletrônicos e proíbe os modelos abertos, como são chamados aqueles nos quais o usuário pode recarregar a solução líquida de nicotina. Também prevê a punição para os comerciantes que vendam o produto a menores de 18 anos de idade e veda a adição de substâncias como vitamina e cafeína. Era a “solução legislativa” ganhando corpo.

Assim que o projeto de legalização de Thronicke começou a tramitar no Senado, a Anvisa deu outro passo importante. Em 4 de dezembro de 2023, encerrada a consulta público sobre o relatório de 323 páginas aberta desde o ano anterior, a Anvisa publicou um esboço do que a burocracia chama de Resolução da Diretoria Colegiada (RDC). A minuta trazia uma posição clara: o cigarro eletrônico devia continuar proibido. Não era, ainda, a decisão final. Seguindo um trâmite quase exagerado de tão rigoroso, a RDC seria agora submetida a uma nova consulta pública e, depois, encaminhada à votação – essa, sim, definitiva – dos diretores da Anvisa.

Mas o esboço da decisão já era um sinal de que a derrota da indústria estava a caminho. Depois de receber uma dura reprimenda da matriz, em Londres, que apostava na legalização via Anvisa, a filial brasileira da BAT promoveu uma dança das cadeiras: trocou cargos e fortaleceu a equipe de relações governamentais, que deveria agora concentrar suas atenções no Congresso Nacional para redobrar a pressão sobre os parlamentares.

Para a indústria do tabaco, legalizar o cigarro eletrônico no Brasil não é só uma questão de ampliar o mercado consumidor – é também um trunfo. Os fabricantes apostam que, se o Brasil chancelar a venda dos vapes, a América Latina toda tende a acompanhar, o que pode resultar no fim de restrições eventuais, facilitando ainda mais o comércio pelo continente. “A posição brasileira tem grande influência na política antitabaco internacional”, diz o oncologista Roberto de Almeida Gil, diretor-geral do Instituto Nacional de Câncer (Inca). “Somos um modelo para o resto do mundo.” Não é à toa. Em 25 anos, o número de brasileiros que fumam todos os dias caiu de 29% para 12% entre os homens e, entre as mulheres, de 19% para 8%. “É uma história de sucesso digna de nota”, observou The Lancet, revista científica bicentenária, ao destacar o Brasil numa análise de dados em 195 países. De acordo com dados do ano passado, o Brasil é um dos raros países – ao lado da Holanda, da Turquia e das Ilhas Maurício – que adota todas as recomendações antitabagistas da OMS. Por isso mesmo, é um alvo especial do lobby das grandes tabagistas. Mas, apesar do empenho, a indústria não demorou a receber o golpe final da Anvisa.

Em abril de 2024, depois de encerrar a última consulta pública, a diretoria finalmente votou a RDC. Por unanimidade, os quatro diretores da agência, fazendo jus à tradição brasileira de combate ao tabagismo, decidiram manter a proibição do cigarro eletrônico. Com essa derrota definitiva, os fabricantes recorreram à senadora Thronicke, que, mais uma vez, demonstrou agilidade para colocar em marcha a solução legislativa.

No dia 21 de maio, um mês depois da decisão definitiva da Anvisa, o Senado fez a primeira audiência pública para debater o projeto que legaliza os vapes. No plenário da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), a parte reservada ao público estava apinhada de defensores do projeto. Além do pessoal da indústria, também discursaram representantes de associações médicas – todos contrários à legalização. Depois de quase três horas de apresentações, Thronicke tomou a palavra. Alessandra Soares, ex-Anvisa e atual BAT, levantou-se e, com o celular, tirou uma foto da senadora,

Thronicke então começou desafiando o pneumologista Alcindo Cerci Neto, representante do Conselho Federal de Medicina, com uma pergunta retórica: quantos atestados de óbito haviam sido emitidos no Brasil com a causa mortis atrelada aos dispositivos eletrônicos de fumar? O pneumologista respondeu de maneira estritamente técnica: “Nunca a senadora vai ver uma declaração de óbito cuja causa imediata é o uso de cigarro, seja de tabaco ou eletrônico.” Thronicke continuou sua fala. “A diferença entre liberdade econômica, abertura de mercado, é muito grande em relação à anarquia. E muitos de nós aqui não somos anarquistas”, disse. “Eu não sou anarquista. O que nós queremos é frear, é regulamentar, porque hoje é possível tudo. Olha aqui.” De uma bolsa de plástico com a logomarca de uma tabacaria, ela tirou diferentes dispositivos para fumar, adquiridos por sua assessoria em Brasília. “Ó, vape, vape, vape… Iogurte, milk-shake de banana, fresh açaí”, disse, listando cada sabor com entonação sarcástica. “Cotton candy! Nossa, algodão-doce! À vontade!”

O corte desta cena viralizou nas redes sociais como um meme, republicado diversas vezes no TikTok e no antigo Twitter. Um profissional que prestava serviço para a BAT naquela época disse que a atuação da senadora levou a empresa ao delírio. “O pessoal adorou aquilo. Como imagem, é do caramba”, conta o ex-funcionário, que pediu para ter sua identidade preservada para evitar prejuízos profissionais. “Foi lindo para eles.” Além do projeto de lei e da cena viral, Thronicke também protocolou uma proposta de decreto legislativo que, se aprovado, pode derrubar a decisão da Anvisa na canetada.

Cinco dias depois da cena que viralizou, a senadora embarcou para aquela viagem à fábrica da Philip Morris, em Bolonha.

Há décadas, o cigarro eletrônico é um sonho da indústria tabagista. Na medida em que a ciência foi descobrindo os terríveis efeitos do fumo sobre o organismo, as fábricas passaram a temer pelo futuro do seu mercado. No repositório online da Universidade de São Francisco, que guarda um acervo de 18 milhões de documentos das empresas de tabaco, a piauí encontrou documentos internos da Philip Morris, datados da década de 1990, que já faziam referência a dispositivos parecidos com o atual cigarro eletrônico como alternativa para entregar nicotina aos fumantes, mantendo assim o vício.

Em um documento, a fabricante é certeira: “Não demorará muito para que dispositivos de administração de nicotina que sejam eficazes e atraentes acabem sendo introduzidos no mercado com endosso [de autoridades médicas]. Se isso acontecer, claramente se tornará a próxima onda no mercado de ‘cigarros’, impulsionada por preocupações com a saúde.” A Philip Morris chegou a patentear um dispositivo de aerossol cujo vapor tinha partículas menores que 2 micrômetros “para facilitar a penetração profunda no pulmão”. O projeto só não foi adiante em razão de dúvidas sobre a regulamentação nos Estados Unidos.

Em 2003, no entanto, o mundo conheceu o primeiro vaporizador de um líquido contendo nicotina, criado pelo farmacêutico chinês Hon Lik. As fabricantes omitiram toda a participação decisiva que tiveram no desenvolvimento do produto e abraçaram a novidade como se fora um golpe de sorte. De imediato, passaram a apresentar a invenção como uma alternativa para “reduzir os riscos” do tabaco. Com isso, a indústria repaginava sua imagem: em vez de responsáveis pela morte de milhões de pessoas, os fabricantes agora se colocavam como parte da solução do problema – que eles próprios criaram.

A tese da “redução de danos” ganhou impulso com o estudo do farmacologista inglês David Nutt, estudioso do efeito das drogas no cérebro. Em 2013, ele reuniu onze pesquisadores em um workshop de dois dias, em Londres, para medir os danos provocados por diferentes produtos de tabaco. Levaram em conta catorze critérios de danos, como mortalidade, associação ao crime, dependência, custo econômico, perda de relações familiares. A cada critério de dano, eles atribuíram uma pontuação de zero a 100. Com base na opinião do grupo, os cigarros convencionais foram ranqueados como o produto de nicotina mais danoso, com uma pontuação de 99,6. Os eletrônicos, por sua vez, tinham só 4 pontos em dano máximo. E assim, quase como num passe de mágica, nasceu a máxima de que os eletrônicos são “95% menos prejudiciais” que os cigarros tradicionais.

Em 2014, Nutt e seus colegas publicaram um paper sobre o estudo na revista European Addiction Research. No ano seguinte, o King’s College London fez uma revisão científica e mencionou a conclusão do estudo. A revisão foi publicada pelo Public Health England, na época uma agência do Ministério de Saúde do Reino Unido, que chancelou o resultado. Com isso, foi-se criando uma cadeia de citações. O trabalho de Nutt e colegas acabou aparecendo em 383 estudos subsequentes e seu enunciado – “95% menos prejudicial” – virou uma verdade científica, que os fabricantes do cigarro eletrônicos difundem aos quatro ventos.

Até que a revista The Lancet entrou no jogo, mostrando que a metodologia do estudo era escandalosamente fraca. Em um editorial, destrinchou a pesquisa e criticou o Public Health England por referendar a conclusão enganosa. “As opiniões de um pequeno grupo de indivíduos sem conhecimentos pré-especificados no controle de tabaco basearam-se numa ausência quase total de evidência dos danos”, diz o texto. (Para piorar, alguns dos autores do estudo foram financiados, direta ou indiretamente, pela Philip Morris e pela BAT. Pelo menos três deles – Riccardo Polosa, Karl Fagerström e Martin Dockrell – têm relações diretas com a BAT ou a Philip Morris.)

Entre outras falhas, o estudo não levava em conta os modos de consumo do vape. Como não exalam mau cheiro, nem são interditados socialmente, os cigarros eletrônicos estão quase sempre na mão – e na boca – dos usuários. “Quem fuma um maço de cigarro convencional dá cerca de duzentas tragadas. No cigarro eletrônico, dá uma média de seiscentas por dia”, compara a cardiologista Jaqueline Scholz, especialista em tratamento do tabagismo no Instituto do Coração (InCor). Ela mesma já recebeu em seu consultório um paciente que acordou com o vape na boca e se deu conta de que, de maneira involuntária, fumava enquanto dormia.

A intensidade do uso neutraliza uma diferença que, aparentemente, poderia ser favorável ao cigarro eletrônico: o aerossol do vape tem cerca de 2 mil substâncias tóxicas, enquanto a fumaça do cigarro tradicional tem 7 mil. “Parece vantajoso, né? Mas a questão não é a quantidade de substâncias em si, mas como elas afetam o usuário na vida real”, diz Scholz. Ou seja: se uma única substância pode levar à morte é o que basta para acender o alerta. Nas palavras de um servidor da Anvisa: “É a mesma coisa que perguntar se você prefere ser empurrada do centésimo ou do vigésimo andar.”

Para piorar, a nicotina usada nos líquidos dos vapes foi potencializada com a invenção do sal de nicotina, que chega ao cérebro quase instantaneamente, aumentando a fissura pela droga. “Faço a analogia com o crack, que tem essa adição muito rápida”, diz o oncologista Almeida Gil, do Inca. Para piorar ainda mais: enquanto a nicotina do tabaco convencional irrita a garganta e a boca, levando o usuário a interromper seu uso, o sal de nicotina passa incólume. Por ser tratada com ácido benzoico, a substância elimina essa barreira natural da irritação. É como se alguém pudesse comer quilos e quilos de sal sem sentir qualquer incômodo – e, portanto, sem perceber os alertas de perigo enviados pelo corpo.

Scholz, a cardiologista do InCor, ficou chocada quando percebeu um padrão nos testes que medem a presença de nicotina na urina dos usuários de vape. Todos eles – até os recém-iniciados – apresentavam a cota máxima de nicotina detectável pelo teste: 600 nanogramas de nicotina por ml. É uma concentração equivalente à dos fumantes pesados, que consomem até dois maços de cigarros convencionais por dia. Posteriormente, exames de urina apontaram concentração de nicotina até 2 mil em usuários de vape). O resultado confirma suas observações empíricas: o grau de dependência relacionado ao cigarro eletrônico supera o do cigarro tradicional. Além de intensa, a dependência é precoce. Scholz cita de cabeça dados de um estudo com dependentes de nicotina (ainda não publicado): a idade média dos fumantes de tabaco é 40 anos, com 20 anos de uso. No vape, é 29, com três anos de uso.

Com efeito tão viciante e tão precoce do vape, os consultórios médicos passaram a ser procurados por jovens dependentes. Em 2022, Scholz começou a receber adolescentes – em alguns casos, de apenas 13 anos – em busca de ajuda para lidar com graves crises de ansiedade e abstinência. “Tive que encaminhá-los aos hebiatras do Instituto de Psiquiatria da USP”, diz ela, inconformada, referindo-­se aos pediatras especializados em cuidados de adolescentes. Scholz criou o primeiro laboratório de tratamento médico-farmacológico para tabagismo do país em 1996. Desde então, nunca havia atendido menores de idade. Os fumantes de cigarro tradicional, diz ela, costumam procurar ajuda depois de 25 anos de uso, quando os problemas de saúde começam a aparecer. Com os jovens do vape, é tudo mais veloz. “Isso está causando uma desgraça, muito mais rápido que o tabaco.”

Mesmo a tese de que o cigarro eletrônico pode ajudar a abandonar o tabaco – o argumento preferido da indústria – também vem sendo contestada. Um artigo publicado na revista The New England Journal of Medicine mostrou que pessoas que tentaram fazer a transição do cigarro de tabaco para o eletrônico estavam, seis meses depois, fazendo uso combinado de ambos. Não conseguiram largar o cigarro e ainda entraram num novo vício. Uma pesquisa do sistema de vigilância Vigitel, do Ministério da Saúde, o maior inquérito sobre doenças crônicas do Brasil, apontou que o principal motivo de quem adota o vape nem é “parar de fumar”. Esse é apenas o sétimo motivo. As razões que aparecem antes são: “curiosidade”, porque “está na moda”, porque “gosta”, para “acompanhar amigos ou familiares”, pelos “sabores” ou porque podem usá-lo em ambientes “onde o cigarro industrializado [tabaco] é proibido”.

“Esses produtos têm o apelo da tecnologia, um marketing sedutor nas redes sociais”, diz Vera Luiza da Costa e Silva, secretária executiva da comissão que cuida do controle do tabaco, ligada ao Ministério da Saúde. “Isso capta exatamente a população mais nova.” Uma pesquisa na Austrália, onde não havia restrições ao cigarro eletrônico até o ano passado, mostrou que adolescentes de 12 a 17 anos que fumam vapes são cinco vezes mais propensos a começar a fumar tabaco.

Como a explosão do vape começou há menos de sete anos, estudiosos e pesquisadores ainda não tiveram tempo de consolidar o conhecimento científico, mas toda hora tropeçam numa novidade assustadora. Em setembro passado, na sua sala minúscula na Faculdade de Medicina da USP, a pneumologista Elnara Negri começou a ler um artigo no PubMed, site que reúne trabalhos científicos, e o espanto assomou seu rosto. O estudo dizia que as partículas do aerossol liberadas pelo cigarro eletrônico tinham diâmetro de 0,1 micrômetro – muito menor que as partículas da fumaça do tabaco, que alcançam 2,5. Para efeitos de comparação, um fio de cabelo tem diâmetro de 50 a 70 micrômetros.

“Isso entra em qualquer célula do corpo”, explicou ela. “Entra pela membrana, atravessa o citoplasma, pode entrar na mitocôndria e no núcleo, alterando o DNA. Pode fazer mutação. O potencial carcinogênico é muito, muito provável”, disse, sem tirar os olhos do computador. A invasão de partículas tão diminutas pode acontecer em neurônios, por exemplo, relacionadas ao Alzheimer, ao Parkinson, à esclerose múltipla e outras doenças autoimunes. “Se a pessoa tem uma tendência genética a desenvolver essas doenças, provavelmente o cigarro eletrônico vai aumentar a expressividade desse gene.”

Por tudo isso – o modo de fumar, o sal de nicotina, o diâmetro diminuto das partículas de aerossol, a intensidade e a precocidade da dependência –, a afirmação de que os cigarros eletrônicos são “95% menos prejudiciais” está mais para peça de propaganda enganosa do que para verdade científica. Mas as grandes empresas de tabaco continuam a propagá-la, exatamente como fizeram com o tabaco no século passado. “A ciência independente já provou que os cigarros eletrônicos devidamente regulamentados são produtos de risco reduzido, com 95% menos exposição a substâncias potencialmente tóxicas”, afirmou a BAT em nota enviada à piauí. A Philip Morris defendeu o mesmo argumento e colocou em dúvida o editorial da revista The Lancet que espinafrou a tese dos “95% menos prejudicial”. Disse que a revista não apresentou “qualquer nova hipótese, metodologia, execução e obtenção de resultados ou conclusão científica”.

A informação enganosa nunca parou de circular – e chegou, praticamente intacta, à imprensa brasileira.

Um levantamento da piauí identificou que, ao longo de 2023, nove veículos da imprensa brasileira publicaram trinta conteúdos pagos sobre o cigarro eletrônico. O material saiu em O Globo, Folha de S.Paulo, Estado de S. Paulo, Valor Econômico, CNN Brasil, Metrópoles, Exame, Veja e Poder360. Todos os conteúdos foram publicados como branded content. Ou seja: estavam devidamente identificados como material pago e informavam o patrocínio da BAT. Dos trinta conteúdos, 24 repetiam o argumento: um estudo do King’s College London provara que os cigarros eletrônicos são 95% – ou vinte vezes – menos prejudiciais que o cigarro tradicional.

Além do material pago, a imprensa publicou dezenas de reportagens fazendo alusão a esse dado enganoso. A piauí ouviu dois ex-funcionários de uma agência de comunicação que prestou serviço à BAT. Eles contam que a empresa passava o material à agência, que, por sua vez, repassava à imprensa. “A gente nem sabia exatamente que tipo de pesquisas eram aquelas, quais eram as fontes, a fidedignidade”, diz um deles, que pediu para não ter o nome divulgado com receio de se prejudicar profissionalmente. “Tudo que a gente mandava, entrava [era publicado], sem apuração, sem nada. Podia ser a balela que fosse.”

A BAT também patrocinou seminários e debates sobre o cigarro eletrônico produzidos pelos jornais O Globo e Folha de S.Paulo, e pelos sites Poder360 e Metrópoles, além de patrocinar o videocast chamado A importância da regulamentação dos cigarros eletrônicos no Brasil, lançado pelo Estadão Blue Studio, unidade de negócios do jornal para produção de conteúdo pago. A Philip Morris Brasil é mais discreta. Patrocina ações que não têm relação com o cigarro eletrônico – um projeto de checagem na Folha, um programa de treinamento de jovens repórteres no Estadão –, mas banca viagens de jornalistas para conhecer suas fábricas pelo Brasil e estreitar laços com seus representantes.

O público-alvo dos eventos da indústria não são leitores e ouvintes comuns. São políticos, empresários e tomadores de decisão na esfera pública. Em todos os eventos, sem exceção, a bat escolheu o nome dos debatedores – todos, naturalmente, favoráveis à legalização. Em 14 de dezembro de 2022, Lauro Anhezini Júnior, chefe de Relações Científicas e Regulatórias da BAT, participou do seminário realizado pelo Poder360, no hotel Golden Tulip, em Brasília. Disse que queria uma “discussão séria, científica”, com dados que normalmente não atraem a atenção. Falou que enviara um documento de novecentas páginas à Anvisa e que o objetivo da empresa era a proteção da saúde pública. (Como porta-voz científico da BAT, Anhezini Júnior é frequentemente citado como fonte em matérias jornalísticas, mas ele não quis dar entrevista à piauí.)

No mesmo evento, Alessandra Soares, a ex-diretora da Anvisa que virou consultora da BAT, defendeu o direito de fumar. “O Brasil hoje vive uma crise sanitária [em razão do contrabando]”, disse, sensibilizando-se: “Eu me emociono, me toca falar [sobre isso].” Em conversa com a piauí, ela frisou que a legalização é a única forma de estabelecer um controle sanitário do produto. Lembrou que, durante seu tempo na Anvisa, entre 2017 e 2020, recebia as empresas (incluindo sua atual contratante) e sondava os técnicos da área de tabaco, que sempre se mostraram refratários à legalização. “Você vai me perguntar por que eu não resolvi isso quando estava na Anvisa. Adoro essa pergunta”, disse, com ar divertido. “Naquela época eu não tinha estudado o tema.”

No seminário do Poder360, a voz do consumidor foi Alexandro Lucian, presidente do Direta.org, que prega a legalização do produto. A BAT pagou os custos da sua viagem de Curitiba a Brasília para que ele contasse sua história. Lucian, de 44 anos, personifica a propaganda de que os dispositivos eletrônicos podem livrar os fumantes do vício do cigarro convencional – e ficar “95%” menos doentes. Ele conta que tentou remédios, adesivos, gomas de mascar e tratamento psicológico, mas só conseguiu largar o cigarro depois que um amigo lhe falou sobre “um aparelhinho”. No dia 30 de maio de 2015, comprou um vaporizador pela internet e nunca mais fumou um cigarro de tabaco. “Esse negócio salvou a minha vida”, disse ele à piauí. “Eu ia morrer usando cigarro convencional com três maços por dia.” Para ele, os profissionais de saúde contrários à legalização fazem “campanhas difamatórias contra esses produtos”, promovidas por organizações privadas que mentem e “assustam a população”.

Atualmente Lucian usa um dispositivo preto fosco, sofisticado e discreto, que some no bolso do paletó. Seu exemplar contém um cartucho, que pode ser retirado e reabastecido com líquido saborizado. Seu favorito é o de morango. Comprou esse dispositivo da marca Oxva na Polônia, em julho passado, onde esteve para o Global Forum on Nicotine, promovido por uma fundação financiada pela Philip Morris. Foram quatro dias de apresentação. Segundo ele, todos os custos da sua viagem – deslocamento, hospedagem, alimentação – foram pagos pela gigante do tabaco. (A Philip Morris, procurada pela piauí, negou ter patrocinado a viagem. Lucian, porém, confirma: “É absolutamente natural, como qualquer outro mercado”, disse.)

O jovem Paulo Henrique Ortiz, de 22 anos, é o exemplo oposto de Alexandro Lucian. Em junho passado, ele estava desacordado na mesa de cirurgia do Hospital Regional de Mato Grosso do Sul quando seu pulmão começou a se desfazer. De início, uma tomografia indicara a presença de água no pulmão, decorrente de uma pneumonia bacteriana, que, por sua vez, fora causada pelo líquido do cigarro eletrônico – que Ortiz começara a usar havia apenas oito meses. Mas, quando iniciaram a drenagem, os médicos fizeram uma descoberta alarmante: pelo tubo, não estava saindo água. Saíam pedaços pretos do pulmão.

Ortiz começou a fumar aos 15 anos. Aos 21, decidiu trocar o cigarro de tabaco pelo eletrônico. Em outubro de 2023, comprou um vaporizador da marca Ignite, conhecida pelo símbolo de um chifre de touro. Cada vaporizador continha líquido para cerca de 5 mil tragadas – ou puffs, no jargão do meio. Um maço de cigarros convencional, com vinte cigarros, permite uma média de trezentas tragadas. O vaporizador da Ignite, portanto, equivalia a mais de dezesseis maços. Ortiz acostumou-se a esgotar um vape em menos de duas semanas. Acreditava que estava domando sua abstinência do tabaco.

O vaporizador da Ignite – menor que um smartphone – tem uma bateria, recarregável pela tomada, que aquece a solução líquida de nicotina e produz o aerossol inalado pelo consumidor. O vape é prático. Dispensa o uso de isqueiro ou fósforo, pois basta puxar o ar pelo bocal para acionar o produto e ainda tem a vantagem de exalar um cheiro agradável. Ortiz passava o dia com seu vape do lado, fumando quase o tempo todo. Até que, na madrugada de 12 de junho passado, Ortiz acordou tossindo sangue e com dificuldade para respirar. A sensação era parecida com a de um afogamento.

No hospital, assim que os médicos perceberam que estavam sugando partes do pulmão necrosado de Ortiz, a cirurgia virou uma intervenção de alto risco. Numa corrida contra o tempo, a equipe abriu o tórax do jovem e passou a fazer a raspagem da necrose, para evitar que se espalhasse para outros órgãos, como o coração. Depois de cinco horas de cirurgia, o rapaz perdera metade do pulmão direito. Mesmo com pouca idade, ele estava com o pulmão de um fumante de mais de 70 anos.

Ortiz passou algumas semanas com um dreno implantado na altura do tórax, chegou a ter outra infecção, que foi debelada, e recebeu alta em seguida. Hoje, seis meses depois da cirurgia, ele continua em recuperação. Precisa ficar em repouso e não pode fazer atividades que exijam muito esforço físico, como correr ou nadar. Aos poucos, vem se adaptando à sua nova vida. “Esses dias eu até consegui jogar um pouco de futebol”, ele me contou, durante uma chamada de vídeo. Desligava o microfone sempre que precisava tossir.

Em setembro passado, também conversei com Débora Sampaio, a mãe de Ortiz. “Eu vivi um pesadelo”, disse ela, que pediu demissão do trabalho para acompanhar a internação e tratamento do filho. Ela contou que Ortiz sempre foi um jovem saudável, nunca tivera problemas respiratórios nem comorbidades. “Por causa desse cigarro eletrônico, a vida dele não vai ser mais como era antes. Não só a dele, né? A vida da mãe muda também.” Ela lembrou que, ainda no hospital, quis entender o que aconteceu com o filho. A médica explicou da forma mais simples possível: “O cigarro eletrônico derreteu o pulmão dele.”

A legalização dos cigarros eletrônicos inclui um componente pouco citado nos debates: a disseminação territorial do vício. Uma pesquisa do instituto Ipec informou que a incidência de fumantes de dispositivos eletrônicos no Brasil saltou de 500 mil em 2018 para quase 3 milhões em 2023. A incidência ainda é baixa – 1,5% da população –, mas os números são bastante imprecisos. Em 2021, por exemplo, o Datafolha calculou um nível muito maior. Segundo o instituto, cerca de 3% da população usava vape habitualmente.

Acontece que o uso do cigarro eletrônico, hoje, está concentrado nas classes média e alta que moram nos grandes centros urbanos. A legalização levaria os vaporizadores para todos os cantos do país, considerando que setor de tabaco tem uma das melhores cadeias de distribuição no território nacional. A mesma facilidade de encontrar um maço de cigarros em qualquer lugar do Brasil – mesmo nos pontos mais remotos e inacessíveis – se estenderia ao vape.

Mesmo assim, a batalha pró-vape está longe de acabar. Na Anvisa, a palavra final já foi dada, mas nem por isso as pressões acabaram. No Senado, a CAE se prepara para votar o projeto da senadora Thronicke, ainda sem data definida, depois de a votação ser adiada duas vezes. E, no Ministério da Fazenda, os apetites estão aguçados. Afinal, estimativas indicam que a arrecadação de impostos com a venda dos dispositivos eletrônicos, uma vez legalizados, poderia render 2,2 bilhões de reais por ano. Para um governo que anda sempre às voltas com a necessidade de aumentar a receita, seria um alívio orçamentário.

Atento ao assunto, no dia 3 de setembro passado, às 14h30, o secretário da Receita Federal, Robinson Sakiyama Barreirinhas, recebeu em seu gabinete três representantes da Philip Morris. Às 16 horas, conversou com quatro representantes da bat. O conteúdo das duas reuniões, embora previsível, é um mistério. A piauí perguntou ao secretário da Receita o que se discutiu nos encontros, mas sua assessoria não respondeu. A Philip Morris, em nota, disse apenas que “esses encontros são legais e divulgados publicamente com total transparência”. A BAT, por sua vez, mandou uma nota em que nada diz sobre a reunião. Diante disso, a piauí pediu acesso às atas por meio da Lei de Acesso à Informação, mas o Ministério da Fazenda, ao qual está subordinada a Receita Federal, respondeu que não fez ata de nenhuma das reuniões.

O que se sabe é que, encerrados os encontros com os representantes da Philip Morris e da BAT, o secretário Barreirinhas, às 17 horas daquele mesmo dia, atravessou o Eixo Monumental de Brasília a caminho de seu compromisso seguinte: uma reunião, que ele próprio solicitara, na sede da Anvisa. Levava consigo uma folha de papel com dados de apreensão de cigarros eletrônicos entre 2022 e 2024 e três membros de sua equipe. Na Anvisa, reuniu-se com o presidente da agência, Antonio Barra Torres, e outros três servidores. A conversa foi cordial, mas tensa.

Barreirinhas abriu os trabalhos dizendo que seria breve e objetivo, segundo a ata da reunião obtida pela piauí. Fez um preâmbulo meio confuso – sobre lobby no Congresso, tributação sigilosa, desincentivo ao consumo – e entregou aos diretores a folha contendo os dados de apreensão de cigarros eletrônicos. Em seguida, chegou ao ponto que o levara até ali: disse que a Receita tem “grande preocupação com a repressão ao contrabando”, mas que ele tem certeza de que “essas ações não estão sendo efetivas”. Afirmou que em 2023 houve apreensão de 3 milhões de cigarros eletrônicos, mas que o valor não representa nem 10% da quantidade que circula no país. Disse que a Receita não tem condições operacionais, nem logísticas de apreender e guardar esses produtos. O pessoal da Anvisa ouviu em silêncio.

Barreirinhas continuou o solilóquio mencionando que o combate ao contrabando tem sido tão inútil que equivale a “enxugar gelo”; alertou que, quando não é reprimido com eficiência, o comércio ilegal acaba por “fomentar o crime organizado”; e acrescentou que “o ministro Fernando Haddad também estava preocupado com a situação”. Por fim, depois de dizer que não queria “adentrar na competência da Anvisa”, afirmou que a “Receita Federal externa uma preocupação com a manutenção da proibição do cigarro eletrônico no Brasil”. Era uma sugestão clara de defesa da legalização, sem que a palavra tenha sido dita. Os representantes da Anvisa continuaram calados.

Depois de pedir desculpas, Barreirinhas, pela segunda vez, disse que não iria “adentrar no mérito da saúde e na política da Anvisa e do Ministério da Saúde”. Nesse momento, Barra Torres, presidente da Anvisa, fez a primeira intervenção. Desculpou-se por interromper o secretário e explicou que o relatório que resultou na proibição dos cigarros eletrônicos contou com a participação não de um, mas de quatro ministérios: Saúde, Justiça, Educação e a própria Fazenda. Não era, portanto, uma “política da Anvisa”, como disse Barreirinhas, mas de vários órgãos do governo. O secretário da Receita retomou a palavra, dizendo que a Anvisa “não se preocupa com a repressão per se”, mas que, de qualquer forma, a Receita encaminharia “um material para a Anvisa expondo a impossibilidade fática de se reprimir algo tão amplo”.

A certa altura, Barreirinhas admitiu que não há “solução simples para o problema”, mas que iria compartilhar suas preocupações “com diversos atores no governo” Acrescentou que já tinha visto várias pessoas fazendo uso de vapes em bares e adiantou que haveria “outros tipos de ação de repressão mais amplas que podem fomentar a retomada da discussão acerca da proibição do cigarro eletrônico”. Quando ouviu a expressão “retomada da discussão”, Barra Torres começou a encaminhar o fim da reunião. Agradeceu a fala do secretário e disse que aguardaria as contribuições. O diretor Daniel Meirelles Fernandes Pereira, que até então estava em silêncio, lembrou que a decisão de manter a proibição aconteceu depois de se ouvir oitenta sociedades médicas e avaliar vários estudos científicos. Barra Torres citou que o parecer do Ministério da Justiça enviado à Anvisa, em que a pasta se manifestou pela proibição, justamente por avaliar que a legalização do produto não resolveria o contrabando. Deu-se então o seguinte diálogo:

– Do ponto de vista tributário, a manutenção da proibição do cigarro eletrônico não gera nenhuma receita e há um crescimento exponencial do consumo, o que justifica uma ação pragmática sobre o tema – disse o secretário, sem definir o que seria “ação pragmática”.

– A questão tributária não é o foco da área técnica da Anvisa – respondeu Barra Torres, dizendo discordar da avaliação de que há “crescimento exponencial do consumo”.

– Houve um crescimento exponencial nas apreensões e existe uma causalidade entre apreensão e aumento de consumo – contestou Barreirinhas.

– A questão não é tão simples – rebateu Barra Torres. – Depende da capilaridade do produto no território e existem diferenças entre o consumo nas capitais e no interior.

Barra Torres terminou dizendo que não se alongaria nessa discussão e a conversa se encerrou. Mas deixou uma estranheza no ar. Barreirinhas pedira uma reunião para dizer que chefiava um órgão sem condições de cumprir um de seus deveres e dizia isso para uma agência que não lida nem com tributos, nem com contrabando. Antes de recorrer à Anvisa, o secretário nem sequer procurou a Polícia Federal – que efetivamente atua no combate ao contrabando – para falar do assunto. (A última reunião que teve com algum representante da PF havia sido em outubro de 2023, segundo sua agenda pública.)

Ouvidos pela piauí, dois ex-secretários da Receita e um ex-servidor da área de fiscalização de tabaco avaliaram que a atuação de Barreirinhas está fora do protocolo, já que não cabe ao chefe da Receita sugerir a legalização de um produto proibido por um órgão da saúde. Procurado, o Ministério da Fazenda disse, em nota da assessoria de imprensa, que a Receita e o Ministério “jamais defenderam a legalização de cigarros eletrônicos”. A nota afirma que “o secretário da Receita Federal alerta que é preciso uma intensa campanha de conscientização da população, com redução da aceitação social do cigarro eletrônico, para que os esforços de combate ao contrabando alcancem seus objetivos. Foi esse o mote da reunião com a Anvisa, diálogo que infelizmente ainda não foi adiante”.

Antes de enviar a nota, a assessoria de imprensa entrou em contato com a piauí por telefone, explicando que as falas de Barreirinhas sobre cigarro eletrônico na reunião foram “descontextualizadas” – ainda que estejam na ata da reunião. Disse que o fato de o secretário levar aos agentes da Anvisa aspectos que interessam às empresas de tabaco não configura lobby, cuja definição é “prática de influenciar decisões de autoridades em favor de interesses de grupos ou empresas”.

Feitas as contas, a previsão de arrecadação de 2,2 bilhões de reais por ano em tributos sobre o vape não é exatamente um bom argumento, já que ignora o gasto com saúde na outra ponta. Uma estimativa citada por Élida Graziane Pinto, professora de finanças públicas da Fundação Getulio Vargas e procuradora do Ministério Público de Contas do Estado de São Paulo, calcula que a legalização aumentaria os atuais 50 bilhões de reais que são gastos diretamente com doenças relacionadas ao tabagismo no SUS, em tratamentos das doenças decorrentes do consumo do cigarro eletrônico. “A carga tributária que incide sobre a indústria tabagista é muito aquém do dano que ela causa”, disse Grazine Pinto, durante uma apresentação no Senado.

Se o Ministério da Fazenda ou órgãos como a Receita Federal têm atuação às vezes dúbia, a grande ausente no debate é a ministra da Saúde, Nísia Trindade. Ela é contra a legalização dos dispositivos eletrônicos – até pelo impacto sobre o sus – e saudou a decisão da Anvisa de manter a proibição como uma “conquista”, mas prefere não comprar briga com a Fazenda, que fez pressão para o governo não se meter na discussão do Senado. Assessores avaliam que, se quisesse, o governo conseguiria articular a derrubada do projeto. Temendo perder a cadeira, Trindade escolheu se calar. Em abril, oito ex-ministros da Saúde – do governo Fernando Henrique Cardoso ao de Bolsonaro, passando por ex-ministros de Dilma e Lula – assinaram um manifesto contra a legalização. Trindade foi convidada a subscrever o texto publicado na Folha. Ela se recusou.

O ar-condicionado do gabinete da senadora Soraya Thronicke não estava dando vazão naquela tarde quente de agosto. Ela chegou correndo do salão de beleza, com a maquiagem para a noite e o cabelo escovado, e atendeu duas integrantes do seu fã-clube – uma do Rio Grande do Norte e outra de Minas Gerais – para tirar fotos, dar autógrafos e receber presentes. Quando se sentou à mesa, sacou da bolsa um leque rosa-bebê para não borrar a maquiagem. Entre as várias lembrancinhas que usa como decoração, deixa virado para si um pequeno bordado da famosa frase de Guimarães Rosa: “O que a vida quer da gente é coragem.”

“Passa para cá, Vanda”, pediu à sua chefe de gabinete, que lhe entregou uma bolsa marrom cheia de cigarros eletrônicos. “Eu já tenho uns trezentos porque todo mundo me dá.”

Enquanto enfileirava meia dúzia de exemplares sobre a mesa, a senadora argumentou que a proibição da Anvisa era ineficaz, dada a diversidade de produtos vendidos ilegalmente no país. “Isso aqui é uma porcaria de regulamentação”, disse, abanando-se com uma mão e apontando para os dispositivos com a outra. Virou-se novamente para a chefe de gabinete: “Tem aí o [vape] do Bob Esponja?”

Ela conta que decidiu propor o projeto de lei por causa da derrota na Anvisa. “Nós conversamos antes de eu entrar com esse projeto”, diz ela. “Como eles só se furtavam, só proibiam, nós tomamos uma atitude.” Thronicke repete, um por um, os argumentos da indústria do tabaco. Diz que o setor está entregue ao contrabando, que é impossível saber a procedência das substâncias e que só a legalização pode garantir a “qualidade” do produto.

O raciocínio poderia ser aplicado para a maconha, por exemplo, cuja venda tampouco é reprimida com eficiência. Uma vez legalizada, a droga também poderia ter sua qualidade controlada. Pergunto à senadora se ela pensa em propor um projeto para regulamentar a venda de maconha. “De jeito nenhum, são coisas completamente diferentes”, afirma ela de imediato. “Isso aqui”, diz, apontando para os vapes, “é como se fosse…” A palavra não lhe vem à mente. Sua chefe de gabinete assopra: “Adesivo de nicotina.” Ela repete: “Sim, um adesivo de nicotina.” Eis aí o argumento de que o cigarro eletrônico – como se funcionasse nos moldes de um adesivo de nicotina, que têm baixo teor da substância e não levam à dependência – é um “bom” produto e pode ser uma porta de saída para fumantes de tabaco.

Thronicke diz que pesquisas “mais atualizadas” confirmam a ideia da redução de risco, mas não cita nenhuma. “Isso aqui em tese é só isso, é para ser tabaco [que é legalizado]”, minimiza a senadora, referindo-se aos vapes sobre a mesa. A chefe de gabinete a interrompe, desta vez para fazer uma correção: “Eu conversei ontem com a dra. Ingrid [refere-se à toxicologista Ingrid Dragan Taricano] e ela disse que aí dentro não tem tabaco, é nicotina, que é uma coisa diferente do tabaco.” Em seguida, afirma: “A nicotina não é cancerígena.” Eis aí, agora, o argumento falacioso de que a nicotina é uma substância “inofensiva” e pode ser a porta de saída do tabaco, que é comprovadamente cancerígeno.

Thronicke parece convencida de que está lidando com um produto menos prejudicial capaz de salvar os dependentes do cigarro comum. Seu próprio filho, de 26 anos, é usuário. Uma amiga advogada, diz ela, também usa o vape dentro da delegacia, enquanto acompanha o depoimento dos clientes. No seu gabinete, havia um consumidor. “Eu nem via que ele estava usando, sentado bem aqui, ó”, ela aponta para um lugar perto da janela. Pelos corredores do Congresso, é comum que parlamentares e assessores fiquem “vapeando” – esse verbo inventado para evitar o peso do verbo “fumar” –, apesar da proibição legal. Como o cheiro não incomoda e o vapor passa incólume pelos detectores de fumaça, perde-se o pudor que existe para acender um cigarro de tabaco. Até ministros de Estado recebem parlamentares fumando esses dispositivos.

Com sua convicção de que o vape é uma boa novidade, Thronicke acha que o Brasil, com seu veto ao cigarro eletrônico, é apenas um rincão subdesenvolvido que não entende bem a modernidade e a tecnologia. “Eu não vou me fechar nessa bolha do Brasil e ficar gritando igual uma louca, sem um dado sequer e me comparando a países subdesenvolvidos”, diz ela, subindo levemente o tom de voz. “Com licença, eu tô falando da Suécia, eu tô falando da Inglaterra, eu tô falando do Canadá, do Japão. Quer povo mais strict do que o japonês?” Recentemente, a senadora até aproveitou uma viagem ao Japão, a convite da embaixada, para escapulir da agenda oficial e encontrar-se com empresários da Japan Tobacco International. Conheceu os cigarros eletrônicos desenvolvidos pela companhia e se inteirou sobre as regras regulatórias no país asiático.

Thronicke recorreu aos países errados. O Japão é um péssimo exemplo. Em fevereiro de 2024, a Stopping Tobacco Organizations and Products, uma rede de organizações acadêmicas e de saúde pública que opera globalmente com financiamento da Bloomberg, noticiou que a Philip Morris financiou secretamente um estudo realizado por acadêmicos japoneses e contratou uma consultoria de trabalhos científicos para criar um “ambiente favorável” ao seu cigarro eletrônico, o IQOS. Deu certo. O Japão, país que nunca teve política de combate ao consumo de tabaco, tem uma das mais altas taxas de tabagismo do mundo: 22% da população é fumante.

A Inglaterra, por sua vez, está começando a recuar no cigarro eletrônico. Os médicos ingleses se juntaram recentemente para pedir ajuda ao governo para conter “a epidemia de vaping”. Em meados do ano que vem, o país vai proibir os vaporizadores descartáveis. A medida serve tanto para proteger a saúde de crianças – atraídas pelas embalagens de colorido brilhante e sabores adocicados – como para proteger o meio ambiente. Estima-se que, no ano passado, os ingleses jogaram fora quase 5 milhões de unidades por semana, produzindo montanhas de lixo. A Escócia e o País de Gales estudam medida semelhante. Em nossa conversa, a cardiologista Jaqueline Scholz, que colaborou com o programa Tobacco or health (Tabaco ou saúde) da OMS nos anos 1990, lembrou que outros países estão voltando atrás e restringindo o vape: Austrália, Nova Zelândia, França – e Canadá, outro país citado pela senadora: “Estão vendo que foi um tiro no pé.”

Pelos corredores do Congresso, Thronicke ouve de colegas parlamentares que está fazendo lobby para a indústria do tabaco. Ela responde que seu gabinete está aberto a todas as partes interessadas que tenham CNPJ no Brasil. Diz que as acusações são “ideológicas”. “E eu não gosto de ideologia, eu gosto de ciência”, acrescenta. Como gosta de ciência, lembro que ela menciona no seu projeto aquele estudo que diz que o cigarro eletrônico é “95% menos prejudicial”, apesar de a revista The Lancet, há nove anos, ter refutado a conclusão. Pergunto se ela cogita a possibilidade de estar enganada, ou de ter caído nos truques de ilusionismo das gigantes do tabaco. Thronicke fecha o leque. “A Lancet me causa uma certa preocupação. É aquela que tinha uns estudos estranhos na época da Covid, né?”, diz, cerrando os olhos.


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