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A VIRADA

Como o governo Lula mudou de rota na sua relação com Nicolás Maduro
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Quando Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores, desembarcou em Kazan, na Rússia, no final de outubro do ano passado, levava uma mensagem do presidente Lula aos líderes que se reuniriam na cidade para a cúpula do Brics. O Brasil não aceitaria a entrada da Venezuela como parceiro do bloco. Além dos cinco países que formaram o bloco – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul –, o Brics incluiu em suas fileiras, desde o começo de 2024, o Egito, o Irã, os Emirados Árabes e a Etiópia. Como a lista de interessados em participar do grupo chega a 34, definiu-se que a entrada se dará aos poucos, com os candidatos sendo aceitos inicialmente como “parceiros”, não como integrantes. Podem assistir a reuniões, mas não interferir nas decisões.

Para muitos países, estar no Brics, ainda que na condição de olheiro, significa se aliar a um bloco econômico que começa a fazer frente aos países do G7 – formado por Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, França, Alemanha, Itália e Japão –, até pouco tempo os únicos donos das regras econômicas mundiais. Por isso, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, não via a hora de ser aceito no Brics. Seria uma forma de chancelar, aos olhos do mundo, sua reeleição, ocorrida em 28 de julho passado, num pleito amplamente questionado pela comunidade internacional, inclusive pelo Brasil.

A entrada da Venezuela no Brics era defendida, por ideologia, pelo presidente russo, Vladimir Putin. Ele queria dar um revide aos Estados Unidos, que tentaram abrigar a Ucrânia na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) – o que levou a Rússia a atacar o território ucraniano, desencadeando uma guerra que já dura quase três anos e ameaça se alastrar para o resto da Europa.

Ao receber o recado de Lula, no entanto, Putin recuou. Entendeu que, para o Brasil, a Venezuela havia se transformado num grave problema de política interna. E não apenas por que o Brasil compartilha 2,2 mil km de fronteira com a Venezuela e recebeu 125 mil refugiados venezuelanos, além dos 20 mil brasileiros que vivem no território do país vizinho. A principal razão é o total desgaste nas relações entre os governos Lula e Maduro, depois da eleição de julho.

Desde que voltou à Presidência, Lula colocou parte de seu capital político na tentativa de normalizar a situação na Venezuela. Acabou desmoralizado por Maduro, que nunca aceitou apresentar os boletins das urnas, para comprovar a lisura do processo eleitoral. Como há suspeita de fraude, o Brasil, com outros países, não reconheceu até hoje a vitória dada a Maduro.

Diante disso, o Brasil encerrou seus esforços de resgatar a imagem da Venezuela – no Brasil, na América Latina e no mundo. Não é um rompimento, dado que a diplomacia brasileira não é chegada a medidas extremas, mas um sério afastamento. Maduro virou inimigo íntimo. Tanto assim que, em dezembro passado, o governo havia decidido que nem Lula, nem o embaixador Celso Amorim, assessor especial da Presidência da República para assuntos externos, nem o chanceler Mauro Vieira, estariam na posse de Maduro em 10 de janeiro.

Ao ignorar os apelos do Brasil e esconder os boletins das urnas, Maduro criou um constrangimento para o governo Lula. Em julho, Celso Amorim chegou a viajar à Venezuela para acompanhar as eleições com o presidente venezuelano e voltou ao Brasil com a promessa de que as atas eleitorais seriam apresentadas. Apesar da quebra de confiança, Maduro embarcou para a Rússia confiante que poderia virar o jogo a seu favor, seguro de que Putin ficaria do seu lado. Tanto que apareceu de surpresa em Kazan, para tentar convencer o presidente russo a forçar o Brasil a recuar.

O destino da Venezuela, porém, já estava selado. No dia 22, durante o jantar dos líderes oferecido por Putin (ao qual Lula, em razão da queda que sofrera no banheiro, não pôde comparecer), os dez parceiros já haviam decidido que, da América Latina, apenas Cuba e Bolívia seriam incluídos no bloco. “A irritação do presidente Lula com Maduro era conhecida por todos. Ninguém estava disposto a comprar uma briga com o Brasil por causa da Venezuela”, me disse um diplomata que esteve em Kazan. “Além disso, a regra do Brics é o consenso. Guardadas as proporções, seria quase a mesma coisa que colocar a Ucrânia no Brics sem permissão da Rússia.”

Até pouco tempo, Lula e o PT eram grandes apoiadores da Venezuela – uma relação que começou com a posse de Hugo Chávez, em 1999, antes mesmo de o petista chegar à Presidência pela primeira vez. Tanto que a direita e a extrema direita brasileiras nunca deixaram de acusar Lula e o PT de apoiar uma ditadura que, além de suprimir as liberdades individuais, levara o país à catástrofe econômica. Na campanha de 2022, Jair Bolsonaro matraqueou sem parar que o Brasil iria se tornar uma imensa Venezuela, caso a esquerda voltasse à Presidência.

As suspeitas de fraude eleitoral encerraram a condescendência petista. Mesmo que a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, e parte da legenda ainda insistam em apoiar Maduro (o partido chegou a assinar uma resolução reconhecendo a vitória dele), a Venezuela se tornou um embaraço para Lula. “O nosso veto à entrada da Venezuela no Brics foi o troco do Brasil ao comportamento inaceitável de Maduro nas eleições”, disse um embaixador brasileiro, que pediu para não ser identificado por não ser a voz oficial do Itamaraty.

Maduro sentiu o golpe e partiu para o ataque. Primeiro, esbravejou contra os diplomatas brasileiros presentes no encontro em Kazan, acusando o Itamaraty de estar vinculado ao Departamento de Estado americano. Depois, atacou o embaixador Celso Amorim, dizendo que ele se comportava “como agente do imperialismo americano, dedicando-se, de forma impertinente, a emitir julgamentos de valor sobre processos que só pertencem aos venezuelanos”. Uma grosseria imperdoável, dado que, até pouco tempo antes, Amorim nunca deixara de defender Chávez e Maduro. Finalmente, num gesto interpretado como bravata pelo governo brasileiro, chamou de volta o embaixador venezuelano, mas, depois, voltou atrás.

A Venezuela já havia amargado o afastamento do Brasil. Em seu governo, Bolsonaro vetou qualquer contato com o vizinho e retirou a embaixada e o consulado de Caracas, deixando desassistidos os brasileiros que moram no país. Também proibiu a vinda de Maduro para sua posse, e foi o primeiro a se juntar ao governo americano na desastrada decisão de reconhecer o presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, como presidente da Venezuela, tal como proclamado pela oposição. O movimento em favor de Guaidó foi um fiasco, e Maduro continuou no cargo (o mandato presidencial é de seis anos no país).

Ao tomar posse em 2023, Lula investiu na normalização das relações. O Brasil precisava atender às necessidades não só dos brasileiros que moram no país vizinho, como dos venezuelanos que se refugiaram aqui. Além disso, havia questões complexas, como o tráfico de drogas para o Brasil, o contrabando na fronteira, o garimpo ilegal, a prostituição, a guerrilha e a dramática situação dos yanomamis venezuelanos, que, para fugirem da morte por desnutrição podem se transferir para cá. Mais recentemente, o Brasil teve também que intervir na disputa por uma parte do território da Guiana, que passou a ser reclamado pela Venezuela.

Para reatar os laços rompidos durante o governo anterior, Lula exigiu o compromisso de Maduro com a democracia. “Afinal, ele não podia acusar Bolsonaro e seus seguidores de defenderem a ditadura, e ignorar o que acontecia na Venezuela”, me disse o senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo no Congresso. “Não podemos ter um ditador de estimação. Se condenamos a tentativa de golpe no Brasil, temos que condenar o golpe na Venezuela.” O senador se explicou: “A Venezuela vive uma situação dramática, porque tem um governo ditatorial e, para completar, um grande grupo de oposição fascista.”

Pedi a Randolfe Rodrigues que avaliasse o comportamento de parte da esquerda brasileira, inclusive de integrantes do PT que passaram a repetir que a decisão do Brasil de não aceitar a Venezuela no Brics era uma concessão ao governo americano. “Eu acho anacrônico que parte da esquerda pense dessa forma”, disse. “Quer dizer que golpista de esquerda é melhor que golpista fascista? O autoritarismo pode ser de esquerda ou de direita. Qualquer regime que não respeita a democracia e os direitos humanos deve ser condenado.”

Em 2023, Lula recebeu Maduro no Brasil e, embora a situação política e econômica do país vizinho fosse a pior possível, fez elogios ao presidente venezuelano, a fim de deixar claro que a Venezuela não seria um pária no continente. Por isso, Lula recebeu uma saraivada de críticas, que não consideraram que a reaproximação com a Venezuela se devia, em grande parte, à situação dos brasileiros que vivem lá.

A reaproximação, porém, demandava uma contrapartida de Maduro – eleições limpas e transparentes, por exemplo. Lula passou a se empenhar pessoalmente no processo, a ponto de restabelecer o diálogo de Maduro com a oposição, e deixou claro que o Brasil seria o garantidor da democratização do país.

A epopeia de Lula continuou com sua participação ativa no Acordo de Barbados, que reuniu, com a mediação da Noruega, a oposição e o governo venezuelanos, em outubro de 2023. No encontro, Maduro se comprometeu a fazer eleições com a presença de observadores internacionais. O Brasil seria um deles, além da ONU, da Organização dos Estados Americanos (OEA) e do Carter Center, uma organização americana criada pelo ex-presidente Jimmy Carter para colaborar na resolução de conflitos políticos.

Para alívio de Lula e da comunidade internacional, Maduro cumpriu a primeira parte do acordo. Assinou o Acordo de Barbados, marcando as eleições para o dia 28 de julho (data do nascimento de Hugo Chávez) do ano passado. Lula ficou satisfeito. Estava provando que, com base em negociações, era possível modificar a situação no país vizinho. Se tudo desse certo, essa mudança seria um feito para o seu governo. E um alívio para o continente, já que as brigas da Venezuela com os Estados Unidos e sua relação com a Rússia ameaçavam trazer a disputa entre russos e americanos para a América Latina.

À época, o Brasil soltou uma extensa nota congratulando o governo Maduro e os líderes da oposição venezuelanos pela assinatura do acordo, que visava a “promoção dos direitos políticos e garantias eleitorais e dos interesses vitais da nação”. A nota continuava: “Na esteira dos entendimentos consignados nos Acordos de Barbados, o governo brasileiro saúda o anúncio da libertação de oposicionistas presos pela Venezuela, bem como o levantamento parcial, pelos Estados Unidos, de sanções impostas àquele país.”

Com isso, Lula calava as críticas de que seu governo e a esquerda brasileira defendiam ditaduras. Também demonstrava ao mundo a eficiência da diplomacia nacional, pois, ainda que a Noruega estivesse conduzindo a mediação, era sabido que, se o Brasil, o país mais influente da região, não se empenhasse no processo, Maduro dificilmente se sentaria à mesa para discutir uma pauta democrática.

Pouco a pouco, tudo começou a desandar.

O primeiro sinal de que as coisas não estavam caminhando como esperado foi a declaração de Maduro de que, se ele não vencesse, haveria um banho de sangue no país. Lula reagiu, condenando a fala. Em seguida, Maduro proibiu a candidata da oposição, María Corina Machado, de concorrer, sem qualquer explicação. Ela protestou, e Lula cometeu uma impropriedade. Disse que ele também tinha sido impedido de concorrer, ignorando as enormes diferenças de contexto. Não satisfeito, Maduro impediu que María Corina Machado colocasse em seu lugar uma candidata com o mesmo nome que ela. Por fim, autorizou a candidatura de Edmundo González, embaixador aposentado, politicamente inexpressivo, que Maduro achava que não seria páreo para ele.

Nas vésperas da eleição, Lula despachou Celso Amorim para acompanhar todo o processo. E a confusão começou já no dia da apuração, com o atraso na divulgação do resultado. O governo venezuelano alegou ter sofrido um ataque de hacker no sistema que contabilizava os votos. A oposição protestou. Em seguida, Maduro se recusou a apresentar as atas com o total de votos por seções eleitorais. As atas foram recolhidas pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE) – cujo presidente, Elvis Amoroso, é aliado do governo – que ao final não deu satisfação sobre o resultado nem para os venezuelanos nem para os observadores internacionais que lá estavam.

O consultor político venezuelano Gustavo Silva, de 38 anos, trabalhava na Venezuela até dezembro de 2023 e agora vive nos Estados Unidos. Nascido em Caracas, filho de imigrantes portugueses, ele se uniu durante a campanha eleitoral a um grupo de opositores do regime para ajudar a fiscalizar as seções eleitorais. Criou-se a chamada Red 600K, que começou com 600 mil apoiadores e, às vésperas da eleição, já reunia 1 milhão de pessoas, entre políticos, líderes sindicais, trabalhadores, acadêmicos, estudantes, donas de casa e todo tipo de insatisfeitos com Maduro.

Silva me contou, por telefone, que na Venezuela é possível a permanência de três fiscais por partido em cada seção. De acordo com a lei eleitoral, esses fiscais têm direito a ficar com uma cópia das atas contendo o resultado da seção de votos onde atuaram, assinadas pelos fiscais de todos os partidos e pelo representante do Conselho Nacional Eleitoral. São 30 mil mesas receptoras de votos. Assim que a votação foi encerrada, os fiscais da Red 600K tomaram posse de suas cópias.

No final da tarde de 28 de julho, o conselho informou que não conseguia contabilizar os resultados porque um hacker invadira o sistema. Mas a turma da Red 600K já estava de posse de 85% das atas e, de acordo com elas, Edmundo González, da oposição, obtivera 67% dos votos. “Mesmo sem os resultados de 15% das atas, não havia mais chances de Maduro ganhar”, me disse Silva. O conselho, porém, ignorou os números da oposição e anunciou a vitória de Maduro, com 51% dos votos.

Assim que o resultado foi anunciado, a população e os políticos de oposição tomaram as ruas em protesto. Seguiu-se uma brutal repressão aos manifestantes. Cerca de 2 mil pessoas foram presas, inclusive crianças e pessoas com deficiência. A polícia iniciou uma caçada aos políticos opositores, entre eles o próprio González e a líder da oposição, María Corina Machado. A comunidade internacional e o Brasil protestaram.

Com a ameaça de prisão, González se refugiou na Embaixada da Holanda no fim de agosto. Corina Machado se escondeu no interior da Venezuela, enquanto seis assessores dela buscaram abrigo na Embaixada da Argentina. O que veio a seguir foi uma sucessão de absurdos, que deixou o Brasil, a Colômbia e o México – os países empenhados em encontrar um modo de garantir os direitos de González, caso se confirmasse sua vitória – em uma situação constrangedora.

José Luis Zapatero foi primeiro-ministro da Espanha por dois mandatos, entre 2004 e 2011, sempre pelo Partido Socialista Operário Espanhol. No cargo, tratou de cultivar boas relações com o governo venezuelano, ainda na época de Chavez, garantindo assim que os interesses da Repsol, a petroleira espanhola, não sofresse qualquer abalo em seus negócios na Venezuela. Atualmente, Zapatero é consultor na área de energia e, até por força de seu trabalho, continua mantendo boas relações com potências do ramo – como a Venezuela e a Arábia Saudita.

Quando a crise eleitoral fervia em Caracas, os três países latino-americanos – o Brasil, a Colômbia e o México – vinham trabalhando na estratégia de pressionar Maduro a exibir as atas eleitorais, ou então admitir a derrota. Mas então Zapatero entrou em cena e arruinou o jogo. Fazendo uso de suas boas relações com Maduro, Zapatero conseguiu convencê-lo a permitir que González, o candidato da oposição, tomasse um avião para a Espanha em busca de asilo. Na Embaixada da Espanha em Caracas, as negociações corriam com tom amigável e copos de uísque entre o embaixador, as autoridades venezuelanas e o próprio González. Só que, na Embaixada da Argentina, a situação era dramática.

Como Maduro expulsara os diplomatas argentinos do país – bem como os do Chile, da Costa Rica, do Panamá, do Peru, da República Dominicana e do Uruguai, depois de seus governos contestarem o resultado das eleições –, o presidente Javier Milei pediu ao Brasil que assumisse os interesses da sua representação na Venezuela e garantisse a segurança dos seis assessores de María Corina Machado, refugiados na Embaixada da Argentina. O Brasil aceitou a incumbência, e o prédio recebeu a bandeira brasileira.

No dia 8 de setembro, com a situação aparentemente controlada, o chanceler Mauro Vieira voou para Omã a fim de participar de uma reunião sobre investimentos em energia e agricultura. Assim que o avião pousou, o ministro e os demais diplomatas da comitiva foram bombardeados com mensagens e telefonemas do corpo diplomático brasileiro na Venezuela. As notícias eram as piores possíveis. O prédio da embaixada argentina, sob os cuidados do Brasil, estava cercado, e o governo Maduro ameaçava invadir o local e prender os assessores de Corina Machado. Começou uma dramática negociação, que culminou com um recado duro do Brasil. A embaixada argentina era, agora, território brasileiro, e uma invasão seria considerada um ataque direto ao Brasil.

Então, algo estranho aconteceu. Enquanto o governo brasileiro negociava uma solução para a crise, chegou a notícia de que González, naquele mesmo dia 8, recebera asilo espanhol e desembarcara em Madri. Ou seja, enquanto a comunidade internacional se preocupava com o destino de González, a Espanha, sub-repticiamente, negociava com Maduro a retirada do candidato do país, atropelando as negociações. A trama já estava em andamento, dado que, dias antes, um avião do governo espanhol estacionara na República Dominicana, aguardando que González concordasse em deixar seu país.

“A intromissão da Espanha foi imperdoável”, me disse um diplomata brasileiro. “Com a saída de González, todo o esforço que vínhamos fazendo para garantir que Maduro mostrasse as atas, através da pressão da comunidade internacional, foram por água abaixo. Como poderíamos negociar com o governo venezuelano a garantia de sua posse, caso fosse o vencedor, se o candidato abandonara o país?”

A suspeita do governo brasileiro é que a confusão às portas da embaixada argentina foi o recurso do governo venezuelano para amedrontar González. Ou seja, se os seis assessores de Corina Machado estavam sendo ameaçados, ele também corria risco, caso continuasse no país. Antes de rumar para o exílio e quando ainda estava na embaixada espanhola, González reconheceu a vitória de Maduro. Ao desembarcar na Espanha, disse que fora pressionado a fazer tal reconhecimento. Para a oposição venezuelana, a atitude do candidato enfraqueceu a resistência.

A situação dos venezuelanos que resistiram é, hoje, a pior possível. Na violenta prisão El Helicoide – um prédio monstruoso construído nos anos 1950 para ser um shopping center de luxo e que foi transformado em centro de tortura –, os detidos nas manifestações de julho estão incomunicáveis. Alguns presos morreram por falta de assistência, como foi o caso de um dos fiscais da Red 600K. Diabético, ele foi levado às pressas para um hospital, depois que suas pernas gangrenaram na prisão por falta de medicamentos. Morreu durante a cirurgia para amputação das pernas.

Um informe da Missão Internacional Independente de Apuração de Fatos sobre a República Bolivariana da Venezuela, da ONU, divulgado no dia 15 de outubro passado, com 161 páginas que examinam o período entre 1º de setembro de 2023 e 31 de agosto de 2024, acusa as forças de segurança da Venezuela e grupos civis armados pró-governo de assassinatos, desaparecimentos, tortura e violência sexual e de gênero contra opositores do regime. O relatório aponta que há motivos razoáveis para crer que o governo de Maduro cometeu “crimes contra a humanidade antes, durante e depois das eleições de 28 de julho”.

A Unicef, em outro relatório, aponta que, de 29 de julho a 7 de agosto do ano passado, foram presas na Venezuela mais de 2 mil pessoas – 105 delas com idades entre 13 e 17 anos. Afirma que ao menos dezesseis presos têm alguma incapacidade visual ou auditiva e estão impedidos de ter contato com os familiares e advogados. O jornal online Efecto Cocuyo divulgou que uma jovem de 16 anos, Mariana González, presa sob a acusação de terrorismo, permaneceu isolada na prisão e ameaçou se matar. Acabou sendo solta. O governo brasileiro tem tentado fazer gestões para a soltura dos presos políticos, mas, até agora, não obteve sucesso. Em meados de dezembro, Maduro afirmou ter soltado cerca de cem deles. Também busca uma solução para os assessores de Corina Machado que, até dezembro passado, continuavam refugiados na Embaixada da Argentina.

O ex-embaixador venezuelano Milos Alcalay – que serviu no Brasil durante o governo Fernando Henrique Cardoso e vive hoje em Caracas – elogia os esforços do governo Lula e da diplomacia brasileira, mas não acredita que Maduro ceda às pressões. “A diplomacia brasileira sempre atuou com muita cautela e firmeza. O governo Lula tentou negociar com Maduro porque a Venezuela tornou-se uma dor de cabeça para o continente, por causa do envolvimento de integrantes do governo com tráfico de drogas, terrorismo, guerrilha, crime organizado, e também por causa da questão dos refugiados, que estão saindo em massa para os países vizinhos”, me disse Alcalay. “É claro que tudo isso é uma preocupação, e o Brasil está em uma estratégia comum com outros países da região para lidar com o problema. Agora, achar que Maduro irá ceder é uma ilusão. Maduro não cumpre pactos.” O ex-embaixador especula as razões pelas quais Maduro mantém os assessores de Corina Machado retidos na embaixada: “O que Maduro está tentando fazer? Humilhar o Brasil? Dizer que Pedro Sánchez, o primeiro-ministro espanhol, tem mais peso que Lula?”

Alcalay acredita que, talvez, a solução seja o Brasil e a Colômbia reconhecerem a vitória de González, como já fizeram os Estados Unidos, Equador, Guatemala, Panamá, Peru, Holanda, Itália e França. Mas o governo brasileiro descarta essa possibilidade. De acordo com diplomatas ouvidos pela piauí, o governo Lula não vai cometer o mesmo erro do governo Bolsonaro de reconhecer a vitória de Juan Guaidó, o que resultou em desmoralização. À vista disso, o embaixador Celso Amorim não recebeu o consultor político Gustavo Silva em seu gabinete, em dezembro passado, quando o venezuelano dizia ter informações sobre as atas. “O Brasil não vai aceitar nada que não seja oficial. Portanto, continuará cobrando de Maduro que entregue os boletins. Sem isso, não reconheceremos o seu governo”, me disse um diplomata lotado no Planalto. Até agora, não há solução à vista.

Depois da vitória de Donald Trump, em novembro, Maduro baixou o tom em relação ao Brasil. “Maduro sabe que a situação vai complicar muito para ele no continente, principalmente com Marco Rubio como secretário de Estado. Rubio é um ferrenho defensor da elite cubana e venezuelana desterrada em Miami”, segundo um funcionário de carreira do Itamaraty. “Talvez então, ele precise pedir socorro ao Brasil, dado que ficará totalmente isolado no continente.”

O ex-embaixador Milos Alcalay gosta de citar uma conhecida frase do ex-presidente americano Richard Nixon para o ditador brasileiro Emílio Garrastazu Médici, em 1971: “Para onde for o Brasil, vai a América Latina.” É possível que por essa razão, tendo o apoio quase unânime da esquerda brasileira, com o pt à frente, grande parte da esquerda latino-americana também tenha se alinhado à Venezuela por tanto tempo. Mas muita coisa mudou de lá para cá.

Hugo Chávez, um coronel desprezado pela alta patente do Exército venezuelano e pela elite política do país, elegeu-se em 1998 sob a bandeira de reduzir a pobreza e a desigualdade, pautas tão caras aos setores progressistas. Como consequência, a Venezuela chavista encantou parte da esquerda e exerceu grande impacto no continente com sua revolução bolivariana, que propunha a fundação de um socialismo do século XXI. Seu governo durou catorze anos, de 1999 a 2013, distribuiu benefícios sociais e subsídios a rodo, angariando apoio popular, mas acabou empurrando a economia para o colapso e abrindo a porta da repressão política aos opositores, com apoio dos militares.

Em março de 2013, com a morte de Chávez, Nicolás Maduro, um ex-motorista de ônibus que se transformara em líder sindical e ocupava a vice-presidência, já estava indicado como sucessor. Venceu a eleição no mês seguinte e assumiu um país em grande dificuldade, transformando-o no caos atual – falta comida, emprego, energia, segurança, remédios. A corrupção é galopante, a inflação está nas alturas e a moeda local, o bolívar, esfacelou-se. A pobreza e a repressão política provocaram um êxodo gigantesco: cerca de 8 milhões de venezuelanos, quase 28% da população, vivem fora do país.

Nem mesmo a esquerda venezuelana teve ar para respirar. E faz uma clara distinção entre o chavismo e o madurismo. O Partido Comunista da Venezuela está sob intervenção judicial. Outros grupos históricos de esquerda, como o Bandeira Vermelha e o Maré Vermelha, foram proscritos. O governo reconhece apenas a sua legenda, o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), como representante da esquerda. Todas as outras agremiações nessa linha foram obrigadas a se fundir com o partido de Maduro. Os que se recusaram, foram perseguidos.

Como me disse um diplomata brasileiro, hoje está muito claro para o governo Lula que a Venezuela se transformou numa ditadura e que Maduro não está disposto a ceder o poder. O histórico amistoso com o governante venezuelano fez com que Lula tentasse de tudo para resgatar o país. Há mesmo um componente bastante pessoal na história, pois Maduro prestou grande solidariedade a Lula quando ele esteve preso em Curitiba, entre 2018 e 2019. Mas o presidente brasileiro entendeu que, com Maduro passando dos limites, era hora de dar um basta.

A decisão de cortar laços com o vizinho foi respaldada pela maioria do PT e por grande parte da esquerda brasileira. O deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), que já foi titular da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, está convencido de que a postura do Brasil de não reconhecer a vitória de Maduro enquanto ele não entregar as atas é correta. “Lula pode ter apoiado a Venezuela em determinados momentos, mas ele é, acima de tudo, um democrata, e se orienta por esses padrões. Portanto, não tem como apoiar o comportamento do presidente venezuelano. Do contrário, quem vai pagar a conta do Maduro seremos nós”, disse. Chinaglia fez um adendo curioso: “Sabe quem estava no palanque de Maduro apoiando o ditador? Não era a esquerda brasileira, e sim os bispos da Igreja Universal. Não porque estejam preocupados com democracia ou ditadura, mas sim com arrebatar fiéis e canais de tevê na Venezuela.”

Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, que faz análises de consumo, comportamento, política e religião, acredita que Lula melhorou sua imagem ao se distanciar de Maduro, mas está convencido de que a mudança de comportamento não decorre de uma busca de popularidade junto à opinião pública. “Lula tentou usar o lastro de confiança que Maduro tinha nele para construir saídas diplomáticas possíveis na Venezuela. Acontece que Maduro não cumpriu nada do que prometeu e, portanto, não fazia mais sentido ficar com o ônus de apoiá-lo”, me disse ele, por telefone, no fim de novembro. “Só os dogmáticos da esquerda ainda mantêm solidariedade ao presidente venezuelano. E Lula entendeu que, para honrar o seu papel na história, não pode manter esse dogmatismo. Entendeu isso a fórceps, mas entendeu.”


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Repórter da piauí, é autora de O Ovo da Serpente – Nova Direita e Bolsonarismo: Seus Bastidores, Personagens e a Chegada ao Poder (Companhia das Letras)