questões psicobotafoguenses
João Moreira Salles Jan 2025 17h09
48 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
Mesmo quem, como eu, nunca leu Anna Karenina sabe como o livro começa: “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira.” Desde 30 de novembro de 2024, tenho pensado muito nisso. O que a frase sugere – que a felicidade é mais banal do que a infelicidade, que a alegria é sempre igual a si própria – não me parece certo. Quando, ao cair da tarde portenha daquele último dia de novembro, olhei à minha volta e vi pessoas que choravam, que riam, rezavam, dançavam, cantavam, se beijavam ou que, aturdidas, ficavam em silêncio; e mais tarde, ao saber dos que passaram mal, dos que desmaiaram e voltaram a si sem acreditar no que acontecia – Botafogo, campeão da Libertadores da América –, naquele momento tive a certeza de que a alegria não é uma coisa só, mas muitas, talvez tantas quantos forem os botafoguenses neste mundo.
Para entender como chegamos àquela explosão em Buenos Aires, é preciso saber de onde viemos. O botafoguense – não todos, porém muitos – era um tipo já meio desistido de si. De si, frise-se, não do clube, que a torcida nunca faltou ao Botafogo, nem sequer nos tempos espinhosos. Achávamos que as conquistas viriam, mas não para nós. Era coisa para os outros, botafoguenses do futuro.
As décadas precedentes avalizavam a descrença. O jornalista e youtuber botafoguense Pedro Dep lembrou-se recentemente de como era a nossa vida não fazia tanto tempo assim. Depois de uma derrota por 6 a 0 para o Vasco no Nilton Santos, a nossa casa, enfrentamos o Tigres, de Duque de Caxias. Ganhamos, embora tenhamos ouvido a Marcha fúnebre tocar durante longos minutos da partida – um torcedor havia conseguido, sabe-se lá como, contrabandear uma caixa de som para dentro do estádio. Muita gente voltou para casa com aquilo na cabeça: TUM… ta-ta-TUM… ta-ta-TUM… TUM TUM, TUM TUM…
Era o ano de 2010 e já tínhamos caído uma vez para a Série B. Ao longo dos anos seguintes, cairíamos outras duas. Nosso último título de expressão, um campeonato brasileiro conquistado em 1995, era contemporâneo da criação do Yahoo!, do lançamento do Windows 95 e do navegador Explorer, da posse de fhc 1, do assassinato de Yitzhak Rabin, de Forrest Gump, de Seinfeld, do Fim da história e do triunfo da democracia ao redor do mundo.
No final de 2021, o americano John Textor entrou na nossa vida. Interessado em montar um grupo multinacional de clubes, viu no Brasil uma oportunidade de lustrar o seu currículo de empresário do futebol. Um sucesso aqui chamaria a atenção de investidores para a sua holding. Com o Botafogo viria o prestígio de um clube que, ao lado do Santos, concebeu o modo brasileiro de jogar o jogo. Nenhum clube cedeu um número tão grande de jogadores para a Seleção Brasileira em Copas do Mundo, nenhum fez mais gols vestindo a camisa do país. Tanta história custava pouco. Afundado em dívidas, o Botafogo podia ser comprado por uma bagatela.
Se bem gerido, o time teria vantagens sobre parte de seus rivais, entregues que estão ao amadorismo local. Funcionaria também como um laboratório para testar ideias inovadoras, técnicos e jogadores, experimentos cujo preço é menor aqui do que em mercados mais maduros. A dívida teria que ser paga, mas para isso existia uma nova lei que racionalizava a maneira como os passivos seriam quitados, transformando agremiações falidas em ativos econômicos viáveis – as sociedades anônimas de futebol, ou SAF. Textor entendeu o lance, fechou o negócio, e em março de 2022 era o dono do Botafogo.
Melhoramos de vida. Ao longo do ano, chegaram jogadores que não conhecíamos e aos quais demos um voto de confiança. Chegou também um técnico português, Luís Castro. Terminamos o Campeonato Brasileiro de 2022 em 11º lugar, um meio de tabela que pareceria medíocre para outros clubes de expressão, mas que para nós, recém-saídos do desamparo, era um endereço acolhedor, como uma cama quente de abrigo depois de anos ao relento. Não era lugar para ficar, mas por enquanto estava bom.
Veio então 2023, o ano da nossa glória e da nossa infâmia. Comandado por Castro, aquele grupo de jogadores sem pompa e circunstância foi vencendo, vencendo e vencendo, e nós, os torcedores, fomos subindo, subindo e subindo. À medida que ofuscávamos elencos bem mais badalados, íamos experimentando algo novo. Para os que não viveram os anos de ouro do Botafogo, a época de Garrincha, Didi e Nilton Santos, ou a década de 1960 de Gérson, Jairzinho e Paulo Cézar, e mesmo para os muito jovens, que não comemoraram o título de 1995, era a estranha sensação de vertigem de quem agora via o mundo a partir das nuvens.
O deslumbre durou seis meses. Muita tinta ainda será derramada na tentativa de explicar as razões da nossa derrocada. No meio do ano, Luís Castro nos deixou para buscar a sua independência financeira na Arábia Saudita; o Botafogo testou quatro treinadores, e três deles – os últimos três – não encaixaram; o nosso melhor jogador se contundiu, passou alguns meses fora e não voltou igual; sofremos uma virada desmoralizante do Palmeiras em casa, quando, líderes da competição, vencíamos por 3 a 0. São explicações factuais. Existe outra mais dolorosa: o time se acovardou. A um passo da glória, não conseguiu sustentar a tensão e ruiu.
E nós? Nós ruímos junto. Despencamos de uma altura que começávamos a conhecer e nos arrebentamos no chão.
Em dezembro de 2023, o Wall Street Journal descreveu o nosso naufrágio como “um dos colapsos mais dramáticos que o futebol testemunhou desde que as leis do jogo foram elaboradas pela primeira vez em 1863. Com 14 pontos de vantagem na tabela [sobre o Palmeiras, time que viria a ser campeão], o clube carioca tinha apenas 11 jogos para disputar. Não venceu nenhum deles e terminou em quinto lugar”.
Como se recuperar disso?
É isso o Botafogo, um time que se acostumou a perder e é hoje incapaz de ganhar. No início de 2024, era essa a tese dos adversários, de parte não desprezível da imprensa e de muitos torcedores. A exceção – “um dos colapsos mais dramáticos que o futebol testemunhou” – virava regra.
Em abril, um novo técnico chegou de Portugal. Chamava-se Artur Jorge, tinha 52 anos e fizera quase toda a sua carreira no Braga, um time mediano do futebol luso. Por aqui pouquíssimos comentaristas o conheciam. Para os torcedores, então, o homem era um mistério.
Artur Jorge pousou no Galeão e seguiu para o estádio Nilton Santos, onde o Botafogo estrearia na fase de grupos da Taça Libertadores da América, a mais importante competição do continente. De um camarote, viu pela primeira vez o grupo de atletas que comandaria. O adversário era o Junior Barranquilla, da Colômbia, time do coração de Shakira. Shakira dormiu feliz naquela noite. Diante de 40 mil botafoguenses, o Barranquilla ganhou do Botafogo por 3 a 1. Um baile.
Dois dias depois, Artur Jorge teve o primeiro contato com o elenco, que não era exatamente o mesmo de 2023. A SAF havia feito novas contratações, algumas delas vistosas, como a do atacante Luiz Henrique, outras mais discretas, como a do maravilhoso Savarino, mas era evidente que o trauma do ano anterior pairava tóxico no ar. Cada derrota que sofríamos reabria a ferida.
“Nós vamos nos classificar, pode acreditar”, garantiu o técnico recém-chegado. Os jogadores logo perceberam, como nós, torcedores, perceberíamos nos meses subsequentes, que Artur Jorge era um homem de ideias claras e pouca hesitação. Sabia, serenamente, por onde ir. Seu maior feito naquele início de trabalho foi induzir os jogadores a acreditarem no caminho.
Não era um caminho óbvio. O compromisso seguinte na Libertadores, estreia de Artur Jorge no comando da equipe, aconteceria na altitude de Quito. Ele jamais dirigira um time em tais condições. A prudência mandava armar um time fechado, capaz de segurar um empate e evitar uma segunda derrota que nos deixaria em situação delicadíssima na competição.
Entre a prudência e suas ideias, Artur Jorge escolheu as ideias. Escalou o Botafogo com quatro atacantes, fiel a sua convicção de que um time que prefere o risco à cautela é uma equipe melhor. Perdeu por 1 a 0 e mandou o Botafogo para a lanterna do grupo.
Perderia também a próxima partida, contra o Cruzeiro na abertura do Campeonato Brasileiro. Vieram as seis partidas seguintes e o Botafogo venceu todas. Foi por essa época que a palavra “desfrutar” começou a aparecer na boca dos jogadores. Um jogo ofensivo e veloz é um jogo alegre. O que Artur Jorge ensinava era que essa alegria devia ser vivida. Algo desse sentimento tinha sido visto no Botafogo de Luís Castro durante os poucos meses de deslumbramento do ano anterior. Às vezes, eu chegava a ter a impressão de que os nossos caras jogavam sorrindo. Castro se foi, veio o tombo e, com ele, seu manto de tristeza. Era também contra isso que Artur Jorge tinha que lutar. As paixões tristes que cercavam o Botafogo – a carência de títulos, o fardo do desastre, o medo da repetição – equivaliam a profecias que se autocumpriam. O antídoto, insistia Artur Jorge, era a felicidade.
Nos meses que se seguiram, de quase desenganado o Botafogo iria se classificar antecipadamente para a fase eliminatória da Libertadores. No Brasileiro, disputaria as primeiras posições da tabela com Palmeiras, Flamengo e Fortaleza. Fazendo a sua parte, John Textor anunciava novos reforços, entre os quais o extraordinário meia argentino Thiago Almada, contratação mais cara do futebol brasileiro. Aqui e ali, um ou outro botafoguense mais esperançoso tateava a calçada, firmava o pé e ensaiava se levantar do chão.
Eu continuava de cócoras. Apesar de algumas vitórias convincentes no campeonato, como aquela contra o Flamengo (2 a 0 no Maracanã, casa deles), era cedo. O ano anterior havia me ensinado que o acúmulo prematuro de pontos podia ser o prelúdio da decepção. No mínimo, nos faltava um teste: nós contra um grande adversário. É fato que em Lima tínhamos vencido o Universitario pela Libertadores diante de 55 mil torcedores adversários. Era uma demonstração de força, mas o Universitario não fazia parte dos nossos pesadelos. O Palmeiras, sim.
O primeiro grande teste do Botafogo de 2024 ocorreu em 17 de julho, 17ª rodada do Campeonato Brasileiro. Nesse dia, enfrentamos o bicampeão nacional, o time a quem entregamos de bandeja o título em 2023. Seria o nosso reencontro desde o humilhante 4 a 3, e no mesmíssimo lugar: a nossa casa. Como se não bastasse, a partida valeria a liderança do campeonato. Além de somarem idênticos 33 pontos, os dois times se igualavam nos dois primeiros critérios de desempate. O Botafogo entrava em campo como líder apenas por ter marcado dois gols a mais do que o Palmeiras.
Na véspera, troquei mensagens com um amigo palmeirense que conhecera epistolarmente meses antes, quando ele me contatara para comentar o artigo sobre o triste ano de 2023 que eu tinha publicado aqui (O que eu tenho a ver com tudo isso, piauí_210, março de 2024). Eu escrevi para ele:
Quem diria que o reencontro entre os nossos times aconteceria desse modo? Da perspectiva dos contadores, estamos iguais em tudo (terceiro critério de desempate é quase metafísica). No que mais importa, contudo, existe uma diferença: falo do estado de espírito com que sairemos de casa pra ir ao estádio. Amanhã não será muito diferente do que acontece numa cobrança de pênalti, em que a obrigação é toda do batedor, nunca do goleiro. Faz duas semanas, na Eurocopa, a gente viu o Cristiano Ronaldo chorar depois de não converter um pênalti. Cristiano Ronaldo somos nós, botafoguenses, uma gente precisando reinventar uma confiança perdida naquela fatídica (para nós) virada. Sei que isso é uma bobagem perigosa: amanhã é só mais uma partida das 38 que precisamos jogar. Não decide nada, não consagra nem destrói. Mas as coisas são como são e enquanto vocês irão assobiando para o Nilton Santos, nós lotaremos o estádio tão em dúvida sobre nós mesmos quanto cr7, à beira dos 40 anos, sobre si. Seria hipocrisia desejar aqui que vença o melhor, mas quero, sinceramente, que a partida seja bonita, disputada e capaz de nos orgulhar.
No vestiário, minutos antes de entrar em campo, Artur Jorge não se esquivou de falar do fantasma que rondava o estádio. Ele, que nada tinha a ver com a virada, atacou o problema de frente: “Eu sei que esse jogo pode ser bem mais do que um jogo para muitos de vós. Eu sei que há mágoa, eu sei que há sofrimento, eu sei aquilo que há enquanto história. Mas há uma coisa que precisamos ter certeza aqui dentro: o passado não se altera. Aquilo que nós hoje controlamos é fazer o futuro melhor. É ganhar o jogo. É ir em busca daquilo que nós queremos para termos um futuro sorridente. E somos capazes. Acreditem: somos capazes.”
A partida foi bonita, disputada e capaz de orgulhar botafoguenses e palmeirenses. Soubemos converter uma das tantas oportunidades de gol criadas de lado a lado, eles não. Marlon Freitas, um dos grandes personagens de 2024, lançou Luiz Henrique, um dos imensos personagens de 2024, que fez das suas: deixou seu marcador para trás e, da linha de fundo, cruzou para o miolo da área, onde Tiquinho, o imenso personagem de 2023, pôs a bola para dentro com um toque preciso, minimalista quase.
Era exatamente o que Tiquinho não tinha conseguido fazer na inclemente partida da virada, na qual, já para o fim do segundo tempo, quando o placar marcava 3 a 1 a nosso favor, teve a chance de converter um pênalti que sacramentaria a nossa vitória e provavelmente selaria o título. Nosso herói chutou mal, o goleiro pegou, o Palmeiras fez três gols em rápida sucessão e, daquele 3 a 4 em diante, ele, nós, nunca mais fomos os mesmos. Agora Tiquinho voltava, nos carregando junto com ele.
Terminada a partida de 17 de julho de 2024, o primeiro teste dos quatro a que nos submeteríamos contra o Palmeiras até o fim da temporada, pela primeira vez desde que o chão e eu nos encontramos senti que era possível ficar de pé. O tal futuro sorridente deixava de ser retórica de vestiário e passava a representar uma possibilidade real.
Ao longo do semestre de ouro de 2023, torcedores se desdobravam em quatro para não perder um minuto do encantamento em curso. Como escrevi na ocasião, um amigo, pesquisador eminente na área das ciências ambientais, se viu na Polônia a 24 horas de uma partida do Botafogo, um abismo de 10 mil km entre ele e o Nilton Santos. Cumpridas as suas obrigações, saiu às pressas, cruzou a fronteira, chegou a Praga, cochilou um pouco e ao raiar do dia embarcou para Paris; de lá, seguiu em voo diurno até o Galeão, onde aterrissou às 20h15; 45 minutos depois, mala na mão, entrou no estádio para ver o Botafogo vencer o Fortaleza (Tiquinho, dois gols).
Nos primeiros meses do novo ano, ele, como boa parte de nós, andava cabisbaixo e humilhado. Se estivesse em Niterói, talvez não desse uma esticada até o Rio para ver o Botafogo jogar. As coisas agora começavam a mudar. Em 21 de julho, dezoito horas depois de Botafogo 1 x 0 Internacional (Luiz Henrique aos 38’), recebi um e-mail dele: “Escrevo do meio de um experimento um tanto audacioso: saí de casa com o taxista amigo, de mala e cuia, assisti in loco aos primeiros 70 minutos, daí Galeão, Air France das 21h55. Aterrissando agora em Paris, conexão para Madri e direto para o cocktail de abertura do congresso de Botânica. Vamos ver se inverte o outcome do ano passado…”
Experimento tão mais audacioso pelo fato de ser ele o orador incumbido de encerrar o primeiro dia do congresso. Ocorre que, a uma partida do final do primeiro turno, o Botafogo de 2024 dava sinais encorajadores de que o arriscado malabarismo logístico do meu amigo se justificava. Naquele julho, não era ainda o time completo que todo botafoguense saberá de cor até o fim dos seus dias, mas era quase. Estavam lá o seguro goleiro John, os inexpugnáveis zagueiros Bastos e Barboza, a fortaleza Gregore, o arquiteto Marlon Freitas, o indispensável Savarino, o cirúrgico Igor Jesus, o imparável Júnior Santos (titular eterno dos segundos tempos, que naquele jogo sofreria uma fratura na tíbia e ficaria meses afastado) e o endiabrado Luiz Henrique, dono da camisa 7, a única que conta no Botafogo, vestida por Garrincha e Jairzinho. Depois de um início discreto, Luiz Henrique passava a honrá-la mais e mais a cada partida.
Começamos o segundo turno do Brasileiro na liderança da tabela. Acontece que um campeonato de pontos corridos é uma prova de fundo, importando pouco se a meio caminho você está na ponta ou apenas no pelotão da frente. Copas, com seus jogos eliminatórios, são outro bicho. A cada nova fase você é testado.
Quando, no sorteio das fases eliminatórias da Libertadores, o cartola retirou da urna o nome do adversário do Botafogo nas oitavas de final, botafoguenses precisaram de alguns minutos para se recompor. Eu estava almoçando com um amigo, que na hora sacou o celular: “Puta que pariu!”, dissemos em uníssono. Estava lá, no papelote exibido para a câmera: Palmeiras. Dois jogos, o primeiro no Nilton Santos, o segundo no Allianz Parque, casa do rival. É possível ver no YouTube o espírito com que palmeirenses receberam a notícia: “Pegamos um freguês!”, gritavam dois senhores histéricos, um deles erguendo os punhos em sinal de vitória, o outro esfregando as mãos como quem já contou as favas: “Estamos nas quartas!”
No jogo de ida realizado no nosso estádio, logo aos 6 minutos Luiz Henrique deixou dois defensores no chão e, tendo feito o mais difícil e divertido, errou no mais fácil: diante do gol aberto, chutou para fora. Ossos do ofício na vida de um craque. Interessa que, minutos depois, acertou. Fez o primeiro, de cabeça. Igor Jesus, o segundo. O Palmeiras marcou com Mauricio.
Havíamos passado pelo segundo teste do ano contra eles, mas iríamos para o Allianz com a vantagem magra de um gol. Apesar da derrota, nossos rivais saíram confiantes do Nilton Santos. Terminada a partida, Estêvão, melhor jogador do Palmeiras, quem sabe até do Campeonato Brasileiro, abriu seu sorriso gostoso de adolescente e, sem empáfia, pôs em palavras o que todo palmeirense pensava e alguns dos 40 mil botafoguenses no estádio temiam: “A gente sabe jogar lá. Eu tenho certeza que a gente vai passar.”
Veio a quarta-feira seguinte, a partida de volta, o terceiro teste. Por qualquer definição do mundo da bola, um jogo imenso. Tomei a ponte aérea no meio da tarde, deixei minhas coisas no hotel e fui para o Allianz, onde encontrei meu sobrinho. Tentando relembrar o meu estado de espírito, devo admitir que “otimismo” não é a primeira palavra que me vem à cabeça. Achava que podíamos arrancar um empate, mas era mais provável que eles vencessem. Se por um gol, a decisão nos pênaltis igualaria as nossas chances; se por mais de um, seríamos eliminados. Triste, porém não vexatório. Em tese, qualquer time sul-americano poderia voltar para casa de cabeça erguida depois de perder uma classificação no Allianz – em tese, claro, porque a natureza da derrota importaria.
Começamos corajosamente, com jeitão de quem não tinha vindo a São Paulo para defender um empate. Aos 4 minutos, Savarino deu um dos seus chutes de fora da área que, de tão precisos, deviam ser ensinados em aulas de balística. A bola bateu na esquina da trave com o travessão. O Botafogo seguiu assim, arrojado, e o Palmeiras também. Eles perderam gols feitos, nós nem tanto, mas chegamos perto. Terminado o primeiro tempo, a classificação continuava sendo nossa.
Faltavam agora apenas 45 minutos para a comemoração. Foi quando Savarino abriu a caixa de presentes. Aos 11 minutos da etapa complementar, recebeu um passe de Matheus Martins – mais uma contratação feita no meio do ano por John Textor – e já na horizontal, quase caído, passou a bola para Igor Jesus, que marcou. Espremidos entre 40 mil palmeirenses, os 2 mil botafoguenses no estádio explodiram de felicidade. Ainda gritávamos quando, 7 minutos depois, Savarino viu Matheus Martins com a bola, apontou para onde queria que ela fosse, saiu em disparada para recebê-la, dominou-a, invadiu a área e, face a face com o goleiro palmeirense, desferiu um chute tão potente que deveria ser considerado ilegal.
Era o inacreditável acontecendo diante dos nossos olhos. Não só uma classificação na casa do adversário, mas uma humilhação para aqueles que tinham nos humilhado um ano antes. Foi ali que, pela primeira vez em 2024, vi gente chorando, agora pelos bons motivos.
O que veio depois foi o pesadelo. A 4 minutos do fim da partida, o Palmeiras marcou um gol de cabeça: 2 a 1. A 1 minuto do fim da partida, empatou: 2 a 2. O resultado ainda era nosso, mas o time havia perdido a confiança. Estávamos então pelos acréscimos, o Palmeiras parecia ter tomado uma injeção de adrenalina enquanto nós respirávamos por aparelhos.
“Tá vivo?”, escrevi para o meu filho, que estava fora do país e assistia ao jogo com amigos. “Mais ou menos”, ele respondeu. Enterrei o rosto nas mãos, tapei os ouvidos e quis muito, muito, não ouvir o que se anunciava. Não houve como, e duvido que no Allianz já se tenha produzido estrondo tão ensurdecedor. A 1 minuto do fim dos acréscimos, depois de um bate-rebate na área do Botafogo, o zagueiro palmeirense Gustavo Gómez chutou e a bola entrou: 3 a 2. O estádio tremeu com a euforia deles. Derrotados no campo e na cabeça, nem adiantaria batermos os pênaltis. Perderíamos inexoravelmente.
Era um cenário tenebroso, a repetição da virada de 2023.
Tive certeza de que o Botafogo acabava ali. A torcida ia abandonar o time, os jogadores ficariam marcados pelo vexame e o Botafogo entraria para a história como um clube eternamente fadado a pipocar. Cercados pela massa palmeirense inebriada pela força mental do seu time, nós éramos a imagem da vergonha. E eles nos atiravam na cara as mais cruéis humilhações: a sensação era de um estádio inteiro nos tratando como se fôssemos aquelas mulheres de cabeça raspada durante a libertação da França. Não havia outro jeito senão se submeter ao escárnio de 40 mil pessoas. Foram, de longe, os piores minutos da minha vida de torcedor.
Até que veio o livramento. Acompanhei a coisa de modo estranho, cada instante desconectado do seguinte, como naquelas cenas estáticas que ainda encontramos nos velhos museus de história natural: o juiz pôs a mão no ouvido; o juiz disse algo no fone; o juiz levantou os braços; o juiz desenhou um retângulo no ar; os jogadores cercaram o juiz; o juiz correu até o VAR. Eu assistia àquilo compreendendo cada passo, mas incapaz de conectá-los emocionalmente ao nosso destino.
Meu sobrinho me tomou pelos ombros e berrou: “Anulado! Anulado! Anulado!” Ele se pôs a pular e eu fiquei olhando, aparvalhado, enquanto as sinapses se reconectavam. Sim, o gol tinha sido anulado. Gustavo Gómez dominara a bola com a mão. A partida se mantinha empatada, 2 a 2, vantagem nossa. Dali a 1 minuto o juiz apitou o fim do suplício, não sem que antes mais uma bola do Palmeiras batesse na nossa trave.
O que se seguiu foi outra das tantas cenas de 2024 que permanecerão na minha memória. Nossa torcida começou a cantar, mais por obrigação que por entusiasmo. Todos estavam como eu, aturdidos. Cantávamos, sim, mas mentalmente apalpávamos os ossos para saber se continuavam lá. É muito difícil ficar exuberante depois de uma quase morte.
Cheguei de madrugada ao hotel, onde um amigo tricolor me alcançou para dar os parabéns pela classificação. Faz parte das bonitas estranhezas de quem gosta de futebol achar que a glória de onze homens que você não conhece é também uma glória sua. Como naqueles dias duas questões atormentavam o meu amigo – a posição do Fluminense na tabela e a senilidade cada vez mais pronunciada de Joe Biden –, agradeci e contei como estava me sentindo: “Envelheci uns trinta anos e virei o Biden. Meu sobrinho Vicente, com quem me encontrei no estádio, tinha 17 anos até os 5 minutos finais. Saiu do estádio já na meia-idade, calvo, com problemas na lombar e início de diabetes.”
Meu filho deu sinal de vida: “Meu amigo passou os últimos dez minutos no corredor do prédio, eu olhando pela janela. E dizem que é entretenimento.” Terminava com o que talvez seja a lição mais importante que o botafoguense aprendeu em 2024: “Pelo menos agora eu sei que mesmo quando tenho certeza que vai dar tudo errado, não dá.”
Assim, de bate-pronto, até o mais apaixonado torcedor de futebol terá que concordar que é ridícula toda essa intensidade. Paris não está sendo liberada. É apenas um jogo. Apesar disso, acho bonito gostar tanto de algo que não se controla. É no mínimo uma lição de fragilidade, o que tem valor numa época que faz da força e da individualidade um fetiche. Ao contrário do que pregam os coaches e os ideólogos da meritocracia, nem tudo depende de nós. A coletividade importa, os outros importam e é bom confiar um pouco da nossa alegria a quem escolhemos amar.
É politicamente repreensível […] apontar que, com frequência, vale mais a pena viver por causa do canto de um melro, de um olmo amarelo em outubro ou de algum outro fenômeno natural que não custa dinheiro e não possui o que os editores de jornais de esquerda chamam de uma perspectiva de classe? Não há dúvida de que muitas pessoas pensam assim.
Quem diz isso é George Orwell no ensaio Algumas reflexões sobre o sapo comum. A escritora americana Rebecca Solnit cita o trecho como um argumento em defesa das coisas sem utilidade prática, ideia que o próprio Orwell, o mais engajado dos intelectuais, subscrevia. Em 1984, Winston, personagem principal da distopia, assiste num cinejornal à cena de uma mãe que se abraça ao filho para protegê-lo da fuzilaria que atinge o barco de imigrantes onde ambos estão. A cena faz com que Winston pense no valor do que é inútil. O braço materno que protege o menininho “é tão eficaz para defendê-lo das balas quanto uma folha de papel”. Ainda assim, não ocorreria a nenhuma mãe “que uma ação ineficaz se tornasse, por essa razão, desprovida de significado. Se você ama uma pessoa, você a ama e ponto final, e quando não tem mais nada a oferecer, continua a amá-la”.
Solnit observa que coisas que importam por si mesmas, sem que sirvam a um propósito maior, aparecem repetidamente como ideais em 1984. Não é isso que salta à vista no livro, daí a originalidade da sua leitura. O que salva, ela propõe, é o que não pode ser controlado pela lógica utilitária. “A inutilidade é, por si só, uma forma de resistência, ou, melhor dizendo, o que é considerado inútil serve a propósitos mais sutis.”
Acho que a ideia se aplica ao futebol. Quem tem experiência de estádio sabe como é tênue a linha que separa a alegria do ódio. Torcidas muitas vezes se comportam como falanges chauvinistas, reservando desprezo ao cidadão do outro time. A intensidade, o gestual e os termos das falas motivacionais nos vestiários têm a qualidade histriônica dos discursos doutrinários.
Nenhuma mentira nisso. É um lado da coisa. O essencial é não esquecer que existem outros. Gostar de futebol é, sim, querer que o time seja campeão, mas é também abrir mão do controle, virar parte de um coletivo, dissolver-se nos demais, abraçar quem você nunca viu, amar sem condição, aceitar a surpresa. É bom ser um pouco ridículo e poder chorar por causa de um gol no último minuto (de preferência marcado pelo seu time).
Também é bom poder se encantar com a simples beleza de uma jogada. Em 2024, o Botafogo produziu várias. Um exemplo: o primeiro gol na vitória por 2 a 1 contra o Corinthians pela 26ª rodada do Brasileiro. Com um drible seco, Almada deixou um defensor caído no chão. Savarino ultrapassou-o e, já dentro da área, sem desacelerar, virou-se para Almada como quem diz: “Me dá ela aqui.” Pião em movimento, dominou-a já fazendo o giro em direção ao gol, levantou a cabeça, viu Luiz Henrique entrar feito um guepardo pelo miolo da área, cruzou na medida e o camisa 7 pôs para dentro.
Três toques de Almada, dois de Savarino, um só de Luiz Henrique; um gol tão bem construído que, a cada novo passo, menor foi o trabalho e mais certo o desfecho. A linda trama envolvendo os três grandes jogadores da temporada me levou a pensar mais tarde na dança de Matisse, aquela conexão feliz e orgânica de quem baila de mãos dadas.
O gol mexe no placar, a beleza não. Ela é puro deleite, uma coisa em si – inútil para as contas, fundamental para a alegria.
Enfrentamos o São Paulo nas quartas de final da Libertadores. Com a chegada dos últimos dois reforços do ano – os laterais Vitinho e Alex Telles –, pela primeira vez Artur Jorge tinha a escalação ideal do time. O jogo de ida no Nilton Santos foi a segunda melhor apresentação do Botafogo na temporada, e a melhor até ali. O primeiro tempo pode ser descrito como uma aula magna. Os chutes contra a meta do São Paulo vinham de todos os lados, a velocidade das tramas era vertiginosa, e o brilho de Savarino e Almada, intenso. Foi um amasso. Empatamos em 0 a 0. Futebol tem dessas coisas.
Uma semana depois, quarta-feira 25 de setembro, o Botafogo entrava no Morumbi para disputar a vaga em situação pior do que aquela em que confrontara o Palmeiras. Para se classificar, não bastava mais o empate – teríamos que ganhar na casa do adversário ou decidir nos pênaltis.
Para o meu gosto, o Morumbi é o estádio mais bonito do Brasil. É também um dos maiores. Naquela noite, não cabia uma mosca nas arquibancadas. Eram 60 mil são-paulinos contra 2 mil botafoguenses. Uma vez mais, o Botafogo não se intimidou e partiu para cima. Logo aos 15 minutos, Savarino, de novo ele, construiu a jogada que resultou no gol de Almada. Embora o São Paulo tenha desperdiçado um pênalti aos 46 minutos, o primeiro tempo foi todo nosso.
O segundo tempo foi mais sofrido. Enquanto o cronômetro se arrastava lento, cada vez mais lento, pela marca dos 15 minutos, dos 30, dos 40, o Botafogo segurava a pressão, em boa medida graças a John. Perto de mim, uma jovem de mãos postas falava baixinho consigo mesma. De olhos fechados, transida pelo drama, parecia hipnotizada. Já era possível sentir e apalpar o apito final quando, a 4 minutos da nossa classificação, o São Paulo empatou. O inverno baixou na torcida botafoguense. A decisão seria por pênaltis e o pêndulo emocional agora se curvava na direção deles.
As cobranças seriam na meta atrás da nossa torcida. Imóvel, a jovem de mãos postas encarava o gol como quem olha um precipício. Veio a primeira cobrança do São Paulo, ela fechou os olhos e não viu a bola bater no travessão e sair. Acertamos o primeiro pênalti, e também os dois seguintes. A jovem permanecia de olhos fechados. A não ser pelos lábios, nada nela se mexia. A dois gols da classificação, erramos. A bola subiu para o céu, passando a léguas da meta. Tudo igual. O batedor do São Paulo se aproximou para cobrar o quinto e último pênalti da série deles. Chutou forte no canto direito, o mesmo para o qual John pulou, mas a bola foi mais rápida e entrou. Agora tínhamos a obrigação de acertar a nossa última cobrança. Errar era ir para casa.
De onde eu estava, via o cobrador, mas não o gol – obstruído pelos torcedores em pé na minha frente. Almada tomou distância. Um mês antes, contra o Flamengo, ele desperdiçara o único pênalti que cobrara desde a chegada ao Botafogo. O argentino correu para a bola e chutou. Vi a bola subir, subir, subir e subir. Perdi o chão. Era o fim. O Botafogo era a Itália na final de 1994 e Almada era o Baggio.
Na eternidade após o chute, foi disso que me ocupei: das semelhanças trágicas entre nós e aquela outra potência combalida do futebol, entre um craque de hoje e um craque de ontem, ambos marcados para sempre, cruelmente, pelo pior momento de suas carreiras magníficas. Pensava nessas coisas todas já fazia algum tempo quando fui interrompido pela explosão da torcida que comemorava o gol de Almada. A bola estufara o sótão da rede, o alto mais alto antes do travessão. Uma cobrança fulminante, indefensável, maravilhosa. Como um jovem de 23 anos podia ter tanta coragem? Como podia cobrar com tamanha ousadia um pênalti daquela gravidade? Com o Botafogo de 2024, aprendi muito sobre como proceder na vida.
Cinco cobranças, quatro conversões para cada lado. Veio o desempate e tudo foi rápido. John agarrou a cobrança do São Paulo e Matheus Martins converteu a dele. Passados 51 anos, o Botafogo voltaria a disputar uma semifinal de Libertadores. Troquei mensagens com o meu filho durante toda a partida. Segundos depois da classificação, ele me escreveu: “Dhxhcgwnzhxhxbxbshshxndjshx-hdj ndhx.” Tínhamos entrado no terreno da incoerência.
À minha volta, gente se abraçava e pulava. A poucos metros, a jovem começava a sair do transe. Fui até ela: “Você sofreu muito, né?” Ela fez que sim com a cabeça. Puxei conversa e soube que se chamava Julia, era carioca e tinha acabado de se mudar para São Paulo. “Tenho 26 anos, nunca vi o Botafogo ser campeão”, me disse. “Quando a coisa aperta, fico me perguntando se o resto da minha vida vai ser assim. Eu, de olhos fechados, rezando. E olha que eu nem acredito muito. Eu tô apenas apelando pra tudo. É que o Botafogo é muito importante pra mim.”
Torcedores jovens do Botafogo me interessam muito. Por que gostar tanto de um time que, ao menos até ali, devolvia tão pouco? A resposta mais frequente é que o amor derivou da família ou dos amigos. É uma boa razão, mas não é a que me toca. Julia vem de uma família de maioria tricolor e seu pai é flamenguista. Sua primeira vez no Maracanã foi na companhia dele, aos 6 ou 7 anos, no meio da Raça. Ela não quis, porém, vestir a camisa do Flamengo: já tinha decidido que era Botafogo. Extrapolando para o resto da vida (e eu sempre extrapolo), isso é escolher voluntariamente a parte mais árdua, que, muitas vezes, costuma ser também a mais valiosa. De meu lado, acharia difícil não torcer por um time que conta com gente como Julia rezando para um Deus no qual ela nem sequer acredita, para pedir que o mundo seja por fim diferente.
O último adversário antes de chegar à final foi o mais fácil de derrotar. No jogo de ida, em 23 de outubro no Nilton Santos, o Botafogo entrou em campo contra o Peñarol do Uruguai e, 90 minutos depois, fomos para casa certos de ter assistido a uma dessas exibições que ficam para a história. Savarino marcou duas vezes, Luiz Henrique e Igor Jesus uma, e para premiar sua temporada extraordinária, o zagueiro Barboza também fez o seu: 5 a 0. Partidas grandes costumam ser mais tensas que divertidas. Essa foi o contrário. O jogo de volta no Uruguai passava a ser mera formalidade. Mandamos uma equipe mista, perdemos de 3 a 1 e deixamos o Peñarol para trás. Pela primeira vez na sua trajetória, o time que já teve Garrincha, Nilton Santos, Didi, Zagallo, Manga, Amarildo, Gérson, Jairzinho e Paulo Cézar chegava a uma final de Libertadores.
Dias depois, o site Hoje no Mundo Militar divulgou a seguinte notícia: “O presidente Biden liberou a Ucrânia para atacar alvos dentro da Rússia com mísseis atacms, faltando menos de 2 meses para Trump assumir.” Soube disso por um e-mail intitulado “Agora não!”, em que um amigo desesperado implorava: “Pelo amor de Deus, deixem o Botafogo ser campeão antes de começar essa Terceira Guerra Mundial.” Botafoguense é gato escaldado. Faltava pouco para a disputa do título da Libertadores e convinha atentar para as patifarias do destino.
A final seria decidida em partida única contra o Atlético Mineiro dali a três semanas em Buenos Aires. Tínhamos tempo para nos dedicar ao Campeonato Brasileiro. Havíamos terminado a 32ª rodada na liderança com 67 pontos, seis a mais do que o segundo colocado, Palmeiras – sempre ele. Nossa vantagem era confortável. Faltavam apenas seis rodadas para o fim do campeonato e os três adversários seguintes eram frágeis.
O Cuiabá estava na zona de rebaixamento e a partida seria no Nilton Santos. Jogando com o time completo, o Botafogo empatou. O Palmeiras venceu a sua partida.
O Atlético Mineiro, nosso adversário na Argentina dali a dez dias, já não tinha nenhuma pretensão no Brasileiro. Punido pela arruaça que sua torcida promovera numa partida anterior, o Galo foi obrigado a jogar de portões fechados. Pôs em campo um time misto, teve um jogador expulso no primeiro tempo e, ainda assim, o Botafogo não conseguiu derrotá-lo. O Palmeiras venceu a sua partida.
O Vitória disputava o meio da tabela. Enfrentamos o time baiano em casa. Perdíamos por 1 a 0 até os 42 minutos do segundo tempo, quando empatamos. O Palmeiras venceu a sua partida.
Ao longo de três míseras rodadas, nossa vantagem de seis pontos caiu para quatro, dois e, finalmente, virou pó. Faltando apenas três partidas para terminar o Campeonato Brasileiro de 2024 – uma delas, a seguinte, entre Palmeiras e Botafogo no Allianz –, nosso adversário assumia a liderança pelo critério de desempate, mesmo número de pontos que nós, mas com uma vitória a mais. Imprensa, torcida, rivais, ninguém se esqueceu de dizer que, no derretimento de 2023, fomos ultrapassados pelo Palmeiras nessa mesma altura do campeonato.
O filme-desastre se repetia, agora com um ingrediente a mais. Como havia um conflito de datas entre a final da Libertadores e o nosso compromisso subsequente no Brasileiro, logo a partida contra o Palmeiras, a CBF antecipou o confronto. Na terça-feira 26 de novembro, em São Paulo, jogaríamos a nossa vida no campeonato nacional, e quatro dias depois, em Buenos Aires, entraríamos em campo para decidir o campeonato continental. Duas finais sem possibilidade de descansar titulares, como vinha fazendo o Atlético.
Numa boa coluna sobre o paradoxo botafoguense daqueles dias – duas taças tão próximas e ao mesmo tempo tão distantes –, o jornalista Gustavo Poli ofereceu ao torcedor consolo (“Você vai sobreviver. Ao menos teoricamente”) e também realismo (“Você não vai dormir bem nos próximos dias. Dormir qualquer coisa será lucro”). Era impossível dourar a pílula. “Na hora da verdade”, escreveu ele, “alguma coisa parece fora da ordem.” Nos jornais, nas mesas-redondas, na internet, “todas as teses implicantes voltaram à tona. Fraqueza mental, despreparo, pipocada”.
“Tinha que ser aqui, cara”, disse Marlon Freitas minutos antes de entrar em campo. Capitão do Botafogo e único titular absoluto de 2024 a participar da derrocada de 2023, ele falava para seus companheiros, reunidos em roda no vestiário do Allianz. Um ano antes, na virada acachapante para o Palmeiras, um gesto seu, uma piscada de olho para um adversário quando a partida ainda estava 3 a 3, foi interpretado pela torcida botafoguense como deboche. E durante os primeiros meses de 2024, Marlon foi o nosso vilão predileto.
Agora ele era o nosso esteio, a liderança inconteste do grupo, o homem que iniciava a maioria das jogadas e, como um geômetra, riscava as linhas que levavam ao gol adversário. “Tinha que ser aqui, mano. Tinha que ser aqui, velho.” Abraçado ao resto do time, Artur Jorge concordou: “Vai ser aqui.” Aqui, na casa deles, contra eles, na condição fatal de precisar vencer. “Não dava pra mudar nada. Dez, vinte pontos [de vantagem] – não dava. Tinha que ser assim.”
Foi uma partida de líderes. O Palmeiras começou forte e em 10 minutos quase marcou duas vezes. Na segunda vez, vítima de um estiramento na coxa, perdemos Bastos, que vinha sendo considerado um dos melhores zagueiros do campeonato. O angolano foi substituído por Adryelson, protagonista, ele também, do traumático 4 a 3 no Nilton Santos – a sua controvertida expulsão levara o Palmeiras a partir para a virada.
Aos 18 minutos marcamos o primeiro gol, uma jogada ensaiada que, de tão elaborada, confundiu não só a zaga adversária como também o nosso volante Gregore, que se viu onde não devia estar, sozinho diante do gol do Palmeiras. Recebendo um passe preciso de Almada, ele chutou e pôs para dentro.
Em mais um dos estranhos ecos da partida de 2023, um jogador do Palmeiras foi expulso no segundo tempo. Minutos depois, Savarino fez nosso outro gol. Faltando pouco para terminar, o mesmo Savarino, cuja capacidade de se materializar em todos os momentos decisivos da temporada parece coisa de prestidigitador, bateu um escanteio perfeito. Um só jogador saltou e, de cabeça, marcou o terceiro. Era Adryelson, o expulso da virada, no seu único gol de 2024.
Eles ainda fariam um gol, mas a vitória era nossa, 3 a 1.
O quarto e último teste do ano contra o Palmeiras foi como abolir a gravidade. Iríamos para Buenos Aires flutuando.
Nos dias que antecederam a final, Buenos Aires parecia uma sucursal de General Severiano, a sede do Botafogo. Para onde se olhasse, se via um botafoguense. Na véspera da partida, fui com um amigo a Puerto Madero e tivemos dificuldade para atravessar a massa compacta que vestia a nossa camisa. Havia gente de toda parte do Brasil e do mundo. Tinham chegado de avião, de ônibus, de carro, de bicicleta. Um torcedor veio de moto – desde Manaus. Outro, morador de Jardim, município do Ceará, anunciava feliz que acabara de encomendar um busto de John Textor para instalar em casa. Não me lembro de encontrar na vida tantas pessoas tão esperançosas.
O jogo estava marcado para as cinco da tarde. Meu filho, meu sobrinho, meus amigos e eu chegamos ao estádio por volta das três e meia. O Monumental de Nuñez é, de fato, monumental. Pouco a pouco, aquela imensidão foi sendo preenchida e, meia hora antes do início da partida, o nosso lado lotou. Eram 40 mil botafoguenses à espera do que nenhum ali tinha vivido.
Além dos vivos, vieram também os mortos, botafoguenses que partiram antes de ver o time ser campeão da América. Familiares e colegas traziam seus rostos e nomes estampados em cartazes ou em camisetas: um pai, uma mãe, uma avó, um irmão, uma amiga, um filho.
Quando os times entraram em campo, um amigo começou a chorar. Era a emoção de assistir à mais importante partida da história do Botafogo, mas não só. Toquei no ombro dele: “É o Alexandre, né?” Ele fez que sim com a cabeça. Nós três éramos inseparáveis desde a época do Caio Martins, o estádio modesto onde o Botafogo mandava os seus jogos. Nosso amigo adorável, morto prematuramente aos 48 anos de idade, era, para nós, a grande ausência no Monumental. Lamento não ter levado uma foto dele.
Estávamos assim, comovidos e cheios de esperança, quando a bola rolou. Dali a 29 segundos ela voltou a parar e o mundo virou de ponta-cabeça. A bola veio à meia altura, Gregore levantou a perna, o atleticano Fausto Vera baixou a cabeça e houve o choque feio – as travas da chuteira de um acertaram o rosto do outro. Vera caiu, sangrando. Os jogadores do Atlético cercaram o árbitro, que foi até Vera, constatou o estrago e sacou o cartão vermelho. Gregore estava expulso antes de a partida completar 1 minuto.
Alguma variação do que pensei naquele instante passou pela mente de cada botafoguense que assistia à partida. “Foi para isso que vim para cá? A gente nunca vai chegar lá.” “Que time trágico, o Botafogo”, soltei em voz alta, mais para mim do que para os outros. Nossa torcida, bem maior que a do Galo, se calou. As pessoas evitavam se olhar, cada um de nós fechado no próprio pesadelo. (Ao menos nos estádios, a festa é coletiva e o velório, solitário.)
Na Globo, Luís Roberto comentou: “É uma mudança brutal. O Atlético, nesse momento, tem como se fosse assim uma espécie de um gol a seu favor.” Na espn, Rogério Vaughan não dizia coisa diferente: “É muito difícil pro time do Botafogo jogar com esse prejuízo.” Na nossa torcida, um garotinho começou a chorar.
A partida ficou parada por mais de 4 minutos. No campo, enquanto Vera era atendido pelos médicos do Atlético, os jogadores do Botafogo se reuniram numa roda. No nosso banco, à volta de uma prancheta, Artur Jorge confabulava com os seus auxiliares. Quem acompanhava o jogo pela televisão foi informado de que o nosso defensor Danilo Barbosa estava se aquecendo.
Só quando o árbitro apitou o reinício do jogo é que Artur Jorge deixou o banco e foi para a beira do gramado. É um fato surpreendente – ele não aproveitara a interrupção para conversar com os seus atletas. Qualquer instrução que ele precisasse transmitir aos jogadores, teria que ser com a bola já rolando. Portanto, de duas uma: ou o técnico sabia que os jogadores estavam tão bem treinados que responderiam imediatamente ao mais telegráfico dos seus comandos, ou confiava que eles conseguiriam encontrar uma solução momentânea para o impasse enquanto ele ganhava tempo para analisar o jogo e definir a melhor estratégia para seguir adiante.
Das arquibancadas, uma coisa foi ficando clara: apesar de termos perdido o nosso mais importante jogador de contenção, Artur Jorge não fazia gestos de quem estava prestes a mexer no time. Continuávamos em campo com quatro atacantes, dois deles bem baixinhos, quase franzinos, em nada preparados para refrear um ataque adversário, que dirá para controlar Hulk, um dos atacantes mais letais do futebol brasileiro. Dele vieram logo dois rojões certeiros. John agarrou os dois, mas, ao menos pelo que eu podia deduzir do lugar onde me sentara, o cenário não era se a bola entraria, e sim quando.
Foi então que alguns observadores mais astutos repararam em algo estranho. Logo após a expulsão de Gregore, o Atlético passara a atacar supondo que o Botafogo iria apenas se defender. Era uma inversão da estratégia com que haviam entrado em campo. Em menos de 30 segundos, eles se viram no papel do Botafogo, um time ofensivo, e nos atribuíram o papel do Atlético. Acontece que Artur Jorge não aceitou essa permuta. Seguiu jogando como Botafogo. Assim, eram dois Botafogos em campo, e nós sabíamos ser Botafogo melhor do que eles.
Aos poucos, o time foi tomando nova forma. Quem ocupava o meio recuou para a área. Quem estava na ponta recuou para a lateral. Tratava-se de uma mudança sem alteração, como se Artur Jorge invertesse a máxima do personagem de Lampedusa: para que as coisas mudassem no Monumental, era preciso que tudo permanecesse igual.
Ou por outra: igual nos personagens, diferente na função que exerceriam. Como vários analistas comentaram depois da partida, o Atlético não criava pelo meio. O perigo vinha das pontas. Se a área estivesse protegida o bastante – como explicaria Artur Jorge, “se lhes [a eles, os quatro atacantes] pudéssemos pôr algum comprometimento defensivo” –, não seria necessário trazer um defensor para frear um inexistente progresso do Galo pelo centro. Bem melhor seria manter os quatro jogadores de frente e assim nos preservar da possibilidade de um contra-ataque letal.[1]
Era arriscadíssimo. Se desse errado, Artur Jorge passaria para a história do Botafogo como o técnico que, na hora mais grave do clube, preferiu ser original a fazer o recomendado. Nesse sentido, o ápice da carreira de Artur Jorge foi a decisão que ele não tomou. Não consigo pensar num único técnico brasileiro que, no minuto seguinte à expulsão, não tivesse imediatamente sacado um atacante para substituí-lo por um defensor, na esperança de segurar o empate. Danilo Barbosa voltou para o banco, sinal de que o nosso homem chegou a considerar a hipótese que estava no manual, mas, em seguida, a abandonou.
Por que Artur Jorge assumiu esse risco? É possível que guardasse na memória uma partida ocorrida quatro meses antes. O Botafogo decidia a vaga das oitavas da Copa do Brasil contra o Bahia, em Salvador. Pela primeira vez, entrávamos em campo com a linha ofensiva ideal – Almada, Savarino, Luiz Henrique e Igor Jesus, os quatro que jogariam em Buenos Aires. No primeiro tempo, Gregore foi expulso e Artur Jorge fez o óbvio: trocou Almada por Danilo Barbosa. O Bahia pressionou, nós não resistimos e fomos desclassificados. Romário insiste que, ao contrário do que se diz por aí, derrotas não ensinam nada. Aqui está uma exceção.
Passados 15 minutos, a torcida percebeu que o time recuperara a confiança e voltou a cantar. Existe um vídeo que circulou muito nas semanas após a partida e que está para o botafoguense assim como Cidadão Kane está para o cinéfilo. Filmado das arquibancadas por um torcedor, mostra uma sequência de 45 segundos e dez passes que mais lembra um bailado. Almada, o primeiro bailarino, está no centro da dança. É para os seus pés que a bola sempre retorna depois de passar pelos pés de Marlon Freitas, Luiz Henrique e Barboza (duas vezes). O que deslumbra é a posição de Barboza, e também a de Adryelson: os últimos homens da retaguarda botafoguense estão à frente da linha que divide o gramado, o que significa que, com exceção do goleiro, todos os integrantes de um time que joga com menos um estão no campo do adversário. A ousadia disso é de tirar o fôlego. Só por causa dela fizemos o nosso primeiro gol, o derradeiro movimento da coreografia: de Almada para Luiz Henrique, deste para Marlon, que chuta, a bola é rebatida e Luiz Henrique marca.
Tinha mais. Seis minutos depois, Luiz Henrique sofre um pênalti. O lateral Alex Telles põe a bola na marca, toma distância, fixa a bola, solta o ar, corre e, na corrida, levanta os olhos: goleiro na direita, bola no canto esquerdo, fulminante. Um amigo de Belo Horizonte me escreveria: “Todos terão, nas lembranças da final da Libertadores, a recordação de um instante decisivo. Para mim foi a batida de pênalti do Alex Telles. Confiante, certeiro, resoluto, inapelável. Parecia estar mandando para as redes, além da bola, todos os nossos fantasmas. Eu poderia viver para sempre naquele momento.”
Quisera aquele momento se eternizasse, mas não: o primeiro minuto do segundo tempo foi tão atroz quanto o primeiro da etapa inicial. Hulk cobrou um escanteio e o chileno Vargas, que acabara de entrar, marcou de cabeça. Era tudo o que não podia acontecer. Os mineiros agora teriam 45 minutos para vencer a partida ou no mínimo empatá-la, levando-a para a prorrogação e nos derrotando pela exaustão. “Isso muda tudo”, disse um comentarista da espn.
Voltei a pensar: “Que time trágico, o Botafogo.” Fatigado, me larguei na cadeira e pus o rosto entre as mãos. E assim fui ficando, eu e muitos outros torcedores. Um deles passou o segundo tempo prostrado no chão, olhos fixos numa imagem de Jesus (o Nazareno, não Igor) estampada no celular. Há trinta anos, mesmo nos piores momentos, a torcida do Botafogo vinha sendo mais corajosa do que o time. Não arredava pé. Aquele foi o dia em que o time precisou ser mais corajoso do que nós.
No vestiário, antes de a partida começar, Marlon tinha dito: “Vão ter que falar de mim. Vão ter que falar de nós. Vão ter que lembrar. Eu vou fazer história nessa porra, velho. Nós fomos chamados pra fazer história.” Abraçado aos colegas, Júnior Santos acrescentou: “Cada um aqui sonhou com isso quando a gente era guri e jogava nos campinhos de terra. Vamos lembrar o que dá esperança, e o que dá esperança é saber que a gente veio de baixo, da favela, dos campinhos de terra.” Eles tinham mais razão do que nós para estar confiantes.
Revi a partida várias vezes e acho que o Botafogo foi mais heroico no segundo tempo do que no primeiro. O técnico Gabriel Milito se deu conta do que devia fazer, mexeu no time no intervalo e o Atlético passou a nos dominar. Só aí Artur Jorge fez substituições. Tivemos que nos defender já exauridos. O segundo tempo foi a nossa Stalingrado, nós no papel dos soviéticos. No estádio eu não vi, mas a cidadela quase caiu quatro vezes, aos 7, aos 20, aos 40 e aos 42 minutos. Em duas delas, o atacante Vargas entrou sozinho na nossa área e, inacreditavelmente, concluiu para fora. Faz mal até olhar o videoteipe.
Alguém na minha frente gritou: “Sete minutos de acréscimo.” Continuei sentado e olhando para o chão. O cara ia avisando: “Faltam seis.” “Cinco.” “Quatro.” Quando ele chegou a um, me levantei. John batia um tiro de meta. A bola atravessou a linha do meio-campo e caiu lá do outro lado, onde Júnior Santos, que entrara no lugar de Luiz Henrique, a disputou com dois defensores. A bola correu para o corner do Atlético. Júnior Santos chegou antes e pôs o seu corpo entre a bola e os dois marcadores. Estavam assim, os três imprensados num canto morto do campo, de frente para as placas de publicidade e de costas para o mundo, quando Júnior Santos tirou um coelho de uma cartola inexistente. Sem se virar, intuindo a posição dos dois adversários que não via, deu uma puxeta na bola e a fez passar entre eles. Quase instantaneamente, fez o corrupio, se esgueirou pelo espaço praticamente nulo por onde a bola passara, e agora disparava em direção ao gol do Atlético enquanto seus dois marcadores ainda se viravam. Viu Matheus Martins que vinha correndo, passou a bola, o goleiro pulou, Matheus preparou o chute, o zagueiro meteu o pé, a bola bateu nele, tudo muito rápido, era o caos, um zagueiro desabando sobre o próprio goleiro, uma bola pipocando diante do gol, um atleticano vindo isolá-la e um Júnior Santos mais caído do que em pé, às sete da noite e no sétimo minuto de um acréscimo de 7 minutos, ele, Júnior Santos, que marcara o primeiro gol da nossa campanha na Libertadores e voltava de uma fratura na tíbia, marcava agora também o último, o gol do título, no derradeiro minuto da partida mais importante da história de todos nós.
Nas horas após o apito final, me senti tão abençoado que, se alguém tivesse pedido, tenho certeza de que poderia sair pelas ruas de Buenos Aires curando os enfermos e multiplicando os pães. “A partir de hoje todo botafoguense mora em 30 de novembro. Não é mais uma data – é uma casa”, resumiu o jornalista Gustavo Poli na noite da nossa conquista. Estávamos instalados lá e, fossem outras as circunstâncias, de lá não sairíamos. Acontece que ainda faltavam duas rodadas para fechar o Campeonato Brasileiro. Seis pontos em disputa e nós com três de vantagem sobre o Palmeiras.
A primeira dessas partidas foi contra o Internacional, em Porto Alegre. O Inter tinha a melhor campanha do returno e não perdia no seu estádio havia cinco meses. Entramos em campo quatro dias depois de Buenos Aires, um intervalo animadíssimo de 96 horas que incluiu a festança de comemoração do título e um desvio para o Rio de Janeiro, onde a equipe desfilou em carro aberto pela orla de Botafogo. Estávamos em frangalhos. Vencemos a partida por 1 a 0 – passe magistral de Almada, voleio sublime de Savarino.
É uma partida que deverá se perder na nossa memória sobrecarregada de 2024, o que será injusto porque ela foi heroica. O natural era que fôssemos derrotados e voltássemos a ceder a liderança para o Palmeiras, que somaria três pontos na mesma rodada. Nos dias seguintes, começou a circular pelas redes um novo ranking dos melhores times do Brasil:
1º lugar: Botafogo.
2º lugar: Botafogo jogando com menos um.
3º lugar: Botafogo de ressaca.
Depois de décadas difíceis, ganhávamos o direito de zoar.
Passados quatro dias, num Nilton Santos lotado, fomos campeões brasileiros. O empate com o São Paulo nos bastava, mas vencemos por 2 a 1. Inútil dizer que o primeiro gol foi de Savarino. Desnecessário também apontar que esse gol – um toquinho que encobriu o goleiro – foi primoroso. Sofremos o empate e, a 20 segundos do fim da partida e do campeonato, tudo seguia igual quando Gregore apareceu do nada, roubou a bola, invadiu a área e marcou o gol do título. Em Buenos Aires, oito dias antes, ele tinha vivido o inferno. Agora, com justiça, chegava ao paraíso.
Em algum lugar do céu, anjos acusaram o roteirista de 2024 de exagero.
Treze dias, quatro vitórias, dois títulos. “E agora?”, perguntou meu amigo de Belo Horizonte. “Como viver nesse novo mundo, coberto de glórias, olhando do alto e não mais da planície?”
Pergunta boa, assunto delicado. O risco de incompreensão é grande. Botafoguenses de certa geração aprenderam na marra que nem todo amor é recompensado. Mesmo assim, seguiram amando. Isso não significa que o nosso amor valia mais que o de torcedores já acostumados a conquistas, mas apenas que sabíamos – sabemos – algumas coisas sobre nós mesmos que os outros não têm (ainda) como saber.
“Porra, tua Libertadores foi mais comemorada que as minhas”, escreveu um tricampeão continental, o são-paulino Rica Perrone. “Meu amor é frágil perto do seu, embora seja também incondicional. Mas nunca me deram condições de testá-lo. Você teve todas, as mais difíceis, e agora ‘vai festejar’ […] a sua impressionante capacidade de suportar o que talvez outros também suportassem. Mas que ninguém pode afirmar, só você. Hoje eu queria ser botafoguense.”
É por aí. Me lembro da mensagem generosa que recebi do amigo palmeirense antes do primeiro confronto entre os nossos clubes no ano passado. Esse amigo admirava o Botafogo, o qual, segundo ele, tinha enfrentado coisas muito parecidas às vividas pelo seu time. Quedas, anos sem títulos etc. Por isso, fazia um reparo à minha caracterização do Palmeiras como um clube alinhado à força econômica.
Era uma tentativa sincera de manter a identidade de torcedor raiz, forjada com dor e lealdade no tempo das vacas magras, quando o amor é de fato incondicional. “No momento em que a gente se torna hegemônico e passa a fazer parte dos que dão as cartas”, ponderei, “não se pode mais ser quem se era. Mal ou bem, trocamos de pele e viramos outro bicho. No caso, um bicho que vence. Um predador. É preciso reajustar a imagem.”
O Botafogo estava passando por isso, acrescentei. Agora tínhamos um dono americano, a quem eu era muito grato. Eu sonhava com um Botafogo vencedor, o que em 2023 ainda não havia acontecido, mas parecia cada vez mais provável. Estávamos com um pé em cada canoa. “Uma delas é a do Botafogo que me fez, e da qual tenho muito orgulho; a outra está prestes a deixar de ser canoa pra virar um iate. Quando isso acontecer, e eu estiver bebericando um drinque colorido, desses com guarda-chuvinha, enquanto a brisa do mar sopra em meu rosto, vai ser impossível seguir cultivando a velha identidade de ribeirinho. Levantarei feliz uma taça que não vejo desde 1995, sabendo, contudo, lá no fundo da alma, que alguma coisa foi ganha, e outra perdida.”
Do saldo dessa conta dependerá o E agora? do meu amigo de bh. Numa bonita crônica sobre o Botafogo escrita logo depois da vitória em Buenos Aires, a poeta alvinegra Luiza Mussnich falava do nosso “pouco talento para a prepotência” e lembrava que somos “ligeiramente desajeitados” para o elogio. Perderemos isso?
Alguns botafoguenses gostariam que sim, pois já teria passado da hora de sermos mais marrentos. Entendo, mas acho que existe uma diferença entre o brio e a arrogância. Faria bem termos mais do primeiro e faria mal começarmos a ser conhecidos pela segunda. Melhor deixar a prepotência para os rivais.
Gosto de pensar que não perderemos os atributos descritos pela poeta. Em primeiro lugar, porque não somos e nunca seremos um time de massa. É mais fácil ter certezas quando se é parte da maioria e a multidão está do seu lado. Num dos romances de Dickens, um personagem pergunta: “Quando duas multidões se confrontam aos gritos, o que se deve fazer?” Prudente, o sr. Pickwick, que dá título ao livro, responde: “Grite com a maior delas.” O botafoguense é o sujeito que prefere gritar com a menor, o que é um modo de estar no mundo e, dependendo da perspectiva, uma posição política.
Além disso, SAFs controladas direta ou indiretamente por fundos de investimento ou por investidores financeiros tendem a ser negócios de prazo não muito longo. O horizonte para gerar resultados é limitado pela pressão dos acionistas. No que diz respeito aos elencos, o modelo de SAF em países periféricos será propenso à instabilidade. De modo geral, essas estruturas privilegiarão atletas jovens com potencial para jogar em ligas caras. São esses que partem.
Escrevo isto em início de janeiro, sem saber bem qual será e como jogará o Botafogo de 2025. Artur Jorge e Almada foram embora. Tudo indica que Luiz Henrique tampouco ficará.[2] O Botafogo deu-lhes a visibilidade prometida para que se valorizassem em mercados mais ricos. Ganham os atletas, o técnico, o acionista. Ganha também o torcedor, contanto que aprenda a encarar cada novo ano como um ano bastante novo.
Despedidas dolorosas farão parte da nossa vida de torcedor. Fascinados pelas conquistas da nova gestão do Botafogo, muitos se puseram a repetir uma frase que começou a circular em meados do ano passado: “Esse é o pior Botafogo dos próximos dez anos.” É uma ilusão. Por melhor que seja o trabalho das equipes técnicas, por mais que Textor queira e possa seguir investindo e ainda que ele permaneça dono do Botafogo, um encontro de talentos tão feliz como o de 2024 é um evento raro. Não bastam competência e dinheiro. Sorte também entra na equação.
A rotatividade do nosso elenco será sempre maior que a de times como Flamengo e Palmeiras, menos dependentes da venda de jovens talentos para fazer a roda financeira girar. No quesito expectativa, viveremos na corda bamba, o que é bem melhor do que viver na mediocridade de antes.
A diferença é que aprendemos uma coisa muito importante. Parafraseando Orwell,[3] nossa experiência nos estádios de 2024 nos levou a entrar em contato com algo novo, estranho e valioso. Havíamos formado uma comunidade de pessoas que, a cada partida, descobria que esperança e alegria eram mais normais do que tristeza e frustração. Como escreveu meu filho, soubemos que as coisas podem dar certo. Às vezes; nem sempre. Continuamos a ser os velhos botafoguenses, agora com fé. Ganhamos a esperança de que a alegria não será apenas para os outros, botafoguenses do futuro, mas que ela também pode ser nossa.
Duas semanas após a conquista da Libertadores, Julia, a torcedora que conheci no Morumbi, me escreveu explicando o que havia sentido quando a partida terminou: “Foi o dia mais feliz da minha vida. Lembro de ligar para a minha mãe aos prantos falando que não ter desistido tinha valido a pena, que os últimos 26 anos, todas as derrotas, rebaixamentos, tudo estava quitado ali.”
Horas depois de cruzarmos no peito a faixa de Campeão Brasileiro ao lado da de Campeão da Libertadores, li a seguinte mensagem no celular de um amigo botafoguense: “Ufa, eu já não aguentava mais esse jejum de oito dias sem um título.”
É isso, o Botafogo de 2024. Conquistamos o direito à felicidade, à quitação das dívidas e, vá lá, a algum atrevimento. É perdoável quando se alcança o topo da montanha depois de tanto penar.
E agora, Julia? Joaquim, Vicente, Walter, Luiza, João, Lula, Paulo, Carlos, Marcelo, Flora, Bernardo, Manoel, Gustavo, Ana, Helio, Pedro, Rodrigo, Renata, Daniel, Elena, Bebel, Thiago? E agora?
Agora é o seguinte: daí do alto, aproveitem a vista. Ela é linda, e vocês merecem.
[1] Em janeiro de 2025, Marlon Freitas me confirmaria a hipótese: “Não deu tempo de conversar com o Artur Jorge [após a expulsão]. A mensagem já tava passada, ele confiou na inteligência tática dos jogadores. A gente fez uma roda e disse: ‘Tudo no Botafogo é difícil. É assim que tem que ser. Agora a gente vai correr pelo Gregore.’ O jogo recomeçou e a gente se reposicionou em campo. O Artur Jorge veio até a beira do campo, acenou pra mim e fez um tripé com os dedos. Eu agora ia jogar como um terceiro zagueiro, que era onde eu já estava. Savarino e Almada também já tinham recuado. Os dois passaram a jogar como volantes, e o Luiz Henrique, como lateral.”
[2] Na última semana de janeiro, haviam deixado o Botafogo, entre outros, Thiago Almada, Luiz Henrique, Tiquinho Soares, Junior Santos e Adryelson, além do técnico Artur Jorge. O sistema defensivo foi mantido, o ataque sofrerá mudanças e o banco será essencialmente outro.
[3] No livro Homenagem à Catalunha.