despedida
Consuelo Dieguez Jan 2025 18h27
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Em 1976, o diplomata Rubens Ricupero era conselheiro na Embaixada do Brasil nos Estados Unidos quando lhe coube informar o governo brasileiro sobre as eleições presidenciais americanas daquele ano. A disputa estava acirrada entre o democrata Jimmy Carter, governador da Geórgia, e o republicano Gerald Ford, que assumira a Presidência em 1974, depois do escândalo Watergate, responsável pela renúncia de Richard Nixon. Para parte da opinião pública, Carter não passava de um caipira. Ford, por sua vez, fora carimbado com a anedota de que, devido às pancadas que levou quando foi jogador de futebol americano, não era capaz de andar e mascar chiclete ao mesmo tempo.
Os informes sobre a campanha que Ricupero enviava ao Itamaraty não continham boas notícias para a ditadura brasileira, comandada à época pelo general Ernesto Geisel, que se comprometera a fazer uma “distensão lenta e gradual” do regime. As pesquisas davam a vitória de Carter como certa, e os relatórios de Ricupero indicavam que, caso as projeções se concretizassem, a eleição americana seria “uma dor de cabeça” para o governo militar. “Eu informava, entre outras coisas, que, na campanha, Carter havia mencionado o Brasil como violador dos direitos humanos”, me contou Ricupero no mês passado, poucos dias depois da morte do ex-presidente americano, em 29 de dezembro, aos 100 anos. “Além disso, Carter criticava o acordo nuclear assinado entre Brasil e Alemanha, que era caro aos militares, pois poderia transformar o país numa potência atômica, coisa que os americanos não queriam”, acrescentou o diplomata de 87 anos, ex-ministro da Fazenda e um dos luminares da política externa brasileira, autor do livro A diplomacia na construção do Brasil (1750-2016).
As verdades inconvenientes que Ricupero enviava ao Itamaraty eram, por vezes, minimizadas pelo cauteloso embaixador do Brasil em Washington, João Batista Pinheiro, que não queria desagradar o regime. O fato é que, pela primeira vez, a ditadura estava sendo contestada por um candidato à Presidência dos Estados Unidos.
Até então, o ministro das Relações Exteriores, Antônio Francisco da Silveira, mantinha uma relação muito próxima com Henry Kissinger, secretário de Estado de Gerald Ford, o que deixava o regime militar numa situação confortável. Talvez por isso, o governo brasileiro custou a acreditar que Carter pudesse ganhar. “Ele era do Sul profundo, uma região racista, reacionária. Um fazendeiro de amendoim, batista fervoroso, que dava aula na escola bíblica aos domingos”, relembrou Ricupero.
Carter vinha de um lugarejo chamado Plains, onde 80% da população era negra. Ao contrário da minoria branca da região, o democrata apoiava o avanço civil dos negros e os direitos dos imigrantes, além de defender o meio ambiente. Eleito, chegou a instalar placas de energia solar no telhado da Casa Branca, que foram retiradas por seus sucessores. Também tinha uma grande preocupação social e, em razão de sua habilidade como marceneiro, chegou a construir, ele mesmo, casas para os mais pobres. Criou ainda um programa habitacional para a população carente.
A vitória de Carter acabou acontecendo por causa do desejo de mudança dos americanos, ainda abalados pela Guerra do Vietnã e pelo escândalo envolvendo Nixon. “Ele era uma novidade. Foi a primeira e a última vez que um candidato à Presidência dos Estados Unidos transformou os direitos humanos e a paz em tema de campanha”, disse Ricupero. “Acredito que hoje, com aquele Sul – de onde ele saiu – totalmente republicano, a vitória seria impossível.”
Para a sociedade americana, machucada pela guerra e a desilusão política, Carter representava o fortalecimento dos valores humanos e o reestabelecimento de certa leveza no país. Por gostar muito de jazz, rock e country, ele tinha uma boa relação com músicos, como Bob Dylan e Willie Nelson. Muitos deles o apoiaram. Na Casa Branca, promoveu eventos de jazz, inaugurando um estilo descontraído que seria copiado por Bill Clinton e Barack Obama. O compositor Willie Nelson chegou a fumar maconha com o filho de Carter na Casa Branca.
O político recebeu também o apoio de artistas plásticos, como Andy Warhol, que chegou a pintar uma série de retratos dele em 1976. Analistas, à época, avaliaram que a adesão da classe artística à sua candidatura teve um impacto grande na atração dos votos dos eleitores mais jovens. Carter foi o primeiro presidente americano a utilizar a música como política de campanha e estratégia diplomática.
Depois de tomar posse, em 20 de janeiro de 1977, Carter cumpriu o que se dispusera a fazer. Para desespero da ditadura brasileira e de outras na América Latina, como as do Chile e da Argentina, o tema central de sua política externa passou a ser os direitos humanos. Com isso, as relações com o Brasil se deterioraram rapidamente.
Contrariado com a repressão política imposta pelos militares, Carter decidiu agir. A primeira iniciativa foi enviar sua mulher, Rosalynn Carter, ao Brasil, onde ela se encontrou com familiares de presos políticos. O governo também a recebeu, meio a contragosto. Geisel e Silveira ficaram bastante aborrecidos por terem que ouvir a mulher do presidente americano falar sobre um tema que eles achavam dizer respeito apenas aos brasileiros.
O encarregado de tomar notas do encontro de Rosalynn com Geisel e Silveira foi um jovem secretário do Ministério das Relações Exteriores, Celso Amorim, que viria a se tornar chanceler e hoje é assessor internacional do presidente Lula. Ele me contou que Silveira não fez mais que ouvir Rosalynn, sem se estender em maiores considerações (afinal, o governo não admitia a existência de presos políticos). Por reproduzir com precisão a conversa, as anotações de Amorim agradaram muito seu chefe e lhe valeram, inclusive, uma promoção. “Devo isso ao Carter”, brincou Amorim, de 82 anos. Embora defensor das posições democráticas do ex-presidente americano, o assessor de Lula fez uma ressalva em nossa conversa: “Carter não se mostrou tão duro com outras ditaduras de países amigos dos Estados Unidos fora do continente americano.” Uma delas era a Coreia do Sul.
Em 1978, foi a vez de o próprio Jimmy Carter aportar no Brasil. O governo o recebeu friamente. Depois da visita, as relações entre os dois países azedaram ainda mais. Embora não tenha feito qualquer cobrança em relação à mudança do regime, Carter voltou a mencionar a tortura nas prisões – e ainda cometeu a ousadia de levar de carona no seu carro, para uma conversa privada, o então cardeal-arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, mundialmente conhecido por suas críticas à ditadura.
A insatisfação do regime militar com Carter atingiu dimensões febris quando ele passou a pressionar o governo alemão para cancelar o acordo nuclear com o Brasil, o que acabou ocorrendo. Pelo programa, o país receberia reatores da Alemanha, com transferência da tecnologia que permitiria enriquecer o urânio. Amorim é crítico dessa campanha de Carter. “O Brasil tinha o direito de implantar seu programa nuclear”, afirmou. Outros países também tiveram suas pretensões de desenvolvimento nuclear barradas pelos Estados Unidos, entre eles a Coreia do Sul e o Paquistão.
A ditadura tomaria mais uma pancada dos americanos. Dessa vez, do Congresso, que baixou uma resolução determinando que o Departamento de Estado produzisse relatórios sobre a situação dos direitos humanos em todos os países com os quais os Estados Unidos tinham acordos de colaboração militar. Foi demais para Geisel, que considerou a medida uma intromissão sem tamanho. Imediatamente, ele cancelou um tratado de cooperação militar entre Brasil e Estados Unidos assinado em 1952 por Getúlio Vargas, e com isso impediu que os americanos xeretassem os porões brasileiros.
A política progressista de Carter resultou também na devolução aos panamenhos do Canal do Panamá, até então sob controle dos Estados Unidos, e na intermediação de um acordo de paz entre Egito e Israel, países que estavam rompidos desde a guerra de 1967. Outra decisão importante na área externa foi a normalização das relações com a China, processo que começara com Nixon, em 1972. Foi Carter quem reconheceu a República Popular da China – e não mais Taiwan – como o único governo legal chinês. Em 1979, num gesto que surpreendeu o mundo, o americano recebeu o líder Deng Xiaoping na Casa Branca. Em seu diário pessoal, registrou: “A visita de Deng Xiaoping foi uma das experiências mais agradáveis da minha Presidência.”
Apesar de tudo isso, Carter não se reelegeu. Em 1980, foi derrotado fragorosamente pelo conservador republicano Ronald Reagan.
Matias Spektor, professor de Relações Internacionais na Fundação Getulio Vargas, enumera alguns fatores que levaram à derrota. O primeiro foi a disparada da inflação americana, provocada pela crise do petróleo de 1979. Para um país cuja economia vinha cambaleante, devido aos longos anos de guerra no Vietnã, a alta no preço do petróleo levou ao pior dos mundos: a estagflação, ou seja, inflação com recessão. Além disso, impactou muito negativamente na opinião pública a fracassada tentativa do governo Carter de resgatar americanos que haviam sido feitos reféns na Embaixada dos Estados Unidos em Teerã, também em 1979, logo depois da Revolução Iraniana – que derrubou o xá Mohammad Reza Pahlavi e levou ao poder o aiatolá Ruhollah Khomeini.
Para os americanos, esse episódio foi um fiasco imperdoável. “Acho que Carter teve um tremendo azar”, avaliou Amorim. “Lembre-se: sorte é um componente fundamental para qualquer governo. Napoleão Bonaparte, antes de nomear algum general, perguntava: ‘Ele tem sorte?’”
Depois de deixar a Presidência, o democrata não voltou mais à política. Preferiu se aferrar à luta pela paz e pelos direitos humanos, por meio de sua fundação, o Centro Carter, fundado em 1982 e comandado por ele e sua mulher. Pelas ações bem-sucedidas nessa seara, Carter foi muitas vezes apontado como “o melhor ex-presidente” que os Estados Unidos tiveram.
Amorim voltou a encontrá-lo quando ele já atuava na fundação, e os dois ficaram próximos. O diplomata brasileiro elogia o Centro Carter, que virou referência como observador de processos eleitorais e mediador de conflitos. Segundo Amorim, a fundação assumiu posições muito firmes e justas em processos que ele também acompanhou de perto, como o referendo revogatório venezuelano, que em 2004 confirmou a vitória de Hugo Chávez numa eleição presidencial contestada pela oposição. No mais recente pleito da Venezuela, o Centro Carter foi convidado como observador, assim como o Brasil, e não reconheceu a vitória de Nicolás Maduro. “O trabalho do Centro é muito sério e isento. Isso é louvável”, disse Amorim.
Não deixa de ser simbólico que um ex-presidente americano, com ideias progressistas e pacifistas, saia de cena justamente no momento que a Casa Branca passa a ser ocupada por um conservador belicista. É certo que, em relação à política externa, democratas e republicanos têm posturas muito parecidas. Ora provocam guerras, como as do Vietnã, do Iraque, da Líbia e do Afeganistão, ora as alimentam, como nos casos dos conflitos entre Rússia e Ucrânia, ou entre Israel e Palestina, ao garantirem o envio de armas e equipamentos para seus aliados. Com Donald Trump no poder, a impressão é de que um caos maior se avizinha, dado seu discurso radical, violento e segregacionista.
Antes mesmo de tomar posse, no último dia 20 de janeiro, o republicano tratou de tocar o terror no mundo. Prometeu expulsar os imigrantes – seu discurso de sempre – e anunciou a disposição de retomar o controle do Canal do Panamá e de se apossar da Groenlândia, território pertencente à Dinamarca. Ousadia das ousadias, admitiu ainda a possibilidade de os Estados Unidos anexarem o Canadá. Na posse, Trump foi além. Assinou documentos retirando o seu país da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Acordo de Paris, que tem por objetivo estudar ações de preservação do meio ambiente. No dia seguinte, numa velocidade furiosa, iniciou a deportação de imigrantes ilegais. Os brasileiros expulsos nessa condição chegaram ao Brasil algemados e acorrentados. Não bastava deportar. Era preciso humilhar.
Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington, vê essas declarações de Trump como bravatas. “Acho que a intenção dele é tirar o foco dos sérios problemas que terá pela frente”, me disse. Entre eles, o aumento da inflação, caso leve adiante a ideia de taxar as importações da China e de diversos países. O republicano chegou a afirmar que aumentará em 100% a taxação sobre vários produtos brasileiros. “Isso será um desastre para os Estados Unidos”, acredita Barbosa, de 86 anos. “Trump vai aproximar ainda mais o mundo da China, além de fortalecer o Brics, que ele vem atacando sistematicamente.”
As falas intempestivas do atual mandatário americano são como combustível em um cenário já bastante inflamado. “Estamos assistindo a um momento muito duro da democracia ao redor do mundo, com o crescimento da extrema direita e do populismo de direita”, disse Amorim.
O embaixador Gelson Fonseca Junior, fundador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), acha difícil traçar qualquer paralelo entre Jimmy Carter e Trump. “Carter tinha um comportamento de homem público e um modo tolerante de conviver que não têm nada a ver com o que veio depois e com a degradação que estamos presenciando agora em todo o mundo. Acho que as pessoas só perceberam o valor de Carter depois que ele se foi.”