questões geopolíticas
Morgane Le Cam Mar 2025 12h02
16 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
Tradução de Claire Laribe
Ephrem Ngonzo parece tomado pela ansiedade. Seu olhar é vacilante. Ele procura as palavras. Sua fala é fragmentada. Há meses, esse jornalista centro-africano de 29 anos espera o momento de desabafar. “Ajudei a manter meu país no caos”, ele murmura, durante uma conversa ocorrida em 30 de setembro do ano passado. “Agora, quero denunciar tudo, para reparar o mal que fiz, para me libertar da vergonha e do arrependimento.”
Ngonzo chegou a Paris depois de fugir da República Centro-Africana, escapando das ameaças de morte do Grupo Wagner, uma organização paramilitar russa, hoje onipotente na capital Bangui. O jornalista tem uma visão privilegiada de tal poder: durante dois anos e meio, entre 2019 e 2022, Ngonzo foi responsável pelas relações entre os mercenários do Grupo Wagner e a imprensa local. Em outras palavras, foi o homem da “desinformação” e das “mensagens de ódio”, como ele próprio confessa.
Levou um ano e meio para que Ngonzo conseguisse se libertar do sistema do qual, de certa forma, se tornara prisioneiro. A fuga só foi possível graças ao apoio da Plataforma de Proteção de Denunciantes na África. Durante oito meses, o jornal francês Le Monde e seus parceiros internacionais, sob coordenação da organização Forbidden Stories – uma rede de jornalistas investigativos fundada em 2017 para dar continuidade ao trabalho de repórteres silenciados –, reconstituíram a história desse “arrependido” incomum e, por meio dela, também investigaram as manobras do Grupo Wagner na República Centro-Africana, país que serviu para os mercenários testarem suas técnicas de influência no continente.
Em uma manhã de novembro de 2019, uma ligação telefônica mudou radicalmente a vida de Ephrem Ngonzo. Naquela época, ele era redator-chefe do Le Potentiel Centrafricain, um popular site de notícias. Do outro lado da linha, alguém se apresentou como membro da “missão russa na República Centro-Africana” – denominação usada pelo Grupo Wagner para encobrir suas atividades de comunicação no país, desde a chegada dos primeiros mercenários, em 2018.
Um encontro foi marcado para o mesmo dia. Em um café em Bangui, Ngonzo se deparou com um russo de compleição atarracada e boné na cabeça. O desconhecido se apresentou apenas como Micha – revelar sua identidade estava fora de questão. O jornalista lembra que o homem parecia “muito nervoso”. Uma pistola despontava em sua cintura. A proposta de Micha? Uma colaboração secreta.
A identidade do russo, tão preocupado em manter o anonimato, pode ser agora revelada: Mikhaïl Mikhaïlovich Prudnikov. Antigo membro do Nachi, movimento de jovens apoiadores de Vladimir Putin, esse homem de 37 anos é um dos responsáveis na República Centro-Africana pelo funcionamento do Africa Politology, uma das principais plataformas de desinformação do Grupo Wagner no continente africano.
No café, Mikhaïl Prudnikov e Ngonzo acertaram os termos da colaboração. “Micha me propôs publicar artigos no site do Potentiel exaltando o Exército centro-africano e os russos”, recorda o jornalista. A proposta se enquadrava perfeitamente na linha editorial da publicação, conhecida por apoiar o presidente centro-africano Faustin-Archange Touadéra desde sua eleição, em 2016.
Recém-chegado ao poder, o presidente enfrentava as consequências da retirada de forças militares da França – um de seus principais aliados – do território centro-africano. Em março de 2016, Paris repatriara o último soldado da Operação Sangaris, sem ter conseguido neutralizar os grupos armados que dividiam o país.[1] Assim, quando os mercenários russos começaram a chegar, em 2018, Ngonzo sentiu certo alívio. Acreditava que esses homens, apresentados pelo regime como “instrutores”, seriam os “salvadores da pátria”. Para ele, a colaboração proposta por Micha parecia a oportunidade perfeita de custear seus estudos de direito, interrompidos por falta de recursos. A quantia oferecida era atraente: 200 mil francos CFA, a moeda local, por mês (cerca de 1,9 mil reais na época), o equivalente a duas vezes e meia o seu salário de redator-chefe. A contrapartida: publicar em torno de quinze artigos no site do Potentiel.
Ngonzo aceitou “sem hesitar um único instante”, nas suas palavras.
No início, a sua missão era simples. Mikhaïl Prudnikov enviava os textos já redigidos pelo aplicativo Telegram. “Para publicá-los, eu só precisava corrigir e adaptar ao estilo jornalístico”, conta Ngonzo, que assinava com diversos pseudônimos, como Patrick.
Os meses passaram. Micha estava satisfeito com seu recruta. No outono de 2020, ele nomeou Ngonzo como o responsável pelo relacionamento entre o Grupo Wagner e as mídias locais, multiplicando o salário do jornalista duas vezes e meia. Com uma renda mensal de 500 mil francos CFA (cerca de 4,7 mil reais), Ngonzo conseguiu escapar da pobreza que assola o país e deixou o Potentiel Centrafricain para se dedicar à sua nova função: distribuir, todos os meses, artigos sugeridos por Mikhaïl Prudnikov a “dez ou quinze jornais”. Para isso, contava com uma rede de colegas editores, cada um recebendo 10 mil francos CFA (cerca de 95 reais) por artigo republicado.
A escolha dos veículos, a redação dos artigos e o agendamento de encontros, tudo era coordenado via Telegram por Ngonzo e também por Micha, a quem o jornalista passou a chamar de Michelo Boos em sua lista de contatos no celular. Em 12 de maio de 2022, o russo lhe enviou um texto pelo Instagram, que foi reproduzido integralmente em diversos meios de comunicação.
Outro porta-voz do Grupo Wagner no país, registrado no celular de Ngonzo como Johnny Français, também se encarregou de fazer pedidos a ele. Em 6 de setembro de 2022, enviou ao jornalista, pelo Telegram, o vídeo de uma criança centro-africana recitando um texto que enaltecia a Rússia. “O vídeo mostra a verdadeira atitude positiva dos centro-africanos em relação à ajuda russa. Como dizem: ‘La bouche d’un bêbé dit la verité’ [A boca de um bebê fala a verdade]”, escreveu Johnny Français, em um comentário ao vídeo. Esses falsos testemunhos de crianças foram difundidos nos meios de comunicação da rede do Grupo Wagner, assim como em várias contas pró-Rússia no então Twitter.
Em uma tabela do Excel intitulada Organização da imprensa, publicações na mídia, o Grupo Wagner calculou o custo das operações de desinformação orquestradas na República Centro-Africana em abril de 2021: foram 28 717 dólares (cerca de 164 mil reais na cotação da época). Para receber o pagamento, Ngonzo preparava, em formato de planilha, um inventário mensal das publicações, que depois enviava a Micha.
O jornalista revela que recebia o dinheiro, “sempre em espécie e sem recibo”, no Camp de Roux, um complexo militar situado em frente ao quartel-general das Forças Armadas centro-africanas. Esse local servia também como sede do Grupo Wagner em Bangui, onde Micha atuava, seguindo a estratégia de desinformação russa elaborada por analistas da área de “sociologia política”, igualmente instalados ali, no Camp de Roux.
Em Bangui, assim como em Bamako, capital do Mali, e Uagadugu, capital de Burkina Faso, equipes especializadas em “operações de influência” trabalhavam a serviço das ambições de Vladimir Putin na África. Um documento interno do Grupo Wagner, sem data, menciona a necessidade de “promover uma imagem positiva da Rússia entre os cidadãos africanos” e de incentivar a “formação de atitudes negativas em relação às potências europeias”. Para intensificar essa tensão, Ngonzo foi encarregado de organizar manifestações contra uma missão da ONU na República Centro-Africana, a Minusca,[2] e contra dois países em particular: a França e os Estados Unidos.
No final de agosto de 2021, Ngonzo e Micha viajaram de carro para Mbaïki, município situado cerca de 100 km a sudoeste de Bangui. É uma área controlada pelo Grupo Wagner, que instalou nos arredores da cidade várias empresas de mineração, como a Lobaye Invest, com o objetivo de explorar jazidas de ouro e diamantes.
Em Mbaïki, a missão de Ngonzo foi encenar uma manifestação, que a “direção de ciências políticas” do Grupo Wagner batizou de “Stop Minusca”, conforme um documento interno e sem data ao qual Le Monde e seus parceiros tiveram acesso. O documento indicava que o orçamento mensal preestabelecido de 4 636 dólares (cerca de 24 mil reais na época) destinava-se ao preparo de “cinco manifestações de duzentas pessoas em cada uma delas”. Outros 1 684 dólares (em torno de 8,7 mil reais) estavam reservados para “quatro protestos planejados, com quinze a vinte pessoas em cada um deles”.
A manifestação em Mbaïki foi organizada nas proximidades da base das forças da missão da ONU, conhecidas como “capacetes-azuis”. “Paguei 2 mil francos CFA para cada jovem segurar cartazes nos quais os russos escreveram mensagens como ‘Não à Minusca’ ou ‘Fora Minusca’”, conta Ngonzo. No dia do protesto, o jornalista distribuiu pessoalmente os cartazes e redigiu um artigo com fotos que foi publicado em seus veículos “parceiros”.
Em um texto de 31 de agosto de 2021, o site pró-Rússia Afrique Media destacou também o “vivo descontentamento […] crescente no país” contra a missão da ONU, incapaz de cumprir o papel de manter a paz desde o início de suas operações, em 2014. Entre os motivos do descontentamento, o veículo dizia que a morte de uma menina fora, na verdade, um assassinato promovido “pelos capacetes-azuis” em Bria, no Leste do país. O assassinato – cuja notícia foi difundida sobretudo por meios de comunicação africanos alinhados a Moscou – jamais foi comprovado.
O Afrique Media sabia que a informação era falsa, mas mesmo assim a divulgou. Seu proprietário, Harouna Douamba, um empresário costa-marfinense de origem burquinense, foi descrito pela organização Repórteres sem Fronteiras como um “lobista próximo à galáxia Wagner”. A Meta, dona do Facebook, desmantelou a rede de desinformação de Douamba na República Centro-Africana em abril de 2021, mas o empresário restabeleceu suas operações em Burkina Faso um ano depois. Enquanto isso, a operação “Stop Minusca” prosseguiu por meses, sempre recorrendo aos mesmos slogans e cartazes com inscrições em letras maiúsculas vermelhas e pretas.
No Camp de Roux, Micha passou a se ausentar com frequência. Segundo Ngonzo, “ele viajava muito”. No final de 2021, começaram a surgir, a cerca de 3 mil km de Bangui, protestos similares contra a missão da ONU no Mali, a Minusma,[3] há mais de uma década também incapaz de manter a paz no país. Em Bamako, a capital do Mali, a junta pró-russa, no poder desde 2020, se preparava para a chegada dos mercenários do Grupo Wagner. Assim como em Bangui, multidões agitavam bandeiras russas e acusavam a missão da ONU de conluio com grupos armados islâmicos.
Nas bases da Minusma, frequentemente cercadas por manifestantes, os capacetes-azuis desconfiavam de manipulação. “Era evidente”, relatou um ex-integrante da missão no Mali. “Tudo parecia seguir um roteiro e fazer parte da agenda de desestabilização promovida por Moscou. A população local recebia pagamento para protestar contra a gente.” De acordo com a mesma fonte, esse “roteiro russo”, com o objetivo de dar um verniz popular à operação de descredibilização da Minusma, foi então amplificado nas redes sociais, “com contas falsas, testemunhos falsos e vídeos com reprodução automática, para espalhar desinformação e exaltar os méritos da junta militar e dos russos”. Encurralada, a Minusma retirou-se do Mali em 2023.
Também em 2021, as campanhas contra a França, seus diplomatas e soldados começaram a se intensificar em Bangui, Bamako, Uagadugu e Niamey – respetivamente capitais da República Centro-Africana, do Mali, de Burkina Faso e do Níger. “Em todos esses lugares, os russos aplicam o mesmo método”, resume Ngonzo. Em Bangui, o governo do presidente Touadéra passou a exibir abertamente sua aliança com os mercenários de Putin. Em dezembro de 2021, Fidèle Gouandjika, ministro-conselheiro especial do presidente, publicou em sua página no Facebook uma foto usando uma camiseta com a frase “Eu sou Wagner”, enquanto a segurança presidencial passou a ser garantida por agentes russos.
Foi então que Ngonzo começou a ser forçado a aceitar a realidade que tentava negar. Já não podia mais ignorar a verdadeira identidade de seus empregadores: o Grupo Wagner. “Percebi que estava me colocando em perigo”, relata. Mas era tarde demais. “Eu havia me envolvido no sistema de comunicação deles.” E, como Micha o alertara, “os russos não brincam com seus interesses”. Ou seja, a traição não seria tolerada.
Ephrem Ngonzo então resgatou em sua memória que, em julho de 2018, os corpos de três jornalistas russos que investigavam os mercenários de Yevgeny Prigozhin, o chefe do Grupo Wagner, haviam sido encontrados na República Centro-Africana. Em Bangui, “ninguém ousou comentar ou investigar o caso”, por medo de retaliações, relembra o jovem, que até hoje reluta em pronunciar o nome “Wagner”. Na época, as autoridades russas e centro-africanas alegaram que os três jornalistas haviam sido mortos por rebeldes, mas as circunstâncias reais do crime permanecem obscuras até hoje.
Ngonzo passou a temer por sua vida em fevereiro de 2022, quando Micha o levou ao hospital de Bouar, a 400 km a noroeste da capital, para fazer uma matéria sobre dois civis supostamente salvos pelo Grupo Wagner depois de um ataque rebelde. No quarto do hospital, o jornalista notou algo estranho. Os dois homens, feridos na cabeça, no braço e nas costas, pareciam tensos. “Eles me olhavam fixamente, como se quisessem dizer algo que não podiam expressar”, conta.
Durante a entrevista, Micha ordenou que os médicos se afastassem. Ele proibiu Ngonzo de falar diretamente com os feridos, designando um intérprete do Grupo Wagner para transmitir o relato. Para o jornalista centro-africano, tratava-se claramente de uma encenação. De volta a Bangui, ele confrontou Micha e exigiu que contasse a verdade. “Ele admitiu que os russos tinham atacado por engano aqueles peúles [grupo étnico africano] e encoberto o incidente, alegando que os haviam salvado”, conta o jornalista. Mesmo assim, Ngonzo acabou publicando na imprensa local artigos que reproduziam a versão “pronta para usar” fornecida pelos mercenários.
No entanto, logo depois, em 28 de março de 2022, o jornal local Les Dernières Nouvelles expôs os bastidores da operação de desinformação russa. Aos olhos de Micha, a informação só podia ter partido do seu recruta. Enfurecido, Micha apareceu na casa de Ngonzo, exigindo que entrasse no carro. “Eu nunca havia contado a ele onde morava. Achei que tinha chegado minha hora”, diz, ofegante, o jornalista.
A cerca de 30 km de Bangui, no meio de uma floresta, Micha mandou o motorista parar o carro. Sentado no banco de trás, ao lado do russo, Ngonzo tentou manter a calma. “Ele pegou meu celular e o entregou ao intérprete, sentado ao lado do motorista, para que vasculhasse o aparelho. Em seguida, tirou a arma da cintura, colocou-a no assento entre nós e disse: ‘Se você estiver mentindo, vai morrer hoje. Você nos conhece, já fizemos isso antes.’”
À medida que Ngonzo vai se lembrando do episódio, seus olhos ficam marejados. Ele se agita, tem dificuldade para falar. “Ele me pressionava a confessar, mas eu continuava negando, pois nunca o havia traído.” Por fim, foi abandonado na floresta, com uma ameaça: “A partir de hoje, você está sob vigilância.” Apavorado, Ngonzo continuou colaborando com os mercenários, enquanto esperava uma oportunidade de escapar.
No Camp de Roux, Micha atribuiu uma nova missão ao jornalista, relacionada à presença do Grupo Wagner no país: proteger o poder do presidente Faustin-Archange Touadéra. Reeleito em 2020, o presidente já vislumbrava a possibilidade de um terceiro mandato dali a cinco anos e planejava recorrer a uma estratégia comum em vários países africanos: fazer uma revisão da Constituição. No entanto, a oposição e alguns membros da Corte Constitucional, incluindo a sua presidente, Danièle Darlan, resistiram à manobra. No fim de outubro de 2022, Touadéra resolveu o impasse, publicando dois decretos que destituíram Darlan e outro juiz de seus cargos.
O Grupo Wagner foi acionado para auxiliar na legitimação dessas demissões perante a opinião pública. Em 27 de outubro, Micha telefonou para Ngonzo e pediu que ele arrumasse três falsos especialistas para se apresentarem na rádio Lengo Songo, emissora financiada pelo Grupo Wagner. Qual seria a função deles? Manifestar uma “opinião positiva a respeito dos decretos” presidenciais, como indica a gravação de uma das conversas enviada ao Le Monde e seus parceiros por Ngonzo. Como um bom soldado, o jornalista encaminhou a Micha, via Telegram, a lista dos “especialistas” requisitados.
No dia seguinte, os três supostos especialistas – que receberam 20 mil francos CFA (cerca de 200 reais) cada um, segundo o próprio Micha – participaram do programa na rádio Lengo Songo, apoiando as destituições dos membros da Corte Constitucional. Ngonzo gravou a entrevista e a enviou a outras emissoras de rádio. “Era tudo falso”, admite o jornalista. “Os textos que eles leram foram escritos por Micha.”
Nos meses seguintes, junto com organizações da sociedade civil ligadas ao Grupo Wagner – como o Front Républicain, liderado por Héritier Doneng, nomeado ministro dos Esportes no início de 2024 –, o jornalista contribuiu para divulgar em toda parte a ideia da necessidade de uma reforma constitucional. “A população foi manipulada”, lamenta Ngonzo. (Apesar de repetidas tentativas de contato, Doneng não respondeu aos pedidos de entrevista.)
Em 30 de julho de 2023, a nova Constituição, que permitia a reeleição ilimitada do presidente, foi aprovada em um referendo, com mais de 95% dos votos. A República Centro-Africana não foi exceção: um mês antes, no Mali, a junta militar também aprovou uma revisão constitucional, permitindo a candidatura de militares ao poder. Em Burkina Faso, um processo semelhante está em curso.
Em Bangui, enquanto o presidente Touadéra e seus aliados russos finalizavam a mudança da Constituição, Ngonzo enxergou uma chance de escapar. A guerra na Ucrânia, iniciada por Putin em fevereiro de 2022, forçou o Kremlin a cortar o orçamento destinado às operações do Grupo Wagner na República Centro-Africana. No segundo semestre do mesmo ano, Micha avisou Ngonzo de que ele seria menos requisitado e reduziu o salário do jornalista a um quarto do valor original.
Mesmo com medo, Ngonzo aproveitou a brecha para justificar sua saída, alegando ter conseguido um novo emprego em uma rádio local. Micha lamentou, mas aceitou, deixando claro que continuaria de olho nele. Às vezes, no caminho entre sua casa e a nova redação, Ngonzo sentia como se estivesse sendo seguido.
O clima de desconfiança tornou-se insuportável para Ephrem Ngonzo. Ele decidiu romper o silêncio imposto pelo Grupo Wagner e confiou sua situação a um conhecido, que o colocou em contato com a organização Forbidden Stories. Ao mesmo tempo, a Plataforma de Proteção de Denunciantes na África começou a planejar sua retirada do país.
No dia 6 de fevereiro do ano passado, já com um visto francês em mãos, Ngonzo estava prestes a embarcar para a França, quando, na sala de espera do aeroporto de Bangui, foi abordado por um policial, que o deteve e confiscou seu passaporte. O jornalista protestou. “Se você continuar, não vai ter que lidar comigo, mas com os russos”, disse o policial, segundo o relato de Ngonzo. Algumas horas depois, ele foi liberado, mas ordenaram que comparecesse no dia seguinte à delegacia central para um interrogatório. À noite, entretanto, um vizinho o alertou: homens brancos haviam estado em sua casa, oferecendo dinheiro a quem ajudasse a localizar Ngonzo.
O jornalista conseguiu se esconder antes de deixar a República Centro-Africana, cruzando o Rio Ubangui em uma canoa. Permaneceu por vários meses na vizinha República Democrática do Congo, aguardando um novo visto para a França – até que finalmente embarcou para Paris, em 27 de junho de 2024. Desde então, Ngonzo afirma “não ter mais medo”. Instalado com sua família em um local que ele prefere não revelar, espera por um futuro mais tranquilo. (Seu ex-empregador, Mikhaïl Prudnikov, o Micha, não respondeu aos pedidos de entrevista.)
Desde a morte de Yevgeny Prigozhin, fundador do Grupo Wagner, em um acidente aéreo ocorrido em agosto de 2023, o Estado russo iniciou uma ampla operação para assumir o controle do império militar, informacional e comercial construído pelo grupo em quatro países africanos a partir de 2017: a República Centro-Africana, o Mali, a Líbia e o Sudão.
Sob a coordenação do Ministério da Defesa, dois órgãos da Rússia dividiram as principais tarefas. À Direção-Geral de Inteligência do Estado-Maior das Forças Armadas (GRU, na sigla em russo), coube a missão de realocar os mercenários em uma nova estrutura, o Africa Corps. Já o Serviço Federal de Segurança (FSB) ficou responsável por transferir as redes de desinformação do Grupo Wagner no continente para uma nova agência denominada African Initiative.
Em Burkina Faso e no Níger, dois países sob a influência de Moscou depois da morte de Prigozhin, esse novo dispositivo controlado pelo Ministério da Defesa russo foi instalado sem maiores dificuldades entre 2023 e 2024. Onde o Grupo Wagner já estava profundamente enraizado, entretanto, a captura da estrutura da organização paramilitar pelo Kremlin foi mais complexa.
Na República Centro-Africana, principal laboratório do grupo no continente, assim como no Mali, que abriga o maior contingente de paramilitares da África (cerca de 2 mil homens), os antigos comandantes de Prigozhin permaneceram no comando. Ainda não está claro se eles agora servem ao Estado russo ou se continuam agindo de forma independente, mantendo as redes do antigo chefe. Em Bamako, no Mali, fontes diplomáticas e da área de segurança apontam que alguns mercenários se recusaram a formalizar sua relação com o Ministério da Defesa russo, enquanto as tensões com os soldados malineses só aumentam.
Reportagem publicada originalmente no Le Monde
[1] A Operação Sangaris, que durou de 2013 a 2016, foi uma intervenção militar das Forças Armadas da França, com o aval da ONU, na República Centro-Africana (antiga colônia francesa). A operação ocorreu depois de um apelo internacional, em 2012, do então presidente centro-africano François Bozizé, em luta contra o movimento rebelde Séléka. O nome da operação vem da borboleta Cymothoe sangaris. (Todas as notas são da Redação.)
[2] A Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização da República Centro-Africana (Minusca), iniciada em 2014, é uma operação da onu para proteger civis e garantir a ordem no país.
[3] A Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização do Mali (Minusma) foi lançada em 2013 para conter rebeldes independentistas da região de Azawad, no Norte malinês.