diário do geraldo
Mar 2025 11h08
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1º DE FEVEREIRO_Começou uma guerra de bonés, que acompanhei com galhardia. De um lado, “O Brasil é dos brasileiros”. De outro, “Comida barata novamente”. Como eu sempre dou um passo além, mandei confeccionar um sombreiro com a frase “Letras de Crédito do Desenvolvimento (LCD) viabilizarão investimentos privados”.
2 DE FEVEREIRO_Não é novidade que o governo precisa melhorar a comunicação. Temos feito muito pelo país, mas a população não fica sabendo da missa a metade. Ciente disso, tomei uma atitude que poderá ser um divisor de águas. Algo que pode salvar a democracia: publiquei um artigo no Globo intitulado O parafuso e a máquina. Agora é esperar a ABL ligar. Merval nunca perdoou minha guinada para o comunismo, mas até ele terá dificuldade de argumentar contra a minha candidatura.
Tá tão quente que mandei um ofício para os Estados Unidos sugerindo que Donald Trump crie uma tarifa para conter o avanço do calor.
3 DE FEVEREIRO_Tive meu dia de Fernanda Torres. Fiz um discurso emocionado ao receber uma placa comemorativa da Associação Brasileira da Indústria de Semicondutores. Sou mesmo um fio desencapado.
Sidônio entrou esbaforido no meu gabinete. Pediu para eu não usar o sombreiro, não escrever mais para o Globo, não usar meias divertidas e trocar meu desodorante. Deu o recado e sumiu. Voltei para casa preocupado. Sem que fosse minha intenção, acho que estou ofuscando o President’Lula. A placa da Associação Brasileira da Indústria de Semicondutores devia ter servido de alerta. Preciso moderar o meu carisma. Mas como?
4 DE FEVEREIRO_Convoquei o Norberto Prestes, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos, para entender duas coisas. A primeira é a seguinte: por que diabos escolheram a sigla Abiquifi? Siglas são para simplificar. Se Sidônio sabe disso, vai ter urticária. E a segunda, que é o que realmente importa: esse negócio de cogumelo juba-de-leão funciona mesmo?
Já vi que vamos ter trabalho. No final do dia recebi o Alvaro Toubes Prata, diretor-presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial. Por algum motivo, escolheram a sigla Embrapii. É pra pronunciar assim, com dois “is” no final? Como se fosse uma chaleira? Alvaro retrucou dizendo que era uma sigla “inovadora”. Sempre alerta, devolvi de chapa: “Entendi: dis-rup-ti-va.” Nasci em Pindamonhangaba, mas podia ter sido no Vale do Silício.
5 DE FEVEREIRO_Vou fazer a experiência. Sapequei 25 gotas de cogumelo juba-de-leão logo no café da manhã.
Às 10 horas fui pra reunião com o President’Lula, Rui Costa, Haddad e presidentes de estatais. Tive uma espécie de alucinação: era como se minha alma saísse do corpo para ver aquela situação de outro ponto de vista. Meu corpo e minha alma tiveram o seguinte diálogo em inglês.
Alma: I see dead people.
Corpo: Dead people like, in graves? In coffins?
Alma: Walking around like regular people. They don’t see each other. They only see what they want to see. They don’t know they’re dead.
Corpo: How often do you see them?
Alma: All the time. They’re everywhere.
Terminei a reunião numa espécie de epifania política. Será que foi o juba-de-leão?
8 DE FEVEREIRO_Chega! Tudo tem limite! É preciso regular as redes sociais. Acabo de saber que o prefeito de Sorocaba termina seus vídeos dizendo “Vamos fazer dessa cidade a melhor cidade do Brasil para se viver”. E ainda usa um boné com a frase “Vem morar em Sorocaba”. Devia ser tipificado como crime. Nem São Sebastião passou por um martírio assim.
9 DE FEVEREIRO_Libelu, que me conhece bem, veio dizer que meu ego pindamonhangabense foi ferido pelo bufão de Sorocaba. Pode ser. O fato é que Sorocaba está em vias de se tornar um Balneário Camboriú sem balneário.
10 DE FEVEREIRO_Rui Costa ganhou o apelido de Triângulo das Bermudas. Tudo que passa por ele acaba desaparecendo. Sem deixar vestígio.
Tenho tomado juba-de-leão escondido. Se Sidônio descobre, me bota de castigo.
12 DE FEVEREIRO_Sobre as interferências da Janja, já tem gente dizendo que o Lula fez ruptura. É uma pessoa no trabalho e outra completamente diferente em casa. As duas não se comunicam.
Sidônio pediu pra eu explicar a piada: Ruptura é uma série ficcional da Apple tv em que os trabalhadores colocam um chip no cérebro para que as memórias da vida profissional não se comuniquem com as da vida privada. Não é tão divertido quanto os tutoriais do Sebrae, mas quebra o galho num domingo chuvoso.
14 DE FEVEREIRO_Fiz uma prece para São Judas Tadeu, patrono dos casos desesperados e dos negócios sem remédio. Precisamos levantar novamente essa popularidade do President’Lula. Algo me diz que tudo isso tem a ver com a aparição daquele peixe-lanterna.
15 DE FEVEREIRO_Para ter noção do tamanho do estrago, já tem gente chamando a Janja de Rosângela.
16 DE FEVEREIRO_Estava tirando água do joelho no mictório da Vice-Presidência quando percebo a chegada de um vulto. Sidônio cravou os olhos nos meus e disparou: “Não fale nada sobre essas manifestações que vão pedir o impeachment do Lula.”
17 DE FEVEREIRO_Não se fala de outra coisa senão da carta escrita pelo Kakay, na qual ele diz que o President’Lula “está isolado, capturado”. Meu espírito folgazão logo apelidou o texto de Kakarta. Assim que soube, Libelu me mandou um zap: “Controla o carisma!” Devo tudo a essa mulher. Passei o resto da tarde dentro do almoxarifado do Planalto, bem atrás das vassouras e dos baldes. Quero ver o Sidônio me achar.
Enquanto o tempo passava, fiquei matutando como o Kakay é digno de admiração. Lutou muito e conseguiu emplacar o modo como quer ser identificado: por um nome enorme seguido de um aposto. Coisa de imperador. Toda vez é citado como “Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay”.
Recebi o Hugo Motta para passar umas dicas de combover. Expliquei que ele está na categoria “careca piscina”: tá cheio, mas dá pra ver o fundo. Nesse caso, é importante evitar iluminação vinda de cima. Nisso eu tenho vasta experiência.
18 DE FEVEREIRO_Washington Quaquá, que é prefeito de Maricá e vice-presidente nacional do PT, vai pedir uma investigação contra… Anielle Franco. O mesmo Quaquá que, em janeiro, postou uma foto com os herdeiros da família Brazão e insinuou que os mandantes da morte da Marielle foram presos sem provas. É sintomático que Quaquá seja o único petista de que tenho conhecimento a ser eleito para um cargo majoritário no Rio de Janeiro.
Eu e Libelu organizamos um sarau literário para declamar em ritmo de jogral toda a peça legal do Paulo Gonet contra Jair Bolsonaro. O texto do procurador inaugura uma nova categoria literária, a da burocracia poética brasileira. Daqui a cem anos vai ter gente vivendo disso na USP. Evoé, jovem artista!
19 DE FEVEREIRO_Abracei José Dirceu no almoço. Emocionados, berramos: “Cid! Guerreiro! Do povo brasileiro.”
Confesso que tenho ciúmes do Pedro Doria. Só este ano o homem já foi cancelado quatro vezes e ainda gravou um vídeo comovente. É que, depois dessa autocensura do carisma, eu às vezes tenho a impressão de que falo para o vento: com a diferença de que sequer tem ventado. A indiferença é pior do que o ódio. Fico pensando que um cancelamento seria bom para ventilar meu nome por aí.
20 DE FEVEREIRO_Não sei se foi porque o Elon Musk retuitou sobre o impeachment do Lula e a coisa viralizou ou se é uma estratégia comercial mesmo. O fato é que um assessor veio soprar no meu ouvido. “Fica ligado. Trump vai taxar o chuchu. Acho que é um recado pra você.”
Ainda não foi o Chico Buarque, mas pelo menos alguém me notou. Viva eu. Viva tu. Viva a taxa do Chuchu.
Por Renato Terra