cartas
Abr 2025 15h15
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SILVIO ALMEIDA
Achei excelente a reportagem de Ana Clara Costa, Estilhaços na sala (piauí_222, março). A matéria é um exemplo de jornalismo investigativo primoroso, mas seu valor é ainda maior, porque se torna um manual de utilidade pública para as mulheres. A construção do perfil do ex-ministro dos Direitos Humanos, Silvio Almeida, é alinhavada de forma inteligente e com rigor, contendo um certo suspense que nos faz ler a matéria num fôlego só. Parece até o roteiro de um filme de terror. Acredito que muitas mulheres, vítimas de assédio sexual no trabalho, foram reconhecendo as situações e os comportamentos de seus algozes. Enquanto eu, que já fui vítima de assédio moral em uma instituição em Brasília, percebi que a metodologia do abuso, seja ele qual for, é sempre marcada pela prepotência, disfarçada de falso moralismo, e caracterizada pela crueldade.
DANIELA CESTAROLLO_BRASÍLIA/DF
NUNCA MAIS! E JAMAIS
A piauí se anuncia “maior e vacinada”, para garantir o exercício do jornalismo independente, rigoroso e apartidário. Será mesmo?
Quem leu os quadrinhos Nunca mais! (piauí_222, março) não irá concordar com isso. Apesar de ter sido escrito por cartunistas que não fazem parte da equipe da piauí, o fato de a revista reproduzi-lo sem verificar a veracidade de seu conteúdo denota que o jornalismo não é tão rigoroso assim.
Havia uma linha apenas sobre as atrocidades cometidas pelo Hamas, e o restante contém ataques a Israel, ao sionismo, dúvidas existenciais de Art Spiegelman, que se considera um “ateu que se odeia” (alguém me explique o que é isso), Holocausto, Auschwitz, enfim, uma verborragia de ideias sem pé nem cabeça. Até a Declaração Balfour, documento histórico, que justificou a futura criação do Estado de Israel entrou na roda.
Sejam mais criteriosos com o que publicam.
NICK DAGAN_SÃO PAULO/SP
BOTAFOGO CAMPEÃO
Só li agora o artigo de João Moreira Salles sobre a Libertadores 2024 (Nós, tão iguais e agora tão diferentes, piauí_221, fevereiro) e escrevo pra agradecer e pedir perdão. Nasci o único botafoguense numa família de tricolores, fiz filhos, sobrinhos e filhos de amigos botafoguenses. Torci muito em todos os buracos pra onde o Botafogo me mandou nos anos 1970, 1980 e 1990, mas depois daquela final de Copa do Brasil de 1999, Botafogo 0 a 0 Juventude, vendo o meu filho mais velho, então com 9 anos, chorar a partir do começo do segundo tempo, diante da evidente incapacidade do nosso time, pedi pra que aquilo fosse o fim. Que ele procurasse outro time, talvez outro esporte. Eu seguiria com meu botafoguismo, abençoado pelo que eu vi criança e por tudo o que meu pai tricolor viu e me contou sobre o Garrincha, Didi, Heleno, Paulo Valentim, Quarentinha, Nilton Santos. Bastava que eu fechasse os olhos pra que os grandes fizessem todas as jogadas que eu nunca vi. Pois meu filho seguiu botafoguense, sobreviveu às quedas pra segundona, às garfadas nos Cariocas de 2007, 2008, 2009 e agora, quando olho pra ele, junto com os outros milhares de novos campeões da Libertadores, percebo que quando fecham os olhos também veem Heleno, Didi e Garrincha, porque isso não é privilégio meu, mas parte do que é ser Botafogo. Quanto a mim, faço o possível pra não atrapalhar, não assisto aos principais jogos. Durante a final de Buenos Aires, meditei, fiz ginástica, pranchas intermináveis, sempre de olhos fechados. Viva o Botafogo! Obrigado, parabéns.
JOÃO RACHE_SÃO PAULO/SP
NOTA MANDINGUENTA DA REDAÇÃO: Meditou e o Botafogo foi campeão da Libertadores? Já pensou em passar o período do Super Mundial de Clubes num templo budista no Butão?
Como assinante e torcedor do Botafogo, sinto-me no direito de enaltecer a matéria de João Moreira Salles, abordando a trágica, linda, sofrida, bela e cruel trajetória do Botafogo no ano de 2024. O João, desculpe a intimidade, conseguiu descrever de forma única tudo o que ocorreu com o nosso time. Talvez, acho que certamente, quem não torce pelo Glorioso não sabe o que passamos em 2023 e 2024. Caso perdêssemos os títulos disputados no ano passado, teríamos que conviver com o escárnio, o deboche e a crueldade dos torcedores adversários, com destaque para os flamenguistas que, como se sabe, adotam a soberba e adoram humilhar as demais torcidas.
A cada tropeço do Fogo, recebi dezenas de memes, nos chamando de pipoqueiros, time sem caráter, desprovido de raça, bairro da Zona Sul do Rio e inúmeros sacos de pipoca. De quilo. Por estes argumentos aqui expostos, de maneira resumida, é que não poderia deixar passar em brancas nuvens o relato sensível, verdadeiro e, ironia das ironias, contendo até sinais de otimismo, sentimento que não combina com a torcida do Botafogo.
Assim, como diriam os antigos comentaristas, sem mais delongas, meus sinceros agradecimentos ao João Moreira Salles, que soube expressar na piauí_221 tudo o que cercou e cerceou a alma dos botafoguenses. Foi desesperador. Mas triunfamos e saímos bem maiores do que já éramos.
ANTONIO CARLOS DA FONSECA NETO_SALVADOR/BA
PIAUÍ AQUI, PIAUÍ LÁ
Para a minha viagem ao Rio levara Ruy Castro no bolso, Carnaval no fogo, mas a longa viagem desde Lisboa deu-me tempo de sobra para devorar o livro. Assim, chegando à Cidade Maravilhosa, precisava fornecer-me de literatura para as manhãs de praia e noites de insónia. Fui à Livraria da Travessa, ali bem pertinho do apartamento onde ia ficar, e demorei-me a escolher a próxima vítima. Fui atraído pela capa da piauí de fevereiro e, depois, pelo índice. Já conhecia vagamente a revista de vê-la nos escaparates da mesma livraria brasileira em Lisboa, e foi assim que fiz a minha escolha.
A verdade é que fiquei fascinado com a qualidade intelectual e literária dos textos, o seu tom manifestamente comprometido e empenhado, militante até, e a diversidade dos assuntos. Até eu, cujo interesse e conhecimento de matérias futebolísticas é próximo do zero, li o texto de João Moreira Salles com um entusiasmo palpitante (creio, aliás, que já escolhi a minha equipa brasileira – e não é fácil para um português não optar pelo Vasco da Gama, suponho, ou ficar exclusivamente fiel ao Benfica com a sua orgulhosa barraca em Ipanema). Ademais, de piauí debaixo do braço, não precisei simular o sotaque carioca para conseguir um preço justo nas cadeirinhas de praia, pois afinal que gringo leria a piauí? Os portugueses não são gringos, pois não? Custa-me pensar que o possam ser. Em todo o caso, creio mesmo que o dinheiro que paguei pela revista foi largamente compensado pelos reais abatidos nessas manhãs gloriosas. Agora chove e faz frio em Lisboa e tenho saudades do Rio.
Já comprei a edição de março e sei que vou comprar a de abril. Percorrendo a toponímia das nossas duas cidades, entre a Ramalho Ortigão e a Antero de Quental no Rio e a Machado de Assis e a Cecília Meireles de Lisboa, meros exemplos duma lista extensa, fico com a certeza de precisarmos alimentar esta influência mútua cuja língua é apenas um entre os muitos fatores de união fraterna (que, em todo o caso, une toda a humanidade).
Recebam, pois, o agradecimento e caloroso abraço do vosso novo leitor.
JOSÉ ANTÓNIO BORGES_LISBOA, PORTUGAL
NOTA MARQUETEIRA DA REDAÇÃO: Além de te fazer passar por brasileiro, o Clube de Vantagens piauí te oferece a melhor revista disponível no mercado para matar mosquito na parede.
MILEI
Fiquei surpreso por ler na piauí_222, março, o termo “cucaracho”, referindo-se ao presidente da Argentina. Inacreditável que em 2025 alguém ainda utilize essa palavra para se referir a um latino-americano. Também é inacreditável que seja necessário explicar o quanto ela é ofensiva. É tão absurdo e racista quando chamar um brasileiro de macaco. A revista deveria pedir desculpas aos leitores.
LEO AVERSA_RIO DE JANEIRO/RJ
NOTA DA REDAÇÃO A PEDIDO: Poderíamos alegar o contexto, a intenção, os paralelos. Tudo em vão. Nossas mais sinceras desculpas, Aversa.
SUS
Excelente o dossiê sobre o sus, uma mostra completa do sistema de saúde criado na Constituinte de 1988, verdadeiro orgulho para nós brasileiros, que dispomos desse importante instrumento com ampla cobertura nacional. Apesar das limitações de recursos, realiza um trabalho fantástico em prol da saúde pública.
No último episódio da série, A tecnologia e o dilema, na piauí_222, março, focaliza o grande impasse representado pelo tratamento das doenças raras, a um custo altíssimo. Como os recursos são limitados para o cumprimento da missão de tratar toda a população necessitada, o custo daqueles casos muito especiais suga parte substancial das verbas, criando um dilema para seus gestores. Na verdade, estão diante de uma escolha de Sofia. Gastam-se milhões de reais no tratamento dos casos especiais, em processos judicializados, em detrimento daqueles de menor complexidade, mas que podem salvar milhares de pessoas necessitadas. Por outro lado, muito bem lembrado pela reportagem, alimentam a sede de lucro dos laboratórios fabricantes de fármacos tão especiais, que salvam vidas, mas a um custo muito elevado.
DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ
Na parte V do dossiê piauí_umane, cita-se o tratamento com xampu Johnson’s para “olho seco (um desconforto que, segundo oftalmologistas, é tratado com colírios e não com xampus)”.
Possivelmente a fonte do competente Allan de Abreu não foi de fato um médico oftalmologista. Pois um dos tratamentos mais básicos da nossa rotina de cuidado com os olhos é justamente a prescrição de xampu neutro (comumente da famosa marca citada) ou outros higienizantes para a região palpebral.
A etiologia mais comum da doença do olho seco (que pode causar morbidade e não apenas “desconforto”) é a causa evaporativa, por instabilidade do filme lacrimal. Sua origem decorre geralmente de uma patologia chamada blefarite, que tem como pilar principal de tratamento a higiene diária das margens palpebrais. Dessa forma, com uma solução básica e prática, o paciente consegue controlar suas queixas sem onerar o sus ou o Estado (via judicial) com o uso muitas vezes desnecessário de colírios.
Higienizem suas pálpebras!
EDUARDO MÜLLER, MÉDICO OFTALMOLOGISTA_PASSO FUNDO/RS
NOTA HIGIÊNICA DA REDAÇÃO: Pronto. A correção já foi incorporada à versão digital da reportagem.
PRONQOFUI
Cabe uma correção no ótimo texto de Karla Monteiro sobre os 50 anos do Grupo Corpo, intitulado Pronqovô? (piauí_222, março). Meu amigo Rodrigo Pederneiras, o coreógrafo, não tem 69 anos; completou 70 em janeiro. Não faria a observação caso o conteúdo da matéria não contivesse o sentido de celebração de uma data, que reputo fundamental para Minas. E histórica para o Brasil.
Em comum com a agora parceira de coreografia do sogro, a Cassi Abranches, eu também estreei no espetáculo O corpo, com trilha de Arnaldo Antunes. A fanática torcedora do Santos brilhando no palco, e o flamenguista aqui entre fascinado e ansioso na plateia da sede da Avenida Bandeirantes, poucos dias antes de assinar o contrato de patrocínio da Petrobras com a magnífica companhia de dança.
Portanto, dos 50 anos do Grupo Corpo, eu me orgulho de ter participado diretamente da metade.
Hoje, bem mais que fãs dos Pederneiras e maravilhosos elencos, minha mulher e eu temos a satisfação de manter um acolhedor consulado do grupo no Rio, com tudo a que os mineiros têm direito, sobretudo a praia.
Longa vida ao Corpo!
SÉRGIO BANDEIRA DE MELLO_RIO DE JANEIRO/RJ