ficção

O MONGE, O LICURI E O MAKOTINHO DE IANSÃ

Haviam me avisado da similaridade entre terreiros de candomblé e templos japoneses
Imagem O monge, o licuri e o Makotinho de Iansã

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Quando uma mulher de Kyoto te avisar que haverá muita gente num determinado lugar, não duvide. Se for um recinto pequeno, prepare-se para encontrar centenas de humanos; se for um espaço grande, não hesite em especular multidões.

Aquele foi o primeiro congestionamento de guarda-chuvas que presenciei, às dez da manhã, no encerramento do meu passeio que começara às seis. Um espetáculo bonito de cores suspensas vistas da parte mais alta do pé da montanha do templo, como camadas de nuvens coloridas ao alcance dos pés.

Percorrer o santuário Inari durante o festejo da deusa do arroz foi como entrar em Sonhos e refazer o fascínio do encontro com Kurosawa, há mais de trinta anos. O vermelho em tudo, os animais guardiões e a floresta de bambus, planta que me acompanha desde o bambuzal da matinha próxima à casa de menina; do irmão que escolhia o caule certo para preparar as taquaras que fariam seus papagaios campeões riscarem o céu até serem cortados por algum cerol ciumento; do pai que destacava a sabedoria da árvore, “bambu é assim, verga, mas não quebra”.

Achei prudente interromper o percurso, ainda restava muita escada montanha acima e calculei que a descida integral seria pesada para um corpo enferrujado por horas sem fim de cadeira e computador. Só na volta percebi que havia alternativa ao caminho de dentro, uma sucessão de escadas, e explorei o caminho de fora, mais aberto e aparentemente mais longo, margeado pelo bambuzal. Desci semirretas inclinadas cobertas por cimento colorido, trajeto mais confortável.

A travessia descortinou pequenos santuários e oferendas diversificadas para os ancestrais: caixinhas de moedas, locais para incensos e velas, bloquinhos para anotações e seus respectivos lápis, o livre-arbítrio para seguir ou para descumprir as regras aparentes, tais como, pagar o que devia ser pago, não roubar. Animais guardiões, silenciosos e presentes.

Na ausência de placas explicativas, a brisa entrecortada da estação das chuvas fez confidências a quem as quisesse escutar, a quem não poderia esperar quatro meses para a floração das cerejeiras e se mostrasse determinada a degustar aquele tempo.

Anos antes daquela visita, a escritora que não sabia nada sobre o xintoísmo havia escrito: “Iansã é a mais budista dos orixás”, porque a Senhora das Tempestades ensina sobre os movimentos do mundo, a força, a delicadeza, a mutabilidade dos ventos, a flexibilidade, a impermanência das coisas.

Haviam me avisado que eu veria muita similaridade entre terreiros de candomblé e templos japoneses, mas um pequeno grupo de monges e seu ritual me surpreenderam.

Eles chegaram serenos e reverentes como imaginamos serem os monges. Cada um lavou as mãos na fonte de água em frente ao pequenino templo e depois encheu a concha quadrada de bambu para limpar a boca. Eram cinco homens orientais de mais de 40 anos, talvez mais de 50, pele branca, cabelos rentes à cabeça, calças de cores variadas em tecidos como algodão e sarja, quimono branco com uma faixa preta e tênis. O sexto homem era jovem, em torno de 20 anos e tinha em comum com os outros a serenidade, os cabelos curtos, o quimono branco, a faixa e os tênis, mas usava calça jeans bem larga, no estilo hip-hop, e tinha bastante melanina na pele, além de traços mestiços que me levaram a cogitar uma ascendência negra. Mas ele poderia ser das Filipinas, de Bangladesh, da Índia, da Malásia.

Concluída a higienização, os monges compuseram um semicírculo, levaram as mãos ao peito em posição de prece e saudaram as deidades do santuário acrescentando acenos de cabeça. Depois os monges mais velhos subiram os quatro degraus que separavam as costas da fonte de água de um altar e alguns banquinhos, numa fila que parecia aberta pelo mais idoso e encerrada pelo mais novo. O jovem, sempre o último nas ações ordenadas, não acompanhou os demais, manteve-se nos degraus e parecia ser o único em interação com o ambiente externo pelo olhar.

Estávamos parados na frente de uma loja de suvenires que, ao fim da cerimônia ofereceu xícaras de chá e uma tigela com um tipo de sopa ou caldo fumegante para os monges. O líder agradeceu com uma cara que não consegui decifrar, algo entre evitar a recusa indelicada, a insatisfação de cumprir um protocolo obrigatório ou a aceitação resignada de um carinho feito de todo coração pela comerciante que sorria e meneava a cabeça, honrada e satisfeita por eles terem se dirigido ao ambiente reservado aos pés descalços para se alimentar.

A chuva diminuiu e a dispersão da plateia me fez concluir que o grande interesse no ritual dos monges era apenas meu. Finda a oração na disposição de Lua crescente, eles se espalharam pelos pequenos bancos. Havia uma ou outra pessoa por lá, além deles. Dois monges conversavam, um enxugava a testa, outro jogou a cabeça para trás de olhos fechados. O último tirou um colar da bolsa que lembrava um conjunto de sementes de licuri trespassadas por um cordão. Ele esfregou o apetrecho nas mãos, levou-o ao peito, à boca, à testa. Só nesse momento reparei que todos eles tinham uma capanga pendurada em um ombro e que lhes atravessava todo o tórax até o quadril.

De um jeito sutil o monge do licuri se levantou, respirou fundo e se encaminhou ao altar. Outro monge, a quem chamei de Makotinho, abandonou a conversa com um companheiro e em três pinotes alcançou o primeiro, posicionando-se ao seu lado esquerdo, guardando certa distância e abandonando as mãos entrelaçadas às costas. Passados alguns minutos, balançou a cabeça olhando para o alto e movimentou a boca como quem conversa ou canta.

O primeiro monge, por sua vez, seguiu respirando fundo, depreendi isso pela forma dele expirar. Num movimento seco de corpo, ele tirou os calcanhares do chão e devolveu-os ao solo. Makotinho se aproximou mais e retirou a bolsa do amigo, colocando-a sobre um dos bancos e mantendo-se afastado.

O monge assistido fez um movimento inusitado de jogar uma perna flexionada para trás e de erguer as mãos carregando o fio de licuri. Devolveu a perna ao lugar de origem e girou o colar num movimento concêntrico e ritmado sobre a cabeça, como se assoviasse a canção de um trovador praieiro, apelidado de Buda Nagô: Vamos chamar o vento,/vamos chamar o vento. A intensidade do giro aumentou e ficou fácil entender por que Makotinho se afastou.

O monge encerrou o movimento giratório e cambaleou. Makotinho o amparou, emitiu o sopro da palavra bem próximo ao seu rosto e o conduziu a um banco, formulando uma questão ou outra. As respostas mobilizavam mais palavras do que as perguntas curtas. Gestos delicados do monge do licuri contrastavam com seu rosto sisudo e tenso.

Atendendo a um sinal de Makotinho, outro integrante do grupo se moveu com seu assento, posicionou-se cara a cara com o monge do licuri. O monge consulente falou bastante e o outro o ouviu e assentiu. Makotinho mantinha-se ali, discreto, pronto a atender a qualquer necessidade. O monge consultado falou coisas para Makotinho que as transmitiu ao consulente. Assim aconteceu com o monge seguinte. Os outros dois a tudo observaram de mãos cruzadas sobre o abdome, fizeram leves acenos negativos de cabeça, quando Makotinho os convidou a irem até lá. O jovem monge manteve-se nos degraus, de mãos cruzadas sobre o plexo e voltado para o altar, mas também observando de canto de olho o que acontecia à volta.

Finalizadas as consultas, o monge do licuri deu outras instruções ao Makotinho e este o ajudou a se levantar e o conduziu ao altar. Ele baixou a cabeça, fez o já conhecido movimento de cruzar as mãos no plexo num silêncio aparente. Logo começou a girar o fio de licuri sobre a própria cabeça, aumentando a velocidade.

Depois de produzir muito vento acima do ori, o monge finalizou o movimento, ameaçou perder o equilíbrio de novo e foi prontamente amparado pelo Makotinho que o levou a sentar-se em outro banco, dessa vez, de frente para nós, para mim, melhor dizendo. Pude ver o quanto ele transpirava e tinha o rosto leve, diferente do momento do transe, enquanto Makotinho, de maneira carinhosa, enxugava seu rosto.

Ainda com a emoção suspensa, subi uma escadaria até o mirante e relaxei, observando Kyoto do alto e me imaginando uma concha à deriva em sua rede de lençóis freáticos. Como de costume, a Senhora dos Raios me apresentava uma miríade de nuances e eu conseguia perceber uma ou duas. Os ventos de Iansã tinham muitas moradas, encontrei uma delas no Oriente.


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É escritora e ensaísta. Publicou, entre outros, Um Exu em Nova York (Pallas), premiado pela Biblioteca Nacional em 2019, O mar de Manu (Autêntica), premiado pela APCA em 2022, e Vamos falar de relações raciais? Crônicas para debater o antirracismo (Autêntica), finalista do Prêmio Jabuti em 2025