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OITO POETAS DA ÁFRICA

Uma usina criativa que segue a todo vapor
Imagem Oito poetas da África

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É cada vez maior o interesse pela literatura da África lusófona. Já faz algumas décadas que países como Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e, mais recentemente, São Tomé e Príncipe, ocupam lugar de destaque nas feiras literárias internacionais e nos estudos acadêmicos mundo afora. Nos autores desses países, observa-se a afirmação de poéticas de alta elaboração formal, que preservam o sabor nativo no ritmo e nas referências moderadas aos idiomas originários. A isso, acresce-se o tempero musical da língua trazida pelo colonizador, que por sua vez aprende e se renova com a verve milenar da África e suas culturas.

O valioso espólio que a poesia africana de língua portuguesa levará para o futuro ainda não é completamente aferível, já que a usina criativa dos autores segue a todo vapor em sua colheita virtuosa, em vários quadrantes, com diferentes tradições. Tradições míticas que dialogam com estéticas mais recentes, como é o caso do poeta angolano Lopito Feijóo, de 61 anos, cuja poesia busca aquelas tensões verbais. Sem abandonar o rico painel das tradições míticas africanas, Feijóo – autor de Doutrina dos pitós (2022), entre outros – alarga o discurso poético a partir de um mergulho experimental na própria essência do vocábulo.

O também angolano João Maimona, de 69 anos, pertence à brilhante geração que começou a publicar na década de 1980 – a mesma de Lopito Feijóo, José Luís Mendonça e João Melo. A poética sofisticada de Maimona – autor de Lugar e origem da beleza (2003) – é despojada de excessos ou adjetivações. Fala do seu povo e para ele com a altivez de quem carrega milênios na voz.

Da mesma fatura é a poética do angolano José Luís Mendonça, de 69 anos, autor de Ngoma do negro metal (2000), que maneja a língua portuguesa com a habilidade de ourives, por vezes inserindo vocábulos quimbundos (e de outras línguas nativas) ao poema, o que gera um léxico próprio e um diferencial no estilo. Nele há uma saudável estranheza na tecelagem do discurso, que instiga e inquieta.

No rol da grande vitalidade da poesia angolana, dois outros nomes são fundamentais: João Melo, de 69 anos, e Zetho Cunha Gonçalves, de 64 anos, que, optando por uma estética que se faz à luz da história e dos conflitos atuais, continuam conquistando um justo reconhecimento dentro e fora do seu país. Em Lisboa, onde mora, João Melo é um portal para a difusão das obras de seus pares africanos e brasileiros.

Noutra lateral, a poeta cabo-verdiana Vera Duarte, de 72 anos, descendente de uma terra ilhada de Sol e mares, tem um cantar telúrico que espelha a singularidade da sua cultura e o espírito libertário do seu povo. Vera Duarte – autora de Urdindo palavras no silêncio dos dias (2022)é a voz das longitudes, o respiro dos cabo-verdianos abraçados a várias nações, posto que metade do país  vive em outros continentes. Cabo Verde já nos deu Corsino Fortes e João Vário, além do Jorge Barbosa, pai da poesia moderna da ilha.

“Vim para acender o teu nome nas pálpebras do poema.” É assim que Conceição Lima, de 63 anos, se apresenta poeticamente a partir de São Tomé e Príncipe. Professora e doutora em literatura, autora de O país de Akendenguê (2011), Conceição cria versos de luminosa inspiração ancestral, conjugando a tradição com as demandas atuais.

Hirondina Joshua, de 37 anos, é a sensação da poesia moçambicana do momento. Publicada em vários países, no Brasil lançou Os ângulos da casa (Editora Penalux, 2017). Apesar da juventude, sua obra se afirma com o aval dos leitores e dos críticos, entre os quais, o conterrâneo Mia Couto. Sua linguagem, equilibrando-se entre tensão e beleza, tem o sabor rascante da atualidade, com suas ranhuras e incongruências.

A poesia construída nos países africanos de língua portuguesa nesse meio século de suas independências – apesar das agruras políticas e sociais dessas novíssimas nações – é de encher os olhos. É um legado de enorme relevância para entendermos a riqueza simbólica da alma desses povos.

JOSÉ LUÍS MENDONÇA, de Angola

UM PÁSSARO POISA E ESCUTA
à minha mãe

Palavras com as mãos cheias de negros
navios errantes lançam âncora
na pérola em chamas do teu ventre
onde o povo dorme e as hienas
bebem o mênstruo das fábricas.
Percorrem caminhos de pão
batidos pelo sono dos espelhos.
As verdes colinas do teu rosto
onde a infância das cidades
cava a alga indelével.
Sobre esta pele branca de rinoceronte
um pássaro poisa e escuta.

NOS OLHOS DA PÁTRIA QUE BUSCASTE
ao meu pai, na hora da partida

Agora que a noite faz o ninho
nos olhos da pátria que buscaste
e esculpe a anhara do silêncio
a pegada de leão da tua voz
uma gaivota dorme no
colarinho branco do teu coração.
Trazes macutas de prata nos cabelos
e a terra lavrada dos Alhais no rosto
com que a Europa fita e te esquece.

UM CANTO PARA MUSSUEMBA
à minha avó, Isabel dos Santos

Ó mãe dos gafanhotos
sentados na lavra da boca deserta:

quantos comboios pariu a tua fome
sobre tijolos gravados ao corte da língua?
O abecê do tempo sangra no pilão
e a chuva de Abril nos cafeeiros
é a mulher kilombo, dizem
morreu um leão no fogo do teu ventre
onde caminhei de animais na mão.

HIRONDINA JOSHUA, de Moçambique

ALTO-MAÉ[1] QUE MORA EM MIM

O bairro onde moro foi atropelado pelo tempo
que forçosamente nega-se a empacotar outros destinos.
Chama-se “Alto”…
Quando a chuva que lhe corre é fria
não nas suas temperaturas, escorregadia como a brisa
que se venteia nos buracos felizes destas ruas serpenteadas
em areias ao invés de betão.
Chama-se “Alto”…
Este habitat de “latas” novas trazidas por sei lá quem
a este paraíso urbano sem nome em nós,
queremo-lo assim entre alma e carne, passageiro,
nomes são significados que não significam nada.
Além de mais não os sabemos ler nem escrever
e se soubéssemos isso menos significaria.
Em nós há um bairro onde moramos e nos moramos,
vivemos e morremos a cada milésimo de segundo.
E isto basta-nos.
Basta-nos.
Tenho um alto-maé que vive em mim
alto-maé de casas que testemunham o silêncio,
a fúria em cinza das moças que vestem saias
que demarcam fronteiras suspeitas com os rapazes
que ao invés de calças vestem “tchuna boys”
suas roupas interiores são mais curiosas que o mundo.
Há muitos alto-maés em mim,
das flores que transpiram a volúpia noturna perto da pelé-pelé,
das rotundas de jardins quadrados da gente alegre
e mais esperta da cidade (alto-maé não me deixa mentir)
nem suas mesquitas e igrejas calam a voz de Deus aqui
onde o sol se senta mesmo de noite do negro
mercado negro que devia se chamar lua ao invés de “estrela”
pois nela embarcam todas ânsias daquelas gentes,
muitas delas não daqui,
da padaria Moçambique que desde sempre alimentou a esperança
de um melhor pão, dos barulhos quentes dos ralis antes
do fim de semana do sapateiro que canta com o seu martelo
abengalado de alguém a escrever um verso que talvez não mude nada,
mas um verso é um verso, um verso é um universo
o inverso disto é que não era é humano cada um com o seu alto-maé.
Este é o meu. Este foi o que me deram.
Este é o que vejo e que me olha sempre.
De um outro não preciso.

LOPITO FEIJÓO, de Angola

SABEDORIA I

Primeiro os dedos
as unhas depois
e só mais tarde os anéis.

Intensamente
vivendo à margem
do constrangido e artístico
pretexto histórico.

Preservar os dedos
conservar as unhas.
– Dos anéis seja o que for!

SABEDORIA XI

Na rota dos andarilhos canivetes
só vinho – sem outras companhias sóbrio
sozinho no caminho

entre Salomão e a rainha de Sabá.
Refinada barra de sabão sem janela
motivo bastante reafirmando-se:

Antes mal instalado e
acompanhado – na hora dos infindos apanhados
pergaminhos.

SABEDORIA XIX

– Incompleto – um homem desconfiado
observa espirituais arredores.
Manobra lento e sente-se inexistente
louco em pleno dia de praia e sol ardente.

Aplica-se totalmente meio despido
num banco de betão filtrando o astro rei.
E como quem reflete, triste abana
na maresia a circunstância, os circunstantes
e a cabeça de coco que transporta sustenida.

Inesperado levanta-se mareado
cansado parte desidratado
seguindo conhecido caminho incerto
caminho aberto caminho longe.
Carente o parente e inocente demente
aparenta procurar

VERA DUARTE, de Cabo Verde

PERGAMINHOS BOLORENTOS

Naquele tempo
As madrugadas irrompiam
Lívidas, exangues, canibais
Depois do obituário
Das noites insones
Em que queimávamos
Os pergaminhos bolorentos
Da sociedade castradora
Que nos oprimia

Em insurreição anunciada
Carregávamos nossos esqueletos
De ossos perfurantes
Para todas as trincheiras
Onde as manifestações se davam
E a vida acontecia

EM GORÉE EU CHOREI

Em Gorée eu chorei
A saudade de um tempo futuro
Que não veio

Em Gorée me inclinei
Sobre os ossos amontoados
De gente que não viveu

Em Gorée eu toquei
No sangue incrustado
Das celas dos condenados

Em Gorée
Sucumbi
À dor do desamor
À violência do chicote
À vergonha da atroz humilhação

Quis então
Reinventar um passado
Só para me acalmar
Só para não sofrer

Apenas antevi
– premonitório –
Um oblíquo futuro
Todo ele contido
Na caixinha de Pandora

Como reescrever esta história
Que sem dó nos aniquila
Como reinventar outro futuro
Antes que seja este passado

JOÃO MELO, de Angola

DÁDIVA

No instante
preciso
em que a azagaia
de pedra
atinge
o meio do céu,
abre-se
infinitamente
o teu corpo
sob o meu,
como
uma súplica
irremediavelmente
imperativa.
E por mais
que esse milagre
espantoso
se repita
a cada dia,
esse instante
é para mim
uma dádiva
sempre
nova…

ARTE POÉTICA 2020

A poesia – o que será?

Uma visão?

Ou simplesmente uma narrativa corrompida
pela absoluta impossibilidade de
salvação e, por isso,
ávida
de autoexibicionismo inútil: rimas
fosforescentes, quebras de ritmo
sem sentido, espaços
impassíveis como espantalhos
para assustar pássaros?

A morte e seus
símiles – tenho de dizê-lo –
estão lá fora
à espera de quem não sabe construir espantalhos…

ZETHO CUNHA GONÇALVES, de Angola

NA ALEGRIA DA TERRA

Os meus dias
trazem
o fulgor dos horizontes,

a espessura exata
do Sol,
onde nasci.

Os meus dias
− lenta cortina de prodígios,
sortilégios

que a palma das mãos
acolhe
− verso, noite vertical.

OS OMBROS MODULAM O VENTO

Entristece
a tua tristeza
− e canta

(os ombros modulam o vento
modulam a noite
a soberana voz
dos horizontes)

entristece
a tua tristeza
− e canta

JOÃO MAIMONA, de Angola

NOITE PARCIAL

(antes que o lume de minha boca caminhe rumo à noite onde o abismo brilha pela ausência. depois de ter cantado os meus passos, vou glorificar o verão prometido às aves. ainda existe a solidão branca de um silêncio antecipado entre imensas estrelas arrancando as minhas asas.

há luminosas estrelas mudas nas ondas da Huíla.

e ainda um céu profundo de imortalidade! dias e noites vão em seguida recolhidos sobre os rochedos antes que o lume da minha boca caminhe para a noite: até o dia fechado de minha infância abolida, até a noite modesta de meu jardim indignado e ainda a alegria adormecida em sua inclinação cantam a infância dormente dos meus passos e indeléveis festas antes que o lume de
minha boca caminhe rumo à noite).

AS AVES DA PEREGRINAÇÃO

(para saudar o planeta o extravagante rio se despede do horizonte de meu rebanho. procuro as aves na coluna do dia e em gaiolas de pombas lúcidas que vêm renovar a bela música da peregrinação. vulneráveis são as estações e estranhas as fotos. vegetações mutiladas e vozes obscenas que vêm cantar pela sétima vez a lembrança das cores e donzelas tresmalhadas. metamorfoses em migração maciça e em penitência como ovelhas que se afastam do estábulo: onde toda a hemorragia era invariável. e sobre as cicatrizes do dia clandestino dou ouvido às aves da peregrinação).

CONCEIÇÃO LIMA, de São Tomé e Príncipe

INOMINÁVEL

Coroa-te a implacável beleza da lava
És dual
Repentino vulcão ou uma onda beijando
as Sete Pedras.
Eras tu a minha ilha perdida?
Existe a palavra ilhoa?
Nesta roça sobre o mar debruçada
Quem plantou o fulgor revolto dos teus cabelos?
E a imortal estrela no cerne da tua testa?
Quem acendeu na minha mão
As fímbrias do teu coração?
Quantos promontórios entre nós e aquela praia deserta
no extremo da Ásia Maior?
Dissemos Ásia?
Ou a Mesopotâmia revisitada?
Onde revelas a nudez de Afrodite?
As águas varrem a distância entre os cabos
E as ilhas dançam.
Uma a uma as conheces e as nomeias
A reverberação do mar a tua voz permeia.
Mas moras em todos os continentes
Que tribo acolhe o baile das vogais
A irreverência do verbo na tua tenra pele de papiro?
Por que dissolves, ao alvorecer, as fronteiras
E te ergues, múltiplo, no topo de cada página em branco?

EPITÁFIO

Alto era e belo e poderoso
O poderoso rei de um poderoso reino.

Suave, o sorriso convidava – os olhos perscrutavam.
Diz-se que era de poucas falas, poucas alas.
Teria asas? Cismavam súbditos.
De ferro o trono, proclamavam ditos.
Grande e imponente fulgia o palco
Sua sombra lhe definia o centro
Sua aparição irradiava silêncio.

Dos passos levitavam invisíveis crinas
Lentos, majestosos, calculados passos
Lentos, incensados, venerados passos.

Alto era e belo e poderoso
Poderoso rei de um postergado reino
Poderoso rei de um recurvado reino.

Nem búzios, nem sinal, bola de cristal.

Vidente alguma lhe leu a sina
Nenhuma cartomante o preveniu
Que a eternidade não seria sua madrinha.

O tempo, soberano, corroeu-lhe a coroa
Desmoronou-se o palco, esvaiu-se a torre
De um alto e belo e poderoso rei.

Poderoso rei de um poderoso reino
O poderoso rei de um postergado reino.


Os poemas serão publicados na Coleção PanAfricar, a partir de maio, pela Oca Editorial, com curadoria do poeta Salgado Maranhão e coordenação de Sergio Cohn.

[1] Alto-Maé é um bairro de Maputo, capital de Moçambique.


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Poeta e compositor, é autor de Mural de ventos (José Olympio), A cor da palavra (Imago) e Ópera de nãos (7Letras). Suas canções foram gravadas por Ivan Lins, Paulinho da Viola, Zizi Possi e Ney Matogrosso, entre outros.