portfólio
Luiz Braga Mar 2025 17h22
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O azul da chama que fervia a água usada por meu pai, médico, para esterilizar seringas de vidro em hospitais psiquiátricos de Belém. O amarelo oscilante das lâmpadas que iluminavam os corredores do sobrado onde a gente vivia. O verde do limo que salpicava os muros das avenidas, encharcados pelas chuvas de março. O marrom da lama que assolava o trajeto até a casa de minha avó paterna, Mundica. O roxo do açaí que Seu Amaral esfregava numa peneira de palha. O negro dos “túneis de mangueiras” que emolduravam as alamedas e filtravam o Sol escaldante do meio-dia. O branco dos véus nas missas de Páscoa.
Toda vez que penso em minha infância, me lembro de cores. Nasci e sempre morei na capital do Pará. Descendente de portugueses, libaneses e indígenas, vou festejar 70 anos em novembro de 2026. Não por acaso, a Belém que conheci ainda menino se diferenciava bastante da metrópole atual. Embora já ostentasse a arquitetura majestosa do período em que o ciclo da borracha enriquecia a Amazônia, a cidade exalava mansidão. Era pacífica e afetiva, com famílias se reunindo nas calçadas para conversar à noite. O trânsito, nada selvagem, permitia que as crianças desbravassem as ruas. Me recordo de jogar bola em campinhos esburacados ou de colher mangas douradas que mal se aguentavam nas árvores.
Com 11 anos, ganhei minha primeira câmera fotográfica. Um amigo do meu pai cismou de me dar uma Start-B, máquina polonesa que imitava as cobiçadas Rolleiflex, de origem alemã. Não sei explicar direito por que recebi o presente. Será que pedi? Será que o tal amigo enxergou em mim um talento precoce? O fato é que logo tratei de fotografar minhas três irmãs mais novas no ambiente doméstico, hábito que mantive por um bom tempo.
Eu também gostava de documentar o cotidiano do meu pai. Ele se especializou em psiquiatria com a célebre Nise da Silveira e virou um profissional sensibilíssimo. Deixava, por exemplo, que os internos dos hospitais psiquiátricos brincassem o boi-bumbá. Não raro, os levava para passeios que incluíam banhos em igarapés. Observar as atividades do meu pai me ensinou muito sobre o respeito às diferenças.
Quando completei 17 anos, transformei o hobby de fotografar no ofício que exerço desde então. Cheguei a me graduar em arquitetura, mas nunca a pratiquei. Decidi que pagaria os boletos principalmente como retratista e fotógrafo publicitário. Em paralelo, desenvolvi projetos autorais que acabaram me abrindo portas no mundo das artes. Captar as luzes e as cores amazônicas, tão fascinantes quanto as da minha infância, se tornou um prazer e quase uma obsessão. O curioso é que, até 1982, eu não costumava tirar fotos coloridas. O preto e branco dominava o meu trabalho porque, em Belém, havia poucos laboratórios capazes de revelar filme policromático.
As imagens que a piauí reproduz neste portfólio vieram à tona durante as últimas quatro décadas e exibem cenas de três regiões paraenses: a capital, Santarém e a Ilha de Marajó. Parte dos registros vai compor a exposição Luiz Braga – Arquipélago imaginário, que o Instituto Moreira Salles[1] abrigará em São Paulo entre 12 de abril e 31 de agosto. Com aproximadamente 250 fotos, a mostra terá a curadoria do cearense Bitu Cassundé.
[1] O fundador da piauí é presidente do Conselho do Instituto Moreira Salles (IMS).








