baixios das altas finanças
Consuelo Dieguez Abr 2025 14h57
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Em dezembro passado, o então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, convocou os dirigentes do Banco Master para uma reunião de emergência, na sede da instituição, em Brasília. O presidente do Master, Daniel Vorcaro, liderava a comitiva do grupo. Na reunião, Campos Neto e outros diretores do BC fizeram duas exigências. Mandaram que parassem com as operações arriscadas e abusivas, como a emissão desenfreada de Certificados de Depósito Bancário (CDBs), e fizessem um aumento de capital – ou seja, colocassem mais 2 bilhões de reais no banco. O BC deu um prazo de três meses, até março deste ano, para que os ajustes fossem feitos. Caso contrário, o banco seria liquidado, os donos teriam o patrimônio congelado e ficariam proibidos de operar no mercado.
Era uma medida dura, mas acertada. Afinal, o Master, um banco de pequeno porte, tinha nada menos que 50 bilhões de reais emitidos em CDBs e, para piorar, seu balanço indicava que não tinha fundos para pagar os mais de 12 bilhões de reais de CDBs com vencimento neste ano. A razão era elementar: a carteira de ativos do banco, que poderia servir de garantia para os CDBs, estava recheada de empresas à beira do precipício ou em plena recuperação judicial. Entre elas, uma construtora (Gafisa), uma companhia de serviços ambientais (Ambipar), uma empresa de saúde (Alliança), uma rede de serviços médicos (Oncoclínicas), uma telefônica (Oi) e uma distribuidora de energia (Light), todas em dificuldades.
Os outros ativos não passavam de uma batelada de precatórios, títulos que ninguém sabe quando serão pagos, pois tudo depende de decisão judicial. Em caso de emergência, portanto, o banco dificilmente conseguiria se desfazer de empresas tão problemáticas ou resgatar precatórios para cobrir o seu passivo. Se o Master viesse a quebrar, os investidores tinham uma única fonte de garantia de pagamento: o Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Mantido pelos próprios bancos, o FGC assegura o pagamento de depósitos de até 250 mil reais. Tem um caixa robusto, de 132 bilhões de reais e funciona como um dique de segurança do sistema. Acontece que só o Master, se fosse liquidado, ceifaria um enorme naco do patrimônio do FGC nunca tacada só.
O que mantinha o esquema do Master funcionando era uma espécie de pirâmide financeira, um recurso considerado extremamente arriscado: o banco vendia papéis novos, oferecendo juros apetitosos, para resgatar papéis antigos. O processo se agigantou de tal forma que ganhou ares de escândalo – e a roda estava prestes a parar de girar. Todas as plataformas do mercado que distribuíam os CDBs do Master – exceto a corretora XP – pararam de fazê-lo ou reduziram significativamente a venda dos papéis. Em razão de sua operação de alto risco, o Master já havia sofrido duas advertências do Banco Central. A de dezembro passado foi a terceira – e estava destinada a ser a última: ou o banco se ajustava, ou estaria fora do jogo.
Embora correta, a decisão do BC vinha com um atraso inexplicável. Havia mais de três anos que o Master fazia uma emissão agressiva de CDBs: oferecia os papéis com rendimentos de 130%, até 140%, do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), um valor muito acima da média dos concorrentes, que raramente passa de 98%. Além disso, pagava uma comissão altíssima às plataformas que distribuíam os CDBs – coisa de 4%, quando a taxa praticada por outras instituições bancárias ficava em torno de 0,5%. Uma parte do mercado estava inquieta com os riscos decorrentes da agressividade do Master. Outra parte aproveitou para se beneficiar. O BTG Pactual e a XP, por exemplo, toparam distribuir os CDBs do Master atraídos pela alta comissão e, claro, a garantia do FGC. Dessa forma, a expansão desses papéis ganhou um ritmo meteórico.
Em 2019, quando recebeu autorização do BC para operar, o Master tinha 2,5 bilhões de reais em CDBs emitidos. Em 2022, apenas três anos depois, já eram 17,4 bilhões de reais. No fim do ano passado, atingira a estratosférica cifra de 50 bilhões. Como o BC não é cego, era de se esperar que estivesse ciente do problema. Se, por um acaso improbabilíssimo, não soubesse de nada, um escritório de advocacia, o Jantalia, poderia se encarregar de informar a autoridade monetária do que estava acontecendo – e assim o fez.
Em 5 de março de 2023, o escritório, especializado em direito econômico e empresarial, enviou ao Departamento de Supervisão Bancária do BC um alentado documento. Em 31 páginas, descrevia os problemas do Master. Dizia que, entre 2019 e 2022, o capital social do banco saltara de 182 milhões para 1,3 bilhão de reais. Com isso, o Master pôde aumentar a emissão de CDBs sem ficar desenquadrado entre o passivo e o ativo. Só que, alertava o documento, “os recursos captados com essas emissões cada vez maiores têm sido aplicados pelo Banco Master majoritariamente em fundos de investimento cujos ativos, à primeira vista, não apresentam solidez”. Terminava dizendo que esse quadro podia “expor a risco de liquidez e/ou solvência a referida instituição financeira, bem como sujeitar a risco anormal os seus credores”. Ou seja: o banco podia quebrar e os credores amargariam um calote.
O documento, enviado por Vladimir Timerman, dono do fundo de investimento Esh Capital, só recebeu uma resposta do BC um ano depois. Dizia: “Constatou-se que os temas abordados na referida comunicação são abrangidos pelo contínuo trabalho junto a diversas entidades supervisionadas, inclusive o Banco Master. […] Conclui-se pela desnecessidade de procedimento de supervisão específico e o processo eletrônico que acolheu a referida comunicação foi encerrado.” Em outras palavras, o BC dizia que estava a par de tudo, mas não via razão para alarme – e encerrava o assunto.
“É incompreensível que o Banco Central tenha deixado o Master operar por tanto tempo nessas condições de risco, sem fazer uma intervenção quando o prejuízo seria menor”, me disse um ex-presidente do BC, que preferiu não se identificar para evitar atrito com colegas. “O Banco Central tinha que ter liquidado o Master por gestão temerária. É crime previsto em lei. Era um caso óbvio.” Procurei Campos Neto, que deixou a presidência do BC em dezembro do ano passado, para falar sobre o caso. Em mensagem por escrito, ele disse que a instituição “tomou várias medidas que inclusive já foram descritas em artigos técnicos”.
Até o início do ano, o Master ocupava quatro andares no prédio Pátio Victor Malzoni, o mais famoso da Avenida Faria Lima por abrigar instituições de grande porte, e onde o aluguel de cada piso não sai por menos de 560 mil reais. Deixou o local para concentrar suas operações num edifício de treze andares, numa travessa a poucas quadras do Pátio Malzoni. Chegou a ter um escritório na cobertura do prédio mais caro de Londres, conhecido como The Pinnacle, e outro na avenida mais badalada de Miami, a Brickell.
Além das instalações caríssimas, a própria vida social de Daniel Vorcaro chamava a atenção. Aos 41 anos, o banqueiro neófito, que construiu um patrimônio bilionário em apenas cinco anos, fazia questão de exibir seu triunfo. Gastou 15 milhões de reais na festa de aniversário de 15 anos da filha. Tem uma casa de 280 milhões de reais em Trancoso, no litoral da Bahia, e uma cobertura em Miami, em nome de seu pai, Henrique Vorcaro, estimada em 100 milhões de reais. Desloca-se a bordo do seu jato de 80 milhões de reais.
Recém-separado da mulher, Vorcaro tem aparecido nas redes sociais ao lado da namorada, a influenciadora gaúcha Martha Graeff, uma loura bonita e esguia que ele conheceu num evento em Miami. Nas postagens no Instagram da moça, o banqueiro posa ao lado dela em trajes variados – de calção, roupas de surfe, vestes escolhidas por produtores de moda –, quase sempre em belas praias ou carros de luxo, em cenas românticas cuidadosamente produzidas. Para agradar a parceira, Vorcaro costuma contratar shows privados de celebridades internacionais, como o tenor italiano Andrea Bocelli e o americano Ben Harper, três vezes vencedor do Grammy.
Ao mesmo tempo em que agitava sua vida social, Vorcaro também arregaçou as mangas, junto com seus dois sócios, o baiano Augusto Lima e o carioca Maurício Quadrado, para atender ao ultimato do bc. Contou ainda com os préstimos do seu maior parceiro de negócios, o também baiano Nelson Tanure, que o mercado suspeita ser sócio oculto do Master. (Tanure e Vorcaro sempre negaram a acusação.) Mas a turma não se empenhou em fazer o ajuste, ou aportar capital no banco, como queria o BC. Em vez disso, pediram socorro aos seus padrinhos políticos, dentro e fora do governo, e em todas as latitudes ideológicas – de bolsonaristas a petistas.
Na tarde de 28 de março, com o prazo dado pelo BC já entrando nos acréscimos, veio o anúncio que pegou o mercado de surpresa: o Banco de Brasília (BRB), uma instituição estatal de médio porte controlada pelo governo do Distrito Federal, cujo patrimônio líquido não passa de 3,7 bilhões de reais, decidiu comprar o Master por 2 bilhões de reais – exatamente o valor do aporte de capital que o BC exigira.
Gabriel Galípolo, o novo presidente do Banco Central, soube do comunicado quando participava de um evento na Universidade Zumbi dos Palmares, em São Paulo. Mas não foi surpreendido, pois a equipe técnica do BC já vinha analisando a operação a pedido do Master e do BRB. O documento que descreve o negócio foi entregue ao BC na madrugada do dia 28 e tem 2,6 mil páginas. Agora, Galípolo, a quem coube administrar a herança maldita deixada pelo antecessor, tem 360 dias para avaliar o caso. O mercado, no entanto, considera uma temeridade que leve tanto tempo, sobretudo em razão da inquietação geral – e, em particular, dos donos dos tais CDBs.
No dia 22 de abril conversei durante trinta minutos por telefone com Daniel Vorcaro. Falando baixo e sem jamais se alterar, o jovem banqueiro de Minas Gerais fez um longo relato do que se passou com seu banco. Segundo ele, o Master não estava enfrentando uma crise de liquidez. “Tanto que o banco continua operando”, disse. O que houve, argumenta, foi uma mudança do perfil do mercado.
O Master, que sucedeu o antigo Banco Máxima, surgiu no momento em que o BC estava estimulando a criação de plataformas de investimento e de bancos digitais, de modo a reduzir a alta concentração bancária no Brasil, onde um pequeno punhado de bancos domina mais da metade do mercado. Na época, portanto, as regras eram mais favoráveis aos pequenos, que passaram a usar as novas plataformas para distribuir seus papéis, sem serem obrigados a montar sua própria estrutura. “A gente fez um plano de negócios lá atrás, quando começamos, nesse modelo de garantia do FGC, de estimular a entrada de novos participantes, de dar acesso a instituições de médio/pequeno porte e a investidores menores”, disse. “E crescemos como o previsto. Fizemos um mix de produtos interessantes e conseguimos ter bons resultados ao longo do tempo.”
Acontece, prossegue Vorcaro, que as coisas mudaram. Em 2018, as plataformas foram regulamentadas, começaram a se popularizar e, pouco depois, passaram a ser compradas pelos bancos tradicionais. “Num passado recente, você tinha uma pulverização de várias fintechs [como são chamadas as startups do setor financeiro], de várias corretoras, como a XP. E isso criou uma pluralidade no mercado que também nos favoreceu”, disse ele. “A partir de dois ou três anos atrás, no entanto, começou um movimento de concentração e essas corretoras começaram a ser compradas, como a Órama pelo BTG, a Guide pelo Safra.”
Com isso, o Master passou a depender de poucas plataformas para colocar os seus papéis no mercado. “Nós pressentimos, no final do ano passado, que novas regras poderiam dificultar ainda mais o nosso negócio e fomos em busca de alternativas.” A solução foi a “sociedade” com o BRB, como ele se refere à operação com o banco estatal de Brasília. “Nós buscamos várias alternativas”, disse. “Mas a do BRB nos pareceu a melhor.” Portanto, na visão de Vorcaro, a mudança do mercado está na raiz de tudo.
É uma leitura generosa, já que algumas mudanças que dificultaram a vida do Master eram previsíveis ou são muito recentes. Em 2021, o BC estabeleceu uma taxa adicional para as instituições que mais recorressem ao FGC, com o objetivo de evitar que os recursos do fundo virassem trampolim para operações de risco. Era o caso do Master, que passou a arcar com uma taxa mais alta do que os demais bancos do seu tamanho. Acontece que a cobrança adicional estava prevista desde 2018, um ano antes da criação do Master, que, portanto, veio à luz sabendo que a taxação estava no horizonte. Em dezembro de 2023, houve outra mudança. Até então, o BC autorizava que os bancos pequenos fizessem emissão de 100% dos CDBs com garantia do FGC. Naquele mês, o Conselho Monetário Nacional definiu um limite de, no máximo, 80%. Era mais uma iniciativa para desestimular que os bancos fizessem piruetas usando o FGC como rede de segurança. A medida atingiu o Master em cheio, mas foi regulamentada apenas em maio de 2024 e só entrou em vigor em janeiro passado – depois do ultimato do BC.
No começo de tudo, ninguém imaginava que uma instituição pequena como o Master poderia chegar a emitir 50 bilhões de reais, quase metade do patrimônio do FGC. Quando o negócio se avolumou e ficou perigosamente perto de fugir do controle, a própria direção do FGC cobrou um ajuste do BC. Os grandes bancos, que contribuem com a maior parte dos recursos do fundo, estavam com receio de que um problema no Master causasse um estrago em todo o setor. O problema, como me disse o diretor de uma instituição de mercado, “é que estava havendo um desvirtuamento do conceito do FGC, que passou a ser usado pelo Master como produto de venda de CDB”.
Com a crise exposta, os mandachuvas do mercado estão apreensivos. Pelo desenho da operação de resgate do Master, a parte boa do banco fica nas mãos do BRB, enquanto a parte ruim é jogada no colo do FGC. Segundo uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo, entre os grandes bancos, o Itaú[1] é o mais resistente a essa solução e defende uma “saída dura e pedagógica”, que possa servir de lição para banqueiros que quiserem se aproveitar do sistema por meio do FGC.
Assim que se espalhou a notícia do negócio Master-BRB, surgiu um oceano de questionamentos: afinal, por que o BRB, um banco sem maior expressão nacional, com um patrimônio líquido de apenas 3,7 bilhões, estava se aventurando a comprar o Master, uma instituição que em pouco tempo de vida ganhou uma reputação tão duvidosa? “Não foi uma operação econômica. Foi uma operação política”, apressa-se a responder o jornalista Ricardo Cappelli, presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI). “Isso é um escândalo absurdo. Eles jogaram uma crise privada para o BRB pagar. Querem empurrar o problema para o povo de Brasília.”
Cappelli tem razões políticas para estar indignado. Ele é pré-candidato ao governo do Distrito Federal pelo PSB. Se vencer a eleição de 2026, terá que lidar diretamente com as consequências da operação do BRB. O alvo de suas críticas é o atual governador do DF, Ibaneis Rocha, do MDB. “O BRB não vai suportar essa operação financeira. Essa maluquice, essa irresponsabilidade do Ibaneis coloca em risco a sustentação financeira do Distrito Federal como um todo. Quem vai arcar com as consequências é o Tesouro do Distrito Federal e, em última instância, o contribuinte.”
Sua provável rival na eleição, a atual vice-governadora Celina Leão (PP), acusou o golpe e esquivou-se. No Palácio do Buriti, sede do governo do DF, comenta-se que ela ficou incomodada com a transação, da qual só soube no dia em que foi anunciada. Cappelli animou-se ainda mais a jogar luz no negócio. Postou nas redes sociais um vídeo em que aparece nas imediações da Rodoviária de Brasília carregando um banco de madeira com um pé quebrado. No vídeo, ele pergunta aos passantes: “Você pagaria 2 bilhões por um banco quebrado?” Diante da óbvia negativa, ele emenda: “O que você acha que deveria ser feito com este dinheiro?” As respostas são muitas, menos a compra de um banco.
E por que Ibaneis Rocha teria interesse em colocar o BRB no negócio? Fiz a pergunta a um ex-governador do DF, que preferiu não se identificar por razões políticas. Ele me respondeu com sarcasmo postal: “Vai ver que é porque a QL 15 é muito próxima da QL 5.” Traduzindo: QL é a sigla de “Quadra do Lago” em Brasília e, naturalmente, a quadra de número 5, onde mora o governador, não fica muito longe da quadra de número 15, onde vive o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro. Além de vizinhos de bairro, os dois são piauienses e bolsonaristas.
Mesmo fora do governo, Ciro Nogueira manteve suas conexões e desenvolveu uma relação sólida com Vorcaro. A convite do banqueiro, já se hospedou diversas vezes no hotel Fasano, propriedade do Master, em São Paulo. Na troca de gentilezas entre os amigos, Nogueira não esquece de Vorcaro no Congresso. Já propôs que o FGC passasse a garantir depósitos no valor de até 1 milhão de reais, e não apenas de 250 mil, como acontece ainda hoje. A iniciativa, que acabou engavetada, ganhou o jocoso apelido de “emenda Master”. Agora, alarmados com o negócio Master-BRB, os senadores estão se movimentando para instalar a CPI do Master com o objetivo de investigar a operação. Nogueira está ocupado em barrar a CPI.
O nome do senador, um parlamentar proativo e dinâmico, também apareceu no caso da demissão de três gerentes da Caixa Econômica que se recusaram a avalizar um negócio de 500 milhões de reais com o Master. Era uma operação “atípica”, disseram os gerentes. O negócio seria realizado por uma diretoria da Caixa comandada por Tarso Tassis, que é ex-assessor de Vorcaro e foi indicado para o cargo por Nogueira. Em outro chiste, a saída dos gerentes ficou conhecida como “demissões Master”. Em agosto, quando entrevistei Vorcaro para a reportagem Alta tensão, publicada na piauí_217, de outubro de 2024, o banqueiro me disse que tudo não passou de intriga.
Agora, Vorcaro também diz que a acusação, segundo a qual a operação Master-BRB foi uma manobra política, não passa de um “absurdo”. Ou, em outras palavras, “ataques dos concorrentes que não se conformam com o crescimento do Master”. Para ele, o “Banco Central até tentou fazer uma pulverização no mercado, mas rapidamente os grandes se mexeram”, disse. Sem alterar um decibel no tom de voz, assegurou: “Não existe isso de política. Essa é uma operação absolutamente técnica.”
A chegada de Ibaneis Rocha ao Palácio do Buriti, em 2019, atraiu muitos piauienses para Brasília. Alguns trabalham no escritório de advocacia do próprio governador, como Willian Guimarães, ex-procurador no estado do Piauí e considerado o seu braço direito. Outros ocupam cargos no governo distrital. Um deles é Ney Ferraz, secretário de Economia. Na discussão da compra do Master pelo BRB, Ferraz foi uma peça importante em que pese o fato de que, em fevereiro, ele e sua mulher, Emanuela, tenham sido condenados no Tribunal de Justiça do DF por lavagem de dinheiro e ocultação de bens. Ferraz foi acusado de receber uma propina de mais de 500 mil reais de um empresário quando administrava o fundo de pensão dos servidores do DF. Pegou seis anos de prisão em regime semiaberto.
A maioria dos piauienses próximos a Ibaneis Rocha tem apartamento ou cobertura no Noroeste, bairro relativamente novo e abastado de Brasília. A concentração de conterrâneos do governador na região é tanta que os brasilienses apelidaram o local de “República do Piauí”. Boa parte, de acordo com a imprensa brasiliense, comprou seus imóveis com financiamento do BRB, com taxas de juros de 4% ao ano e prazo de pagamento a perder de vista.
Mas a operação política que salvou o Master não reuniu apenas piauienses. A brasiliense Flávia Péres, a ex-deputada do PL que foi casada com o ex-governador José Roberto Arruda, também compareceu – no seu caso, por razões pessoais. Casada desde janeiro do ano passado com Augusto Lima, um dos sócios do Master, Péres usou sua influência junto ao governador, com quem compôs chapa em 2022. Ele concorria ao governo pelo MDB (ganhou) e ela saiu para o Senado pelo PL (perdeu). Augusto Lima, ele próprio, já tinha negócios importantes com o governo do DF. O maior deles é o Credcesta, um cartão de crédito consignado para funcionários públicos.
O Credcesta começou na Bahia, mas se expandiu para outros estados depois que Lima se associou a Vorcaro, no Master, em 2019. Lima é muito bem relacionado. O seu Credcesta, que hoje atende os servidores do DF de Ibaneis Rocha, nasceu servindo os funcionários públicos da Bahia de Rui Costa, ex-governador do estado pelo PT e atual chefe da Casa Civil de Lula. Em abril de 2018, quando venceu o leilão de privatização do Credcesta em Salvador, Lima fez um negócio da China. Dezoito dias depois, o então governador Rui Costa mudou as regras de uso do cartão, ampliando imensamente o mercado. Lima, que arrematara um negócio modesto, de súbito fora premiado com um investimento notavelmente rentável. A alteração das regras até levantou suspeita – nunca confirmada – de que Rui Costa favorecera o amigo. A relação de Lima com o governo da Bahia vinha dos tempos do petista Jaques Wagner, que comandou o estado entre 2007 e 2015. A amizade do trio nunca esmoreceu. Até hoje, Jaques Wagner e Rui Costa viajam para a Bahia no jatinho de Lima, que frequenta a casa do ministro em Brasília e em Salvador.
A geografia da influência do Master não ficou restrita ao triângulo Brasília-Piauí-Bahia. Quando comprou o Máxima e transformou em Master, Vorcaro fez como tantos outros bancos e empresas – procurou cercar-se de nomes influentes. Para os membros do Comitê Consultivo, estabeleceu salários na faixa de 100 mil reais e recorreu a figuras que pudessem dar credibilidade à instituição. Entre os consultores, está Guido Mantega, que foi ministro da Fazenda nos governos Lula e Dilma Rousseff. No meio da crise, a importância de Mantega se fez sentir. Segundo noticiou o jornal O Globo, Mantega esteve no Palácio do Planalto e pediu ao seu amigo, o presidente Lula, que ajudasse a evitar o naufrágio do banco.
Além de Mantega, o Comitê do Master conta com outros ex-ministros, como Henrique Meirelles, que comandou a economia no governo de Michel Temer e ocupou a presidência do Banco Central durante os dois primeiros governos de Lula. Em 2023, logo depois de se aposentar do Supremo Tribunal Federal (STF), o hoje ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, tornou-se consultor do banco. Ninguém se incomodou com as denúncias que começavam a pipocar segundo as quais Vorcaro tinha um passado sombrio, que incluía fraudes em fundos de pensão.
Com Vorcaro, o Master também estabeleceu relações amistosas com ministros do STF. O banco apoiou o evento que o ministro Gilmar Mendes promove todos os anos em Lisboa, conhecido como Gilmarpalooza em decorrência da quantidade de juízes, empresários e banqueiros que costuma reunir. Em novembro de 2022 bancou um jantar no Fasano de Nova York com quatro magistrados à mesa: além de Lewandowski e Gilmar, estavam presentes os ministros Luís Roberto Barroso e Alexandre de Moraes.
Ao cercar-se de nomes ilustres e poderosos, o Master estava se empenhando em construir uma imagem respeitável. Na hora em que precisasse de ajuda, também poderia recorrer a um elenco robusto. Nada disso significa, no entanto, que todos os nomes que se aproximaram do Master – seja por ocupar um assento do Comitê Consultivo, seja por participar de um jantar promovido pelo banco – tenham atuado nas sombras em seu favor. Mas, quando precisou, o Master demonstrou que tinha costas quentes. Na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), por exemplo.
O terceiro sócio do Master, o carioca Maurício Quadrado, entrou para os quadros do Master com o objetivo de cumprir uma missão fundamental: ampliar os ativos do banco. Quadrado trabalhou como diretor de mercado de capitais no Bradesco, de onde saiu para criar uma corretora de valores mobiliários, a Planner. Entrou para o Master por meio da Banvox Holding Financeira e cumpriu sua tarefa com maestria. Por seu intermédio, o empresário Nelson Tanure começou a fazer negócios com o Master.
E negócios pesados. Com uma longa e tumultuada história de desajustes em sua carreira empresarial, Tanure é o controlador daquelas várias empresas em situação difícil que estão nos fundos do Master. Para o empresário, a parceria com o Master é um excelente negócio. Afinal, os recursos obtidos com os CDBs emitidos pelo banco são usados na compra de ações das suas empresas – uma operação tão pouco apetitosa que não atrai interessados no mercado. Com essas compras, o caixa das empresas de Tanure ganham um pouco de oxigênio.
A desconfiança do mercado de que Tanure seja sócio oculto do Master decorre da presença dessas empresas no banco. Há outro motivo, porém, já divulgado amplamente pela imprensa. O acionista majoritário da Banvox – aquela holding por meio da qual Quadrado associou-se ao Master – não é Quadrado, mas sim um fundo chamado Estocolmo, que pertence a Nelson Tanure. A rede é constituída de tal forma que, feitas as devidas conversões de ações, o fundo pode tornar-se dono da holding que, por consequência, se tornaria dona do banco – e, por trás do dominó, está Tanure.
A presença nos fundos do Master das empresas com “dívidas estressadas”, como se diz no jargão do mercado, levou a diretoria do fgc a alertar o Banco Central sobre os riscos. O problema é que a distorção na cotação dos papéis das empresas elevava – artificialmente – o valor dos ativos do Master. Com ativos superavaliados, o banco conseguia apresentar balanços mais robustos. E, com balanços mais robustos, conseguia cumprir as regras do chamado Acordo de Basileia, segundo as quais todas as instituições financeiras mundo afora precisam ter seus ativos e passivos bem ajustados para garantir solidez.
Embora o Master fosse auditado pela consultoria KPMG, os analistas de mercado, quando examinavam os fundos do banco, enxergavam uma série de inconsistências. A Comissão de Valores Mobiliários, responsável por fiscalizar a gestão dos fundos das instituições financeiras para evitar fraudes que contaminem seus balanços, também encontrava irregularidades. Chegou a repreender o Master em algumas ocasiões, aplicou multas aqui e ali, sempre de valores pouco expressivos, mas deixou os fundos operando, mesmo diante das tais inconsistências.
O diretor de um fundo de investimento me explicou como se dava a manipulação do balanço. Citou o exemplo de uma operação espetaculosa do banco. A transação ocorreu em 2023. Na época, o Master tinha um fundo chamado M1, com um patrimônio de 600 milhões de reais. No dia 27 de dezembro daquele ano, o banco comunicou ao mercado que estava cindindo o fundo em dois. O M1 ficaria com 400 milhões de reais, e o fundo novo, batizado de Marssani, ficaria com os 200 milhões restantes. Até aqui, embora incomum, a operação parecia normal.
Poucos dias depois, em 3 de janeiro de 2024, veio a surpresa. A gestora WNT Capital, de propriedade de Valério Marega Júnior, um parceiro de Vorcaro que só opera com o Master, fez um novo comunicado ao mercado: informou que, a partir daquela data, o fundo Marssani passaria a valer 600 milhões de reais – e não mais 200 milhões. Sem qualquer laudo que justificasse tamanho ganho, o Marssani agora, de uma hora para outra, passava a valer o triplo do que valia um dia antes. A consequência direta é que o patrimônio do Master, dono do Marssani, acabava de subir 400 milhões. “A operação foi escandalosa”, me disse o diretor do fundo de investimento que estudou a transação. “E passou batida pela CVM. Como é possível? Isso é fraude.”
No ano passado, apoiado em artimanhas do tipo, o balanço do Master apresentou um lucro de 1 bilhão de reais. Houve outras operações do mesmo naipe que vitaminaram o balanço. Em 2023, o Master tinha 7,6 bilhões de reais em precatórios. No ano seguinte, ajustou o valor para 8,7 bilhões, mais uma vez sem qualquer justificativa plausível. Os bancos têm o hábito de comprar precatórios, na expectativa de obter algum ganho quando a Justiça manda que sejam pagos, mas nenhum deles valoriza seus precatórios de um ano para o outro. Só o fazem quando o valor dos títulos é definido pela Justiça. A valorização aplicada pelo Master, de 15%, é muito superior à Selic, a taxa que baliza os juros na economia. A KPMG, no entanto, não viu nada de errado na operação.
Outra razão para o lucro, que também deixou o mercado ressabiado, refere-se a um item incluído no balanço chamado “ganho por compra vantajosa”, que os analistas consideram “uma jabuticaba do Master”. O banco comprou ativos por um dado valor, mas registrou-os por outro. Exemplo: adquiriu o Banco Voiter por 200 milhões de reais, mas colocou no balanço como se valesse 435 milhões. Outro exemplo: as ações da Ambipar, a empresa de serviços ambientais, subiram de 8 para 230 reais, melhorando assim a cara dos fundos do banco.
Nas empresas controladas por Tanure e colocadas nos fundos do Master, havia também uma prática predatória. Como acionista principal, Tanure ficava com a parte saudável de suas empresas e deixava a parte podre para os acionistas minoritários. A construtora Gafisa foi um caso típico. Tanure comprou ações da empresa até se tornar seu controlador. Concluída essa operação, os minoritários alegam que passavam a sofrer prejuízos. Vladimir Timerman, da Esh Capital, dono de um fundo com ações da Gafisa, foi um dos prejudicados. Numa denúncia que fez à CVM, Timerman acusou Tanure de várias anomalias.
Denunciou, por exemplo, a perda amargada pelos acionistas da Gafisa com a construção irregular de um empreendimento hoteleiro, chamado Costa do Peró, em Cabo Frio, no litoral do estado do Rio. Em 2022, depois que o Ministério Público Federal ganhou uma ação contra a construtora, o empreendimento foi demolido. Estava em área de preservação. O passivo ambiental de 300 milhões caiu na conta da Gafisa, cujas ações despencaram, gerando prejuízo milionário aos minoritários. Denunciou, também, que o hotel Fasano em São Paulo foi comprado pela Gafisa – na planta – e, no ano passado, já concluído e mobiliado, foi vendido pelo mesmo valor para um fundo – suspeita-se – do próprio Tanure.
Apresentada às denúncias, a CVM não se manifestou. Timerman acusa João Pedro Barroso do Nascimento, presidente da Comissão, de fazer vista grossa, não apenas para o caso da Gafisa, mas para outras tantas irregularidades de Tanure e dos fundos do Master. Indicado para o comando da CVM em 2022 por Jair Bolsonaro, Nascimento teve que vir a público desmentir que fora escolhido porque era amigo de infância do senador Flávio Bolsonaro. Na ocasião, ele confirmou a amizade, mas afirmou que “não integra nenhum partido político, não tem nenhuma pretensão política e está indo desempenhar um trabalho técnico, livre de quaisquer conflitos”.
Em nota da assessoria, a CVM diz que acompanha os fundos do Master desde 2019, bem como as operações da Gafisa. Hoje, existem mais de uma centena de ações referentes aos fundos do banco e à construtora. “Nenhum desses casos é surpresa para nós. A situação dos fundos do Master, da Gafisa, a especulação com ações da Ambipar e dos fundos de precatórios do banco, tudo isso está sob análise das áreas técnicas”, me disse um funcionário da autarquia. “É diferente da Americanas, que nos pegou de surpresa.” O técnico completou: “Brigas de sócios aqui são constantes. Timerman e Tanure vivem em briga. E podemos dizer: nenhum dos dois é um papa Francisco.”
Até agora, Timerman tem levado a pior nos seus embates jurídicos. Perdeu uma ação em que acusava Tanure de uma manobra financeira ilícita. Em razão disso, seu fundo da Gafisa está bloqueado há um ano. Em março, Tanure ganhou outra ação. Timerman acabou condenado a 1 ano, 10 meses e 15 dias de reclusão por perseguir o empresário nas redes. A pena foi convertida em prestação de serviço social. A CVM tentou cancelar seu registro de gestor, alegando que não tinha “reputação ilibada”. Neste caso, porém, o processo não foi adiante.
Enquanto isso, a CVM mantém relações bastante amigáveis com Tanure e o Master. Nascimento, o presidente da autarquia, é muito próximo de Pedro Borba, que é membro dos conselhos de administração da Ambipar e da Light. Borba e Nascimento foram colegas de trabalho na EBX, a quebrada empresa de petróleo de Eike Batista. Ali, Borba era o chefe de Nascimento, seu subordinado. Em conversas com interlocutores próximos, Nascimento já afirmou que o fato de ter trabalhado com Borba não influencia em nada seu trabalho na CVM. “É uma relação de respeito, como a que tenho com muitas outras pessoas do mercado”, costuma dizer.
O Master e o próprio Vorcaro também entraram na ciranda da briga e abriram uma ação contra Timerman por “ofensas e ataques”. O banqueiro é defendido pelo escritório Barci de Moraes, onde trabalham Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes, e os dois filhos do casal. Na queixa-crime, o escritório faz referência à ação vencida por Tanure e pede a mesma pena contra Timerman: 1 ano, 10 meses e 15 dias de reclusão. O caso está em curso, mas o Ministério Público de São Paulo pediu a anulação do processo.
“Não tem nada a ver com a gente.” A afirmação é de Daniel Vorcaro, quando perguntei ao banqueiro se o Master continuava fazendo negócios com as empresas de Nelson Tanure. Na verdade, tudo depende do que significa “nada a ver”. Em março passado, por exemplo, quando as tratativas do Master com o BRB já estavam perto do desfecho, o Master entrou forte no mercado comprando papéis da Oncoclínicas, outra empresa de Tanure que está nos fundos do banco. Em 2023, as ações da Oncoclínicas haviam desvalorizado 90%. Até fevereiro passado, valiam apenas 1,70 real cada. Com o movimento do Master, ultrapassaram os 5 reais.
Em maior ou menor grau, o Master continua comprando papéis micados de Tanure, enquanto o empresário trata de se desfazer de parte deles para levantar capital – só que não no mercado. Em 25 de março, Tanure empurrou goela abaixo da Braslight, o fundo de pensão dos funcionários da Light, empresa da qual ele é controlador, cerca de 120 milhões de reais de ações da Alliança, sua empresa de medicina diagnóstica, que também vai mal das pernas. Agora, a Braslight é dona de 6,75% das ações da Alliança.
Os fundos de pensão também entraram na alça de mira do Master. São o mais recente alvo para desova dos seus CDBs, depois que as plataformas começaram a reduzir a venda dos papéis do banco. Só o Fundo Único de Previdência Social do Estado do Rio de Janeiro, o Rioprevidência, detém 960 milhões de reais de CDBs do Master. “Não é possível o Rioprevidência colocar o dinheiro dos aposentados e pensionistas do estado em papéis de um banco de terceira linha e de alto risco”, indigna-se o deputado estadual Luiz Paulo Rocha, do PSD. Em outubro do ano passado, quando soube do negócio, Rocha denunciou a operação ao Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro.
No dia 9 de abril, a conselheira Marianna Montebello Willeman apresentou seu voto de cem páginas numa sessão do TCE-RJ. Apontava uma fieira de irregularidades na operação, que considerou de alto risco para os cofres do Rioprevidência. Disse que o Master não está habilitado a vender papéis para o fundo, o produto financeiro que oferecera não tinha histórico no mercado e o banco estava exposto a risco reputacional. A sessão foi suspensa em razão de dois pedidos de vista.
Numa conversa em seu gabinete na Assembleia Legislativa, no começo de abril, o deputado Luiz Paulo Rocha estava inconformado. Contou que perguntou ao presidente do Rioprevidência, Deivis Marcon Antunes, quem iria garantir a reposição do dinheiro caso o Master quebrasse. Ouviu uma resposta insólita. Segundo o deputado, Marcon disse que, em caso de calote, bastaria o estado do Rio reter os recursos da Credcesta, aquela empresa do sócio do Master que opera com o governo estadual. “Isso é tão irreal. Imagina se a Justiça autorizaria uma medida dessa…”
Além do Rioprevidência, o fundo de previdência dos funcionários da Cedae, a companhia de água e esgoto do Rio, também se entupiu com papéis do Master. Em sua carteira, a Prece tem hoje 220 milhões de reais em CDBs do banco. Trata-se de uma desproporção. Em títulos do Banco do Brasil, o fundo tem 147 milhões de reais. Em papéis do Bradesco, 15 milhões. É certo que os papéis do Master prometem um retorno muito superior às taxas praticadas no mercado, o que também, naturalmente, aumenta bastante o risco das aplicações. Por isso, os analistas financeiros têm dificuldade de entender por que os fundos de previdência se arriscam tanto.
Daniel Vorcaro aparenta manter a calma em meio ao tiroteio. Um conhecido dele diz que isso decorre de sua “grande inteligência emocional”. A serenidade é tanta que, em meio às negociações com o BRB e o Banco Central, Vorcaro tirou uns dias para curtir o Carnaval. Passou uma noite com a namorada na casa de Trancoso, que os empregados cobriram de flores. Depois, voou com ela no seu jato para o Rio de Janeiro, onde viu o desfile das escolas de samba de camarote. Também organizou uma festa privada no Parque Lage, aos pés do Morro do Corcovado.
“O que eu não me conformo é que quem fala mal de nós, não o faz abertamente. Mandam recado”, me disse. Para ele, a operação com o BRB gerou polêmica em razão dos “mal-entendidos divulgados pela mídia maldosa”. E afirmou: “O fato é que a gente acabou conseguindo, de certa maneira, furar a bolha e nos tornamos relevantes.” Com toda a concentração bancária do sistema atual, “nós precisávamos tomar uma medida estratégica”. A medida, segundo Vorcaro, “era termos um parceiro estratégico que permitisse que a captação de CDBs do banco não dependesse de plataformas”. O parceiro estratégico é o BRB. “Sendo um banco público, ele tem captação da folha de pagamento de alguns estados. Tem captação de depósitos judiciais de estados e municípios. Tem grandes investidores institucionais e corporativos. Então o custo de captação dele é muito menor que o nosso, em torno de 90% do CDI, ou seja, é abaixo do CDI. E é uma captação que não depende de plataforma, que é tudo de que precisamos.”
Por outro lado, prosseguiu o banqueiro, o BRB “embora tenha um caixa grande, tem uma rentabilidade baixa”. Por isso, “o retorno sobre o patrimônio líquido deles do ano passado foi muito abaixo do mercado”. Ou seja, na sua opinião, o BRB, ao contrário do Master, não estava conseguindo rentabilizar, mesmo tendo um custo baixo de captação. Então, a entrada do banco estatal no capital do Master “é um ganha-ganha muito forte para as duas instituições”.
Vorcaro alimenta grandes esperanças e, na sua leitura, seu banco está dando o pulo do gato. “Quando esse negócio se concretizar, o Master não dependerá de mudanças de regra do Banco Central e nem do FGC. Não importará se a XP for comprada por um grande banco ou não. A gente pereniza o nosso negócio e sai dessa dependência de terceiros que a gente tinha para distribuir nossos títulos.” E, para o BRB, a vantagem estará em “entrar em sociedade com um banco que está dando muito resultado, está dando retorno sobre o patrimônio líquido acima da média”. O retorno, diz ele, é de 28%, enquanto o resto do mercado está entre 20% e 22%. “O BRB está abaixo disso. Em torno de 7% ou 8%.” Por essa métrica, o Master vai bem, obrigado. “Não tem nada de errado com a gente.”
Vorcaro nega que esteja tomando providências concretas para livrar-se da “mídia maldosa”, mas corre no mercado que investiu no Platôbr, uma plataforma de notícias que atraiu nomes respeitados do jornalismo, e assumiu os precatórios do Correio Braziliense, que já foi o principal veículo de Brasília. Sua maior aposta mirou no Portal Leo Dias, jornalista que, no ano passado, recebeu o prêmio Fofoqueiro do Ano, láurea concedida a quem se destaca na cobertura de famosos e celebridades. Leo Dias é um fenômeno nas redes. Só no Instagram tem mais de 18 milhões de seguidores*.
O Banco de Brasília ocupa duas torres de vidro espelhado no Setor de Autarquias Norte, em Brasília. A sala da presidência fica no 18º andar e está toda decorada com camisetas do Flamengo, o time que o banco patrocina, e capacetes de Fórmula 1, evento que também patrocina. A sala ainda exibe troféus que o BRB ganhou em meio século de existência, além de esculturas de artesãos de Brasília.
O presidente da instituição, o pernambucano Paulo Henrique Costa, de 48 anos, é um homem magro, pequeno e sorridente, de cabelos pretos cortados rente à cabeça. Sentado à cabeceira da enorme mesa da sala de reuniões do banco, ele me conta que começou sua vida profissional no HSBC, no Recife. Em 2001, depois de passar no concurso para a Caixa Econômica, mudou-se para São Paulo e, mais tarde, para Brasília, onde chegou à vice-presidência da instituição.
É formado em administração de empresas e tem mestrado em administração de negócios na Inglaterra e nos Estados Unidos. Em 2019 Costa deixou a Caixa Econômica, e a convite do governador Ibaneis Rocha, que vencera as eleições de 2018, assumiu o comando do BRB. Quando lhe perguntei sobre os insistentes comentários de que o senador Ciro Nogueira, sempre ele, seria seu padrinho, Costa sorriu. “Quem me convidou foi o governador Ibaneis e estou aqui por causa dele.”
Enquanto o mundo desaba à sua volta, dada a má repercussão do seu negócio com o Master, Costa se refere à operação com empolgação. “A história de transformação do BRB se conecta diretamente com a operação que estamos discutindo agora”, disse. “Até 2018, o BRB estava parado no tempo e perdeu muitos clientes. A carteira de crédito vinha diminuindo e, na nossa visão, o objetivo de um banco público não era perder tamanho. Ao contrário, era ser competitivo e forte.” Segundo ele, o banco fez uma análise com a chegada do governo de Ibaneis Rocha e concluiu que não podia continuar pequeno, engessado nas operações de empréstimos consignados que atendiam apenas o servidor público e um único ente da federação. O banco precisava ser moderno e competitivo e buscar novos clientes, dentro e fora do DF.
Em 31 de dezembro de 2018, de acordo com Costa, o BRB tinha 650 mil clientes, uma carteira de 9 bilhões de reais de crédito e 15 bilhões de ativos totais, todos concentrados no consignado. Com a nova proposta de ser mais agressivo, o banco deu um salto. No ano passado, alcançou 9 milhões de clientes, distribuídos “em 97% do território nacional”. Seus ativos totais pularam para 61 bilhões. Ele se gaba: “Somos responsáveis por 54% da carteira de crédito imobiliário do Distrito Federal.”
Com tanto sucesso, por que o BRB precisava se juntar a um banco tão duvidoso? “Oportunidade”, diz ele. A oportunidade surgiu justamente em dezembro passado, logo depois que o Banco Central deu um ultimato aos controladores do Master. “Nós tínhamos feito um aumento de capital em agosto de 294 milhões, e depois fomos ao mercado buscar carteiras de crédito para adquirir. Antes, em julho do ano passado, chegamos a ter contatos com o Master. Examinamos algumas carteiras de crédito consignados. Em outubro, fomos procurados novamente pelo Master, agora com a proposta de uma parceria estratégica, mas não nos interessamos.”
Dois meses depois, com o Master já sob pressão do Banco Central, o BRB mudou de ideia. “No final de dezembro, entre o Natal e o Ano-Novo, o Daniel me ligou e falou: ‘Paulo, você toparia abrir a discussão sobre parceria estratégica ou uma parceria societária’?” Ali, segundo Costa, surgiu pela primeira vez a lógica societária. A coisa começou a andar. No dia 6 de janeiro, ele recebeu a provocação formal do Master “porque para a conversa avançar é preciso seguir um rito e receber o ofício”, explicou. Três dias depois, o BRB comunicou ao Master que tinha interesse na transação. Constituiu-se um grupo de trabalho com funcionários dos dois bancos e assessores externos para avaliar o negócio. Criaram-se também dois outros comitês – o de Governança Estratégica e o de Governança Executiva, ambos liderados por Costa.
“O resultado, ou pelo menos o primeiro resultado, foi conhecido pelo mercado no dia 28 de março, quando a gente sinalizou uma transação de compra de 58,04% do capital total do Banco Master, sendo 49% em ações ordinárias, e o remanescente na totalidade do capital de ações preferenciais”, disse. O objetivo “é permitir que o BRB se torne competitivo naqueles segmentos em que não conseguiu crescer nesses últimos seis anos, como mercado de capitais e câmbio, entre outros”.
Pelo negócio que está sendo desenhado, o BRB não comprará ações de empresas do Master. A “sociedade” se dará apenas onde “houver complementariedade”. “Queremos atuar em câmbio e em atacado em médias e grandes empresas. Vamos buscar a estruturação de conta internacional, fazer transferências internacionais. Afinal, Brasília tem 150 representações diplomáticas. Vamos também ter o cartão de crédito consignado, benefício que a gente tanto tentou desenvolver aqui, mas não conseguiu.” O outro pilar do negócio é o banco digital Will Bank, instituição recheada de problemas que o Master comprou em 2023. “Ter uma fintech com DNA nativo digital, organizada, com uma infraestrutura na nuvem , com toda uma gestão de relacionamento digital é muito diferente. Isso nos agrega valor.”
Entre as operações do Master que o BRB vai dispensar estão os precatórios e os fundos de investimento em ações de empresas que atuam em outros setores que não o mercado financeiro, como a Oncoclínicas e a Alliança. Quanto à montanha de 50 bilhões de reais de cdbs emitidos pelo Master, o BRB pretende ficar com os de longo prazo, com vencimento em até dez anos, que respondem por cerca de 50% do estoque. Os demais, que estão vencendo agora, não interessam. Costa admite que, neste caso, o pepino pode cair na conta do FGC.
Conforme os termos atuais da transação, o BRB vai pagar 2 bilhões de reais para ficar apenas com a parte administrável do Master. Pergunto se não seria menos dispendioso se o próprio BRB montasse essas operações. “Isso seria muito complicado”, diz Costa. “Demandaria contratação, treinamento, o que levaria anos para se viabilizar.” Se o negócio de fato sair do papel, o BRB pretende fazer um aumento de capital de 750 milhões de reais, que até agora não foi aprovado.
O Master, ao contrário do que chegou a ser divulgado, não entrará no controle do BRB. Costa levanta-se da cadeira e começa a escrever em um quadro na parede. “Repare, o BRB é a holding. O Master será apenas uma subsidiária.” Ainda não está resolvido quem ficará no controle desse novo Master. Vorcaro, naturalmente, é o principal candidato. Tudo considerado, Costa apresenta um quadro geral segundo o qual o negócio tende a ser um estrondo. Portanto, o BRB também vai muito bem, obrigado.
Na outra asa do Plano Piloto de Brasília, a uma distância de 4 km do BRB, fica a sede do Banco Central. É dali que sairá a última palavra sobre o negócio Master-BRB. As negociações envolvem também os bancos de maior porte que estão fora do negócio. Num fim de semana de abril, Gabriel Galípolo, o presidente do BC, se reuniu com todos eles em São Paulo, para discutir a situação. Galípolo precisava saber se os grandes bancos têm algum interesse em ficar com algum pedaço do retalhado Master. Ele costuma dizer que, nesses casos, o BC tem o dever de buscar um equilíbrio, de modo a impedir que um banco fique com a carne da operação e os outros com o osso.
Em conversas com o mercado, Galípolo tem se empenhado em explicar por que o BC não liquidou o problemático Master, que agora está sendo empurrado para o BRB. “Não cabe ao Banco Central julgar a compra. Se duas instituições estão de acordo em fazer negócio, o Banco Central não pode simplesmente dizer não”, ele tem insistido. O mantra dessas conversas é afirmar que o papel do BC é analisar se a instituição que quer adquirir outra tem condições de fazê-lo. Ou seja: saúde financeira, liquidez, capacidade de honrar com os passivos. Sua tese é: “A instituição aguenta comprar 100%, 50%, 40%? O Banco Central não pode, simplesmente, proibir o negócio em antecipação, sem avaliar todas as possibilidades.”
E não basta apenas avaliar as condições de comprador. Nos seus contatos com interlocutores do mercado, Galípolo tem sido didático. Ou seja: não apenas importa se o comprador ficará com 20%, 40% ou 80% do negócio. É preciso se certificar se tudo o que sobrar da instituição fatiada terá viabilidade econômica. “Se os 70% que sobraram são inviáveis para serem adquiridos por outras instituições, então o negócio não pode ser aprovado.” Por isso tudo, ainda que o mercado esteja ansioso por uma solução rápida, Galípolo tem dito que o BC só baterá o martelo depois de fazer todas as diligências de modo minucioso.
Otávio Fakhoury tem experiência nos dois mundos que estiveram em ebulição nas últimas semanas – o político e o financeiro. Ele foi presidente do PTB de São Paulo e tornou-se conhecido na eleição de 2018, quando apoiou com fervor a candidatura de Jair Bolsonaro. Em paralelo, trabalhou muito tempo em Wall Street e na Faria Lima. Talvez por isso mesmo, ele já tenha dado uma explicação jocosa para as relações entre os dois mundos.
“A Faria Lima e Wall Street são assim. Eu monto um banco. Se eu ganhar é meu, se eu perder é teu”, me disse ele, numa conversa em 2021, quando nem existia o caso Master-BRB. O mercado, na sua visão, sempre funcionou mais ou menos como a história do desenho animado do Coiote e do Papa-Léguas. “Acabou o meu dinheiro? Fiquei sem solo? Help, help”, debochava ele, imitando o pedido de ajuda que o Coiote sempre faz quando se encontra em apuros.
Em meados de abril, voltei a procurá-lo para ouvir sua análise sobre o caso Master-BRB. Fakhoury fez algumas considerações, mas não quis se alongar. Encerrada nossa conversa, me mandou uma mensagem de WhatsApp. Escreveu:
– Help, help, help – e finalizou com um emoji de gargalhada.
[1] O fundador da piauí já foi acionista integrante do bloco de controle do Itaú Unibanco. Não é mais. Também deixou de ser controlador da revista. Em 2021, a piauí passou a ser mantida por uma doação patrimonial feita em caráter irrevogável e, desde então, não tem patrão, nem dono. (N.R.)
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* Depois da publicação da reportagem, o diretor executivo do grupo Leo Dias Comunicação e Jornalismo Ltda, Thiago Miranda Silva, mandou uma carta à redação em que diz que “a LEO DIAS é uma pessoa jurídica regularmente constituída e independente, regida pelas leis brasileiras, com quadro societário próprio, e não possui qualquer vínculo de qualquer natureza com o senhor Daniel Vorcaro, principal mencionado na matéria. O conteúdo mencionado na reportagem induz o mercado a uma falsa percepção que pode comprometer a lisura da informação a respeito da composição societária e institucional da empresa, causando confusão assim à sua imagem”.