vultos dos negócios
João Batista Jr. Abr 2025 17h05
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Quando chega em sua casa, o francês Alexandre Ludovic Allard está no topo de São Paulo e cercado de luxo. Sua cobertura tríplex tem 1 361 m2 e uma vista de 360 graus para os arranha-céus da cidade. É obra do arquiteto francês Jean Nouvel, ganhador do Pritzker de 2008, o Nobel da arquitetura. Nos espaços externos do imóvel, há um jardim com árvores nativas do Brasil que sobem pelas treliças e uma piscina de borda infinita, de onde se avistam as montanhas da Serra da Cantareira. Na sala principal, há uma escada em espiral, que lembra a obra-prima que Oscar Niemeyer instalou no Palácio do Itamaraty, em Brasília. No piso, pranchas enormes de madeira sucupira, ajustadas por artesãos do Ateliers de France, especializado em marcenaria. Na decoração, móveis assinados. Entre eles, a celebrada chaise longue Rio, outra obra de Niemeyer.
É seu Versailles privé. A cobertura chama-se Penthouse Suite e fica a 100 metros do solo, coroando o edifício Torre Mata Atlântica, que se destaca no luxuoso complexo Cidade Matarazzo, que reúne centro cultural, restaurantes, bares, galeria de arte e o hotel Rosewood, o mais chique do Brasil. Alex Allard, como é conhecido, já abriu as portas da Penthouse para eventos especiais. Recentemente, recebeu para jantar Caetano Veloso e Maria Bethânia, que faziam turnê na cidade. Quando Allard está em viagem ao exterior, o Rosewood oferece a cobertura aos hóspedes mais endinheirados, como já aconteceu com o cantor americano Bruno Mars. Cobra a diária mais cara do país: 50 mil dólares, quase 300 mil reais.
O complexo Cidade Matarazzo é um projeto bilionário no segmento da hotelaria e da hospitalidade de luxo. É o orgulho de Allard. Em 2011, ele comprou por 117 milhões de reais (250 milhões, em valores de hoje) os 27 mil m2 que, a um quarteirão da Avenida Paulista, abrigavam edificações erguidas pela família Matarazzo no início do século XX. Ao lado de investidores que já colocaram 3,5 bilhões de reais no negócio, Allard restaurou prédios, ampliou alguns e construiu outros, na maior requalificação urbana em curso na cidade de São Paulo – mas só para abastados, bien sûr. No Rosewood, a diária começa em quase 5 mil reais. No bar Rabo di Galo, um bolovo custa 135 reais. Na brasserie Le Jardin, paga-se 55 reais por uma fatia de bolo de fubá com goiabada.
Para Allard, no entanto, o luxo é apenas um detalhe. Ele diz que seu principal objetivo nem é ganhar dinheiro, mas trabalhar para atingir duas grandes metas de sua vida: acabar com a fome mundial e preservar o meio ambiente. Quando lhe chamam de “louco”, em razão de suas ambições desmedidas, ele rebate: “Louco é o rico que não olha para o mundo além do seu próprio umbigo”, como afirmou em uma entrevista ao Brazil Journal. Para tanto, Allard diz que usa o dinheiro gerado pelo mercado de luxo para aplicar em ações que considera centrais: economia inclusiva, sustentabilidade e diversidade. Diz que adora o Brasil. É apaixonado pela natureza, afirma que quer “salvar a Amazônia” e tornou-se usuário da ayahuasca, a bebida alucinógena e sagrada dos povos originários. Há anos, faz visitas periódicas a aldeias indígenas na Amazônia.
Paradoxalmente, os cuidados ambientais são precários em seu negócio. Nos escritórios do complexo Cidade Matarazzo, os copos são de plástico. Não há programa de separação de resíduos em nenhum bar ou restaurante do Rosewood. “Eu jogo tudo no mesmo saco”, diz um funcionário de um dos bares, que pediu para não ser identificado com receio de perder o emprego. “Nunca a chefia deu qualquer instrução sobre lixo. Isso é um não assunto lá dentro.” Outro funcionário, que trabalhou por lá durante um ano, explica que o bar onde dava expediente separava apenas vidro e papelão. “Essa separação é muito bem-feita, mas é só isso. Os demais resíduos vão todos para o mesmo lugar. Não tem cestos de coleta seletiva.”
No campo da diversidade, Allard tem se apresentado como uma voz contra o racismo e o preconceito. Já disse que o ser humano precisa se “reconciliar com a negritude” e costuma afirmar que se sente em casa quando visita Salvador, precisamente pela forte presença de pretos e pardos. Em uma entrevista para a revista Forbes, Allard relembrou os tempos em que, ainda criança, morou com os pais na Costa do Marfim, ex-colônia francesa: “Tenho várias memórias da minha infância na África, mas uma voltou muito forte quando tomei ayahuasca pela primeira vez aqui no Brasil, em Alto Paraíso de Goiás. Lembro com clareza. Eu olhando as minhas mãos de manhã. Por que elas eram brancas? Eu chorava por elas não serem pretas. Acordava e logo pensava: ‘Por que eu sou branco?’ Ia para a escola e era um desafio ser o único branco.”
Allard diz que, em sua passagem pela África, descobriu seu amor pela diversidade dos povos, pela cultura e pelo desapreço material. O Rosewood, hotel do qual detém 35% das ações, gosta de divulgar que sua política interna valoriza a inclusão e a diversidade, tanto que se apresenta, em seu material publicitário, como “um local de trabalho inclusivo, empregando transgêneros e não binários, permitindo que os funcionários selecionem seus uniformes com base em suas preferências pessoais”.
Na prática, as coisas funcionam de outro jeito.
Certo dia, Alex Allard voltou de um compromisso e, na presença de um executivo que integrava a direção do Cidade Matarazzo, fez uma reclamação imortal. “Tive que ir aos bancos para negociar dívidas e são todos uns macacos.” O executivo, que já deixou a empresa, conta que foi pego de surpresa com a grosseria racista e ficou em silêncio. Conversei com uma ex-diretora, também envolvida em decisões executivas, que me contou que Allard usava a expressão “Macacoland” com alguma frequência para se referir a negros e brancos, fundindo racismo com xenofobia. “Para ele, macacos somos todos nós que nascemos e moramos no Brasil, na Macacoland”, diz.
Outros dois executivos com quem conversei contam que era comum ouvir frases depreciativas. “Nas reuniões, ele dizia coisas como ‘eu vou ensinar vocês a fazer’”, afirma um deles, que trabalha no setor de eventos. Em conversas separadas, os quatro executivos disseram que Allard por vezes se enamorava da grandeza e se referia a si mesmo como o Rei Sol, epíteto de Luís XIV, o monarca mais longevo da França. “O Allard criou um projeto de revitalização e reurbanização extraordinário”, diz um dos ex-dirigentes. “Mas ele trata o Brasil como se fosse um país de quinta. Parece estar fazendo um favor. Lembra os portugueses do século XVI dando espelhos aos indígenas.”
Houve outros momentos de tensão xenofóbica. Em uma reunião com a presença de dez executivos, o diretor do Cidade Matarazzo, o também francês Jacques Brault, irritou-se com o atraso no andamento das obras. E gritou algumas vezes: “Eu não aguento mais. Isso é típico de vocês.” Na ocasião, alguns executivos expuseram sua contrariedade com aquele tratamento e pediram respeito. No dia seguinte, ao ser informado do caso, Allard entrou em contato com cada um para pedir desculpas. Brault não tocou no assunto. Continua ocupando o cargo de presidente do complexo.
Allard minimiza esses acontecimentos. Não nega que tenha usado a expressão “Macacoland”, mas considera tudo um desabafo diante das dificuldades de trabalhar num país como o Brasil – afinal, ninguém melhor que os reis solares para saber a dor intolerável do fardo do homem branco. “Algumas vezes… Se você vivesse na minha vida… O que eu tive de enfrentar para fazer o Brasil acontecer… Quando fico preso entre prefeitura e Ministério Público brigando… Os juros altos…” Em seguida, faz uma analogia com a vida amorosa. “Pode ser que eu tenha ficado chateado, meu amigo… Eu imagino que você tenha namorado ou namorada, e que algumas vezes briga com ele ou ela. É a mesma coisa. O que eu tive de enfrentar para ver esse sonho grande acontecer. Só tem prova de amor o que eu coloquei nesse país.”
No dia 7 de março de 2023, Alex Allard estava feliz como quem acaba de triunfar sobre o exército holandês. Por meio da sua Aya Earth Partners, organização que fundou em parceria com Patricia Ellen da Silva, ex-secretária do governo de João Doria, Allard havia preparado o Fórum Ambição 2030, um evento da ONU destinado a debater a redução da desigualdade social e proteção do meio ambiente e dos direitos humanos. Palestrantes falaram para mais de quinhentos convidados, reunidos num salão no subsolo do hotel Rosewood, durante o dia todo.
No fim do evento, houve uma festa com roda de samba no terraço do Aya, um prédio de vidro e plantas decorado com réplicas de cipós de ayahuasca, situado dentro do complexo Matarazzo. Quando os convidados desciam do terraço para o ambiente coberto pela escada espiralada, as coisas começaram a complicar. O colombiano Alexander Marsh Thomson Payán, sócio de Allard no Cidade Matarazzo, passou a mão nas nádegas de um executivo do setor de eventos. “Ele já tinha se encostado e brincado de bater na minha bunda em outras ocasiões, mas ali a coisa foi ainda mais invasiva. Para mim, não dava mais para aceitar”, diz ele, ao relembrar o episódio.
Pouco depois, já na pista de dança, Thomson agarrou o pênis de um colega de trabalho – e começou uma discussão em altos brados, segundo o depoimento de dois convidados que testemunharam a cena. “Apartei o começo da briga”, diz o executivo que resistiu aos avanços do colombiano na descida da escada. Os dois assediados resolveram deixar a festa e, dias depois, em separado, relataram o ocorrido para Allard, mas não chegaram a prestar queixa ao setor de Recursos Humanos, nem registraram boletim de ocorrência na delegacia. Em poucas semanas, os dois pediram as contas.
O burburinho sobre os dois casos acabou trazendo à tona um terceiro episódio, ocorrido três dias antes, na noite de 4 de março. Uma bartender relatara ao setor de RH do Rosewood que Thomson a assediara em pleno expediente, no Rabo di Galo. Na nossa conversa, ela pediu para não ser identificada e relembrou o que aconteceu: “Eu estava atrás do balcão do bar, com as minhas duas mãos ocupadas, preparando coquetéis”, diz. “Então ele me abraçou por trás, fazendo movimentos repetitivos de me encoxar e beijou meu pescoço. Congelei na hora.” Thomson tinha acesso à área interna do bar, que frequentava sem pagar. Suas despesas iam para a conta de Allard.
A bartender avisou seu chefe direto e foi embora pouco depois. No caminho para casa, enviou uma mensagem de WhatsApp ao funcionário que fazia a conexão com o RH. No dia seguinte, segundo seu testemunho, recebeu um áudio nos seguintes termos: “A gente vai dar uma olhadinha no que aconteceu.” A bartender, uma mulher trans de 32 anos, ficou desolada com a mensagem. Pelo linguajar e pelo tom, entendeu que seu caso não seria tratado com seriedade.
Ela fora contratada pelo Rosewood em janeiro de 2022 e, como o hotel divulgava adotar uma política interna de ampla tolerância com a diversidade, achou que poderia sentir-se em casa. Engano. Meses depois de entrar no emprego, contou à chefia que estava em processo de transição de gênero, informou o nome pelo qual gostaria de ser tratada e quis adotar uniforme feminino. A notícia não foi bem recebida. No grupo de WhatsApp do trabalho, denominado Mural A&B, iniciais de alimentos e bebidas, que reúne mais de duzentos funcionários, a bartender continuou sendo tratada pelo nome masculino. “Eu era motivo de chacota no ambiente online e ao vivo. No Rabo di Galo, os superiores também me tratavam pelo pronome masculino.”
Assim que foi informado da transição, o RH disse que a bartender não poderia usar o banheiro feminino por “razões de segurança”. Em resposta, ela mostrou uma decisão do Supremo Tribunal Federal, publicada em 2019, segundo a qual a transfobia está equiparada ao crime de racismo. O RH disse então que ela seria autorizada a usar o banheiro feminino quando toda a sua documentação com nome social estivesse pronta – uma burocracia que pode levar meses.
Dois dias depois do assédio no bar, houve uma reunião com o RH, que havia checado as imagens da câmera de segurança. Mas o RH lavou as mãos. Disse que poderia colocar a bartender em contato com Thomson, para que ele lhe pedisse desculpas, mas não poderia fazer nada além disso. A bartender se recusou a fazer contato com Thomson e registrou um boletim de ocorrência. Dias depois, acabou transferida do Rabo di Galo para o bar da piscina do térreo, o Emerald Garden Pool & Bar, muito frequentado, exatamente, por Thomson. Ela conta que, um dia, ele se aproximou em tom ambíguo, a meio caminho entre um pedido de desculpas e uma ameaça, e informou que sabia dos seus dois parentes que também trabalhavam no Cidade Matarazzo. Ela desconfia que ele usava óculos que gravam imagens e áudio.
Com sintomas de síndrome de burnout, depressão, ansiedade e estresse pós-traumático, ela precisou afastar-se do trabalho e contratou a advogada Kimberly dos Santos, especializada em direitos da população trans. Em segunda instância, ganhou a ação por transfobia, assédio sexual e danos psiquiátricos. A desembargadora Catarina von Zuben, do Tribunal Regional do Trabalho, aumentou a multa de 17 mil para 80 mil reais e escreveu: “A reclamante não silenciou. Reportou as investidas […] ao setor de RH, mas apenas foi realocada para trabalhar em outro local do hotel, em que continuaram as investidas do referido senhor. Inequívoca a conduta ilegal e irregular da empregadora, que ao invés de proteger a funcionária optou por ser conivente com o agressor.” Cabe recurso.
Na esfera penal, onde era processado pelo crime de importunação sexual, que dá até cinco anos de prisão, Thomson venceu. O juiz Augusto Antonini, da 28ª Vara Criminal, reconheceu o ato – abraço por trás e beijo no pescoço –, mas entendeu que configurava um mero cumprimento. “Os fatos narrados na denúncia duraram apenas 4 segundos, quando o denunciado apenas teria abraçado a vítima por trás e lhe dado um beijo no rosto ou pescoço, saindo rapidamente do local.” Também cabe recurso.
Allard garante que afastou Thomson assim que soube dos três casos de assédio. “Imediatamente ele foi demitido da função do Conselho de Administração”, disse. “Ficou só com a consultoria. E depois dessa coisa com a bartender, não renovamos o contrato dele.” Thomson negou qualquer comportamento impróprio. Por WhatsApp, disse que as “três acusações falsas ocorreram coincidentemente dentro de um intervalo de 24 horas”, sugerindo alguma combinação. Disse que os dois homens retiraram as acusações – sem especificar de onde teriam sido retiradas – e, no caso da mulher trans, disse que “os advogados da acusadora insistentemente me ofereceram acordos financeiros”. Completou: “Eu recusei por saber da minha inocência.” (A bartender nega que tenha tentado qualquer acordo financeiro.)
Thomson, que é cônsul honorário da Colômbia em Angola, conta que conheceu Allard em Davos, na Suíça, há três anos. “Desde então, viramos grandes amigos”, diz. “Larguei tudo. Em janeiro de 2023, me mudei em definitivo para São Paulo e mergulhei 100% no projeto. Na época, sem nenhum contrato formalizado. Fiz por amor e convicção, não por dinheiro. Quero que você entenda como enxergo esse projeto e por que acredito tanto nele. Todo mundo quer ser ‘verde’, mas poucos realmente são. Usamos energia renovável, todos os materiais são nacionais, mas não falamos disso como marketing. É quem somos.”
Os casos de assédio, no entanto, abalaram a amizade entre os grandes amigos. “Infelizmente, tudo isso que aconteceu nos últimos tempos me tirou muito a motivação. Foi um baque enorme ser atacado por dentro, pois trato todas as pessoas de forma igual. Abalou bastante minha relação com o Alex. Embora ele sempre soubesse da minha inocência, acho que agiu com prudência: ofereceu apoio jurídico, acolhimento aos colaboradores e me pediu para me afastar temporariamente, o que eu respeitei. Continuei apoiando o projeto, mas nunca mais foi igual. Até hoje, confesso, sigo com o coração partido.”
Falei também com duas ex-executivas do Cidade Matarazzo que acusam o próprio Allard de comportamento inadequado. Uma delas, que operava na área de parcerias com investidores, conta já ter tirado a mão dele de sua perna em mais de uma ocasião, tanto durante reuniões com investidores como em almoços de trabalho. A outra relata que Allard ficava mexendo a língua de modo insinuante, alisava os seus braços e cabelos, e fazia comentários lascivos sobre partes de seu corpo. Nenhuma das duas se queixou ao RH ou registrou boletim de ocorrência. Acreditavam que seria inútil. Ambas deixaram o emprego em razão das agressões.
Allard nega qualquer agressão e diz que está aprendendo com o comportamento do brasileiro. “Em relação à minha conduta com as mulheres, eu nunca tive a intenção de estressar ou gerar qualquer tipo de desconforto. Eu abraço, posso colocar a mão no ombro de alguém. Nunca ninguém reclamou comigo sobre isso, e espero nunca ter gerado constrangimento. Sou uma pessoa calorosa, mas aprendi no Brasil que alguns comportamentos podem ser considerados inapropriados, principalmente quando se ocupa uma posição de poder, e assumo a responsabilidade por qualquer coisa que tenha feito ou dito que possa ter afetado outra pessoa.”
Tudo considerado, Alex Allard fez em São Paulo o que muitos barões do setor imobiliário jamais fizeram. As atrações do complexo Cidade Matarazzo vivem lotadas, as reservas estão a perder de vista. Se não fosse Allard, aquele ponto de São Paulo seria hoje igual a tantos outros: atulhado de edifícios para empresas e escritórios – provavelmente espelhadíssimos, bem ao gosto da arquitetura corporativa – ou com um ou outro espigão residencial. A área do complexo pertencia à Previ, o fundo de previdência dos funcionários do Banco do Brasil, que pretendia demolir os prédios históricos construídos pela família Matarazzo para erguer torres comerciais e residenciais.
Em sua coluna no UOL, o jornalista Raul Juste Lores escreveu: “Mesmo estudando arquitetura e urbanismo há quase trinta anos, tenho dificuldade em recordar algum grande feito arquitetônico erguido por gente careta e convencional.” E completou: “Sorte a nossa Allard ter escolhido São Paulo. Até porque diversos construtores e incorporadores locais faliram, vão falir ou não dão nenhum retorno para seus investidores, mesmo sem deixar qualquer obra de qualidade como legado.”
O Rosewood, inaugurado em janeiro de 2022, é um sucesso. Já hospedou celebridades e virou um polo de festas corporativas, com fila de empresas querendo alugar seus salões. O Bradesco fechou negócio de 125 milhões de reais para ter o direito de colocar seu nome na galeria de arte. Em novembro que vem, a cantora Giulia Be, filha do ex-bolsonarista Paulo Marinho, fará ali a festa do seu casamento com Conor Kennedy, filho de Robert Kennedy Jr., notório por ser o primeiro secretário de Saúde na história moderna dos Estados Unidos que não acredita na ciência, nem na pesquisa médica. “Escolhemos o Rosewood por ser seguro, todo mundo se hospeda no local da festa”, ela me contou no fim de março, durante um coquetel em São Paulo. Ao todo, quinhentas pessoas foram convidadas, entre elas Donald Trump e Elon Musk.
Em que pese o sucesso, os problemas se acumulam – calotes, por exemplo. A empresária Ana Cury, que trabalha com cenário para eventos, conta sua saga. Ela foi contratada para criar nove pequenas lojas temporárias, feitas de vidro e madeira, para a abertura da exposição do artista indo-britânico Anish Kapoor, na Casa Bradesco, a galeria de arte do Cidade Matarazzo. Deveria receber 521 474,74 reais, mas, depois de muita insistência e muitos atrasos, recebeu apenas 166 mil reais – em duas parcelas. “Como a exposição abriria as portas no dia 15 de setembro, esses valores foram pagos porque ameacei não entregar as lojas”, diz ela, que espera receber o restante – 355 mil reais – por meio de uma ação judicial.
De todos os pagamentos atrasados, a maior dor de cabeça está nas melhorias das vias do entorno do Cidade Matarazzo. O projeto – batizado de Sua Rua – começou no primeiro mandato de Ricardo Nunes como prefeito. A São Paulo Capital da Diversidade, associação privada sem fins lucrativos criada por Allard e outros parceiros, propôs que a prefeitura fizesse uma licitação na qual ela apresentaria o projeto. A intenção era investir 125 milhões de reais para mudar a cara da região com intervenções urbanísticas, quiosques de rua, plantio de quatrocentas árvores e a “alameda das flores”, um corredor entre o hotel Rosewood e a Avenida Paulista. A prefeitura topou e fez a licitação da área de 9,8 mil m2 por trinta anos. Como era a única concorrente, a SP Capital da Diversidade ganhou.
Foi o começo da confusão. A primeira parte das obras, orçada em 16,2 milhões de reais e prevista para durar oito meses, contemplava mudanças estruturais, como alteração na rede de água e esgoto, drenagem de águas pluviais, instalações elétricas, pavimentação e paisagismo. A segunda fase, mais curta e menos custosa, seria a compra do mobiliário para as áreas externas: bancos circulares do estúdio dos irmãos Campana, além de 21 mesas. Mas nada está concluído. As obras, iniciadas há mais de um ano, estão atrasadas, causando transtorno aos vizinhos. Algumas empresas abandonaram o trabalho por falta de pagamento.
Dois fornecedores – um de material de construção, outro de iluminação – cobram a São Paulo Capital da Diversidade judicialmente. Nas negociações descritas nos autos do processo, aos quais tive acesso, dois funcionários do projeto Sua Rua admitem que falta dinheiro. Em mensagem de 10 de dezembro do ano passado, um deles escreve para a empresa de iluminação: “Desculpa a ausência, mas ainda não temos previsão [de pagamento]. Aguardando entrar recurso.” Em fevereiro passado, outro foi mais direto: “O projeto Sua Rua está parado ainda por questões financeiras.”
Nem por isso Allard está de braços cruzados. Com empenho de um Bourbon enfrentando um Habsburgo, o dínamo imobiliário de São Paulo já está envolvido em outro grande empreendimento. A construtora Gafisa lançou a marca “Gafisa Allard”, um projeto de prédios residenciais de altíssimo luxo. O primeiro está em construção na Oscar Freire, a rua mais chique dos Jardins. Terá 33 andares. Já tem apartamento anunciado por 38 milhões de reais. A ideia do negócio é do empresário Nelson Tanure, conhecido por seus métodos poucos ortodoxos. Tanure é um dos investidores de Allard no Cidade Matarazzo.
As peripécias de Allard são tantas que incluem negócios até com Marcos Elias, criador da Empiricus, empresa de análise financeira, e enroladíssimo com a Justiça no Brasil e no exterior. Em 2018, Elias foi preso na Suíça e extraditado para os Estados Unidos, onde se tornou réu confesso num caso de falsificação de documentos e cumpriu pena de prisão de 3 anos e 6 meses. Em fevereiro de 2021, quando Elias ainda estava preso, Allard entendeu que ele poderia ser um bom parceiro de negócios. Dono da Recoleta, uma offshore com sede no Panamá, Elias emprestou 9,7 milhões de reais a Allard, que, em garantia, ofereceu suas ações da grife francesa Faith Connexion.
Dois anos depois, Elias entrou com uma ação de execução de dívida na Justiça de São Paulo. O processo já tem quase quinhentas páginas e a dívida, parcialmente paga, está em 5 milhões de reais. “O Allard vende o almoço para comprar o jantar”, acusa um operador diretamente envolvido na negociação do empréstimo. “Ele pegou o dinheiro da Recoleta para sanar outras dívidas, e assim vai indo.” Nos autos, Elias argumenta que Allard não tem imóveis, nem conta bancária em seu nome como pessoa física, o que dificulta a execução da dívida. Por isso, pediu a penhora das ações de Allard nas oito empresas das quais é sócio. O francês também tem negócios com um banqueiro cujo nome não sai das páginas dos jornais: Daniel Vorcaro, do Banco Master. Em dezembro de 2023, Allard tomou 67 milhões de dólares emprestados no banco.
Com seu histórico de grandes feitos e grandes confusões, Allard tem sido comparado a outras figuras do mesmo naipe que coloriram a cena paulistana. Assis Chateaubriand (1892-1968), influente magnata da mídia, foi simultaneamente um sonegador contumaz, chantageador de políticos e empresários e criador do Museu de Arte de São Paulo, uma das joias da cidade e do país. O banqueiro Edemar Cid Ferreira (1943-2024) presidiu a Fundação Bienal de São Paulo, trouxe ao Brasil exposições de alto impacto, como Guerreiros de Xi’an e os tesouros da cidade proibida, e era dado a operações de lavagem de dinheiro no Brasil e no exterior. Chegou a ser preso.
Alex Allard tem olhos azuis, um nariz portentoso e uma testa avantajada pelo avanço da calvície. Mira seu interlocutor nos olhos e presta bastante atenção no que ouve. Tem sotaque forte – “no complexo Matarrrazzo” –, mas fala português com fluência. Adora pontilhar suas frases com nomes de famosos e poderosos que conhece – “Emmanuel é um grande amigo”, diz, referindo-se ao presidente da França, Emmanuel Macron – e presta ainda mais atenção em si mesmo e em suas obras, sobre as quais fala com emoção. Enfatiza seu discurso com batidinhas ritmadas do indicador sobre a mesa.
Allard nasceu em Washington, capital dos Estados Unidos, filho de um casal de franceses. Ele, engenheiro. Ela, professora de matemática. Em 1969, quando tinha 6 meses, sua família se mudou para a Costa do Marfim. Ali, num exemplo do seu espírito empreendedor, ele conta que, aos 11 anos, começou a vender flores na rua. No fim da adolescência, foi morar em Paris para concluir os estudos.
Na França, em 1991 fundou a Diacom, uma empresa de sistemas de levantamento de informações, e teve uma grande sacada: criou a ConsoData. Na época, início dos anos 1990, como não havia rede social nem aplicativos de mensagens, o e-mail era uma importante ferramenta de mala-direta. Na ConsoData, ele desenvolveu um banco de dados para anunciantes coletando dados de consumidores de acordo com seus perfis. Fechou negócio com empresas como Oracle e Microsoft. No ano 2000, com um sucesso estrondoso, vendeu a ConsoData por 500 milhões de euros à Telecom Itália. Allard estava milionário e tinha apenas 31 anos.
Em parceria com o fundo Barwa Real Estate, do Catar, ele foi às compras. Em 2005, os dois adquiriram 30% da maison Balmain (que hoje pertence ao fundo Mayhoola, da família real do Catar, também dono da marca Valentino). Três anos depois, comprou ações da Faith Connexion. Em 2008, na sua operação mais midiática, comprou o belo hotel Le Royal Monceau, aberto em 1928, em Paris. O início da obra de 150 milhões ocorreu com uma festa, a chamada Demolition Party. Os convidados, entre eles Kanye West e Jude Law, usaram marretas e picaretas para demolir a decoração passada e dar espaço à remodelação assinada pelo arquiteto francês Philippe Starck.
No entanto, nada seria maior, mais belo e mais encrencado do que sua obra em São Paulo. A relação de Allard com o Brasil começou na Córsega, a ilha francesa onde nasceu Napoleão Bonaparte e onde o empresário, há décadas, tem uma casa de veraneio. Em 1987, Chico Buarque e sua irmã Miúcha fizeram um show na região, por indicação de Toquinho. Uma autoridade local pediu que Allard organizasse um passeio de barco com os artistas. Allard se encantou pela música e prometeu a si mesmo conhecer o Brasil.
No final dos anos 1980, cumpriu a promessa e visitou o país pela primeira vez. Anos depois, em Angra dos Reis, cercado pelo mar esmeralda e a natureza estonteante da Mata Atlântica, lembrou-se de sua epifania em um deserto da África, quando teve “uma visão de florestas”, para onde deveria se mudar a fim de executar suas duas missões de mundo: acabar com a miséria e preservar o meio ambiente. Entendeu que era o Brasil o lugar certo. Por aqui, fez amizades duradouras, como Helcius Pitanguy, filho do cirurgião plástico Ivo, dono de uma ilha magnífica em Angra. Veio ao país muitas vezes desde então. Viajou para Amazônia, Bahia, Goiás, conhecendo Cerrado, Caatinga, floresta tropical. Por um período, alugou um apartamento na Avenida Vieira Souto, em Ipanema, onde morou com a mulher e os dois filhos.
Em 2011, ainda antes de se mudar para o Brasil, comprou o antigo terreno da família Matarazzo em São Paulo e deu início à sua obra mais cintilante. Hoje, o complexo Cidade Matarazzo é administrado por duas empresas: a BM Empreendimentos e Participações, que controla o hotel Rosewood, e a BM Varejo Empreendimentos, responsável pela gestão do resto do complexo. Por trás disso, há uma guerra. Para construir o hotel, cujo design também é de Philippe Starck, Allard fechou um acordo com a empresa chinesa Chow Tai Fook, que atua nos ramos de joias, cassinos, hotelaria, telecomunicações e energia. O grupo chinês é dono da marca Rosewood de hotéis.
No começo, Allard tinha 65% do negócio. Os chineses, 35%. Nos últimos anos, a proporção se inverteu, com a Chow Tai Fook abocanhando 65% das ações. Nesse processo, Allard e os chineses aprenderam a nutrir um ódio mútuo, temperado por acusações que incluem até denúncias de espionagem. Uma agência de investigação, contratada por Allard, concluiu seu trabalho dizendo que uma diretora jurídica – supostamente a serviço dos chineses – copiou ilicitamente informações de uma das advogadas do francês. Uma funcionária do Rosewood, desconfiada dos chineses, chegou a denunciar ao compliance “acesso indevido ao computador, assédio moral e conflito de interesses”. Foi desligada meses antes do vencimento de seu contrato.
Allard acusa seus sócios de tentarem alijá-lo da sociedade do hotel, como se ele fosse uma madame Louise de la Vallière qualquer. O lance mais recente do affaire ocorreu no dia 3 de abril. Allard entrou com uma ação contra os chineses alegando usurpação de direito autoral. O francês registrou o conceito do Cidade Matarazzo, incluindo o hotel, no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi) em 2012. Só assinou contrato com os investidores chineses no ano seguinte. Por isso, como dono da concepção original do complexo, Allard alega que nenhuma mudança de conceito pode ser realizada à sua revelia. Exemplo: Allard ficou possesso quando soube que os hóspedes não encontravam mais em suas suítes uma ecobag com a frase “Não há luxo sem cultura”, uma de suas ideias.
Allard também está brigado com os sócios da Soho House São Paulo, um clube privado dentro da Cidade Matarazzo que cobra uma taxa anual de 8,5 mil reais dos membros. A Soho House nasceu em Londres e tem unidades espalhadas em diversas cidades pelo mundo. A administração da casa culpa a empresa de Allard pelo atraso nas obras da piscina e da academia. A coisa atrasou tanto que alguns membros pediram cancelamento da anuidade. No entanto, diga-se: a baixa qualidade do serviço da Soho House, que já gerou revolta dos membros, não tem nada a ver com Allard.
Na tarde do dia 1º de abril, liguei para Alex Allard. “Amigo, atendi sem querer! Estou arrumando minha mala para ir a Miami”, disse, apressado, antes de passar 25 minutos conversando comigo. Depois de negar os assédios e narrar as providências que tomou, voltou a reiterar seu amor pelo Brasil. Em seguida, retomou seus planos.
“Estou fazendo o maior projeto para celebrar a cultura negra em Salvador, indo contra a família e meu board.” Em 2022, Allard adquiriu a concessão de uso por 35 anos do Palácio Rio Branco, um prédio datado de 1549 no centro histórico da cidade. Ali, sua intenção é instalar um hotel de luxo, além de lojas, restaurantes e centro cultural. Perguntei a ele quantos negros estão em cargos de direção no complexo Matarazzo. Ele citou uma mulher, do setor de Recursos Humanos.
Dias depois de nossa conversa, em resposta a uma lista de perguntas que enviei, a assessoria do complexo mandou um balanço detalhado. “Dos nossos 115 colaboradores, 73 são mulheres, dentre as quais 26 estão em posição de liderança, 34 pretos e pardos, sendo 4 em posição de liderança, e 13 LGBTQIAPN+.” Em seguida, disse que reconhecia que “a jornada em diversidade e inclusão dentro da BM Varejo está em estágio inicial”, e anunciou que, dentro de doze a dezoito meses, “nossa equipe passará de 115 para 2 mil pessoas, e temos o compromisso de, com esse crescimento exponencial, implantar uma política afirmativa de diversidade nas futuras contratações”.
Antes de desligar, Allard me disse: “Eu não tenho medo da verdade, ela sempre triunfa se você é honesto”. E encerrou a conversa. Na volta de Miami, Allard recebeu a atriz Angelina Jolie no Cidade Matarazzo. A pauta: salvar a Amazônia e as comunidades indígenas.
Com a colaboração de Leandro Machado