dossiê piauí
José Henrique Bortoluci Abr 2025 16h25
28 min de leitura
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Este é o primeiro ensaio de uma série que a piauí publicará nas próximas edições, em que o sociólogo e escritor José Henrique Bortoluci ouve as histórias de vida de brasileiros que nasceram em meados dos anos 1980 – entre os últimos anos da ditadura e o início do período democrático – e reflete sobre suas realizações, expectativas e temores
A PROMESSA
Um primeiro conjunto de imagens: a tevê exibe um presidente que faz cooper e usa gel no cabelo. O irmão do presidente se parece tanto com ele que confundo os dois. A ministra da Fazenda anuncia o confisco da poupança, e isso soa como um anúncio de guerra, mesmo na minha família, em que ninguém tem poupança. Jovens tomam as ruas com camisas pretas e caras pintadas de verde e amarelo – eles me parecem bonitos, mais velhos do que eu, muito vivos. Eu grudo no televisor para ver uma votação, num dia em que as aulas foram canceladas, e o presidente engomadinho deixa o palácio de helicóptero. Outro presidente com um topete imenso assume o lugar do presidente afastado. A tevê e as revistas exibem e comentam por semanas as fotos desse novo presidente ao lado de uma moça aparentemente sem calcinha num desfile na Sapucaí.
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Um indígena é queimado em Brasília no meio da noite por jovens brancos e ricos. O jornal da noite mostra crianças indígenas contaminadas por mercúrio. No “Dia do Índio”, pintamos o rosto e fazemos cocares de cartolina na escola. Anos depois, um indígena fala de um rio que apodrecia com os rejeitos de uma barragem como se o rio fosse seu parente. Fico boquiaberto ao ver uma jovem indígena discursar na Conferência do Clima da ONU. Um jovem indígena carrega seu pai nas costas por quilômetros de floresta para levá-lo até um posto de vacinação. Um indígena entra na Academia Brasileira de Letras. Nos jornais, toda semana, lemos que crianças indígenas continuam sendo contaminadas por mercúrio.
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E as vozes. A voz dos cantores de sertanejo e de pagode dos anos 1990. A voz de Lula (“Nunca antes na história deste país”). A voz de Bolsonaro (“Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”). A voz de Antônio Abujamra (“O que é a vida?”), de Boris Casoy (“Isso é uma vergonha”). A voz da Xuxa, chamando-nos de “baixinhos”. A voz de Clodovil e de Vera Verão. E de Ivete Sangalo, de Mano Brown, de Cássia Eller, dos MCs da Furacão 2000.
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Começo com as memórias.
Quando falamos de uma geração, elas se apresentam em um estado indeterminado: quase nunca sabemos se esses cacos vindos do passado são “minhas memórias” ou “nossas memórias”. Uma geração é essa coisa estranha que vive na passagem entre aquilo que é meu e aquilo que é nosso.
Em certos momentos da vida, as lembranças começam a tomar a forma de um amontoado de escombros. Alguns desses restos nos remetem a espaços e momentos de ternura – nossa primeira sessão de cinema, a troca de olhares apaixonados na festa de formatura da oitava série, algum brilho de justiça coletiva com a aprovação de uma lei que apoiamos, a primeira vez que vimos a Seleção Brasileira ser campeã do mundo. Outros desses escombros sequer ousamos tocar, e alguns tiramos de vista antes que eles invadam o presente – mas eles continuam lá.
Esse conjunto espetacular de imagens provoca vertigem e lança seu espectro em direção ao futuro. Completei 40 anos em 2024. Como o personagem de Dante perdido na floresta, estou no meio do caminho da vida, junto de meus camaradas nascidos em meados dos anos 1980.
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Somos desse grupo de brasileiros que nasceu com a democracia, num país em que ela mais parece uma roupa usada e puída que herdamos de um parente distante.
A democracia também se assenta em memórias. A recente experiência brasileira, em que o cotidiano e nossos sentimentos se politizaram intensamente, mostra que a democracia vai além de instituições, leis e rituais de escolha de governantes. Ela inclui a experiência cotidiana das pessoas, que depende da lembrança e da construção de narrativas para além de nossas histórias individuais e familiares. Isso ocorre numa arena a céu aberto, onde enfrentamos o trabalho contrário que tenta recalcar e aniquilar o passado, num conflito que os antigos e novos adeptos da violência política compreendem muito bem.
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O discurso de promulgação da Constituição de 1988 por Ulysses Guimarães, presidente da Constituinte, é uma peça política que mistura momentos de gênio retórico (“Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo”) e outros que parecem retirados do baú empoeirado da República Velha (“Não é a Constituição perfeita, mas será útil, pioneira, desbravadora, será luz ainda que de lamparina na noite dos desgraçados”). Um documento histórico repleto do desejo de produzir uma coletividade, uma nação, um povo:
“A Nação quer mudar. A Nação deve mudar. A Nação vai mudar.”
“O povo passou a ter a iniciativa de leis.”
A Constituição apresentava uma promessa: a de que aquela soma de indivíduos, interesses e grupos diversos que podemos chamar de sociedade brasileira, uma sociedade devastada pela violência, pela desigualdade, pela precariedade da proteção aos mais pobres e pelo subdesenvolvimento poderia almejar outro destino, um horizonte de convívio político para além da força, algum sentido de justiça e de prosperidade coletiva. Nos termos da Carta, “assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias”, como dizia o Preâmbulo daquela Constituição escrita “sob a proteção de Deus”. O documento foi resultado de um pacto político que optou por não punir os torturadores e barões do regime anterior, mas colocava no nosso horizonte coletivo um compromisso de bem-estar social, em um momento em que o socialismo começava a ruir no Leste Europeu, e Margaret Thatcher e Ronald Reagan promoviam uma visão de história em que o capitalismo liberal era a única alternativa, na qual indivíduos não mais formariam uma sociedade.
A ideia de povo que sustentava aquela promessa parecia ter se apresentado em carne e osso nos anos anteriores, ao menos por meio de lampejos: as greves dos fins dos anos 1970, os movimentos sociais em expansão pelas periferias do país, o movimento negro e em defesa da saúde pública, o movimento contra a carestia e tantos outros. As Diretas Já tomaram as ruas do país em 1983 e 1984 numa corrente de energia política parcialmente vitoriosa. As praças estavam lotadas, futuros presidentes de diferentes partidos compartilhavam palanques, os jogadores corintianos vestiram o ideal democrático, Fafá de Belém cantava o Hino Nacional. Mesmo com a derrota da proposta das eleições diretas depois de 21 anos de regime autoritário, o primeiro presidente civil tomaria posse em 1985 – não aquele eleito pelo Congresso, mas seu vice, antigo apoiador histórico da ditadura. Nossa estranha democracia começa com uma derrota, um pacto, uma morte e a posse de um antigo inimigo.
Eu nasci tarde demais para guardar na memória a imagem viva de qualquer presidente militar ou para me lembrar dessas ondas populares que puseram fim àquele regime. Minhas primeiras lembranças do noticiário político brasileiro são um arremedo de perfis e de cenas do final dos anos 1980: um presidente de enormes bigodes, a inflação galopante, as mudanças de moeda, um candidato barbudo e de voz rouca, e outro com pinta de playboy, que minha mãe, à época, dizia ser um homem belíssimo.
*
É possível narrar a experiência de uma geração a partir dos relatos de alguns sujeitos que são parte dela? Uma geração nasce do barulho do múltiplo, das várias vidas em seus contextos, do estranhamento com as gerações que nos precederam e as que nos sucederão.
É preciso admitir que a resposta àquela pergunta só pode ser “não, não é possível”. Mas insisto nesse exercício que não promete nada além do fracasso desde seu ponto de partida. Observo o que é possível fazer com esse fracasso. Aceito que a história de uma geração só pode ser montada como um panorama fragmentado, em que processos coletivos e memórias individuais se mesclam para produzir um quadro barroco, sem sentido único ou moldura rígida, uma imagem de vibração peculiar, eventos efêmeros, alegorias, um conjunto de luzes e sombras e um excesso de objetos e cenas que produzem essa combinação entre o desejo de compreender o todo e o abandono à perturbação provocada por essa enxurrada de discursos, de anseios, de sabores e cheiros, de primeiras e de últimas vezes:
Minha mãe traz uma água com açúcar para me acalmar, enquanto Galvão Bueno grita “é Tetra!”.
O primeiro gole da Brahma do copo de um pai ou um tio.
A primeira vez que ouvimos a palavra “chacina” e vemos na tevê imagens de corpos de crianças, um pouco mais velhas que nós, na frente de uma igreja no Rio de Janeiro.
O desejo de ganhar o primeiro computador, de ser a primeira pessoa da família a fazer uma faculdade.
O cheiro de cigarro em nossas roupas quando voltávamos para casa das festas na adolescência. O cheiro de poluição na primeira visita a uma cidade grande.
Onde você estava em 11 de setembro de 2001?
“Cansei.” “Não vai ter Copa.” “Não é pelos vinte centavos.” “O gigante acordou.” “Ninguém solta a mão de ninguém.” “A nossa bandeira jamais será vermelha.”
Onde você estava quando soube da morte do Ayrton Senna?
Um pastor chuta uma santa na televisão.
Ler Machado de Assis pela primeira vez.
A Carta ao povo brasileiro. Verba volant.
Os ataques do PCC. As mortes na periferia. As Mães de Maio.
O “bug do milênio”.
O medo da Aids. O medo do chupa-cabra. O medo do fim do mundo. O medo da Covid. O medo de bala perdida. O medo de ser morto pela polícia. O medo do estupro.
O Batman no Leblon. A prisão por porte de Pinho Sol.
As tevês ligadas na votação do impeachment no Congresso em 2016.
A internet discada – esperar até a meia-noite para se conectar, o barulho da conexão. O chat do UOL. O ICQ, o MSN. A pornografia.
Chico Science, Kurt Cobain, Sabotage, Chorão, Marília Mendonça – muitos morrem cedo demais.
“Por que o senhor atirou em mim?”
Gilberto Gil canta Toda menina baiana na Assembleia Geral da onu. Kofi Annan acompanha na percussão.
O primeiro amor, a primeira transa, o primeiro porre, a primeira morte de uma pessoa próxima, a primeira eleição em que votamos.
Marielle.
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Busco recolher cacos de memória de meus companheiros de geração. Tomo emprestadas suas narrativas de vida, que nunca são relatos fiéis aos fatos, mas que ao serem contadas se tornam o puro presente, aquela matéria de que são feitos os sonhos e os pesadelos.
Somos uma geração sem a construção de uma Brasília, sem uma guerra na qual nos alistarmos, sem as esperanças revolucionárias de outras décadas, sem uma ditadura, uma geração que observa a onda de protestos mundiais no fim dos nossos vinte anos ser seguida pelo renascimento da extrema direita em quase todo o mundo, ao longo de nossa quarta década de vida. Uma geração em que a conquista da democracia é ponto de partida, e não de chegada.
Sentimos que chegamos tarde demais à história. Ou, quem sabe, embarcamos cedo demais em um mundo que começa a escrever a história em outras línguas – em chinês, na linguagem neutra das identidades sexuais em multiplicação, na língua dos chats de inteligência artificial. Muitos de nossos pais e mães nasceram num Brasil rural, católico, virulentamente patriarcal. Nós nos sentimos velhos entre os millenials, que só agora entram na casa dos trinta, e antes nos sentíamos jovens demais em comparação com quem ouviu Cazuza e Legião Urbana nos anos 1980 – nossos primos e primas mais velhos, alguns de nossos professores e ídolos. A geração Z que nos sucede parece vinda de outro planeta.
Somos a última geração que atravessou a infância e parte da adolescência longe da internet, e só conheceu o mundo dos smartphones e das redes sociais na idade adulta. Tive meu primeiro celular aos 19 anos, meu primeiro smartphone aos 28, e hoje mal me lembro de como era viver sem carregar a internet no bolso. Nos tornamos uma geração viciada dentro de um país de viciados, com nossos olhos grudados no Facebook, no Instagram ou na última rede social da moda. Talvez nenhum país do mundo seja tão talentoso em fabricar memes – e eles surgem e desaparecem em segundos. Passamos o dia pendurados em grupos e mais grupos de WhatsApp – o grupo da família, o subgrupo em que criticamos o grupo da família, os muitos grupos de amigos, de trabalho, da última viagem de fim de ano, do colégio – e as mensagens infinitas, e como o tempo passa rápido, e tudo envelhece em segundos e nada permanece. O WhatsApp é nossa religião profana.
Crescemos grudados à televisão. A tevê aberta dos anos 1990 é nossa única ilusão de unidade. Super-heróis japoneses, filmes dublados na Sessão da Tarde, Chaves, a banheira do Gugu, os concursos para dançarina do É o Tchan no Domingão do Faustão, o Cinê Privê que víamos escondidos de nossos pais. Para quem tivesse sorte, a TV Cultura e depois a MTV, que chegou junto da nossa adolescência e fez com que tantos de nós quiséssemos ter uma banda ou virar VJs, como hoje os mais jovens sonham em ser influenciadores e youtubers.
O mundo do consumo fazia promessas coloridas a quem pudesse pagar. O mundo do fim da infância e da adolescência marcado pela abertura econômica, o Plano Real, o controle da inflação, e por alguns anos da quase paridade do real com o dólar. O sonho de viajar ao exterior, de ganhar o videogame da vez, o tênis da moda, de ir à Disney. E depois a crise, a recuperação, e mais crises.
Durante grande parte de nossa vida, falamos muito pouco sobre os militares. Eles pareciam ter retornado à caserna para não se meterem nunca mais em questões políticas. Por duas décadas, apenas civis foram indicados ministros da Defesa. Defensores da ditadura não se avolumavam nas ruas e na frente dos quartéis. A democracia, por mais precária que fosse, parecia um fato consumado, como o Programa Silvio Santos aos domingos ou nossa supremacia no futebol mundial.
*
Uma cronologia nunca é inocente. Compreendo ao longo das conversas com essas diferentes pessoas da minha geração que o ponto de partida que escolho para guiar este dossiê piauí também sinaliza um desejo silencioso: que a democracia seja uma baliza incontornável, um fato coletivo marcante para todos nós, por mais distintas que sejam nossas experiências de vida. Que ela seja nossa referência comum, para além de nossas diferenças. Essa ilusão rapidamente se desfaz.
Entendo aos poucos que me lanço nesse projeto de compor um quadro de uma “geração democracia” como se eu buscasse uma espécie de bote salva-vidas em meio à tempestade dos últimos anos, período em que o projeto da democracia e da ampliação dos direitos entrou em estado crítico. Desejos autoritários e antissociais emergiram, novos discursos e afetos autoritários ganharam a cena, e com eles seus representantes, suas amplas bases de apoio, suas novas manifestações estéticas. Eu buscava um mapa em direção a uma ilha que até pouco tempo atrás nada tinha de utópica ou radical, e que ainda está longe de qualquer um dos meus ideais de justiça, mas que um dia foi apresentada como um projeto prático na “Constituição Cidadã” e no pacto social da redemocratização – um projeto, sabemos, apenas raquiticamente posto em prática nos últimos 37 anos, mas que oferecia algo como uma baliza comum.
Temo que essa ilha não exista mais, e logo concluo que ela sempre foi uma miragem: numa sociedade de raízes escravocratas e apaixonada pela desigualdade, a democracia sempre seria um pacto mambembe entre elites, que no máximo dividiria migalhas com os de baixo. Logo em seguida me puno mentalmente por sentir esse frio na espinha: ele é paralisante, comodista, burguês, catastrofista, cego às tantas formas de resistência em curso e aos avanços de anos anteriores. Reviso as estatísticas grotescas sobre a desigualdade, sobre a morte de jovens negros, sobre o feminicídio e o assassinato de pessoas trans, depois tento lembrar que muitos desses números já foram piores. Penso na atual anemia das forças progressistas e na nossa falta de capacidade de gerar novas ideias de transformação do mundo, de aprender com 2013, com 2016, com 2018, com a tragédia da Covid, de fazer as perguntas difíceis, de refletir sobre os próprios limites e erros dos governos de esquerda anteriores e do atual, sobre o novo contexto de crise múltipla e global, presos que estamos às nossas performances, aos nossos bordões, às nossas encenações de purismo e à correção absoluta para nossas próprias plateias, garantidas por algoritmos que não controlamos – e de pronto me lembro que derrotamos a extrema direita na última eleição presidencial. Não importa qual o governo, seguimos devastando a Amazônia como se esse não fosse um projeto suicida, e logo me recordo que a devastação não é mais a fantasia perversa oficialmente provida pelo governo.
Não consigo encerrar essa dança mental com meus passos de bêbado, para lá e para cá. Padeço com a apatia e o crescente sofrimento psíquico dos jovens grudados em suas telas, adolescentes e jovens adultos que parecem já ter nascido em um mundo condenado, mas tento me convencer que o fim já foi decretado tantas vezes na história e que muitos desses jovens têm ideias mais livres e criativas sobre gênero e sexualidade do que pessoas da minha geração. Me causa calafrios o terreno cultural inundado pela lógica dos likes, do engajamento, dos influenciadores vazios seguidos por milhões, do fascismo cool dos trolls e dos machinhos ressentidos nos fóruns online, dos coaches, dos best-sellers de autoajuda escritos por pastores; mas daí tento pensar na voz de João Gomes, no desfile da Mangueira de 2019, na poesia de Ana Martins Marques, no universo infinito da música popular. Me revolto com o avassalador individualismo embalado na ideia de “prosperidade”, na ideologia do empreendedorismo que aproximou os neoliberais da Universidade de Chicago dos pobres das periferias urbanas, que têm que “se virar” sem depender de ninguém, e a moda tristemente atual de ser fã de bilionários cafonas e execráveis do Vale do Silício – e daí tento desviar o olhar para as lutas em curso, para as manifestações culturais e os movimentos mais ou menos organizados que ainda apostam numa vida para além da solidão de nossos CPFs e CNPJs, de nossos núcleos familiares e de nossos corpos biológicos.
Oscilo entre esses dois estados, sem encontrar um ponto de equilíbrio. Scott Fitzgerald escreveu – não por acaso em um ensaio sobre uma brutal crise existencial e psíquica que sofreu aos 40 anos – que “o teste de uma inteligência de primeira linha é a capacidade de manter duas ideias opostas na mente ao mesmo tempo e ainda assim continuar funcionando”. Sei que não vivo esse impasse sozinho. No meu caso, creio que ainda continuo funcionando, reconheço meus enormes privilégios, atravesso a floresta do meio da vida e me abro aos encantos do cotidiano. Me esforço em pensar, em agir, em contribuir com alguma mudança. Mesmo assim, meu mal-estar com o mundo não se cala, e me vejo forçado a olhar mais de perto uma pedra que carrego no estômago, a pedra viscosa e cinza da melancolia política. Enquanto escuto meus colegas de geração, é essa pedra que carrego comigo, e não sei o que fazer com ela.
O CORRE
Patricia Xavier nasceu em 1984, na periferia Sul de São Paulo, onde ela ainda vive.[1] É uma mulher negra, mãe solo de três filhos e empreendedora: faz bolos e doces para festas, dá aulas online de confeitaria, participa de feiras para promover seu trabalho e se conectar com outras mulheres empreendedoras. Sua vida é um incessante “corre” – uma palavra que, como poucas, fornece uma chave de acesso ao cotidiano da maioria dos brasileiros. Para tantos de nós, vida e corre se confundem.
Corre e sonho também costumam andar juntos. Patricia conta:
Eu tenho um sonho: ser bisavó. Sonho que essas crianças tenham a idade que eu tenho, que a gente esteja em volta da mesa da minha casa, que seja um sítio com muita planta, bicho e piscina, com uma mesa muito grande de madeira. Sonho com a gente em volta da mesa, e eles com as suas famílias. E os meus bisnetos me chamando de “bisa”. Então quero melhorar minha condição financeira para poder melhorar a minha alimentação e pagar um convênio, para que eu viva mais. Meu sonho é esse: uma chácara, minha família em volta de uma mesa muito grande, e que eu seja bisa. E saudável. E lúcida.
Patricia me recebe em sua casa no Capão Redondo. Está visivelmente tensa: seu gato, Faísca, não está bem. Vejo o bichinho no canto, quieto, com curativos enormes na parte de trás do corpo miúdo. O motivo, ela conta aos poucos. Faísca quase perdeu a vida depois de receber vários chutes de um vizinho que voltou bêbado para casa. Com a ajuda de sua rede de contatos, conseguiu o atendimento gratuito para o gato. Faísca perdeu uma pata, mas sobreviveu. Essa não era a primeira vez que Patricia tinha vivido de perto a agressão masculina. Nem seria a última em que eu ouviria das mulheres com as quais conversei como é conviver com homens violentos, mesmo sem ter perguntado a respeito.
O mais marcante na minha infância foi o abuso. Fui muito desacreditada pela minha mãe, porque foi algo cometido pelo pai dela, por meu avô. E, no meio disso tudo, eu tinha minha avó, dona Julia, que eu não queria machucar. Era o marido dela. Aí, hoje, eu até paro e penso: será que minha mãe passou por isso também: ter sido violentada e ninguém acreditar? Mas é algo que ela nunca quis falar. Isso da violência aconteceu dos 6 aos 11 anos. Foi tão marcante que me fez sair da casa dos meus pais assim que consegui.
Patricia também teve de lidar com a rigidez de seu pai, com a posição suprema que ele ocupava no lar de sua infância.
Minha mãe falava assim: “Olha, as duas coxas do frango são do seu pai.” Eu não me lembro de comer coxa de frango quando era criança. Mas comida não faltava em casa, a gente nunca foi de situação de extrema pobreza… O meu pai era policial da Rota, e mais tarde virou auxiliar de enfermagem do Hospital Albert Einstein. A minha mãe não trabalhava, porque foi o combinado dos meus pais que ela ficaria em casa para cuidar dos filhos. Depois de mim, ainda tiveram três filhos. Depois que saí de casa, nunca mais voltei. O meu pai trouxe não só o jeitão, mas também alguns traumas da polícia, e aí ele tinha uns gatilhos quando bebia. Ele tinha aquele treinamento na polícia do “bate e só depois pergunta”. Ele batia na minha mãe. Era muita briga, muita bebida, muita relação extraconjugal. E eu crescendo, vendo minha mãe cuidando da gente em casa e guardando dinheiro de troco de conta, de feira, para fazer as coisas que ela precisava. Acho que é daí que vem essa minha vocação de empreender, de querer ter o meu dinheiro, de não depender de ninguém.
Com o pai de um de seus filhos, Patricia teve sérios problemas.
Teve muitas vezes que o meu ex-marido saía de casa para se relacionar com outra pessoa, enquanto estava casado comigo. Eu estava grávida de sete meses quando ele resolveu voltar pra casa. Muita violência psicológica. Abusos emocionais. E aí, depois, quando esse nosso filho nasceu, ele era muito parecido com o pai. Igualzinho. Ver o meu filho tão parecido com um cara que me dava mais problema do que prazer na vida, isso foi um gatilho. Entrei em depressão com tudo aquilo. E já não estava mais conseguindo fazer entregas do brechó, carregar as malas pesadas. As mulheres da minha família diziam: “Ah, mas homem é assim mesmo.” Hoje em dia, vejo amigas que estão agindo como eu agia, que continuam porque têm criança e não querem separar a criança do pai. Eu falo: “Não, amiga, vem cá, vamos fazer um bolo, eu te ensino a fazer os brigadeiros, você vê como é que é, e bora fazer.”
*
Patricia enumera uma sequência vertiginosa de trabalhos desde seus 13 anos: babá, atendente de farmácia, professora de artesanato e de confeitaria (“Tudo que eu aprendo eu ensino”), auxiliar administrativa, recepcionista de escritório, vendedora de bijuterias, sacoleira (“Eu comprava calcinha e sutiã na Feira da Madrugada e saía vendendo por tudo que é lugar”), atendente de posto de gasolina, agente de saúde comunitária (“Era o único lugar em que eu trabalhava na rua, com liberdade, mas tive que largar quando nasceu minha filha”).
Ela se lembra sem esforço, e me conta sem que eu pergunte, o quanto ganhava em cada um desses empregos:
Quando trabalhei no Sindicato de Hotéis e Restaurantes em Taboão da Serra eu ganhava 893 reais, isso em 2007. Aí, depois, entrei em posto de gasolina também na área administrativa e o salário foi pra 1.105 reais e pouco, e o dono era extremamente assediador…
Em 2011, começou a vender roupas infantis pelo Facebook, e desde então usa as redes sociais como forma de promover seu trabalho:
No começo eu fotografava as roupas e postava no Facebook, na minha página. Aí, quando alguém comprava, eu entregava no sábado seguinte, na catraca do metrô Santo Amaro. No brechó eu tirava 700 reais por semana, por sábado. Era muita grana! Eu tirava ali mais do que o dobro do que tirava no trabalho anterior, no posto de gasolina… E eu queria a liberdade.
Ela iniciou faculdade duas vezes, mas não concluiu.
Entrei em administração em comércio exterior. Era uma faculdade ligada ao hospital onde meu pai trabalhava. Era algo que ele queria, mas eu não. Lembro que eu pagava 400 e pouco reais de faculdade e ganhava 500 reais de estágio. E disso eu tinha que tirar o transporte, a alimentação, tudo. Eu saía de casa às 5h15 para pegar o ônibus às 5h30 no Capão Redondo, para entrar ali no estágio, no Centro, no Anhangabaú, às 8 horas. Era muita treta. Eu saía de lá às 18 horas, entrava na faculdade às 19h30 e saía às 23 horas. Aí, eu andava do Real Parque até a Marginal para pegar o ônibus, e no outro dia tudo de novo. Eu não dei conta. Saí da faculdade. Depois tentei fazer outra, online, de pedagogia, mas meu mais novo era pequeno, e o pai dele não ajudava a cuidar. Então tive que largar também.
*
Nos últimos anos, Patricia tem se dedicado à confeitaria:
Comecei em 2018. Foi quando fundei a empresa. Formalizei. Um dia, uma moça da igreja que eu frequentava me perguntou se eu fazia bolo de aniversário. Desde a faculdade eu fazia bombom e trufa, mas bolo nunca tinha feito. Aí fui para o YouTube consultar como fazia. E fiz o bolo, ficou gostoso. Só que depois descobri que eu fiz o bolo, na verdade, para o aniversário da moça que meu marido namorava lá no serviço dele. Às vezes, eu paro e penso: ó Deus, será que um dia vai dar certo? Porque é muito difícil. O que tive que aprender, o que já aprendi nessa vida! Não precisa mais, não. Ah, e foi fazendo brigadeiro que eu comecei a aprender, né? Tenho até ele tatuado aqui no braço, para não esquecer.
Patricia realizou o sonho de ter uma casa própria, mas não era bem o que ela esperava:
Meu sonho desde criança é uma casa própria. Mas não queria que fosse nessa condição que tenho hoje, que é tendo construído em cima da casa que foi do meu sogro e da minha sogra e hoje não é mais. Eu não contava com isso. Eu não contava com a separação. Com o abandono, com o divórcio, com a violência doméstica. Gostaria de não ter uma casa tão pequena quanto essa, sem piso no meu chão, mostrando a laje da casa de baixo, sabe? Quando eu fazia live durante a pandemia, ou quando dava aula online, eu não mostrava o chão de jeito nenhum. Nós temos aqui 39 m². Não tem divisão de quarto. Então, o único cômodo separado é o banheiro. Num lado, fica a cozinha com meus equipamentos; no outro, o treliche das crianças, igual aqueles do Exército.
A quase pobreza é a situação mais comum dos brasileiros – passar décadas da vida, às vezes uma vida toda, no limiar estreito entre a estabilidade e a penúria. O tombo que leva da borda ao fundo do abismo pode ser uma doença inesperada, um acidente, um calote, o desemprego, uma enchente, o fim de algum programa social. Quando Patricia estava começando a colocar suas contas em dia, em 2020, e seus negócios começavam a prosperar, um acidente:
No dia 5 de junho de 2020 me estabaquei no chão, quando estava entregando um ovo de Páscoa para o cliente. E fiquei um ano parada. O ano retrasado não consegui fazer a Páscoa, porque ainda estava de bengala. Eu fazia fisioterapia de segunda a sábado. Quando o dinheiro todo acabou, comecei a usar os cartões de crédito. E fiquei sem renda, porque não podia andar. Fiquei seis meses com o pé imobilizado, e aí nesse tempo comecei a vender as coisas de casa, porque aquela minha reserva de emergência secou. Aí vendi o sofá-cama em que eu dormia e comecei a dormir na cama de uma das crianças. Vendi o painel da tevê, vendi o freezer, vendi a geladeira, a tevê das crianças, e nem tudo eu consegui receber, porque vendi parcelado. Ah, vendi também o carro. Hoje eu já consegui, fiz acordo com os quatro cartões de crédito. Já paguei um, já recuperei. Outros três estão cancelados, mas já estou pagando. Mas, assim, meu nome já está limpo. A gente não tem paz hoje. A gente está trabalhando o tempo inteiro, e no meu caso para pagar dívida.
*
A umbanda, a família e o empreendedorismo são os pilares da vida de Patricia. Não foi sempre assim:
Eu tive a minha mãe que me obrigou a ir para o catolicismo. Minha mãe já tinha pintado as religiões de matriz africana como se fosse tudo do Diabo. Eu frequentava muito as coisas da igreja porque em casa não era muito gostoso de ficar. Fiz primeira comunhão e crisma. Fui catequista, mas o padre pediu para eu me afastar da igreja porque eu ensinava coisas pras crianças que colocavam em dúvida a história da Igreja que eles queriam passar para elas – eu falava da Inquisição, das riquezas da Igreja, e as crianças iam contar para o padre. E aí comecei a procurar outras: fiz o estudo de Testemunha de Jeová, fui estudar os mórmons. Nem todos os lugares foram receptivos. Problemas de preconceito mesmo, por ser uma mulher preta e com pouco dinheiro para comprar as vestimentas que as mulheres ali estavam acostumadas a usar. Aí eu passei para algumas igrejas cristãs, várias. Quando estava grávida do meu mais novo, comecei a frequentar uma igreja evangélica, a Igreja Cristã da Família. Eles me doaram alimentos, me ajudaram quando precisei. E agora a umbanda: eu me encontrei. Vou duas vezes por semana: no sábado é a jira, e terça-feira é dia de estudo, porque eu sou filha da casa, sou médium de incorporação, estou sendo preparada para fazer os atendimentos. Eu falo para os meus filhos: vocês vão para onde vocês quiserem, mas eu vou bater o tambor.
Patricia Xavier: “Tenho medo de como vai estar o Brasil. Vi as pessoas externando muita maldade nos últimos anos: essa ideia de que a violência acabará quando todo mundo estiver armado”
*
O bem-estar e o futuro dos filhos é a maior preocupação de Patricia. Seu maior medo é ficar doente, não conseguir sustentar a casa:
O mais velho fala que é sócio da empresa de confeitaria, né? O mais novo fala que quer ser policial – meu coração só falta sair pela boca! A Helena já fala que quer aprender a ser confeiteira, ela me ajuda no trabalho. A minha preocupação é que eles tenham dinheiro, que não passem essa dificuldade toda, que não trabalhem só para comer, que eles não sobrevivam como infelizmente eu ainda tenho feito. Mas que eles vivam bem.
A principal rede de apoio de Patricia é formada por mulheres em condições sociais e familiares similares à sua:
Somos mulheres periféricas indo atrás do estudo, buscando oportunidades. Para mim, empreendedorismo é uma forma de militância. Eu não tive mulheres que me inspiraram. Nenhuma mulher da minha família é empreendedora. Só tem eu, até hoje. Eu não tenho como trabalhar CLT. A minha realidade hoje não me permite sair e ficar doze horas fora de casa. Levo o mais novo para a aula, ele entra às sete da manhã; aí eu volto para casa, já compro pão, faço café, limpo a cozinha, o banheiro, e se eu tiver encomenda de manhã já faço tudo isso. Acabou a encomenda, já lavo a cozinha, e é lavar mesmo, porque o meu chão não dá para passar pano. Aí faço o almoço, corro e busco o mais novo na escola. Todo mundo almoça, e levo o Samuel e a Helena para a escola. Tá entendendo? Não tem como… Sou só eu para as crianças.
*
Patricia chora ao falar de sua avó materna:
A gente está no finalzinho da Quaresma, acho que é por isso que eu estou chorona! Fui criada pela minha avó por uma boa parte do meu período de infância. Dona Julia. Ela era mãe de santo, não sei se ela era da umbanda ou do candomblé. Eu me lembro de estar ali no terreiro dela, muito pequena, no Jardim Irene, aqui na Zona Sul de São Paulo. E sinto muito pelas crianças não terem conhecido ela. Tem dois orixás que me regem, que são Iansã e Oxóssi. Eu fui acolhida nessa religião como não fui em nenhuma outra. E a espiritualidade me fez entender de onde vem essa minha força também, né? Tudo que passei e quantas vezes me levantei novamente.
Eu sempre entendi que era uma mulher negra. Na escola, sofria preconceito. E aí eles me chamavam de negrinha, neguinha… E eu repetia muito as roupas. Não tinha dinheiro, né? Eles me insultavam. Aí, quando comecei a trabalhar, eu alisava o cabelo. Mais tarde, depois de sair de casa, deixei crescer meu cabelo. Meu pai é preto retinto. Quando ele me viu com o cabelo solto, natural, falou: “Nossa, filha, você anda tão descabelada ultimamente.” E, quando estive em núcleos de pessoas brancas, sempre me lembraram de que eu sou negra também. Sempre.
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Patricia é enfática ao dizer que a política interfere em sua vida:
Eu sou uma pessoa que quer estar próxima de quem vota. Mas, infelizmente, não são todos em quem eu voto que conseguem ser eleitos. Então, o empreendedorismo vem também para ajudar a gente nesses casos. Porque a gente tem que fazer o nosso. Acabo indo atrás de empreender e de ensinar outras mulheres a fazerem o delas. E, se eu pudesse mudar uma coisa, criaria uma lei para que as mães tivessem direito a um auxílio, e que esse auxílio não pudesse ser tirado delas, para que elas pudessem ficar em cima do estudo dessas crianças, para que não houvesse a evasão escolar. Sinceramente, eu tenho muito medo de como vai estar o Brasil. Eu vi as pessoas externando muita violência nos últimos anos. Muita maldade: essa ideia de que a violência vai acabar quando todo mundo estiver armado. Sendo que a violência vai acabar quando as mães puderem ficar em casa cuidando de seus filhos, ao invés de ir para fora buscar um trabalho e deixar essas crianças à mercê da sociedade.
Eu me sinto muito brasileira. É… O brasileiro faz filhos mesmo sem saber se vai ter condição de criar. Brasileiro consegue se virar e criar esses filhos, mesmo com escassez. Eu não desisto. Acho que ser brasileiro é isso, é não desistir, é se reinventar. Tomei conhecimento da palavra “resiliência” na pandemia. E aí eu ouvi essa palavra e senti uma raiva dela… O significado dela, para mim, é ser que nem o bambu no qual bate o vento: ele enverga, mas tem que dar um jeito de subir de novo. E eu vou te falar que a planta que mais tenho aqui em casa é bambu… É difícil ser bambu. Brasileiro é um ser que passa pelos perrengues, bate a ventania, vem a enchente, principalmente nas periferias, faz envergar, faz esse bambuzal ir todo para o chão, e de um jeito ou de outro ele dá um jeito de levantar de novo.
[1] Agradeço a Leonardo Fontes por ter me apresentado Patricia Xavier e por ter compartilhado comigo transcrições de entrevistas que fez com ela para sua pesquisa de doutorado em sociologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).