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A FESTA TARDIA

Sigrid Nunez e seus celebrados romances sobre o luto
Imagem A festa tardia

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Era uma noite fria de uma segunda-feira em março, e as calçadas do South Street Seaport, região portuária que costumava abrigar um dos mais tradicionais mercados de peixe de Manhattan, estavam vazias, com esse aspecto fantasmagórico que áreas históricas convertidas ao turismo ganham após o entardecer. Havia só mais uma passante na rua e nos entreolhávamos de vez em quando, um confiando ao outro a tarefa de descobrir exatamente onde era o evento.

Lá dentro, fazia calor e estava lotado. Naomi Watts era inundada por flashes num tapete vermelho diminuto que na tevê provavelmente viria a parecer maior, mais extenso. A atriz posava para as fotos num vestido branco sem mangas, e sua saia parecia estampada por grandes manchas pretas, disformes. Algumas outras celebridades – o ator Mark Ruffalo, que não participara do filme; e Bill Murray, que fazia uma ponta e era ansiosamente esperado – também circulavam.

“Você conheceu o Bing, chegou a vê-­lo?”, Sigrid Nunez me perguntou, levemente aflita, assim que nos encontramos. “Ele estava aqui agora há pouco.” No caminho da escada, que dava para a sala de cinema onde o filme seria projetado, me apresentou rapidamente a algumas pessoas. Ao apertar minha mão, um homem vietnamita, vestido num ao dai, uma túnica de seda típica de seu país, disse: “Morena Baccarin.” Sua voz não tinha muita inflexão (era difícil saber se estava perguntando ou afirmando) e demorei alguns segundos até localizar mentalmente a atriz brasileira. Demorei mais ainda para entender que ele aludia à presença dela na festa.

Os assentos da sala – uma unidade do Ipic Theaters, rede americana de cinemas de luxo – estavam organizados em duplas, e Sigrid Nunez reservara um assento para mim ao seu lado. “Ela tem que cuidar de todo mundo”, me disse Joy Harris, sua agente literária, com uma expressão irônica de enfado. Harris representa Nunez há mais de duas décadas, e as duas mantêm uma relação afetuosa que é às vezes permeada por certa tensão, um clima de diálogos rápidos e cortantes, mais típicos de uma amizade longa e excessivamente familiar do que uma relação contratual.

“Não quero descer por lá”, Nunez disse à agente, apontando para um lugar vago na diagonal da sala, especulando sobre sua rota até o palco. Estava inquieta, alternando momentos de orgulho pela estreia da adaptação de seu romance e de um certo assombro pela bajulação à sua volta. “Isso aqui é meio excessivo, não?”, me perguntou a certa altura, referindo-se às cadeiras em que estávamos sentados, que ela comparou a assentos de primeira classe de um avião. Na mesinha acoplada a cada cadeira, havia um saquinho de M&M, pipoca, balas de goma e uma água com gás. Funcionários da casa passavam a todo momento oferecendo taças de espumante e prosecco. “Você deve ter notado que não é meu tipo preferido de evento”, disse Nunez. Relembrando uma entrevista que dera aquela manhã para a revista Vanity Fair, porém, ela definiu “o pessoal do cinema” como muito mais gentil que “o pessoal da literatura”. “São menos competitivos, e se apoiam mais.”

“Isso é em off”, disse Harris, rindo.

“Não, pode ser em on mesmo”, respondeu Nunez.

No palco, antes de o filme começar, ela parecia à vontade junto ao elenco. Naomi Watts foi a última a entrar, trazendo Bing pela coleira. As estampas pretas e disformes do seu vestido, agora eu notava, tinham sido desenhadas para mimetizar a pelagem do protagonista (eram na verdade tufos de pelo), um imponente dogue alemão cujo focinho eu veria nos dias seguintes em cartazes do filme espalhados pelas ruas da cidade. Em um dos pôsteres, Bing aparecia entre Murray e Watts, projetado ligeiramente à frente de seus colegas de elenco, com a Ponte do Brooklyn e um apanhado de arranha-céus ao fundo, uma paisagem em miniatura. Nesse cartaz, Bing dava a impressão de ser ainda maior. Mesmo assim, não era possível notar um de seus traços mais distintivos – o fato de ter um olho de cada cor.

O amigo é o sétimo romance de Sigrid Nunez. No livro, um amigo próximo da narradora acabou de se suicidar, e sua viúva entra em contato. Ela conta que o marido tinha dito que, em caso de emergência, a narradora poderia cuidar de seu dogue alemão. A narrativa se constrói a partir das dificuldades práticas que a narradora enfrenta para se acostumar com o cão imenso em seu pequeno apartamento, bem como as dificuldades mais subjetivas de lidar com o luto. Correndo o risco de ser despejada (o condomínio proíbe animais), a protagonista tenta decifrar a razão pela qual o amigo sugeriu que ela poderia cuidar do bicho, e não uma de suas três ex-mulheres. De forma hábil, Nunez entrelaça a ambiguidade do gesto a muitas outras incertezas: a razão pela qual o amigo se suicidou; a dúvida retrospectiva sobre a natureza da atração entre os dois personagens; a contradição entre a proximidade que sentimos em relação a animais e nossa ignorância sobre a vida interior deles, o que não raro leva a projeções absurdas.

Lançado em 2018 e traduzido no Brasil pela Editora Instante, que cuida do catálogo da autora por aqui, o livro ganhou o National Book Award, um dos mais prestigiados prêmios literários americanos. Com seus livros antes traduzidos para sete línguas – um número significativo, mas não inusual para uma autora anglófona –, o sucesso de O amigo fez com que Nunez passasse a ser traduzida em 35 idiomas. Na primeira manhã em que nos encontramos, num café de um hotel no West Village, bairro em que reside, Nunez estava prestes a receber outro prêmio. Ela e a escritora irlandesa Anne Enright tinham sido escolhidas para o Windham-Campbell Prize na categoria de ficção. Dado anualmente pela Universidade Yale, o prêmio individual de 175 mil dólares tem o objetivo de celebrar a literatura e “dar a escritores a oportunidade de focar no trabalho sem ter de lidar com pressões financeiras”. Nunez, porém, não poderia ir à cerimônia, pois coincidiria com a estreia da adaptação cinematográfica de O amigo, dirigida por David Siegel e Scott McGehee, evento ao qual eu a acompanharia na noite seguinte.

Nunez, que tem 74 anos, não é imune a essa avalanche atual de reconhecimento (estava claramente animada com a notícia do prêmio), mas o sucesso tardio, na sua visão, mitigou os impactos no cotidiano. “Talvez se o prêmio [refere-se ao National Book Award] tivesse chegado bem mais cedo na minha vida, ele tivesse tido todo tipo de efeito. Mas a essa altura, não mudou a forma que eu escrevo ou o que eu quero escrever.” O apartamento onde vive, que não cheguei a visitar, é o mesmo de antes, descrito por ela como “um estúdio com um recuo na parede onde fica a cama”. O crescimento nos adiantamentos dos romances depois de O amigo não gerou a tentação de buscar um lugar maior. “A essa altura, eu realmente não saberia o que fazer com mais espaço. Eu não preciso de tanta metragem. Quando veio a pandemia, um monte de gente aqui deixou a cidade. Eu não tinha a mínima ideia de que tantas pessoas ao meu redor tinham segundas casas, casas fora da cidade”, contou, rindo. “Acho que pelo modo que fui criada, pela minha infância, não tenho esse tipo de necessidade. Sobretudo em comparação com os americanos.”

A infância a que se refere ocorreu durante a década de 1950, em Staten Island, a ilha mais próxima de Manhattan. Apesar de ter nascido e crescido no distrito nova-iorquino, seu uso ambíguo da expressão “americanos” – como se ela em certo sentido se excluísse dessa categoria – não é casual. Nunez cresceu num conjunto habitacional popular e é filha de imigrantes. Seu avô paterno era um comerciante chinês de chá e tabaco, que, por causa da profissão, trafegava entre Xangai e Colón, no Panamá, mantendo uma mulher em cada cidade. O pai da autora, Carlos, nasceu em Colón, em 1911, mas foi logo enviado a Xangai para ser criado pela outra mulher. Aos 10 anos, Carlos voltou a Colón, sob circunstâncias nunca muito bem explicadas. “Se a data estiver correta, meu pai teria deixado Xangai no ano em que o Partido Comunista Chinês foi fundado”, escreveu Nunez certa vez. “É incerto, porém, que eventos políticos tenham qualquer coisa a ver com o fato de ele ter deixado a China.”

A cautela dessa frase – a prudência em não sucumbir a uma história apenas porque ela soa bem no papel – é uma das marcas distintivas de Nunez e um dos fundamentos de sua autoridade como escritora. A frase aparece no seu primeiro romance, A feather on the breath of God (Uma pena no sopro de Deus), publicado em 1995 e sem edição no Brasil, em que Nunez conta a história de seu pai, de sua mãe, de sua obsessão em ser bailarina quando criança e de um caso amoroso que teve com um taxista, imigrante russo, durante a juventude. Ficcionistas e até jornalistas às vezes trocam um punhado de rigor factual por um aumento de voltagem narrativa. Nunez, não. Ainda que a maioria de seus romances possam ser encaixados na categoria imprecisa e um pouco inútil da autoficção, a autora nunca é evasiva a respeito do que considera como fatos. Tampouco parece se deleitar muito com a questão mais filosoficamente complexa (e bem mais útil) sobre a natureza da verdade, ou usá-la como muleta para evadir questões morais na sua ficção. Em relação a seu primeiro romance autobiográfico, foi direta: o capítulo sobre o pai “é totalmente verdade, e poderia ser categorizado como não ficção”; o capítulo sobre a mãe “tem só um pouquinho de invenção”; e os capítulos sobre o balé e o taxista russo, embora partindo de verdades, “tomam mais liberdades inventivas”.

A mãe de Carlos morreu um pouco depois que ele foi enviado de volta para Colón. Por volta dos 11 anos, Carlos imigrou para os Estados Unidos com um tio. Matriculou-se numa escola pública do Brooklyn. “Vinte anos se passaram. Tudo que sei dessa parte da vida de meu pai é que ele viveu como imigrante ilegal em Nova York, sobretudo em Chinatown, trabalhando em restaurantes diversos”, escreveu Nunez no livro. Com a chegada da Segunda Guerra Mundial, ele se alistou no Exército e finalmente se tornou cidadão americano. Lutou na França e na Alemanha – e, por volta da mesma época, mais ao Leste, o avô de Nunez, pai de seu pai, além de dois tios, foram assassinados pelo Exército japonês em Xangai.

Depois da vitória dos aliados, Carlos é alocado numa cidadezinha do Sul da Alemanha, onde conhece Christa, uma alemã de 18 anos. Ele tem 34 anos. Ela logo engravida. É improvável que se comunicassem bem. Ela falava mal o inglês, e ele, após décadas nos Estados Unidos, falava ainda pior (“Sua incapacidade de dominar o inglês sempre me pareceu vir de algo voluntário”, escreve Nunez). Em 1948, os dois vão para os Estados Unidos, com a primogênita ainda bebê. Com o tempo, vivendo num modesto conjunto habitacional em Staten Island com as três filhas, o inglês de Christa melhora substancialmente. O de Carlos nunca se altera.

Alienada linguisticamente do pai, Sigrid, a caçula curiosa, lhe pergunta às vezes sobre estereótipos chineses que atravessam seu caminho na rua ou na escola – se chineses comem cachorro, se comem com pauzinhos, se são todos comunistas. O pai, entre ofendido e indiferente, lhe responde sempre com uma única frase: Chinese just like evvybody else (Chinês igualzinho todo mundo). Do outro lado, a mãe – verborrágica, desdenhosa de seus novos compatriotas, ressentida com a pobreza da família – repete outra frase: “Eu deveria ter me casado com Rudolf!” A falta de vocabulário não impede brigas. No livro, Nunez lembra de uma das frases que o pai dizia à mãe, em seu inglês imperfeito: “Mulher burra. Dona louca. Fala, fala, fala, fala – nunca diz nada!” Certa vez, a mãe cuspiu na cara dele; outra vez, pegou uma faca de pão e ele teve que lutar para escapar.

Para as três filhas, Carlos permanece um enigma, tão distante e silencioso quanto um desconhecido. Quando adoece, já aos 60 anos, na cama do hospital, ele delira em chinês, e sua mulher e filhas não entendem nada do que ele diz. Certa manhã um padre chega no quarto de hospital. Ninguém o havia convocado. Talvez por causa do nome hispânico do paciente, o padre decide dar a extrema-unção a esse Carlos que não fala espanhol. “Nenhuma de nós teve a firmeza de impedi-lo, e então presenciamos um mistério final: nosso pai, que até onde sabíamos não tinha religião, se benzendo mansamente.”

É tentador contrastar essa cena da alienação do pai na hora da morte – para mim, uma das mais fortes da ficção ou não ficção contemporânea – com a assimilação cultural que Nunez parece às vezes personificar. De estatura baixa e aspecto franzino, com um sotaque local perceptível, mas não particularmente forte (a pronúncia um pouco anasalada, as vogais levemente esticadas), ela tem o cabelo grisalho curto, e costuma usar blazers de cores neutras sobrepostos a blusas escuras. Junto aos seus acessórios discretos – um colar de pedras, óculos de aro redondo –, os trajes evocam uma versão mais sóbria e contemplativa de Annie Hall, a personagem seminal do filme de Woody Allen. Quando cheguei ao café do hotel no West Village, naquela primeira manhã, a recepcionista me avisou que havia uma obra na parte de trás do restaurante. Nunez chegou um pouco depois e quando soube disso fez inúmeras perguntas à garçonete, num tom gentil e ao mesmo tempo ansioso – o que ia mudar, quando, como? A metáfora de grandes cidades como palimpsestos é quase um clichê, mas nada parece desconcertar mais os nova-iorquinos do que essas mudanças abruptas de cenário, como se a impermanência paisagística da metrópole fosse uma surpresa renovada a todo momento. “Não gosto de mudanças”, disse Nunez, severa, à garçonete ou a si mesma.

A imagem de intelectual nova-iorquina – segura de si, digressiva, sutilmente engraçada – às vezes cede a um ar mais reservado. Quando é perguntada sobre coisas íntimas – se já foi casada, por exemplo (“nunca, apenas namorados”), ou quanto recebeu de adiantamento por seus últimos romances (35 mil dólares por O amigo; valores na casa dos “seis dígitos” para cada um dos posteriores) – a velocidade e o tom da fala diminuem, e ela desvia um pouco o olhar. Ainda assim, como suas narradoras, costuma responder a essas perguntas indiscretas de forma direta, sem rodeios, o que no fim desconcerta, devolvendo o constrangimento ao interlocutor.

Os livros que existiam na sua casa durante a infância não eram muitos, mas todos vinham de sua mãe alemã. “Ela era leitora. Não era uma leitora sofisticada, não tinha educação superior, mas era uma grande leitora.” Algumas das primeiras histórias que Nunez leu foram os contos de fada dos irmãos Grimm e de Hans Christian Andersen. “As minhas primeiras memórias são da minha mãe lendo esses contos em voz alta para mim. E depois, quando eu fui lê-los sozinha, adorei […]. Mais tarde, me interessei pelas sagas, as sagas nórdicas, as sagas islandesas. Eu estava mergulhada nisso. E foi isso que me fez querer escrever.” O desejo pela escrita veio cedo, portanto, e, mesmo vivendo nos conjuntos habitacionais de Staten Island, em meio a certa pobreza, Nunez diz ter sido sempre estimulada por professores durante seus primeiros anos de escola. “No ensino médio, fui ainda mais encorajada”, me disse. “Tinha clube de poesia, clube de escrita, essas coisas. E nas aulas de inglês havia prêmios de escrita e eu sempre ganhava todos.”

Em A feather on the breath of God, Christa, a mãe, aparece como uma figura intensa, litigiosa, nostálgica pela pátria abandonada. Viveu e morreu com a convicção de que ela e as filhas eram boas demais para estarem confinadas num conjunto habitacional de baixa renda, em meio a americanos vulgares, e vivia rememorando seu passado alemão, antes de ser mãe ou esposa. “Ela era uma boa contadora de histórias”, escreve Nunez no livro. Além de ter aprendido inglês rápido e se expressar com a mesma precisão do alemão, a mãe era teatral, “usava tudo – olhos, mãos, todos os músculos do rosto. Era uma boa mímica, e era assustador como se tornava a pessoa imitada […]”. Em sua verborragia, era o oposto do pai. Muitas de suas histórias continham violência. Christa nunca achou as filhas jovens demais para ouvir coisas terríveis. “[…] nós duas tínhamos crescido com contos de fada e o que eram as histórias dela senão mais do mesmo, cheias de beleza e horror”, escreve Nunez.

Os pais de Christa eram católicos, e na juventude não aderiram ao movimento nazista. Sua mãe, cujo pai havia sido membro do Partido Social-Democrata, admirava Rosa Luxemburgo e tinha vários amigos esquerdistas. Já o pai de Christa tinha distribuído panfletos antinazistas em frente à Assembleia Legislativa de sua pequena cidade um pouco antes da eleição de 1933. Certa madrugada, logo depois de Hitler vencer aquela eleição, oficiais da polícia local apareceram na casa de Christa e levaram seus pais numa van cheia de outras pessoas. Ela tinha apenas 6 anos. A mãe voltou na manhã seguinte. O pai foi enviado a um campo de concentração e só voltaria – no relato do livro – treze meses depois. Nunca falou muito sobre o tempo que passou lá. Quando a avó de Nunez, que nunca deixou de nutrir ódio por Hitler e seus asseclas, bradava contra os discursos do Führer no rádio, o marido, talvez derrotado pela experiência do campo, dizia: “Deixa a Alemanha seguir o rumo dela.”

Quando perguntei a Nunez sobre a resistência do seu avô ao Partido Nazista, e especificamente sobre o gesto de distribuir panfletos contra os nazistas, ela me disse: “É claro que houve resistência, mas não devemos exagerá-la. Porque você sabe que ele acabou servindo no Exército deles depois. Ele fez parte da invasão à Polônia.” E emendou com um pouco mais de ceticismo: “Essas histórias todas vêm dela [a mãe de Nunez].” De fato, no relato do livro, o avô é chamado uma manhã para se juntar às tropas alemãs – acaba participando da invasão à Polônia e permanece no Exército até o fim da guerra em 1945. Enquanto conversávamos, Nunez também frisou que o campo de concentração mencionado no livro (Dachau) não era o campo no qual o avô foi internado. No dia seguinte, me enviou um e-mail, com duas fotos de seu avô jovem, como se passando a limpo o que publicara há trinta anos, corrigindo o pequeno detalhe ficcional:

Essas fotos e legendas contam a história da prisão de avô Wahl. Acho que talvez minha mãe tenha dito Dachau porque ela achou que era um nome que reconheceríamos, mas na verdade não sei. Ela também nos explicou que um campo de concentração não era necessariamente a mesma coisa que um campo de extermínio. E, quando estávamos crescendo, ela não queria que conversássemos sobre isso, porque ela achava inapropriado falar de alemães que sofreram naquela era.

Aparentemente, meu avô foi preso por distribuir panfletos antinazistas. Minha avó também foi presa temporariamente por uma “atitude oposicionista contra os nazistas”. A história que me foi contada é que ela foi solta quando a sua mãe [bisavó de Nunez] foi ao Gauleiter [chefe de distrito, função criada durante o Terceiro Reich] de sua cidade com as três netinhas, colocou-as na mesa dele e falou para ele cuidar delas, já que os dois pais das crianças estavam presos. Depois disso minha avó foi solta e teve que sustentar a família costurando. Não tenho ideia de quanto tempo meu avô ficou preso, mas sei que voltou para casa e serviu no Exército durante a guerra.

Lembrando de sua infância, Nunez descreve sua mãe como uma presença “sufocante” e uma pessoa infeliz – “infeliz no casamento, infeliz como dona de casa, sempre reclamando de tudo”. Mas havia outras características maternas que a fascinavam. Uma delas era a beleza, o tipo de beleza que gera comentários dos outros. A outra era o senso de humor. A mãe era particularmente hilária na desgraça, tinha um talento para fazer piadas, sacar uma espécie de humor refinado de situações ruins.

Foi da mãe que veio também o gosto por animais. Aos seus olhos, Christa evocava as bruxas dos contos de fadas, porque “as pessoas traziam animais feridos a ela. Era a pessoa do bairro que lidava com isso, a pessoa dos animais. E a vida toda dela, a vi rodeada por animais, pois eles também se davam conta de que ela era a pessoa da qual tinham que estar perto. […] Eu era louca por animais também quando criança. Obviamente peguei isso dela”. Mas, como no caso da narradora de O amigo, ter animais domésticos era também proibido nos conjuntos em que morava.

Nunez me disse: “Quando eu terminei de escrever O amigo, pensei: ‘Olha só, é a mesma narradora de A feather on the breath of God. Só que muito mais velha. Mas eu não tinha feito isso de propósito. Vi que de alguma forma tinha voltado às origens. […] Era a mesma sensibilidade, a mesma forma de ver o mundo.”

Uma das resenhas elogiosas sobre O amigo que chancelou o livro perante a crítica foi publicada pela escritora nova-­iorquina Vivian Gornick na revista Bookforum. Quando nos encontramos em seu apartamento, também no West Village, Gornick foi sincera em dizer que não se interessara muito pela obra de Nunez antes do romance. O amigo foi o primeiro livro que lhe pareceu “uma obra genial”. Já Marion Ettlinger, uma fotógrafa nova-iorquina, conhecida por seus retratos de escritores e amiga íntima de Nunez, me contou que, assim que leu o manuscrito pela primeira vez, ligou imediatamente para a autora. “Eu não acredito que você sequer fala com alguém como eu”, disse, em prostração absoluta, como se Nunez fosse uma espécie de divindade e ela uma mera mortal.

Na sua resenha do livro, Gornick localiza a força do romance não na trama em si, mas na presença da narradora, uma “inteligência senciente” que reflete acerca de sua condição existencial e o mundo ao redor. “Tudo que leio dela me dá a sensação de um livro de memórias”, disse Gornick. “Em outras palavras, a narradora em primeira pessoa que ela cria parece o de uma memorialista brilhante, brilhante no sentido de uma pessoa que pensa profundamente sobre qualquer coisa que se presta a pensar.”

Um desses temas – talvez o mais presente do romance – é a morte. A dificuldade da narradora de lidar com o cachorro, cujo sugestivo nome é Apollo, filho de Zeus, reflete a dificuldade de lidar com a finitude de seu amigo suicida, e também com a própria finitude, já que Apollo não é exatamente jovem. No nível da trama, o leitor se alivia à medida que a narradora se aproxima do cão e aprende mais sobre ele; sentimos, em parte, que seu luto é processado por causa disso. Mas os supostos avanços são sempre sombreados pelos questionamentos da narradora, essa “inteligência senciente” que suspeita estar participando de um jogo antropomórfico obsceno. Ela cadastra Apollo ilegalmente como cão de apoio para burlar a regra do seu condomínio. “Alguém me disse certa vez que muitos veterinários tendem a ser irritadiços porque a profissão os expõe a uma faixa particularmente ampla de tolice humana – grande parte, sem dúvida, sob a forma de antropomorfismo”, diz a narradora. A pergunta que o veterinário faz quando ela leva Apollo para uma consulta – Como você se sentiria? – pode ser lida tanto como uma expressão do narcisismo dos humanos, que precisam ser constantemente instados a se colocarem na pele de outras espécies, como de preocupação pelo bicho.

Os dois últimos romances de Nunez também colocam o tema da morte como objeto de reflexão. Em O que você está enfrentando, uma mulher com um diagnóstico terminal de câncer pede ajuda a outra para cometer eutanásia. Os vulneráveis, seu romance mais recente, se passa durante o confinamento da pandemia da Covid, dando um senso de urgência às reflexões subjacentes causadas pela idade avançada (o título alude à classificação de pessoas que correm mais risco com a doença). Nesse livro, a narradora cuida de outro animal, um papagaio. “Algumas pessoas me perguntam: por que você se sente tão atraída pela mortalidade?”, diz Nunez. “E eu costumo falar: acho que é mais uma questão de a mortalidade estar cada vez mais atraída por mim. Eu e Almodóvar coincidimos nisso totalmente.” O diretor espanhol, Pedro Almodóvar, recentemente fez a adaptação cinematográfica de O que você está enfrentando – filme que ele intitulou de O quarto ao lado e ganhou o prêmio principal do Festival de Veneza, com Tilda Swinton e Julianne Moore nos papéis das duas personagens principais. “Nós já estamos na casa dos 70 faz alguns anos e temos pensado mais sobre isso. Por isso que ele fez Dor e glória. Você chega a certa idade e escreve sobre as coisas que te deixam obcecada.”

Essa obsessão, para Nunez, não tem conotação negativa. “É algo que você divide com todo o resto da humanidade. E isso é o que eu mais quero como escritora. Escrever sobre algo que todo mundo vive. […] Todo mundo perde gente e fica em luto. Se você vive o suficiente, você perde. Eu conheço pessoas de 95 anos que enterraram todo mundo que conheciam.”

Ser definida como “uma memorialista brilhante” por alguém como Gornick não é trivial. Nova-iorquina nascida e criada no Bronx, hoje com 89 anos, Gornick fez seu nome como escritora justamente no gênero das memórias. Afetos ferozes, um de seus livros mais famosos, publicado nos Estados Unidos em 1987 e lançado no Brasil em 2019 pela Todavia, narra a relação entre Gornick e sua mãe, uma viúva judia, usando as caminhadas das duas pela cidade para contar uma história cheia de tensões entre mãe e filha, dissecando a coexistência difícil e iluminadora entre mulheres de diferentes gerações. A estrutura heterodoxa e o uso de uma narrativa pessoal para explorar temas mais amplos se tornaria uma espécie de modelo para livros de memórias de autoras futuras. Antes disso, porém, Gornick fora uma polemista (quando conversamos, ela fez uma diferenciação enfática entre polemistas e escritores), escrevendo textos mais panfletários para a publicação semanal The Village Voice, e participando ativamente dos movimentos feministas radicais dos anos 1970, ao lado de figuras como Susan Brownmiller e Ellen Willis.

Por volta dessa época, Nunez, quinze anos mais jovem do que Gornick, finalmente deixara seu lar. Tinha 17 anos quando ganhou uma bolsa de estudos e se matriculou na Universidade Columbia. Corria o ano de 1968. Ainda que não tivesse o perfil ativista de alguém como Gornick, viveu a contracultura da época. Em 1969, foi a Woodstock com seu namorado de faculdade e lembra até hoje como ele, um rapaz de Nova Jersey que era veterano da Guerra do Vietnã, e outros ex-combatentes vaiaram a Joan Baez. “Ele tinha virado um ativista contra a guerra, e muitos daquela turma também, mas não queriam ouvir de quem não tinha estado lá que o que tinham feito era inútil e estúpido.” O namorado anterior de Nunez, o do colegial, também servira no Vietnã, mas seu desfecho fora mais trágico: acabou com estresse pós-traumático.

Em Columbia, Nunez escolheu se concentrar em literatura. Foi assim que conheceu Elizabeth Hardwick, uma espécie de primeira mentora. Hardwick, uma das grandes ensaístas americanas do século XX, dava aulas de escrita na universidade e, nas palavras de Nunez, era uma péssima professora. “Ela não tinha paciência para as oficinas de escrita. Tinha muito ódio dos alunos.” Algumas de suas atitudes dificilmente seriam aceitas numa sala de aula hoje. Nunez recordou uma ocasião em que Hardwick disse a um aluno que preferia se dar um tiro antes de ler o texto dele outra vez. “Ela simplesmente não estava a fim de se dar ao trabalho de ler o que considerava besteiras escritas por alunos. E então não fazia isso. Alguns alunos sentiam que não estavam aprendendo o suficiente por causa dessa recusa dela de ler manuscritos. Mas ela em si era uma pessoa interessante, que tinha coisas interessantíssimas a dizer sobre literatura e escrita. Eu aprendi muito mais lendo o que ela escrevia do que trabalhando na oficina de escrita.” Nunez relaciona algo da impaciência de Hardwick nesse período com o sofrimento causado por seu divórcio do poeta Robert Lowell, muito comentado no meio literário da época.

A relação de Nunez com Hardwick era difícil (“ela tirava com uma mão e dava com a outra”), e o afeto entre as duas às vezes parecia residir mais no terreno pessoal. “Ela gostava de fofoca, de saber da minha vida. ‘Você tem namorado?’, perguntava. Era imensamente curiosa.” Hardwick podia ser dura nas críticas a textos – mesmo com Nunez, não era particularmente elogiosa –, mas quando certos alunos lhe interessavam, ela os acolhia em seus círculos. Foi ela que, depois de Nunez terminar a faculdade, a indicou para um emprego na revista literária New York Review of Books, que Hardwick havia fundado junto com Lowell em 1963, e que era então editada por Bob Silvers e Barbara Epstein, o outro casal fundador.

“Era um trabalho burocrático”, disse Nunez. Silvers, o lendário e longevo editor da revista, que só deixaria o cargo ao falecer em 2017, era extremamente exigente e esperava que os funcionários abdicassem da vida privada para estar na redação o tempo todo. As tarefas de Nunez consistiam em escrever cartas ditadas por ele, enviar livros pelo correio para autores resenharem, ligar para fulano e colocá-lo na linha. “Você tinha um monte de gente graduada e pós-graduada em literatura que não tinha qualquer tipo de habilidade administrativa. Então era meio ridículo, porque não sabíamos tomar ditado ou digitar eficientemente, e eu pensava, por que não contratam secretários e secretárias de verdade?”

A falta de privacidade – todos os funcionários ficavam numa sala, ao redor de Bob Silvers, em meio a seus papéis e livros – às vezes era recompensada, quando, vez ou outra, ele pedia ajuda para fazer uma ligação a Isaiah Berlin, W. H. Auden ou algum outro escritor-celebridade. E aí dava para ouvir as conversas. “Eu tinha lido e estudado essas pessoas, e agora via que tinham um trato íntimo com Bob ou Barbara, e para mim era a entrada no mundo real, no mundo belo. Mas eu me sentia também como uma outsider.”

“Eles eram mandarins [da alta cultura]”, disse Gornick, em referência a Silvers e Hardwick. “Nós não vivemos mais nessa cultura de livros. Não existem mais mandarins.” Para Gornick, o meio intelectual nova-iorquino de outrora se fragmentou, e o que restou é “a maior cultura de massas da história”.

A certa altura Nunez deixou o emprego para focar na sua escrita, e fez um mestrado em Columbia. Mas quase um ano depois de terminá-­lo, na primavera de 1976, a revista em que trabalhara atravessaria sua trajetória outra vez. Susan Sontag, na época já uma celebridade literária, procurava alguém que pudesse ajudá-la a responder uma pilha de correspondência que crescera durante seu primeiro tratamento contra um câncer no seio. Os editores da New York Review of Books, amigos de Sontag, indicaram Nunez para o trabalho temporário, já que ela tinha tido experiência como assistente na revista e, por coincidência, morava perto da autora. “Era exatamente o tipo de emprego que eu buscava então, o tipo que não interferiria com minha escrita”, escreve Nunez em seu livro Sempre Susan: um olhar sobre Susan Sontag.

A frase tem o humor sutil de Nunez, porque o trabalho que ela descreve depois no livro é uma interferência brutal e cômica na sua vida. A tarefa de digitar as respostas às cartas era lentíssima – em parte porque Sontag recebia muitos telefonemas e adorava bater papo; em parte porque frequentemente se entediava e queria fazer outra coisa. Seu círculo social e sociabilidade incansável eram notórios. Era como se o vislumbre do “mundo belo” que Nunez tivera com os telefonemas de Bob Silvers tivesse se expandido. De acordo com o relato do livro, David Rieff, o filho de Sontag, tinha perguntado à mãe se Nunez tinha namorado e, embora tivesse, Sontag logo soube por seus amigos editores que o relacionamento da nova funcionária não estava bem. Sontag então tomou para si a tarefa de arrumar subterfúgios pa­ra que o filho e Nunez se encontrassem. Nunez e Rieff começaram a namorar. Depois, os três passaram a morar juntos no mesmo apartamento.

“Mas, quando cheguei lá, ela viu que teria que enfrentar uma espécie de competição e obviamente não queria isso”, contou Nunez, na terceira vez que nos encontramos. Estávamos no Lincoln Center, o famoso complexo de ópera, balé, dança e teatro no Upper West Side de Manhattan, a apenas algumas estações de metrô de onde ela morara décadas antes com Sontag e Rieff. No período de aproximadamente um ano em que moraram juntos, Nunez e Rieff raramente ficaram sozinhos, sem a presença da dona da casa. Na mesma época, Sontag viveu uma espécie de namoro com o poeta russo exilado Joseph Brodsky e às vezes os quatro saíam juntos. O monopólio de Brodsky sobre as conversas irritava Nunez. “Se saíssemos para ver um filme, e depois estivéssemos jantando num restaurante chinês, só ele falava e ela ficava quieta”, disse. “E eu pensava: quero chegar em casa logo e ouvir o que ela tem a dizer. Eu queria ouvir o que ela tinha achado do filme, porque ela era sempre mais interessante do que qualquer outra pessoa.” O relacionamento com Rieff terminou mal já na época. Segundo Nunez, ele tampouco gostou da publicação do livro sobre a mãe e a convivência dos três. “Não preciso da permissão dele para isso”, Nunez disse (Rieff não quis me dar entrevista). Nunez seguiu em contato com Sontag por alguns anos, mesmo depois de deixar a casa, embora já falassem pouco quando ela morreu depois do terceiro câncer, em 2004.

O retrato em Sempre Susan é, quando necessário, impiedoso – a famosa crueldade ocasional de Sontag está lá, bem como a honestidade intelectual que era às vezes usada para ferir e humilhar. Mas há também uma dose inegável de afeto no relato. “Eu achava que ela nunca estava errada sobre seu gosto para filmes e livros”, disse Nunez. “Se ela dizia: você tem que ler isso ou aquilo, por exemplo. Tanta energia e respeito pela arte e literatura, era incrível estar perto disso.”

Nunez, porém, não admirava a ficção de Sontag, e não dava muita atenção para seus conselhos sobre como escrever histórias (“se eu estivesse escrevendo resenhas, teria acatado tudo, mas não era o que eu estava fazendo”). Para sua ficção, preferia os conselhos de Hardwick, ainda que ela também fosse mais ovacionada pelos ensaios e textos de crítica. Sontag e Hardwick se admiravam mutuamente. Mas para Nunez, cada amiga dizia o mesmo uma da outra: cuidado, não confie nela.

Embora Nunez às vezes se refira a Sontag e Hardwick como mentoras, a conotação professoral do termo não captura bem o lado mais caótico dessas duas relações. O humor e as tiradas cruéis, bem como os impulsos verbais mais destrutivos das duas inevitavelmente remetem a Christa (uma comparação que a própria Nunez fez em relação a Hardwick, no dia em que nos encontramos no Lincoln Center).

Nunez viria a romper relações com sua mãe. A proximidade com valores da contracultura após a entrada na universidade gerou bastante tensão. E a escrita do primeiro romance também, ainda que sua mãe nunca tenha reclamado explicitamente do livro. Mas Nunez explicou o rompimento com uma frase categórica e ao mesmo tempo abrangente, existencial. “Chegou um dia na minha vida em que me dei conta de que eu e ela não tínhamos nada em comum.” Nunez tampouco tem muito contato com suas duas irmãs, que vivem com os maridos na Carolina do Norte.

Ainda que durante sua juventude a autora tenha tido contato com grandes nomes do meio literário, sua estreia oficial como romancista tardou a chegar. Ela só começou a publicar textos de ficção na década de 1980, e mesmo assim de forma esparsa. Em 1989, Chang, o texto sobre seu pai que viria a se tornar o primeiro capítulo de seu primeiro romance, foi publicado na revista literária The Threepenny Review. Nunez se lembra de como às vezes, durante sessões de leituras públicas, pessoas de origem asiática riam do trecho sobre seu pai. No início, ela ficou desconcertada com a reação, mas depois se deu conta de que era um riso de identificação (“muitos pais chineses são assim”, mais de uma pessoa lhe diria).

Dois anos depois, Christa, o texto sobre a mãe, foi publicado na Iowa Review. Por muito tempo, Nunez tentou vender os dois capítulos juntos como um romance. A ideia foi rejeitada diversas vezes. Ninguém queria publicar um romance de cem páginas. “Eu fiquei muito decepcionada e triste porque ninguém via que era uma boa ideia. E ainda acho uma boa ideia […] Era muito deprimente. Eu já estava com 30 e poucos anos, e não tinha publicado nada a não ser histórias [curtas].” Escreveu então dois capítulos extras – o terceiro, sobre o sonho de dançar balé, e o quarto, sobre seu caso amoroso com o taxista russo. O livro, agora maior e mais de acordo com as especificações de tamanho pedidas, continuou sendo rejeitado por dezenas de editoras.

O romance só sairia em 1995, quando Nunez já tinha 44 anos. Mesmo tendo apenas publicado histórias curtas até então, em 1993 ela ganhou um prêmio literário dedicado a talentos promissores, o Whiting. Sua agente na época, Harriet Wasserman, aproveitou o bom momento para dizer a muitas pessoas do meio que agora Nunez tinha um livro novo em ponto de bala. “Era mentira. Era o mesmo livro que já tinha sido rejeitado inúmeras vezes.” Mas a HarperCollins mordeu a isca da agente e finalmente o livro saiu, com um adiantamento de 50 mil dólares – um valor alto para a época. Wasserman, que em 1997 lançou um livro de memórias narrando sua relação profissional e um caso amoroso com Saul Bellow, seu cliente mais famoso, acabou tendo que fechar sua agência, acusada por alguns autores de não repassar cheques de royalties e outros pagamentos. Àquela altura, Nunez já era representada por Harris, sua agente atual.

A feather on the breath of God não foi um fracasso comercial, mas tampouco um sucesso, e por um bom tempo o nome de Nunez ficou restrito a círculos intelectuais. For Rouenna (Para Rouenna), também sem edição no Brasil, seu romance preferido, que tem como protagonista uma enfermeira na Guerra do Vietnã, teve o infortúnio de ser lançado perto do ataque terrorista de 11 de setembro de 2001, o que afetou e de certa forma anulou sua recepção. “Ela trabalhou por muito tempo sem a expectativa, as láureas e o apoio que hoje ela tem”, diz Ettlinger, a fotógrafa e sua amiga mais próxima. Ettlinger a conheceu na época em que o primeiro romance foi lançado e, quando a viu pela primeira vez numa festa – “um rosto perfeitamente redondo, se aproximando mais e mais” –, imediatamente quis tirar seu retrato, o que faria muitas vezes ao longo dos anos.

Nessa mesma época, um pouco antes do lançamento do livro, aos 42 anos, Nunez começara a dar aulas de escrita para se sustentar e continuar escrevendo. Deu aulas em diversas universidades, muitas delas num perímetro próximo de Nova York: Amherst, Princeton, Columbia, NYU, Brooklyn College, Universidade de Boston. Weike Wang, uma escritora sino-americana de 36 anos, sua ex-aluna no curso de escrita criativa da Universidade de Boston, a descreveu como uma professora muito direta e transparente, que “não pegava leve em suas críticas e era clara sobre a dificuldade de se tornar escritora”. Nunez admite uma forte ambivalência em relação à profissão, e nem precisaria fazer isso: as piadas mais ácidas em O amigo são direcionadas a alunos de escrita criativa, com seus delírios de grandeza e desinteresse paradoxal em ler. Nunez não parece odiar dar aulas, como Sontag ou Hardwick, mas tampouco parece gostar.

Wang, cujo primeiro romance, Chemistry (Química), venceu o pen/Heming­way em 2018, um dos mais prestigiados prêmios destinados a estreantes, também viria a se tornar professora, e parece ter incorporado algo do ceticismo em relação à profissão. Diz ter “cerca de um bom aluno a cada cinco anos” e se exaspera particularmente com os alunos mais jovens – com a falta de leitura deles, o medo excessivo de ofender ou ser ofendido (“se você já está vacilando enquanto lê, imagina escrevendo”). Suas críticas à geração Z, ironicamente, se assemelham a críticas que por muito tempo foram direcionadas aos millenials. “Só escrevem sobre si mesmos e, portanto, quando você critica um texto, acham que você os está criticando pessoalmente.”

Em 2023, depois de cerca de três décadas dando aula, Nunez deixou a profissão. Quando perguntei a ela a razão, foi sucinta: “Porque eu podia.”

Na noite de estreia do filme O amigo, Nunez se comoveu em alguns momentos durante a projeção. Era a terceira vez que assistia. Quando me perguntou o que eu tinha achado, respondi que me parecera “bem diferente do livro” – uma resposta um pouco covarde e evasiva que pareceu lhe irritar um pouco (“É de se esperar, né?”, devolveu).

Um dia antes, Gornick, rodeada de livros em sua ampla sala no West Village, tinha criticado duramente a outra adaptação, O quarto ao lado, o filme de Almodóvar. Para ela, era um filme “completamente artificial”. O diretor simplesmente “não tinha entendido o livro” e extraíra apenas o “esqueleto da trama”. Gornick tinha encrencado especificamente com uma cena que supostamente se passava no interior do estado de Nova York e que, em sua visão, claramente tinha sido filmada em outro país (segundo ela, depois descobriu ser na Espanha). Gornick disse que já tinha feito a crítica do filme a Nunez e que ela pareceu não gostar muito (depois da resenha na Bookforum, as duas iniciaram uma amizade e, embora não sejam íntimas, se encontram de vez em quando). No contexto de uma outra conversa nossa, Nunez tinha defendido a adaptação e o estilo operístico de Almodóvar.

A defesa que Nunez faz dessas adaptações cinematográficas parecem provir mais de um senso de lealdade por pessoas que admiram seu trabalho do que uma vaidade própria. Mas foi ela que, num comentário de passagem, talvez sem querer, me fez notar duas sanitizações perturbadoras nos dois filmes. Tanto em O quarto ao lado como em O amigo, as protagonistas são bem mais jovens do que a autora ou as narradoras dos livros. O único personagem que tem uma idade similar à do livro é uma figura masculina – o amigo suicida, interpretado por Bill Murray.

O rejuvenescimento forçado de personagens, particularmente personagens femininas, não é uma tática inusual na indústria cinematográfica. Mas no caso desses dois livros de Nunez, a potência das obras reside justamente no tratamento dado à mortalidade e nas reflexões da narradora acerca da finitude, o que torna o ajuste etário conspícuo. Para afirmar o óbvio: descontando neuroses, alguém de 50 e poucos anos tende a se preocupar bem menos com a morte do que alguém com 70 e poucos. O diagnóstico terminal e a eutanásia de O quarto ao lado não eliminam essa questão; pelo contrário, a reforçam. Em O amigo, os diálogos são fiéis ao texto, mas a presença da narradora – a “inteligência senciente” de que fala Gornick, cheia de referências literárias e uma dignidade que parece ter sido afiada por uma solidão extrema – é diluída. O voice over de Watts é protocolar, um mero apoio aos acontecimentos da trama. E a experiência de envelhecer sozinha – que Nunez vê com alguma dose de calma costumeira, e Gornick, que já foi casada duas vezes, descreveu para mim com um terror profundo – passa batida dessas representações cinematográficas.

Naquela noite da estreia, depois do filme, fomos a uma festa a alguns poucos passos do local, em um dos restaurantes de Jean-Georges Vongerichten, um chef francês que tinha cedido o espaço para o evento. A vista à noite dos arranha-céus cintilantes, em contraste com a água densa e escura, era suntuosa; mas todos ao redor pareciam estar mais consternados pela ausência do cheiro forte de peixe, que por décadas tinha dominado a região portuária.

Depois de circular um pouco, encontrei Nunez e Harris, sua agente, numa salinha lateral do restaurante, que dava para a vista dos arranha-céus e a Ponte do Brooklyn – a mesma paisagem que tinha sido miniaturizada nos cartazes do filme. A sala tinha uma mesa longa e, ao pé dela, Bing estava deitado, imperturbável em meio à música alta.

Um pouco antes, eu tivera uma conversa com Matthew Snyder, um funcionário da Creative Artists Agency que ajudara a fazer a ponte para o livro ser adaptado ao cinema. Ele havia me explicado, entre outras coisas, que os diretores tinham comprado os direitos do livro logo que a obra saiu, em 2018, e que a filmagem tivera uma interrupção longa durante a pandemia. Nunez tinha me contado que Bing começou a filmar com 2 anos – agora tinha quase 8, uma idade “não inusual”, segundo ela, para um dogue alemão falecer. O arco da vida dele se passara dentro dessa estranha bolha fílmica.

Quando saí da sala para ir embora, Bing continuava deitado. Sua criadora, sentada numa cadeira perto dele, tinha um ar entediado. Talvez os dois estivessem cansados. Na manhã seguinte, estavam confirmados para o talk show mais famoso do país.


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É escritor, ensaísta e editor de literatura da piauí. Autor do romance Apátridas (Companhia das Letras)