dossiê piauí
José Henrique Bortoluci Jun 2025 16h40
24 min de leitura
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A LUTA
Eu apostei em viver uma vida coletiva, em estar no meio das pessoas, em tentar transformar as coisas por meio da coletividade. Acho que a minha mãe preferia me ver nas colunas sociais do que nas páginas policiais… Mas o meu maior medo é a apatia. Esse processo de capitulação em geral da sociedade. Tenho medo de as pessoas desistirem do mundo e desistirem da vida. O povo está desacreditado da política, mas está desacreditado de si mesmo também. E felicidade, para mim, hoje, é militar dentro de um espaço com o qual tenho identificação política e ideológica. Não lutar por outro mundo possível… Isso seria impossível para mim. Então, ainda acredito na revolução, ainda falo em comunismo, em socialismo, ainda defendo as raízes talvez mais ortodoxas da esquerda.
Claudia Favaro nasceu em Caxias do Sul, em 1983. Hoje ela trabalha como assessora parlamentar de um vereador do Psol em Porto Alegre, depois de anos atuando como arquiteta em movimentos sociais rurais e urbanos.
A vida de militante contrasta com sua infância no ambiente conservador de uma cidade do Sul do Brasil:
Logo após meu nascimento, meus pais se separaram. Minha mãe foi morar em Nova Petrópolis, uma cidade pequena e turística próxima a Gramado. Era uma cidade de colonização alemã e bastante preconceituosa. Lembro que durante uma campanha de arrecadação de garrafas para um projeto social entrei em uma casa cheia de garrafas empilhadas numa parede. Ao retirarmos as garrafas, apareceu a imagem de uma suástica atrás delas. A coordenadora rapidamente tirou todas as crianças dali. Era a casa de um senhor alemão, com fama de violento e armado.
Aos olhos da cidade conservadora, uma mulher solteira e atraente como sua mãe só poderia estar lá para trabalhar como prostituta, ou para tentar seduzir os maridos de outras mulheres:
Minha mãe foi cabeleireira a vida toda, batalhou para sustentar a mim e à minha irmã, Paola, que tem seis anos a mais que eu. Nem minha mãe nem meu pai fizeram faculdade. Ele sofria com alcoolismo, mas contribuiu com nossos estudos. Quem me ajudou mesmo na educação foi minha madrinha, tia do meu pai, uma mulher à frente de seu tempo. A rigidez e o conservadorismo me incomodavam muito. Eu me revoltava, e acabei me envolvendo com drogas no ensino médio. Tive problemas com drogas pesadas, porque buscava me afirmar e escapar da rigidez de uma cidade onde tudo girava em torno de aparências e status. Eu sabia que precisava sair dali, então me dediquei ao estudo.
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A paixão pela política delineia a maneira como Claudia narra sua história de vida. Ela ingressou em uma universidade particular em São Leopoldo no ano 2000. Como trabalhava o dia todo para conseguir pagar a escola de arquitetura e urbanismo, levou nove anos para se formar. Chegou a ter cinco empregos ao mesmo tempo para saldar a dívida com a universidade, que ela paga há quinze anos (falta apenas o último semestre):
Na faculdade eu militava na esquerda, mas já não gostava muito do PT. Acho que eu entendia um pouco e não concordava com a lógica da conciliação adotada pelo partido. Vivi todas as contradições da política estudantil: as disputas sérias, as ameaças, a lógica partidária, as vaidades – e eu preferia atuar de forma apartidária. Nós fizemos várias atividades com o MST durante nossa gestão no diretório estudantil, e aí comecei a entender a vida dos sem-terra, da dona Joana, da dona Maria, do seu João… E que eles não eram terroristas ou vagabundos, como me diziam algumas pessoas quando eu era mais nova. Fui conhecer os assentamentos e me apaixonei pelo movimento. Quando o Lula foi eleito, a Carta ao Povo Brasileiro marcou para mim um momento simbólico, esse desejo de pacificar o mercado e conciliar as classes. Mas, como trabalhadora e estudante que vivia na pele as dificuldades, eu sabia que não havia lugar para todos. O lugar do agronegócio com veneno não é o mesmo lugar do sem-terra.
Durante aqueles anos, Claudia manteve uma união estável com um companheiro do movimento estudantil (de quem hoje está separada) e teve uma filha que nasceu pouco depois que ela terminou a faculdade. Os primeiros contatos com o MST definiram muitos dos seus passos na vida adulta:
Quando eu me formei em 2008, logo fui chamada para coordenar o setor de habitação do MST no Rio Grande do Sul. Ali foi a minha escola. Eu queria atuar ali, viver conflitos reais na área que eu havia estudado. Na época, o movimento estava sem arquitetos na equipe. Eu contribuí para a construção de mais de 6 mil unidades habitacionais nos assentamentos e tive muito contato direto com as famílias. Construir aquelas casas me permitiu conhecer as histórias das pessoas de forma muito próxima. A minha tarefa no setor de habitação era, basicamente, formar pedreiros e organizar os processos de distribuição de materiais com as famílias, já que a construção se dava por autogestão delas. Fiquei de 2008 até 2013. Mas, ao mesmo tempo que estava muito engajada no movimento, vivia uma contradição: embora eu lutasse para ser uma militante, para o movimento eu era apenas uma técnica. Então, foi isso também que me levou a buscar a militância em outros espaços.
Essas contradições de sua condição de técnica e militante, além de disputas internas do movimento, levaram Claudia a outras lutas. O ano era 2013:
Comecei a me envolver mais ativamente em lutas de resistência das populações urbanas com as mudanças nas cidades para a Copa do Mundo no Brasil, em 2014. Em Porto Alegre, que foi escolhida como uma das cidades-sede do evento, quem puxou os movimentos em 2013 foi o Bloco de Luta, que era uma aliança informal de movimentos contra o aumento das passagens e as questões da Copa. As reuniões juntavam partidos, anarquistas e movimentos estudantis. Meu trabalho se expandiu para resistir aos impactos negativos das obras relacionadas à Copa, me envolvi na luta contra as remoções forçadas de populações de algumas áreas urbanas. Atuei em projetos com várias comunidades: Vila Dique, Vila Nazaré, Morro Santa Tereza, próximo ao Estádio Beira-Rio. Era militância de resistência.
Mais tarde, ainda em 2013, explodiram as lutas pelo transporte público em Porto Alegre, antes mesmo das que viriam a ser feitas em São Paulo, em junho, e integrei o Bloco de Luta e o Comitê Popular da Copa, onde passei a coordenar processos de luta. Essa resistência envolveu tanto mobilizações de base, com assembleias e reuniões comunitárias, como articulações políticas e denúncias internacionais. A perseguição policial e judicial foi enorme. Na época, o governo Dilma fazia acordos desfavoráveis à cidade e à classe trabalhadora, e as respostas do governo não foram as melhores. Com as manifestações em São Paulo, o movimento ganhou força em Porto Alegre, mas aqui a direita não dirigiu o processo, ao contrário de outras cidades. Foi só depois que veio o “Fora, Dilma”, as campanhas pelo impeachment, com a direita nas ruas.
Claudia já sofrera violência como militante, quando foi perseguida e agredida por grupos de traficantes em uma das comunidades em que trabalhava. Agora, essa violência, física e judicial, viria pelas mãos do Estado:
Nós estamos vivendo, faz tempo, uma guerra no Brasil. Todo dia. A gente enfrentou uma repressão brutal e muita criminalização. Eu e outros companheiros enfrentamos diversos processos e perseguições, especialmente durante a Copa do Mundo, a ponto de precisarmos sair de casa. Acusaram várias lideranças de depredação e outras coisas… Em todos os casos, fui inocentada.
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Olhando com a distância do tempo, os anos de 2013 e 2014 – sobretudo o período entre as Jornadas de Junho e a resistência à Copa do Mundo – formam um ciclo de protestos como não havia no país desde a democratização. Ainda não conseguimos olhar devidamente para o raio político que foi 2013, um evento intempestivo que partiu o céu ao meio. Esse ciclo é uma das marcas da passagem para outro país, no qual ainda discutimos o significado daquela onda que varreu o território, que tomou as ruas e praças de cidades grandes e pequenas, de Norte a Sul, com as multidões de camisetas pretas, vermelhas ou amarelas, com ou sem bandeiras partidárias e que representou o batismo político de uma geração de novos militantes em todas as cores do espectro ideológico. Vimos ao vivo ou pela tevê: carros de emissoras de comunicação queimados durante manifestações, o número de participantes aumentando a cada novo protesto, os políticos perdidos (alguns em Paris, outros prometendo mundos e fundos para aplacar as multidões), e a polícia não economizando na repressão contra jovens nas centenas de cidades em efervescência. Em um programa de entrevistas, quando perguntados sobre quem eram, de onde vinham, dois porta-vozes do Movimento Passe Livre se recusaram a responder. Aquilo tudo não era sobre eles – nem sobre os vinte centavos, gritavam as ruas.
Uma imagem-síntese: manifestantes escalam o Congresso Nacional, e seus corpos à contraluz projetam imagens fantasmagóricas nas abóbadas de Niemeyer – talvez a cena mais enigmática da nossa história política recente. Aquelas sombras parecem ainda estar lá, incorporadas às formas sinuosas da “Casa do povo”. Até hoje, quando olho aqueles prédios semiesféricos, penso imediatamente naqueles vultos.
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Com o fim da Copa do Mundo, foi terra arrasada: remoção de famílias, repressão policial. Essas coisas aconteceram e continuaram acontecendo. Aí, eu digo: “Cara, eu estou aqui nesse processo até o pescoço, vou resistir, resistir, resistir. Mesmo nesse cenário desolado.” E então construí um coletivo e fundamos o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) em Porto Alegre. Eu inclusive aprendi muito com a luta dos companheiros de São Paulo: a ocupação com barraca de lona preta, a divisão em núcleos, as lideranças por grupo, a formação de bases… Mas também discordava muito da liderança nacional do movimento, porque eu era a favor da autogestão e autoconstrução, e o movimento era a favor de contratar consultoras. Briguei muito com o [Guilherme] Boulos e outras lideranças! E eu não ficava esperando a organização decidir: ia diretamente visitar as famílias, conhecê-las e entender as necessidades delas. Queria que a liderança surgisse das próprias comunidades, mas enfrentava resistência, pois muitos achavam que o movimento deveria ser conduzido pelo centro, sem dar espaço para a periferia assumir esse papel.
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Depois do turbilhão de 2013 e 2014, Claudia caminhou para novas lutas:
Na Vila Dique surgiu a oportunidade de uma resistência mais estruturada. A vila chegou a ter mais de 2 mil famílias, mas muitas foram reassentadas no Porto Novo, por causa da expansão do aeroporto de Porto Alegre. Ficaram ali, na Vila Dique, umas quinhentas famílias, as mais pobres, incluindo catadores que estavam em uma área fora da expansão do aeroporto. Foi aí que entrei, ajudando na luta pela permanência dessas famílias. Mas nesse momento as brigas no movimento já eram fortes demais, comecei a entrar em depressão com a crise no MTST, com a crise no meu casamento… E o Brasil entrando naquele buraco político, com Bolsonaro. Então, disse para mim mesma: “Bom, basta disso, vou fazer outra coisa.” E, em 2016, fui me dedicar ao escritório de arquitetura que fundei para apoiar, com projetos, as comunidades.
Claudia, que tem a fala certeira de militante acostumada com as assembleias e carros de som, nesse momento faz silêncio, engasga, derruba algumas lágrimas. O impacto avassalador das enchentes de 2024 em Porto Alegre e a quase total destruição da Vila Dique levaram Claudia a um segundo momento de depressão, no início daquele ano:
A Vila Dique… Bem, é um dique, né? Fiz muitas vezes os laudos técnicos para que a comunidade pudesse permanecer ali, dizendo que não era área de risco. Isso veio por terra, porque a quantidade de água que subiu no ano passado… Foi uma enorme surpresa para a comunidade o que aconteceu, ninguém podia imaginar. Não tem mais condição de as famílias ficarem lá. Estou agora na luta para que elas tenham condição de sair. É uma contradição, essa vida é louca. Isso para mim foi um momento terrível. Entrei novamente em depressão profunda. Agora estou bem, estou bem, estou bem… Saí dessa depressão pós-enchente, e estou bem. Mas está muito duro aqui, tudo muito difícil. Imagina que a gente sofreu uma enchente dessa dimensão, e as áreas mais atingidas chancelam o prefeito com a reeleição. Isso aconteceu inclusive no bairro onde moro. Foi um trabalho muito forte das igrejas na reconstrução, com doações, os salvamentos. A direita teve muito mais força nisso, porque os ricos é que tinham barcos, jet skis, tinham os mecanismos e as formas de fazer os resgates. O Estado, que é comandado pela direita, não conseguiu dar esse apoio e também não investe no sistema de proteção contra as cheias, não tem uma Defesa Civil fortalecida e nem os equipamentos necessários para enfrentar um evento climático desse tipo – e que vai ser cada vez mais comum.
O IMPASSE
A história política do país nos últimos quarenta anos não teve nada de linear. Nós nos acostumamos a saltar de crise em crise. A crise da inflação, o confisco das poupanças, a dança das trocas de moedas, o receio de sermos engolidos pelo capital americano, pelos organismos financeiros internacionais, pela indústria chinesa; o desemprego, a crise econômica e política de 2014 em diante, uma década de crescimento econômico medíocre, a desindustrialização, a tragédia da Covid. Por muitos anos, políticos e economistas garantiam na tevê que o mercado resolveria todos os problemas, enquanto seguiam prometendo mais educação pública, melhorias no sus, aumento de salários. O Brasil nunca respirou neoliberalismo em seus bares e praças públicas, apesar da militância dos seguidores da Escola de Chicago, dos economistas da PUC-Rio – que sempre retornam ao poder – ou dos ultraliberais de ocasião, que acabam sempre buscando (e quase sempre conseguindo) as bênçãos do Estado para benefício deles, de suas empresas e de seus amigos.
As palavras “desenvolvimento” e “desenvolvimentismo” voltam aos discursos em determinado momento, e até parecem recuperar algum valor. Mas isso dura pouco tempo: no debate público, elas rapidamente se tornam uma versão jocosa de ideais passados. Em 2004, organizo com colegas de faculdade uma semana de debates sobre desenvolvimento – e quando conto isso para meus alunos de administração pública em 2021, eles soltam um riso de espanto, como se eu falasse de ideias dos tempos de seus avós.
(Um aluno dos mais inteligentes, com seus 20 e poucos anos, me deixa atordoado ao defender que a luta contra a desigualdade de renda só pode ser conduzida por pessoas pobres. Ele, na condição de homem gay de classe média interessado numa carreira de político e ativista, teria que ficar na defesa das causas LGBTQIAP+, pois só assim teria um “lugar de fala”. Quando digo a ele que eu achava que qualquer pessoa que valoriza a justiça social deve lutar contra a desigualdade, ele responde: “Entendo, mas essa sua visão antiga não deu certo, e por isso o mundo está do jeito que está.”)
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Por anos, a moeda muda a cada estação, e ninguém sabe direito como funciona o dinheiro. Num plebiscito estranho, tento convencer meus pais a votarem pela monarquia, já que eu adorava as histórias de reis e rainhas que lia nos livros emprestados da biblioteca da escola. Na tevê, propagandas oficiais educam para o uso da nova moeda (“Suco de laranja a 1 real? Isso não é real”). Um presidente doutor pede que esqueçam o que ele escreveu. Anos depois, derruba os óculos ao passar a faixa a um presidente metalúrgico. Uma futura presidente relata em uma sessão de Senado como foi ter sido torturada quando jovem – ela fala sobre a dor e sobre diferentes lados da história em que estiveram ela e o senador que a interrogava. De um ano para o outro, todos aprendemos os nomes dos membros do Supremo Tribunal Federal. Um grupo de apoiadores cerca um ex-presidente em uma sede de sindicato para que ele não seja levado preso. Um presidente afirma que não é coveiro. Milhares de pessoas invadem os palácios de Brasília numa tarde de domingo.
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Há sempre um risco em escrever sobre a própria geração enquanto ainda habitamos o mundo, pagamos as contas, compramos o último produto da moda, postamos nas redes sociais. Se fosse a história de um indivíduo apenas, um biógrafo prudente trataria de não elogiar demais, de não higienizar os erros ou superestimar as conquistas do biografado, já que, com o passar da história, toda a lenga-lenga escrita no calor da hora pode se revelar algo ridículo.
Escuto e escrevo em um momento no qual uma das armas intelectuais que mais valorizei ao longo da vida parece ter perdido o corte: minha habilidade como sociólogo para fazer sentido de dinâmicas coletivas, para observar as forças de onde pode surgir o novo em meio a uma realidade marcada pela devastação, para extrair uma “visão crítica” do país e do mundo. O sentido parece ter se perdido numa cidade escura, o novo já nasce velho, e a crítica é um cão sem dono, lambendo as patas enquanto espera que alguém o adote novamente.
Passamos anos repetindo e ouvindo frases que começavam com “A esquerda tem que…”, ou “Precisamos falar sobre…”, até que essas fórmulas, como tudo mais, viraram memes.
Desde 2013, elaborar hipóteses, destrinchar os dados e criar teorias para tentar explicar como chegamos até aqui se tornou uma obsessão nacional. Produzimos uma indústria de “análises de conjuntura”, com ensaios e estudos de fôlego sobre a realidade brasileira – uma quantidade notável de livros, teses, artigos e filmes que buscaram as causas de nossa “vertigem”. Não faltaram teorias sobre a ascensão e a crise do lulismo, sobre os sentidos das Jornadas de Junho de 2013, sobre as novas configurações da classe trabalhadora (a nova classe C, os batalhadores, a ralé, o precariado, a uberização), sobre os percalços do presidencialismo de coalizão, as origens históricas do autoritarismo brasileiro e suas manifestações contemporâneas. As livrarias e as revistas científicas estão repletas de trabalhos sobre a persistente desigualdade brasileira, sobre a eficácia ou a insuficiência de políticas públicas, sobre as transformações do Estado e das instituições políticas, sobre a questão racial e sobre a dominação masculina no Brasil.
Termos antes restritos à universidade passaram a ser adotados pelos discursos cotidianos e as manifestações online de uma parcela de recém-formados. Atores de tevê começaram a falar em “racismo estrutural”, jovens influenciadores a fazer posts e vídeos com referências a “pacto da branquitude” e “masculinidade tóxica”. A cada novo escândalo que expõe os erros de algum antigo aliado das causas progressistas, nossas timelines são inundadas dias a fio por debates, posts e reels sobre a adequação de conceitos como “homoafetividade” para entender o pacto entre homens que sustenta a violência de gênero, sobre a pertinência da ideia de “genocídio da população negra”, sobre a precisão do conceito de “fascismo” para falar de Bolsonaro e do bolsonarismo. Ser de esquerda fica cada vez mais parecido com frequentar um colégio em que qualquer erro, seja ele atual ou do passado, é motivo suficiente para uma expulsão irreversível.
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Essa profusão de discursos e performances é fruto de uma complexa relação de fenômenos que marcaram as últimas décadas: a ampliação do ensino superior e o maior acesso a ele das populações de pouca renda e de parcelas da população negra, com as políticas de ação afirmativa; a expansão e institucionalização da pós-graduação (formamos muito mais doutores do que conseguimos empregar); a situação mundial, que levou os progressistas a adotarem um viés intelectualizante a fim de se afastarem do populismo conceitual da extrema direita, que abraça cada vez mais os negacionismos, as ideias religiosas, os preconceitos de todos os tipos e as mais assumidas posturas anti-intelectuais.
Nos meus momentos de maior pessimismo, eu me pergunto se já não temos teorias demais e aprendizados de menos. Chego a pensar que a abundância de hipóteses e discursos entre a esquerda universitária funciona como um mecanismo de defesa diante do trauma de uma história que se repete. Explicamos muito, aprendemos pouco, perdemos tantas batalhas.
Para isso fui treinado: construir narrativas coesas, identificar mecanismos e processos, testar hipóteses, cercar com discursos teóricos e com dados aquela fatia da realidade social diante dos meus olhos naquele momento. Como diz a escritora americana Joan Didion, “vivemos, sobretudo se somos escritores, pela imposição de uma linha narrativa para imagens discrepantes, pelas ‘ideias’ com as quais aprendemos a congelar a fantasmagoria que constitui nossa experiência real”.
Talvez no futuro um historiador das ideias poderá se debruçar sobre essa extensa brasiliana escrita sob o signo de Saturno. Ele será capaz de dissertar sobre a atmosfera dos debates que marcou nossa vida pública nos últimos anos, as diferentes correntes de pensamento, os embates mais marcantes na universidade e no debate público ilustrado. Não pretendo ocupar esse futuro colega com mais um conjunto de artigos que ele deverá ler, fichar e transformar em uma nova peça de sua ampla bibliografia. Busco aqui, pelo menos por ora e contra todos os meus instintos, reconhecer essa fantasmagoria, coletar fragmentos das histórias de vida da minha geração e das minhas memórias. Busco fazer isso com o espírito de um arquivista desorganizado, que oscila entre a vigília e o momento febril que precede o sono, num movimento que permita captar, mesmo que de forma distante e desfocada, parte da paisagem, da experiência, do cotidiano e das memórias de uma geração.
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O cenário de produção e difusão de conhecimento muda radicalmente. A palavra “intelectual” sai de moda. Ela é substituída por outras: especialista, comentarista, influenciador, produtor de conteúdo. Os jornais perdem sua força, depois de um período de sucesso em meados dos anos 1990. O Comércio do Jahu, jornal que circulava há mais de 110 anos em minha cidade natal, fecha as portas em 2019, como tantos outros pequenos periódicos do interior do país. Eu me sinto uma espécie de relíquia de outros tempos por ainda gostar da textura e do cheiro dos jornais impressos. As revistas, tão influentes até o início dos anos 2000 (a estética da anorexia cool das capas da Capricho; os ricos e famosos na Caras bebendo champanhe em alguma ilha; a tensão rotineira: “Qual vai ser a capa da Veja deste final de semana?”), começam a desaparecer conforme a internet passa a se confundir com a nossa vida.
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Muitos dos meus colegas de geração, sobretudo aqueles que se identificam como progressistas, narram a história da democracia brasileira como um desfile que se inicia caoticamente, é seguido por um período de impasse e depois de ascensão, queda e retomada. Nessa narrativa, o caos marcou nossa infância – o período Collor, o impeachment, os planos econômicos sucessivos. O impasse era a marca da adolescência e do começo da juventude nos anos 1990. Detestávamos o neoliberalismo que dominava a política e o debate público. Economistas ligados aos bancos eram consultados diariamente pelos telejornais e se tornaram os principais especialistas em questões de interesse público, pouco importava o tema. Éramos contra a Alca, contra o FMI e o Banco Mundial. Nós nos revoltávamos com nossos pais, avós e professores quando eles defendiam privatizações e o “Estado mínimo”. Na tevê, o Casseta & Planeta chamava o presidente de “Viajando Henrique Cardoso”.
O enredo continua: a escalada do país teria começado no início de nossa vida adulta, entre nossos 18 e 20 tantos anos, quando um presidente operário parecia sinalizar o início de uma ascensão certa e irreversível da democracia, com ações de combate à pobreza, programas de ação afirmativa, uma política externa alinhada ao Sul Global e a outros governos progressistas da região.
No meu primeiro dia como estudante universitário, em fevereiro de 2003, vi a professora de filosofia Marilena Chaui arrancar aplausos de um auditório lotado, ao dizer que aquela era a primeira aula que ela dava em toda sua vida tendo um operário na Presidência do país. Eu estava com os cabelos raspados de calouro, tinha acabado de me mudar para São Paulo, e senti o calor no peito de alguém que acreditava estar observando o recomeço da história – a minha história, mas também a nossa.
No Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, ouvíamos que “um outro mundo é possível”. Na universidade, discutíamos as propostas de ações afirmativas para o ensino superior – e explodíamos de raiva com os jornalistas e acadêmicos que ousavam dizer que nós, os brasileiros, “não somos racistas”. Lula visitava um campo de petróleo e mostrava as mãos espalmadas, sujas com o líquido preto e viscoso. Poucos anos depois, capas de periódicos internacionais de insuspeita ideologia liberal pareciam fornecer a garantia definitiva para essa euforia coletiva: uma revista britânica mostrou na capa o Cristo Redentor decolando como um foguete. Finalmente o Brasil decolava! Enquanto isso, a esquerda universitária mais radical já bradava contra aquilo que via como um tipo de inclusão social pelo consumo: o Bolsa Família, o fomento a universidades privadas, a falta de trabalho de base por parte do governo petista.
Passamos então para o capítulo seguinte dessa saga. Aquele período inicial dos anos 2000, que para muitos de nós parecia tão promissor, foi seguido pela tragédia da crise política e econômica, da ascensão da extrema direita, do desmonte parcial das conquistas anteriores e de uma dolorosa melancolia coletiva agravada pelo choque da Covid. O momento inicial da crise tem uma data diferente, a depender do interlocutor. Para uns, tudo começou com a onda de manifestações de 2013. Para outros, com as eleições de 2014 (quando um candidato derrotado não aceitou o resultado das urnas, e quando sentimos medo de ser agredidos na rua por usarmos qualquer peça de roupa vermelha). Há quem ache ainda que a crise se iniciou em 2016, com o “impeachment” contra a “presidente” Dilma Rousseff – ou o “golpe” contra a “presidenta” Dilma Rousseff, já que as palavras passaram a demarcar, como nunca, quem nós somos e que lugar ocupamos no mundo.
Falava-se em um grande acordo nacional, “com o Supremo, com tudo”.
Tudo naquele vice que orquestrou a queda da presidente eleita parecia velho: o sotaque, o abuso das mesóclises, o latim desnecessário, o terno fora de moda, o gabinete inicialmente formado só por homens, a simpatia irrestrita com a bancada BBB (boi, bala e bíblia). Começamos a ouvir que “a Constituição não cabe no orçamento”, ao mesmo tempo em que o movimento feminista tomava as ruas e que jovens por todo o país ocupavam suas escolas. O MPL já era quase esquecido quando passamos a ouvir falar do MBL, e militantes de direita se aliavam a movimentos religiosos para defender uma “escola sem partido”. E a multiplicação dos ismos: “fascismo”, “comunismo”, “globalismo”, “masculinismo”, “bolsonarismo” – claramente não tínhamos chegado ao fim da história, mas sentíamos que estávamos cada vez mais perto do fim do mundo.
Um juiz obscuro do Paraná e um time de procuradores com tiques de direita religiosa estampavam diariamente os noticiários com elã salvacionista. Palavras, roupas, hashtags, hábitos de consumo, tudo apontava para um mundo rompido, de coxinhas e mortadelas, de camisas vermelhas ou amarelas, de “Vai pra Cuba” ou “Vai pra Miami”, do medo da violência política, dos memes e dos ódios reais e virtuais.
O último capítulo dessa narrativa ainda está fresco na memória: a eleição do apoiador de primeira ordem da ditadura, a devastação como política, a aliança entre um presidente e um vírus, a boiada passando, a tentativa de golpe, a derrota apertada nas eleições para o mesmo presidente daquele período de ascensão da democracia, que agora, depois da prisão, da vitória por menos de dois pontos percentuais, da ocupação golpista dos prédios de Brasília, estava prestes a presidir a reconstrução democrática. A subida da rampa de um grupo diverso de brasileiros (um líder indígena, um menino negro de 10 anos, uma catadora de materiais recicláveis…): essa marcha encerraria, de forma dramática, o arco daquela narrativa de quase quarenta anos de nossa vida coletiva.
Ou assim pensávamos muitos de nós.
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Conhecemos bem essa forma de narrar a história. Esse arco épico que a define – ascensão-queda-retomada – é uma ideia comum entre muitos de nós que frequentamos universidades públicas na primeira década dos anos 2000; que nos beneficiamos da expansão do ensino superior público e privado nos anos seguintes; que depositamos nossos votos (às vezes um “voto crítico”) em candidatos de esquerda; que apoiamos as pautas e movimentos do dia – as demandas do movimento negro, as pautas feministas e LGBTQIAP+, a agenda do novo movimento indígena –, ou ao menos parte delas, com as hashtags certas, os bonés do MST, os “textões” calibrados, os reposts bem selecionados.
Encontro versões semelhantes dessa épica em mesas de bar, podcasts, seminários, textos nas redes sociais. Esse enredo – trágico, mas também um tanto otimista – parece fornecer um enquadramento, ainda que precário, para que pessoas como eu e meus colegas possamos encontrar algum sentido na nossa história recente, uma espécie de narrativa mestra que ajude a organizar uma história complexa de avanços e retrocessos, de vitórias e derrotas, de enfrentamentos e conciliações, de mudança e continuidade, neste país que está entre os mais populosos, desiguais e violentos do mundo.
Mas é preciso ouvir, e quando tento escutar pessoas que estão fora de nossas câmaras de eco, o que ouço é o ruído rouco dessa épica progressista se esgarçando. O óbvio, aos poucos, se desvela: essa forma de contar nossa história recente brota de certa experiência social que está longe de ser universal. Como qualquer narrativa histórica, ela coloca em cena dois conjuntos de problemas: o material de que é feita – nossa história política e social nos últimos quarenta anos – e as relações entre o narrador e seus interlocutores. Narramos para entender, mas também para pertencer.
Para muitas pessoas de nossa geração que não fazem parte dos círculos da esquerda universitária, a história da democracia não obedece a essa estrutura épica, mas se parece mais com uma constante descida ao inferno – uma Divina Comédia com apenas o primeiro livro. Para outros, funciona melhor o enredo das farsas, em que os atores negam com seus gestos exagerados as palavras que saem de suas bocas. Para alguns deles, a democracia é uma peça que está sendo encenada em outro palco, longe do tablado de suas vidas, e apenas de tempos em tempos se ouve o ruído daquela cena distante, quando ela penetra pelas frestas de seus teatros particulares de dois em dois anos, quando são chamados a votar. Muitos já não esperam, mas sentem saudades de algo que não viveram: para eles, como numa versão macabra do mundo invertido de Alice, a democracia foi o que existiu antes de 1985. Para outros tantos, ainda, a democracia é algo que está por vir, que é possível que venha, quem sabe, um dia – e como Estragon e Vladimir na estrada, à noite, eles seguem esperando.
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Compartilho com Claudia minhas dúvidas e angústias atuais sobre os destinos da democracia brasileira. Ela é crítica, inclusive, dos avanços que a esquerda celebra nas últimas duas décadas:
A ascensão de governos de esquerda no Brasil, do meu ponto de vista, foi uma ascensão fictícia, porque foi baseada nos bens de consumo. Na enchente, aqui em Porto Alegre, a gente percebeu isso: como os bens de consumo são aquilo que as famílias têm, aquilo em que elas investem.
Eu sei que teve uma melhora no governo Lula, eu vejo isso, me beneficiei também. Talvez, se não tivesse ocorrido, eu não teria conseguido me formar. Mas toda estrutura econômica estava baseada nas grandes fortunas, no agronegócio, na conciliação. Não teve um processo de formação política, porque se dizimaram os movimentos sociais. Se as pessoas não se mobilizam, se não se colocam como agentes de transformação, se não vivem esse processo, elas não pensam no processo. Elas só votam.
Esse é o tipo de democracia que a gente tem que rechaçar. Porque as pessoas não podem ser só parte da democracia na hora do voto. Elas precisam construir um país, construir uma cidade, construir a sua situação. A gente está vivendo um descenso completo da luta de classes. Não tem grandes lutas políticas dos trabalhadores acontecendo no momento. É um momento de bastante apatia. Em 2013 e 2014 houve mobilizações, de fato, mas o povo não desceu, a favela não veio.
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Pergunto a Claudia sobre o futuro. Ela diz:
Como eu vou estar com 60 anos? Ah, vou continuar formando gente nova, seja na universidade, seja no movimento social. Vou ser uma velhinha chata, incomodativa, que vai seguir botando a faca ali para provocar as pessoas a pensarem e se mobilizarem. Não me vejo perdendo esse espírito. Mas também tenho medo. Medo da tortura. Aqui em Porto Alegre foi eleito um vereador parente do [coronel e torturador da ditadura] Carlos Brilhante Ustra. Ele usou o nome do Ustra pra ser eleito, e funcionou. É a glamourização da tortura. É que a violência da ditadura não acabou; na verdade ainda se emprega a violência adotada na ditadura. A sociedade está cada vez mais violenta, com armas por todo lado e esse processo todo de olho por olho, dente por dente. Nisso, a gente não avançou nem um centímetro. Pelo contrário.