cartas
Jun 2025 14h40
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FUTEBOL-ARTE
Belo texto de Gregorio Duvivier na seção Despedida (Adeus à arte, piauí_224, maio). Só fico em dúvida sobre a validade geral da tese “o brasileiro não gosta de deboche”, sobretudo quando se remete a um episódio de infância. Então, deboche, sarro, casquinha, zoação, gozação, zombaria, caçoada, chacota, debique, troça, galhofa, malhação, mangação etc., não existem (mais?). A pois. Talvez nos dias correntes. Na minha infância, disputávamos quem zoava mais, no intervalo da escola. Talvez inspirados pela cultura popular, no desafio de viola. Que persiste, quiçá mais alegre do que triste. No Nordeste, tem até forma canônica: oito pés a quadrão. Para não falar do rap brasileiro, urbano e contemporâneo, quiçá inspirado não só no do Norte, importado, mas também com um gostinho do nosso desafio de viola. E por falar em futebol, embaixadinha também teve no 4 a 1 para a Argentina; não chegou a 7 a 1, mas a viola já estava no saco. Talvez por isso não teve pancadaria. Ah, em casa de enforcado não se fala de corda? Sei, tá bom.
PAULO OLIVEIRA_CAMPINAS/SP
NOTA 100% MADURA DA REDAÇÃO: Mas, Paulo, você conhece o Gregorio? Aquele que te carcou atrás de um argumento provisório?
Caro Gregorio Duvivier,
Ao contrário de você, eu adoro futebol, e posso dizer humildemente que entendo um pouquinho, e, por isso, vou tentar explicar um pouco do incômodo que as pessoas têm em relação ao que você se referiu. Sou filho de um jornalista da Folha de S.Paulo, que na década de 1960 cobria polícia e, por causa de algumas matérias, acabou preso pela ditadura, e depois da última prisão retornou para casa um pouco “estragadinho”.
Meu pai, do alto da sua coragem, pediu a troca de editoria e, assim, se tornou um repórter esportivo, e esse foi o melhor período da minha vida. Eu o acompanhava a todos os jogos, convivi com grandes jornalistas, cresci dentro da redação da Agência Folha.
Aí é que começa a minha pequena discordância ao seu artigo. Nas décadas de 1960, 70, 80 até meados de 1990, os jogadores “humilhavam” os seus adversários com a qualidade futebolística. Eles “agrediam” os adversários com dribles desconcertantes, mas sempre eram verticais, nunca dribles sem finalidade, sempre em direção ao gol. Entendi seu comentário, e concordo com parte dele, mas os tempos mudaram. Nosso tempo é um pouco mais violento, e o futebol não é diferente. A torcida traz para si o deboche, tanto o êxtase como a dor, e é aí que mora o perigo.
Hoje temos as redes “antissociais” que disseminam essas imagens com a humilhação acoplada. Quando a torcida contrária recebe esse bullying ela não consegue se manter dentro de uma normalidade psiquiátrica, se é que quem é doente por futebol tenha algum equilíbrio.
Mesmo sendo seu fã, vou ficar devendo a minha concordância incondicional com o que você fala, escreve e ensina.
RUBENS RIBEIRO JUNIOR_SÃO PAULO/SP
LEITOR INCOMPREENDIDO
A redação da piauí é perversa! Nunca deram atenção aos apelos de Dirceu Luiz Natal, o leitor que escreve em todos os números da revista, desesperado por um convite para participar do corpo editorial. Dirceu, aposentado do Banco do Brasil, não desiste e continua a deixar fluir seu esquerdismo em cartas e mais cartas à redação.
Dirceu é uma boa pessoa e o conheci quando ele destilava um mau humor hepático a todos que iam ao Banco do Brasil buscar guias de importação. Eu fui uma vítima de seu fígado, mas, com o tempo, vi que ele era uma boa pessoa.
Hoje, mais velho, tanto quanto ele, acredito na única coisa que o homem não corrompeu: o amor pelos outros.
Finalizo com um apelo para que a redação abra espaço para mais um integrante.
JOSÉ EDUARDO BANDEIRA DE MELLO_ITU/SP
NOTA INDIGNADA DA REDAÇÃO: Calúnia! Injúria! Difamação! A redação não só presta total deferência às cartas de Dirceu Luiz Natal como já tratou do exato tema por vossa senhoria levantado. Foi na piauí_210, março de 2024, quando foi necessário explicar a outro leitor, também do estado de São Paulo (Coincidência? Lobby? Conspiração?), que uma inclusão do missivista no corpo editorial criaria um problema quântico, dado que um nome não pode assinar matérias e cartas ao mesmo tempo.
MUNDO EM DESORDEM
Sobre a coluna de Fernando de Barros e Silva (A esquerda acossada, piauí_224, maio), o articulista parece tomar a esquerda brasileira como um Clube de Pollyannas – um grupo de jovens ingênuos que, por circunstâncias da história, acabou acossado por lobos malvados da elite. Tadinhos.
PEDRO LEMOS_FLORIANÓPOLIS/SC
BANCOS
A matéria O salvamento (piauí_224, maio) não traz nenhuma novidade se olharmos o que tem acontecido nos últimos anos.
Na época da inflação alta, tínhamos dezenas de bancos e mesmo assim os juros eram escorchantes. Eles não precisavam emprestar dinheiro – ganhavam com títulos públicos e se protegiam com as BTN , ORTN, BTNF. Os bancos estaduais chegavam a ganhar dinheiro atrasando em alguns dias o salário dos funcionários.
À população só restavam as opções de correr aos supermercados, fazer estoque de alimentos e ter um freezer para aproveitar algum descuido dos açougues.
O Plano Real evidenciou tudo.
Nem o Mandrake teria conseguido fazer um Proer, um fundo para resolver a falência dos bancos; ninguém sabe de onde veio o dinheiro, nem quanto, nem o que foi dado ou para quem. Os bancos foram se fundindo e desaparecendo. O único que foi punido pelas falcatruas foi o Banco Santos, que teve alguns quadros e talheres confiscados.
Os bancos estaduais, que na prática até emitiam moeda, foram acolhidos pelo governo federal; a cena mais emblemática foi a bancada da Bahia, subindo a rampa do Palácio do Planalto liderada por Antônio Carlos Magalhães para vender o banco do estado por 1 real.
Esses rombos já tiveram várias últimas negociações e ainda terão outras.
Dinheiro não aparece ou some, ele se transfere; hoje está no exterior e vem como investimento estrangeiro engordar da nossa Selic.
Se o Brasil não tivesse esses piratas, a China estaria disputando conosco a primeira economia do mundo.
DJALMA ROSA_SÃO SIMÃO/ SP
CIEPS
Sobre a matéria dos Cieps criados no governo de Leonel Brizola (A escola integral, piauí_224, maio), o que me chamou a atenção foi: Por qual motivo eles não tiveram o sucesso esperado? Eles tinham por trás Darcy Ribeiro e outras pessoas competentes, com a visão de um futuro melhor para o sistema educacional do Rio. Minha análise é que Brizola cometeu o mesmo erro que Jair Bolsonaro. Foram brigar com o quarto poder: a imprensa. O ex-presidente não só brigou como também retirou dinheiro da Globo, para agradar parte dos seus seguidores. Na minha visão, ele perdeu por ter entrado em confronto com a imprensa de modo geral. Tudo que sabemos do que está acontecendo em nossa cidade, no país e no mundo é através da mídia. Os dois não foram políticos nesse quesito, já o PT, PSDB, Psol, PSD, entre outros, não morrem de amores pela imprensa, mas a respeitam. Brizola poderia ter sido reeleito, ou, pelo menos, ter colocado seu sucessor no cargo para continuar o projeto dos Cieps. Enfim, os dois ignoraram o quarto poder.
LUIS COUTINHO_VALINHOS/SP
NOTA HISTORIOGRÁFICA DA REDAÇÃO: Não nos consta que Brizola tenha atuado de forma sádica durante uma pandemia que matou mais de 700 mil pessoas no Brasil.
CONTRASTE
A piauí, pelo conteúdo de suas reportagens, continua na vanguarda das demais revistas, fazendo análises profundas das principais questões, como é o caso da edição de maio (piauí_224) a respeito do Banco Master (O salvamento), demonstrando todo o envolvimento de políticos e altos escalões da Justiça. Estes desprezam o decoro em face das elevadas funções que exercem, com um escroque que multiplica sua fortuna por meios heterodoxos, ao propiciar viagens internacionais e jantares suntuosos aos deslumbrados da nossa República. Consuelo Dieguez é craque no assunto e fez um relato precioso.
Chamo a atenção também para a reportagem de José Henrique Bortoluci (Parte I_A promessa e o corre), principalmente o segundo relato, que descreve a luta de uma mulher negra, mãe solo de três filhos, uma empreendedora que batalha por melhores condições de vida e sonha com uma casa simples. Já na reportagem de João Batista Jr. sobre o francês Alexandre Ludovic Allard (O rei Allard XIV), é impressionante o contraste das situações e a demonstração de como o sistema beneficia os poderosos.
DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ
NOTA FOFOQUEIRA DA REDAÇÃO: Caro Dirceu, aguardamos resposta sua, na próxima edição, comentando a carta do compadre José Eduardo, de Itu.
PARTIDO DOS TRABALHADORES?
Li com água nos olhos a seção Vultos da política da piauí_223, abril (A formiga e o formigueiro), protagonizada pelo “vereador federal” Rick Azevedo. A matéria sedimenta a sensação que tenho com o Partido dos Trabalhadores, em especial com o decepcionante atual mandato de Lula. O PT esquece que alguma vez pensou em governar para os trabalhadores.
Contrariando as ingênuas expectativas (minhas e) da população, ignorando as pesquisas de opinião, o governo não fez uma adesão clara e inequívoca ao movimento Vida Além do Trabalho (VAT). Nem sequer se pode dizer que o governo faz um governo popular – ou “dos trabalhadores”.
A primeira edição do Concurso Público Nacional Unificado (CPNU), de 2024, contemplou insuficientes novecentas vagas para o cargo de auditor fiscal do trabalho. Ora, mas novecentas não são muitas?
Uma das maiores mazelas dos trabalhadores brasileiros, além de escalas de trabalho extenuantes, tem sido a convivência com o alto índice de acidentes de trabalho, o que afeta famílias inteiras, além de impactar a produtividade das empresas e pressionar financeiramente o sistema de seguridade social. São pessoas que literalmente morrem trabalhando.
O baixo efetivo de auditores fiscais do trabalho é incapaz de apurar denúncias de trabalho análogo à escravidão. Não só a carreira está na ponta do combate ao trabalho escravo, como possui atuação prevencionista. Apesar disso, apenas 1 842 auditores estão em exercício. Esse é o menor número de efetivo em 35 anos, e os parâmetros estabelecidos pela OIT apontam a necessidade de 5 441 auditores.
A fiscalização do trabalho não acompanhou o crescimento da população economicamente ativa. O índice de informalidade é estrondoso e prejudica a arrecadação de receitas da previdência e do FGTS, fenômeno que pode ser explicado pela queda na fiscalização das últimas décadas.
Embora o Brasil assuma compromissos internacionais em relação ao combate da exploração trabalhista e existam bem-
sucedidas experiências com semanas de trabalho mais enxutas como as apontadas na matéria, é necessário dizer que nosso President’Lula segue fazendo um trabalho mixuruca pelos trabalhadores.
P.S.: Pesquisei pela palavra-chave “trabalho escravo” no site da piauí e fiquei surpresa ao ver que os poucos resultados datavam de 2021 e 2023. Portanto, registro aqui meu apelo para que a revista se debruce sobre o tema.
ALINE KERBER NUNES_PASSO FUNDO/RS
NOTA ARQUIVISTA DA REDAÇÃO: Ahá! Pesquisa incompleta! Em agosto do ano passado, na piauí_215, para ficarmos num dos melhores exemplos, a repórter Angélica Santa Cruz publicou a história de Sonia Maria de Jesus, a Soninha, que foi resgatada por uma equipe de combate ao trabalho escravo da casa em que viveu por décadas. Recomendamos vivamente a leitura: Sorriso, uma biografia.
SOBRE O BANCO MASTER
Em relação à reportagem O salvamento (piauí_224, maio), na qual se afirma que, em suas aquisições na área de mídia, o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, “mirou no Portal Leo Dias”, a redação recebeu a seguinte carta:
“Registre-se que a leo dias é uma pessoa jurídica regularmente constituída e independente, regida pelas leis brasileiras, com quadro societário próprio, e não possui qualquer vínculo de qualquer natureza com o sr. Daniel Vorcaro, principal mencionado na matéria. O conteúdo mencionado na reportagem induz o mercado a uma falsa percepção que pode comprometer a lisura da informação a respeito da composição societária e institucional da empresa, causando confusão assim à sua imagem.”
THIAGO MIRANDA SILVA, Diretor executivo da Leo Dias Comunicação e Jornalismo Ltda
ERRATA 1
A versão original da reportagem Uma vida extraordinária (piauí_224, maio), sobre a cantora Flora Purim, identificava erroneamente o saxofonista Stan Getz como guitarrista.
ERRATA 2
A Esquina Breque geral (piauí_224, maio), informava que a manifestação dos entregadores até a sede do iFood, em Osasco, havia acontecido no dia 1º de abril, mas na verdade ela ocorreu na véspera, 31 de março. No mesmo texto, constava que o escore de desempenho do iFood contempla 28 horas semanais de trabalho dos entregadores, mas o correto é 28 horas mensais.
Por questões de clareza e espaço, a piauí se reserva o direito de editar as cartas selecionadas para publicação. Solicitamos que as cartas informem o nome e o endereço completo do remetente.
Cartas para a redação: redacaopiaui@revistapiaui.com.br