poesia
Ghayath Almadhoun Jun 2025 14h11
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DAMASCO SE AFASTAVA
Escrevi esse poema para uma mulher que eu amei, e nos separamos, agora ela tem outro homem, e eu tenho esse poema.
Quando deixei Damasco, eu estava firme no meu lugar, e Damasco se afastava, isso é exatamente o que Einstein tentou dizer na teoria da relatividade, e o que Whitman tentou dizer no Folhas de relva, e o que eu tentei sussurrar no teu ouvido enquanto você tentava me amar.
Damasco se afastava, e meu coração estava cuidadosamente embrulhado na mala de viagem, meu coração, que você conhece muito bem, uivava como um lobo no deserto da Jordânia, enquanto eu perseguia o rastro de uma fome antiga, porque eu não me saciara do amor desde que Damasco me deixou, mas a paciência é uma virtude, e Deus me ajudará.
Meu coração, que você conhece muito bem, alimentei com a rouquidão da tua voz, para aquietá-lo, e soprei nele uma nuvem de haxixe kif, para acalmá-lo, enquanto o beduíno que vestia a minha pele vagava com os árabes do Norte. Como posso me estabelecer e viver na tua casa, se Deus assegurou que eu erro por todos os vales?[1] Como posso, se os poemas mawwāl[2] me roubam do colo da minha mãe, e a tua cintura clara como a morte me captura do meio dos meus amigos, e eu te sigo como o amigo de Imru’ Alqays[3] o seguia, de país a país, de pessoa a pessoa? E eu fujo de você como “a pessoa foge de seu irmão, e de sua mãe e de seu pai, e de sua companheira e de seus filhos”.[4]
Damasco se afastava, e eu estava firme no meu lugar, minha bolsa fugiu correndo na minha frente, e o meu coração, repleto da retórica árabe, estava ocupado com a vida nômade, meu coração, que você conhece muito bem, cada vez que o retiro da sua caverna à noite para ver a Lua, uiva o teu nome, mas eu sou mais duro que pedra, e o meu coração, que você conhece muito bem, não se compadece.
ODE À TRISTEZA[5]
Nós te amamos, Europa, seu velho continente, não sei por que te chamam de velho, quando você é jovem comparado ao Egito e à Mesopotâmia.
Nós te amamos, Europa, e pagamos impostos como os homens brancos, e toleramos o teu humor variável que se assemelha ao teu clima e à grave deficiência de vitamina D devido à escuridão dos teus invernos, nós te amamos, e nos entristece o fato de que não vamos nos acostumar com essa escuridão total dos teus longos invernos, aqui estão nossos amigos europeus, quero dizer, teus povos originários, nascidos no teu Norte frio de pais arianos e que, assim como nós, também sofrem de depressão e deficiência de vitamina D, de acordo com a teoria da evolução, eles também são Homo sapiens vindos da África, mas os teus povos originários, quero dizer, os neandertais, que evoluíram durante a Idade do Gelo para resistir ao teu frio, esses estão extintos.
Nós te amamos, Europa, e não negamos que viemos até você de países atrasados do Terceiro Mundo, como você diz, eu especificamente vim de Damasco e suportei muitos clichês e estereótipos e impressões preconcebidas dos teus escritores e poetas, e embora me considere um feminista, fiquei entediado, cansado e enojado com as repetidas perguntas superficiais em relação ao status das mulheres no Oriente Médio, e aqui eu admito e reconheço que as mulheres na Síria não gozavam do direito de voto até 1949. Quanto à Suíça, a capital do teu dinheiro e do dinheiro das nossas ditaduras e suas contas bancárias secretas, não era permitido às mulheres o direito de votar nas eleições até o ano de 1971, e claro que apenas em alguns dos cantões da Suíça, o semicantão de Appenzell Innerrhoden não permitia que as mulheres votassem nas eleições até 1991, por Deus!
Nós te amamos, Europa, e amamos a liberdade que você nos deu quando viemos até você em fuga, e fechamos os olhos para o racismo que você tenta esconder debaixo do tapete quando varre a sala de recepção.
Nós te amamos, Europa, dona do passado colonial, assassina dos povos originários, sugadora do sangue dos povos da Índia ao Congo, do Brasil à Nova Zelândia.
Ó dona dos tribunais da Inquisição e queimadora de mulheres sob o argumento de que são bruxas, ó senhora do tráfico de escravos que transportou negros para o Novo Mundo, criadora da discriminação racial na África do Sul, ó fundadora do fascismo e do nazismo e inventora da solução final para exterminar os judeus, a solução final que me fez nascer refugiado no campo de refugiados palestinos de Yarmouk, em Damasco, porque você, insolentemente, deu em pagamento o meu país, a Palestina, como imposto e compensação e uma solução para o Holocausto levado a cabo pela tua população branca que acreditava na pureza da raça ariana.
Nós te amamos, Europa, e carregamos teus passaportes que nos abrem portas tão facilmente quanto tuas balas rasgaram a carne de milhões de argelinos que queriam desfrutar da liberdade exigida por tua Revolução Francesa.
Nós te amamos, Europa, amamos a tua arte e odiamos a tua história colonial, amamos o teu teatro e odiamos os teus campos de concentração, amamos a tua música e odiamos os sons das tuas bombas, amamos a tua filosofia e odiamos Martin Heidegger, amamos a tua literatura e odiamos o orientalismo, amamos a tua poesia e odiamos Ezra Pound, amamos a liberdade de expressão dentro das tuas fronteiras e odiamos a islamofobia, amamos o teu desenvolvimento civilizacional e o teu secularismo e as tuas leis justas e os direitos humanos no teu próprio território, e odiamos o teu racismo, os teus padrões duplos, o teu olhar arrogante e a tua história sangrenta.
Fique com o nazismo e nos dê Immanuel Kant
Fique com os Camisas Negras e nos dê o vinho da Itália
Fique com o genocídio na Argélia e nos dê Baudelaire
Fique com Leopoldo II e nos dê René Magritte
Fique com Adolf Hitler e nos dê Hannah Arendt
Fique com Franco e nos dê Cervantes
Fique com as tuas coisas e nos deixe pegar as nossas.
AKKA
O que há de mais lindo em Haifa é que de lá se avista a cidade de Akka.
Aquele que molhou os teus lábios com o vinho
não proibiu o vinho, foi você o proibido
Aquele que formou com beleza o teu brilho
algo entre o humano e um anjo esculpia
E assim que uma frase é em teus lábios proferida
fico preocupado em não entender o teu sentido
Eu, sem teu amor, sem você, sou parecido
com Akka sem o mar e sem os seus peixinhos.
PEDRAS
Durante a Intifada, pegávamos pequenos pedaços da Palestina e jogávamos nos soldados israelenses, e eles fugiam, e eu me perguntava quando criança por que eles fugiam quando jogávamos neles pedaços da Terra Prometida!
VOCÊ ACREDITA EM DAMASCO À PRIMEIRA VISTA?
Quando estávamos na Síria, sonhávamos em retornar à Palestina. Agora, sonhamos em retornar à Síria, para podermos continuar o sonho de retornar à Palestina.
Você acredita na casa que foi encontrada assassinada e nos prédios que caíram sob as bombas e no país que foi roubado? Você acredita nos projéteis de morteiros que chovem nos sonhos e no campo de refugiados que vêm na forma de um déjà-vu e na Nakba que dorme ao nosso lado na cama? Você acredita no cheiro do café que se mistura com o gás sarin e nas sacadas que se asfixiam e nas cidades que dormem em unidades de tratamento intensivo? Você acredita na banalidade do mal e na nostalgia que olha da janela e nas casas que migraram e nos deixaram para trás? Você acredita no início do amor e no fim da vida que passa e no suicídio das memórias? Você acredita na saudade das distâncias que há entre nós pela cama e nos nossos filhos que não nasceram e nas noites que dormem no meio do dia? Você acredita na poesia sem que as palavras caiam no poço e na alegria sem que a culpa nos coma? E na Palestina?
Você acredita em vida após Damasco?
RECICLANDO A MORTE
A única razão pela qual eu não odeio o meu país é porque eu não tenho um país.
Um soldado que voltou da linha de frente com uma memória mutilada diz: “Saia da frente, você não é um semáforo para ficar parado num cruzamento de duas ruas”, então reparo num buraco preto na camisa dele, e me lembro da alegria usada que herdei da minha mãe, e dos meus amigos que morreram de overdose de esperança.
Um jovem que viveu sob ameaça, e que morreu sob tortura, diz: “Quando tua idade for maior que o número do teu sapato, não te importará em qual terra você morre, e sim em qual terra você vive”, então reparo nos seus dedos decepados, e me lembro da morte que reciclamos na memória de família, e dos cadáveres que transformaram meus livros em cemitérios.
Meu pai diz: “Sou mais velho que Israel, e, quanto à Palestina, ela se perdeu na tradução”, então reparo na Síria em que ele vive, e na Palestina que vive nele, e tento ver o copo meio cheio de sangue, a única razão pela qual a Palestina ainda está no Oriente Médio é porque não é possível carregá-la para os museus da Europa.
Abū Tammām[6] diz: “Emigre e seja renovado”, então reparo nos doze séculos entre nós, e me lembro da eternidade, os poetas viajam pelo espaço, a poesia viaja pelo tempo.
Ali Ibn Abi Talib[7] diz: “As pessoas estão dormindo, e quando morrem elas acordam”, então reparo no tempo, e me lembro das eras, e de como passamos os dias temendo que os dias passem.
Deus diz: “A terra de Deus não era bastante ampla, para nela emigrardes”, então reparo nos arames farpados que saem dos meus poemas, e me lembro do meu país que eu escondi na mala de viagem, quando obtive a cidadania sueca, tornei-me palestino, e foi possível que eu viajasse à Palestina.
O poeta que eu era em Damasco diz: “A destruição te entristeceu ou a tristeza te destruiu?”, então reparo na minha cidade que foi comida pelo lobo, e me lembro da proporção inversa, quanto maior a matança, menor o número de testemunhas.
[1] Referência à Sura dos poetas (Ach chu’arā), ayat 224-226: “E, aos poetas, seguem-nos os desviados. Não viste que eles vagueiam por todos os vales, e que dizem o que não fazem?”, segundo Tradução do sentido do Nobre Alcorão para a língua portuguesa. Trad. Helmi Nasr. Complexo de impressão do Rei Fahd: Medina, 2005. (N. T.)
[2] Gênero musical que consiste em uma improvisação vocal a partir de um poema. (N. R.)
[3] Poeta árabe (501-544), nascido em Négede, hoje parte da Arábia Saudita. (N. R.)
[4] Trecho da Sura de quem carranqueou (‘Abassa), ayat 34-36, segundo Tradução do sentido do Nobre Alcorão para a língua portuguesa. (N. T.)
[5] Escrevi o poema Ode à tristeza no final de 2017, quando o Festival Internacional de Literatura Winternachten (Noites de Inverno), em Haia, na Holanda, pediu-me para reescrever o hino da União Europeia, conhecido como Ode à alegria, o encontro entre o poema de Schiller e a música de Beethoven.
[6] Poeta árabe (804-c. 845), nascido em Jasim, na Síria. (N. R.)
[7] Líder político e espiritual árabe (c. 600-661), primo do profeta Maomé e, para os xiitas, o primeiro dos imãs. (N. R.)
Os poemas integram o livro Você deu em pagamento o meu país, que a editora Ars et Vita lança este mês. A tradução é de Alexandre Chareti.