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GERAÇÃO DEMOCRACIA: PARTE III_A GUERRA E A FÉ

Do mundo do crime ao reino de Jesus, a trajetória de um missionário evangélico

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A DOSE MAIS FORTE

No canal do missionário Nilton Pereira no YouTube, um vídeo de 10 de agosto de 2020 mostra o pregador evangélico com a Bíblia na mão. Ele veste uma camiseta com a frase “JESUS TRANSFORMA” e está ao lado de um jovem encapuzado. O rapaz, negro e magro, usa uma corrente dourada com um pingente no formato de uma pistola. Na mão direita segura uma arma, que ele descansa sobre a perna. O missionário diz:

Paz do Nosso Senhor Jesus, meus amados e minhas amadas. Missionário Nilton aqui pregando, mas quem nos conduz é o Espírito Santo de Deus. Estou aqui em uma comunidade, no Rio de Janeiro, no tráfico de drogas, onde muitas igrejas têm medo de chegar até a alma desse rapaz, que se encontra agora armado. Ele é do tráfico. Ou seja, meus amados, o que acontece? Muitos estão perdendo tempo dentro das igrejas, estão perdendo tempo esquentando banco, porque a mesma alma desse rapaz aqui é a alma do seu pastor. A mesma alma desse rapaz aqui é a minha alma arrependida para o Senhor. Então estou deixando esse vídeo aqui pra poder te incentivar […] Vem pro tráfico, vem pra comunidade, vai pros hospitais. […] Você pode dizer: ‘Ah, missionário, mas você já foi do tráfico, pra você é mole […]’ Mas nada te impede de vir aqui também, nem a arma, nem o tráfico. A ordem que Jesus deu pra todo crente foi essa: Ir por toda criatura e pregar o evangelho[…] A palavra de Deus é muito bem-vinda aqui. Pode vir pregar. Amém, meus amados! Jesus, a dose mais forte.

Nilton é um homem magro, ágil, de voz grave. Tem 45 anos, mas aparenta ser mais novo. Na comunidade onde vive, em Niterói, as pessoas acenam para ele na rua, dão bom dia ao missionário, pedem suas orações. Ele conta aos vizinhos que está ali com um escritor e com um fotógrafo que vão ajudá-lo a contar ao mundo a história de como ele encontrou Deus. Nilton entende nossas conversas – e este texto – como parte de sua missão de evangelizar.

Desde nosso primeiro encontro online, me acostumei rapidamente com seu tom exaltado e seu desejo de contar suas histórias em detalhes. Ao falar de um assalto, ele comenta a cor e o peso da arma que usava; quando descreve uma das celas em que ficou preso, os cheiros e detalhes arquitetônicos ganham vida. Quando conta dos tiros que levou, ele levanta a camisa ou tira o tênis para me mostrar as marcas. Às vezes, chora, quando descreve momentos em que esteve próximo da morte. Mas, rapidamente, sua voz ganha vida novamente – e Nilton olha para o céu e prega a palavra. Ele não conta histórias: ele faz de suas narrativas um teatro falado, o que me faz pensar se desenvolveu essa habilidade no púlpito em que hoje evangeliza, ou se passou a pregar pela facilidade que tem em narrar. Nas palavras do missionário, cada detalhe trivial da vida ganha ares de parábola.

Além de nossas longas conversas online e um encontro em que me levou para conhecer sua casa, na comunidade Atalaia, Nilton gostava de me mandar áudios – alguns com mais de 50 minutos, como quando me contou do medo que sentia de que seu filho voltasse a usar drogas. Nesses longos relatos pelo WhatsApp, a narrativa muitas vezes era interrompida por breves conversas de Nilton com conhecidos que ele encontrava no entorno de sua casa na comunidade pobre em que vive, conhecidos com quem esbarrava no bairro de classe média de Niterói onde trabalha como faxineiro, ou mesmo no ônibus – encontros em que, sem exceção, Nilton pregava algum trecho bíblico ou convidava seus conhecidos a irem a um culto ou uma pregação no sábado seguinte. Ele fala com paixão das duas netas, de sua esposa (ainda jovem, ele se apaixonou pelos olhos dela, e seguem casados há duas décadas), de seu filho e de seu cachorro Zeus – um enorme pastor alemão que vive com ele e a mulher em uma casa pequena.

Antes da visita à sua comunidade, ele me garantiu que não haveria nenhum problema, porque já pedira autorização ao chefe do morro, que permitiu nossa entrada. “Aqui todo mundo me conhece, me dou bem com a rapaziada do tráfico. Como missionário eu falo com todo mundo, não só com quem já está no caminho de Cristo.”

Nilton é um homem de corpo marcado: cicatrizes de tiros nas mãos e no abdômen, marcas dos “tempos de guerra” – como ele chama o longo período em que atuou no tráfico de drogas. Outras marcas vêm da época em que ficou preso em diferentes penitenciárias no estado do Rio de Janeiro, onde seu corpo foi esfolado entre homens e ratos. O corpo de Nilton conta histórias de seus encontros com o crime, com as armas, com o piso duro das celas, com a cocaína em que foi viciado. Mas o missionário é principalmente um homem das palavras – as dele, com que conta sua história de descidas ao inferno e de encontro com Deus; as palavras das Escrituras; as palavras que preenchem suas mídias sociais para falar do caminho do Evangelho e para comentar assuntos políticos do momento.

As palavras de Nilton me intrigam, às vezes me espantam ou fascinam, sobretudo por se afastarem tanto das minhas – e por isso decido ouvi-las quase sem interrupção, exercitando um pouco mais do meu silêncio.

TRÊS HOMENS

Nasci em 1980, em Niterói, aqui no estado do Rio de Janeiro. A gente cresceu em barracos que meu pai construía onde dava, porque a gente tinha sempre que mudar, porque ou era expulso pelo tráfico ou pelo governo. Meu pai é sergipano, minha mãe é paraibana de Serra Redonda, e os dois vieram pro Rio de Janeiro pra tentar uma vida melhor. Meu pai passou fome no sertão e quando era criança foi entregue a uma família como trabalhador forçado. Quase um escravo, né? Capinava na fazenda dessa família em troca de comida. E depois, mais velho, ele virou viajante. Parava de lugar em lugar, conhecia uma mulher aqui, outra ali, engravidava elas.

Ele já tinha sete filhos quando conheceu minha mãe em Campina Grande. Os dois tiveram quatro filhos homens, mas um faleceu novo. Os outros três, incluindo eu, acabamos entrando pro crime. Meu pai vendia mate e limonada na Praia de Icaraí com uma carroça de ferro: o velho se vestia de Charles Chaplin pra atrair a atenção dos fregueses nas ruas de Niterói, e saía assim no Carnaval também. Na rua ele era conhecido como “Baiano Piripiri”. A marca registrada do meu pai era o grito: “A limonada do Baiano é uma joia!” Não sei se você vai acreditar, mas ele trabalhava na mesma época que o Silvio Santos era camelô, quando o Silvio vendia caneta perto das barcas. Eles se conheciam da rua.

Quando eu tinha uns 10 anos, comecei a ajudar ele no trabalho, junto com meus irmãos. A guarda municipal sempre confiscava as mercadorias do meu pai, muitas vezes a gente voltava pra casa sem nada. Ele nunca foi do crime, era trabalhador, mas gostava de andar armado. Às vezes disparava tiros no quintal de casa, ele que me ensinou a me defender em meio de tiroteio.

Meu irmão mais velho morreu de câncer quando tinha 19 anos. Antes de se converter, novo ainda, ele se juntou com o falecido Paulo Vito, vulgo PV, e os dois faziam roubo de bicicleta, o PV dirigindo a bicicleta e meu irmão na garupa. E num desses assaltos, aconteceu de uma vítima ter reagido na mão deles. Teve um tiro nessa vítima, e eu não sei se ela faleceu ou não, mas meu irmão ficou perturbado com aquela cena, e foi por isso que ele procurou o caminho de Cristo. Com 16 anos, ele ia ouvir evangelistas na rua e começou a frequentar a Universal. Se batizou, virou obreiro. E aí o câncer, logo depois.

Mesmo doente, meu irmão continuou pregando e subia as comunidades pra evangelizar. Ele ia até o Morro do Estado, que era território inimigo, também em Niterói, pra falar de Cristo. Eu dizia pra não ir, mas ele ia, subia a comunidade pra evangelizar, esse era meu irmão. E ele glorificou o nome de Jesus Cristo pros traficantes que eram de uma facção rival. Ele foi um exemplo pra mim. O câncer enraizou de uma vez. Foi rápida a morte dele. Morreu novo meu irmão.

E hoje o meu filho… Se quiser, posso contar a história dele. Ele também foi baleado, igual eu, ficou preso por dois anos, condenado por tráfico numa comunidade aqui de Niterói. Consegui pagar um advogado que tirou ele. E a droga… Meu maior medo é ver meu filho recaindo no crack. Já vi ele pele e osso, se rastejando dentro de casa, alucinado, vendendo tudo o que tinha. Graças a Deus, hoje ele trabalha de carteira assinada e está há cinco anos longe dessa maldição. Meu maior medo é que ele volte pra essa ruína. Eu sei como é tudo isso.

O grande arrependimento da minha vida foi ter abandonado os estudos e entrado pro crime. Eu sonhava em ser militar, seguir carreira no Exército, na Polícia Federal ou na Civil. Queria ser autoridade, queria lutar por alguma coisa maior e ao mesmo tempo defender as pessoas, a minha família…

O CHEIRO

Com 10 anos, a gente morava na comunidade da Esso, em São Gonçalo, e eu estava brincando com meu cachorro – sempre amei cachorro, sempre tive –, e do nada presenciei um incêndio na barraca de doces da dona Ana, que era perto da nossa casa. Na inocência, alertei todo mundo na favela. Nisso, acudimos, conseguimos jogar baldes e baldes de água, salvamos a vida daquela senhora. O cheiro de fumaça ficou grudado na pele, não saía.

No dia seguinte, fui saber que quem botou fogo no barraco foi o traficante, porque aquela senhora era dada como X9, como informante. O chefe da favela não gostou de eu ter alertado sobre o incêndio. O tráfico começou a ameaçar e vigiar a nossa família, e um dia um dos soldados do traficante viu meu irmão brincando com uma arminha de plástico, e foi dizer pro chefe que “os nortistas” estavam armados – chamavam a gente assim, de nortistas.

Aí os homens cercaram a nossa casa: “Arruma as coisas que amanhã vocês vão embora daqui, se não forem, vão morrer, não importa se tem criança ou não.” A gente largou tudo pra trás no mesmo dia, foi pra outra favela.

Da minha infância, também não esqueço o primeiro homicídio que vi, quando eu tinha 12 anos. Eu, um irmão e dois amigos subimos numa árvore pra pegar jambo, numa área mais afastada da favela. Quando a gente estava em cima da árvore, chegaram uns homens mais velhos, que eram criminosos da área. Começaram a fumar cigarro de maconha, debaixo da gente. Ficamos quietos lá em cima – a gente tinha medo deles, e o cheiro de maconha subindo pela árvore.

Um daqueles homens fingiu que foi mijar no mato, andou uns passos, pegou um pedaço de pau e começou a bater na cabeça de outro rapaz que estava ali. Lembro que ele estava de uniforme de trabalho, esse que apanhou. Era trabalhador, mas estava junto com criminosos. Tomou uma pancada na nuca – o pedaço de pau já estava preparado pra matar, com um prego saindo dele, e esse prego entrou na cabeça do rapaz.

Como é que pode uma criança ver uma cena dessa? O rapaz se batia, se batia, com a cabeça arrebentada… Até que um outro rapaz tirou uma arma e deu – pá! O cheiro da pólvora, junto com o sangue… Estou sentindo como se fosse hoje. Não sei se você já sentiu, mas o cheiro de sangue é diferente de qualquer outro cheiro. O cheiro de sangue, ele fica.

Aí, eles arrastaram o corpo e esconderam no mato. E as crianças caladas em cima da árvore, de medo de que vissem a gente. Durante dias, a gente não conseguia comer, acordava chorando. Nossa mãe perguntava o que tinha acontecido, mas a gente não tinha coragem de contar. Depois, a gente soube que esses dois rapazes que assassinaram o outro também morreram, não foi muito depois disso.

Outra memória forte da infância é de quando eu tinha 9 anos e morava no Gradim, em São Gonçalo – naquela época era favela, hoje já é bairro urbanizado. Teve um dia que dois meninos com quem eu sempre brincava na praia morreram afogados. Era uma área de pescadores, a gente pulava das pedras e nadava ali. Eles fizeram isso que a gente fazia, pularam da pedra, mas sumiram no mar. Devem ter batido a cabeça numa das pedras, não sei. Só à noite os pescadores encontraram os corpos dos meninos presos na rede e levaram até a praia.

Já era madrugada quando circulou a notícia na comunidade. Meu pai acordou eu e um irmão e levou a gente até lá. Quando os bombeiros colocaram os corpos dos meninos nas macas, meu pai agarrou eu e meu irmão pelos cabelos e esfregou o nosso rosto no cadáver dos nossos amigos. Eles já estavam gelados, inchados, com cheiro de morte. Meu pai berrava com a gente: “Olha aí, vocês que vivem pulando dessas pedras. Eu saio pra trabalhar, tenho ferida nas costas de carregar peso, e vocês ficam aprontando aqui. Vejam seus amigos agora. Vocês querem terminar do mesmo jeito?” A sensação do corpo gelado dos meus amigos esfregando no meu nariz, na minha cara, meu pai empurrando meu rosto naqueles defuntos, e o cheiro, o cheiro…

OS NOMES

Eu acho que foram as amizades erradas que puxaram a gente pro crime e pras drogas. Andando por Niterói, eu e meu irmão conhecemos uns meninos de rua, os trombadinhas. Meu pai sempre alertava: “Droga mata; se usar, morre.” Mas a curiosidade falava mais alto. Depois da benzina, veio a cola, que a gente botava num saco de leite, soprava e respirava o vapor. Essa dava tontura e fazia a gente se sentir adulto. E aí a cocaína, que foi o Russo que me apresentou, um rapaz mais velho.

Ele era amigo do Andrezinho, que vendia lanches na Praça São Domingos, perto da Comunidade 94, onde a gente morava. Na hora que cheirei pela primeira vez, senti o nariz queimar e aquela euforia da droga, que me deixava poderoso, me tirava a timidez até pra falar com as meninas – não parece, mas eu sempre fui tímido. No primeiro dia que cheirei, consegui até paquerar uma menina no ônibus. Fui crescendo. E a partir daí, foi um pulo pro tráfico.

Comecei a ganhar dinheiro de aviãozinho, levando droga pros usuários no entorno daquela praça. Eu era magrinho, rápido, corria de um lado pro outro e me apelidaram de Zazá de Niterói, por causa da novela Zazá, da Globo, que tinha um aviãozinho na abertura. Depois tive outro vulgo também. Isso foi no Jacarezinho, me chamavam de Magrinho ou de mg, porque eu pesava só 47 quilos e carregava um fuzil que era metade do meu peso. Eu cheirava muito, só cheirando mesmo pra suportar a guerra. Virei um viciado. Mas hoje não tem nada de Zazá, nada de mg: eles morreram, é Nilton mesmo, missionário Nilton. Em vez do fuzil, eu carrego a palavra de Deus.

SUA VIDA DEPENDE DISSO

Depois de aviãozinho, a coisa só aumentou. No morro, tinha um cara chamado Seu Durval, mal-encarado, encrenqueiro. Um dia, ele inventou de brigar com meu pai por conta de bobagem. Partiu pra cima do meu pai, e meu irmão, que estava perto, tentou intervir e levou um corte feio no braço. Quando eu cheguei correndo e vi meu pai no chão, tomando socos do Seu Durval, peguei um tijolo e acertei a cara dele com tudo. Eu não tinha outra opção.

Mas o filho de Seu Durval era do crime; ele começou a espalhar na comunidade que a gente tinha feito covardia com o pai dele e começou a me procurar armado. Meu pai viu o perigo ali, me mandou pra casa da minha tia em São Gonçalo, disse que eu não podia voltar, que eu ia morrer se voltasse.

Fiquei escondido um tempo na casa da minha tia, mas eu sabia que não dava pra fugir pra sempre. Por isso eu fui procurar o chefão do morro. Eu precisava garantir minha vida, era questão de vida ou morte. O chefe da área na época era o Edu Caveira. Subi até a parte alta do morro onde o Edu ficava, pedi pra falar com ele e expliquei a situação; aí um viciado que estava na fila pra comprar droga confirmou minha história.

O Edu fez umas ligações, confirmou que eu tinha sido expulso e falou: “Pode voltar pra casa, ninguém vai tocar em você. Está sob minha proteção.” Mesmo assim, eu estava com medo, precisava me proteger. Aí um dos homens que trabalhava pro Edu me passou um revólver e uma sacola de munição e perguntou: “Quer morrer ou quer viver?” Respondi que queria viver. Eu nunca tinha botado a mão em arma. Ele me passou um 38 de cabo de madrepérola e me disse: “Agora sua vida depende disso.”

Muita gente acha que, com arma na mão, você vira super-homem, mas a verdade é que a arma pesa em você. Esse mesmo segurança do Edu me levou num espaço aberto do morro e me ensinou a carregar e a mirar. “O ideal é mirar do estômago pra cima, porque a arma sobe, aí a bala acerta no peito.” Disparei várias vezes até acabar a munição. Quando terminei, ele disse: “Agora você está pronto. Se te atacarem, revida, e se ver viatura anda de cabeça erguida. Quem abaixa, já entrega que está com coisa errada.”

Os vizinhos começaram a cantar a bola pro meu pai: “O seu menino tá forte aqui na comunidade, hein?” Mas meu pai só acreditou que eu tinha entrado pro crime no dia que teve uma troca de tiros intensa com uma facção rival, que era do Morro do Estado. Essa facção pertencia ao TCP, o Terceiro Comando Puro, e eu sempre fui do Comando Vermelho. O TCP tentou invadir nossa área, achando que a gente não tinha arma na Comunidade 94. Quando começaram a subir, descarreguei o tambor pra cima deles. Eles não subiram, voltaram. Quando o Edu soube disso me chamou pra conversar e me promoveu na comunidade. Ele deu droga pra eu mesmo vender, maconha e cocaína, e deu uma arma pro meu irmão, e foi assim que nós dois ficamos responsáveis pelo morro até 2007.

O CORPO

Sempre gostei mesmo era de ir pra guerra. Guerra mesmo, bastante munição, armamento pesado, às vezes ficar dias sem dormir quando você vai tomar uma comunidade de outra facção. E aí, quando o sono começa a bater, você usa mais e mais cocaína.

Tenho as marcas da guerra no corpo, você pode ver. Quando eu tinha 16 anos, tomei um tiro nas costas no Jacarezinho. Eu estava perto de um beco, logo abaixo de uma guarita policial, quando os policiais começaram a atirar. A boca de fumo ficava ali perto, e um disparo me acertou. Olha as duas marcas aqui, está vendo? Onde entrou e onde saiu o tiro. Assim que bateu, parecia uma pedrada, mas logo senti a dor forte queimar e vi o sangue na barriga. Entrou no músculo e saiu. E eu, pulando, pulando, correndo por cima de telhado. Eu sabia que, se a pessoa for baleada e sentir o gosto de sangue na garganta, tem que correr, porque o tiro pegou em um lugar fatal. E não deve beber água também, porque pode morrer.

Saí na correria, pulando muro, o sangue pingando no caminho. Nessa fuga, bati com a costela numa quina de muro, fiquei com uma fratura na minha costela. Está vendo a marca aqui? A costela ficou pontuda, machucando pra fora. Eu pulei dentro da casa de um morador que trabalhava em farmácia. Pedi ajuda, ele me socorreu e me deu uma injeção de antibiótico. Disse que, se a pele escurecesse, eu tinha que ir ao hospital. Fiquei uns dias de cama e voltei pra atividade.

Também já fui baleado no pé, acho que vou sentir dor pra sempre. Tenho um pino no calcanhar de me machucar durante tiroteio. E está vendo esta marca aqui na mão? Isso foi logo que entrei pro tráfico, foi de moleque ainda, estava aprendendo as coisas. Tomei um tiro na mão dos outros traficantes porque tinha roubado uma bicicleta na comunidade. A justiça no crime é assim.

A LÍNGUA

Vou te ensinar umas palavras pra você entender as histórias que eu conto. Por exemplo, o “matuto” é o cara que tem a droga e o armamento, é dele que vem todo o material que precisa pra levantar uma boca. Ele não é o dono de uma boca de fumo, ele tem tudo o que os donos precisam pra levantar a boca. E levantar é o quê? É montar a boca, pôr pra operar, ficar forte em armamento, em droga, tudo, e aí começar a vender e pagar a dívida pro matuto.

“Canela preta” é como as entidades espirituais chamam a polícia. “Ó, aquele ali é canela preta.” Você já vai entender por que estou te explicando isso.

E aí tem as palavras da cadeia. Por exemplo, o banheiro na penitenciária é chamado de “boi” pelos presos. O boi fica ali, aberto, num canto da cela, não tem privacidade nenhuma, é só um buraco no chão no canto da cela lotada. Quando você vai usar o boi, seus companheiros de cela te perguntam: “Vai no alto ou no baixo?” Ir no baixo é defecar, então você tem que avisar antes, porque não pode ter ninguém comendo na cela.

E cada facção tem seu jeito de falar. Por exemplo, no Comando Vermelho, se fala “nóis”. O pessoal da ADA, os Amigos dos Amigos, usava “a gente”. Eu lembro uma vez que a ADA conseguiu tomar meu morro, uns ex-amigos meus que tinham ido pro outro lado, cercaram minha casa. “E aí, Zazá, é nóis ou é a gente”? Quando botei a cara pra fora, vi uns quinze homens armados, todos de preto. Um deles era um inimigo mortal meu, um rapaz do Morro do Boa Vista, segurando um fuzil 7.62, com a ponta apoiada no chinelo que é pra não arranhar. Eles me deixaram viver, não sei como, mas tive que deixar tudo, perdi tudo… Tinha arma, dinheiro naquela casa. Só não explodi todo mundo com uma granada porque meu filho estava no meu colo.

A GUERRA

Quando eu tinha 18 anos, fui preso na comunidade 94. Meu primeiro crime foi assalto à mão armada, depois receptação de produtos roubados. Nunca fui preso por tráfico. Sempre tentava fugir, não queria ficar preso durante anos. Consegui um benefício pra cumprir parte da pena no presídio Cândido Mendes, ali no Centro do Rio, onde os presos saíam pra trabalhar e dormiam na cadeia. Mas o crime dominava lá dentro, eram as facções que mandavam, a polícia facilitava a entrada de droga e bebida.

Um dia, saindo da prisão com meu amigo Bolado, rolou uma emboscada de uma facção rival bem nessa hora. Os rivais sabiam que os homens do Comando Vermelho saíam primeiro, então eles cercaram ali e começaram a atirar. O Bolado foi baleado na minha frente. Só não morri porque demorei alguns segundos pra assinar minha saída. Vi ele tentar se levantar, mas já estava muito ferido. A ambulância chegou, só que ele não resistiu.

Depois disso, os líderes da cadeia decidiram que os presos tinham que sair armados ou fugir, e não voltar mais. Não quis arriscar mais um processo e me escondi. Fiquei foragido por dez anos, trabalhando com carteira assinada pra não levantar suspeita – porque, se você é parado pela polícia e mostra sua carteira de trabalho, isso ajuda. Passei pelo abastecimento central do Ponto Frio e por um estaleiro de Niterói. Mesmo assim, não larguei o crime, ainda usava droga e tinha envolvimento com o tráfico.

Anos mais tarde, depois que fui baleado nas costas e me escondi no Morro do Jacarezinho, no Rio, fiquei visado pela polícia. Um dia eu estava no NorteShopping, no bairro do Cachambi, e um policial me reconheceu. Sentou na minha mesa, mostrou a arma e disse: “Qualquer movimento, eu te prendo, Zazá.” Tinha um parceiro dele sentado na mesa do lado. Eles sabiam onde eu morava, meus horários. Mas eles não queriam me prender, não, queriam me chantagear – estavam atrás de dinheiro e arma. A partir daí, virou rotina eles me achacarem. Como eu não queria ficar na mão desses caras, comecei a frequentar a Vila da Penha, na Zona Norte do Rio, isso na época de vários traficantes grandes, conhecidos… Hoje, desses cabeças, quem não morreu entrou pra igreja, são sobreviventes.

Foi lá na Penha que virei fornecedor de arma e intermediador de droga, fazia a ponte entre a comunidade e o chefe. Eu trabalhava pra montar novas bocas, ia abastecendo as comunidades. Vamos supor: pra levantar uma boca, o matuto fornece três pistolas, dois fuzis, mais 5 kg de cocaína e 5 kg de maconha. Naquele tempo, isso daria uns 300 mil reais, mais ou menos. Aí, aquela boca de fumo ia pagando por semana, ou quinzena, dependendo do que tinha sido acertado. Só não podia faltar prestação: só se tolerava no máximo dois atrasos, e isso só se tivesse acontecido algum baque – por exemplo, uma operação policial que arrebentou a boca, pum!, e a polícia pegou a metade da droga e três armas. Mesmo assim, se o ponto não se acertasse depois, se não devolvesse o investimento, a favela perdia tudo. Então os soldados que estavam ali morriam todos – e morrem mesmo, tá? Levavam pro Complexo do Alemão e ninguém achava mais o corpo.

Nesse tempo na Penha, comecei a ter dinheiro e a usar bastante cocaína. Fiquei no vício, dali pra frente foi só queda, queda, queda… me perdi. E, nisso, fui fazer um assalto na saída do Iate Clube, em Niterói. Tinha um carro parado com o alerta ligado, um velhão com os braços pra fora: era só bracelete de ouro e anel de ouro, uma carreta importada. Sempre gostei do ouro porque é muito fácil pra venda, principalmente a joia pronta.

Quando vi aquele monte de joia, já saquei uma Taurus, calibre 38, prateada, debrucei sobre a janela do carro, encostei ela no umbigo do velhão, falando: “Tira a chave do carro, tira a chave da ignição, não reage, tira o cordão, tira tudo, senão eu vou dar um tiro na sua cara.” E ele foi tirando, enfiei tudo no bolso e saí em disparada. Mas logo abaixo a polícia me pegou, pra fugir eu teria que ter entrado correndo numa favela inimiga, e a facção rival ia me pegar lá, ia dar um fim em mim.

Fui preso, tomei soco na nuca da polícia e do filho do cara que eu tinha assaltado. Assinei o artigo 157, roubo, e também o de porte ilegal com ameaça grave da vítima. Fui condenado a quatro anos e oito meses. Quem me condenou foi uma juíza vascaína da 4ª Vara Criminal da Comarca de Niterói.

RATOS E HOMENS

Por causa desse assalto das joias, fiquei um ano e quatro meses na carceragem da 76ª Delegacia de Polícia de Niterói. Um ano e quatro meses num espaço de 2,50 por 3 metros, com quinze presos. Aí você pergunta: “Quinze presos em um espaço tão pequeno, como pode?” Te conto. Ficavam três redes penduradas em cada parede, uma rede em cima da outra. Se uma delas arrebentava, o preso de cima caía e derrubava os de baixo, e aí fraturava o braço, a costela, se ralava…

Os que não cabiam nas redes dividiam o chão, dormiam deitados em “valete”, que é uma posição igual à dessa carta do baralho: uma cabeça pra baixo, outra cabeça pra cima, ou seja, nádega com nádega, pra não ficar com as partes intimas encostadas na nádega do outro preso. Se você escolhesse um lado, você tinha que dormir nesse lado até amanhecer, sem se virar. Isso machucava o osso da bacia, o ombro, o cotovelo, você tinha que fazer o braço de travesseiro…

Um ano e quatro meses ali, só um boi pros quinze presos, sempre aberto, só essa fossa pra quinze homens amontoados, o cheiro de merda… A gente brigava com as ratazanas que pulavam sempre pra dentro da cela, a gente chamava elas de Mestre Splinter, o nome do rato das Tartarugas Ninja. Elas andavam por cima da gente quando a gente dormia, e quando mordiam eram dias e dias sofrendo com dor.

Depois desse período, fui transferido pro [Complexo Penal de] Bangu, que era muito melhor que a DP. Um espaço maior, tem um banho de Sol, você pode ter um dia de futebol. Muita gente pagava pra sair da DP e ir pra Bangu, mas eu estava caído na época, tive que esperar, fui transferido devido ao chefe da carceragem ver o meu comportamento na cadeia. Terminei o restante da pena fechada em Bangu, mais um ano, e então ganhei o regime semiaberto.

FECHAR O CORPO

Depois de muito tempo no crime, eu estava sendo pessoalmente perseguido, muito ameaçado por uma facção rival e por uns amigos que tinham pulado pro outro lado. Já tinham me dado tiro em cima, já tinham me perseguido um dia quando eu estava passeando com minha mulher… Iam me matar. Eu precisava fechar o corpo. Pensei: não posso fazer esse serviço com qualquer religioso, tenho que achar um cara bom, que feche o meu corpo de verdade. Podia ser o pai de santo mais caro, porque na época eu tinha dinheiro do tráfico. E me indicaram um senhor na favela da Fazendinha que fechava o corpo dos traficantes de lá.

Quando cheguei no local, tinha duas outras pessoas esperando pra fazer o mesmo trabalho que eu. O pai de santo me recebeu, já foi no meu ouvido e falou: “Ó, fica tranquilo, mas esses dois caras que estão aí são canela preta, um é policial e o outro miliciano; eles não sabem qual é a sua, é só você não falar nada.” Os dois caras com arma na cintura e uns cordãozões de ouro. Cumprimentei, e eles me perguntaram por que eu tinha que fazer esse trabalho espiritual. Falei pra eles que estava lá porque tinha saído com uma mulher casada e o marido dela queria me matar. Deram risada, ficou tudo bem, não desconfiaram que eu era do crime.

Não vou contar todos os detalhes do ritual, porque fico arrepiado só de lembrar. Só te digo que tinha que ir ao cemitério e abrir cova. Fui fazer isso e te juro que vi imagens se mexendo no céu, aparições. Apareceu um bode no meio do cemitério, um gato preto saindo de túmulo. Tinha um cheiro horrível que me embrulhava o estômago, no meio da noite, um cheiro de morte.

Chegamos no túmulo de um homem enterrado tinha uns quinze dias. Quando o pai de santo tentou abrir, a gente ouviu uma voz estranha que veio do nada: “Se tocarem nesse corpo, vão morrer.” O pai de santo olhou pra cima, abaixou a cabeça e disse: “Vamos procurar outro.” Você acredita, irmão? Pois te juro. Mas, nisso que eles estavam procurando outro túmulo, eu pensei: essa voz é de Deus. Então, se Deus deu a ordem, ele é mais poderoso que esse pai de santo. Paguei o mais brabo, paguei o chefe, o pai de santo que fecha o corpo dos cabeças do crime e da polícia, e tem um mais poderoso lá em cima dando ordem pra ele?

Comecei a ficar transtornado, eu suava frio, olhei pra um túmulo do lado, bati o olho na lápide e vi que era da mulher de um pastor. Era uma pessoa crente, enterrada ali, tinha uma Bíblia esculpida na lápide e o trecho de um salmo. Naquele momento, entendi que aquilo era um sinal pra mim. Senti uma presença no meu coração que eu nunca tinha sentido e, ao mesmo tempo, um calafrio no corpo todo. Saí correndo. Deixei o pai de santo e os dois policiais ali. Fugi.

Foi a partir desse dia que comecei a buscar a Deus. Mesmo ainda usando muita droga, por muito tempo, eu comecei a ler a Bíblia. No início, quando eu rezava, ouvia vozes na minha mente: “Deus não vai te ouvir, você fez muita coisa errada, ele não vai te proteger.” Mas continuei. Passei a frequentar a igreja; com o tempo consegui dar testemunho, fui perdendo a vergonha de falar em público, de pregar a palavra. Foi quando larguei o espiritismo, o candomblé, descartei minhas guias e meus patuás e me entreguei completamente ao Cristo do Evangelho.

Quando decidi de vez sair do crime, fui falar com o meu chefe no morro. Já cheguei diferente, com a Bíblia, e falei pra ele: “Minha vida mudou. Quero saber se posso orar por vocês, pedir a Deus que proteja vocês, e que um dia vocês também saiam dessa vida.” Eles já perceberam que minha fala era outra, porque, quando buscamos Deus, é Ele quem fala por nós. Orei ali, no meio de mais de vinte homens armados, distribuí panfletos e fui embora. Só que, quando eu tinha dado uns passos, ouvi o chefe comentar com outro: “Está vendo o Zazá ali? Não dou três meses pra ele estar de volta, cheirando pó e com fuzil na mão.” Mas já faz dez anos que estou firme, pra glória do Senhor. Hoje, levo essa palavra pros traficantes e aviso: “O crime não vale a pena.” Quando entendi quem é Jesus, eu me apaixonei, me apaixonei por Ele, e estou apaixonado até hoje.

MISSÕES

Em um vídeo no Instagram, no dia 15 de setembro de 2024, Nilton está no palco de um baile funk na comunidade do Arrastão, em São Gonçalo. Com ele, estão o DJ e outras pessoas da produção, que fecham os olhos e levantam as mãos para ouvir a oração do missionário antes da abertura do baile:

Pai Todo-Poderoso, eu te apresento a vida de cada pessoa que aqui está temendo nesse momento, Senhor. Que o Senhor possa entrar no coração. […] Visita essas vidas aqui, guarda aqueles que estão vindo pro baile, limpa dos acidentes de trânsito, da bala perdida, do assalto, do homem sanguinário. […] Não importa qual seja o seu problema, Jesus diz: “Vem a mim todos vocês que estão cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei.” Está lá em Mateus 11:28. Ele é a solução. […] Vá diretamente a Jesus, experimente, que há solução também pro seu caso. Confesse os seus erros, sua ruína, só Jesus é a solução […], não é igreja, é Jesus, amém.

Em um story do Instagram de Nilton, no dia 8 de janeiro de 2025, aparece a animação de uma cobra verde em um fundo amarelo. A serpente segura duas armas e atira, enquanto expele fumaça pelo nariz. Ao lado da imagem, há uma foto do missionário, com a legenda: PATRIOTA ATÉ O OSSO.

Ele continua seu relato.

A PALAVRA

O homem pode ser devoto de quem for, ou devoto de nada, mas na hora que se encontra com uma arma na cara, com o cano da arma dentro da boca pra morrer, ele clama por Deus. Isso é natural do homem: nós somos criaturas do Deus eterno. O homem desesperado com um laudo de câncer, ele também recorre a Deus. Por isso que eu aconselho e prego pras pessoas não recorrerem a Deus só no final, porque todo homem peca.

Eu mesmo continuo pecador, às vezes tenho minhas falhas, tenho minha raiva. Quando sou provocado na rua, sinto essa ira ferver, mas abaixo a cabeça e prefiro passar como bobo, vou embora. Como ex-criminoso, é difícil passar por isso – só os fortes, só os brabos na fé podem aguentar. Já fui humilhado, agredido, mas segui em frente, porque a Bíblia ensina a dar a outra face.

Continuo até hoje na Primeira Igreja Batista de Niterói, além de fazer a minha missão na rua, que é independente. Hoje, além da missão, trabalho como faxineiro num condomínio aqui de Niterói, do lado da favela onde trabalhei muito tempo no tráfico. Também conserto relógio de vários clientes – aprendi a consertar quando trabalhei de vendedor na Rua Uruguaiana, no Centro do Rio, vendo os relojoeiros trabalharem.

Meu filho trabalha como balconista de farmácia, com carteira assinada, graças a Deus. Minhas netas estão prestes a completar 2 anos. E estou com minha mulher desde os 18 anos – quando a gente se conheceu, ela ainda era virgem. A gente tem a mesma idade, 45 anos. Ela não gostava de quem era do tráfico, não queria ficar comigo por isso, mas com o tempo consegui conquistar ela. Minha mulher tem um olho que quando está debaixo do Sol fica azulado, quando está na sombra fica verde – isso foi a primeira coisa que eu gostei nela.

O VAZIO

Na minha pregação, eu não busco a multidão, como muito pastor por aí. A Bíblia fala que, quando um pecador se converte, é festa no Céu. Eu filmo e boto na internet minha pregação pra que outras pessoas ouçam a palavra de Deus, seja no presídio, no hospital, onde for. Falo tanto pra policiais quanto pra bandidos, porque, diante de Deus, a alma de ambos tem o mesmo valor.

Prego principalmente pros meninos do tráfico e em baile funk. Nos bailes, vou direto no equipamento de som. Todos os DJs do Rio, de São Gonçalo, de Niterói, de Maricá já me conhecem. Faço uma pregação rápida no microfone pra não esfriar o baile, depois fico pregando na minha banquinha pra quem quiser ouvir.

As pessoas estão ali pra preencher um vazio, que o baile funk não preenche. Vão lá pra beber, mas a bebida não vai preencher aquele vazio. Vão lá pra encontrar uma relação extraconjugal, mas aquela relação não preenche o vazio dessa pessoa. Então, quando a pessoa ouve uma mensagem de Deus, ela às vezes acaba cedendo um pouco. E, no tráfico, eles já sabem que sou missionário porque coloco minha pregação no Facebook, no Instagram, já sabem que não sou X9. Posso subir tranquilo em qualquer comunidade.

Sempre vou com esta camisa aqui, que tem escrito a frase “Evangelismo Original”, o meu nome e o nome das comunidades onde eu mais entro: Complexo do Alemão, Mangueira, Morro do Fallet… O que está complicando nesta camiseta é o desenho da estrela de Davi, porque virou o símbolo lá do [traficante] Peixão, que manda no Complexo de Israel e é do TCP. Eu não tenho nada a ver com ele, mas às vezes as pessoas confundem…

Não sou de agradar na palavra, meu papo é reto. Tem que pregar a verdade: amar o pecador, mas odiar o pecado. Eu amo o homossexual, mas a Bíblia condena a homossexualidade. Esse é o evangelismo original. É o que Jesus fazia: ia até os necessitados, pregava as Escrituras, falava do Céu, do Inferno e do destino da alma. Hoje, muitas igrejas distorcem o Evangelho, focam em dinheiro, na história de prosperidade individual. Dizem que Jesus foi rico, mas, se fosse, por que Pedro diria ao aleijado no templo: “Não tenho ouro nem prata, mas o que tenho, isso te dou. Em nome de Jesus, levanta-te e anda”? O Evangelho verdadeiro não está na ostentação. Eu já fui perseguido por falar isso, por denunciar os falsos profetas, já derrubaram minha página do Facebook, me ameaçam nos comentários, mas eu sigo falando.

E, você vê, o país nunca foi tão evangélico, mas também nunca foi tão corrupto. Tem alguma coisa errada com os líderes dessas igrejas! São quase 50 milhões de evangélicos. Era pra ter menos assalto, era pra ter menos tráfico. Vereador corrupto, bandidos na rua, policial que entra na corporação na intenção de viver da máfia, de esquema de cigarro das maquininhas, do acerto com o tráfico. Ou você acha que um policial vai subir o morro pra encarar um fuzil que solta setecentos tiros por minuto, um fuzil que nem o Exército Brasileiro tem, vai enfrentar tudo isso só pelo salário que ele ganha? Não vai. Então, muitos entram na intenção de arrumar dinheiro.

A raiz de tudo isso é o dinheiro. Ter dinheiro não é pecado, mas amar o dinheiro acima de Deus, sim, é pecado. E tem muito pastor famoso, dono de igreja, que tá sempre na tevê, que vive desse pecado, esses falsos profetas.

CERTO E ERRADO

Em um vídeo curto no YouTube, de 18 de janeiro de 2025, o missionário diz:

Fala aí, abençoados, tudo bom? Então, deixa eu falar um negócio aqui: eu moro em comunidade, entendeu? Já fiz muita coisa errada no passado, mas hoje não faço mais, me arrependi. E não gosto desse partido que está aí agora no governo. Gosto de partido que apoia a família, o bem, as coisas certas. Mas eu estou vendo um monte de gente que mora em favela indo pra internet agora, tudo arrependido, falar um monte de besteira do Lula, que se arrependeu de votar nele. Aí chega em 2026, o cara paga 10 reais, paga pão com mortadela, rega vocês com churrasco na favela, vocês votam de novo por dinheiro. Corruptos são vocês, eleitores. Vocês são piores que ele. Eles estão cheios de milhão, e você vai votar de novo? Corrupto é você.

No Instagram de Nilton Pereira, uma ilustração mostra um homem sentado com duas crianças em uma cama. É uma cena de família, talvez um pai e seus filhos no momento anterior ao sono das crianças. Os três leem a Bíblia juntos, enquanto o homem segura um escudo sobre a cabeça das crianças, protegendo-as de serem atingidas por um arco-íris que carrega a imagem de um demônio. Sem esse escudo, o arco-íris e o demônio chegariam até as crianças. Ao lado da imagem, Nilton escreveu: O CERTO SERÁ SEMPRE O CERTO, E O ERRADO SERÁ SEMPRE O ERRADO.

FERIDA ABERTA

Muita gente já sugeriu que eu me candidatasse a vereador. Mas sempre digo a mesma coisa: não acredito na política. A política é como o futebol: quando percebi que até os jogos são comprados, perdi o interesse. Hoje, só torço pelo time da minha comunidade, porque sei que jogam por amor, sem corrupção.

Sobre o governo, vou te dizer, não vejo legitimidade no atual, não. Preferia o governo anterior, porque ele falava de Deus e dava espaço pra fé cristã. Esse agora defende aborto, liberação de drogas, censura, só pensa em poder e dinheiro. Já estou vacinado disso tudo, nem votei nas últimas eleições. Meu título está cancelado desde a época da cadeia e só regularizo se precisar de um documento maior, tipo um passaporte, porque meu sonho mesmo é conhecer Israel, pisar na Terra Santa, mesmo sabendo que Deus está presente em qualquer lugar.

No Brasil, a gente vê todo dia que a coisa só piora. A dívida só cresce. Se continuar nesse ritmo vai ficar pior que a Venezuela. O país tem recursos, mas está sendo sugado. A crise real ainda não estourou, mas, quando vier, vai ser guerra. E essa democracia de hoje não é real, porque só quem está no poder pode falar, pode censurar e bloquear nossas contas na internet. Ou seja, só eles têm o direito de pensar. Nós, que somos a favor da família, que somos contra ladrões e a favor do aumento da pena pra criminosos, nós não podemos nos expressar livremente.

Não estou falando de direita ou esquerda. Sou a favor da lei de Deus. Ontem mesmo, no Centro do Rio, fui resolver um assunto e alguém me perguntou em quem votei. Respondi: “Meu partido é aquele que defende a lei de Deus, a família, o trabalhador, e é contra o crime.” Simples assim. Você vê: se um jovem de 16 anos pode votar e ter filhos, então também devia poder responder pelos seus crimes, mas a punição é muito leve! A Fundação Casa virou lazer. Eu aprendi na dor, no sofrimento, com ferida aberta, coceira pelo corpo inteiro, rato me mordendo na cadeia.

OS SOBREVIVENTES

Pergunto a Nilton se ele tem esperança de ver uma diminuição da violência nas comunidades que frequenta. Nilton é um homem de fé, mas sua fé remete à condição das almas, ao seu destino pessoal e familiar, a outra vida – e não à transformação deste mundo. “Na favela, a lei é do tráfico – e como disse um amigo meu, anos atrás: ‘Vai morrer polícia, vai morrer bandido, e o crime não vai acabar’”, ele diz.

Nilton me recomenda ouvir o podcast 01 Sobreviventes. Ele comenta que muitos dos entrevistados no programa são ex-traficantes de sua época, alguns deles seus companheiros ou inimigos dos tempos de crime. Ouço histórias parecidas com as do missionário – a quase morte, a violência sofrida e imposta, as chagas do corpo, as condições de vida degradantes em comunidades pobres, o cárcere, o fardo sobre as famílias, a preocupação com o destino dos filhos, a redenção pela fé.

Muitos desses sobreviventes têm por volta de 40 anos, como Nilton e eu. Também teriam cerca de 40 anos seus antigos colegas que ficaram pelo caminho, mortos por inimigos do tráfico, mortos por colegas em disputa no interior de seus grupos armados, mortos por policiais, mortos por overdose. Nesse podcast, antigos traficantes contam detalhes de sua atuação no crime, os chefões com os quais trabalharam, seus “vulgos” – Bill do Borel, Polegar da Mangueira, Fera de Parada de Lucas –, sempre com o prefixo “ex”, como Nilton também é o ex-Zazá e ex-MG.

A conversão é sempre o portal entre dois momentos de suas vidas – o crime e a salvação. Por isso a mudança de vulgo recebe destaque: com a conversão, deve nascer um novo homem.

Quando esses “sobreviventes” nasceram, os católicos eram 89% da população, e os evangélicos, 6,6%. Hoje, evangélicos totalizam cerca de 27% dos brasileiros, e a proporção de católicos reduziu para cerca de 57%. Evangélicos de diversas denominações ocupam cada vez mais espaço na política, na cultura, no debate público. Nas ruas do país, agora há mais templos evangélicos do que escolas e hospitais somados. São instituições das mais presentes em nosso tecido urbano, marcas características da paisagem dos bairros periféricos e centrais – principalmente o pequeno templo, que ocupa garagens e galpões por todo o território brasileiro.

Cantores gospel estão entre os mais tocados nas rádios; influenciadores e celebridades evangélicas combinam em seus conteúdos mensagens de fé e dicas de prosperidade, de trabalho, de como cuidar da família. Jogadores de futebol professam sua fé depois de gols e vitórias de campeonato. A bancada evangélica é uma das mais poderosas do Congresso, e os fiéis se tornaram a principal base popular de políticos de extrema direita – Bolsonaro, católico e inclinado a arroubos pouco cristãos, foi em 2016 a Israel para receber, no Rio Jordão, o batismo do pastor Everaldo, num gesto de grande carga simbólica para sua futura candidatura a presidente. Políticos de esquerda, enquanto isso, dizem que “precisamos dialogar com os evangélicos”, uma inquietação que obedece à sazonalidade das eleições – uma frase torta, de quem ainda enxerga os evangélicos como um grupo à parte, um corpo estranho na sociedade. O verbo “dialogar”, nessa lógica, soa muito semelhante a quando se diz que é preciso dialogar com sequestradores ou com um país inimigo.

Em paralelo a essas mudanças, outro fenômeno: a piora no que temos de mais cruel, a morte violenta. A taxa de homicídios no início dos anos 1980 era de cerca de 12 pessoas por 100 mil habitantes. No momento em que gravaram os depoimentos exibidos no podcast, esses “sobreviventes” testemunhavam o país atingir uma taxa de mortalidade recorde (31 mortes por 100 mil habitantes em 2017). A taxa voltou a cair, mas ainda está num patamar elevado, de cerca de 22 mortes por 100 mil habitantes, ou seja, quase o dobro do índice de mortalidade do ano em que Nilton nasceu. É um feito da barbárie, da nossa novela macabra, que se desenrola sob os olhos da Constituição Cidadã de 1988 e da democracia. Esses números, essas centenas de milhares de mortes violentas e precoces são também a matéria de que é feita essa democracia.

Nilton e os “sobreviventes” encarnam estes dois caminhos de radical transformação do Brasil nas últimas quatro décadas: um país onde mais pessoas se convertem à fé pela via evangélica, e onde, em paralelo, se mata em dobro. Na vida desses homens, os dois fenômenos estão interligados: Nilton, Bill, Polegar, Fera e tantos outros contribuíram com o aumento do número de evangélicos no país para não serem mais um número na estatística de vítimas de homicídio no Brasil, e para que – como sempre enfatizam – seus filhos não repitam os seus passos anteriores.

*

Nilton Pereira continua:

Deixa eu te dizer uma coisa: hoje eu não temo mais a morte. Quando eu era do crime, tinha medo. Acreditava que, se uma coruja aparecesse, alguém ia morrer. Eu vi meus colegas tombando do meu lado, morto por tiro ou pela droga. E minha maior felicidade hoje é estar livre do vício. Na época que eu cheirava até dez pinos [pequenos recipientes de plástico com cocaína] por dia, eu dizia pra minha mulher: “Se eu ganhar dinheiro, vou morrer de overdose, porque o problema não é a falta de dinheiro, é o vício.”

Minha casa atual é boa, mas toda vez que saio ou volto, preciso passar pelos traficantes. Quero vender a casa, dar entrada num lugar mais tranquilo e pagar o resto parcelado. Não importa se for no Rio, São Gonçalo ou Niterói, contanto que seja seguro. Não quero estar um dia com as minhas netas no colo e ter que me jogar no chão ou sair correndo por causa de um fogo cruzado.

O que eu mais quero mesmo é sair da favela e dar um lugar seguro pra minha família. Vou continuar evangelizando nas comunidades, mas não quero que minhas netas passem pelo que meu filho passou. Com 6 anos, ele viu um corpo na rua e quase pisou no sangue, ia pisar se eu não tivesse pegado ele no colo. Tentei tampar os olhinhos dele, mas ele viu e perguntou: “Pai, o que aconteceu?” Precisei explicar, e aquilo ficou marcado em mim. Não quero isso pras meninas. Quero uma outra vida pra elas, e quero que elas saibam que sou um sobrevivente. 


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Escritor, é doutor em sociologia pela Universidade de Michigan e professor da FGV. Publicou O que é meu (Fósforo).