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Felippe Aníbal Jul 2025 13h36
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O cantor e compositor Rogério Skylab entra em um banheiro sombrio. Lá, um gorila descomunal o atinge na cabeça com um taco de basebol. Ao se levantar, o artista tenta se lavar, mas a torneira está sem água. Skylab, então, se liquefaz e reaparece caminhando na tubulação do esgoto. Adiante, depois de ser preso, inunda a cidade ao vomitar um rio de sangue, cruza um front de guerra e um campo de petróleo. Ao fim, um gorila se transmuta no próprio Skylab.
As cenas fazem parte do videoclipe da música Mictório, de Skylab, criado com ferramentas generativas de inteligência artificial. Lançado em 24 de fevereiro deste ano, o clipe é assinado pelo diretor audiovisual curitibano Arnaldo Belotto. As imagens foram geradas, animadas e editadas em apenas dois dias.
Belotto é um pioneiro na criação de clipes feitos integralmente com IA. O primeiro foi o vídeo da música Adormerecerá, do paulista Digo e o Mundo Gigante, lançado em 19 de março de 2024. Para se ter uma ideia do seu vanguardismo, só treze dias mais tarde a empresa de inteligência artificial OpenAI levou ao ar seu primeiro clipe feito com IA, para a música Worldweight, da americana August Kamp.
Depois disso, o diretor criou outros vídeos para artistas de gêneros variados, do sertanejo Kadu Morais à banda de reggae Maskavo – até chegar em Lobão, para quem fez um clipe da canção Vida louca vida. Com o portfólio robustecido, Belotto procurou Skylab, com quem já havia trabalhado em 2018, sugerindo um clipe feito com a ajuda da IA.
Skylab, que tem os pés no experimentalismo, topou na hora. E para uma trilogia. Além de Mictório, Belotto criou clipes para Você vai continuar fazendo música? e Skylab’s wake. “Como artista independente, eu nunca poderia produzir um videoclipe convencional com aquela potência das imagens geradas pela inteligência artificial”, diz Skylab. “Eu falei para o Arnaldo: ‘Pode ir se preparando, porque tu vai ter muito trabalho pela frente. É um caminho irreversível.’”
Skylab foi profético. Sua trilogia – lançada entre fevereiro e março deste ano –, trouxe ainda mais visibilidade ao trabalho de Arnaldo Belotto. Enquanto trabalhava com IA para a publicidade, o diretor enviou seu portfólio a Sérgio Britto, dos Titãs. Os integrantes da banda ficaram entusiasmados com o que viram, principalmente com a atmosfera de Mictório. Consideraram que a IA poderia render um bom clipe para São Paulo I, música composta a partir de um poema de Haroldo de Campos.
Ao definir o conceito do vídeo, o titã Branco Mello sugeriu como referência o filme Metrópolis, de Fritz Lang. A partir daí, Belotto criou cenas com engrenagens gigantescas e multidões passando por lugares que remetem a São Paulo, em preto e branco. O diretor inseriu no clipe não só Mello, Britto e Tony Bellotto (que não tem parentesco com Arnaldo), mas também Haroldo de Campos. O vídeo foi lançado em 25 de abril deste ano. À piauí, Branco Mello diz que um dos pontos surpreendentes foi “a oportunidade de criar cenas improváveis no mundo real e vê-las se materializando no vídeo”.
Belotto chegava, enfim, em uma banda do mainstream. Desde então, ele já fechou trabalhos para outros artistas e também produtores, como Rick Bonadio, do estúdio Midas Music, que hoje cuida dos Titãs e de Kell Smith, entre outros.
Filho de um bancário e de uma dona de banca de jornal, Arnaldo Belotto cresceu em uma chácara na Região Metropolitana de Curitiba. Na infância, era um aficionado de revistas em quadrinhos. Depois, aproximou-se do cinema, conduzido pelo avô, Victório Belotto, um militar reformado que passava as tardes assistindo a filmes de faroeste e de ação. Aos 16 anos, Belotto foi emancipado, para poder abrir uma videolocadora em sociedade com a irmã, então com 14 anos. Chegou a cursar veterinária e publicidade, mas abandonou ambos para fazer um curso técnico de cinema.
Com o diploma, tornou-se sócio de uma produtora, a Destilaria, na qual fez videoclipes para Charme Chulo, Nuvens e Skylab, entre outros. Em 2009, lançou seu único longa-metragem até agora, Eva. Em 2013, como a grana estava curta, Belotto decidiu fotografar casamentos. Cinco anos mais tarde, com amigos, fundou um bar em Curitiba, o Soy Latino. O empreendimento deslanchou, mas começou a enfrentar dificuldades durante a pandemia e fechou as portas em fevereiro de 2024.
No período do bar, Belotto começou a estudar IA de forma autodidata. Quando a casa fechou, ele já dominava as principais ferramentas da nova tecnologia. Assim, abordou Digo, se oferecendo para fazer um videoclipe por 300 reais. E não parou mais. Seus clientes vão do reggae (Delta 2 e Jôh Ras) ao metal (Satanic Empire). Hoje, cada clipe não sai por menos de 4 mil – uma pechincha, se comparado aos orçamentos tradicionais.
Aos 42 anos, Belotto usa barba cerrada e fala rapidamente, como se quisesse dar vazão de uma vez ao que pensa. Veste sempre camisa estampada e chapéu. Pelas ferramentas digitais que utiliza, paga um total de 800 reais por mês. No início, criava em seu celular, mas hoje usa um tablet.
Ele dá de ombros à discussão se o que faz é arte. Define-se como um criador, que se vale de ferramentas que considera democráticas para se expressar. “Não foi um botão que eu apertei e saíram as imagens”, afirma. Os comandos transmitidos às ferramentas incluem detalhes como o tipo da câmera e do filme que a IA imitará e referências de iluminação. “Eu consegui produzir uma obra que, para mim, é relevante esteticamente, e fiz com o celular. Então qualquer pessoa pode entrar no mercado audiovisual. O que mais importa são as referências e a forma de se expressar dessa pessoa.” Belotto considera que a IA o reconduziu ao universo criativo. “É uma libertação.”
Skylab diz que o impulso dado à arte pela IA é imenso. Para aprofundar o debate, faz uma analogia com os conceitos de léxico (os vocábulos) e sintaxe (organização das palavras na frase). “Temos o léxico, que é a imagem fornecida pela IA conforme você quer. Mas a montagem do clipe é uma coisa absolutamente autoral: é a sintaxe”, diz. “A singularidade, a força e a autoria do vídeo estão na montagem.” Branco Mello sintetiza a questão aludindo a um verso de A melhor forma, uma canção dos Titãs: As ideias estão no chão, você tropeça e acha a solução!