cartas
Jul 2025 11h43
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VULTOSAS
Nunca me considerei puxa-saco, mas me sinto compelido a escrever à Redação uma vez mais para elogiar a escrita de Fernando de Barros e Silva, desta vez na piauí_225, junho (O mar virou sertão), correndo o risco de cair em rasgação de seda e babação de ovo. Que seja.
O texto daquela edição faz o melhor uso do sarcasmo (o mais inteligente tipo de comédia) e é um convite para boas gargalhadas com a mão na consciência. Só mesmo assim para conseguir suportar o tema pesado que o autor denuncia.
Ao ler a um amigo o trecho sobre a arquitetura greco-goiana da casa de Gusttavo Lima, ele só me responde: “O pior é que consigo imaginar essa casa.” Pois é, o Fernando consegue descrever magnificamente nosso entorno com uma palavra. A isso chamamos “escrita genial”?
Obrigado por esse presente.
GABRIEL SABADIM_RIO DE JANEIRO/RJ
A MORDIDA DO LEÃO
As matérias O salvamento, piauí_224, maio, e Em alto-mar, piauí_225, junho, poderiam ser resumidas em uma única frase de nosso hino célere das desigualdades do Brasil: o de cima sobe e o de baixo desce.
Na primeira, vemos como meninos mimados utilizam o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como cheque especial de suas megalomanias financeiras que, ao fim e ao cabo, nós pagaremos. Na segunda, vemos que o Brasil pune mais quem vende cocaína na favela do que quem explora extração ilegal de ouro e de madeira.
O que mais me assusta na segunda matéria é a leniência da Receita Federal, que é capaz de rugir com qualquer pessoa de classe média que deixe de declarar seu Gol bolinha ou a venda de um terreno em Maricá, mas mia com quem declara ter mais que o dobro das reservas de ouro do Banco Central do Brasil.
Com a grana que ganho e o sobrenome que carrego, não dá nem pra ouvir o miado da Receita.
HURI PAZ_RIO DE JANEIRO/RJ
BARATAS
Envio meus parabéns a Consuelo Dieguez pelo texto bem construído e pelo humor refinadíssimo da matéria Gabriel e as abençoadas (piauí_225, junho). Me esborrachei de rir sozinho na minha poltrona.
MARCOS CHIQUETTO_RIO DE JANEIRO/RJ
ERRATA
Na Esquina Os economistas franciscanos (piauí_225, junho), estava escrito que o papa Francisco era franciscano, mas na verdade ele era jesuíta.
NOTA ÉPICA DA REDAÇÃO
Quando certa manhã o respondedor de cartas acordou de sonhos intranquilos, encontrou sua editoria metamorfoseada num vazio monstruoso. Dirceu? Adilson? Djalma? Onde estavam seus missivistas contumazes? De que valeria o nobre ofício de respondedor sem que houvesse um remetente, do outro lado, a quem respondesse? Bebeto sem Romário? Didi sem Dedé? Mauro Cid sem Bolsonaro? Ó, horror.
Foi, então, imbuído de um nobre sentido de dignidade (e sobrevivência, por que não?) que o respondedor passou a rascunhar, em sua cabeça, as cartas que seriam escritas pelos leitores ora ausentes. Arte! Poesia! Imaginação! A partir de então, nenhum jornalismo seria capaz de impedir um Camões adornado de florescer ao mundo.
O respondedor pôs-se a sonhar e, sonhando, fez nascer uma linda carta em que Dirceu, Adilson, Djalma e todos os demais leitores elogiavam, juntos, a reconstituição de Breno Pires sobre o assalto no INSS, o fantástico perfil de Allan de Abreu (ou seria policianismo fantástico?) daquele que se diz dono de um país no Oceano Atlântico.
Depois, qual um médium, se viu psicografando uma segunda carta coletiva, em que o alto comando de missivistas elogiava as análises sociológicas de Marcos Nobre sobre o governo Trump, de José Henrique Bortoluci sobre os brasileiros de sua geração, de Fernando de Barros e Silva sobre Marina Silva e o governo Lula. E a partir daí se viu entregue ao mundo idílico das cartas, que caíam do céu quais flocos de neve e se espraiavam pelo chão, formando um gramado branco de papel, como nos tempos idos do Xou da Xuxa. Uma carta elogiando os dois textos de Fernando Tadeu Moraes, uma carta elogiando o portfólio póstumo de Sebastião Salgado, uma carta elogiando as esquinas, os poemas, a capa, o Diário do Geraldo. Uma carta explodindo de louvor e exaltação à apuração de João Batista Jr. sobre a queda de George Santos e ao texto de Camille Lichotti sobre as alturas que os burocratas de verdade podem atingir.
Mas o respondente se deparou, então, com uma moral encruzilhada: seria ele capaz de imaginar uma carta exaltando a própria seção de cartas? E se fosse, de que forma ele responderia a essa provocação tão narcísica do próprio ego? Estaria ele diante do famoso paradoxo de Zambelli?
E foi aí que o respondedor voltou à realidade dura e inexorável, e aceitou, melancolicamente, o fato de que a sua editoria só havia recebido três cartas naquele mês de junho de dois mil e vinte e cinco (às quais ele não respondeu).
O RESPONDEDOR_D’APRÈS CAMÕES
NOTA DA REDAÇÃO AO RESPONDEDOR DE CARTAS:
A piauí mudou seu provedor de e-mail. É possível (bem possível, muito possível, com certeza) que algumas cartas tenham se perdido na mudança.