despedida
Bernardo Esteves Jun 2025 16h43
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Numa manhã de outubro de 2013, a arqueóloga paulista Niéde Guidon foi visitar a Toca do Gongo III, um dos mais de 1,2 mil sítios arqueológicos no Parque Nacional Serra da Capivara, no Sul do Piauí, criado por sua iniciativa. A cientista continuava em atividade aos 80 anos, embora não coordenasse mais as pesquisas desde o fim do século passado. Na visita daquela manhã, ela examinaria o sítio para definir detalhes sobre a retomada de sua escavação. A própria arqueóloga dirigiu uma caminhonete no trajeto entre a sua casa, em São Raimundo Nonato, e o sítio. Eu estava a bordo, ao lado de duas alunas de arqueologia da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf).[1]
Como muitos sítios da região, a Toca do Gongo III fica na base de um paredão rochoso com pinturas rupestres. Enquanto guiava a caminhonete a até 130 km/h, Guidon – morta no último dia 4 de junho, aos 92 anos – explicou que doze sepultamentos humanos já haviam sido descobertos por lá. Aquele foi o primeiro sítio da Serra da Capivara em que ela encontrou fósseis humanos, um evento relativamente raro na área, porque o solo ácido e o clima quente não favorecem a preservação do material orgânico. Guidon estava habituada a escavar vestígios indiretos da passagem humana pela região, como ferramentas de pedra ou restos de fogueira. “Mas encontrar remanescentes dos próprios indivíduos é uma experiência fantástica, diferente de todas as outras que já tive”, disse.
O local tinha sido frequentado por grupos semissedentários de horticultores ceramistas que enterravam seus mortos ali. Um estudo sobre as práticas funerárias adotadas por eles só saiu em 2018, assinado por Guidon e três colegas. O trabalho afirmava que os indivíduos sepultados ali viveram entre 1390 e 1630, numa época muito mais recente do que as ocupações encontradas em outros sítios da Serra da Capivara estudados pela pesquisadora – estudos esses que fizeram dela um dos nomes mais importantes da arqueologia das Américas.
Niéde Guidon nasceu em Jaú, no interior de São Paulo, em 12 de março de 1933. Filha de pai francês e mãe brasileira, foi batizada em homenagem ao Rio Nied, que passa na região da Lorena, na França. Ela assinou artigos científicos ora como Niède, na versão afrancesada de seu nome, ora como Niéde, com acento agudo. Essa é a grafia que aparece na certidão de nascimento fotografada por Adriana Abujamra, autora da biografia Niéde Guidon: uma arqueóloga no sertão. “Era como ela assinava seus e-mails e como queria ser reconhecida”, diz Abujamra.
Guidon se formou pela Universidade de São Paulo (USP) em história natural e estudou arqueologia na pós-graduação da Universidade Sorbonne, na França. Especializou-se no estudo das pinturas rupestres, objeto de pesquisa de André Leroi-Gourhan e Annette Laming-Emperaire, dois baluartes da arqueologia francesa com quem ela teve aulas em Paris. De volta ao Brasil, foi trabalhar no setor de arqueologia do Museu do Ipiranga, da USP, mas voltou à França em 1964, com medo de ser presa pela ditadura brasileira, por causa de sua simpatia pelo comunismo. Em Paris, firmou-se como pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisa Científica e, mais tarde, da Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais.
A arqueóloga ainda morava em Paris quando fez a descoberta que mudou não apenas sua vida, como o sertão piauiense e a história da ocupação do continente americano. Numa série de expedições na década de 1970, que deram início a uma missão arqueológica franco-brasileira no Piauí, Guidon foi atrás de pinturas rupestres na Serra da Capivara sobre as quais tinha sido alertada anos antes pelo prefeito de Petrolina (PE). Descobriu dezenas de sítios arqueológicos espalhados pelo maciço de arenito que domina a paisagem local. Estavam situados no sopé de paredões de pedra ilustrados com uma profusão de pinturas. Documentavam a rica fauna que já habitou a área – emas, macacos, peixes e tatus, além das capivaras que inspiraram o nome do parque. Os desenhos também registram pessoas envolvidas em atividades variadas, ao contrário das pinturas rupestres na França, em que quase não há representação humana.
Guidon dedicou o resto de sua vida àqueles registros. Lutou pela criação de uma unidade de conservação para proteger o patrimônio natural e cultural da região. A meta foi alcançada em 1979, com a criação do Parque Nacional Serra da Capivara, mas a tarefa estava longe de se esgotar. A arqueóloga entendeu que não conseguiria garantir a manutenção do parque de longe e, em 1992, se mudou da Europa para São Raimundo Nonato, onde viveu até morrer, a ponto de incorporar a identidade sertaneja. “Mais que uma brasileira, ela era uma caatingueira”, define Abujamra.
Em junho de 1986, Niéde Guidon publicou na britânica Nature, respeitada revista científica, um artigo relatando uma descoberta surpreendente, intitulado Datas de carbono-14 apontam para o homem nas Américas há 32 mil anos. Essa seria a idade das ferramentas de pedra e restos de fogueira escavados pela equipe da arqueóloga no Boqueirão da Pedra Furada, um dos sítios que ela achara durante os anos 1970. (A data real, após uma correção pela qual têm que passar os resultados obtidos nas datações por carbono-14, pode chegar à casa dos 37 mil anos.)
Guidon sabia que estava se metendo numa encrenca das grossas. O resultado contrariava uma das certezas inabaláveis dos estudiosos da ocupação das Américas. Eles estavam convictos de que os primeiros habitantes eram o chamado povo de Clóvis, que viveu por volta de 13 mil anos atrás onde hoje ficam os Estados Unidos. Os pesquisadores rejeitavam vigorosamente qualquer evidência de presença humana no continente anterior a isso.
Como os vestígios da passagem do Homo sapiens pelo Boqueirão da Pedra Furada eram apenas indiretos, os críticos alegaram que eles não tinham origem humana. Os supostos restos de fogueira e ferramentas de pedra seriam fruto da ação da natureza. Eram seixos lascados que caíram da enorme falésia que domina o sítio arqueológico e foram pisoteados por animais e humanos por milênios. O veredicto definitivo veio quando três dos mais eminentes arqueólogos americanos visitaram a Serra da Capivara. Saíram convencidos de que os objetos não derivavam da atividade humana, conforme registraram em 1994 em artigo na Antiquity, importante revista da arqueologia.
Quase uma década depois, em 2003, Guidon dobrou a aposta e propôs que o sítio podia ter sido ocupado há mais de 100 mil anos, data impensável para a maioria dos arqueólogos. Nessa época, afinal, o Homo sapiens estava começando a se aventurar fora da África.
A pesquisadora foi parcialmente redimida no começo deste século, com a retomada da missão arqueológica franco-brasileira no Piauí, agora sob a batuta de Eric Boëda, arqueólogo da Universidade Paris Nanterre. O grupo encontrou na Serra da Capivara outros sete sítios com vestígios de ocupação anterior ao povo de Clóvis. A maioria teria entre 20 mil e 30 mil anos. Embora mais recentes que o Boqueirão da Pedra Furada, eram provas mais convincentes da presença humana na região.
Não que isso tenha feito muita diferença para os opositores. “À medida que as descobertas iam se acumulando, os críticos inventavam novos argumentos para refutá-las”, conta Boëda. A defesa da primazia do povo de Clóvis transferiu a discussão da esfera científica para a ideológica. “Mas Niéde nunca deixou de reagir às críticas como uma cientista.” A arqueóloga sempre disse que os americanos podiam ou não acreditar em suas alegações. “Era um problema deles, e não dela.” Em vez de gastar tempo e energia com a defesa da antiguidade humana no Piauí, Guidon priorizou o estudo das pinturas rupestres e a luta pela proteção dos sítios.
Em meio à polêmica, os achados da Serra da Capivara ajudaram a abalar a convicção sobre a primazia do povo de Clóvis. Essa ideia foi derrubada de vez no fim do século passado, quando os estudiosos aceitaram que o sítio de Monte Verde, no Sul do Chile, havia sido ocupado por volta de 14,6 mil anos atrás – mais de um milênio antes do povo de Clóvis. Hoje, a maioria dos pesquisadores acredita que os humanos chegaram às Américas há pelo menos 16 mil anos, mas ainda vê com ceticismo ocupações com mais de 20 mil anos, como é o caso no Piauí.
O arqueólogo Tom Dillehay, da Universidade Vanderbilt, nos Estados Unidos, conduziu as escavações de Monte Verde. O americano foi um dos três especialistas que visitaram a Serra da Capivara nos anos 1990 e escreveram o artigo demolidor sobre a antiga presença humana no Piauí. Ele, porém, deu o braço a torcer quando surgiram novas evidências. “Olhando de novo para os sítios de Niéde Guidon e do Eric [Boëda], estou ficando mais convencido de que havia pessoas ali há 20 ou 25 mil anos”, disse Dillehay à piauí em 2013.
Se a resistência à nova data vem cedendo aos poucos, o mesmo não se pode dizer sobre a hipótese que Guidon propôs para a rota usada pelos primeiros habitantes da região. Segundo a arqueóloga, eles teriam vindo diretamente da África a bordo de pequenas embarcações, num momento em que o nível do mar estava mais de uma centena de metros abaixo do atual. No entanto, as evidências reunidas até aqui apontam que o povoamento ocorreu a partir da Sibéria para o Alasca e de lá para o resto do continente americano.
Guidon se caracterizou pelo espírito impávido e aguerrido. Os colegas americanos que contestaram seus achados estavam longe de ser sua maior dor de cabeça. A arqueóloga se dedicou com mais afinco a conseguir recursos em Brasília para a Serra da Capivara e enfrentar a hostilidade de moradores que se opuseram à criação do parque nacional.
Para proteger os sítios arqueológicos e a Caatinga, Guidon entendia que ninguém poderia viver nos 130 mil hectares do parque. Por isso, foi preciso remover centenas de pessoas que estavam ali e proibir a caça na reserva – uma atividade de subsistência para muitos habitantes da região. Desalojados do lugar onde foram criados e apartados de seus modos de vida tradicionais, vários moradores se ergueram contra a arqueóloga, que chegou a receber ameaças de morte. Além disso, havia o machismo.
Mas Guidon pavimentou o caminho. Com o parque, vieram oportunidades de emprego nos hotéis e restaurantes construídos nos arredores, e cursos de capacitação para formar guias de turismo e qualificar funcionários da unidade de conservação. A pesquisadora também ajudou a criar alternativas de sustento que não ameaçavam a biodiversidade ou o patrimônio arqueológico, como a apicultura orgânica e uma fábrica de cerâmica. Sem falar na educação. “Quem imaginaria uma escola de período integral no sertão, onde não havia estrada ou água encanada?”, diz a professora Marian Rodrigues, diretora do parque. As oportunidades de educação e inserção profissional ajudaram a manter ali moradores que, antes, migravam para outras partes do Brasil.
O caso de Marian Rodrigues ilustra bem a transformação que Guidon provocou no sertão do Piauí. A professora nasceu num povoado que estava dentro dos limites do parque nacional, e sua família teve que sair da casa onde vivia. Ela cresceu ouvindo os lamentos do pai e dos tios sobre a remoção forçada, mas testemunhou a mudança que estava em curso. “Apesar do conflito por causa das desapropriações, a minha geração viu o desenvolvimento da região graças ao parque.”
Rodrigues se formou em letras, em 2003, pela Universidade Estadual do Piauí (Uespi). Estimulada por Guidon, fez mestrado e doutorado em arqueologia na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Portugal. No mestrado, estudou a relação das populações que viviam na Serra da Capivara com seu patrimônio arqueológico. Entrevistando jovens e idosos, constatou que as diferentes gerações percebiam de forma distinta o trabalho de Guidon. Os pais de Rodrigues nutriam rancor com as mudanças, mas os mais moços já respeitavam a arqueóloga e seu legado.
Em dezembro de 2018, nasceu o Museu da Natureza, em São Raimundo Nonato, dedicado à biodiversidade, geologia e história ambiental da Serra da Capivara. Foi a segunda instituição do tipo criada na região por iniciativa da arqueóloga, depois do Museu do Homem Americano, de 1998. A abertura da nova entidade marcou a aposentadoria de Guidon, que passou a viver recolhida em sua casa, com seus cachorros. A partir de então, se alguém puxasse conversa sobre o parque, os museus ou a arqueologia, ela reclamava (“Lá vem você falar de trabalho!”), conforme contou à piauí a uruguaia Rosa Trakalo, que trabalhou por quase cinco décadas como assistente da pesquisadora (os amigos a chamavam de “HD externo” da arqueóloga).
Mesmo antes da aposentadoria, havia quem indagasse qual seria o futuro do legado de Guidon sem a presença dela. Quando a cientista foi ao programa Roda viva, em 2014, lhe perguntei se a Serra da Capivara era “Niéde-dependente” ou se poderia andar com as próprias pernas. Na resposta, a arqueóloga disse que havia profissionais plenamente capazes de tocar a gestão do parque, mas ponderou que seus sucessores dificilmente teriam a obstinação dela para ir a Brasília atrás de recursos. “As pessoas estão dispostas a trabalhar, mas quem é que vai ficar brigando?”
À frente do parque desde 2019, Marian Rodrigues não teme pelo futuro do lugar com a morte de Guidon. “Dizem que a Niéde não preparou um sucessor, mas ela formou muita gente, sim. Cada um vai fazer um pouco do que ela fazia sozinha.” A gestora afirma que o parque está entre as prioridades do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pelas unidades de conservação federais, e que a falta de recursos não é uma ameaça hoje. “Mas, quando muda o governo, as coisas também mudam. A gente não sabe o que pode acontecer.”
O futuro da Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham), entidade criada por Guidon e responsável pela gestão do parque ao lado do icmbio, tampouco é motivo de preocupação, diz a bióloga Márcia Chame, pesquisadora da Fiocruz e diretora científica da Fumdham. “Niéde é insubstituível e continuará sendo imortal para nós, mas já faz seis anos que outros profissionais vêm cuidando de todo o processo.”
A arqueóloga morreu em decorrência de um infarto. “Ela havia registrado por escrito que não queria que sua vida fosse prolongada por aparelhos”, disse Rosa Trakalo. “Também não queria velório, mas seria impossível não fazer, porque as pessoas viriam de qualquer jeito.” A cientista foi velada no auditório do Museu do Homem Americano. A cerimônia se estendeu por nove horas, com a presença de políticos, colaboradores e moradores da região. Trakalo contou que as flores se esgotaram em São Raimundo Nonato e que não sobrou quarto livre de hotel na cidade. “Foi o último gesto de Niéde para movimentar o comércio local.”
[1] Minha apuração sobre os achados da Serra da Capivara resultou na reportagem Os seixos da discórdia (piauí_88, janeiro de 2014).