carta dos estados unidos

O SONHO AMERICANO EM FRANGALHOS

A destruição da democracia por Trump, mês após mês
Imagem O sonho americano em frangalhos

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Caro leitor,

Você não tem ideia de como a coisa está braba por aqui. Eu sei, você acompanha as notícias e pode inclusive dizer exatamente isso: as coisas nos Estados Unidos estão brabas e tal. Mas braba é uma palavra genérica, incapaz de pontuar o quanto, o como e o para quem, o até quando e o porquê. Os fatos, o clima, as consequências, a rápida erosão de um sistema de governo democrático.

Por isso escrevo esta carta. Para definir, no melhor do meu entendimento e da minha experiência, o que eu quero dizer com “brabo”. Para dar forma e conteúdo ao governo Trump.

Tem sido brutal, e o grupo ao qual pertenço com orgulho – o dos perdedores – se vê em constante choque. Há também muita revolta, negação, impotência, desespero, rancor, frustração. Mas tem algo só meu e seu, como brasileiros, se você estivesse aqui. É o sentimento de déjà vu.

Vem desde as conversas com meus pais, quando eu era menina, durante os anos da ditadura. Um casal, de 30 e poucos anos, contando para a filha o que era fugir da polícia na Cinelândia, não poder se manifestar ou votar para presidente. Eu entendi o período como ausência do que deveria ter sido, como algo precioso roubado aos meus pais. A injustiça feita à geração deles se tornou a minha. Ela abriu minha percepção para a longa cauda de consequências de um governo autoritário: a alienação do povo, a mediocridade dos líderes, corrupção, violência, desigualdade.

O que está acontecendo aqui é parecido.

Trump governa ignorando a Constituição, esvaziando o governo, aterrorizando pessoas e atacando instituições. Aquele “E daí?” do Bolsonaro é o mantra diário dele. Os americanos, tão competentes no uso da língua, tão pragmáticos e sempre indo ao ponto, escolhem chamar as medidas autoritárias e ilegais de “crise constitucional”. Uma crise é temporária e pode ser resolvida. Passa a ideia de caos e instabilidade, mas também de limite, movimento e esperança. Já totalitarismo, autocracia, fascismo sugerem algo maior em escopo e duração. Algo que almeja o definitivo, e mesmo que não seja para sempre é poderoso o suficiente para transformar um país.

Esse “brabo”, se dando aqui, vai perdurar por dois anos (até as eleições para o Congresso), ou quatro (eleições para presidente), ou mais. É terrível e também fascinante, e me vejo acompanhando tudo de um lugar estranho. Como se estivesse na plateia de um show pirotécnico encenado por sádicos. Vejo como queimam os mais vulneráveis. Por enquanto nada me aconteceu, mas esses sádicos controlam o fogo, e se o teatro queimar eu estou dentro.

Comecei a escrever este texto em janeiro, mentalmente, só para mim. Lendo as notícias, eu pensava: isso não é normal, nem aquilo, nem isso. Era o início de uma nova era de normalização do impensável. Em menos de seis meses, os Estados Unidos deixaram de ser a terra da liberdade, tolerância e democracia para se tornar um lugar de censura, opressão, caos e terror.

Entenda, portanto, essa carta como um fio de Ariadne: a tentativa de abarcar o que vem acontecendo desde janeiro até junho, quando me vi num lugar, a grande Los Angeles, com toque de recolher e tropas no Centro da cidade. Com gente sendo presa em seus trabalhos de lavadores de carro ou de vendedores de fruta nas esquinas. Com estudantes e familiares com medo de serem detidos nas cerimônias de graduação.

Brabíssimo, caro leitor. E só se passaram seis meses.

JANEIRO

Nos primeiros dias do ano, eu me juntei a milhões de americanos e evitei me informar – a audiência da CNN caiu 47% depois das eleições para presidente, em novembro passado. Ignoro o jornal impresso e bloqueio os sites de notícia. O povo quer esse homem? Pois então eles se merecem. Donald Trump ganhou no voto popular, no Colégio Eleitoral, tem maioria no Senado, no Congresso e na Suprema Corte.

A única menção ao governo que me é imposta está no e-mail do diretor da escola de meus filhos, reconhecendo a mudança política e assegurando a proteção a estudantes sem documentos. Nas entrelinhas: não importa se a criança descende dos fundadores do país ou se atravessou na semana passada a fronteira, cruzando o deserto a partir da cidade mexicana Tijuana. A escola promete protegê-los e ensinar.

É um e-mail esperado, considerando que vivo em Santa Mônica, na Califórnia, uma das bolhas democráticas dos Estados Unidos. Imagine o mapa americano com duas faixas azuis: uma no litoral do Oceano Pacífico, outra do lado oposto, ao Norte, na costa do Atlântico. Imagine o centro do país em vermelho, com algumas rajadas de azul sobre os centros urbanos: Chicago, Denver, Atlanta, Filadélfia. Eu vivo na faixa azul (onde predomina o eleitorado democrata). Mas bastam três horas de viagem rumo ao interior e estou em outra América, a vermelha (do eleitorado republicano), menos miscigenada e mais religiosa, com lojas de armas e cartazes pró-Trump. Parece um estereótipo, e ali, de fato, eu me sinto em um cenário de exageros, a ponto da descrença. Eu me percebo num lugar que não me absorve, onde destoo pelo sotaque e a aparência. Era essa outra América – e o projeto de país que essa parte ambiciona – que eu evitava ao ignorar as notícias.

Durou menos de uma semana. No dia 7 de janeiro, minha filha ligou da escola para me contar sobre um incêndio próximo. A Santa Monica High School fica a seis quadras da praia, num planalto, em uma área de prédios baixos. A vista do terceiro andar do colégio alcança até a cadeia de montanhas por onde sobem as construções de Malibu, Pacific Palisades e Brentwood. À uma da tarde daquela terça-feira, os alunos trocaram as mesas de estudo pela vista privilegiada de um incêndio histórico. Pelos próximos dias, cerca de 230 milhões de m², uma área equivalente à de Washington D.C. queimaria na Região Metropolitana de Los Angeles.

Peguei meus dois filhos na escola e nos trancamos em casa, acompanhando a situação pela internet e a tevê. Ventos de até 160 km/h alimentavam as chamas. No site da prefeitura, um mapa estendia a área de evacuação até poucas quadras de onde moramos. Fizemos e desfizemos as malas várias vezes, conforme o vento soprava, com mais ou menos força. Foram dias de medo e expectativa, noites de sono inquieto, madrugadas em que soavam os alarmes públicos nos celulares, alertando para a evacuação. Sirenes de bombeiros, polícia e ambulância, o cheiro denso das coisas queimadas, residências próximas saqueadas, notícias de amigos que perderam tudo no fogo, informações sobre mortes. Quando o incêndio foi contido, metade da área em que eu circulo – os parques, as trilhas nas montanhas, cafés e restaurantes em Malibu, Pacific Palisades e Brentwood – tinha deixado de existir.

Em meio à tragédia coletiva, Trump toma posse. Em questão de dias, são apagadas 8 mil páginas de sites do governo com programas educativos, benefícios para veteranos, pesquisas científicas e informações sobre vacinas. São cancelados programas de empréstimos e bolsas de estudos. Trump culpa os democratas pelos incêndios na Califórnia e ameaça cortar a ajuda financeira. Perdoa os envolvidos no ataque ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021. Cancela o programa de retirada das bombas inativas no solo de países como Iraque e Ucrânia. Também cancela voos para refugiados aprovados pelo governo anterior, de Joe Biden. Sugere realocar a população de Gaza no Egito e na Jordânia. Começa a prender imigrantes e fala em retomar o controle do Canal do Panamá. Sugere comprar a Groenlândia (que nunca esteve à venda) e decide mudar o nome do Golfo do México (que não pertence aos Estados Unidos) para Golfo da América. Exige a transferência de mulheres trans para prisões de homens e dá ao grupo de Elon Musk acesso ao sistema de pagamentos do governo. Sugere que vai lutar por um terceiro mandato (o que não é possível nos termos atuais da lei americana).

Trump surpreendeu pela rapidez das mudanças, a crueldade das medidas e o desprezo pelas instituições. O início de seu governo foi ainda mais traumático para os californianos democratas, afetados pelos incêndios.

Steve Bannon, um dos ideólogos do primeiro governo Trump e ainda influente na atual administração, afirmou que o papel de Trump é desconstruir o governo. Ou como ensinou Maquiavel: todo o mal deve ser feito de uma só vez.

A sensação é de caos, mas existe método na destruição.

Caro leitor, talvez você tenha ouvido falar do Mandato para liderança – A promessa conservadoraProjeto 2025: um documento de mais de novecentas páginas feito por cerca de 54 organizações de direita e 304 conservadores. Foi publicado em 2023 com o intuito de guiar as medidas do novo governo de Trump. O projeto propõe a total reconstrução ideológica dos Estados Unidos, baseada na moral conservadora cristã.

Algumas recomendações: reduzir drasticamente o número de servidores públicos federais, incluindo a demissão em massa daqueles que não se alinham com o governo; concentrar mais poder no presidente; cancelar programas que garantam mais diversidade no governo (seja de raça, gênero ou sexualidade); impedir que as escolas ensinem que o racismo é parte da base histórica dos Estados Unidos; usar fundos públicos para financiar escolas privadas cristãs; restringir o acesso a certos contraceptivos como a pílula do dia seguinte; reformar e cortar pessoal do FBI (a principal agência que investiga crimes financeiros, de corrupção, de ódio e de terrorismo).

Dezenas de colaboradores do Projeto 2025 estão agora na administração do Estado. Dois terços das primeiras ordens de Trump se assemelham a essas recomendações.

FEVEREIRO

Trump anunciou a venda de centenas de prédios do governo. Cancelou 83% dos programas da Usaid, a agência americana que presta ajuda humanitária em vários países. Se opôs a uma resolução das Nações Unidas exigindo a retirada de tropas russas da Ucrânia e culpou Zelensky pela guerra. Demitiu milhares de funcionários públicos do Pentágono, da receita federal, do Usaid e outros órgãos. Impediu repórteres da agência de notícias Associated Press de acompanhar eventos na Casa Branca. Anunciou cortes de 900 milhões de dólares do Departamento de Educação. O próprio perfil oficial da Casa Branca postou no X uma imagem de Trump com uma coroa e os dizeres Long live the king (vida longa ao rei).

“A verdadeira oposição é a mídia”, disse Bannon, durante o primeiro mandato de Trump. “A forma de lidar com ela é entupindo a zona de merda.”

Não é bom viver num lugar em que a ideologia de Bannon se realiza, caro leitor. Onde acontece tanta coisa de anormal que fica impossível elaborar o raciocínio. Comecei a ler as notícias em busca de pistas. Quando e como um sistema democrático se desfaz? Se há um golpe de Estado, com tanques na rua, prisões e mortes, temos claro que algo aconteceu. Mas como saber da ruína da democracia quando o cotidiano continua intocado e a violência não nos atinge diretamente? Quando ninguém nos priva dos confortos da classe média ou da possibilidade de criticar o governo nas redes sociais?

Ouço os primeiros rumores de prisões de imigrantes em seus locais de trabalho. Vou à Home Depot, loja de material de construção próxima de onde eu moro, e percebo a ausência de homens no estacionamento. Era comum vê-los sentados no meio-fio ou encostados na porta de caminhões velhos, à espera de quem lhes oferecesse um dia de trabalho. Também desapareceram as mulheres latinas que vendiam fruta nas esquinas da cidade. Era uma imagem típica de Los Angeles: dobrar uma rua e deparar com o carrinho cheio de fatias de abacaxi, manga, laranja e melancia para serem vendidas em um copo. Ao lado do carrinho, a mulher de origem mexicana, com longos cabelos negros sentada em um banco, à espera de clientes.

Essas pessoas são agora inimigas do Estado. O site da Casa Branca afirma estar protegendo o país de uma invasão e define imigrantes sem documentos como “forasteiros”. Diz o site que esses imigrantes apresentam “ameaças significativas contra a segurança nacional e a estabilidade pública, cometendo atos vis contra americanos inocentes. Outros se engajam em atividades hostis, incluindo espionagem, espionagem econômica e preparação para atividades de terrorismo”.

Eu moro nos Estados Unidos há dezessete anos. Vim por questões pessoais e me mantive legal no país primeiro com o visto de estudante e depois pelo trabalho em uma editora em Manhattan. As babás que permitiram que eu trabalhasse eram brasileiras. Pequenos consertos na casa eram feitos por latinos. Os médicos que me atenderam eram judeus, coreanos, chineses e do Leste Europeu. As enfermeiras, na maioria, das Filipinas. Ao sair para jantar com meu marido (de família cubana), falávamos espanhol com garçons mexicanos. Taxistas e motoristas de Uber poderiam ser do Afeganistão, Iraque, Colômbia, Índia, Congo, Bangladesh. Aluguei o apartamento de um italiano, tive vizinhos do Japão, da Espanha e do Laos, fiz a capa para o sofá com um vietnamita. Dezenas de vezes, falando com estranhos e percebendo o sotaque, perguntávamos um ao outro de onde vínhamos. Mais de uma vez descobri estar falando com um brasileiro.

Em 2017, eu me tornei cidadã junto com outras 6,3 mil pessoas de 130 países no Centro de Convenções de Los Angeles. Foi uma grande festa, com algumas mulheres de vestido longo carregando buquê de flores, homens de terno e gravata, famílias reunidas para assistir e celebrar. Nunca estive em um lugar tão diverso e cheio de otimismo e esperança. Nunca ouvi tantas línguas e percebi tantas cores de pele. Para muitos a cidadania era como uma certidão de renascimento. Um novo começo, oficial, longe de seus países destruídos por guerras, miséria, ditaduras, extremismo religioso.

Entendi naquele dia que ser americana é habitar um lugar de todos. Que eu jamais deixaria de ser brasileira tornando-me americana porque esse não é um país que se faz por exclusão, mas por inclusão e tolerância. A cerimônia foi, para a maioria, a realização dos versos de Emma Lazarus, impressos no pedestal da Estátua da Liberdade:

Dá-me os teus cansados,

os teus pobres,

as tuas massas aglomeradas que

          anseiam por respirar livres,

os rejeitados miseráveis da tua costa                    fervilhante.

Envia-me estes, os sem-teto sacudidos

          pela tempestade.

Levanto minha lâmpada ao lado da                      porta dourada!

Emma Lazarus, por sinal, era americana de origem judaica sefardita, descendente de imigrantes de Portugal que viveram no Brasil. A família foi para Manhattan fugindo da perseguição religiosa no Recife.

Deportações sempre existiram. O governo George W. Bush expulsou cerca de 10 milhões de imigrantes ilegais, entre deportações e retornos voluntários (quando a pessoa é detida na fronteira, por exemplo, e volta dali). O governo Bill Clinton: 12,3 milhões. O governo Barack Obama: 5,2 milhões. Mas nenhum governo antes definiu o imigrante ilegal como criminoso, separou famílias ou impediu julgamento antes da deportação. Todos respeitaram o “jeitinho americano” de usar mão de obra barata e ilegal para mover a economia. Os imigrantes são, sobretudo, mãos: lavando, passando, cozinhando, cuidando, consertando, plantando, dirigindo, embrulhando, entregando, limpando, construindo. Não existe um americano que não tenha se beneficiado desse arranjo. Se o imigrante for ativo e desembaraçado, se trabalhar de dia e de noite, se jamais ficar doente ou sofrer acidente, ele vai tocando a vida na clandestinidade até conseguir documentos.

O que o governo Trump está fazendo não é proteger as bordas ou deportar criminosos. Não é retirar uma camada de forasteiros do país, mas retirar do país uma parte dele próprio. É ameaçar a identidade e a economia americana.

MARÇO

No início do mês, o governo define as palavras e expressões que devem ser banidas, evitadas e limitadas por agências federais, documentos, sites, programas de saúde pública e pedidos de bolsa de pesquisa. São mais de 350 palavras, como: antirracismo, ativismo, aborto, negro, energia limpa, crise climática, apropriação cultural, deficiências, discriminação, diversidade, igualdade, feminismo, inclusão, diversidade de gênero, discurso de ódio, minoria hispânica, desigualdades, injustiça, LGBTQIAPN+, marginalizado, saúde mental, minorias, multicultural, político, poluição, prostituta, racismo, segregação, preferências sexuais, justiça social, transgênero, vacinas, vítima, populações vulneráveis, mulher, mulheres.

A compilação é praticamente um serviço público, ao produzir pelo negativo o perfil do governo: não se pode falar de imigrantes, latinos, negros e mulheres, mas se pode falar de homens brancos. Não se pode mencionar energia limpa, mas petróleo pode. Não se pode falar de justiça social, mas de armamentos pode.

É como se todas as palavras da língua inglesa formassem um grande bloco de mármore. O bloco está sendo esculpido por uma elite com rígida visão do produto final. A cada investida no mármore as palavras que divergem dessa ideia se desprendem. No fim do projeto, e rodeado por lascas caídas ao chão, surgirá a escultura do Homem Branco Hétero. Então alguém chega, varre a sala, e o que foi eliminado desaparece.

Palavras dão sentido ao mundo, acrescentam nuances, são a base de pensamentos complexos. Quando limitadas, o próprio entendimento do entorno se limita, e o debate público empobrece.

A palavra que melhor define o mês é “expurgar”. Descubro que o Pentágono deletou de seu site o perfil de funcionárias notáveis. O cemitério militar de Arlington apagou as páginas sobre mulheres veteranas. Remover estes perfis é afirmar que mulheres profissionais brilhantes nunca existiram. Nas palavras da escritora Anna Funder: “O milagre do homem e suas obras-primas se dá fazendo as mulheres desaparecerem.”

O salário mínimo dos servidores públicos federais foi reduzido de 17,75 dólares para 13,30 dólares a hora. O número de funcionários públicos demitidos chegou a 25 mil (quase a totalidade foi recontratada, por ordem judicial). Como punição ao que define como manifestações antissemitas, o governo cancelou 400 milhões de dólares que seriam destinados à Universidade Columbia e prendeu os primeiros estudantes estrangeiros por manifestações pró-Palestina.

Um dos programas mais degradantes da tevê americana é Neighbourhood wars (Guerra entre vizinhos, transmitido por Hulu e outras plataformas de streaming). Nele pessoas se estapeiam, furam pneus e quebram os vidros dos carros, se atacam com mangueiras, são apartadas pela polícia e ameaçam matar uns aos outros. Vi um menino se aproximar de uma casa e chicotear a porta. O dono da casa (negro) vai reclamar com o vizinho e pai do menino (branco). Os dois trocam ameaças de morte. Corta para outro caso e a imagem de uma cerca sendo erguida entre duas casas. A vizinha que não pagou pela cerca acusa os trabalhadores de fazerem sujeira. Chega a outra vizinha e diz que tem o direito de fazer a cerca. A que reclama acusa os trabalhadores de olharem para ela quando tomava Sol de biquíni. “Você não deve falar assim”, diz uma. “Eu falo como bem entendo”, diz a outra. “Baixe a voz”, grita uma. “Não baixo”, afirma a outra. “Esta é a porra da América! E eu sou branca!”

Descobri o programa por acaso, zapeando canais. Fiquei fascinada pela baixaria, esperando o pior.

Algo semelhante está acontecendo quando acompanho as notícias do governo. Eu me vejo ansiando pela próxima manchete que irá me chocar. O desejo vem de um lugar em mim que se acostumou com o espetáculo e anseia para que seja intenso. Eu me percebo incrédula e provocativa, com a voz do que há de pior em mim procurando o pior dos fatos. “Eu quero ver se você é capaz de me chocar”, diz a voz.

Da tevê trash à alta literatura. O escritor tcheco Bohumil Hrabal (1914-1997) descreveu um sentimento parecido no livro Eu servi o rei da Inglaterra. O protagonista, passando por uma área destruída pela Segunda Guerra Mundial, se vê admirando as ruínas:

Eu estava fascinado em observar uma destruição que também me aterrorizava. Quando a desgraça ocorre, quem pode se aproxima e olha fixo para o machado no crânio, para o corpo da mulher sob o bonde. Eu não tentei fugir, e estava inclusive satisfeito, e percebi que a desgraça, o sofrimento e as atrocidades não eram suficientes para mim. Eu poderia ter mais, não apenas eu, mas o mundo.

Trump não desaponta. Para mim, a imagem representativa do que houve de mais baixo até agora é a de imigrantes sendo extraditados para uma prisão de segurança máxima em El Salvador. Acusados de pertencer a uma gangue, os 238 homens foram enviados para lá pelo governo. Não se sabe muito sobre eles, nem mesmo se todos são criminosos. Alguns estavam no país sem documentação. Outros tinham dado entrada ao pedido de asilo político. A prisão para onde foram em El Salvador é, segundo autoridades locais, um lugar de onde as pessoas não saem mais. Presos dormem em camas comunitárias sem lençol nem travesseiro, as luzes das celas ficam acesas dia e noite e a entrada de ativistas de direitos humanos é proibida. Juízes pediram a volta dos presos aos Estados Unidos, para que fossem julgados conforme as leis americanas. O governo Trump ignorou. Os juízes insistiram. O governo Trump: e daí? A imprensa: estamos vivendo uma crise constitucional.

Kristi Noem, secretária de Segurança Interna, visitou a prisão em El Salvador. Em uma imagem, ela aparece na frente de uma cela onde estão apinhados dezenas de homens de pele escura e cabeça raspada, cabisbaixos. Noem tem os cabelos castanhos e soltos, veste boné azul e uma camiseta branca colada ao corpo. No pulso esquerdo, um relógio Rolex dourado.

Roupas passam mensagens. A mensagem que Noem escolheu passar naquele dia foi: peitos. Rosto esteticamente impecável e sem expressão, maquiagem pesada, acentuando a boca e os olhos, a roupa exaltando as partes do corpo que alimentam o desejo masculino. É uma imagem com dois pontos focais destoantes, e eu me percebo alternando o olhar entre os presos ao fundo e a Barbie à frente. O feminino de Noem é uma traição ao feminismo, que por conceito significa justiça, empatia e igualdade.

*

Em Santa Mônica, o céu agora está azul, as palmeiras se exibem exuberantes, e não se agitam como caniços pardos, como nos dias de vento e fogo. Praia com gente caminhando, correndo e andando de bicicleta. Turistas no píer, lojas e bares cheios. As flores brancas dos pés de jasmim indicam que a primavera está próxima.

Uma vez por ano, as escolas públicas abrem as portas para a visita dos pais. Vamos de sala em sala, para conversar com os professores e nos inteirarmos sobre o currículo. Atravesso o gramado e entro no prédio retangular da escola de ensino médio. No corredor, passo por um painel de 2 metros de largura, intitulado Escola Segura, com informações sobre escolhas sexuais, indicações de livros de conteúdo LGBTQIAPN+ e números para os estudantes ligarem se precisarem conversar sobre sua saúde mental. O painel seguinte tem o título Mulheres Fenomenais e traz fotos e biografias de Frida Kahlo, da ex-
candidata presidencial Kamala Harris, da juíza da Suprema Corte Sonia Sotomayor, da astronauta Crista McAuliffe.

Entro na sala onde meu filho de 13 anos tem aulas de história e inglês. Todas as paredes estão cobertas por cartazes e post-its. Um dos cartazes é sobre microempréstimos para empreendedores de países pobres. Vejo a foto de uma mulher, Aishakul, do Cazaquistão, que precisa de um empréstimo de 25 dólares para melhorar as condições de vida de suas quinze vacas. E a foto de Hassan, de Uganda, que pede 25 dólares para comprar fertilizantes para sua plantação de café.

Em outra parede, em pequenos retângulos, estão escritos os nomes de pessoas que fazem ou fizeram a diferença (upstanders) em suas comunidades. O destaque daquela semana é Patsy Mink (1927-2002), a primeira mulher de origem asiática a ser eleita para o Congresso, conhecida por fazer avançar os direitos das mulheres. Em torno do nome dela, as perguntas: O que ela tentou conquistar? Como agiu? Que palavras poderosas e ideias divulgou? Ainda precisamos de ativismo nessa área? Em um quadro, há o desenho de letras e mosaicos árabes feitos pelos alunos, além de fotos da ativista afro-americana Rosa Parks (1913-2005), da ativista paquistanesa Malala Yousafzai (nascida em 1997), do líder indiano Mahatma Gandhi (1869-1948) e do promotor Benjamin Ferencz (1920-2023), procurador dos Estados Unidos em um dos processos de Nuremberg que julgaram os crimes nazistas.

Sobre as mesas de cada aluno estava o poema que fizeram, De onde eu sou, inspirado em trabalho homônimo da poeta George Ella Lyon. Alguns versos feitos pelas crianças:

Eu sou da Califórnia e do México
Eu sou da Alemanha e França
Eu sou do Brasil e Porto Rico
Eu venho da minha avó, ainda conosco,
sobrevivente do Holocausto
Eu sou feita de tortilhas e tamales
Eu venho do meu avô no Egito
Eu sou da Croácia e do Chile
Eu sou do Japão e de Nova York
Eu venho da Itália, do Colorado e da
Argentina
Eu venho de mi abuelita, do México
e de Seattle.

Eu visito a escola todo ano. Mas nunca o conteúdo me pareceu tão nítido, tão bem delineado, pelo contraste que cria com o que está acontecendo no país. Pela primeira vez, percebi a escola como um lugar de resistência, onde se constrói o que o governo quer apagar. Se por um lado o contraste é bem-vindo, por outro indica que aquilo que eu considerava natural (conhecimento, direitos humanos e civis, pensamento crítico, diversidade) é agora subversivo.

ABRIL

A mulher de origem mexicana que limpa nossa casa uma vez ao mês conta que seu vizinho foi deportado. Amigos com green card evitam postar sobre política, por medo de deportação. Na revista The New Yorker, um texto explica sobre como se proteger em regimes totalitários e como resistir a eles. Dedicada ao jornalismo, à alta literatura e aos cartuns sofisticados, a revista sugere aos leitores usar mensagens criptografadas e apagar o conteúdo das redes sociais.

Vivo agora em um país onde estudantes estrangeiros são detidos e têm medo de se manifestar, onde imigrantes são presos enquanto procuram trabalho, onde pessoas acusadas de pertencer a uma gangue podem desaparecer, sem julgamento, numa prisão na América Central. Onde o presidente ameaça escritórios de advocacia, universidades e empresas que mantêm programas que promovem a igualdade de oportunidades. Onde cientistas perdem recursos para pesquisa e planejam se mudar para outros países. Onde o presidente processa veículos de imprensa, exigindo bilhões. Onde os preços variam conforme a tarifa imposta – ou não – pelo governo. Onde legisladores trabalham para cortar serviços de saúde da população mais pobre e de pessoas acima de 65 anos, para que milionários paguem menos impostos. Onde a demissão de fiscais, o fechamento de órgãos reguladores e a escolha de aliados para altos cargos públicos possibilitam a manutenção do governo mais corrupto da história americana – a fortuna da família de Trump aumentou 3 bilhões de dólares desde janeiro, faturando em acordos internacionais e criptomoedas. Vivo em um país onde o secretário de Saúde, Robert Kennedy Jr., acredita que vacinas causam autismo, que produtos químicos na água podem alterar o sexo das crianças e que a Aids não é causada pelo vírus HIV, mas por poppers, droga usada para aumentar o prazer sexual. Onde se discute a possibilidade de anular o habeas corpus.

É esse o “brabo” a que me referia, leitor.

*

No feriado da Páscoa, viajei para Nova York. É a terra de Trump. Foi das escadas da Trump Tower, na Quinta Avenida, que ele desceu em 2015 para a primeira aparição como candidato a presidente. Em abril passado, em uma manhã de sexta-
feira, o prédio estava protegido por grades e cercado por seguranças. Um homem de terno com uma máscara de Trump andava de um lado para o outro em frente à entrada, movimentando-se com gestos histriônicos. Turistas passavam perto, sem dar bola. A poucos metros, em mesas improvisadas na calçada, imigrantes africanos vendiam bonés com o slogan dos trumpistas: Make America Great Again. Lojas de suvenires exibiam camisas com a famosa foto feita durante o atentado a Trump, em que ele aparece com o sangue escorrendo pela orelha ferida. Na Union Square, uma senhora vestida de rosa empunhava solitária um cartaz em favor da democracia. As bancas e lojas de conveniência que restam na cidade ofereciam jornais com manchetes sobre as tarifas do presidente e a queda alarmante do mercado de ações. Os muros do East Village estavam cobertos por cartazes com a foto de Mahmoud Khalil, estudante da Universidade Columbia preso pela polícia migratória devido a protestos pró-Palestina. Junto à foto, estava a carta que ele escreveu da prisão. Um trecho diz:

Escrevo para você de uma unidade de detenção na Louisiana, onde acordo em manhãs frias e passo longos dias testemunhando as injustiças silenciosas contra pessoas privadas das proteções da lei. […] O governo Trump está me perseguindo como parte de uma estratégia mais ampla para suprimir a dissidência. Pessoas com visto, residentes permanentes e até cidadãos serão perseguidos por suas crenças políticas. […] O que está em jogo não são apenas nossas vozes, mas as liberdades civis fundamentais de todos.

Para onde quer que eu olhasse em Nova York, via política. E entendi que essa atitude não seria passageira, mas uma nova forma, atenta e apreensiva de viver no país.

MAIO

É preciso coragem para dar nome ao irreversível. Morte, divórcio, câncer, partida, ditadura, fascismo. A palavra esclarece e define, dá forma e sentido ao que antes era conveniente e seguro ignorar, demanda entendimento e ação.

Agora se está falando menos em “crise constitucional”. A palavra usada mais abertamente é “fascismo”. O New York Times publica um vídeo com Marci Shore, Timothy Snyder e Jason Stanley, todos ex-professores da Universidade Yale (hoje na Universidade de Toronto), associando o momento atual dos Estados Unidos à Alemanha de Hitler e à repressão na União Soviética. Eles sugerem estabelecer centros de resistência e organizar a população. Comparam os Estados Unidos com o Titanic, o transatlântico que todos asseguravam jamais naufragar. Usam palavras exóticas aos americanos e agora relevantes. Uma delas é “expurgo” (de imigrantes e estudantes estrangeiros). Outra é proizvol (do russo): o governo pode fazer o que quiser com você, e não há formas de se defender. Em um momento, Jason Stanley diz: “Você sabe que está vivendo numa sociedade fascista quando pensa constantemente nas razões pelas quais está seguro.”

Escrever este artigo me ameaça? Posts no Instagram me comprometem? Se eu viajar para o exterior terei permissão para voltar?

A erosão da democracia prossegue. O prefeito de Newark, em Nova Jersey, é preso em um protesto contra a polícia migratória. A bibliotecária do Congresso, uma mulher negra, é demitida, acusada de dar “livros inapropriados para crianças”. Oklahoma muda o currículo de história do ensino médio, exigindo que se ensine uma fake news: a de que o Partido Democrata roubou as eleições de 2020. Trump aceita um jato de luxo do Catar, presente avaliado em 400 milhões de dólares, para usar durante o período na Presidência e depois transferir para seu uso particular. O envio de 32 imigrantes para a prisão em Guantánamo, cheio de simbolismo, custa aos cofres públicos 21 milhões de dólares. A canção Heil Hitler, de Kanye West, é lançada no 80° aniversário da derrota dos alemães na Segunda Guerra e ouvida milhões de vezes nas plataformas X e YouTube. Trump quer literalmente tirar os brinquedos das crianças, ameaçando impor à indústria Mattel, fabricante da Barbie, uma tarifa de 100%. Kristi Noem, a secretária de Segurança Interna, planeja um reality show com imigrantes competindo pela cidadania americana. Quando é indagada sobre o que é habeas corpus, ela responde que se trata do direito constitucional do presidente de remover pessoas do país.

*

Faço outra viagem, agora com minha filha de 15 anos, para o Parque Nacional da Sequoia, no centro da Califórnia e ao Sul da Sierra Nevada. Sequoias são as maiores árvores do mundo, com até 85 metros de altura e 10 metros de diâmetro, o equivalente a um prédio de 28 andares, e cuja circunferência tem o tamanho de um pequeno estúdio. São criaturas maciças, resilientes e anciãs. Chegam a ter mais de 3 mil anos e exibem as marcas da permanência nos troncos corroídos e calcificados por incêndios.

Perto de uma sequoia, somos como bonequinhos de Lego. Nossos problemas e nossa estada na Terra se tornam pequenos. É o desafio da vida inteira: o balanço entre a consciência de ser bem pouco e a urgência de, com este pouco, ser relevante para nossa insignificante e extraordinária comunidade de legos.

Cai neve no primeiro dia, deixando o entorno bem quieto e em paz. Há pássaros e corças, cachoeiras e riachos, o verde-escuro do musgo cobrindo pedras, variações de negro, marrom e cinza em árvores e troncos tombados e escurecidos por incêndios. Ao menos ali e por alguns dias eu pensei que a política seria tão insignificante para mim quanto eu sou para uma sequoia.

No segundo dia, vamos a uma cidade próxima encher o tanque do carro. Vejo o anúncio de uma feira de antiguidades no pátio de uma igreja e decido parar. As mesas enfileiradas exibem ferramentas e eletrodomésticos usados, montes de roupas surradas e pilhas de livros, a maioria de temas religiosos. Num estande ao canto, dois homens de pele e olhos claros, vestidos de jeans e camisa xadrez, abordam os passantes. Um deles entrega algo para minha filha.

É um feto.

Eu me aproximo. A mesa do estande está coberta de fetos de borracha maleável, com 2 cm de altura, a cabeça proporcionalmente maior que o tronco e em posição fetal, todos dentro de saquinhos plásticos. É uma imagem sinistra. “É assim que se parece um bebê de oito semanas”, afirma um dos homens. “Já está todo formado. É um ser humano como nós.”

Eu estava na outra América. Mais branca, religiosa e conservadora. Visível na aparência dos homens e na audácia de usar a autoridade masculina para influenciar a escolha reprodutiva de uma adolescente.

Permanecemos alguns segundos em silêncio. Eu e minha filha segurando o feto de borracha de um lado, e os homens em seu estande, do outro. Não havia diálogo, não havia empatia ou entendimento. Eu pertenço a um mundo em que o assédio antiaborto de dois homens a uma adolescente é uma violência. Eles pertencem a um mundo onde ensinar a uma jovem sobre métodos contraceptivos e direito universal ao aborto significa violência.

Colocamos o feto no porta-luvas e voltamos para casa. Aquela coisa macabra dentro do saco plástico me incomodava. Para tantas mulheres, o feto representa uma vida mais preciosa que a delas. Para mim, aquele objeto era o símbolo do retrocesso, da misoginia e do machismo, do controle alheio sobre o corpo feminino, da coerção por meio da ignorância, do medo e da culpa.

Junto ao feto havia um cartão da ONG Heritage House ’76, descrevendo a evolução do “bebê” (e não embrião), desde o primeiro dia de concepção. Em seu site a entidade diz que tem como missão “salvar e transformar vidas, oferecendo ferramentas e recursos essenciais para orientar os indivíduos a fazer escolhas certas e conforme a vontade de Deus”, além de promover “uma mistura harmoniosa de verdade e amor, moldando interações internas e externas, enquanto nos esforçamos para causar um impacto positivo no mundo”.

A escolha de palavras é vaga, os clichês abundam, a mensagem é imprecisa e propositadamente enfraquecida por generalizações. Como diz George Orwell, no ensaio A política e a língua inglesa, pensar e escrever com clareza é o primeiro passo para um maior entendimento político:

A mistura do que é vago com a incompetência é a marca mais evidente da […] escrita política. Assim que certos temas são abordados, o concreto se dissolve no abstrato e ninguém parece conseguir pensar em expressões que não sejam clichês. A prosa passa a ser composta menos por palavras escolhidas em função de seu significado, e mais por frases prontas encaixadas como partes de um galinheiro pré-fabricado.

JUNHO

Viajo a trabalho por quinze dias para a Europa. Quando volto, o país é outro. Há mais militares no Centro de Los Angeles do que os Estados Unidos mantêm no Iraque e na Síria. Trump enviou as tropas como resposta à resistência de civis contra a prisão de trabalhadores numa confecção de roupas. A maior parte da manifestação foi pacífica, mas houve também saques e queima de carros. Imagens de destruição são transmitidas a milhões nas redes, servindo ao governo para justificar o uso da força militar contra civis e dizer que o caos reina na Califórnia.

Protestos e conflitos concentraram-se em cinco quarteirões da cidade, e não impediram que a ópera Rigoletto fosse apresentada a poucas quadras do epicentro das manifestações ou que as pessoas que trabalham no Centro mantivessem sua rotina. No geral a cidade permanece em paz, embora resistente às investidas do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês).

Os protestos não acontecem apenas em Los Angeles. Nas redes sociais, há centenas de vídeos de civis tentando proteger imigrantes em todo o país. Alguns chegam a ser cômicos: moradores de uma comunidade em San Diego, na Califórnia, enfrentam as forças da repressão gritando “Vergonha!” e vemos os policiais, fardados ao estilo Robocop, voltarem acuados para seus carros. Outros revelam crueldade e covardia: homens armados perseguem e capturam trabalhadores de uma extensa plantação de morangos. Há também os que se aproximam do terror político: um candidato a prefeito de Nova York é detido tentando proteger um imigrante em um tribunal de Justiça; o senador democrata Alex Padilla (de pais mexicanos) é detido e algemado apenas por fazer uma pergunta a Kristi Noem, a secretária de Segurança Interna, em uma coletiva de imprensa. É a erosão da democracia, ele disse depois. “Se um senador pode ser silenciado e detido dessa forma, cidadãos comuns correm um risco ainda maior.” O ex-presidente Barack Obama se manifesta. “O que estamos vendo agora não é compatível com a democracia americana”, ele disse. “É compatível com autocracias.”

Há muito mais resistência, caos, violência, prisões. Muito mais medo e incerteza. Quando passo por trabalhadores num prédio em construção, pelos jardineiros latinos nas suas picapes com ferramentas enferrujadas na caçamba, pelas faxineiras entrando em seus carros velhos com vassouras e baldes, eu sei que estão todos em perigo.

O governo Trump determinou que o ICE deve prender 3 mil pessoas por dia. Imigrantes são detidos em clínicas de saúde, pontos de ônibus, tribunais e escolas. “Há famílias que pela primeira vez têm algum de seus membros se formando em uma high school [equivalente ao ensino médio] e estão com medo de assistir à cerimônia de formatura e serem deportadas. Que país estamos nos tornando?”, afirmou o superintendente das escolas públicas de Los Angeles, Alberto Carvalho, americano de origem portuguesa. No jantar, minha filha comenta que um carro com agentes do ICE estava rondando a sua escola. Meu marido e eu nos olhamos, sem ideia de como reagir. Chega um e-mail do diretor da escola, explicando que a informação sobre o ICE não foi confirmada. Ele reconhece que algumas famílias estão com medo de participar da cerimônia de formatura e tenta tranquilizá-las, afirmando que agentes federais precisam de uma ordem judicial para entrar na escola.

A lei garante que qualquer criança nos Estados Unidos tem direito à educação, independentemente de ser cidadã americana ou não. A matrícula nas escolas públicas é feita mediante o comprovante de residência – se a criança mora na área da escola, tem o direito de estudar ali. Ao longo dos anos, meus filhos (que são cidadãos americanos) estudaram com crianças sem cidadania. Nunca foi um problema para mim ou outros pais.

No dia seguinte, meu filho também fala de policiais rondando a sua escola. Comento com os pais de outras crianças e ninguém sabe dizer se são agentes da polícia migratória ou policiais municipais (que estariam ali para proteger a escola das investidas da polícia migratória).

É tudo confuso, imprevisível, ameaçador e, principalmente, novo. Estudantes de sete escolas públicas de Los Angeles foram presos e deportados com suas famílias. No parque perto de minha casa, babás entram em pânico e fogem quando percebem um homem filmando o local. A cidade de Pasadena cancela as atividades em praças públicas durante o verão, temendo a presença do ICE. Torcedores brasileiros venderam seus ingressos para o Mundial de Clubes (que acontece em vários estádios americanos) por medo da polícia migratória. O ICE tentou entrar no estacionamento do estádio de baseball do Dodgers, em Los Angeles, e foi impedido.

Comunidades se organizam pelas redes, com pessoas se oferecendo para fazer compras para trabalhadores sem documentos com medo de sair às ruas. Uma plataforma colaborativa na internet, chamada People over papers (Pessoas em primeiro lugar), é alimentado diariamente com informações de civis sobre aparições do ICE no país. Também existe agora um aplicativo – ICE Block, que serve para avisar sobre onde policiais são vistos. Mas não é fácil. Agentes podem estar à paisana ou disfarçados como policiais municipais.

Em Los Angeles, junho é o mês dos jacarandás. Cinquenta mil pés florescem, decorando a cidade com suas copas lilases. Em um domingo, vou com meu filho ao campus da Universidade da Califórnia em Los Angeles (Ucla) para ver as árvores. É um dos meus lugares preferidos na cidade. Gramados extensos, prédios modernistas, um parque de esculturas a céu aberto pontuado por jacarandás. Calhou de ser um dia de formatura e, para chegar ao campus, passei por dezenas de carros de polícia, que estavam ali para proteger estudantes e familiares, caso a polícia migratória aparecesse.

Esse é outro país. Ele não está nas notícias, mas no que experimento.

*

Sábado, 14 de junho. Em Washington, Trump se prepara para acompanhar a parada militar que mandou fazer em comemoração aos 250 anos do Exército americano e de seu aniversário de 79 anos. Pego um pedaço de cartolina dos trabalhos escolares das crianças, me arranjo com os pincéis e tintas e faço um cartaz, preso a um pedaço de madeira, onde está escrito: “Pense, Leia, Resista.” Às onze da manhã, sigo para o Parque Palisades, em frente à Praia de Santa Mônica, onde acontece um dos 2 mil protestos no país contra o governo Trump, organizados pelo movimento Sem Reis. Quando me aproximo, um policial em um cavalo me diz que é proibido pedaço de madeira na manifestação.

Eu me desculpo e começo a descolar a madeira da cartolina. Alguém cutuca o meu ombro. É uma senhora, também com um cartaz: “Não precisa tirar a madeira. Ele só estava sendo babaca.” Seguimos as duas para o parque. Meia hora depois, 3 mil pessoas estão reunidas ali, a maioria branca e certamente com cidadania. Muitas estão de rosto tapado.

A revista Wired, especializada em tecnologia, publicou dois artigos sobre como se cuidar em passeatas. Um dos conselhos é cobrir o rosto para se proteger das tecnologias de reconhecimento facial. Cuidado se for de carro, porque câmeras podem registrar a placa. Deixe seu telefone em casa, pois a polícia é capaz de interceptar o sinal de telefones e reconhecer o nome e o número do usuário. Cuidado ao tirar fotos e publicar nas redes: você pode estar expondo outros manifestantes.

Foi lindo, caro leitor. Mais do que um protesto, foi uma confraternização. Eu me dei conta de quanto estava sozinha e angustiada ao sentir o alívio da cumplicidade, no contato com outros manifestantes. Havia crianças, gente em cadeira de rodas, hippies, milionários, celebridades disfarçadas com óculos e chapéus.

Em Washington, 200 mil pessoas assistiram à parada militar de Trump. Em todo o país, mais de 5 milhões de pessoas participaram dos protestos contra o presidente.

Termino essa carta em fins de junho, depois de Israel e os Estados Unidos bombardearem o Irã, e o Irã bombardear as bases militares americanas no Catar. É o início da Terceira Guerra Mundial ou um ataque pontual? Se o objetivo era destruir as instalações nucleares, por que uma emissora de tevê em Teerã foi bombardeada? Por que Trump sugeriu aos iranianos fugir da capital? O cessar fogo anunciado por Trump irá de fato ocorrer?

Eu não tenho respostas, mas isto eu sei: enquanto a atenção pública se volta para a política externa, Narciso Barranco, de 48 anos, jardineiro e ilegal no país, pai de três fuzileiros navais (um deles veterano do Afeganistão), foi derrubado, atacado com spray de pimenta e agredido com socos por quatro homens da patrulha de fronteira do ice. Barranco teve o ombro deslocado e passou mais de 24 horas em um centro de detenção em Los Angeles. Sem receber cuidados médicos, água ou comida. Ele é só um entre milhares de trabalhadores detidos diariamente.

O que levamos conosco é o que lembramos. Eu gostaria de me lembrar de 2025 como o ano em que, depois dos incêndios na Califórnia, saí à rua para me molhar quando caiu o primeiro temporal. O ano em que adotei e me apaixonei por um cachorro e em que meu filho escreveu um poema sobre estar só em meio a bilhões de pessoas. O ano em que caminhei com minha filha pela neve fresca entre árvores gigantes e amei da melhor forma meu companheiro. O ano de viagens e momentos bons com meus pais, irmãs e amigos. Mas 2025 também é o ano em que o governo americano faz pessoas desaparecerem, levando-as para outros países. O ano em que 300 mil pessoas, até o momento, morreram em várias partes do mundo devido aos cortes de verba da Usaid. O ano em que o presidente dos Estados Unidos planejou construir uma base de dados com informações privadas de todos os americanos e comemorou o seu próprio aniversário com uma parada militar que pode ter custado 92 milhões de dólares. O ano da resistência civil.

“Que você possa viver em tempos interessantes.” Já ouvi essa frase algumas vezes, e se a internet estiver certa trata-se na verdade de uma praga chinesa. “Interessante” não é o modo como queremos viver nossa estada na Terra. Viver num tempo chato, com um governo imperceptível e com todo mundo convivendo em paz é melhor. No momento, não é o que temos. E não há muito que possa ser feito, por enquanto, além de estar ciente do que acontece. Creio que é essa a parte que me toca: saber. E passar adiante o que eu sei.


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É autora de três romances, o mais recente, Chuva de papel (Companhia das Letras). Seus livros foram publicados em mais de vinte países. É colunista do jornal O Globo e escreve quinzenalmente no opiniaes.substack.com