dossiê piauí
José Henrique Bortoluci Jul 2025 12h29
34 min de leitura
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O homem
No momento que senti o murro, eu ouvia Pale blue eyes no fone de ouvido. Era o horário de almoço, quatro ou cinco anos atrás, um dia quente. A Avenida Paulista estava lotada, mas naquele momento minha sensação era a de que estávamos só nos dois ali, eu e aquela senhora que me acertou o murro, cercados de concreto e sombras. Ela parecia desnorteada – e eu também me sentia assim, já que não era alvo de pancadas desde brincadeiras com colegas na infância.
Não entendi, num primeiro momento, de quem tinha partido o soco. Quando senti a dor repentina em meu braço direito, quase na altura do ombro, me ocorreu que o golpe devia ter sido brincadeira de algum amigo que teria me visto andando distraído pela mais importante avenida da cidade – já que trocar socos é uma diversão corriqueira entre meninos, muito mais frequente do que trocar abraços, e é dessa infância masculina que vinha minha distante memória somática.
Só quando tirei o fone e virei para trás foi que vi e ouvi aquela senhora desconhecida. A voz de Lou Reed deu lugar a seus gritos: “Anda que nem homem! Você tem que morrer! Me aguarde, vou te matar.” Ela espumava de raiva, com o dedo indicador apontado em minha direção, o punho rijo como uma arma. Seu discurso frenético conectava três pontos:
Ponto 1 – minha forma de andar;
Ponto 2 – sua convicção de que homens devem andar de certo jeito, e apenas desse jeito;
Ponto 3 – no desacordo entre 1 e 2, a decretação do que ela imaginava ser a justa punição: a minha morte.
O murro daquela senhora pouco me machucou fisicamente. Porém, ele carregava o veredito social de que eu deveria apresentar ao mundo um corpo outro, que obedecesse a um ritmo e a uma mecânica diferentes, um corpo que se movesse de forma inequivocamente masculina. Essa cena durou alguns segundos e aconteceu cerca de 200 metros da esquina onde, uma década antes, um jovem que não era homossexual teve seu rosto desfigurado depois de ser agredido com uma lâmpada fluorescente num ataque homofóbico.
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Toda geração se vê atormentada por um pequeno conjunto de perguntas insistentes: Como devemos ser governados? O que é a felicidade? Como lidar com o medo da morte? Outra questão vital – talvez a mais persistente de todas na história humana – é a seguinte: O que é um homem? Essa pergunta caminha junto de uma formulação que é seu inverso inseparável, como o negativo de um filme: O que é uma mulher?
Já sabemos, depois de mais de um século de luta e de reflexão feminista, que a pergunta “O que é um homem?” costuma ser formulada em sentido metafísico: a questão sobre o que nos distinguiria enquanto espécie humana, uma vez que, até hoje, usamos “homem” como o universal da espécie, e mulher como sua variação decaída, precária, frágil. Mas penso aqui no primeiro sentido da palavra “homem”, no conjunto de atributos que define socialmente quase metade da humanidade – aquela metade que vive menos e mata mais.
Sou parte dessa parcela da espécie humana que, em minha geração (como em quase todas as outras), aprendeu muito cedo que um homem pode portar uma diversidade de corpos, mas não todos, uma diversidade de comportamentos, contanto que não sejam “comportamentos de mulher”. Homens podem sonhar, mas é melhor que sejam sonhos de dominação.
Uma das primeiras lições é que ser homem é ser forte e ativo – mulheres são fracas e passivas –, é sonhar grande – mulheres sonham em ter filhos –, é tentar o tempo todo vencer os outros homens, com os quais estamos permanentemente em competição: nossos pais, colegas de escola ou de trabalho, nossos chefes, os homens do exército inimigo, do time adversário, da torcida organizada oposta, os homens que tentam seduzir as nossas mulheres, nossos próprios filhos. Ser homem é vencer outros homens e tentar ao máximo se afastar daquilo que é o verdadeiro fruto proibido, já que Adão pecou por desobediência a Deus, depois de ceder à proposta de uma mulher. Nessa cosmogonia masculinista, Eva, a primeira mulher, é repetidamente representada como uma “vadia” que arrancou o ser humano do Paraíso.
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Conhecemos bem esse jogo: a masculinidade em que fomos socializados – ao menos em sua forma hegemônica, corriqueira – é uma gincana dolorosa e interminável, em que a regra maior é não ser – e não parecer ser – mulher. Por muito tempo, toda interação entre meus colegas de escola e os amigos das brincadeiras de rua foi definida por uma regra de fundo que todos aceitávamos tacitamente: a disputa sobre quem é menos mulher (ou menos gay, o que na dinâmica cotidiana entre homens heterossexuais muitas vezes se confunde). Esse jogo, que ocupa tanto de nosso tempo e energia, exige a investigação constante de indícios, mesmo os mais sutis, que fazem com que um menino perca pontos no placar da masculinidade: é punido quem gosta de jogar vôlei, quem tem amigas meninas, quem gosta de ouvir mpb ou música clássica, quem usa a colocação pronominal correta, frequenta a biblioteca, chora – ou, me lembro bem, já por volta de nossos 19 anos, que era “menos homem” quem não gostava de participar de incursões por um bairro periférico da cidade para arremessar latas de cerveja amassadas nas travestis que aguardavam ali seus clientes para trabalhos sexuais.
Essa vigilância não vem só de fora. Quando menos se espera, podemos nos tornar os juízes mais implacáveis de nossos próprios comportamentos. Vidas inteiras, nos seus detalhes mais triviais (que perfume devo usar, como devo andar, que cores posso vestir, que piadas contar, que gírias posso usar, o que comer e beber, como devo falar com bebês e com animais domésticos) até as decisões mais estruturantes (com quem devo me relacionar, o que devo estudar, que profissão irei seguir), são guiadas por esse imperativo totalizante: não seja e não aparente ser mulher. A rejeição a adotar em sua vida de homem tudo que é tido como feminino é uma das primeiras lições que os meninos costumam receber. E eles muitas vezes seguem exercitando esse músculo da masculinidade até o fim da vida, se necessário, pela via da violência contra suas parceiras, contra outros homens, contra eles próprios. As estatísticas de mortes de homens jovens não deixam dúvidas: manter teso esse músculo pode ser mais importante do que preservar a própria vida ou a vida de mulheres e homens de seu convívio.
Essa masculinidade, em sua essência, obedece a uma fórmula que opera em dois eixos, como ensina a antropóloga Rita Segato: no horizontal, ser melhor e mais forte que outros homens; no vertical, dominar e instrumentalizar mulheres.
Sem que tenha sido explicitamente pronunciado, esse mantra foi o princípio da formação de grande parte dos meninos da minha geração, assim como da geração de nossos pais – como se a guerra e o estupro fossem os casos extremos desses dois planos de valor que organizam a masculinidade dominante. Um homem é, no limite, uma máquina capaz de matar outros homens na guerra e de estuprar mulheres em seu cotidiano.
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Na tevê e nas revistas dos anos 1990 e 2000, não faltavam discursos e imagens que ajudavam a dar respostas àquela pergunta sobre “o que é ser homem”. Um personagem cômico da tevê se perguntava “onde foi que eu errei?” quando seu filho dava sinais de que não se sentia atraído por mulheres. Muitos ouviram seus pais repetirem essa mesma pergunta, como se os filhos fossem bolos sovados e tristes que não cresceram como esperado e, por isso, deviam ser escondidos das visitas no chá da tarde.
As revistas com corpos de mulheres nuas estavam por toda parte em nossa adolescência – antes de darem lugar à ainda mais onipresente pornografia online. Não era difícil conseguir uma Sexy ou uma Playboy, comprada pelo pai de um amigo ou roubada do armário de um tio.
(Na sétima série, a professora de português me chama em um canto da escola, junto de uma colega: angustiada, ela nos diz que está sofrendo muito por L., o aluno “afeminado” da 7ª B. Todos os dias, vários meninos da turma levam revistas Playboy à escola e esfregam fotos de mulheres nuas na cara dele, ou o acertam com bolas de papel feitas com páginas arrancadas da revista. A professora nos diz que o que a faz sofrer não são as agressões, mas o fato de L. falar como mulher, se mover como mulher, só andar com meninas. Esperançosa, ela conta que leu uma reportagem sobre uma nova terapia de aplicação de hormônios que poderia resolver o caso de L., curando aqueles trejeitos e hábitos. Ela pensava em falar sobre o tratamento com os pais dele, e por isso queria ouvir nossa opinião – nós, um menino e uma menina de 13 anos, os representantes de turma.)
A década de 1990 foi a década da bunda – feminina, claro, mostrada em todos os lugares, de todos os ângulos, sempre disponível aos olhares masculinos. Naqueles anos, a cultura de massas chegou a uma espécie de fórmula sintética da masculinidade heterossexual brasileira: ser homem era ser fascinado por grandes bundas femininas e ter o direito de olhá-las insistentemente, de comentar sobre elas, de compará-las e ranqueá-las. A tevê aberta era aos domingos o palco principal desse espetáculo glúteo. Mulheres e homens seminus lutavam por sabonetes em banheiras, enquanto a câmara exercia o máximo poder de zoom sobre as nádegas de dançarinas e modelos; o ator Jean-Claude Van Damme roçava sua pélvis contra o corpo de Gretchen até chegar à visível ereção, tudo sob o olhar atento da família brasileira. E as disputas pela “nova loira”, a “nova morena”, as bundas sempre em movimento, as festas infantis em que as meninas reproduziam a efusão das dançarinas da tevê (e alguns meninos também, muitos dos quais depois se entenderiam gays). A puberdade masculina e heterossexual alimentada por essa enciclopédia de curvas femininas em movimento incessante – e a pressão inversa sobre as meninas, que facilmente podiam concluir que seus corpos em transformação deveriam se adequar a apenas dois modelos possíveis: a dançarina “gostosa” dos programas de tevê, ou a modelo hipermagra das capas de revistas para adolescentes.
O axé no estilo É o Tchan foi a trilha sonora dessa obsessão anatômica, tudo isso numa atmosfera de guerra fria entre as duas emissoras líderes de audiência, conflito que culminou no dia D da baixaria, quando assistimos a um “sushi erótico”, servido sobre corpos femininos nus no horário de pico da audiência – sempre eles, os corpos de mulheres famosas ou anônimas, as grandes armas com que executivos de tevê disputavam audiência, vendiam cervejas e carros, e ampliavam suas fortunas.
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Junto desse festival de imagens de corpos femininos, sempre expostos, havia um segundo mecanismo com que tínhamos de nos familiarizar desde cedo: a ofensa. Ela foi outra arma afiada que serviu para forjar a sexualidade de nossa geração, e agora muitos entre nós não conseguem imaginar uma vida em que a ofensa não seja o engenho fundamental para desenhar as fronteiras entre o masculino e o feminino, o normal e o “patológico”, o heterossexual e todas as outras formas de sexualidade.
Os xingamentos machistas e homofóbicos, durante mais de metade de nossas vidas, eram tão naturais quanto torcer por um time de futebol. Essa certeza reconfortante da ofensa viril começou a estremecer, ao menos para muitos de nós, por volta dos 20 ou 30 anos: em alguns círculos, palavras e expressões tão comuns na infância e na adolescência (“viado”, “puta”, “bicha”, “vagabunda”, “você parece uma mulherzinha”, “chuta essa bola que nem homem”) começaram a entrar em desuso, ao menos em falas públicas. Não sem resistência, claro: comediantes passam a reivindicar o direito de contar piadas homofóbicas e machistas, criticam a “ditadura do politicamente correto”, defendem a liberdade de ofender. Políticos são eleitos para altos cargos da República com a bandeira do direito sagrado à injúria, a fim de garantir a ordem sagrada que diferencia e hierarquiza homens e mulheres, que parece aos seus olhos tão natural e eterna quanto a lei da gravidade.
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A capacidade de exercer a força e de acumular riqueza e poder são duas das peças-chave do enigma que é ser homem. É pelo exercício da violência que, ao menos numa situação-limite, o teorema da masculinidade como aversão ao feminino se resolve. Essa masculinidade dos punhos e das armas, da repressão dos sentimentos, da força como sinal de dignidade, tudo isso é ingrediente fundamental de uma cultura da violência que é uma das maiores heranças recebidas por nossa geração: herança da ditadura militar com suas formas institucionalizadas de violência policial e os esquadrões da morte, herança de uma lógica racista que identifica corpos negros como a fonte de todo o mal e de toda a corrupção, herança da ancestral fobia às mulheres que tem no feminicídio sua realização mais trágica.
Ao longo dos últimos quarenta anos, uma certeza que fomos construindo é de que um episódio de chacina logo é esquecido, antes mesmo que a chacina seguinte ocorra. Elas passaram a fazer parte de nossa paisagem social: uma chacina de crianças na frente de uma igreja; chacinas em presídios; chacinas em ocupações de trabalhadores sem-terra; chacinas em bailes funk. Uma, duas, dezenas de chacinas em favelas. E mais chacinas em presídios, praças, territórios indígenas. Na maioria dessas matanças, tanto as vítimas quanto os algozes são homens.
A violência é a principal causa da morte de pessoas com menos de 40 anos, sobretudo jovens, pobres, periféricos. Se sorteássemos hoje o nome de uma pessoa nascida em meados dos anos 1980 e que já morreu, o mais provável é que essa pessoa seja um homem, negro, assassinado à bala em algum bairro periférico de uma grande cidade. Quem apertou o gatilho terá sido um outro homem.
Disso, como de tudo mais, fazemos espetáculo, e seguimos banalizando os fatos, recorrendo a clichês de fácil consumo: “Bandido bom é bandido morto”, “Tá com pena? Leva pra casa”, “O povo dos direitos humanos”, “Eu sou cidadão de bem”. Na tevê, o giro interminável de novos apresentadores de programas policiais que só repetem os conteúdos e o tom de voz dos anteriores: Gil Gomes, Alborghetti, Datena, Ratinho, Wagner Montes, Bacci, Sikêra Júnior. Suas vozes são familiares, conhecemos suas narrações (a defesa da pena de morte, a catilinária moralista, a defesa da violência policial); as imagens de helicóptero; as perseguições em regiões periféricas filmadas da distância de um olhar de pássaro ou por cinegrafistas e repórteres protegidos por coletes à prova de balas; o teatro da indignação, que garante a audiência das 19 horas na tevê; a revolta contra os assaltantes (sempre negros), para com as mães que “abandonam seus filhos” (sempre pobres), com os defensores de direitos humanos (sempre um fantasma). Aqui agora, Cidade alerta, Balanço geral – e, depois, as imagens de violência também circulam pelo Facebook e o WhatsApp. Esses programas policiais são nosso coliseu eletrônico diário, mantido por corpos violentados, e sustentam uma concepção do masculino que ambiciona se armar. Que tenta também saturar feridas existenciais de todo tipo – ainda mais quando ocorre a chamada “crise da masculinidade” – com um apelo para que se aumente o exercício da força. Se bandido bom é bandido morto, cidadão de bem é aquele que, se necessário, mata.
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Às vezes, desde a infância, eu conseguia ver que esse tecido tão rígido que define as fronteiras entre o masculino e o feminino iria um dia se esgarçar. Eu me lembro de algum desses momentos: na tevê, Vera Verão – a personagem de Jorge Lafond, no popular programa A praça é nossa – anunciava ser “quase mulher”. Roberta Close, mulher trans, confundia teorias, discursos, desejos. Ambas fazem parte da geração anterior à minha, mas ajudaram a semear outras imaginações possíveis para os nascidos em meados dos anos 1980.
Na última década, coletivos feministas se multiplicaram em colégios, faculdades e nas redes sociais. A Lei Maria da Penha e as delegacias da mulher ampliaram a capacidade de punir crimes de violência de gênero. Na avenida em São Paulo onde agressões homofóbicas se tornaram casos nacionais, a maior parada LGBTQIAPN+ do mundo reúne milhões de pessoas desde 1997. Na mesma cidade, desfilam outras marchas: a Marcha Mundial das Mulheres, a Marcha das Vadias, a marcha silenciosa realizada poucos dias depois do assassinato de Marielle Franco – com o silêncio quebrado apenas pelos tambores das mulheres do bloco afro Ilú Obá De Min. Em 2010, uma mulher se tornou presidente da República e reivindicou ser chamada de “presidenta”. Depois, uma cantora drag queen se tornou uma das maiores celebridades do país, e Pabllo Vittar é tão amada quanto odiada. Desde a primavera feminista de 2015, que disseminou uma imaginação e performances mais plurais de gênero e sexualidade, levadas à frente sobretudo pela geração seguinte à nossa, vemos se ampliarem as respostas possíveis a este dilema: “O que é o homem?/o que é a mulher?”.
Como em tudo mais, observamos cada avanço ser acompanhado pela inventividade do atraso. Igrejas promovem rituais de “cura gay”. Um então deputado declara que prefere um filho morto a um filho gay, diz que sua única filha mulher foi fruto de uma “fraquejada” – e é eleito, apesar disso ou por causa disso, o que no final dá na mesma. Homens se reúnem em grupos de “legendários” e outros coletivos para promover a masculinidade da fé, do dinheiro e dos bíceps volumosos. Grupos organizados online disseminam uma visão de mundo que divide os homens entre os “alfa” (masculinos, provedores, fortes) e os “beta” (“afeminados”, feministas, fracos). Ser alfa também é aspirar à fortuna material, e os bilionários da vez se tornam figuras pop. Jovens das classes trabalhadoras passam a se identificar com os super-ricos, brasileiros ou americanos: de repente, uma geração de rapazes quer ser Elon Musk.
Num país em que é tão difícil tornar-se classe média, talvez valha a pena sonhar com dar o salto e ocupar o topo de uma vez, seja seguindo as recomendações de coaches de enriquecimento, seja pelo caminho das apostas online, ou quem sabe por atividades ilícitas. Um representante espalhafatoso desse novo espírito coach-reacionário-evangélico quase se elege prefeito da maior cidade do país em 2024. Uma série de novos termos entra no vocabulário público, propagados sobretudo por uma imaginação “alfa”: prosperidade, bets, empreender, mineração de bitcoins. Essa nova constelação de palavras e aspirações disputa o lugar com desejos que costumavam definir os contornos da masculinidade provedora (carteira assinada, concurso público, décimo terceiro salário, poupança, aposentadoria). O “emprego CLT” vai deixando de fazer parte do horizonte pessoal e se torna, principalmente entre os mais jovens, motivo de chacota.
Grupos online se organizam com base no ódio às mulheres e fazem disso uma ideologia “masculinista”, povoada de novos/velhos personagens nessa crescente “machosfera”: incels, red pills, coaches de pegação, o “calvo do Campari” (outro coach), empreendedores de diferentes níveis de sucesso nesse emergente mercado da misoginia, pregadores de uma visão do que é ser homem que recicla e adiciona elementos a fórmulas antigas, uma visão que mistura fé, ética da riqueza, corpos malhados, portes de armas e o pânico de qualquer traço do feminino que possa aparecer – embora eles sempre apareçam – para assombrar o colosso viril dessa nova masculinidade tão orgulhosa de si.
A mulher
Às vezes me sinto um cavalo de Troia dentro da corporação. Já ouvi várias vezes que “mulher não deveria estar na polícia”, que “não dá conta”, que “esse não é lugar para mulher”. A gente tem que ser excelente para conseguir um mínimo de reconhecimento. Enquanto isso, um homem pode errar, pode ser mediano, e ninguém questiona. Eu reconheço que a gente já avançou bastante, vejo isso na minha experiência cotidiana como policial. Hoje há mais respeito do público externo e entre colegas, mas ainda existe algo que pesa, que é, sem dúvidas, estrutural.
Juliana Lemes nasceu em 1985 em Itambacuri, uma cidade pequena a cerca de 30 km de Teófilo Otoni, no nordeste de Minas Gerais. Ela é policial militar. Ao conversar comigo, Juliana pediu para deixar claro que tudo que ela me contaria era fruto de sua vivência e sua reflexão, e não expressava a posição da corporação da qual ela faz parte.
Ela me conta logo de cara que seu único filho, de 23 anos, acabou de ingressar na mesma carreira – para surpresa, orgulho e medo da mãe. Surpresa, pois o rapaz não cresceu com o sonho de ser policial, e nisso sua história não se distingue muito da de sua mãe, que só decidiu pela carreira depois de fazer a faculdade de serviço social, área em que defendeu inclusive um doutorado.
Agora meu filho acaba de entrar pra polícia… Entrou com 21 anos. Ele tá agora passando a farda dele. Digo sempre pra ele que tem que caprichar na farda. E é ele que faz tudo. Lava, passa, mas deixa a casa uma bagunça! E eu preciso estar sempre sacudindo ele, pra meu filho abrir os olhos. Embora ele não tenha crescido dizendo que não queria ser policial, estudou em escola militar, e a influência dos colegas pesou na decisão. Quando os amigos começaram a prestar concursos, ele resolveu fazer a prova também. Mas penso assim: não sou herdeira. Ele precisa seguir a vida dele, e talvez se encontre mais rápido do que eu lá dentro, porque tomei muita pancada até que isso acontecesse.
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Além de doutora em serviço social, Juliana é presidente do conselho de uma das mais importantes organizações de pesquisa e intervenção no debate público na área de segurança, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública – tudo isso, sem ter chegado a um posto de oficial na polícia. Essas conquistas, e o fato de ser mulher numa carreira dominada por homens, muitas vezes geram estranhamento entre seus colegas de farda. O estranhamento também marca a relação com sua família:
Às vezes, sinto que nasci na família errada, minha vida é muito diferente da deles. Meu avô era analfabeto. Meu pai é motorista de caminhão; minha mãe, dona de casa. Eu tive que explicar pros meus pais o que é mestrado, o que é doutorado. Hoje, meu pai se orgulha de ter uma filha doutora. Ele brinca com os amigos: “O filho do fulano é médico, mas doutora mesmo é minha filha!” Foi o estudo e o meu trabalho que permitiram que eu vivesse em uma condição bem melhor que a de meus pais.
Eu não dou tudo pro meu filho, mas a vida dele foi muito melhor do que a minha. Paguei a carteira de motorista dele, paguei o curso de inglês, pude levá-lo para outro país… Na minha época, não pude estudar inglês e paguei minha carteira mesmo sem ninguém na minha família ter carro. O lado paterno da minha família foi criado na roça, enquanto minha mãe cresceu na cidade, mas em uma família humilde. Meu avô era lavrador e trabalhava com garimpo de pedras preciosas na região. Passei minha infância no interior, até os 12 anos, e aí nos mudamos para a Região Metropolitana de Belo Horizonte.
Meu pai estava sem emprego no interior e decidiu que tinha que buscar novas oportunidades na capital. Estudei sempre em escola pública, em uma cidade muito violenta, Ribeirão das Neves. Fiquei lá até os 20 anos. O que vi ali foi uma juventude sem opção, largada, sem perspectiva de futuro. A violência dominava – eu ouvi várias vezes tiros na porta da escola, e, quando escurecia, ninguém mais saía na rua.
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Pergunto se Juliana tinha algum sonho quando era menina. Ela não é a única das pessoas com quem conversei que responde que não, não teve:
Eu não tinha sonhos. Não aprendi a sonhar. Me fechei pra isso. E aí, aos 15 anos, tive meu primeiro namorado. Aos 16, já engravidei. Acabei me casando com o pai do meu filho, mas foi um casamento motivado mais por minha pressão interna – como se eu precisasse compensar o erro de ter engravidado na adolescência. Mas durou apenas quatro anos. O pai do meu filho mandava pensão só quando queria e, depois da separação, nunca mais veio aqui pro interior ver o menino. Fui mãe solo, de verdade. Mais recentemente tive outro relacionamento por doze anos, separei faz três.
Fui aprender a sonhar já adulta, não faz tanto tempo.
Em 2005, com 20 anos, voltei para Itambacuri com meu filho, que já tinha 3 anos e meio. Foi um pouco depois que passei no vestibular do primeiro ano de funcionamento da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, que foi criado na região, na época da expansão das universidades. Passei em serviço social. Foi revolucionário entrar na universidade pra mim, por causa da minha história de vida. Mas foi muito difícil, porque a faculdade era em Teófilo Otoni, onde eu também trabalhava, a 30 km de distância de Itambacuri, cidade em que moravam meus pais e meu filho, e na qual eu passava os fins de semana.
Comecei a procurar concursos ainda na faculdade, lá pelo sexto ou sétimo período. Eu pensava assim: “Preciso entrar no serviço público porque preciso de segurança.” A instabilidade é o que me dá mais medo na vida. E não só por mim e pelo meu filho, mas principalmente pelos meus pais. Minha maior preocupação era que eles adoecessem e não tivessem como se cuidar. Eu ia ter que ser arrimo da família. Falo isso porque sempre resolvi tudo sozinha na vida, nunca quis depender de ninguém. Foi tudo à base de trabalhar dobrado – passar no concurso da polícia, o trabalho na corporação, criar meu filho, fazer doutorado. Só agora estou começando a botar o pé no freio, porque viver assim também adoece a gente.
O primeiro concurso que vi aberto foi o da polícia. Eu nunca quis ser policial militar, não era um sonho que eu tinha desde criança. Mas também não tinha nenhum outro sonho, porque sempre achei que criar expectativas significava alimentar um desejo que eu sabia que dificilmente se tornaria realidade. Eu não entrei na polícia por vocação. Não me espelhei em ninguém, não. Eu tinha um tio que era policial. Ele era cabo da polícia, e eu tinha muito medo dele. Era alto, imponente. Quando ele chegava em casa, eu ficava calada, só observando. Esse medo criou uma barreira, e eu já não conseguia mais conversar com ele. O fato de ele ser policial era o que me afastava. Então esse tio também não foi a razão de eu virar policial – eu entrei mesmo para pagar minhas contas.
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Na época em que fez concurso para a Polícia Militar, Juliana ainda estava no último período da faculdade e trabalhava o dia todo como balconista:
Meu dia começava às oito da manhã no comércio. Às seis e meia da noite eu ia pra faculdade e ficava até as dez e meia. Chegava em casa quase onze da noite, fazia uma garrafa de café, tomava até onze e meia e estudava para o concurso até duas da manhã. Eu não tinha dinheiro pra cursinho, tinha que estudar sozinha. E passei!
Quando entrei na polícia, eu tinha 25 anos, estava no último período da faculdade, faltando apenas defender o tcc. Durante a formação, fiquei observando, fazendo tudo o que pediam, porque precisava do emprego. Não podia perder. Me reprimi muito, sofri muito, porque a maioria das ideias partilhadas ali eram o oposto do que eu já havia aprendido. Pra você imaginar, ao mesmo tempo em que eu fazia a formação na polícia, estava lendo Paulo Freire e Josué de Castro na faculdade. Venho de uma experiência diferente, aprendi sobre movimentos populares na faculdade, participei do Fórum Social Mundial, conheci outras realidades.
Não posso concordar totalmente com certas críticas que a polícia recebe, como a ideia de que a polícia deveria acabar ou de que todos são racistas. Por quê? Porque conheço colegas que entraram querendo fazer segurança pública de verdade. Muita gente tem boas intenções. Arrisco dizer, sem romantismo, que a maioria é bem-intencionada. Os horrores que acontecem nesse setor não são porque a maioria quer fazer mal ou é ensinada a fazer assim, mas porque alguns destoam. É isso: quem entra muitas vezes já carrega racismo, machismo, discriminação. Se a corporação der a entender que o sujeito tem total poder e autoridade, a pessoa valida suas ideias.
Na formação policial, há mais de uma década, eu senti que não poderia pensar por conta própria. Isso me revoltava. Muitos dos meus colegas eram jovens de 18 ou 19 anos, sem ensino superior, e não questionavam a formação. Como eu vinha com certa bagagem, “me enquadrar” foi bem mais difícil. O tempo me fez aprender a conciliar esses dois mundos, mas após muito enfrentamento.
E, como esse perfil de policial é muito engessado, só falo que sou policial pra uma pessoa que acabei de conhecer depois que mostro quem eu sou primeiro. Depois que a pessoa se solta comigo, que conversa comigo numa boa, como se não soubesse quem eu sou, como se eu fosse uma pessoa que não tivesse profissão nenhuma, depois que eu converso bastante, que a gente quebra o gelo, aí falo que sou policial. Se eu falar logo que sou policial, a gente vai cair pra um papo de polícia, pra uma conversa sobre crimes, segurança, e não sai mais da cabeça daquela pessoa que eu sou primeiro de tudo uma policial. Dali em diante, a minha identidade pra ela fica colada a isso.
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Foi apenas depois de anos na polícia, e já tendo passado pelas reflexões sobre o tema na faculdade, que Juliana se entendeu como uma mulher negra, apesar das ofensas racistas que sofreu desde criança:
Só fui me reconhecer como negra depois dos 30 anos. Antes, eu achava que ser negro era ter a pele retinta, então não poderia ocupar esse espaço, porque tenho a pele mais clara. Mas também não era branca. Minha mãe é negra retinta, meu avô também. Meu pai é pardo. Hoje, olhando pra trás, sinto que sofri preconceito, sim, só que na época eu não entendia como racismo. Hoje percebo que aquele preconceito que eu sentia não era só de classe, mas também racial. Na escola, chamar a gente de “macaca”, “neguinha”, eram brincadeiras normais, coisas do dia a dia. Foi na faculdade que comecei a entender como funciona o racismo, como funciona a sociedade brasileira, mas só depois de sair de lá me aprofundei e passei a me enxergar como mulher negra.
Como em qualquer outro universo de trabalho, a questão racial existe nas polícias, claro! É estrutural e, portanto, a filtragem racial feita por parte dos policiais é real. Acredito que caiba a cada instituição criar estratégias para lidar com isso, que é algo bastante debatido e questionado país afora. Sob esse entendimento, o estereótipo muitas vezes define quem vai ser observado e abordado. Quando estão monitorando câmeras, tendem a seguir quem? Aquele que tem o chamado “perfil de malandro”. Se é um homem branco, bem-vestido, pode ser que ninguém preste atenção. Mas, se é negro e está de chinelo, com a calça caída, já vira suspeito. Isso não é só questão de classe. É classe e raça. É nesse movimento que se vai gerando distância da população também. Deveria ser o contrário! Por isso, as instituições mais atentas têm feito esforços para abordar o problema de modo a melhorar.
Tudo o que aprendi sobre política e consciência social foi na faculdade. Não se falava quase nada de política em minha casa. O que era forte na minha família era a religião, o catolicismo. Sou católica, batizada. No meu altar tenho Nossa Senhora Aparecida, acendo velas quando estou aflita e coloco um copo de água ao lado. Rezo, mas quase não vou à igreja. Já estive em terreiros de candomblé e umbanda, gostei muito. Descobri até meu orixá e, quando me disseram que tenho cabeça quente, achei engraçado, porque é verdade. Já segui os banhos de ervas indicados no terreiro e faço tudo direitinho. Também fui a centros espíritas algumas vezes, experimentei a ayahuasca… Se me chamam para um templo evangélico, eu também vou. E, de vez em quando, rezo pra Iemanjá, que pra mim é a mesma Nossa Senhora Aparecida.
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Na fala de Juliana, a polícia vai ganhando tonalidades mais complexas. Há policiais e policiais, há os de baixo e os de cima, os que se adaptam às mudanças e os que resistem. Aparece em especial a distinção entre a base e o topo, entre os praças e os oficiais. Ela está na base da corporação:
Sou cabo até hoje, porque ao longo desses anos, estive tão envolvida com estudos e atividades cotidianas associadas ao que eu acreditava no fazer profissional, que minha “chave não virou”, não foquei em estudar pra sargento. E outra: em parte do percurso percebi que a teoria parecia estar dissociada da prática. Avancei bastante no campo acadêmico, o que me fez enxergar a estrutura de forma diferente, mas de um lugar que não me conferia protagonismo. Com o tempo, fui aprendendo a jogar o jogo. Ainda que autêntica, busquei me colocar dentro dos limites do respeito à hierarquia e disciplina. É muita coisa para lidar.
Dá pra contar nos dedos quem tem coragem de enfrentar o que eu enfrento. Tem que confrontar, ter habilidade, bancar suas ideias. E eu tenho essas qualidades – só entendi isso depois de muito tempo. Assim como debatido com colegas de outras regiões do Brasil, nas polícias, a quebra do argumento contrário se faz pela exploração da dúvida. É importante não ter dúvida quando se busca fazer diferente. A incerteza trava, bloqueia, imobiliza. Impede o avanço. Na verdade, a maturidade chega com o tempo, e então vai embora o medo de destacar as imperfeições e ressaltar o que é bom. Assim como eu, muitos outros têm quebrado paradigmas. Certamente, com graus de esforço diferentes, dependendo de terem ou não o apoio de figuras que ocupam o topo da pirâmide – o que é de extrema relevância quando se faz parte da base dessa estrutura.
Mas deixa eu te dizer: contamos com excelentes gestores e, quando a liderança se posiciona, a tropa segue. Seja qual for a natureza do posicionamento. Por isso é tão fundamental que as polícias tenham chefias que sejam capazes de liderança. O melhor exemplo é a Lei Maria da Penha. Hoje, quando há um caso de violência contra a mulher, por mais que possa haver uma certa compaixão por aquele ofensor que é um “chefe de família”, os policiais prendem o agressor. Por quê? Porque a instituição cobra isso.
Existe uma norma clara, e a corporação exige o cumprimento, seja qual for a crença ou cultura do profissional que está ali, atuando na ponta. O problema é que, em outras áreas, o policial só faz o que permitem. Geralmente, influenciado pela ideia do cumprimento de metas, apresentação de números, respostas aos governos dos estados. Por isso, conhecendo todos os lados, não faço uma acusação cega dos colegas, mas também não faço uma defesa cega.
E tem também a diferença de hierarquia. Na polícia, os praças e os oficiais vivem realidades completamente diferentes. O topo do oficialato, ainda que não sinta a dureza das ruas, é o principal porta-voz no debate público dos policiais que vivenciam as ruas. Essa relação evidencia uma série de questões, dentre elas, a reivindicação de direitos da classe policial, as garantias individuais e coletivas e os impactos diretos na saúde psíquica dos policiais.
Hoje, relevo muitas coisas, porque a gente é o que a gente pisa. Se você convive só com pessoas que pensam de um jeito, acaba pensando da mesma maneira. Percebi isso com meus colegas de trabalho e com o tempo consegui provocar a mudança de algumas ideias. Hoje, eles me respeitam. Já fui muito criticada e rotulada de esquerdista, mas quando conto minha história, a visão às vezes muda.
Dentre outras coisas, expliquei que só fiz faculdade, mestrado e doutorado porque tive essa oportunidade durante um período de avanço na educação, no governo do “nove dedos” – como eles chamam o Lula. Por isso, me respeitam. Já ouvi de muitos: “Você é a única esquerdista que eu amo.” Tenho muitos colegas de direita, bolsonaristas, de quem gosto muito. Aprendi a gostar. Aprendi a ouvir as queixas de cada um deles e compreender de que lugar estão falando. Percebi que há legitimidade de cá e de lá. Muitas vezes, colegas com ideias que divergem das minhas me ligam quando pegam um caso de violência doméstica pra perguntar sobre o procedimento, se estão fazendo tudo certo. Eles realmente se preocupam em fazer um bom trabalho e não têm problema em pedir ajuda. Eu valorizo isso neles. Esse desprendimento e apoio mútuo, que na caserna a gente costuma chamar de “espírito de corpo”.
Mas preciso reconhecer que bater de frente com essa mentalidade é perigoso nesse universo. Quem não consegue ganhar no debate pode usar a hierarquia para retaliar. Afinal, como ouvi de um colega nas minhas andanças Brasil afora: “Tem várias maneiras de pelar um gato sem ele dar um miado.” Essa mentalidade adoece alguns e torna outros cruéis. Muitos não entram na polícia assim, mas aprendem a endurecer e a naturalizar dor, sofrimento e violência. Essa é uma realidade que precisa ser seriamente trabalhada.
Vejo a geração do meu filho e, sinceramente, tenho receio do que vão encontrar pela frente nesse mundo. Há avanços, mas ainda há muito trabalho pela frente para esses novos policiais. Trabalhar na segurança pública reflete o casamento das ideias que eles trazem de suas vivências particulares com as que eles aprendem ali. Muitos jovens entram na corporação sonhando com o poder. Tem muitos que enxergam certos grupos da sociedade como a escória a ser eliminada. As corporações têm a missão de quebrar esses preconceitos; enquanto umas fazem esse “dever de casa”, outras fazem o oposto: reforçam tudo isso, agora com uma farda, uma arma e autoridade.
A formação policial cria personagens. Alimenta um imaginário em que o policial se vê como onipotente, acima de tudo e de todos. Só que, cedo ou tarde, eles descobrem que não é bem assim. Percebem a realidade quando começam a ser processados, quando sofrem injustiças administrativas, quando descobrem que, dentro da corporação, podem não contar com acolhimento para o policial. A injustiça, de um jeito ou de outro, acaba chegando até eles também. Acredito que o olhar renovado da gestão pode mudar esse cenário e reorientar diretrizes. Algo que, felizmente, tem ganhado espaço nas instituições policiais.
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Pergunto a Juliana se ela acha que a polícia vai mudar radicalmente, se ela tem esperanças de ver uma nova polícia ainda durante sua carreira:
Não acredito que essa mudança aconteça radicalmente no meu tempo, mas, devo reconhecer que esforços têm sido feitos por inúmeras corporações. Inclusive a corporação de que faço parte. O fato de eu estar aqui, falando com você, já é a prova viva dessa mudança. Uma mulher, mãe, negra, policial militar, da base da pirâmide institucional, do interior e na metade da carreira. Não me parece algo tão comum, né?
São quinze anos tentando transformar a segurança pública, quebrando paradigmas, brigando e pagando o preço. Consegui reconhecimento, recebi prêmios, tive apoio político, mas bancar o protagonismo não é tão simples, dependendo do lugar em que você está. Por alguns anos, sofri por ser quem sou no meu ambiente de trabalho e em ambientes externos, sofri pelo simples fato de ser uma policial. As polícias têm mudado, e a sociedade também, mas ainda há uma gritante disparidade entre as corporações Brasil afora. Já pensei diversas vezes em me dedicar apenas à docência, mas recuei quando percebi que posso romper mais do que já rompi até aqui. O que não foi pouca coisa. Ter sido eleita para compor o conselho do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2022, e depois como presidente desse conselho, é um bom exemplo disso. Foi um momento ímpar, de reconhecimento profissional. E representativo, né? Importante para outros policiais com origem similar à minha.
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Há anos, Juliana se dedica ao tema da violência contra a mulher, tanto em sua pesquisa como em sua atuação na polícia. Comento com ela que várias das mulheres com as quais eu havia conversado para a série Geração Democracia tinham me relatado espontaneamente casos de violência – violência doméstica, mas também cometida por agentes do Estado ou do crime organizado. Ela não se surpreende:
Meu doutorado foi sobre feminicídio íntimo. Pesquisei por cinco anos a violência contra a mulher na região do Vale do Mucuri, focando no papel da segurança pública e da Justiça. Queria entender o que tinha sido feito ou o que tinha sido ignorado enquanto esses crimes aconteciam. O estudo mostrou que violência contra a mulher e feminicídio andam juntos e que o Estado falha muito na prevenção. Em 2016, entrei na Patrulha de Prevenção à Violência Doméstica. Logo vi que, apesar da Lei Maria da Penha, a rede de acolhimento era um caos. Ninguém sabia direito para onde mandar as vítimas. Como assistente social, escrevi um projeto pra organizar isso em Teófilo Otoni e comecei a treinar agentes e orientar mulheres. No interior, as políticas públicas mudam a cada eleição, e a violência no campo era invisível.
Aí criamos um grupo com 45 mulheres e fazíamos encontros mensais – trata-se do Projeto Mulher Livre de Violência. Pra evitar desconfiança dos maridos, o papo começava com temas do dia a dia, e a conversa sobre violência surgia naturalmente. Além das rodas de conversa, tinha lanche comunitário e oficinas de artesanato. As mulheres vão lá pra bordar suas histórias em tecidos de farda doadas por colegas da corporação. A pm mineira apoiou essa minha iniciativa e buscou difundi-la para todo o estado. A reutilização da “segunda pele” dos policiais dá um novo significado ao olhar sobre a vestimenta e gera renda para mulheres, ao passo que promove a aproximação entre polícia e comunidade.
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Um caso policial no qual Juliana esteve envolvida em fevereiro de 2016 parece tomar grande parte da sua energia. Em vários momentos de nossas conversas, ela volta aos detalhes do dia que mudou sua vida:
O caso mais difícil, que mais me desgastou… Bom, vou contar pra você. Na época, eu era soldado fazia cinco anos e meio, trabalhava no Grupo Tático das 12 às 22 horas. Numa noite, perto das 21 horas, nós recebemos um chamado dizendo que dois rapazes armados numa moto estavam aterrorizando uma comunidade rural. Na noite anterior, eles tinham fugido da polícia e ainda eram suspeitos de um assassinato no Carnaval. Além da minha equipe, três pms de folga foram juntos – éramos seis. Seguimos pra uma casa no meio do mato, 30 km de estrada de chão. Chegando lá, nós nos dividimos: três na frente, três nos fundos.
O primeiro tiro mudou tudo. Na frente da casa, o caos já tinha estourado. Os meus colegas que estavam na parte da frente contam que o avô de um dos suspeitos atirou primeiro, achando que a polícia estava lá pelo neto. A avó deles pegou uma arma e apontou pros pms. Um dos policiais feridos reagiu e atirou nela. Meu colega tomou um tiro na boca – perdeu quatro dentes, a bala ficou no pescoço. O tenente foi atingido com uma faca na região do pulmão. A avó morreu. No fim, os suspeitos nem estavam lá. O avô, sem entender nada, começou o confronto. Eu estava atrás da casa, tinha acabado de ouvir o primeiro tiro vindo de lá, e vi que um homem veio correndo na minha direção. Gritei pra ele parar, ele não parou. Efetuei disparos, mas felizmente errei, não pegou nele. Ele seguiu correndo e se enrolou numa cerca de arame farpado.
Só depois descobri que era um morador com deficiência mental, assustado com a confusão. Quando cheguei na frente da casa, vi o tenente no chão, sangrando muito. Fiz compressão até chegar ao hospital. Seguimos 30 km pro hospital, eu segurando o peito dele, enquanto o outro ferido ia na frente e um sargento dirigia. Felizmente, os dois sobreviveram. Foi a pior noite da minha vida. No dia seguinte, segui trabalhando. Passei 48 horas sem dormir, apoiando na redação do boletim e ajudando a equipe.
Quando finalmente dormi e acordei, meu celular estava lotado de mensagens. Me acusavam de matar gente, torturar, abusar da autoridade. A mídia comprou essa versão. Por praxe, nós, os diretamente envolvidos, não falávamos à imprensa, apenas nossos interlocutores. O delegado da cidade foi pra rádio dizer que agimos com brutalidade.
E a coisa virou um inferno. Fui processada por abuso de autoridade, tortura e tentativa de homicídio. No cível, disseram que invadimos a casa sem mandado. O juiz aceitou a denúncia e nos afastou por onze meses. Fui proibida de entrar em qualquer prédio da pm, até mesmo no colégio militar onde meu filho estudava. Minha carreira travou, minha saúde mental despencou.
Quase um ano depois, conseguimos voltar ao trabalho, mas o processo criminal continua, apesar da corporação ter declarado ação legítima à época. Já se passaram nove anos e ainda tenho crises de ansiedade. Chorava dentro da viatura, fui afastada de novo, transferida para o setor administrativo. Agora estou de novo, há quase um ano tomando remédio. Sei que não fiz nada de errado, mas a Justiça precisa de culpados. Meu advogado sai do meu bolso. Aprendi na marra como o sistema é cruel, mesmo quando você tenta fazer tudo direito.
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Juliana havia me dito que só aprendeu a sonhar quando adulta, há poucos anos. E ela me conta desses sonhos sorrindo, de olhos úmidos, agora com tom de voz que lembra o de uma menina:
Hoje eu sei que quero ter a oportunidade de rodar o mundo, sabe? Fui apresentada a esse novo mundo durante o mestrado e o doutorado, viajando pra congressos científicos. Conhecer coisa nova, lugares novos, gente diferente, conseguir falar fluentemente um segundo idioma. Construir memórias. A questão material, de juntar muito dinheiro, de comprar coisas, não me seduz tanto quanto minha vontade de acumular memórias. Só que precisa de dinheiro pra fazer isso também, né? Pra ter memórias, precisa de dinheiro. Sim, quero me dedicar mais à docência. Eu acredito muito na educação, porque sou um exemplo do que a educação pode fazer. Agora, minha resistência tem que ser outra. Porque, por mais forte que eu tenha sido, resistir também cansa.