despedida
Leonardo Lichote Set 2025 15h28
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Meu lugar talvez tenha sido a canção mais lembrada em meio ao muito que se falou de Arlindo Cruz depois de sua morte, em 8 de agosto, aos 66 anos. Lançada por ele mesmo em 2007, a música é a mais identificada com sua figura como intérprete, a mais representativa de sua imagem nesta era das imagens: O meu lugar/É caminho de Ogum e Iansã/Lá tem samba até de manhã/Uma ginga em cada andar/ […] O meu lugar/É sorriso, é paz e prazer/O seu nome é doce dizer/Madureira, la laiá.
Desde o título, a composição de Mauro Diniz e Arlindo carrega o apelo da identificação de origem que nos toca a todos – em alguns momentos, de maneira especialmente profunda. Foi o que se deu na apresentação do enredo Lugares de Arlindo, com o qual o Império Serrano lhe fez uma homenagem no Carnaval de 2023. Realizado na sede da escola em Madureira, subúrbio do Rio de Janeiro, o evento teve a presença do sambista carioca, que se encontrava numa cadeira de rodas por causa de um AVC sofrido em 2017. Ali, seu filho Arlindinho cantou justamente Meu lugar, com o coro de admiradores aos prantos.
Para mim, um dos que secava lágrimas naquele dia, meu lugar é a gaveta de fitas cassete do meu pai com as canções de Arlindo e outros da chamada Geração Cacique de Ramos, que eu ouvia em Pilares, bairro da Zona Norte do Rio, na década de 1980. À época, eu ignorava Arlindo, Cacique e a revolução que estava ocorrendo no samba. Mas as tais fitas me levaram, anos depois, a me tornar um jornalista especializado em música popular – o que, por sua vez, me rendeu o convite para participar daquele Carnaval do Império como consultor e pesquisador, em apoio ao carnavalesco Alex de Souza.
Na noite em que nos reunimos pela primeira vez com os compositores da escola para discutir o enredo, um deles me adiantou que preparava, ao lado de mais cinco autores, um samba em formato de acróstico. Ou melhor: as primeiras letras de cada verso formariam o nome completo do protagonista da festa, Arlindo Domingos da Cruz Filho. A composição acabou vencendo a disputa interna promovida pela escola e, com ela, o Império desfilou.
É especialmente rico abordar Arlindo sob o olhar desse samba, criado por Aluísio Machado, Carlos Senna, Rubens Gordinho, Carlitos Beto Br, Ambrosio Aurélio e Sombrinha, parceiro frequente do homenageado. Afinal, em vez de termos o poeta cantando Madureira, como em Meu lugar, temos Madureira cantando o poeta. Assim como o bairro viveu em Arlindo, Arlindo vive no bairro, a despeito das caixas de som do comércio local, frenético, que insistem em fingir que não.
Acorde partideiro sem igual, nascia então um samba do seu jeito/Reluz feito Candeia imortal, o compositor, sambista perfeito/Levada de tantã, banjo e repique, poesia de um Cacique, malandragem deu lição/Inspiração de ventre ancestral, o dueto, a patente vem do fundo do quintal/Na boemia, no subúrbio, na viela/O seu nome é favela: Madureira/Dagô, Dagô, Saravá, Obá Kaô/O brado que traz justiça faz a vida recompor.
Um acorde que diz de onde veio – partideiro, filiado à tradição do partido alto – é o marco inaugural da canção, que no verso seguinte enfatiza a importância de Candeia (1935-78), padrinho musical de Arlindo. O mesmo verso cita Sambista perfeito, música que batizou o álbum de Arlindo lançado em 2007. Na composição original, o termo “sambista perfeito” incensa nomes como Candeia e Paulinho da Viola. Já aqui a expressão é evocada para celebrar o próprio Arlindo.
A levada de tantã, banjo e repique faz referência ao Cacique de Ramos, berço das rodas de samba nas quais Arlindo se formou, e às inovações que marcaram o som produzido ali durante os anos 1980, sobretudo com a incorporação daqueles três instrumentos, até então incomuns nos pagodes. A estrofe inicial da canção também remete à primeira composição de Arlindo a ser gravada, Lição de malandragem, e ao Fundo de Quintal, grupo de que o artista participou.
A fé está no refrão. Dagô, palavra de origem iorubá, é um pedido de licença. Obá Kaô saúda Xangô, o orixá da justiça, de quem Arlindo era filho.
Deixa, o fim da tristeza ainda há de chegar/O show do artista vai continuar/Morando nos sambas que você fez pra mim/Imperiano, sim!/No verso que aflora/Giram os sonhos da porta-bandeira/O amor de Orfeu, melodia namora/Serrinha é teu canto pra vida inteira.
Desponta aí o anúncio da esperança, marca de tantas músicas de Arlindo. Duas delas são lembradas: Fim da tristeza e O show tem que continuar. No jogo de espelhos entre Madureira e Arlindo, a escola se dirige ao artista mencionando também os sambas que ele fez para ela. Não à toa, nesse verso, usa-se o verbo “morar”. O sambista e o bairro moram nas composições que celebram o Império – nova alusão aos lugares concretos ou simbólicos em que o poeta transitou.
O Carnaval, fundamental na vida do imperiano Arlindo, autor vitorioso de sambas-enredo da escola e de outras agremiações, aparece representado na figura da porta-bandeira. A estrofe reverencia a mulher do sambista, Babi Cruz, que fez história no posto, trilha seguida também por sua filha, Flora Cruz. A menção a Babi se liga à ideia do romantismo expressa em inúmeros versos do compositor: O amor de Orfeu, melodia namora. No final da estrofe, uma saudação à comunidade da Serrinha, nascedouro do Império e lugar de honra entre os lugares de Arlindo.
Dagô, Dagô é a Lua de Aruanda/A espada é de guerra e Ogum vence demanda.
Na volta do refrão, surge Ogum, o guerreiro associado a São Jorge no sincretismo religioso do Rio. Ambos são padroeiros da escola e se juntam ao Xangô de Arlindo.
Cercado de axé, semeia o bem, o povo a cantar: lalaiá, lalaiá, laiá/Receba a gratidão, reizinho desse chão, aqui é o teu lugar/Uma porção de fé, o filho do verde esperança nos conduz/Zambi da coroa imperial, abiaxé, Arlindo Cruz.
O bem, outro sucesso do compositor, aparece como uma preciosidade que a música popular (o povo a cantar) é capaz de semear. Em seguida, concede-se a Arlindo o título de reizinho, que também costuma ser atribuído ao Império – mais uma reafirmação do espelhamento entre o sambista e a escola.
Num achado poético valioso, o compositor é alçado a Zambi da coroa imperial. O verso cruza a resistência quilombola – o termo “zambi” significa “líder do quilombo” – com a nobreza da corte europeia. A imagem diz muito sobre a figura do compositor popular no país e o trânsito complexo entre as realezas do povo e das elites. Por fim, a estrofe se dirige a Arlindo como abiaxé, ou seja, aquele que já nasce feito no santo.
Firma na palma da mão, tem alujá e agogô/ Império de Jorge no oxê de Xangô/Laroyê, Epa Babá/Há de roncar meu tambor/O verso de Arlindo, morada do amor.
No último refrão, a massa é convocada às palmas, presentes tanto nos terreiros quanto nas rodas de samba. A referência a alujá e agogô funde de novo o artista com a escola. No desfile de 2023, a bateria do Império, da qual o agogô é uma das marcas, evocou o orixá de cabeça de Arlindo ao emitir o alujá, o toque de Xangô. O samba ainda louva Exu, o mensageiro (Laroyê), e Oxalá, o criador do mundo (Epa Babá). A palavra derradeira da composição é amor, o sentimento que mora no verso de Arlindo, sambista finalmente convertido em lugar.
No fundo, Arlindo e Madureira são apenas jeitos de apontar para um “meu lugar” específico: o Brasil. Um Brasil muito consciente de sua história – que, como a do bairro onde o compositor se enraíza, remonta às dores dos escravizados e avança até a alegria dos adolescentes de hoje, ensaiando passinhos para o Baile Charme do Viaduto de Madureira.