equívocos do outro mundo

OBITUÁRIO DE UM OBITUÁRIO

Ao consertar um erro histórico, detectamos movimentos de entrada e saída no Céu
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Em fevereiro de 2008, a piauí anunciou aos quatro ventos que o rebolado tinha chegado ao Paraíso. Era apenas o segundo ano da revista e, naquele início, todo mês as edições abriam com a seção Chegada. Nela, os distintos leitores e leitoras eram apresentados às coisas novas, quase sempre boas, recém-surgidas no mundo.

O rebolado nos parecia uma dessas coisas boas; que tivesse chegado ao Paraíso, então, nem se fala. Era justo e ótimo que lá fosse recebido de braços abertos. Daí os primeiros parágrafos do texto em questão que, medido na escala de vida piauiense, tem hoje a idade das pirâmides e reflete as sensibilidades daquela época:

Em 1958, importante mesmo era balançar os quadris. Àquela altura do campeonato, a década que tinha começado tão comportada estava levada da breca. O rock havia mandado às favas a compostura. Para um exército de pais [brancos] escandalizados, na melhor das hipóteses aquilo era música de crioulo;[1] na pior, era o que se dançava no inferno, na companhia do Excomungado. A garotada pouco se lixava. O essencial era saber imitar aquele branquelo com alma de negro chamado Elvis. Na falta de DNA à altura, só treinando muito.

Aparentemente, Deus tomou o partido dos filhos. Não fosse assim, jamais teria posto no mundo Richard Knerr, a quem chamou de volta no último dia 14, data em que o Paraíso se tornou um pouco mais divertido. O homem, que era pândego até no sobrenome – sabe-se lá por quê, Knerr pronuncia-se “nur” –, ouviu falar de uma meninada australiana que, na falta de coisa melhor, fazia exercícios aeróbicos com aros de madeira. Decidiu dar uma espiada. Um professor de educação física fez a demonstração: gira daqui, gira dali, e enquanto o aro não caísse era suor na certa. Foi uma epifania. Knerr e seu sócio e amigo de infância Arthur Melin (a quem só falta uma consoante para ficar com nome de mago) levaram a ideia para os Estados Unidos, trocaram a madeira pelo plástico colorido, inventaram um nome pra lá de bom e começaram eles mesmos a demonstrar a novidade nos playgrounds ensolarados da Califórnia. Criava-se ali a mãe de todas as manias. Antes do cubo mágico, do pogobol, do Pacman e do Pokémon, o mundo se rendeu aos pés – ou, no caso, aos quadris – do Hula Hoop, por aqui batizado de bambolê.

Nem tudo acima está incorreto. Apenas o essencial. Numa das maiores barrigas da revista – barriga poética, sublinhe-se, já que não é possível rebolar bem sem um controle mínimo dos músculos da região –, erramos factual e teologicamente.

Comecemos pelos fatos e deixemos a teologia para o final.

Erramos factualmente porque Knerr não “ouviu falar” do fenômeno nos antípodas do planeta, como um visionário que pescasse no ar tendências até então somente insinuadas na cultura – não, nada disso: vieram lhe falar. Também metemos os pés pelas mãos porque quem fez a demonstração não era professor de educação física coisa nenhuma. Dois equívocos constrangedores que empalidecem diante deste terceiro: nem Knerr nem seu sócio Melin tiveram o estalo de chamar a coisa de Hula Hoop, um dos batismos mais geniais da história do capitalismo.

Tal mérito cabe a Joan Anderson, a grande injustiçada dessa epopeia, falecida em julho passado na cidade de Carlsbad, Califórnia.

Este texto é um pedido de desculpas, uma errata e um desagravo à sua memória.

Joan Anderson era uma australiana que emigrara para os Estados Unidos jovem e recém-casada. Ex-modelo – a Vênus de Bolso, como a chamavam na terra natal por causa da sua estatura, 1,57 metro –, instalara-se em Los Angeles com o marido, australiano como ela, um executivo bem-sucedido de uma fábrica de máquinas de corte de madeira. A vida corria serena e boa, quando, em 1956, a agora dona de casa Joan Anderson foi para Sydney visitar os pais. Chegando lá, percebeu que os jovens estavam maluquinhos por uma nova mania no campo que, décadas mais tarde, denominaríamos, em bom português, de fitness. A moda consistia em girar um aro de bambu na cintura para queimar calorias.

Convenhamos: de modo geral, queimar calorias é chato pra chuchu. A novidade do hoop – do “aro” –, como a geringonça ficou conhecida, era que o pessoal se divertia horrores enquanto rebolava. “Onde quer que eu fosse, tava todo mundo caindo na risada”, diria mais tarde Anderson. “Pensei: ‘Também quero experimentar.’”

De volta a Los Angeles, pediu à mãe que lhe mandasse um hoop pelo correio. Quando a encomenda chegou, a felicidade se aboletou no lar dos Anderson. As crianças brincavam, os adultos brincavam, até o cachorro e o periquito, se pudessem, brincariam. Presume-se que as festas na casa dos australianos ficaram entre as mais concorridas da vizinhança. É que, para descontrair os convidados, Joan Anderson metia-se dentro do aro, dava-lhe uma girada precisa com as mãos e saía rebolando pelo salão.

Num desses saraus, um amigo comentou, encantado: “Parece que você está dançando a hula.” Referia-se à dança típica do Havaí. Foi como se um raio aliterativo riscasse o Céu azul: “Hula Hoop!”, pensou imediatamente Joan Anderson.

Um futuro brilhante acabava de se descerrar diante dela.

Mas não.

Começa aqui o relato de um sonho estilhaçado. Wayne Anderson, marido de Joan, conhecia Arthur “Spud” Melin, fundador, junto com seu amigo de infância Richard Knerr, da Wham-O, empresa responsável por lançar alguns dos brinquedos mais divertidos que esta Terra já viu. O Frisbee – o brinquedo e o nome – é coisa deles. Lançaram também a Superball, uma bola endiabrada de borracha que só parava quieta depois de espatifar as vidraças e a porcelana da casa.

Wayne ligou para Spud dizendo que queria lhe mostrar um possível brinquedo danado de bacana. Marcaram um encontro, que, estranhamente, não aconteceu nas dependências da Wham-O, mas fora dela, no estacionamento. Eram apenas três testemunhas. Wayne abriu a mala do carro, tirou o hoop e, provavelmente sim, dificilmente não – a história não registra –, Joan deu uma reboladinha básica para mostrar o potencial do negócio. Spud gostou.

“Foi tudo acertado com um aperto de mão”, diria tempos depois Joan, aos 94 anos, no documentário Hula girl, de 2019. É um filminho precioso de 10 minutos que descreve com minúcias  toda a trama sórdida, restituindo a glória a quem a merece. “Quando a gente não sabe nada de negócios, imagina que as pessoas vão agir de boa-fé, mas não foi o caso. Eles enganaram a gente. Você acredita nas pessoas e elas te apunhalam pelas costas.” Talvez para se consolar, ela conclui: “Como patentear um círculo?”

O problema é que não foi só o círculo. A Wham-O surrupiou também o nome, Hula Hoop, que, de tão bom, provavelmente responde por parte considerável do frenesi que tomou conta dos Estados Unidos naquele final da década de 1950. Na tal Chegada de 2008, batemos bumbo para o triunfo:

Nos seis primeiros meses, venderam-se 20 milhões de unidades, a 1,98 dólar cada; no primeiro ano, já eram 40 milhões de quadris se remexendo; em 1960, Knerr e Melin deram uma reboladinha na direção do Céu, em agradecimento aos 100 milhões de bambolês vendidos, marca jamais atingida por nenhum brinquedo até hoje.

Passados dois meses do aperto de mão no estacionamento, Spud parou de atender aos telefonemas do casal. Com razão, os Anderson acharam aquilo o fim da picada e entraram com uma ação contra a Wham-O. Em 1961, três anos depois do lançamento do bambolê no país, o caso foi encerrado com um acordo. Depois de pagar as custas processuais e os honorários advocatícios, a quantia que Joan e Wayne levaram para casa não chegou a 5 mil dólares.

“O mundo não é justo, de modo que o jeito é seguir em frente”, filosofa Joan no final de Hula girl. Diz isso sem um pingo de amargura. É uma velhinha feliz que se aproxima do desfecho de sua existência com a consciência leve. “Tive uma vida ótima, foram 63 anos ao lado do meu marido. A felicidade é sem dúvida a melhor vingança.” Joan Anderson morreu em 14 de julho, aos 101 anos. Ao menos isso. Esperemos que tanta longevidade seja consequência de muito bambolê.

Por fim, a teologia, nosso assunto pendente. A esta altura, leitores e leitoras já se deram conta de que o artigo de 2008 não passava de uma Despedida – seção que continua firme e forte na revista – travestida de Chegada. No caso, a despedida de Richard Knerr, morto em janeiro daquele ano. Como, em fevereiro, um obituário vultoso já ocuparia a última página da revista, fizemos a gambiarra: Knerr, inventor do bambolê junto com Spud Melin, partia de uma Terra que ajudara a tornar mais feliz direto para o Paraíso, onde “chegava” com honras de chefe de Estado.

É preciso confessar: tínhamos muito orgulho dessa Chegada. Já perdemos a conta das vezes em que a exibimos para plateias boquiabertas como exemplo cabal do nosso espírito irrequieto e faceiro. Um erro que se perpetuou por dezessete anos. Compramos sem pestanejar a tese fajuta de que os dois vigaristas trouxeram a ideia da Austrália e assim colaboramos para espalhar por aí que foram eles que batizaram o bambolê.

Não espanta, então, que de erro em erro os tenhamos mandado para o Céu. Com isso, cometemos mais um erro, agora de doutrina. Erro teológico. Como apontou Marcella Ramos, nossa atual coordenadora de checagem (que em 2008 tinha 12 anos e queria ser pediatra, não podendo, portanto, ser responsabilizada pelo tropeço), “pelo que dizem Dele, me parece provável que Deus escolhesse punir esse tipo de coisa”.

Esperemos que sim. E torçamos para que o fato deflagrador da punição seja este texto-denúncia. E mais: que, ao saírem aos prantos do Paraíso pela porta dos fundos, Knerr e Melin ainda consigam ouvir o Misericordioso dar as boas-vindas a Joan Anderson.


[1] Ainda que, no texto, essa expressão se refira à fala dos pais brancos, a piauí não a utiliza nos dias de hoje. Da mesma forma, considera que é incorreto racializar a biologia, como ocorre no final do parágrafo.


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Documentarista, é fundador da piauí. Dirigiu No Intenso Agora, Santiago, Entreatos, Notícias de uma Guerra Particular e Nelson Freire. É autor de Arrabalde: Em Busca da Amazônia (Companhia das Letras)