questões morais
Ian Buruma Set 2025 18h43
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Tradução de Isa Mara Lando
A pessoa que cresce em um país que esteve sob a ocupação nazista menos de uma década antes de seu nascimento, como aconteceu comigo, carrega uma certeza absoluta: sabe quem foi bom e quem foi mau. Em Haia, onde eu morava, nunca comprávamos doces numa certa confeitaria, porque a mulher atrás do balcão havia namorado um soldado do Exército alemão. Evitávamos o açougue da esquina, pois se dizia que o dono tinha colaborado com os nazistas. A maioria dos nossos professores na escola primária esteve do lado dos anjos, é claro – ou, pelo menos, era o que diziam. Um deles fora um bravo resistente: ao indicar o caminho a um grupo de soldados alemães que pediu orientações, mandou todos na direção errada. Outro furou os pneus de um veículo militar alemão.
Seja qual for a verdade sobre essas histórias e rumores, uma pergunta servia como critério moral básico na nossa época de formação: a pessoa resistiu ou colaborou com os nazistas? Levou um tempo até que percebêssemos que aqueles que colaboraram voluntariamente, bem como aqueles que resistiram ativamente, eram uma minoria – menos de 10% de cada lado. E havia muito mais gente que colaborou do que gente que resistiu. A maioria abaixou a cabeça e tratou de sobreviver como podia. Se algo desagradável acontecesse com os outros – sobretudo os judeus –, o mais cômodo era simplesmente desviar a vista. Assim, era possível fingir que não se sabia de nada.
Para nós que nascemos depois da Segunda Guerra Mundial, era fácil julgar os outros com severidade. Mas talvez tivesse sido mais sábio se tivéssemos prestado atenção nas palavras de Anthony Eden, o ex-primeiro-ministro britânico que, ao falar sobre o colaboracionismo na França, no grande filme A tristeza e a piedade, de Marcel Ophüls, disse o seguinte, em um francês perfeito: que não se atreveria a fazer um julgamento moral sobre o tratamento dispensado pelos franceses aos ex-colaboradores, pois ele próprio não tivera o infortúnio de viver debaixo de uma ocupação brutal.
Mesmo quando se aprende a não ser tão rápido no julgamento dos outros, as experiências da Segunda Guerra não deixam de lançar sua sombra sinistra, de modo que é impossível se esquivar das questões morais – em especial agora, nestes tempos de crescente autocracia, perseguição e violência, legitimadas pelos líderes mais poderosos do mundo. Classificar as pessoas como heróis ou vilões me interessa menos do que fazer outra pergunta: é possível permanecer decente em uma sociedade indecente? Afora aderir às forças da resistência, arriscando a própria vida e a vida dos outros, será possível não se deixar corromper por um regime criminoso?
Em seu excelente livro The decent society (A sociedade decente), o filósofo israelense Avishai Margalit definiu de maneira sucinta o que constitui uma sociedade indecente. Para ele, é aquela cujas instituições são concebidas para humilhar as pessoas, em geral as minorias. Uma sociedade decente não é exatamente o mesmo que uma sociedade civilizada. Nas palavras de Margalit, “uma sociedade civilizada é aquela cujos membros não humilham uns aos outros, enquanto uma sociedade decente é aquela em que as instituições não humilham as pessoas”.
Uma sociedade governada por nazistas, stalinistas, maoistas ou outros governantes que aspiram ao controle totalitário é, evidentemente, mais do que apenas indecente. Enquanto um indivíduo puder expressar livremente suas opiniões críticas sem ser assassinado ou encarcerado, ainda é possível manter a decência. Os verdadeiros dilemas morais começam quando nossa subsistência, ou mesmo nossa vida, depende de estarmos dispostos a cooperar com um Estado indecente. Onde não há escolha, há menos dilema.
Em uma ditadura voltada para a humilhação – ou coisas piores –, pode-se tomar a decisão de ficar ou partir. Mas nem todos têm esse luxo. Mudar para outro país é sempre difícil e, para muitos, é impensável. A maioria dos países não permite a entrada de estrangeiros sem dinheiro ou documentos, sem perspectiva de emprego ou domínio do idioma. Aqueles que, mesmo assim, tentam sair do país muitas vezes acabam mortos, ou presos em campos de detenção em condições estarrecedoras. E tudo isso depende, antes de mais nada, da obtenção de uma permissão para sair do país. Quando a Alemanha nazista ocupou a maior parte da Europa, sair ficou absolutamente impossível. Menos de uma década depois, a Cortina de Ferro, que não era apenas uma metáfora, impedia que as pessoas deixassem os países comunistas.
Essas são questões práticas. Mas quem pode deixar o país – por ser famoso, bem relacionado ou rico – enfrenta também uma questão moral. No caso de qualquer país ditatorial – a Alemanha nazista, a União Soviética, a China, a Rússia – surge sempre uma ruptura entre os que partem e os que, por qualquer motivo, decidem permanecer. O escritor Thomas Mann, hostil ao nazismo e casado com uma mulher judia, fugiu da Alemanha assim que Hitler ascendeu ao poder, em 1933. Primeiro, foi para a Suíça e, depois, para os Estados Unidos. Quando tomou consciência da extensão dos horrendos crimes nazistas, Mann declarou, na rádio BBC: “Tudo o que é alemão, cada um que fala alemão, que escreve em alemão, que viveu na Alemanha [a ênfase é minha], está implicado nesse desmascaramento desonroso.” E prosseguiu afirmando que todos os livros publicados no Terceiro Reich cheiravam a “sangue e vergonha” e deveriam ser destruídos e reciclados como papel.
A declaração não foi bem recebida por escritores que ficaram na Alemanha, mas não haviam sido nazistas e tentaram, aos seus próprios olhos, manter a decência. O romancista Frank Thiess levou a crítica de Mann para o lado pessoal. Como resposta, cunhou a expressão “emigração interior”. Viver no país em tempos tenebrosos e proteger-se contra um Estado criminoso refugiando-se nos próprios pensamentos – isso seria, segundo Thiess, mais heroico do que pregar sermões aos compatriotas, a partir do seu confortável exílio na Califórnia.
Um conflito semelhante surgiu com os horrores da política de Vladimir Putin na Rússia. Centenas de milhares de russos já deixaram o país – alguns, como Thomas Mann em 1933, porque seriam presos se ficassem; outros, porque achavam intolerável viver sob o governo autocrático e beligerante de Putin; e outros, ainda, porque não queriam correr o risco de se envolver de algum modo com o regime. O cineasta Kirill Serebrennikov, por exemplo, desejava permanecer na Rússia, em que pese o fato de ser continuamente hostilizado pelo governo. O ataque à Ucrânia, porém, foi a gota d’água. “Esta guerra está sendo travada por um presidente e por políticos em quem eu não votei”, disse ele. “Mas, aos olhos de muitos, sou cúmplice deles, mesmo que involuntariamente.”
Garry Kasparov, campeão mundial de xadrez e ativista político que deixou a Rússia em 2013, declarou que seus compatriotas que desejam “estar do lado certo da história deveriam arrumar as malas e deixar o país”. Os outros, segundo ele, “fazem parte da máquina de guerra”. No entanto, alguns que optaram por ficar na Rússia são, indiscutivelmente, pessoas decentes. O jornalista Dmitry Muratov recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2021 por sua luta para manter a liberdade de expressão no país. Muratov já criticou abertamente a guerra de Putin. Seu jornal, Novaya Gazeta, agora é publicado online e só pode ser acessado do exterior. Mas ele se recusa a deixar Moscou, onde ainda vivem alguns dos seus antigos colegas de jornal: “Vamos continuar trabalhando aqui até que o cano frio do revólver encoste nas nossas testas quentes.”
Uma figura como Muratov provavelmente não teria sobrevivido na Alemanha nazista. Na melhor das hipóteses, teria sido forçado ao silêncio. A “emigração interior”, no entanto, pode assumir diversas formas. Alguns escritores e artistas conseguem continuar produzindo, sem virar instrumentos de propaganda. Pouquíssimos japoneses deixaram o país quando seus governantes eram os autocratas militares que deflagraram guerras por toda a Ásia nos anos 1930 e 1940. Para a maioria dos japoneses, o exílio era algo difícil de imaginar. Alguns escritores, como Nagai Kafū, se recusaram a publicar durante a guerra. Outros evitaram ser propagandistas concentrando-se em temas históricos, ou oferecendo divertimentos inofensivos. Em 1941, o grande cineasta Kenji Mizoguchi realizou A vingança dos 47 ronins, um longo filme sobre uma famosa lenda samurai. A obra poderia ser interpretada como patriótica, mas não endossava o regime ultranacionalista.
Na Alemanha nazista, vários artistas famosos que continuaram trabalhando no país alegaram que a alta cultura clássica os colocava acima da natureza criminosa do regime de Hitler. O ator Gustaf Gründgens ficou feliz em comandar o Teatro Estatal prussiano, sob os auspícios de Hermann Göring. Encenou os clássicos alemães, acreditando, como disse depois, que seu teatro era uma espécie de oásis, isolado dos horrores do Estado nazista. Wilhelm Furtwängler, talvez o maior maestro da sua época, poderia facilmente ter deixado a Alemanha depois de 1933. Recusou-se a fazê-lo pela mesma razão que levou Thomas Mann ao exílio. Mann acreditava que a alta cultura alemã o acompanhava aonde quer que fosse. O exílio era a única forma de mantê-la fiel aos seus princípios. Furtwängler também se considerava um guardião da alta cultura, mas achava que sua arte definharia fora de sua terra natal. Em resposta à crítica de Arturo Toscanini, segundo a qual “todo aquele que rege uma orquestra no Terceiro Reich é nazista”, Furtwängler fez a seguinte afirmação: “Pessoalmente, acredito que para os músicos não existem países escravizados e países livres. Os seres humanos são livres onde quer que se toque Wagner e Beethoven. E, se não forem livres a princípio, tornam-se livres enquanto ouvem essas obras. A música os transporta para regiões onde a Gestapo não pode lhes fazer nenhum mal.”
Era uma visão espantosamente ingênua – e bastante conveniente para o maestro. Mas seria indecente? Comprometeu Furtwängler? Considerando que a intenção de Joseph Goebbels era exibir a alta cultura alemã e mesmo o entretenimento popular como provas da natureza civilizada do Terceiro Reich, pode-se afirmar que quem o ajudasse nessa empreitada seria seu cúmplice. Furtwängler se recusou a virar membro do Partido Nazista, ao contrário de Herbert von Karajan, que tinha uma patente na SS. Furtwängler chegou, inclusive, a proteger alguns músicos judeus. Ele continuou sendo um homem decente, mas foi obrigado a reger numa comemoração ao aniversário de Hitler, e seu trabalho como maestro sem dúvida ajudou a sustentar a aparência de que, sob o regime nazista, a cultura continuava em pleno vigor.
O caso de Erich Kästner é ainda mais complexo. Ele não era apenas o autor de Emil e os detetives, célebre livro infantil publicado em 1928, mas também escrevera um romance antinazista, Fabian: die geschichte eines moralisten (Fabian: a história de um moralista), em 1931. Seus livros foram lançados à fogueira em 1933, nas famigeradas queimas de livros. Kästner, que detestava os nazistas, foi proibido de publicar. Mas decidiu permanecer em Berlim e se recusava a deixar que os nazistas o expulsassem do seu próprio país. E não queria abandonar a mãe, por quem tinha devoção filial. Era um homem bom, sem dúvida, mas precisava trabalhar. Quando foi convidado para escrever um roteiro para os estúdios UFA, sob pseudônimo, aceitou com entusiasmo.
Münchhausen, lançado em 1943, não é um filme de propaganda, mas uma brilhante adaptação da história do barão de Münchhausen, personagem do século XVIII. Goebbels queria que o filme fosse mais luxuoso, mais bem realizado, tecnicamente mais brilhante que qualquer produto de Hollywood. Utilizava os filmes da marca Agfa, com suas cores gloriosas, e contava com grandes estrelas de cinema que ainda viviam na Alemanha. Não havia sinal algum de propaganda nazista. Kästner conseguiu até inserir algumas falas que, para ouvidos atentos, poderiam ser interpretadas como alfinetadas contra o regime. Numa determinada cena, um feiticeiro maligno, transbordando de perversidade, sugere a Münchhausen que, se invadisse a Polônia, conseguiria adquirir um poder incalculável. Quando descobriu quem havia escrito o roteiro, Hitler explodiu de raiva e ordenou que Kästner nunca mais voltasse a trabalhar.
Mesmo assim, Kästner, tal como Furtwängler, cooperou com o objetivo de Goebbels de enaltecer a imagem do Terceiro Reich por meio da alta cultura, por meio de formas elevadas de arte e entretenimento. Isso não fez dele um colaborador ativo do nazismo. Pode-se desculpar seu comportamento, mesmo que seja difícil justificá-lo. Mas, sem dúvida, ele se envolveu com o regime.
Se isso é verdade para artistas alemães que eram homens decentes e até hostis ao nazismo, o que pensar dos franceses, dos artistas e outras personalidades, que continuaram trabalhando sob a ocupação alemã? Jean-Paul Sartre publicou livros e encenou peças. Christian Dior criou vestidos, Mistinguett cantou canções e Henri-Georges Clouzot fez filmes (alguns muito bons). A principal justificativa deles não era muito diferente da de Furtwängler: queriam demonstrar que a cultura francesa continuava bem viva, apesar da humilhação da ocupação nazista. Na verdade, isso era motivo de orgulho, e alguns até consideravam um sinal tácito de resistência.
Não todos. Jean Guéhenno era um professor e crítico literário muito conceituado. Em vez de se submeter à censura nazista, decidiu que a única resposta decente para um escritor francês era o silêncio. Guéhenno explicou suas razões no valioso diário que manteve durante os anos da ocupação e que foi publicado depois com o título Journal des années noires (Diário dos anos negros). Escreve ele: “O que devemos pensar dos escritores franceses que, para não desagradar às autoridades da ocupação, decidem escrever sobre tudo, exceto sobre a única coisa que os franceses estão pensando?”
O diário de Guéhenno é sábio, espirituoso e cáustico em relação a seus colegas escritores – incluindo alguns famosos, como Paul Valéry e Henry de Montherlant. “Incapaz de ficar escondido muito tempo”, escreve ele, esse tipo de figura literária “venderia a alma só para que seu nome continue sendo impresso”. Valéry não escreveu poemas propagandísticos, mas ficou em segurança atendo-se a temas mitológicos para entreter os leitores. Escreve Guéhenno: “Se você não consegue fazer mais nada além de nos divertir, então se cale.”
Uma postura tão íntegra, tão fiel aos princípios, era mais difícil de manter para quem dependia de seus textos ou suas obras de arte para ganhar a vida. Guéhenno ainda podia ser professor no ensino médio. Mas sua atitude fazia sentido num país sob uma ocupação estrangeira obviamente indecente. Em um Estado totalitário, as pessoas em geral não têm nem sequer a opção de ficar em silêncio. Quando Mao Tsé-tung governava a China, fazia-se de tudo para tornar toda a população cúmplice dos crimes do Estado. As pessoas eram forçadas a participar de campanhas assassinas contra “direitistas”, “desviacionistas”, “revisionistas burgueses” e outros “inimigos da classe proletária”. Durante a Revolução Cultural, muitos chineses foram autores e vítimas de violências terríveis, a depender da direção em que sopravam os ventos. Para os artistas, intelectuais e escritores, calar-se não era uma opção: todos eram obrigados a louvar a sabedoria infinita de Mao e a exaltar a linha do partido. Muitos escritores que esperavam manter a decência e se esforçavam para não se comprometer acabaram assassinados. Um dos grandes escritores chineses do século XX, Lao She, que se recusou a escrever propaganda, foi torturado até a morte (alegaram que foi suicídio) durante a Revolução Cultural, sob a acusação de ser “contrarrevolucionário”. Na China de Mao, ser um Erich Kästner, e menos ainda um Jean Guéhenno, seria impossível.
Stálin, por quem Mao nutria grande admiração, podia ser igualmente assassino. Ao humilhar de forma deliberada certas categorias de pessoas – incluindo os judeus, em alguns períodos –, a União Soviética sob Stálin transformou-se num Estado manifestamente indecente. Há, no entanto, figuras públicas que mantiveram a decência, embora quase sempre fazendo algumas concessões para poder sobreviver.
Dmitri Shostakovich não teria conseguido compor sua música sob o governo de Mao. (O pianista e compositor chinês Liu Shikun foi preso por oito anos em 1967, por tocar música clássica ocidental. Os guardas tinham especial prazer em espancar suas mãos e seus braços.) Na verdade, em diferentes momentos de sua vida, Shostakovich poderia ter desaparecido no gulag, como eram chamados os campos de trabalhos forçados.
Em 1936, foi denunciado depois que Stálin saiu no meio da apresentação da sua ópera Lady Macbeth de Mtsensk. Quando o jornal Pravda o acusou de compor “uma confusão em vez de música” e de trair “a arte soviética”, amigos o abandonaram e antigos admiradores logo fizeram coro às acusações. Um ano depois, foi levado à sede da NKVD, a chamada “Casa Grande”, onde foi interrogado e pressionado a denunciar um amigo íntimo. Um golpe de sorte – o próprio interrogador foi subitamente preso – salvou o compositor. Em 1948, Shostakovich foi uma das vítimas de um decreto contra a “degeneração burguesa”. Sua música foi atacada em razão de seu “formalismo”. De novo, muitos antigos colegas e amigos, com pavor da contaminação, se voltaram contra ele. O compositor foi forçado a se retratar pelos seus pecados estéticos e políticos. Perdeu seus cargos de professor e chegou a pensar em suicídio. Para se redimir e sustentar a família, prometeu compor, dali em diante, apenas música para o povo, e criou trilhas para filmes de propaganda e odes em louvor a Stálin.
Mesmo assim, apesar das ameaças à sua vida e ao seu sustento, Shostakovich continuou a compor música séria, e continuou sendo um homem decente. Há muitos relatos da sua coragem e generosidade pessoal registrados no livro Shostakovich: a life remembered (Shostakovich: lembranças de uma vida), de Elizabeth Wilson. Um jovem compositor chamado Isaac Schwartz, cujo pai tinha sido preso como “inimigo do povo”, foi acolhido por Shostakovich, que chegou a pagar secretamente pelos seus estudos. No auge da campanha antiformalista, Schwartz recebeu ordens do seu conservatório para denunciar publicamente Shostakovich como mau professor. Ele se recusou. Ao saber disso, Shostakovich ficou comovido, mas disse a Schwartz que ele jamais deveria ter corrido esse risco, pois tinha esposa e filhos pequenos para cuidar. “Se eu sou criticado, então que me critiquem – isso é problema meu.”
No final dos anos 1940, quando Stálin passou a perseguir os judeus na vida pública, visando purgar os “sionistas” e os “cosmopolitas sem raízes”, Shostakovich defendeu os músicos judeus e compôs um ciclo intitulado Canções do folclore judaico – que só pôde ser apresentado em público depois da morte de Stálin.
Shostakovich provavelmente poderia ter deixado a União Soviética, mas preferiu ficar. Sabia que, para sobreviver e continuar a compor, mesmo que suas obras não pudessem ser executadas na época, era preciso fazer concessões. Assim, aceitou realizar trabalhos medíocres sob encomenda, para apaziguar Stálin. Aos olhos de artistas russos que conseguiram viver no exterior, como Igor Stravinski, essas pequenas concessões manchavam a sua carreira. A situação culminou com um dos episódios mais humilhantes da vida do compositor.
Em 1949, apenas um ano depois de ter sido denunciado como “formalista”, Shostakovich foi escalado por Stálin para representar a União Soviética no Congresso Científico e Cultural para a Paz Mundial, em Nova York. Tremendo de nervosismo e acendendo um cigarro atrás do outro, o compositor foi obrigado a ler uma declaração previamente redigida criticando compositores como Stravinski e Schönberg (os quais, na verdade, admirava), por suposta cumplicidade com a cultura ocidental burguesa e decadente. Também foi forçado a expressar gratidão ao Partido Comunista por ter corrigido os erros que ele próprio cometera. Essa lamentável apresentação foi um castigo destinado a humilhar Shostakovich em público.
A cisão entre os russos que ficaram na União Soviética e os que foram viver no exterior se tornou dolorosamente evidente quando Stravinski foi convidado a assinar um telegrama de boas-vindas a Shostakovich e outros artistas que estavam chegando aos Estados Unidos. Ele respondeu que não poderia “juntar-se aos que saúdam artistas soviéticos”, pois todas as suas convicções éticas e estéticas se opunham a tal gesto. Também recusou o convite para participar de um debate público com Shostakovich – para alívio deste, sem dúvida. Stravinski declarou: “Como se pode conversar com eles? Eles não são livres. Não há discussão em público com pessoas que não são livres.” Dizer que Stravinski tinha razão não significa que Shostakovich fosse indecente, mas é uma evidência das concessões que precisavam ser feitas quando se escolhia viver sob uma ditadura brutal (quando havia, claro, a possibilidade de fazer uma escolha).
A União Soviética de Stálin e a China de Mao são exemplos extremos de opressão. Houve períodos em ambos os países, assim como em Estados comunistas periféricos, em que escritores e artistas puderam produzir obras de arte sérias, sem a contaminação da propaganda oficial. Mas, muitas vezes, tiveram que fazer como Erich Kästner ao escrever o roteiro de Münchhausen, cheio de insinuações subversivas nas entrelinhas. Durante a Primavera de Praga, nos anos 1960, os escritores e cineastas tchecoslovacos quase não precisaram empregar esse recurso. Mas, quando os tanques da União Soviética e da Alemanha Oriental esmagaram a relativa liberdade de que desfrutavam, a mesma questão surgiu: ficar e submeter-se à indignidade da censura e das denúncias públicas, ou deixar o país?
A opção de partir só estava disponível para poucos, e atravessar a Cortina de Ferro era arriscado. Mas quem conseguiu dar o salto para ter mais liberdade no Ocidente também precisava ganhar a vida, vivendo em países estranhos e nem sempre hospitaleiros. Milan Kundera teve sucesso em Paris, mas foi alvo de ressentimento por parte de muitos que ficaram na Tchecoslováquia. Entre os grandes cineastas tchecos, Jiří Menzel optou por ficar, mas à custa de ter seu trabalho proibido ou muito reduzido em qualidade. Nunca mais realizou um filme tão bom quanto Trens estreitamente vigiados.
Miloš Forman e Ivan Passer conseguiram chegar aos Estados Unidos. Forman deu um jeito de continuar fazendo filmes maravilhosos dentro do sistema hollywoodiano. A sátira presente em obras como Procura insaciável (Taking off), Um estranho no ninho e O povo contra Larry Flynt é tão mordaz quanto os filmes que fez na Tchecoslováquia. Foi um sobrevivente, nos dois lados da Cortina de Ferro. Entretanto, trabalhar na indústria americana de entretenimento também exige fazer concessões, que não têm muito a ver com decência, mas com exigências do mercado. Forman foi bastante questionado sobre isso, e sempre respondia que preferia as restrições comerciais à censura política. Deixara seu país porque, na sua visão, o comunismo “humilha o orgulho da pessoa, obriga você a entortar a espinha voluntariamente”. Se tivesse ficado em Praga teria que abandonar o cinema, ou então se conformar e “cagar na minha própria boca”.
Em Hollywood, disse Forman, “financiar alguma coisa que os homens do dinheiro acham que não é comercial pode ser um problema, mas não é uma proibição”. Comparava viver numa sociedade comunista a estar preso num jardim zoológico: você é alimentado, mas está trancado na gaiola. Os Estados Unidos, em contraste, se parecem mais com uma selva: “Você é livre para ir aonde quiser, mas todo mundo está tentando te matar.” Não há dúvida sobre o que ele preferia. Mas existe, é claro, um preço a pagar pela conformidade comercial, como expressou Passer, que teve menos sucesso nos Estados Unidos do que Forman. Passer afirmou que só ele, e ninguém mais, poderia ter feito seus filmes tchecos dos anos 1960, ao passo que seus filmes americanos poderiam ter sido realizados por qualquer diretor competente.
Uma sociedade autoritária, seja ela comunista ou de direita, é sempre uma sociedade indecente? É uma pergunta válida. Nem todas humilham e perseguem as minorias. Miloš Forman argumentava que os governos comunistas humilhavam todos os seus cidadãos ao obrigá-los à submissão física e mental. Václav Havel, em seu famoso ensaio sobre “viver na verdade”, descreve a maneira como as pessoas eram forçadas a repetir as mentiras oficiais, sabendo perfeitamente que eram mentiras: “Ficamos moralmente doentes, porque nos acostumamos a falar algo diferente do que pensávamos.” A única vantagem relativa de se viver numa ditadura de direita, ou militar, é que a pessoa tem mais chances de ficar em silêncio.
A humilhação de ter que repetir falsidades afeta as figuras públicas, como escritores e artistas, de forma mais intensa do que o cidadão comum. Mas a cumplicidade, imposta com frequência às pessoas, atinge a todos. Um dos exemplos mais perversos da opressão comunista na Europa foi a Alemanha Oriental, oficialmente República Democrática Alemã (RDA), fundada em 1949. Perverso porque muitos que ali se refugiaram depois de escapar de Hitler e seu Terceiro Reich passaram a ver a RDA como “a Alemanha boa”, a Alemanha antifascista. Poucos escritores judeus alemães voltaram para a Alemanha Ocidental, onde se restabeleceu a democracia. Alfred Döblin foi um caso incomum, e nunca se sentiu à vontade ali. Alguns judeus voltaram para a RDA, como Stephan Hermlin e Stefan Heym.
Mas embora muitos ex-nazistas tenham continuado a viver bem no Ocidente, por vezes alcançando cargos elevados, a Alemanha Oriental replicou alguns dos métodos opressivos do Terceiro Reich. A polícia secreta, a Stasi, era mais invasiva e constante na vida cotidiana do que a Gestapo havia sido. Não existiam campos de extermínio na RDA, e a retórica oficial girava em torno de igualdade, fraternidade e paz mundial. A brutalidade estatal explícita era evitada, salvo se fosse estritamente necessária – por exemplo, quando alguém tentava escapar pulando o Muro de Berlim. Mas era comum que as pessoas fossem levadas para interrogatórios da Stasi. A conversa podia se voltar para os filhos do interrogado, que desejavam estudar numa boa escola. Era possível arranjar uma solução, é claro, mas em troca o interrogado seria obrigado a comparecer regularmente para “conversar” e relatar o que seus amigos andavam dizendo sobre o governo. Ao aceitar, o sujeito decente se tornava indecente, denunciando amigos e até familiares próximos.
O caso de Heiner Müller, renomado dramaturgo, mostra como isso podia acontecer até com os melhores. Nascido em 1929, seu pai era adepto do Partido Social-Democrata, adversário do nazismo, e chegou a ser preso pelos nazistas num campo de concentração. Müller, como a maioria dos meninos de sua idade, ingressou na Juventude Hitlerista. Depois da guerra, sua família passou a viver na Alemanha Oriental ocupada pela União Soviética. Eram socialistas, mas em 1951 os pais e o irmão mais novo de Müller decidiram buscar mais liberdade no Ocidente, quando ainda era fácil fazer essa mudança. Müller permaneceu em Berlim Oriental e se tornou um escritor bem-sucedido. No entanto, teve muitos conflitos com o partido, que proibiu suas peças diversas vezes. Müller protestava contra a repressão e a emigração forçada de dissidentes. Mesmo assim, continuou leal à RDA, que via como a melhor Alemanha, a Alemanha antifascista.
Müller, segundo todos os relatos, era um homem decente. Contudo, depois da queda do Estado comunista em 1989, documentos encontrados nos arquivos da Stasi sugeriam que Müller tinha sido um informante secreto da polícia desde 1979, e possivelmente teria participado da denúncia contra um colega escritor. Müller respondeu que nunca assinou nenhum documento nem relatou nada por escrito, mas reconheceu que fora ingênuo ao não perceber que suas conversas com agentes da Stasi iriam classificá-lo como “informante informal”. Talvez tenha sido ingênuo. Talvez tenha sido coagido por razões pessoais. Aqui também se aplica a recusa de Anthony Eden de aceitar, sem merecer, um louvor à sua integridade e retidão de conduta. Mas o caso demonstra, no mínimo, como é difícil transitar pelas pressões de um Estado indecente.
Todos os exemplos acima se referem ao comportamento de pessoas em sociedades onde a liberdade de expressão é severamente restringida ou inexistente. Mas o que dizer de um Estado indecente que ainda preserva certas liberdades que os cidadãos das democracias liberais consideraram garantidas, como eleições livres, imprensa livre e algum grau de independência do Judiciário? Consideremos dois países da nossa época. Podem não ser os únicos exemplos, mas são os mais proeminentes atualmente: Israel e os Estados Unidos. Sob o governo de Benjamin Netanyahu, o Estado de Israel, embora continue democrático, passou a se enquadrar na definição de indecência proposta por Avishai Margalit, segundo a qual as instituições oficiais elaboram políticas destinadas a humilhar pessoas e minorias. O governo de Netanyahu inclui políticos cujas opiniões sobre os palestinos são violentamente hostis. O ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, já foi condenado diversas vezes por incitação ao ódio racial. O saldo de mais de 40 mil mortos[1] em Gaza, em retaliação ao terrível ataque cometido contra os judeus em 7 de outubro de 2023, não foi tanto uma consequência inevitável da guerra: foi, em vez disso, um ato de vingança brutal. Os palestinos que vivem na Cisjordânia vêm sendo alvo de humilhações institucionais há muitas décadas. Alegar que atrocidades piores estão ocorrendo no Sudão ou no Congo não é um bom argumento, justamente porque Israel ainda é uma democracia.
Muitos israelenses deixaram o país em consequência. Mas seria um grave erro afirmar, como já fizeram alguns comentaristas, que aqueles que ficam no país são cúmplices dos crimes do Estado, pois ainda é possível ser um israelense decente. Um exemplo é o romancista David Grossman. Seus livros de ficção e seus escritos políticos são obras de um profundo humanismo. Ele vem protestando vigorosamente contra as políticas cruéis e degradantes do seu governo em relação à população palestina. Grossman se manifesta com frequência contra os abusos oficiais. E, contudo, continua vivendo no seu país, ao qual ele sente que pertence. Apesar de todas as falhas, ele ainda acredita que Israel – fundado por sobreviventes de perseguições e assassinatos em massa – tem o direito de existir e de se defender. Não é uma posição indecente. No entanto, certos “antissionistas” de fora de Israel já acusaram Grossman de fazer a apologia do genocídio. Quando os cidadãos ainda podem se expressar livremente, mesmo que tenham de enfrentar a ira do seu governo e de alguns compatriotas, devem ser honrados por levantar a voz e fazer suas críticas – e não considerados culpados por associação.
O governo americano sob Donald Trump está fazendo tudo o que pode para construir um Estado indecente. Os imigrantes são insultados pelo próprio presidente e ameaçados com prisão e deportação. Alguns residentes com visto de permanência já foram encarcerados por expressar opiniões que o governo desaprova – como protestar contra a guerra de Israel em Gaza. Agências governamentais das quais milhões de americanos dependem para manter a saúde, ou mesmo para sobreviver, são rotuladas como “criminosas” e simplesmente destruídas. O axioma de Havel – “viver na verdade” – é sistematicamente minado pela exigência de que os homens e as mulheres em altos cargos governamentais repitam mentiras: que a eleição de 2020 foi “fraudada”, que os invasores do Capitólio eram “patriotas”. A independência do Judiciário está comprometida pela nomeação de bajuladores que prometem processar os adversários políticos do presidente. Os jornalistas são denunciados como “inimigos do povo”.
Nos Estados Unidos, porém, o Estado indecente ainda não é uma ditadura. Pelo menos por enquanto, a imprensa tem liberdade de expor e publicar opiniões críticas.[2] Até agora existem juízes independentes. Haverá eleições – a menos que Trump esteja disposto a provocar uma crise constitucional para se manter no poder. E existe um grande partido de oposição. Tudo isso pode desmoronar com o tempo, é claro. E uma forma de tornar esse colapso mais provável é agir como se os Estados Unidos já fossem uma tirania.
Quem se curva a exigências irracionais – e por vezes ilegais – sem ser forçado a isso está apenas fortalecendo os impulsos indecentes de líderes com intenções autoritárias. Essa atitude já foi chamada de “obediência antecipatória”. Em vez de resistir a ataques injustificados ao seu trabalho jornalístico, empresas de mídia estão pagando altas quantias de dinheiro a um governo hostil, para evitar processos judiciais.[3] Escritórios de advocacia estão fazendo o mesmo. Proprietários de jornais já ordenam aos seus editores que evitem críticas ao presidente. Políticos se entregam ao que, na Alemanha nazista, era chamado de “trabalhar em prol do Führer”: buscam agradar o líder antecipando seus desejos mais extravagantes, como esculpir o rosto de Trump no Monte Rushmore, ou garantir a ele um terceiro mandato. Empresas, universidades e até o Exército americano, tomados por um surto de pânico, vasculham seus registros, suas comunicações e seus currículos acadêmicos, para apagar qualquer coisa que possa despertar a ira do presidente e seus lacaios. Se antes a ideologia woke – “politicamente correta” – era usada por muitas dessas mesmas instituições para sufocar a liberdade de expressão, a cruzada anti-woke da extrema direita é ainda mais perigosa, pois conta com o respaldo do Estado. Universidades estão sendo privadas de bilhões de dólares em verbas federais, caso se recusem a permitir que o governo decida sobre o que deve ser ensinado e por quem. O fato de Harvard ter reagido e processado o governo Trump é um bom sinal.[4] Espera-se que outras instituições sigam o exemplo.
Há ainda outra resposta psicológica inevitável diante de qualquer Estado indecente: a “emigração interna”, aquela tentação de cuidar apenas do seu próprio jardim particular, de silenciar o ruído da pólis, de se recusar a acompanhar as notícias. Quando Trump foi eleito em 2016 pela primeira vez, houve mais manifestações de protesto do que agora. Há várias explicações para que seu segundo mandato esteja encontrando menos resistência: uma sensação de entorpecimento, um Partido Democrata atordoado, a ausência de um foco capaz de mobilizar as pessoas para saírem às ruas, ou o medo justificado de que protestos em massa provoquem violência estatal, sem conseguir frear o extremismo de Trump.
Mas se a “emigração interna” é desculpável numa ditadura, onde dar opiniões pode ser um perigo mortal, não se pode dizer o mesmo no caso de governos sob os quais ainda há liberdade de expressão. A obediência antecipatória não é o caminho para se preservar a decência. Os cidadãos devem protestar, da maneira que puderem, contra as tentativas de desmantelar as instituições que protegem uma democracia liberal – e sobretudo quando os homens e mulheres à frente dessas instituições, incluindo o próprio presidente, as utilizam para humilhar as pessoas. Se os cidadãos não reagirem enquanto ainda podem fazê-lo sem risco de prisão ou deportação, as gerações futuras reservarão a eles um julgamento severo. Muito mais severo do que o veredicto que Anthony Eden estava disposto a conceder aos franceses.
Artigo originalmente publicado na revista Liberties
[1] A conta mais recente indica que o total de mortos em Gaza já passa de 65 mil. (Nota da Redação)
[2] Em 17 de setembro, pressionadas pelo governo de Donald Trump, a ABC e a Disney tiraram do ar o programa noturno do comediante Jimmy Kimmel em razão de seus comentários sobre o assassino do ultraconservador Charlie Kirk. A decisão deflagrou um debate nacional sobre liberdade de expressão, e a ABC e a Disney devolveram o programa a Kimmel, que voltou ao ar em 23 de setembro atraindo uma audiência quatro vezes maior que a habitual. (N.R.)
[3] A CBS aceitou pagar 16 milhões de dólares em favor de Trump para encerrar uma ação judicial, embora tivesse chances reais de obter sentença favorável. Em julho, o comediante Stephen Colbert, em seu programa noturno, chamou o pagamento de “suborno”. A CBS logo anunciou que o show, uma atração tradicional da emissora com mais de três décadas no ar, será cancelado e não terá uma nova temporada em 2026. (N.R.)
[4]Depois de reagir e processar o governo Trump, Harvard abriu negociações. Até o fechamento desta edição, as notícias informavam que a universidade estava cogitando pagar 500 milhões de dólares para encerrar sua disputa com a Casa Branca, mas as negociações encontravam-se estagnadas. (N.R.)