poesia
José Almino Nov 2025 17h21
2 min de leitura
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A DECISÃO
A decisão é um instante de loucura,
e a indecisão não lhe é distinta:
tão louca quanto o seu contrário
é o hesitar entre
o vazio do medo
e o furor inútil
que se arrastam
em meio ao torpor
onipresente.
ASSIM NA TERRA
Apenas não viver lhe dava tudo,[1]
glosa maldita,
eterna caminhada,
mouco destino
a doer e sempre mudo,
contente em si e no mais,
nada.
Na terra, nos céus
como nos infernos
o despotismo de uma só paisagem
BELEROFONTE
Devorando seu próprio coração e evitando
as veredas humanas[2]
vagueava, só, do começo ao fim
do fim.
E errava
pela planície de Aleia,
pela várzea do Capibaribe
pelas memórias por vir
sem errada.
DEATH, BE NOT PROUD [3]
Quando eu tiver condições
não vou deixar ninguém morrer
nem o último dos homens.
É o que ordena fazer
o clamor da fé
daqueles ortodoxos bizantinos:
Ao dizer eu te amo, estarás dizendo:
não morrerás jamais!
MEUS MORTOS
Uma galeria,
não uma fieira organizada de pedra
ao relento da noite, ao sopro
do nada.
Figuras silentes
em eterna tocaia
assaltando por simples vontade
meu peito e memória,
do nada.
Comigo a sós,
eram a carne viva do granito bruto
uma imobilidade feita de inquietude.[4]
O RISO DE MINHA MÃE
Nem mesmo a expressão de uma imagem:
uma estocada surda
rastro de um sentido adiado na busca
como se o esquecimento dentro de mim
fosse defeito nato
ou virtude insigne
não decifrada.
PERIGA SER
Uma ausência
horrível no peito
é coisa que exista?
Periga ser,
talvez por não mais esperar
que o sonho plasmasse a dor
e a aflição guardasse sempre
o seu lugar.
Então,
bem no fundo de meu ser obscuro
lembro-me antigamente do futuro.[5]
[1] Verso de Jorge de Sena, do poema Quem muito viu.
[2] Versos da Ilíada, em tradução de Frederico Lourenço.
[3] Morte, não se orgulhe, verso de John Donne, do poema Holy Sonnet 10.
[4] C’était de la chair vive avec du granit brut,/Une immobilité faite d’inquiétude, versos de Victor Hugo em La légende des siècles.
[5] Versos de Dante Milano, do poema Momento.