questões psiquiátricas
Rachel Aviv Nov 2025 15h36
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Tradução de Isa Mara Lando
Quando sua filha Christine tinha 9 anos, Mary lhe disse: “Venha aqui. Quero te contar um segredo.” As duas então se sentaram no sofá marrom da sala, em Santa Ana, na Califórnia. Mary, na época com 43 anos, contou que um professor que ela conhecera na faculdade de medicina estava lhe enviando mensagens sobre um plano para levá-la embora e os dois viverem em uma mansão. “Lembro de ter ficado empolgada com aquilo porque combinava com o que eu achava que devia estar acontecendo”, disse Christine. “Eu era fascinada por Harry Potter e pela ideia de que, se você é um dos eleitos, percebe que os acontecimentos, na verdade, são uma história muito maior.”
Mary (que me pediu para não usar seu nome completo para proteger sua privacidade) se inclinou e começou a separar as mechas do cabelo de Christine, como se estivesse procurando piolhos. “Ele coloca microfones no seu cabelo?”, perguntou Mary, referindo-se ao professor. “Ele já pediu para me dizer certas coisas?”
“Eu acreditava em tudo o que ela dizia”, me contou Christine, a mais velha das duas filhas. “Até que ela me acusou de algo que eu sabia que não era verdade.” Mary sempre tinha sido carinhosa, atenciosa e prática. Christine disse: “Tive então uma sensação, no meu próprio corpo, de que ela não era mais a mesma.”
Sua irmã, Angie, sete anos mais nova, aprendeu a seguir as instruções da mãe, quer fizessem sentido ou não. “Fui ensinada a obedecer às regras dos delírios dela, e ao mesmo tempo aprender as outras regras e normas do mundo”, disse Angie. Ela acabou encarando as histórias da mãe sobre o tal professor e os amigos dele, envolvidos na mesma missão, como encarava as histórias da Bíblia: “É tipo assim… o.k., algumas dessas pessoas são reais, e outras não.”
Christine ficava sempre com o papel de vilã. A mãe gritava com ela por ter envenenado a pizza, escondido as chaves ou cometido atos agressivos. Christine tentava explicar que não tinha feito nada daquilo. Às vezes Mary lhe dava uns tapas. (Mary não se lembra disso.) Christine também começou a desconfiar da própria memória: “Minha mãe me acusava de certas coisas e eu pensava: Será que eu não fiz isso mesmo?” No quinto ano, ela pediu ao Papai Noel um polígrafo, um detector de mentiras. “Eu tinha uma sensação constante de que as pessoas podiam duvidar de mim a qualquer momento.”
Ela imaginava que poderia obter ajuda para a mãe caso conseguisse encontrar as palavras certas para descrever aquela transformação. No ensino médio, passava horas estudando o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM, na sigla em inglês). Chegou até a mandar uma mensagem para uma amiga dizendo que “tinha se casado com o DSM-4”, referindo-se à quarta versão do manual. Explicou que a mãe sofria do “delírio de Fregoli”, nome do distúrbio em que o paciente acredita que pessoas diferentes são, na verdade, uma única pessoa que muda de aparência. Em seu diário, Christine escreveu: “Minha mãe tem um transtorno delirante erotomaníaco, com uma pitada de delírio persecutório.” Pediu ajuda a professores e a uma orientadora escolar, mas, segundo ela, o retorno em essência foi o seguinte: “Todo mundo tem seus problemas. Você tem que lidar com isso e continuar tirando boas notas.”
Mary, que nasceu na Índia e lá trabalhou como médica durante uma década, falava tanto sobre o tal professor de medicina que seu marido, Chris, funcionário público estadual, acabou entrando em contato com ele. Chris recorda: “O professor disse: ‘Não estou em contato com ela. Nem sabia que sua esposa tinha vindo para os Estados Unidos.’” Por sugestão do professor, Chris marcou uma consulta para Mary com um psiquiatra. Christine ficou sentada na sala de espera, torcendo para que aquilo fosse o início de um processo de recuperação da mãe da sua infância, que ela lembrava como “uma figura mágica e radiante”.
Ao sair da consulta, porém, Mary disse que o psiquiatra achou que ela estava bem e não tinha nenhum problema. Pouco depois, Mary expulsou Chris do apartamento em que moravam e bloqueou a porta com uma escrivaninha e duas malas pesadas. Pela manhã, Christine e Angie passaram a acordar mais cedo para ter tempo de retirar os obstáculos da porta e ir para a escola.
Karl Jaspers, psiquiatra e filósofo alemão, descreveu o que chamou de “atmosfera delirante” como uma alteração profunda na forma como certas pessoas vivenciam o mundo. “Há uma mudança que envolve tudo com uma luz sutil, onipresente e estranhamente vaga”, escreveu ele. As pessoas nesse estado procuram uma narrativa que explique por que tudo de repente parece tão estranho, sinistro e ameaçador. “Essa sensação de tudo tão vago deve ser insuportável”, continuou. “Conseguir finalmente chegar a algo definido, preciso, é como se livrar de um enorme peso.”
Mary havia bolado uma história que anulava a realidade da vida das filhas, mas elas perceberam que a história embutia também uma espécie de lógica emocional. Mary fora pressionada a se casar com Chris, em um casamento arranjado. Quando os dois foram morar nos Estados Unidos, o marido mostrou que tinha ideias tradicionais sobre o papel da mulher e restringiu a liberdade de Mary de seguir sua carreira profissional. Christine e Angie passaram a achar que os delírios da mãe – de que seus ex-colegas a libertariam do casamento, de que ela recuperaria sua posição na comunidade médica – eram “uma maneira de explicar como ela acabou presa nessa situação”, contou Christine. “Nós teorizamos que a psicose era quase uma resposta razoável.”
Ao terminar o ensino médio, Christine se mudou para Nova York por duas razões. Porque é a cidade onde se passa o enredo do seu livro favorito, Submundo, de Don DeLillo, e porque lhe parecia o lugar ideal para as pessoas que querem fugir de casa. Ela morou no Bronx, perto de um tio paterno, e arranjou um emprego em um dos restaurantes Planet Hollywood. Queria ser romancista e relia Submundo obsessivamente, cobrindo as páginas com anotações objetivas: “Diálogo integrado”, “metacomentário”, “sensação de imediatismo juvenil”.
Da Califórnia, Angie e a mãe mandavam mensagens para Christine pedindo que comprasse mantimentos ou pizza, e ela, do outro lado do país, pedia um delivery para elas. Mary continuava bloqueando a porta. Chris, o marido expulso, dormia no carro. (Depois foi morar com uma namorada.) Christine se preocupava com Angie, que tinha 11 anos e estava sendo criada dentro de uma espécie de folie à deux (loucura a dois). Disse Angie: “Nunca consegui entender por que minha mãe fazia essas coisas comigo, e acabei criando uma explicação emocional: há outras coisas que são mais importantes para ela. Estou ali apenas como um receptáculo para o seu pensamento mágico.” Depois de cerca de um ano, Christine providenciou para que a mãe e a irmã também fossem morar em Nova York.
Mary se mudou com Angie para um apartamento no Bronx, no mesmo prédio do irmão de Chris, e recobriu as paredes com fita adesiva para impedir que a vida dela e a da filha fossem gravadas pelos reality shows da tevê. Angie procurava tomar banho enquanto a mãe dormia, porque Mary acreditava que havia uma câmera no chuveiro e decidira cobri-lo com uma meia. Angie se sentia como se estivesse vivendo uma espécie de versão urbana de Grey gardens, um filme formativo para ela. Esse documentário retrata a vida de uma mãe e uma filha, parentes de Jacqueline Kennedy Onassis, que viveram juntas durante mais de cinquenta anos, em uma casa onde as convenções sociais foram ficando cada vez mais remotas e as pilhas de lixo não paravam de se acumular por todo o canto.
Decorridos dois anos em Nova York, Mary parecia cada vez mais incapaz de cuidar de si mesma, e Christine, agora aluna da Universidade Columbia, chamou uma unidade móvel de atendimento cuja equipe avalia pessoas em crise de sofrimento psíquico. A unidade bateu à porta de Mary. Depois de uma conversa em que relatou receber transmissões elétricas por meio de uma obturação num dente, Mary foi internada no hospital Mount Sinai Beth Israel, em Manhattan.
Os psiquiatras solicitaram autorização a um juiz para interná-la por um mês e tratá-la com antipsicóticos, contra a vontade dela. Um dos médicos escreveu no prontuário: “Creio que ela não tem discernimento quanto à natureza da sua doença.” Em um formulário de avaliação, outra psiquiatra registrou, de início, que Mary apresentava um “transtorno psicótico não especificado”. Depois, talvez insatisfeita com um diagnóstico tão vago, riscou as palavras e escreveu “esquizofrenia”. Mary tinha 55 anos e seus sintomas haviam começado por volta dos 40, algo incomum na esquizofrenia. A maioria das pessoas é diagnosticada na faixa dos 20, ou no máximo 30 e poucos anos.
Christine mudou-se para o apartamento da mãe e entrou com uma petição para ter a guarda compartilhada de Angie. O pai delas, Chris, que continuava morando na Califórnia, não contestou o pedido. “Eu faço o café da manhã”, escreveu Christine em seu diário, descrevendo sua nova rotina com Angie. “Lavo a louça. Passo a chave na porta à noite. Aos trancos e barrancos, consegui estabelecer meu lugar como um agente ativo no universo.”
Quando Mary teve alta do hospital, parou de tomar os medicamentos – nem ela, nem as filhas achavam que os remédios haviam ajudado. Para cerca de um terço das pessoas com esquizofrenia, os antipsicóticos não dão resultado. “Eu gostaria que os delírios e a paranoia da minha mãe fossem tratáveis”, escreveu Angie, numa redação para admissão à faculdade. “No entanto, ela convive com isso há doze anos, e sua internação ano passado não surtiu nenhum efeito.”
A internação de Mary no Mount Sinai Beth Israel marcou o início de um ciclo de nove anos, durante o qual ela era internada em diversos hospitais psiquiátricos e, depois de algumas semanas, recebia alta sem qualquer mudança. Segundo Mary, cada vez que era hospitalizada, a equipe “fazia as mesmas perguntas, mas ninguém nunca mudou o modo de ver a situação. Todos continuavam com a mesma coisa: esquizofrenia”.
Depois de cinco internações – incluindo uma em que se recusou a sair do apartamento, acabou algemada e levada até a ambulância pela polícia –, Mary foi transferida para o Centro Psiquiátrico do Bronx, uma instituição do estado de Nova York que oferece atendimento de longo prazo. Ali ela observou que, quando os pacientes se recusavam a tomar os remédios, às vezes os funcionários chamavam a segurança e os medicavam com injeções, uma possibilidade que a deixava aterrorizada. Mary conta: “Eu tomava os remédios sem questionar, porque não ia querer brigar com a segurança. Essas pessoas são muito sensíveis ao que elas chamam de ‘desafiar a autoridade’.” Ela passava o dia todo temendo a hora da medicação, quando seria obrigada a engolir os comprimidos.
Por vezes, Mary imaginava que Deus tinha um motivo para mantê-la no hospital. “Mas eu nem queria enveredar por esse caminho, porque a mente racional deixa a gente muito nervosa e insegura”, diz. Sua vida diária se tornou tão limitada que ela parou de perceber as mudanças no clima. “Eles não indicam para você a mudança das estações, que a primavera já está virando verão, que o inverno já está virando primavera. Você procura apenas passar o dia o mais rápido possível.”
Christine, que falava com a mãe toda semana, disse que nessa época Mary nunca mencionou sua tristeza. “Eu gostaria de ter conversado com ela no nível de ‘Sinto muito que você esteja aí, você está triste?’. E tenho certeza de que ela estava sentindo essas emoções, mas não conseguia expressá-las. Era sempre aquilo: ‘Estou sendo atacada. Estou aqui como uma prisioneira.’” Christine achava que sua mãe estava em segurança no Centro Psiquiátrico do Bronx, mais do que estaria em qualquer outro lugar, mas se sentia culpada por querer que Mary ficasse lá pelo resto da vida.
Em setembro de 2023, depois de um ano de internação, Mary foi liberada. Uma semana depois, desmaiou no banheiro e ficou com dificuldade para se movimentar. Foi levada a um hospital no Brooklyn, onde os médicos suspenderam os antipsicóticos, pois suspeitavam que seu problema fosse um efeito colateral dos remédios. Então, descobriram que ela tinha linfoma, um câncer que pode ser fatal. Mary iniciou sete sessões de quimioterapia com rituximab, um medicamento que atua sobre os anticorpos envolvidos na resposta imunológica do organismo.
Quando Christine e Angie visitaram a mãe no hospital, Mary só respondia suas perguntas com monossílabos. Seu rosto tinha uma expressão vazia. As filhas achavam que ela estava morrendo. Mary também. Sonhou que era criança, brincando com sua irmã e seus quatro irmãos em Calcutá, onde foi criada. Ela conta: “Pensei comigo, ‘isso deve ser o fim’.”
Angie, na época com 22 anos e recém-formada na Faculdade de Dartmouth, se preparou na terapia para a morte da mãe. Ela me contou: “Tive várias sessões em que fiquei só chorando, chorando pelas coisas fundamentais que eu gostaria que ela tivesse me dado. Queria que ela tivesse me contado o que se passava na sua cabeça. Queria que ela tivesse pedido desculpas, que dissesse que sentia muito por tudo que me fez.”
No Natal, dois meses depois de iniciar a quimioterapia, Mary já se movia com um pouco mais de facilidade e estava começando a conversar melhor. Christine e Angie perceberam que sua personalidade parecia diferente: estava calma, extrovertida e educada, e muitas vezes expressava gratidão. Angie mandou uma mensagem para Christine dizendo que Mary parecia em paz, como se, quem sabe, estivesse sentindo “alguma clareza sobre o pós-vida ou a morte”.
Christine, que tinha 29 anos e se mudara para Londres para fazer mestrado em psicologia, ficou impressionada com a capacidade de sua mãe de assistir ao noticiário e absorver as informações corretamente. Durante muitos anos, a televisão fora uma causa de agitação: Mary afirmava que as pessoas na tevê estavam usando suas ideias e repetindo suas falas.
Certo dia, quando Christine a visitava no hospital, Mary pediu um celular. Christine conta: “Eu meio que brinquei com ela: ‘Só agora você está pedindo um telefone?’ Na hora não dei muita importância, mas depois pensei: por que será que ela pediu um celular? Isso não é nada normal.” Mary já tinha um telefone, mas estava guardado porque, segundo dissera a Christine, o aparelho continha um programa de espionagem. Angie lhe deu um celular novo e, por precaução, cobriu a câmera com fita adesiva. “Ela usava com tranquilidade, o que era estranho”, disse Angie.
Em maio, um mês depois de Mary terminar a quimioterapia, Christine e Angie pediram a um psiquiatra do hospital que a examinasse. Christine relata: “O psiquiatra perguntou: ‘Por que vocês me chamaram aqui? Não estou entendendo. Ela não tem sintoma nenhum.’ E nós dissemos: ‘Sim, doutor, é justamente por isso que resolvemos chamá-lo aqui.’”
Christine voltou a ter a mesma sensação física que sentiu quando a mãe adoeceu pela primeira vez – uma sensação de que algo muito profundo havia mudado em sua mãe. Tentou então fazer os médicos compreenderem a magnitude da recuperação. No meio do ano, o câncer estava em remissão. Há meses Mary não tomava antipsicóticos, mas, mesmo assim, “os sintomas psicóticos desapareceram”, anotou um dos médicos. Christine lhes disse: “Ela tem um histórico psiquiátrico de vinte anos. Vocês já ouviram falar de algo assim? Será que algum dos medicamentos poderia ter causado isso?” Conversou também com um neurologista do hospital, mas ele não teve resposta para lhe dar. Omid Heravi, um dos oncologistas de Mary, também não compreendia o que estava acontecendo. “A medicina é muito especializada; nós não entramos em outras áreas”, explicou ele. Sua única hipótese era que algum dos medicamentos contra o câncer tivesse exercido benefícios colaterais. “Na medicina, nem todos os efeitos colaterais são negativos”, disse.
Quando alguém se recupera de uma doença, em geral está tudo resolvido e a história está encerrada. Mas, quando alguém fica são, também acontece uma espécie de colapso narrativo, um confronto com uma história pessoal que já não é mais reconhecível. Christine incentivou os amigos e irmãos da mãe, de quem ela estava afastada havia anos, a entrarem em contato. Queria restaurar o senso de conexão da mãe, mas também, como ela me relatou, “queria que eles me dissessem – fora das minhas lembranças de infância – se essa era a mesma pessoa que ela era antes”.
Durante muitos anos, os amigos de Christine pouco sabiam sobre sua mãe além dos detalhes da sua doença mental. “De repente comecei a dizer: ‘Ei, minha mãe está melhor. Você gostaria de ligar para ela e conversar um pouco?’ E era uma ideia chocante para eles”, contou Christine. “Muita gente não está necessariamente aberta a dar um telefonema assim de improviso, mas minha mãe agora era uma pessoa flexível, receptiva, com uma conversa fluida.” Segundo Christine, sua mãe era uma “debutante psicológica”.
Angie, que morava no Queens e trabalhava numa empresa que fazia análise de dados sobre violência sexual, estava incrédula com a transformação da mãe. Christine disse: “Eu pensava assim: se minha mãe desapareceu, então também pode reaparecer.” Mas, para Angie, era diferente. Ela não tinha lembranças da mãe antes da doença, e sentia como se lhe pedissem para acreditar que a mãe se tornara uma nova pessoa. “Minha tendência é escolher a segurança, não o processo da descoberta. Eu não tinha uma curiosidade que compensasse os riscos emocionais”, explica ela. Angie sempre sentira que, de certa maneira, a mãe havia “preferido seus delírios” em lugar das filhas. E não queria vivenciar novamente essa escolha.
Christine pesquisou artigos médicos que pudessem explicar a recuperação da mãe e, assim, convencer Angie a acreditar na mudança. Passou a ler sobre cada um dos medicamentos que a mãe havia tomado e concluiu que o responsável poderia ser o rituximab, o imunossupressor usado na quimioterapia. “Tenho uma nova teoria”, escreveu a Angie, em maio do ano passado. “Teoricamente, a quimioterapia pode ter curado a mamãe, como efeito colateral.” Christine encontrou alguns estudos de caso recentes que documentavam uma recuperação psiquiátrica drástica de pessoas que se trataram com medicamentos capazes de reduzir a atividade do sistema imunológico.
Um estudo de 2017, publicado na Frontiers in Psychiatry, relatava o caso de uma mulher com um histórico de 25 anos de esquizofrenia. Como também tinha uma doença de pele, a paciente tratou-se com medicamentos que reduzem a inflamação e suprimem a resposta imunológica. Os médicos notaram um padrão recorrente: quando tratavam as lesões cutâneas, a psicose desaparecia. Levantaram então a hipótese de que a erupção cutânea e a psicose eram causadas pelo mesmo distúrbio autoimune. E as duas foram curadas pelos mesmos medicamentos. Outro artigo na Frontiers in Psychiatry tratava sobre o caso de um homem com “esquizofrenia resistente ao tratamento”, que teve leucemia. Depois de um transplante de medula que reconstituiu seu sistema imunológico, ele surpreendeu os médicos ao se tornar subitamente lúcido. Oito anos depois, segundo os autores do artigo, “o paciente está muito bem e não há sintomas psiquiátricos residuais”.
Christine também encontrou um artigo de 2023, publicado no jornal The Washington Post, segundo o qual uma mulher chamada April entrou em estado catatônico aos 21 anos de idade e foi diagnosticada com esquizofrenia. Sander Markx, professor de psiquiatria da Universidade Columbia, conheceu April em um hospital psiquiátrico em Long Island, em Nova York, quando ainda estudava medicina. Vinte anos depois, ficou consternado ao encontrá-la no mesmo hospital, na mesma situação. “Faz vinte anos que ela não sai de lá. Ficou totalmente reclusa”, disse ele, num simpósio na escola de medicina Weill Cornell. Ele e seus colegas realizaram uma avaliação extensa e descobriram que April tinha lúpus, uma doença autoimune que, em casos raros, pode causar uma inflamação no cérebro, provocando sintomas similares aos da esquizofrenia. Depois de passar por uma terapia imunossupressora, incluindo rituximab, April saiu de “um coma de 25 anos, e conseguiu nos contar tudo”, disse Markx. “Nós não temos um protocolo para isso. Não vemos pacientes voltando ao normal depois dessa doença.”
No mesmo ano de 2023, o caso de April inspirou a criação do Centro de Psiquiatria de Precisão e Saúde Mental da Fundação Stavros Niarchos, na Universidade Columbia. O centro está trabalhando para identificar subtipos biologicamente distintos de diversas doenças, que sempre foram obscurecidos ao serem inseridos nas amplas categorias do DSM. Christine enviou um e-mail para Sander Markx, codiretor do Centro Stavros Niarchos, no qual faz uma breve cronologia da vida de sua mãe e diz: “Os sintomas psiquiátricos dela desapareceram meses atrás e até agora não voltaram. Os médicos que a acompanham estão perplexos com essa recuperação.” Como Markx não respondeu, Christine, que estava visitando Nova York, decidiu ir pessoalmente à universidade e se apresentar, junto com Angie. Markx não estava no seu escritório, pois acabara de entrar numa licença médica prolongada, mas as duas irmãs passaram por baixo da porta um envelope cor-de-rosa com um cartão manuscrito. Também usaram o correio interno do campus para enviar cartões aos outros diretores do Centro. Elas tentavam pensar nesse passo, disse Angie, como “aquela parte do documentário em que a câmera começa a tremer e você sente que alguém está prestes a esclarecer o caso”.
Emil Kraepelin, que criou o primeiro sistema moderno de diagnóstico da psiquiatria nos anos 1890, definiu a doença que hoje chamamos de esquizofrenia como um transtorno sem esperanças. O diagnóstico permitia aos administradores hospitalares separar os pacientes com “insanidade periódica” (depressão e transtorno bipolar) daqueles considerados incuráveis, que deveriam ficar internados num hospício. Kraepelin esperava que a esquizofrenia acabasse se revelando uma doença semelhante à neurossífilis – na época, um mal responsável por grande parte dos casos de insanidade nos hospitais psiquiátricos. Em 1913, cientistas demonstraram que o cérebro desses pacientes estava infectado por bactérias. “As doenças produzidas pela sífilis nos dão uma lição prática exemplar”, escreveu Kraepelin quatro anos depois. “Pela lógica, podemos supor que conseguiremos descobrir as causas de muitos outros tipos de insanidade, que podem ser evitados e talvez até curados, embora no momento não tenhamos a menor pista.”
A psiquiatria e a neurologia eram, originalmente, uma única disciplina médica. Aos poucos, porém, os neurologistas passaram a se responsabilizar por doenças como a neurossífilis e a demência, que podem ser observadas em uma autópsia do cérebro, enquanto os psiquiatras assumiram os males que restaram, cujas causas continuam um mistério. A esquizofrenia, que afeta menos de 1% da população mundial, tornou-se o distúrbio por meio do qual a psiquiatria construiu sua identidade. Em parte, porque a esquizofrenia parecia representar todo o mistério e toda a dificuldade de tratamento da loucura, levantando questões fundamentais sobre o que significa ter um “eu”. “A história da psiquiatria moderna é, na verdade, praticamente a história da esquizofrenia – a forma de loucura por excelência do nosso tempo”, escreve o psicólogo Louis Sass.
Mas os psiquiatras não conseguiam encontrar uma característica única capaz de unificar o diagnóstico. “A grande questão é: o que é esse ‘algo’ subjacente aos sintomas?”, observou Karl Jaspers em 1913. Oito décadas depois, o psiquiatra Ian Brockington fez um alerta: a obsessão pela esquizofrenia havia sufocado a curiosidade clínica. “Transtornos menores e mais homogêneos foram sugados pela gravidade dessa grande ideia e aniquilados”, escreveu ele. Há décadas os cientistas vêm buscando, em vão, um marcador biológico que confirme se alguém sofre de esquizofrenia. No ano passado, em um artigo publicado na Schizophrenia Research, dezessete especialistas concluíram que a esquizofrenia não é definida por uma única etiologia, nem um único sintoma, tampouco um único mecanismo biológico. “É prudente questionar se o constructo em torno do qual estamos organizando essas informações é fundamentalmente falho”, apontam os autores.
Talvez a ruptura mais marcante com a noção de que a esquizofrenia é um conceito monolítico tenha começado em 2007. Nessa ocasião, Josep Dalmau, neurologista da Universidade Autônoma de Barcelona, começou a publicar artigos, em coautoria com seus colegas, descrevendo pacientes jovens com delírios, alucinações e mudanças súbitas de comportamento, como agitação e risadinhas impróprias. Dentro de poucos dias ou semanas, esses pacientes pioravam, apresentando convulsões, perda de consciência ou dificuldade para respirar. Dalmau descobriu que eles tinham uma forma de encefalite, uma inflamação cerebral. O sistema imunológico dos pacientes havia identificado erroneamente o receptor NMDA – uma proteína no cérebro que afeta o humor e a memória – como um corpo estranho, e então produzia anticorpos para atacá-lo. Quando esses jovens foram tratados com imunoterapia, a maioria se recuperou plenamente, alguns deles em menos de um mês.
Thomas Pollak, neuropsiquiatra do King’s College London e do Hospital Maudsley, me relatou que tratar pacientes com essa doença foi a um só tempo “revelador” e “perturbador”. Ele explica a razão: “Alguns deles se pareciam exatamente com os pacientes que eu via na ala psiquiátrica. Era muito estranho ver que um caminho totalmente diferente podia levar ao mesmo quadro.” A doença desses jovens pacientes, que recebeu o nome de encefalite antirreceptor NMDA, em geral ataca pessoas na faixa dos 20 e poucos anos, tal como a esquizofrenia. A descoberta dessa enfermidade colocou em xeque a divisão artificial entre a psiquiatria e a neurologia – as duas únicas especialidades médicas focadas no mesmo órgão. “Muitos sintomas são iguais, mas cada especialidade usa palavras diferentes”, diz Pollak.
Na sua autobiografia intitulada Insana: meu mês de loucura,[1] publicada em 2012, a jornalista Susannah Cahalan, a 217º paciente no mundo a ser diagnosticada com encefalite antirreceptor NMDA, conta que passou um mês oscilando entre a agressividade paranoide e a euforia, mas era tratada por alguns médicos como se fosse apenas uma paciente psiquiátrica difícil que tomava uns drinques a mais. Ela escreve: “Se um dos melhores hospitais do mundo demorou tanto para chegar a esse diagnóstico, quantas outras pessoas estão sem tratamento, diagnosticadas com uma doença mental, ou condenadas a passar o resto da vida numa casa de repouso ou ala psiquiátrica?”
Desde a descoberta de Josep Dalmau, os cientistas já identificaram mais de vinte novos anticorpos associados a sintomas psiquiátricos. Em 2020, um artigo publicado na revista The Lancet Psychiatry, com 28 autores, propôs uma nova categoria de doença chamada “psicose autoimune” – uma forma mais branda ou incompleta de encefalite, que se manifesta apenas por sintomas psiquiátricos. Christopher Bartley, que investiga o papel da disfunção imunológica nas doenças mentais, no Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH, nas iniciais em inglês), acredita que os vinte anticorpos conhecidos até agora podem ser apenas “uma gota d’água no oceano”. Segundo Bartley, há inúmeros alvos no cérebro que podem ser atacados por anticorpos e alguns deles conseguem alterar a percepção e o comportamento da pessoa. “Precisamos ter humildade epistemológica e aceitar que existem modelos alternativos para as doenças”, disse ele.
Para identificar pacientes psiquiátricos que possam se beneficiar de imunoterapia, os pesquisadores criaram centros especializados, semelhantes ao da Universidade Columbia, em instituições como a Escola de Medicina Baylor, no Texas, o King’s College, em Londres, a Universidade de Uppsala, na Suécia, e a Universidade de Freiburg, na Alemanha, entre outras. A Alemanha se destaca nas pesquisas sobre o fenômeno, já que no país é mais comum que o paciente de um primeiro episódio psicótico faça uma punção lombar para análise do liquor, exame que pode revelar a presença de anticorpos. Bartley estima que entre 1% e 5% das pessoas diagnosticadas com esquizofrenia tenham, na verdade, uma doença autoimune. A estimativa se baseia numa pesquisa do seu próprio laboratório (ainda não publicada) e num estudo na Alemanha feito com mil pacientes, o mais abrangente sobre a psicose autoimune realizado até hoje. “Mesmo que seja apenas 1%, estamos falando de quase 1 milhão de pessoas no mundo todo que deveriam receber um tipo diferente de medicamento”, diz Bartley.
Em mais de sete décadas, o tratamento farmacológico da esquizofrenia pouco mudou. Muitos laboratórios farmacêuticos abandonaram a área por completo. Para que um medicamento seja aprovado, é preciso ter razoável chance de que funcione para um bom número de pacientes. Mas a esquizofrenia se manifesta de formas tão diversas que apenas os tratamentos genéricos – ou seja, pouco afiados – têm surtido efeito. Os antipsicóticos mais recentes são mais refinados e causam menos efeitos colaterais, mas quase todos atuam de forma semelhante aos antigos: aliviam alguns sintomas, como alucinações e delírios, mas não resolvem outros, como a falta de motivação ou a incapacidade de sentir prazer. Andrew Miller, vice-diretor de pesquisas do Departamento de Psiquiatria da Universidade Emory, afirma que a área ainda vive à sombra do sucesso inicial dos antipsicóticos, descobertos por acaso nos anos 1950. “Você acaba com uma falsa ideia de que como os remédios são ‘tamanho único’, a doença também é ‘tamanho único’”, diz ele. “Mas com a psicose autoimune, é bem claro que existe algo diferente. E aí começamos a nos perguntar: ‘Será que há outros mecanismos patológicos nítidos que estamos ignorando porque agrupamos todos os pacientes como se tivessem a mesma doença?”
O Centro Stavros Niarchos está iniciando um projeto neste semestre que pretende examinar todos os pacientes internados no sistema de saúde mental do estado de Nova York, em busca de distúrbios autoimunes, metabólicos e genéticos. O objetivo é identificar casos em que os sintomas podem estar vinculados a algum mecanismo biológico específico. “Sempre considerei a possibilidade de que existem causas tratáveis da psicose, ocultas nos pacientes crônicos”, diz Joshua Gordon, diretor executivo do Instituto Psiquiátrico do Estado de Nova York e ex-diretor do NIMH. “Porém, a ideia de que essa hipótese poderia ser aplicada na prática, que poderíamos fazer testes para descobrir essas causas, só ficou clara há poucos anos.” O Centro Stavros Niarchos fará exames de sangue em todos os pacientes, oferecendo testes complementares, como a punção lombar, para os que apresentarem resultados incomuns. Gordon acredita que, se o centro conseguir identificar algumas dezenas de pacientes que possam ser tratados com eficácia a ponto de deixar o hospital, “poderemos saber se vale a pena aplicar esse método a todos os pacientes com esquizofrenia”.
A psiquiatria tem um histórico de procedimentos drásticos – entre os quais, a lobotomia – que mais tarde foram considerados absurdos e insanos. Mas também é conhecida por propor teorias psicológicas para doenças que ainda não são compreendidas no nível biológico. Vários psiquiatras me disseram que estão relendo a história da disciplina e questionando, por exemplo, se alguns pacientes descritos por Emil Kraepelin, cujos sintomas ajudaram a definir a esquizofrenia, não teriam, na verdade, encefalite ou doenças autoimunes. Os mais fortes candidatos formam um subconjunto de pacientes que, nas palavras de Kraepelin, apresentavam “fenômenos espasmódicos na musculatura facial” e não conseguiam caminhar sem cair. Os pesquisadores também perguntam se essas doenças poderiam explicar a chamada “catatonia letal”, com frequência considerada uma manifestação da esquizofrenia: o paciente fica extremamente agitado e depois entra num estado de estupor. Em 1986, um estudo publicado no American Journal of Psychiatry (que revelou, inadvertidamente, o perigo da inércia conceitual), revisou cerca de trezentos casos de catatonia letal. Quase todos os pacientes haviam sido tratados com antipsicóticos. Mais da metade morreu.
Depois de ler o relato de Christine, Steven Kushner, codiretor do Centro Stavros Niarchos, marcou um encontro com a mãe e as duas filhas. Mary estava morando em um centro de reabilitação no Bronx, recuperando a força muscular. Relutava em ir a mais um psiquiatra, segundo me disse, mas precisava “estar à altura das filhas na dedicação aos estudos”. Em outubro do ano passado, Kushner e três colegas foram ao centro de reabilitação e conversaram com Mary durante três horas. “A psicose havia desaparecido”, diz Kushner. “Não havia outra conclusão. Não seria possível manter aquele nível da nossa conversa e, ao mesmo tempo, suprimir voluntariamente os sintomas psicóticos.”
Na conversa, Mary relembrou detalhes íntimos da infância das filhas – o que elas comiam no café da manhã, as brigas no recreio da escola –, mas não fez nenhuma menção aos próprios delírios, que dominaram toda a vida delas. Quando Angie contou que a mãe às vezes a impedia de sair de casa, até mesmo para fazer os deveres escolares com as colegas, Mary deu uma explicação prática: havia muito crime no Bronx, e ela se preocupava com a segurança da filha. Para justificar por que colocava uma meia no chuveiro, disse que queria filtrar os sedimentos da água. Percebia-se que ela preenchia as lacunas na memória de uma maneira coerente com a sua nova identidade, de pessoa mentalmente sã.
Em 1911, o psiquiatra Eugen Bleuler descreveu como os pacientes esquizofrênicos são capazes de fazer uma espécie de “dupla contabilidade”: eles conseguem viver, ao mesmo tempo, em dois mundos “desconectados”, um baseado na realidade compartilhada por todos, o outro baseado em seus delírios particulares. Podem acreditar que são alvo de uma conspiração envolvendo quase todos ao seu redor, mas também conseguem falar sobre amenidades numa confeitaria e conferir o troco. É como se os delírios ocupassem uma categoria ontológica própria, isolada da lógica comum que se usa para viver no mundo. Atualmente, quando Mary relembra suas décadas de doença, é como se acessasse apenas o registro da realidade compartilhada. Quando menciona o tempo que passou no centro psiquiátrico do Bronx, fala como se fosse uma pessoa aprisionada em um ambiente ao qual não pertence. “Para mim e minha irmã, era como se ela tivesse dois eus”, diz Christine. “Mas minha mãe vê o seu ‘eu’ como algo contínuo.”
O Centro Stavros Niarchos providenciou para Mary uma punção lombar, para verificar se ela tinha anticorpos associados a doenças neuropsiquiátricas conhecidas. Durante o procedimento, disse Kushner, ficou claro que Mary já tivera “uma identidade profissional fantástica: ela comandava a conversa, falava das punções lombares que já tinha feito, quantos pacientes costumava atender por dia”. O teste deu negativo. Kushner tentou recuperar uma amostra congelada do liquor, coletada quando Mary estava doente. Um teste desse fluido teria sido mais revelador, mas o material já havia sido descartado. Segundo ele, a explicação mais provável é que ela tivera uma forma de psicose autoimune, para a qual ainda não se descobriu um anticorpo: “O consenso, acredito, é que só conhecemos a ponta do iceberg dos vários tipos de anticorpos que podem causar doenças autoimunes, e com certeza isso se aplica também à psicose autoimune.”
Algumas pessoas, ao se recuperarem da psicose, compreendem que os soturnos inimigos que as atormentavam nunca existiram na realidade. Outras dizem que estão aliviadas ao ver que seus inimigos pararam de persegui-las, mas não negam a realidade da experiência. “Não sabemos o que acontece com alguém que foi psicótico durante vinte anos e agora está… vamos chamar de ‘curado’”, disse Kushner. “Eu hesito em usar essa palavra porque, na psiquiatria, é algo excepcional.” Mas, segundo ele, “o tratamento modificou a biologia de Mary de tal forma que a doença basicamente desapareceu”.
Kushner começou a se encontrar com Mary e as filhas periodicamente, em parte para monitorar possíveis sinais de recaída. Nas conversas, evitavam falar sobre os delírios de Mary. Quando o tema surgia, Mary ficava em silêncio ou mudava de assunto. “Ela tem uma maneira extraordinariamente agradável de desarmar a situação”, diz Kushner. A ideia de ter causado sofrimento às filhas parecia tão dolorosa que ela não permitia que entrasse no seu consciente. Diz ele: “Não há uma só consulta em que ela não diga, espontaneamente, que suas filhas vão indo bem. Não creio que seja por acaso.”
Kushner não acredita que as lacunas na memória de Mary reflitam um comprometimento cognitivo. Em um exame neuropsicológico, sua memória ficou acima da média. Mas ele tampouco acha que ela tente se esquecer deliberadamente. “Olhar para trás e dizer ‘Vinte anos da minha vida estiveram fora da realidade’ seria um golpe fatal para a sua identidade como médica e como mãe”, diz ele, um desafio “a um dos nossos instintos mais primitivos: o de que podemos discernir o que é real”. Quando expressei minha preocupação sobre como apresentar a disparidade nas lembranças dela com a devida sensibilidade, Kushner me disse: “Creio que essa é a história. Como se reconciliar e como compensar por todos esses anos perdidos?”
Quando um paciente sai de um estado delirante crônico, considera-se que o trabalho da psiquiatria foi concluído. A pessoa é deixada sozinha, com duas visões irreconciliáveis da realidade. “Precisamos começar a pensar no que acontece no dia seguinte, depois que esses transtornos foram tratados”, diz Kushner.
Christine não tinha certeza se podia dizer que a mãe estava “curada” só porque não apresentava mais os sintomas anteriores. Ela explica: “Minha mãe não está mais fixada em coisas como a contaminação, ou ser vigiada, mas também nunca disse que deixou essas convicções para trás.” Christine sentia que era tabu falar com a mãe sobre quem ela havia sido. A filha sofria com a ideia de que, se confrontasse a mãe pelas atitudes destrutivas do passado, Mary voltaria ao comportamento daquela época e ficaria psicótica novamente. “O que eu sinto é algo típico de uma criança traumatizada: não seja gananciosa, não queira demais. A cavalo dado não se olha os dentes.”
Christine não sabia como ter uma conversa corriqueira com a mãe. Durante vinte anos, Mary sempre ficava desconfiada quando a filha lhe perguntava sobre sua vida. Agora, Christine se sentia como uma filha adotiva “conhecendo minha mãe biológica pela primeira vez”, disse. Para ajudar a direcionar as conversas, comprou um livro de uma antropóloga, Elizabeth Keating, chamado The essential questions: interview your family to uncover stories and bridge generations (As perguntas essenciais: entreviste sua família para revelar histórias e conectar gerações). “Aqui fala: ‘Deixe que as pessoas toquem no que é importante’”, disse Christine, lendo o livro durante uma visita ao centro de reabilitação da mãe. E continuou: “Se ninguém nunca deixou você falar sobre si mesma, pode ser difícil. Você tem que…”
– Pensar – disse Mary.
– Talvez praticar, encontrar a sua voz – emendou Christine.
A filha, que gravou a conversa, começou com algumas perguntas de aquecimento:
– Quando você era criança, qual era sua atividade favorita?
– Correr – respondeu Mary de imediato.
– Por que você gostava de correr?
– Faz a gente sentir que tem asas.
Outra pergunta:
– Qual é o seu programa de tevê favorito?
– Seinfeld.
– Seinfeld! Do que você gostava em Seinfeld?
– Do absurdo.
De vez em quando, elas abordavam um novo tema proposto pelo livro: tempo, identidade, corpo, crenças, posses, memória, medo. De início, Mary dava respostas lacônicas, mas aos poucos passou a se expressar mais. Em uma sessão, disse que suas ideias sobre castigos físicos na educação haviam mudado: não achava mais aceitável bater, dar tapas. Christine explica: “Sem relacionar comigo ou com a Angie, ela meio que disse: ‘Era isso que nos ensinavam quando éramos jovens, mas não creio que seja a maneira certa de criar uma criança.’” Ela sentia que talvez a mãe estivesse refletindo, de forma indireta, sobre o que acontecera em casa. E conclui: “A capacidade de dizer ‘Eu mudei de ideia’ me pareceu o máximo que eu poderia pedir.”
Durante anos, Christine vinha documentando sua vida – fazia um diário, guardava registros, gravava conversas importantes – para compensar o fato de que ela própria também tinha brancos nas suas lembranças, coincidindo com acontecimentos traumáticos. Não tinha certeza se os lapsos de memória da mãe – que ela e Angie chamavam de “os anos perdidos” – eram diferentes dos seus. Há pouco, ela descobriu um provérbio: “O machado esquece, mas a árvore lembra.” Sentia que ela e a mãe talvez tivessem chegado a um impasse que, na verdade, é universal: os filhos sempre formam sua identidade em resposta a traumas que os pais nem percebem que infligiram.
Angie é menos conciliadora: “Estou feliz vendo que minha mãe agora está normal, que podemos ter uma ligação profunda e que posso compartilhar minha vida com ela. Ao mesmo tempo, quero justiça para a criança que sofreu nas mãos daquela outra mãe.”
A irmã de Mary, Nima, me disse que, antes da doença, Mary era “muito resistente, muito paciente”. As cartas de recomendação de seus professores de medicina a definem como “gentil e solidária”, sempre “disposta a assumir qualquer trabalho extra”. Quando saiu da psicose, Mary voltou a essa versão dedicada de si mesma. Começou a conversar por telefone com o marido, Chris, todos os dias. Ele me disse que se sentia como se estivesse encontrando novamente a mulher que conhecera nos primeiros anos do casamento: “Como é possível? Passei por todos esses anos de escuridão e, de repente, ela me parece normal? Ela me reconforta, me dá apoio emocional.”
Cris chegou a pedir que Mary fosse à Índia para resolver uma disputa financeira de família. Christine e Angie consideraram o pedido inconveniente e recomendaram que a mãe não se envolvesse no assunto. Mary havia deixado para trás a paranoia de que todos estavam contra ela, mas as filhas preferiam que ela mantivesse certa cautela em relação às pessoas que a magoaram no passado. “Agora que ela está melhor, dá para ver como seus delírios evitavam que as pessoas desrespeitassem seus limites, e agora ela não tem outra estratégia”, disse Christine.
Mary concordou prontamente em conversar comigo para esta reportagem, mas tinha dificuldade em imaginar que ela seria mais que uma personagem coadjuvante. Durante anos a fio, Mary dizia que as pessoas na tevê estavam roubando ideias e enredos da sua história de vida. “Era como se ela dissesse: ‘Eu sou importante’”, observou Christine. “‘Eu tenho valor. Tenho coisas a dizer.’ E agora somos nós que estamos lhe dizendo: ‘Você é importante. Você tem valor. Você tem coisas a dizer.’ Mas ela não consegue sentir que merece ser a personagem principal.”
Quando conheci Mary, em uma reunião virtual por Zoom com ela e as filhas, perguntei se me autorizava a ler seus registros psiquiátricos. Ela disse que sim, mas avisou que seria muito entediante e acrescentou que não conseguia se lembrar de nenhum dos seus psiquiatras: “Deixei para trás as lembranças muito antes de sair daquele lugar.” Christine sugeriu que interpretássemos isso como uma maneira gentil de Mary me responder que não.
Algumas semanas depois, Christine me contou que Mary encontrou uma pilha de registros psiquiátricos no seu quarto. “Ela disse: ‘Não quero mais ver isso. A Rachel pode ficar com essas fichas e dar um fim nelas.’ E eu respondi: ‘Sim, mãe, mas a Rachel é uma jornalista. Não é uma especialista em triturar documentos.’” Ao que sua mãe respondeu: “Não quero ver essas fichas, só isso.”
Parecia que Mary estava lidando com sua ambivalência em relação a suas lembranças por meio daquela pilha de papéis. Depois de passar dois meses conversando por Zoom todas as semanas, fui com Christine e Angie encontrar Mary no seu centro de reabilitação. Chegando ao fim da conversa, ela se levantou sem dar explicações, foi até um armário onde pegou as fichas psiquiátricas e as entregou para mim, dizendo: “Senti que isso que aconteceu foi um milagre. E se essas fichas servirem para dar confiança para alguém, então para mim está bom.”
Não há quase nada na literatura médica sobre o pós-vida da loucura, a experiência de deixar para trás aquilo que Karl Jaspers chamou de “ideia definida”. A psicose autoimune levanta a possibilidade de uma recuperação rápida e completa – uma trajetória nada típica na esquizofrenia. E, ao fazer isso, nos apresenta uma nova categoria de testemunha: uma pessoa capaz de descrever qual a sensação de olhar, em retrospecto, para um “eu” que, de certo modo, está extinto. E, no entanto, a sanidade não significa que a pessoa enxergue seu passado sem nenhuma atitude defensiva ou distorção. (Enxergar com demasiada clareza pode levar a outro tipo de insanidade, a depressão.) Um dos temores de Christine era que, ao conversar com a mãe sobre tudo que as duas irmãs tinham vivenciado, iria “roubar dela a capacidade humana de negar”.
Durante uma das minhas visitas ao centro de reabilitação, perguntei a Mary se ela gostaria de saber o que eu estava escrevendo sobre as lembranças das filhas a respeito de sua doença, ou se preferia não ouvir essa parte da história. Christine e eu nos sentamos em cadeiras. Mary sentou-se na beira da cama, ao lado de uma mesinha com rodinhas que usava para comer e também como escrivaninha. Ela logo respondeu que queria saber o que as filhas lembravam. “Vou aceitar, porque isso vai me ajudar a lembrar”, disse.
– Você se lembra das coisas de forma muito diferente, e pode ser doloroso – disse Christine com delicadeza. – Você se sente tranquila com isso, emocionalmente?
– Sim, vá em frente! – disse Mary. – Vou lembrar como mãe. Não vou lembrar do ponto de vista de vocês.
E continuou:
– Este é o melhor momento para me relacionar com essas lembranças e reparar os erros.
Christine contou sua primeira lembrança da doença: sentada no sofá, com a mãe lhe dizendo que seu professor da faculdade de medicina estava apaixonado por ela.
Mary ficou sentada na cama bem ereta, de braços cruzados, olhando fixamente para a filha. Tinha a postura de uma aluna estudiosa decidida a passar em um teste difícil.
Christine continuou:
– Você me perguntou se já tinham colocado coisas no meu cabelo, para…
– Microfones – Mary completou. – Microfones.
Contou então que o professor e os amigos dele ficavam insistindo para ela deixar o marido. “Eles me diziam: ‘Não se preocupe com os sogros e tudo mais. Trate de ir embora, só isso, e comece a viver por sua conta.’” Os amigos tentavam ajudar, mas também a importunavam, e ela não tinha ninguém em quem confiar. “Eu sentia que ela deveria me apoiar”, disse Mary, apontando para Christine. “Mas ela falava em nome dos meus amigos.”
– Você achava que eu estava repetindo frases que outras pessoas me diziam.
– Lembro disso muito bem – disse Mary.
– Para mim, como criança, isso foi muito doloroso.
– Nunca culpei você – disse Mary. – Mas meus colegas de classe… Eu confiava tanto neles.
– Eu não estava em contato com seus colegas – explicou Christine, em um tom contido. – Eu explicava isso, mas você não acreditava em mim naquela época.
Christine perguntou então:
– Agora que sou mais velha, você confia em mim quando digo que eles não estavam falando comigo?
Mary disse que era possível que Christine estivesse lendo seus e-mails, e não falando diretamente com os colegas. Ou que era o pai de Christine que lhe dizia o que devia falar. “Ela era muito articulada”, disse Mary. “E fazia tudo o que ele mandava.”
Mary explicou que a sensação de estar sendo perseguida, às vezes por pessoas do passado, às vezes por estranhos, continuou ainda durante várias semanas depois do diagnóstico de câncer: “Eu sentia que eles estavam agindo através dos médicos, e eu tinha que tomar a quimioterapia só para me destruir, me deixar careca, me fazer perder peso e me humilhar.”
Mas então, depois de algumas semanas do tratamento do câncer, seus sonhos se tornaram surpreendentemente agradáveis. Ela sonhava repetidamente com a irmã e os irmãos, e eles eram tão sensíveis e amorosos que ela pensava que talvez aquilo fosse o prelúdio para uma espécie de vida celestial após a morte. Com o tempo, os sonhos começaram a parecer mais conscientes, como se ela mesma estivesse dirigindo as cenas. Deitada na cama do hospital, tentava lembrar detalhes de sua casa da infância, que não lhe vinha à mente havia muitos anos. Ela explica: “Tudo que eu conseguia captar, eu colecionava.”
Ao que parece, sua volta à sanidade ocorreu semanas antes de as filhas perceberem o que estava acontecendo. Seus músculos estavam tão fracos que ela não conseguia dizer mais do que uma palavra de cada vez, mas desejava se comunicar com as filhas: “Estou sorrindo. Estou bem com tudo isso.”
A ideia de que havia pessoas tentando puni-la secretamente não desaparecera por completo, mas parecia distante, como um vestígio de outra era. Ela explicou que quando esse pensamento reaparece, “eu saio fora dele e digo: ‘Não é meu fardo.’ E entrego tudo, como uma cesta de presentes, para Deus”. Ela conta que aprendeu esse mecanismo para enfrentar as dificuldades ainda quando menina na escola, mas até recentemente não funcionava.
Christine se sentia ao mesmo tempo validada e desorientada pela ideia de que, na relação entre mãe e filha, os fatos nunca estiveram realmente em questão. “É doloroso saber que ela ainda acha que eu a espionava durante todos aqueles anos, mas agora ela diz: ‘Tenho tanto orgulho das minhas filhas, elas cuidam de mim.’ Talvez a interpretação dela seja que, através do poder do perdão, ela pode agora interagir comigo como sua filha amorosa. Será que isso é suficiente para mim?”
Durante um ano, Christine e Angie vinham conversando por Zoom com uma terapeuta de família para ajudá-las a processar as mudanças na mãe. Há pouco, Mary também começou a participar das sessões. Numa delas, Christine sugeriu que as três iniciassem um processo de relatar suas mágoas, cada uma por sua vez. “Houve momentos em que cada uma de nós teve suas falhas como cuidadora”, disse Christine. Ela sabia que a mãe se sentiu traída quando ela chamou a unidade móvel de atendimento. Mary concordou: “Fiquei muito decepcionada porque ninguém confiou em mim para me dar essa informação.” Christine então disse: “Fiz o melhor que pude. Mesmo assim, sinto muito por ter te magoado.”
Embora sentissem que já haviam resolvido os conflitos de relacionamento entre si, as duas irmãs e a mãe tentaram “encenar uma espécie de peça teatral”, como disse Christine: cada uma relatava seus ressentimentos – tais como o sentimento de abandono de Angie; a sensação de Christine de que Angie não queria a sua ajuda – e depois pediam desculpas, “de modo que em algum momento ela possa dizer essas palavras para nós”. Cada uma ressaltava que não achava que a outra fosse uma má pessoa, e tudo bem se cada uma lembrava das coisas de forma diferente. Tentaram dizer todas as palavras de absolvição que conseguiam lembrar, “caso esse fosse o bloqueio mental dela”, disse Christine.
Mary ficou entusiasmada com o processo, mas Christine percebeu que ela não sabia exatamente o que dizer quando chegava a sua vez. Como havia estudado a mente da mãe durante toda sua vida, Christine tinha várias justificativas para a falta de uma reação igual à de Mary: ela não fora criada numa cultura onde as pessoas expressam seus arrependimentos dessa forma. A incapacidade de ver as coisas pela perspectiva das filhas era um sintoma cognitivo persistente. Em seu estado frágil, pedir desculpas exigia um nível de autoconfiança que ela ainda não tinha. “Neste momento da minha vida, preciso sentir que minha mãe está de volta”, disse Christine. Mais tarde, talvez daqui a alguns anos, “vou lidar com o fato de que ela foi uma mãe imperfeita que me foi devolvida”.
O artigo foi originalmente publicado na revista The New Yorker
[1] No Brasil, o livro saiu pela Editora Belas Letras em 2015.