dossiê piauí
José Henrique Bortoluci Nov 2025 12h27
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No dia 30 de junho de 1988, Alilzete Alves Theofilo pegou carona num caminhão de transporte de madeiras e seguiu pela Rodovia Transamazônica, partindo do assentamento rural em que morava até o hospital de Medicilândia, no Pará, para dar à luz a Erasmo. Ele veio ao mundo com o destino talhado por aquela imensa obra de infraestrutura, que ele chama de “rodovia do genocídio”. Construída na década anterior a seu nascimento para ligar o interior da Amazônia ao litoral do Nordeste, a Transamazônica foi fundamental para definir o padrão de ocupação humana em seu entorno: quem viveria ali, de que forma o espaço seria ocupado, de acordo com que leis e, sobretudo, a quem pertenceriam as terras ao longo da rodovia, que hoje corta imensos municípios, e o que seria feito daquela parte da Floresta Amazônica que a estrada rasgou.
Erasmo Alves Theofilo nasceu três meses antes da promulgação da Constituição brasileira de 1988. Hoje, ele está incluído no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos do Estado do Pará. Camponês e ativista, teve que se afastar do lugar onde nasceu e viveu até recentemente, na zona rural do município paraense de Anapu. Um território que ele cruzava em sua cadeira de rodas, numa luta de quase toda a vida, seguindo o caminho de seus pais. Em suas palavras, hoje ele é um exilado em seu próprio país.
A região de Anapu é uma das mais perigosas do país para ativistas, camponeses e defensores de direitos humanos. A irmã Dorothy Stang, assassinada a mando de fazendeiros em 2005, é o nome mais conhecido de uma longa lista de pessoas mortas por grileiros e outros criminosos. Erasmo me diz: “Se eu seguisse lá, podia morrer anônimo. Ninguém sabe quem é Márcio, quem é Paulo Anacleto, meus companheiros que foram mortos logo antes de eu sair de lá. Mas sabem quem é a Dorothy, pelo menos.”
Poucas semanas antes de eu iniciar uma viagem que planejava fazer a Anapu e Altamira, Erasmo me liga e me convence a desistir dos planos, ao menos por ora: Ronilson de Jesus Santos, outro líder da luta pela reforma agrária na região, havia sido assassinado, e o seu filho sobreviveu por pouco. Quando conto que faria uma viagem de dez dias por outras regiões da Amazônia para ouvir pessoas, ver lugares e ir de barco de Belém a Manaus (um sonho meu desde a infância), ele me diz, sem vacilar: “Minha recomendação é que você tenha medo. Aqui, nessas terras, você tem que ter medo de fazer certas perguntas, de entrar em lugares que não conhece, de fotografar. Você está acostumado com a cidade. Aí, se querem te fazer mal, vão te difamar, vão te processar. Aqui, eles te matam.”
A fala de Erasmo não é só de medo. Em nossas conversas por videochamada, ele interrompia suas respostas para tentar me mostrar uma revoada de pássaros que naquele momento passava sobre sua casa. Ou para me mostrar fotos da casa simples em que a família vive, imagens da horta de sua mãe, Alilzete, fotos da escola que a comunidade construiu em um dos assentamentos que ele ajudou a regularizar. Depois, interrompe a entrevista porque tem que saber de seus pais se a comunidade conseguiu resgatar um bezerro que havia caído em um buraco. Mesmo distante, Erasmo tenta ajudar no resgate do animal, coordenando a comunidade. E, antes de desligar, ele me diz: “Eu não posso desistir, é impossível. Para algumas pessoas, pedir para parar de lutar é pedir para morrer um pouco.”
Sou de Medicilândia. Anapu, Altamira, Medicilândia… Essas cidades da região onde eu vivi só cresceram mesmo por causa da Transamazônica. Lá, tudo gira em torno dela. E a matança em volta, de indígenas e trabalhadores rurais também. É uma rodovia do genocídio. A Transamazônica passa em Medicilândia, na vila em que eu nasci. E esse nome aí da cidade foi dado em homenagem ao presidente militar [o general Emílio Garrastazu Médici, 1905-85] que mais matou. Continua assim até hoje, você veja…
Nasci com paralisia infantil. Perdi meu irmão gêmeo ainda no ventre. A paralisia pegou o cérebro dele e as minhas pernas. Fiquei três dias com ele morto na barriga da minha mãe. Nasci com 1,2 kg, fiquei seis meses na incubadora. Você vê que eu já lutava antes de nascer. Meu pai me levou pra Belém com 3 anos pra eu me tratar, porque nessa época eu já tinha dificuldade de andar. A gente rodou o Brasil – Belém, Teresina, São Paulo, Paraná – sempre atrás de tratamento. Fiz dezenove cirurgias, a última foi com 13 anos. E ninguém sabe me dizer ao certo a causa desse problema. Falam em paralisia, em eclampsia, mas nenhum médico assinou embaixo. Fora isso, tive uma infância como qualquer criança. Sempre fui danado, teimoso. Jogava bola, botando joelheira e me jogando no chão. Queria provar que eu conseguia.
Eu era a típica criança da roça. Minha comida preferida até hoje é arroz com feijão e sardinha. Meu pai me levava com ele pra roça desde que eu estava com 4 anos. Eu já tinha dificuldade de andar, mas me virava, e ele me levava pra mostrar que eu podia ser um homem honrado e fazer as coisas como qualquer outra pessoa. Enquanto ele roçava, eu espantava passarinho com estilingue. Depois, a gente almoçava na beira do rio: arroz, feijão e sardinha.
Até os 10 anos, eu era muito ativo. Andava, corria, brincava. Mas com 12, meu corpo foi mudando, e parei de andar. O corpo já não aguentava mais o peso, e as cirurgias já não ajudavam mais. Meu corpo cedeu. Desde então, uso cadeira de rodas, ou então, às vezes, ando com aquelas cadeiras brancas de plástico, de bar, passo a passo, me empurrando na cadeira.
Os problemas começaram quando saí da comunidade rural onde a gente vivia pra fazer fisioterapia em Altamira. Lá, sofri preconceito. Sofri bullying, era pesado. Mas conhecer outras pessoas com deficiência foi minha salvação, porque foi isso que me levou pra militância. Com 16 anos, nós fundamos a primeira associação de pessoas com deficiência da região. Fui eleito presidente, mas, por ser menor de idade, fiquei como vice. O presidente assinava, mas quem fazia o trabalho era eu. Minha militância começou ali, depois vieram as associações de agricultores e, hoje, a causa ambiental.
Também acompanhei meu pai nas lutas camponesas desde os 12 anos. Minha juventude foi marcada por isso. Na época, a mata aqui da região era mais preservada, e não se falava em Belo Monte. Já tinha muita violência contra camponeses e indígenas. Às vezes, pra encontrar meu pai, a gente andava dois dias dentro da mata. Pra mim, era aventura. Ver anta, onça, bandos daqueles porcões do mato – era meu fim de semana ideal. Quando eu ia visitar meu pai, a gente nadava no Rio Macapuxi. Um rio estreito e profundo, cheio de peixe. Mas eu aprendi a nadar mesmo foi no Xingu. Era lá que eu mais nadava.
Meu pai é alemão. Veio criança pro Brasil. A família ficou um tempo no Paraná, onde só arrendava terra. Depois, foi para a região onde eu nasci por causa da abertura da Transamazônica, porque diziam que lá a terra era grande e de graça. Meu pai chegou em Medicilândia em 1972.
Meu avô teve 25 filhos. Então, entre Altamira e Uruará, sempre tem alguém da minha família. Todo mundo é camponês. A gente nasceu dentro do sindicato rural. Meu pai, Eduardo Theofilo Filho – anota o nome dele pra você colocar na reportagem – foi um dos primeiros presidentes de associação na Transamazônica. Fundou cooperativa, liderou associação de agricultores e trabalhou com o Dema [Ademir Alfeu Federicci], uma liderança que foi assassinada em 2001. Tenho foto dos dois de enxada na mão. Meu pai também sofreu atentados: foi pego de refém em Macapuxi pelos madeireiros, e tivemos que fugir de lá e vir pra Anapu. Mas, ao contrário do Dema, ele sobreviveu.
Minha vida não é tão diferente da dos meus pais. A diferença é que hoje eu tenho visibilidade – o que meu pai nunca teve. Mas a luta é a mesma. Quando eu era criança, a gente mudou três vezes por causa das ameaças contra ele. E hoje também tenho que me mudar, me esconder.
Foi ele quem fez o primeiro contato entre os brancos e os indígenas do povo Arara, junto com o padre Alírio Bervian[1]. Mas isso gerou um problema enorme. Levaram o filho de uma liderança indígena pra Brasília. Quando voltaram com o Toti – que hoje é cacique e meu amigo –, o Exército invadiu a aldeia e matou muitos indígenas[2]. Depois, ampliaram a reserva em mais de 40 km. Meu pai ajudou a retomar o território. Cresci com os araras. Quando o Exército vinha, eles se escondiam nos lotes do Incra onde minha família morava. Eu vi tudo isso de perto, de pequeno.
Se você visse meu pai uns cinco anos atrás, você ia pensar: estou vendo um guerreiro. Hoje, já não é mais o mesmo. Ele está com 65 anos, no último estágio da lucidez, e não posso ficar lá pra cuidar dele. Hoje, minha maior dor é ver o Alzheimer dele avançar e eu não poder estar lá. Não posso voltar pro território – eu vivo escondido no programa de proteção, porque, se eu volto pro meu território, posso perder a vida.
Minha mãe, Alilzete, é uma baiana arretada, dessas que a gente só entende a força com o tempo. Ela nasceu em uma comunidade quilombola na cidade de Itamaraju. Passou por uma vida muito dura, mas sempre foi mais forte que tudo. Sorridente, firme, guerreira de verdade. Enquanto eu e meu pai somos da linha de frente, ela é quem articula. Fala com todo mundo na região. Aonde chega, puxa conversa, dando conselho, chamando pra reunião. Especialmente com as mulheres. Ela ficou triste nos últimos anos com a casa mais vazia, porque gosta de movimento, de gente.
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Meu primeiro contato com a Amazônia foi no Fórum Social Mundial de 2009, em Belém. A cidade era imensa, quente, saborosa, desigual. Em sua lua de mel, em 1984, meus pais tinham viajado para lá, de caminhão. “Presta atenção, tem mangueira pra todo lado”, eles me recomendaram. Meu pai, caminhoneiro que trabalhou na região quando as grandes obras encabeçadas pela ditadura militar estavam sendo construídas, me contava histórias das matas, estradas e rios da Amazônia. Eu contei algumas dessas histórias no livro O que é meu.
Em Belém, provei pela primeira vez daquela presença constante do Rio Guamá, da comida exuberante, da simpatia dos moradores e do calor que fustiga os visitantes de fora. A cidade, como toda metrópole brasileira, misturava pontos novos e reluzentes – os shoppings e condomínios marcados pela mesmice arquitetônica e social – e uma imensidão de bairros da classe trabalhadora, alguns deles ainda com casas de palafita, como a comunidade localizada entre as duas universidades federais onde aconteciam muitos dos eventos do fórum.
Nas universidades, bradávamos o lema de que “outro mundo é possível”; naquele bairro de gritante pobreza, que atravessávamos a pé, éramos confrontados com o mundo real. Numa tenda montada na Universidade Federal do Pará, vi Marina Silva palestrar para uma grande plateia, enquanto caía uma chuva amazônica sobre a lona. Marina explicava para nós que a floresta era assim: uma vez por dia, ela se manifestava dramaticamente, despejando um mundo de água sobre nossas cabeças. Muitos dos presentes chamavam Marina de presidente – isso pouco depois de seu rompimento com o governo Lula e cerca de um ano antes de sua saída do PT. Não podíamos prever toda a enxurrada política que atravessaria o país nos anos seguintes. Muito mudou, tão pouco mudou.
Como muitas pessoas do Sudeste e do Sul do Brasil, eu experimento com relação à Amazônia alguma familiaridade e um carinho inegável, já que ouvi falar sobre a floresta, suas cidades e estradas desde que nasci. Procurei também estudar sobre a imensa região que engloba quase metade do território do país; nos últimos quinze anos, fiz diversas viagens curtas de trabalho para Belém e Manaus. Ao mesmo tempo, me sinto um estrangeiro na Amazônia. Sou mais um nome numa linhagem de brasileiros de outras partes que visitam a região, depois voltam para suas cidades de origem e escrevem livros, teses, reportagens, postam fotos nas redes sociais, contam histórias de sua visita, fazem discursos e negócios.
A Amazônia sempre foi uma espécie de laboratório de testes para estrangeiros de todo tipo. “Estrangeiros” como eu, como os gaúchos e paranaenses que se mudaram para lá nos anos 1970 e 1980 a fim de explorar a terra e “colonizar” a região, gringos, como Henry Ford, que tentou montar ali sua utópica Fordlândia no final dos anos 1920. Estrangeiros como a leva de pessoas que viajam para a COP30, levando em seus laptops as “soluções” para “salvar a floresta” – elaboradas em seus escritórios em Londres, São Francisco, São Paulo ou Estocolmo.
*
Mário de Andrade, no livro O turista aprendiz, resume bem o misto de exotização e de genuíno espanto com a grandeza desse contato com a floresta que marca a experiência dos estrangeiros em visita à Amazônia. Alimentado pelas leituras que descreviam a floresta como uma terra selvagem e primitiva, ele conta que comprou uma bengala em São Paulo antes de sua longa viagem pela região: “As reminiscências de leitura me impulsionaram mais que a verdade, tribos selvagens, jacarés e formigões. E a minha alminha santa imaginou: canhão, revólver, bengala, canivete. E opinou pela bengala.”
Mais à frente no livro, ele descreve uma sequência infindável de atordoamentos com a grandeza de tudo o que via, descrevendo a Foz do Amazonas como a visão mais sublime da natureza e “o aroma do pau-rosa e da macacaporanga desprendido da resina de todos os troncos”, que “era tão inebriante que a gente oscilava com perigo de cair naquele mundo de águas brabas. Que eloquência!”.
“Que eloquência”, penso também, ao perceber como a floresta é infinita em cada uma das escalas – seja na dos satélites, seja na das lupas e microscópios. A Amazônia, de certa forma, é um objeto impossível de ser conhecido, se por conhecer queremos dizer buscar uma totalização, uma imagem-síntese, que abarque e controle o multicolorido do real. Da borda do rio se observa a imensidão da floresta adentro. Mas dali só se vê isso: a borda, e o rio caudaloso e marrom, cor que testemunha o seu parto nos Andes, do outro lado do continente. Em cima das nossas cabeças, invisíveis, os rios aéreos, com seus milhões de toneladas de vapor d’água conectando extremos do território sul-americano e atuando de forma definitiva na regulação do clima de todo o continente.
Essa escala colossal também se manifesta na vida cotidiana dos amazônidas, sobretudo os mais pobres. Algumas de suas atividades mais corriqueiras, como sacar os recursos mensais do Bolsa Família ou tirar um novo documento, podem levar dias de viagens de ida e volta até a cidade mais próxima. Em muitas cidades da Amazônia é possível ver dezenas de indígenas e ribeirinhos passando noites ao relento à espera da abertura de uma agência bancária ou de um órgão do governo.
Nossos olhos, nossos sentidos e nossa imaginação política não estão equipados para entender a dimensão da maior floresta tropical do mundo, com seu berço fluvial, que comporta um quinto da água doce do planeta, e com o rio mais volumoso do mundo, o Amazonas. Mesmo cientistas tarimbados, com vidas inteiras dedicadas ao estudo do bioma, apenas engatinham na compreensão das relações entre os múltiplos entes que compõem aquela massa viva.
Numa trilha pela mata na região do Tumbira, dentro de uma reserva ecológica no Rio Negro, Manoel Garrido – antigo construtor de barcos feitos de madeira de desmatamento que hoje trabalha com turismo comunitário sustentável –, nos aponta um pequeno quadrado da mata, com não mais de 2 m². Ali, naquela minúscula amostra da floresta, conseguíamos ver um universo feito de formigas aromáticas (“Os índios esfregam na pele antes de caçar, pros bichos não sentirem o cheiro deles”), vespas que convivem com o formigueiro (“Eu fico pensando como é que elas vivem junto ali dentro”), um buraco onde se esconde uma aranha gigante, que aparece quando percebe nossa presença (“Ela vive aí sozinha, não sei como consegue, uma vida de solidão”), marcas de patas de onça (“Não precisa ter medo, já deve ter uns dois dias que ela passou por aqui”), vários tipos diferentes de cipós, árvores de raízes aéreas (“Se você está perdido na floresta tem que bater forte aqui porque emite um som que dá pra ouvir longe”) e diferentes tipos de caules (“Essa a gente não derrubava pra fazer barco porque a madeira é muito densa e o barco afunda”), sem falar nos pássaros no alto (“Esse que tá piando alto é o alarme da floresta, só está piando assim porque viu a gente entrar, ele dedurava para os fazendeiros quando os escravos fugiam”). E aquilo era só a superfície do mergulho num verdadeiro aleph florestal, que desafia o conceito de infinito e sobrepassa a lógica de que dispomos para entender as relações entre elementos de um universo.
Esse mistério, essa grandeza, embaralha espaço e tempo: se é tão imensa, a floresta há de ser eterna. A imponência no espaço confunde nossas mentes limitadas, como se ela fosse uma garantia da sua permanência no tempo. Essa torção lógica dá margem a várias formas de negacionismo e de cinismo, seja por desinformação ou má intenção, que manipulam essa sensação de perenidade e resiliência da floresta para promover a sua destruição.
Assim que entro no barco em que farei a longa viagem de Belém a Manaus pelo Rio Amazonas, um rapaz mais ou menos da minha idade puxa conversa comigo. Depois de alguns minutos, ele me diz que sua família tem terras, muitas terras: “A gente tem fazenda e gado pelo Pará inteiro, a gente derruba, planta pasto, cria gado, faz tudo.” Por perceber que sou de São Paulo, ele viu em mim uma oportunidade de negócios e pergunta se tenho interesse em investir em terras ou comprar gado. Quando digo que não tenho, ele me convida para visitar uma das fazendas de sua família durante a parada de algumas horas que o barco fará em Santarém – quem sabe eu não mudaria de ideia e não passaria a investir em pecuária na Amazônia. Eu desconverso.
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Erasmo continua sua história:
Minha mãe sempre repete: “Nosso maior inimigo é o medo.” Eu sou meio doido, eu não fujo. Agora, dizer que não tenho medo? Tenho, sim. Medo de tudo, como qualquer um. Só não fico falando e alimentando o medo nos outros. Sou canceriano, sensível. Se eu tiver que me definir, sou 100% coração. E sou antes de tudo um caipira. Minha última companheira foi a Natalha. Tenho quatro filhos: três do coração e um biológico, o Dudu. Os filhos dela viraram meus filhos de coração. A Natalha é urbana, e eu tentei me adaptar à cidade. Mas não deu. Não é meu lugar. Ela é cheia de energia, gosta de sair, dançar. Eu sou do mato. Gosto de paz, de silêncio, de caçar, pescar. Sempre que dá, já estou no mato.
Lá na roça a gente não tem carro, vive sem luxo. Mas comida nunca faltou. Sempre comemos muito bem. Lá em Medicilândia, o povo não tinha grana, mas fazia as melhores festas, as melhores roças, casas bem-feitas – tudo feito por nós. Tudo era junto, compartilhado. Por isso, a cidade me machucou. Na roça, meus pais podem descansar, deitar um pouco na rede no meio da tarde. Na cidade, o sujeito se mata de trabalhar pra se aposentar com um carro estacionado na garagem. E isso é visto como sucesso. Pra mim, é desumano.
Sempre quis fugir do sistema. Lá em Anapu desenvolvi projetos de energia solar, internet gratuita pra comunidade. Na cidade, o maior gasto é com alimentação – e a comida é ruim! Vocês comem mal e pagam muito. No campo, eu escolho o que comer. A carne não tem veneno, o suco é natural. A comida é de verdade. Se não quiser carne, vou na represa: tem tucunaré, matrinxã, tilápia. Eu mesmo pego. Isso é riqueza: ter um lugar, saber que é meu, viver cercado de possibilidades. O rico trabalha a vida inteira pra pescar no sítio. Quando estou na minha terrinha, saio lá fora, vejo curica, arara, mais de trinta araras voando em cima da minha cabeça de uma vez. A cidade se industrializou demais – e as pessoas empobreceram por dentro.
A gente só quer ficar lá, plantar, colher. Isso, inclusive, é o que nos aproxima dos irmãos originários: o camponês e o indígena compartilham esse desejo de viver da terra. Vejo isso nos mais velhos. Eles têm clareza. Estando na minha terra, mesmo sem dinheiro, sou rico. Se eu for pra cidade, viro pobre.
A relação do camponês com a floresta é totalmente diferente da lógica que causou a devastação. O camponês sempre foi mais extrativista que desmatador. Estar isolado nunca foi problema – era até desejo de muita gente. Tem gente que vive a 70, 80 km da vila, feliz no mato. A ocupação do território segue uma lógica simples: onde tem terra boa, água e árvores frutíferas, é lá que as pessoas se instalam. E, claro, são também os lugares onde estão os ipês, os jatobás, as castanhas – tudo de valor. Pra quem vive da terra, essas árvores em pé são renda: vende semente, muda, colhe castanha. Mas aí passa alguém que já trabalhou em serraria, vê o ipê com outros olhos. Volta, avisa o povo do dinheiro – e começa o assédio. Tentam convencer a família a vender a madeira. É o início do conflito. É sempre assim desde a Transamazônica.
Crime organizado na região é grilagem, madeira e gado. Os maiores fazendeiros lá enriqueceram com projetos da Sudam [Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia] nos anos 1970 e 1980. Ganhavam dinheiro a fundo perdido pra supostamente desenvolver a região. Eles iam ocupando terra, grilando, expulsando pequenos agricultores, entrando em território indígena, derrubando floresta para provar que era produtivo. Ou seja, o Estado financiou o crime e a devastação ambiental, e a gente vê as consequências disso até hoje. A partir dos anos 1980, diminuíram as políticas de incentivo regional, mas esses empresários foram ganhando poder político, viraram prefeitos, e depois foram conseguindo, de tempos em tempos, a anistia das terras que eles tinham ocupado.
Participei de seis retomadas, sempre em terras de fazendeiros ocupadas ilegalmente. Morei no lote 88, que era de um deles. Retomamos os lotes 94, 105, 104, 102, 96 e 97 – tudo glebas enormes do antigo processo do Incra. Pra você ter noção: o lote 96 tinha 10 km² e era de uma pessoa só. Hoje, mesmo com grileiro tentando voltar, essas áreas abrigam 3,5 mil famílias. Estou tentando convencer o povo a plantar mais, até falo de crédito de carbono – não que eu acredite muito, mas, se ajudar a animar o pessoal, vale. Trabalho perto do movimento indígena do Xingu.
Com o Ministério Público Federal, conseguimos reintegrações importantes, como na Ilha Grande do Xingu: tiramos 45 invasores e recolocamos 214 indígenas – xipayas, kuruayas, jurunas –, e o lugar virou uma Área de Preservação Permanente reconhecida. Tenho muito orgulho, e eles também me protegem: já ficaram seis guerreiros comigo quando recebi ameaças. Em troca, ajudo com visibilidade, documentos e articulação. É uma parceria real.
Mas não é de graça. Os grileiros que foram atingidos por essas reintegrações tentaram sequestrar meus filhos, em retaliação. Tentaram me matar.
*
O desmatamento, o genocídio indígena e o assassinato de ribeirinhos, quilombolas e agricultores familiares não surgem em 1985 ou 1988, e certamente não são invenções de nossa geração ou da geração de nossos pais. A devastação de nossos ecossistemas está relacionada ao processo colonial em sua historicidade, mas sobretudo em sua lógica. Seu capítulo mais recente – e decisivo – começou com a ditadura militar de 1964, que transformou a devastação da Amazônia num projeto de país. Os instrumentos para isso foram muitos, mas a joia da coroa colonial foi a construção da Transamazônica, que provocou a criação de cidades em seu entorno e de um sistema de vias e picadas que dá vazão ao comércio decorrente dos usos ilegais da floresta.
Vista a partir da Amazônia, a democracia brasileira é frágil – quando não é uma patente decepção. Em grande medida, ela promoveu a reprodução dos padrões violentos de ocupação inaugurados na ditadura, com alguns breves períodos de avanços, sempre frágeis. O processo de devastação não foi linear nem descolado de dinâmicas das políticas brasileiras.
Até 1985, foram desmatados 50 milhões de hectares da Amazônia. Daquele ano até 2023, foram mais 88 milhões, num total de 138 milhões de hectares. Ou seja, cerca de 64% da destruição da maior floresta tropical do mundo se deu durante o atual regime democrático. Do total da cobertura original da Amazônia, em torno de 17% já havia sido desmatada até 2023 – e 17% estava degradada. O desmatamento atingiu seu pico em 2004, levando à criação do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal. Esse plano, junto ao monitoramento por satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e à ampla demarcação de territórios indígenas e áreas de proteção de diversos tipos, foi fundamental para uma queda histórica de 84% do desmatamento até 2012 – uma das maiores realizações da história humana em diminuição de emissões de carbono.
No entanto, a tendência de alta do desmatamento retornou a partir de 2016, coincidindo com um desmonte das políticas ambientais e uma política oficial de ataque aos defensores da floresta e de incentivo à invasão de terras públicas. O dia 10 de agosto de 2019 entrou para nosso calendário de desgraças como o “Dia do Fogo”, quando grileiros incendiaram largas porções da floresta de forma coordenada, uma demonstração perversa da crença na impunidade. O Dia do Fogo poderia se tornar um antiferiado nacional, em memória daquele festim diabólico de apoio ao presidente Jair Bolsonaro em seu primeiro ano de governo.
Os números do desmatamento voltam a recuar nos últimos anos do governo Bolsonaro, e de forma mais significativa partir de 2023, no primeiro ano do governo Lula. Os especialistas apontam que o desmatamento é a soma de diferentes investidas sobre as terras – ou seja, é sobretudo um processo fundiário, com repercussão política e ambiental. Uma combinação de grilagem, tráfico de madeira, pecuária, mineração e, cada vez mais, uma cadeia de atividades criminosas, como o tráfico de drogas, de pessoas e animais, crimes que conectam elites locais, populações empobrecidas exploradas nessas atividades, atores políticos, agentes financeiros na Avenida Faria Lima e redes ilegais internacionais.
Essa teia criminosa se adensou nos últimos treze anos, e cresce o consenso de que os mecanismos que levaram à queda do desmatamento de 2005 a 2014 não são suficientes para lidar com esse novo cenário. Enquanto isso, a floresta se aproxima do que os cientistas chamam de “ponto de não retorno”, estágio crítico em que o ecossistema perde a capacidade de se autorregenerar, caminhando cada vez mais para a sua derrocada – até que a floresta seja transformada numa savana degradada, pontuada por ilhotas de pastos e cidades abrasadas pelo calor.
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Primeiro vem o madeireiro, conta Erasmo:
Ele compra ou faz acordo com as famílias, tira toda a madeira de lei. O camponês, que vivia do extrativismo e da pequena agricultura, perde renda. O madeireiro derruba a floresta com trator e motosserra. Em troca, fica com a madeira. Depois, vem o capim e o gado – a saída para os camponeses é transformar a área em pasto.
Os camponeses têm terra pequena, não dá pra criar gado de forma sustentável. Aí surgem vários pastos pequenos – até que o grande produtor compra tudo e transforma numa fazenda só. Tudo com apoio do prefeito, do dono do cartório e, se precisar, da polícia.
A luta de hoje é a mesma de antes. A gente não quer sair, nem ficar rico, nem morar em São Paulo. Os camponeses do entorno do Rio Macapuxi, que viviam no meio da mata, também não queriam sair. Criamos até uma reserva ali, mas não foi respeitada. O prefeito invadiu, virou fazenda. Ninguém quer largar seu território. A Sara Rodrigues Lima, companheira do Xingu, não queria deixar de pescar pra virar operária em outra cidade.
Vou te contar uma história de agora, da região de Anapu. A luta é difícil, e o dinheiro na mão, mesmo que pouco, às vezes seduz… Chega o fazendeiro, oferece 100 mil reais por um lote. E tem camponês que aceita. Como ele vê o dinheiro vivo, às vezes vende. Aí o fazendeiro tenta comprar mais três, quatro lotes ao redor. Gasta 400 mil. Fica com 40 alqueires. E já tem curral com mais de trezentas cabeças de gado. E o que está rolando agora? O grileiro começa a distribuir gado pros colonos. Só que colono, com 10 alqueires, não sustenta gado. Aí coloca dez cabeças, o gado come tudo, se reproduz, vira vinte. Acaba o pasto. E o colono não tem como comprar outra terra. Quem aparece de novo? O grileiro. E oferece dinheiro pelo gado. Ou entra com contrato de meia: o colono cuida, paga tudo, mas 60% do lucro é do fazendeiro. A terra é do colono, mas o gado não é. E ele vai comprando mais e mais terra.
Antes do preço do cacau subir, teve agricultor cortando cacau pra plantar capim. Eu tinha um projeto com mais de 50 mil pés. Vi gente destruindo tudo. Eu chorava. “Isso não dá dinheiro”, diziam. “Gado dá.” Mas o gado nem era deles. E, assim, sem perceber, o colono vira funcionário do grileiro. Esse é o modelo que está se espalhando.
O agronegócio está tomando tudo. Antes, a gente plantava banana, arroz, feijão, cacau, pimenta. Hoje é só gado. Passo lá e só vejo pasto. Os lotes dos colonos, que cultivaram ali a vida inteira, foram vendidos por 40, 50, 60 mil. Como era tudo titulado, juntaram os títulos e fizeram uma escritura só. Assim, uma pessoa só expulsou vinte, trinta famílias de uma vez. Quando o agro compra tudo ao redor, as famílias que resolvem ficar começam a viver mal: ficam mais isoladas, não têm com quem trocar diferentes culturas que produzem. Para os grandes empresários do agro, viver simplesmente da terra parece crime. É como se estar tranquilo na roça fosse um problema pro sujeito. E aí querem tirar, porque “dá pra lucrar mais”. Conheço gente que hoje vende banana em Altamira e cujos pais morreram de tanto sofrer quando saíram da terra.
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No barco em que viajo, observo o céu imenso. Posso ver diferentes conjuntos de nuvens separados por enormes distâncias, partes abertas no céu, uma chuva no horizonte. O barco inicialmente ladeia a Ilha de Marajó e depois penetra no continente, se afastando da Foz do Amazonas e deslizando em direção ao coração da floresta. As margens são salpicadas por casas de ribeirinhos, e muitas vezes vejo crianças pequenas – de 5, 6 anos – brincando em barquinhos no rio, que são seu quintal, seu universo. À noite, a mancha de luz da Via Láctea atravessa o céu – um véu sobre a escuridão da mata que é interrompida apenas pelo farol do navio, que o comandante acende de tempos em tempos para se manter na rota, rio acima.
O cenário humano no barco é rico, muito vivo, e as pessoas acham formas de matar o tempo na viagem de seis dias, com o sol febril ou as estrelas sobre a cabeça. Assim que embarco, vejo uma família indígena dançando com uma bebê, que bate os pezinhos em uma mesa e levanta as mãos, alegre. Um outro grupo: homens e mulheres entram, animados, com cachaça e garrafas de cerveja nas mãos, e seguem nessa toada durante toda a viagem. No bar, a caixa de som toca brega e sertanejo o tempo todo, muito alto, das oito da manhã às onze da noite. Um homem, pouco mais velho que eu, faz um comentário durante a partida, falando alto o suficiente para que eu ouça e me engaje em uma conversa. Depois, ele aponta para Belém e comenta que a cidade é muito alta, vertical, que o Centro cresceu muito. “É bem mais alta que Manaus”, ele diz. Pergunto se ele é de Manaus, ele responde que sim. Emendo outra pergunta: “É a primeira vez que você faz essa viagem?” Ele me olha e responde apenas: “Eu sou marinheiro.” Talvez não haja resposta mais bonita para a minha pergunta ou para qualquer pergunta, do que dizer: “Eu sou marinheiro.”
Tenho tempo para ouvir as pessoas, conversar na fila do jantar, enquanto tomo uma cerveja ou fumo um cigarro no deque. Sou chamado de galego, louro, alemão. Entendo que sou estranho ali, em meio a uma maioria de pessoas de diferentes regiões da Amazônia, em sua maioria trabalhadores e famílias de baixa renda que viajam pelos motivos mais diversos e armam suas redes coladas uma à outra. Uma meia dúzia de gringos viaja também, entre eles uma moça espanhola, que todo fim de tarde ensina ioga para as crianças no deque do navio. Famílias do Nordeste estão indo visitar parentes ou em alguma viagem de trabalho. Uma família cearense, festeira, conta piadas em voz alta na fila do jantar: “Se o Trump bombardear este barco, não sobra nem meus chifres pra minha mulher pendurar na parede.” A fila toda ri.
Como em todo lugar, os celulares são dominantes no barco. Eles servem para tudo, inclusive para substituir os radinhos que deviam dominar a paisagem sonora antes do advento da internet rápida. Caminhando entre as redes, ouço pregações de pastores evangélicos, música (brega, sertanejo, gospel, funk), comentaristas de futebol. Muitas vezes, vi pessoas assistindo a alguma novela ou programas policiais da tevê. Há um estranho entrelaçamento entre uma ocupação muito semelhante à de décadas atrás (a longa viagem de barco, como as que meu pai fazia) e novas formas de interação e conexão com o mundo, mesmo no meio da floresta. Não deixa de ser irônico que a empresa que garante essa conexão seja a Starlink, de Elon Musk, o hiperbilionário supremacista branco e um dos mais assombrosos personagens contemporâneos.
São seis dias no barco – seriam cinco, mas o motor da embarcação quebrou, e tivemos que esperar um dia inteiro pela chegada de outra para seguir viagem. Na primeira manhã, acordo e vejo que a floresta, antes parte da escuridão da noite, está lá, imensa. Tomo o café, pego o celular e leio que, no dia anterior, o Congresso aprovou o Projeto de Lei 2159/2021, o infame PL da Devastação. A ministra Marina Silva afirma aos jornais que o projeto “fere de morte uns dos principais instrumentos da proteção ambiental do país, que é o licenciamento ambiental”. Abro o Instagram e vejo que Erasmo também reagiu à aprovação: “NÃO podemos aceitar isso! O Brasil não é mercadoria. Nossa Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica e todos os ecossistemas valem mais do que o lucro de poucos. Lula, o senhor prometeu ser o presidente do clima e da floresta em pé. Agora é a hora de cumprir: VESTE ESSE PL DA DEVASTAÇÃO.”
Em nossa conversa, Erasmo conta:
Era dezembro de 2019. Anos antes, a coisa de assassinatos estava um pouco mais calma na região, porque, com a morte da Dorothy, Anapu foi muito pra mídia e chamou a atenção do governo. Os grileiros aprenderam também que às vezes é melhor agir sem muito barulho, e foram inventando outros jeitos de aumentar o poder e as terras. Mas estava tudo pronto pra explodir de novo, com as disputas de terras em que os grileiros estavam tentando entrar, e o povo lá, resistindo. Queriam continuar os assassinatos que começaram anos antes, com a irmã Dorothy.
O Márcio Rodrigues dos Reis também era de Anapu, organizava os trabalhadores rurais da região. Antes, tinha sido preso duas vezes por posse ilegal de arma e ocupação de terras, e a polícia não deixava ele em paz. Na cadeia, queriam chantagear ele, e propuseram que denunciasse o padre Amaro, que continuava o trabalho da irmã Dorothy na região. Mesmo perseguido e afastado, o padre Amaro tinha celebrado a Romaria da Floresta – ele era muito próximo da luta dos camponeses. O Márcio foi solto, passou um ano fora, voltou para Anapu e foi trabalhar como mototaxista. A gente estava reunido com várias pessoas da região que conheciam o Márcio, e recebemos uma ligação de um dos maiores grileiros. Ele ligou pra perguntar se tinha morrido alguém. Foi um aviso, um deboche. O Márcio tinha acabado de ser degolado.
O Paulo Anacleto era presidente da associação de mototaxistas e denunciou o grileiro no velório. Foi morto cinco dias mais tarde, e depois eles foram atrás de mim. Um capanga famoso desse grileiro, o Ceará, foi mandado pra me matar, com dois outros capangas. Mas, antes de entrar no nosso lote, ele bebeu e se desentendeu no bar na beira da estrada, bebeu muito e deu dois tiros pra cima – e isso me salvou, porque alertou meus vizinhos e minha família, e deu tempo de a gente se esconder dentro de casa. Eles cercaram mesmo assim. Foi minha mãe que fez a negociação, e eles foram embora. Ficaram lá ameaçando a gente por seis horas, só foram embora às quatro da manhã.
No dia seguinte, Ceará foi morto pela polícia porque tinha feito o trabalho errado, não conseguiu me matar, e agora poderia delatar o grileiro que tinha encomendado o serviço. O outro apelido do Ceará era Queima Barraco. Ele era conhecido por trabalhar pra fazendeiro da região. Matava ou chegava queimando tudo dos camponeses. Lá é assim: morre camponês, morre indígena, mas quem está matando também se mata entre si. Por pouco, não termino que nem o Márcio e o Paulo Anacleto.
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Uma sombra fria marca qualquer conversa sobre essa região do Pará: a Usina Hidrelétrica Belo Monte, um projeto concebido ainda na ditadura militar, construída em um dos governos do PT, sob protestos de indígenas, ribeirinhos, especialistas e ambientalistas. Belo Monte está para o período democrático como a Transamazônica está para a ditadura militar: ruínas vivas, monumentos de uma ideia de progresso retirada de uma cartilha autoritária. Desde os debates sobre sua criação, movimentos de resistência à usina passaram a chamá-la de “Belo Monte de Merda” ou “Belo Monstro”. Muito já foi dito sobre a usina que devastou o Rio Xingu, arrasou com a fauna da região e continua ceifando vidas em Altamira e seu entorno, como diz Erasmo:
Belo Monte arrasou com tudo. Sem ela, a gente seria ainda mais pleno, mas parece que ser feliz incomoda. Com Belo Monte, mudou tudo ali. Eu nadei no Xingu em Altamira, no bairro de onde foram tiradas as famílias ribeirinhas pra fazer a obra, expulsas dali e colocadas num bairro triste, longe, em casinhas de dois quartos, sem água nem esgoto, de péssimo acesso. Um monte de jovens se matou, muita gente ficou doente.
Pra nós, que moramos no pátio da usina, ela não trouxe nenhum benefício. Temos a energia mais cara do Brasil. E nem as condicionantes foram cumpridas. Nada. Agora chega a Belo Sun, que é a mineradora canadense que está entrando com tudo aqui: já acabaram com a água, agora é o solo.
Essa terra é riquíssima – o que, pra quem é de fora, significa exploração. Pra nós, significa risco, expulsão, fim da vida como conhecemos. Altamira é o exemplo. Antes de Belo Monte, era meio urbana, meio rural. Todo mundo tinha um lote. Era comunidade. Quinze anos depois, virou uma das cidades com pior infraestrutura do país. Criaram os Reassentamentos Urbanos Coletivos, os rucs, verdadeiras favelas, guetos.
A cidade cresceu, mas sem escola, saúde, moradia. E pra gente, fora da cidade? Acabaram com a água. Os poços secaram, o Xingu foi desviado. O rio ficou intrafegável, os pescadores perderam tudo. Pagaram algumas indenizações, mas sem apoio nenhum. Vi gente que recebeu uma bolada e, um ano depois, estava trabalhando como diarista. Sem educação financeira, caíram em golpe, emprestaram, perderam tudo. Muita gente que vivia da terra hoje está nesses rucs – e ainda pagando a energia mais cara do Brasil. A usina tá aqui, e nem desconto na luz deram.
Essas ideias de grandes obras na Amazônia, eles não param de tirar das gavetas. Cada ano ressuscitam uma diferente. Agora falam da Ferrogrão, a ferrovia de Mato Grosso até Itaituba, pra escoar soja. Só vai atrair ainda mais ganância, especulação, destruição.
Quando eu paro pra pensar nos próximos vinte anos… Dá medo imaginar no que minha região vai virar. Lá é uma das áreas mais visadas pro garimpo. Ainda não tem exploração direta, mas a pressão está aumentando. A Belo Sun já está instalada a uns 8 km do sítio dos meus pais. E, por mais que a gente lute, eu tenho receio de que eles não vão conseguir ficar ali por muito tempo. Vai chegar uma hora em que a exploração vai ser tão violenta que a comunidade ou sai antes, ou vai ter que lidar com chumbo, mercúrio, contaminação.
A Belo Sun veio pra destruir tudo. O ouro daqui é na rocha. Começaram tirando pedra e terra dizendo que era pra pesquisa, mas saíam de madrugada com caminhões destruindo a estrada. Foi minha mãe que percebeu, filmou e mandou pra mim. Virou processo no mpf. É sempre o mesmo ciclo: acham valor no solo ou no subsolo e expulsam quem vive em cima, ou deixam a água e o solo do entorno contaminados. O ciclo não para.
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Em uma de nossas primeiras conversas, quando disse a Erasmo que sou professor e escritor, ele me contou que também escreve: “Sou poeta, escrevo à noite pra lidar com a dor que a gente enfrenta na vida, mas também escrevo porque sou um apaixonado.” Ele me enviou vários de seus poemas nas semanas seguintes. Assim começa um deles, chamado Raiz no exílio:
Minha mão, outrora aberta em sulco vivo
Hoje cerrada em golpe de saudade
Luta por um pedaço de terra cativa
Contra a cerca cega da humanidade.
Lutei não por um nome, não por glória
Lutei pelo pão que a terra mãe concede
Lutei para escrever uma nova história
Onde o fruto do chão a todos nos alimente.
Mas eis o preço amargo desta guerra:
O exílio é minha cela sem grades
Longe do chão que pariu minha esperança
Longe do cheiro da justa mudança.
Natalha, quilombola e militante do movimento negro, ex-companheira de Erasmo e mãe de seus filhos, também escreve. Um de seus escritos circulou pelo país antes do segundo turno das eleições de 2022. Era uma carta pública, lida pela atriz Denise Fraga, que viralizou no Brasil e atingiu públicos no exterior. Nela, Natalha também fala da condição do exílio e de como a sua sobrevivência – a de Erasmo, de seus filhos e parentes, e de uma legião de ativistas, indígenas, quilombolas e camponeses – tornou-se ainda mais ameaçada desde a eleição de Bolsonaro, com muitos de seus aliados governando os estados e cidades da Amazônia. Ela diz:
Meu nome é Natalha Theofilo [hoje, Natalha Lopes Correa], refugiada dentro do meu próprio país. Quilombola, 33 anos [idade em outubro de 2022], feminista negra, defensora dos direitos humanos, defensora da floresta em pé, sou parte do povo-floresta. Escrevo a você do exílio para o qual fui condenada junto a meu marido, o líder camponês Erasmo Theofilo, e nossos quatro filhos pequenos. Exílio não em Paris ou Londres, Nova York ou Berlim. Nosso exílio é dentro do Brasil, escondidos para que uma bala não arrebente nem a nossa cabeça nem a de nossas crianças.
Erasmo continua:
Eu sinto a dor do exílio. Eu nunca desisti, tenho muito orgulho de mim. Concluí tudo que me propus, e quando não consegui não foi por minha culpa. Meu objetivo de vida é não desistir. Eu tenho muito medo de morrer. Meus filhos deram outro sentido à minha existência – antes eu dizia que podia morrer na luta, que não me importava. O meu filho de 10 anos ficou traumatizado com a tentativa de invasão da nossa casa pelo Ceará e outros capangas. Às vezes, ele fica olhando na televisão da câmera de segurança, com medo dos homens invadirem.
Quando cheguei na cidade grande, vi uma realidade que nunca tinha visto. Vi morador de rua pela primeira vez. Em Belém, eu vi a fome. Vi criança sendo violentada, sendo explorada sexualmente. Foi aí que entendi, de verdade, o que era abandono. O programa de proteção me ofereceu uma casa boa, cheia de móveis, tudo arrumado. Me perguntavam: “Erasmo, como tu não tá feliz? Muita gente sonha com isso.” E eu ria: “Se me dessem um barraco com terra pra plantar, estaria melhor do que nessa casa cheia de móvel novo.” O problema era a falta de liberdade. Lá eu entrei em depressão. Mas essa depressão me trouxe outra coisa também: a poesia. Sofri muito, mas isso me desbloqueou a escrita.
E Erasmo me manda outro de seus poemas, Campos de trabalho e esperança. Duas das estrofes ecoam o que ele havia acabado de compartilhar comigo:
No campo, a luta é dura
Mas a esperança é pura.
Cada passo, cada lágrima, cada suor,
É semente de um mundo melhor.
Aos defensores, nossa homenagem,
Por enfrentarem a injustiça e a selvageria.
Que sua luta seja eterna chama,
Iluminando o caminho da utopia.
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Mais um dia no barco. A floresta que vejo e ouço – a floresta viva dos amazônidas, sobretudo de camponeses, indígenas, ribeirinhos, dos defensores da floresta – contrasta de forma radical com a floresta de que se fala em conferências e simpósios internacionais de que participo. A Amazônia é hoje uma espécie de menina dos olhos do establishment climático internacional. Em cada Brazil conference, em cada climate week de Londres ou Nova York, em cada mesa de debates em universidades ou de hotéis cinco estrelas em que o Brasil é tema, a maioria dos olhares – daqui ou de fora – costuma abordar a floresta por um mecanismo de hiperredução: ela vira, como por passe de mágica, “créditos de carbono”, recursos naturais, indicadores de biodiversidade, mecanismos financeiros de sustentação da floresta em pé. Parte disso é inevitável, dada a grandeza desse ecossistema. Uma parcela dessa redução, contudo, é fruto do misto de salvacionismo bem-intencionado e de mentalidade de negócios que a floresta sempre despertou nos de fora e em vários setores da população local.
E, agora, acontece a COP30 – o maior evento climático do planeta, momento de enorme potencial para a política externa do país, mas de impasses e incertezas para os povos da floresta.
Erasmo, como muitos outros ativistas da região com quem conversei nos últimos meses, relata que nem sempre foi fácil mobilizar suas bases em torno da questão do clima, quando esse é tratado de forma abstrata. A linguagem das COPs, do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, do Acordo de Paris, dos créditos de carbono e outros mecanismos discutidos por consultores, políticos, acadêmicos e ativistas dos grandes centros urbanos – esse vocabulário e a lógica que ele enlaça dizem pouco para os camponeses de Anapu, indígenas do Maranhão, ribeirinhos do Rio Madeira. A floresta não precisa dessa linguagem para se comunicar, me lembra Erasmo, e a experiência cotidiana de suas populações já está marcada pelo processo global de emergência climática, mesmo que eles a descrevam com outras palavras e a percebam a partir de sensibilidades diferentes. Como diz Erasmo:
A natureza está avisando que está morrendo. A floresta está dando o recado.
Falar de mudança climática na floresta sempre foi difícil. Em Belém é mais direto – é quente, desmatado. Lá na minha terra, cercado de árvore, o povo diz: “Você está doido? Isso aqui nunca vai acabar.” Você tenta explicar: “Essa árvore que você está derrubando vai secar o rio.” E respondem: “Fulano faz isso há dez anos e nunca deu nada.” Aí passam cinco, seis anos, e não conseguem mais produzir. Agora estão entendendo. Estão vendo com os próprios olhos.
Antes eu falava no vazio: “Vai ter consequência. Criar gado assim não vai dar certo.” E achavam que era papo de ambientalista. Mas nos últimos três anos – especialmente no último – a água baixou, virou tragédia. Ninguém consegue mais plantar ou criar. Minha mãe sempre teve horta, mas, pela primeira vez na vida dela, está tendo que regar a horta. Isso no meio da Amazônia. Ela nunca viu isso, com quase 70 anos: ter que regar a plantação. Essa seca a gente não conhecia.
Dez anos atrás, o colono sabia certinho quando plantar. Os mais velhos diziam: “Planta só na segunda semana de outubro.” E dava certo. Em novembro chovia, e se errasse o tempo, perdia a roça. Mas, de 2018 pra cá, tudo mudou. A chuva, que começava em novembro, foi empurrando pra dezembro… Hoje só chega lá pro dia 15 de janeiro. E termina em maio. Antes chovia até junho, julho. Agora, junho já é seco. Novembro, que era mês do feijão, virou mês seco. Antes bastavam duas chuvas. Hoje ninguém sabe quando ou como plantar.
Agora, é setembro, faz cinco meses que não chove. A pupunheira está sem cacho. Era pra estar produzindo. E o pior: as castanheiras estão jogando ouriço sem castanha dentro. Em volta da represa perto da casa dos meus pais está uma disputa. Os bichos estão descendo, vindo até a gente – porque na mata não tem mais água. Antes era a gente que ia caçar. Agora, são eles que vêm.
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Pergunto a Erasmo, como a todas as pessoas com quem converso para este dossiê, se ele acha que o Brasil melhorou nas últimas décadas. Essa pergunta leva cada um dos entrevistados para lugares de memória muito diferentes: alguns pensam na infância, outros recitam estatísticas, e ainda há os que falam de seus pais e filhos. A gramática política de Erasmo é assentada em seu território, em suas lutas, na história do campo e da floresta. É de lá que ele observa o mundo e onde se forma sua ideia do que é o Brasil e do que o país pode ser.
Estou com 36 anos e, sendo direto, o Brasil não melhorou em vinte anos, pelo menos não na minha realidade. Na luta que vivo – ambiental, camponesa, florestal – só vi retrocesso. Talvez, pra quem vive em São Paulo, com estrutura e recurso, tenha havido algum progresso, mas essa não é a minha vivência. Na Amazônia, vi famílias camponesas com terra e vida boa que hoje têm filhos nas cidades vivendo como escravos modernos, muitas vezes porque os pais venderam ou perderam as terras – por necessidade, pressão ou ambição.
A nova geração ficou sem chão, sem opção, e quem não tem força política ou grana pra lutar por terra acaba na cidade. Vejo isso desde o tempo do meu pai, na abertura da Transamazônica: povos indígenas como os araras, que trabalharam com ele, hoje estão fragmentados, muitos em situação vulnerável, com álcool e droga usados como moeda pra explorar os territórios. Pro capital, parece evolução: soja no Pará, Cargill, hidrelétrica, mineração. Mas a vida de quem vive da terra não melhorou – e não melhoramos nada como seres humanos.
Acho que hoje as pessoas na cidade grande, aí pelo Sul do Brasil, até entendem mais da Amazônia. Mas entre entender e se importar tem uma distância grande. Principalmente em lugares como São Paulo, Brasília. Não basta compreender: é preciso viver. Participar. Só vivendo de perto, vendo com os próprios olhos, é que a gente se envolve de verdade. E pode se sentir responsável.
Hoje, nossa maior luta é tentar voltar ao que era há vinte anos. Voltar à natureza que existia, ao equilíbrio.
E o governo Lula tem decepcionado. A gente votou com esperança, mas nem 20% das expectativas foram cumpridas. Com Bolsonaro sabíamos quem era o inimigo. Já com Lula, por ter apoio de sindicatos e movimentos sociais, pouca gente questiona, com medo de abrir espaço pra extrema direita. E agora a COP. Não acredito numa COP que não olha de verdade pras necessidades das pessoas aqui. Se não olhar, é só manipulação, é só cena.
Os cientistas dizem: se seguir assim, em 2050 ninguém mais vive aqui. Calor demais. A vida como conhecemos acaba. Como justificar bilionário indo pra Marte, enquanto tem criança morrendo de desnutrição aqui? Meu maior medo é a maldade humana. Tem muita coisa que a gente pode temer, mas nada me assusta mais do que o que o ser humano é capaz de fazer – contra a natureza, contra os outros, contra si mesmo.
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Anos atrás, li em algum lugar uma frase que carrego comigo como um enigma – e me arrependo de não ter anotado a autoria dela. A frase: “O Brasil é uma invenção de paulista e de carioca.” A sentença, brilhante em sua simplicidade e agudez, era emitida em tom crítico, e não como um louvor à suposta capacidade de criar uma nação das elites do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Nessa visão sintética e cortante, o “Brasil” chega em boa parte do seu próprio território como um gigante estrangeiro, uma máquina de colonização e de homogeneização cultural. Muitas vezes pensei nesse Brasil que chega como um alienígena, destruindo vidas e lugares, desorganizando relações locais, impondo-se sem diálogo, como uma nau que aporta na colônia com seus canhões, com cepas de vírus ali desconhecidos, com machados e livretos religiosos. O Brasil, nessa imagem, é uma imensa obra que nunca deixa de produzir ruídos e entulho: a Transamazônica, Belo Monte, a exploração de petróleo na Foz do Amazonas, o desmatamento que abre pasto para a pecuária e a soja, a Ferrogrão, a br-319, que liga Manaus a Porto Velho.
Pergunto a Erasmo o que significa ser brasileiro para ele:
Ser brasileiro é, antes de tudo, ser colonizador. Ser brasileiro é nascer do estupro, da invasão, do genocídio. É carregar uma herança de expropriação. Pra mim, é ser herdeiro de uma violência. Dói ver esse povo tentar construir uma moral em cima de tanta brutalidade esquecida. A única saída que vejo é tentar viver de um jeito que repare o que foi causado pela história desse país.
Ser brasileiro hoje é viver num país hipócrita. Saímos de um governo de morte e caímos num governo que prometeu ser esperança, mas que decepciona. O que me resta? Não desistir e tentar não ser hipócrita. Viver de um jeito que respeite quem veio antes – povos originários, quilombolas, camponeses – e que seja uma forma de resistir ao massacre que continua.
[1] O relato refere-se a um grupo Arara localizado na região de Medicilândia (PA) que, segundo Erasmo Theofilo, ainda não havia sido contatada por não indígenas. De acordo com o Instituto Socioambiental, os primeiros contatos com o povo Arara ocorreram no século XIX, seguidos por tentativas intermitentes ao longo do século seguinte, com destaque para as frentes de atração lideradas por sertanistas como Afonso Alves da Cruz e João Carvalho nos anos 1960.
[2] O relato sobre a atuação do Exército baseia-se em memórias locais, transmitidas oralmente entre indígenas Arara da região. Nos registros oficiais, no entanto, não há menção a uma operação militar com as características descritas.