diário do geraldo
Nov 2025 12h23
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1º DE OUTUBRO_Passei meses negociando sem sucesso com o governo americano. Bastou o President’Lula cruzar os feromônios com o Trump para rolar uma química e a coisa andar. Fica uma situação chata pra mim. Estou no mapa, tenho meu território, mas é como se não existisse. Tem dias que eu me sinto como um Suriname.
Aliás, o President’Lula enfim me confidenciou o que disse para o Trump naqueles famosos segundos em que se cruzaram nos bastidores da ONU: “Presidente Trump, o senhor gosta de soda?” Diante da reação estupefata do laranjão, Lula arrematou: “Porque no meu coração soda você.” Não sei como traduziram isso. Talvez aí resida a mágica do momento.
2 DE OUTUBRO_Estamos desde a Proclamação da República debatendo uma reforma tributária que beneficie os mais pobres. Quando finalmente colocamos a desoneração do imposto de renda na pauta, o projeto é aprovado por unanimidade. A política brasileira às vezes parece que obedece à lógica do ornitorrinco: o animal tem bico de pato, pelos de urso e cauda de castor. É mamífero e bota ovo.
6 DE OUTUBRO_Lula e Trump conversaram, sem mim, por telefone. Como sou solícito até o último fio de cabelo, me peguei pensando em como eu poderia somar. Então abri uma exceção extraordinária e tomei uma iniciativa realmente ousada. Fiz um post em inglês nas redes sociais. Espero que minha contribuição seja decisiva.
7 DE OUTUBRO_Fui convidado para integrar o line-up do palco principal do Festival Internacional Curicaca no estádio Mané Garrincha. Preparei um número emocionante no meu ukulele. Ensaiei a semana inteira para cantar Babalú no mesmo tom da Angela Maria. Mas quando estava aquecendo a voz no camarim, o pessoal explicou que o evento não era musical. Fiquei com uma mão na frente e a outra atrás. Com certeza no Suriname seria diferente.
8 DE OUTUBRO_Pronto, a ficha caiu. A culpa é das novas amizades do President’ Lula. Desde que ele resolveu ficar amigucho dos irmãos Batista, do Alcolumbre e do Motta, devo ter virado comunista demais pra ele. Buscando algum acolhimento, liguei pro Jones Manoel, que me consolou com um dito do Dostoiévski: “Quanto mais escura a noite, mais brilhante a estrela.” É isso. Não cederei – continuarei brilhando. O proletariado vencerá.
9 DE OUTUBRO_Enquanto o César Tralli não assume a bancada, eu deixei de ver o Jornal Nacional para assistir ao The Morning Show. É uma tendência mundial de trocar o jornalismo real pelo jornalismo ficcional. E falei pra Libelu: sabia que a personagem da Jennifer Aniston ia aceitar a volta da Reese Witherspoon. Tava na cara. Esses roteiros são muito bons, mas sou uma pitonisa pindamonhangabense que acerta tudo. Tudo!
12 DE OUTUBRO_Pedi um autorama de Dia das Crianças. Com carros sustentáveis e IPI Verde.
14 DE OUTUBRO_Gregory Allan Rusland. Esse é o nome do vice-presidente do Suriname que tomou posse agorinha em 2025. O mais intrigante é que o governo do Suriname fica instalado numa praça chamada Onafhankelijkheidsplein.
15 DE OUTUBRO_Ontem embarquei para a Índia com uma ideia fixa na cabeça. Meu astrólogo disse que Mercúrio e Marte estão transitando pelo signo de Escorpião e que esse período é batata para tirar projetos impossíveis do papel. Mandei um zap imediatamente para Carlos Henrique Baqueta Fávaro, do Ministério da Agricultura e Pecuária, e sugeri a criação do programa Chuchu para Todes. Ele adorou a ideia e disse: “Vou ver e te falo.”
16 DE OUTUBRO_Minha visita à Índia tem um nível de dificuldade colossal. Me considero capaz de fechar os acordos comerciais, representar o Brasil e tal. Mas, pelo amor de Santa Rita dos Desamparados, como eu pronuncio o nome do vice-presidente Chandrapuram Ponnusami Radhakrishnan? O homem não tem um apelido? Chandra? Popo? Radão? Ainda não consegui aprender o nome da praça do Suriname e agora me cai essa bomba no colo.
17 DE OUTUBRO_Visitei o All India Institute of Ayurveda e descobri que meu corpo estava vibrando em 220 Hz. Sinal de prosperidade. Pior para o Trump, que não soube aproveitar. Na saída, um guru sussurrou um mantra em meu ouvido. “Om Namah Chuchu”. Levitei 5 cm quando repeti por 5 minutos.
Voltei preparado para aplicar tarifas espirituais nos Estados Unidos.
18 DE OUTUBRO_Fiquei tão espiritualizado que quase esqueci de ver o final de Vale tudo! Tive que catar na internet e quase caí pra trás! Odete Roitman não morreu! Que bafafá! Depois de fazer tanta maldade, ela sai voando de helicóptero e se livra de toda sorte de punições. Agora começo uma nova apuração: quem anistiou Odete Roitman? Será que o Fux se encantou pela quantidade de laquê e intercedeu pela absolvição dela? Veremos.
O final da novela foi uma polaroide do Brasil atual: quem não tá correndo atrás do dinheiro do agro é porque tá de tornozeleira eletrônica.
19 DE OUTUBRO_Acompanhei catatônico o roubo no Museu do Louvre. Depois dessa falha de segurança, atualizei todas as minhas senhas de GeraldaoChuchuzao12345 para GeraldoChuchuzao12345@.
21 DE OUTUBRO_Sim, tivemos desavenças sérias no passado. Muitas delas envolvendo o batalhão de choque da Polícia Militar de São Paulo. Mas fiz questão de mostrar para o Guilherme Boulos que sou um novo Geraldo. Ao cumprimentá-lo pelo cargo de secretário-geral da Presidência da República, entreguei logo uma pulseira de folhas de louro e falei da importância de vibrar em 220 Hz. Nos abraçamos emocionados e, de supetão, cantamos: O melhor lugar do mundo é aqui e agora. Ele é boa pessoa. Moderado demais, mas boa pessoa.
22 DE OUTUBRO_Libelu chegou no quarto dando pulinhos de alegria e dizendo que estava animada para chegar dezembro. “Por causa das rabanadas do Natal”, pensei. Qual o quê! Descobri que ela estava serelepe assim porque o filme Orgulho e preconceito será relançado nos cinemas no final do ano. Ela sempre me compara com o Mr. Darcy e até sugeriu que eu usasse um look parecido com o dele no filme, com capas e alguns acessórios de época que não sei o nome. Tivemos que levar essa obsessão dela pra terapia de casal. O grande infortúnio aqui é que o Mr. Darcy não gosta de pobres, e eu sou o Geraldão do povo. Desculpe, Libelu, esse fetiche eu não vou conseguir realizar.
24 DE OUTUBRO_Ontem o Lula anunciou que vai concorrer ao quarto mandato. Sempre solidário e disruptivo, entrei logo na fila do guichê do setor de comunicação digital, peguei a minha senha e consegui deixar uma ideia arrebatadora: gerar em inteligência artificial a imagem do Lula abraçado com Galvão Bueno e Pelé gritando “É tetraaaa! É tetraaaa!”.
Tocou o telefone vermelho do meu gabinete. Uma voz trêmula do outro lado trazia uma apuração urgente da Abin. O deputado Nikolas Ferreira comentou sobre o peitoral de Jones Manoel. Me deu uma ponta de orgulho. De um jeito ou de outro, o Jones está desconstruindo esse menino. E me peguei pensando no peitoral do César Tralli.
26 DE OUTUBRO_A reunião do Trump com o President’Lula correu bem, mas as tarifas continuam valendo. E por quê? Tá lá na foto – só não viu quem não quis: toda a delegação brasileira de meias escuras. Antes do embarque, eu bem que entreguei um pacotinho de papel de seda pro Mauro Vieira, avisando: “Veste essa meia divertida pra descontrair o ambiente. É batata: a tarifa cai na hora.” Era uma meia cheia de Mickeys, um golpe de boa diplomacia. Ia ser um arraso. Ninguém ouviu o comunista aqui e deu no que deu: mais meses de negociação…
Por Renato Terra