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Danilo Marques Dez 2025 12h45
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Em 2020, quando fazia um mestrado em artes cênicas em Amsterdã, a atriz gaúcha Carolina Bianchi, de 41 anos, ficou obcecada com a morte estúpida da performer italiana Pippa Bacca, que em 2008 deixou Milão com a intenção de viajar de carona pelo Oriente Médio, sempre vestida de noiva. Bacca fazia parte de uma performance coletiva chamada Brides on tour, cuja intenção era provar que mesmo em regiões conflagradas a solidariedade – na forma de uma carona – supera a brutalidade.
Pipa Bacca nunca chegou ao destino da empreitada, Jerusalém. Depois de três semanas de périplo, foi dopada, estuprada e estrangulada no interior da Turquia. Essa história teve profundas ressonâncias pessoais para Bianchi, que a usou como mote para a peça A noiva e o boa noite Cinderela, premiada com o Leão de Prata da Bienal de Dança de Veneza deste ano.
O prêmio de dança se justifica pelos componentes fortemente coreográficos da peça, como ressaltou Wayne McGregor, diretor do departamento de dança da Bienal: “Carolina Bianchi é uma performer, diretora, escritora e criadora de imagens extraordinária, que frequentemente utiliza o corpo como elemento central em seu trabalho, criando experiências altamente pessoais, viscerais e coreográficas que nos tocam e desafiam.”
No palco, falando para o público, Bianchi diz: “Eu sou a autora e diretora dessa peça. Eu não sou a protagonista. A protagonista está morta. E, portanto, meu trabalho aqui consiste em todo tipo de tentativa de ressurreição.”
Bacca não é a única a ser “ressuscitada” pela atriz de 41 anos. O mesmo ocorre com Eliza Samudio, morta em 2010 a mando do goleiro Bruno Fernandes. Quando Samudio é lembrada na peça, são projetadas em cena as pinturas que Botticelli fez inspirado em uma das novelas do Decameron, de Boccaccio, com a história de um cavaleiro fantasma que manda seus mastins atacarem uma jovem, que depois tem seu coração arrancado para alimentar os cães. É o detalhe mais macabro da morte de Samudio: supõe-se que seu cadáver tenha sido esquartejado e que uma de suas mãos foi jogada aos cães do goleiro.
A noiva e o boa noite Cinderela é o primeiro “capítulo” (como Bianchi denomina) de Cadela força, trilogia que a atriz espera concluir no ano que vem. Na peça, em um solilóquio vertiginoso, ela compara a recorrência de feminicídios a uma sequência infinita de capítulos: “Ao longo de quantos capítulos é possível manter-se viva? Um? Três? 146? […] 146 é o número de capítulos que a protagonista de uma novela gravou antes de ser assassinada por seu companheiro a tesouradas.” Neste ponto, a peça “ressuscita” a atriz Daniella Perez, morta em 1992 por Guilherme de Pádua, seu colega de elenco em uma novela da Rede Globo.
Na cena mais perturbadora, Bianchi toma tranquilizantes e fica apagada por meia hora – é uma alusão ao “Boa noite, Cinderela”, golpe em que estupradores e ladrões colocam drogas na bebida de suas vítimas. Foi o que aconteceu com Pippa Bacca e com a própria Carolina Bianchi, que há cerca de dez anos foi dopada por um abusador. “Os meus traumas não acabaram. Tudo continua, você vai continuar lidando com todos os infernos”, ela diz.
Por tudo isso, a crítica de teatro Kate Wyver, do jornal britânico The Guardian, disse que A noiva e o boa noite Cinderela é uma peça que parece “verdadeiramente – e às vezes perigosamente – viva”. Bianchi borra a fronteira entre o que é ou não ensaiado, já que a cada noite o seu corpo pode reagir de maneira diferente ao coquetel de tranquilizantes.
Filha de músicos, Carolina Bianchi vive hoje em Amsterdã. Desde a infância e a adolescência em Porto Alegre esteve envolvida em atividades criativas. “Eu gostava muito de escrever”, diz. “Na escrita, as coisas iam se acumulando numa espécie de vertigem assim alucinatória.”
Com 18 anos, ela se mudou para São Paulo, onde se dividiu entre a Escola de Arte Dramática da USP e vários empregos. Em 2006, fundou com amigos a Cia. dos Outros, que esteve em atividade por dez anos. Um único trabalho do grupo chamou atenção: A pior banda do mundo, peça inspirada na HQ de mesmo nome, do quadrinista José Carlos Fernandes.
Em 2016, Bianchi fundou um novo coletivo, o Cara de Cavalo, com o qual passou a explorar criticamente os cruzamentos entre arte, sexualidade e violência, em peças como Mata-me de prazer e Quiero hacer el amor. Em Lobo, de 2018, a atriz se espelhou em Artemisia Gentileschi, pintora italiana do século XVII que foi estuprada por seu tutor artístico.
Devido à natureza radical de seu trabalho, o coletivo Cara de Cavalo amargou anos difíceis, sem encontrar patrocínio para suas produções. O primeiro capítulo de Cadela força virou tudo do avesso. Desde sua estreia em 2023, no festival internacional de teatro de Avignon, na França, A noiva e o boa noite Cinderela vem impressionando espectadores e entusiasmando a crítica, que já comparou Bianchi a expoentes da performance, como a sérvia Marina Abramović, a cubana Tania Bruguera e a guatemalteca Regina José Galindo.
The brotherhood (A irmandade), o segundo capítulo de Cadela força, estreou em Bruxelas, em maio, e começou em novembro a primeira temporada em Paris, no teatro La Villette. A peça é um comentário sobre a forma como, ao longo da história, os homens se associaram para conservar seu poder opressivo sobre as mulheres. Mas o programa avisa que o espetáculo se afasta de abordagens simplistas e reconhece “a admiração que essa irmandade nos desperta quando relacionada à história da arte”. Deve ser por isso que, antes do início da peça, Bianchi faça este alerta aos espectadores: “Minha perspectiva é a confusão.”