cartas
Dez 2025 13h26
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LUCIDEZ NA FLORESTA
Mais uma edição recheada de excelentes reportagens, como o excelente relato do repórter Breno Pires sobre a venda de sentenças na Justiça (“Verdadeiro comércio”, piauí_230, novembro), que provoca nojo e revolta na população contra esse podre poder, que desmoraliza a democracia, com seus juízes e desembargadores corruptos que proliferam no nosso país de Norte a Sul, aliados a políticos que raramente são punidos – e, quando tal fato raro ocorre, são afastados da ativa e aposentados com polpudos vencimentos.
Porém, na mesma edição, o texto de A floresta e a obra, parte VII da série educativa Geração democracia, do sociólogo José Henrique Bortoluci, é um alento ao transcrever a saga de um jovem brasileiro, Erasmo Alves Theofilo, cadeirante, paraense, natural de Medicilândia, que viveu na zona rural de Anapu, área conflagrada pela bandidagem que impõe o terror naquela região. Não obstante todas as adversidades que enfrentou como camponês e ativista, continua sua luta, agora em melhores condições, pois está incluído no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos do Estado do Pará. Seus relatos são antológicos e lúcidos, principalmente o fecho, que demonstra sua decepção política com o que ocorre no país:
Ser brasileiro hoje é viver num país hipócrita. Saímos de um governo de morte e caímos num governo que prometeu ser esperança, mas que decepciona. O que me resta? Não desistir e tentar não ser hipócrita. Viver de um jeito que respeite quem veio antes – povos originários, quilombolas, camponeses – e que seja uma forma de resistir ao massacre que continua.
DIRCEU LUIZ NATAL_RIO DE JANEIRO/RJ
CHARLATANISMO MEDIEVAL
Em seu artigo na piauí de novembro (Lula contra as direitas), Fernando de Barros e Silva critica Merval Pereira pelo fato de este ter vaticinado o fim do governo Lula, terminando por acusar o articulista de “trabalhar para rico”. Com o devido respeito, Merval nada mais fez senão reverberar o sentimento predominante na inteligência nacional (e captado pelas pesquisas de opinião), que dava como certa a vitória da extrema direita nas eleições de 2026, tendência revertida após o tarifaço de Trump contra o Brasil (resultado que se deve mais à conhecida incompetência do bolsonarismo do que à desconhecida competência do lulismo). Do meu modesto ponto de vista, a opinião de Merval foi razoável e abalizada pelo retrato do momento. Acusá-lo de “trabalhar para rico” é um argumento tão falacioso quanto cheio de vacuidade, pois nada diz ou diz o óbvio: o jornalismo, afinal, é coisa de rico, aqui compreendido como aquela seleta faixa da sociedade capaz de bancar a assinatura de periódicos e, por conseguinte, o salário de seus profissionais. Quanto ao sentido alegórico da expressão “trabalhar para rico”, a narrativa de que a esquerda trabalharia para os pobres nada mais representa senão uma fantasia pueril, um charlatanismo medieval que tem levado seus entusiastas a recorrentes derrotas nas urnas.
PEDRO LEMOS_FLORIANÓPOLIS/SC
NOTA ONTTOLÓGICA DA REDAÇÃO: Mas ao jornalista cabe espelhar ou questionar o retrato do momento?
LITERATURA
A retomada discursiva sobre a opinião da ensaísta, tradutora e professora de letras aposentada da USP, Aurora Fornoni Bernardini (Murro em ponta de faca, piauí_230, novembro, de José Falero), expõe o lado vulgar e frenético das redes sociais, sempre ávidas em julgar, corroborando a sociedade do espetáculo. Quanto à opinião da professora, foi bom para reacender o debate literário, nestes tempos de opiniões acomodadas e uniformes, ainda que seja bom lembrar: é uma opinião subjetiva, ainda mais em se tratando de questões literárias.
ERIVAN AUGUSTO SANTANA_TEIXEIRA DE FREITAS/BA
José Falero, grande escritor, explica tudinho sobre a falsa polêmica e dá uma chacoalhada na preguiça e no conforto fácil de muitos que escrevem livros nestes tempos de ira e tédio. Valeu, como sempre, piauí.
FÁTIMA PONTES_NITERÓI/RJ
NOTA RANCOROSA DA REDAÇÃO: José Falero fez uma importante defesa dos críticos literários. Ótimo. Mas ainda está para nascer, no Brasil, quem dê a cara a tapa para defender os respondedores de carta.
ESQUIZOFRENIA
Após a leitura, entusiasmado, do artigo abaixo, resolvi fazer uma divulgação entre amigos e colegas. Inicialmente fiz uma “leitura dita dinâmica” e depois reli o artigo pontualmente. Achei por bem encaminhar a esta Redação:
O título do artigo Ela tinha esquizofrenia (piauí_230, novembro) chama atenção, visto que quem tem o diagnóstico de esquizofrenia nunca deixa de tê-la: não há cura.
Na minha clínica, atendo neuróticos e psicóticos (estes com pouca demanda). Quando atendo a estes últimos, o faço sempre em parceria com um psiquiatra. O artigo me foi muito revelador, pois não tenho acompanhado pacientes com sintomatologia psicótica, nem tampouco me atualizado em “psiquiatria moderna”. Eu desconhecia o termo “psicose autoimune – uma forma mais branda ou incompleta de encefalite que se manifesta apenas por sintomas psiquiátricos”.
O artigo faz menção, também, a uma publicação de 2015 (Editora Belas Artes), chamada Insana: meu mês de loucura, uma autobiografia da jornalista Susannah Cahalan, “a 217ª paciente no mundo a ser diagnosticada com encefalite antirreceptor NMDA”; “uma proteína no cérebro que afeta o humor e a memória – como um corpo estranho, e então produzia anticorpos para atacá-lo”.
Uma boa sugestão, a leitura, tanto para leigos – já que traz um histórico da psiquiatria, seus principais autores e sua evolução para os dias atuais – bem como para profissionais da área de saúde.
ADELSON ROBERTO ARAÚJO, PSICÓLOGO E PSICANALISTA_SÃO PAULO/SP
MITO-BRASIL
Nesta semana terrível, tentando entender a tragédia chamada “Brasil” e suas chacinas, acabei voltando a dois textos antigos, salvos ainda nos tempos da faculdade – um do Nuno Ramos (Frankfurt, Salvador, piauí_108, setembro de 2015) e outro do Paulo da Costa e Silva (O desaparecimento do Brasil, publicado no site da piauí em setembro de 2015).
O que me chamou atenção é como ambos, ainda em 2015, já intuíram o colapso do “mito-Brasil”: essa ideia solar e conciliatória de um país alegre, mestiço e cordial, que serviria de disfarce para a máquina colonial continuar operando. Hoje, o que vemos é justamente esse mito se esfarelando – e, junto com ele, a tentativa de sustentar qualquer imagem de nação como harmonia possível.
O futuro que esses textos anteviam se realizou com uma clareza perturbadora. Revistas mensais e blogs (muita saudade do blog do Paulo, não há publicações desse nível na internet) acabam esquecidos no tempo, mas certos encontros – como esses textos – voltam e iluminam o presente com uma precisão incômoda.
RAUL DUARTE_SÃO BERNARDO DO CAMPO/SP.
NOTA PROFÉTICA DA REDAÇÃO: A piauí é o Domingo Legal da intelectualidade brasileira. Paulo da Costa e Silva e Nuno Ramos são nossas mães Dináh.