t.a.c.o. & tax
Ana Clara Costa, de Washington Dez 2025 15h00
54 min de leitura
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As negociações caminhavam com uma certa cordialidade. Afinal, Brasil e Estados Unidos mantêm relações amistosas há dois séculos. Em fevereiro, o presidente Donald Trump decretara tarifas de 25% sobre o aço e o alumínio importados de todos os países, inclusive o Brasil. Em seguida, taxou em 18% o etanol brasileiro. Em março, os governos brasileiro e americano começaram a conversar em um clima de tranquilidade, mas surgiu ali uma primeira estranheza: os Estados Unidos pediram que o Brasil simplesmente parasse de vender à China, com a qual travavam uma guerra tarifária. A resposta, claro, foi negativa, e as coisas seguiram. Em abril, Trump voltou à ofensiva e anunciou uma tarifa global mínima de 10% sobre todas as suas importações – as brasileiras incluídas. Ainda não havia motivos para maiores inquietações em Brasília. Afinal, ao lado do Reino Unido e da Austrália, o Brasil era um dos poucos países com os quais os Estados Unidos tinham superávit comercial. Em maio, depois de dez reuniões bilaterais, o Brasil fez uma proposta formal. Pediu o fim da tarifa de 10% e a revisão das alíquotas sobre o aço e o alumínio, e fez concessões sobre as barreiras à entrada de etanol americano no mercado local.
E então veio o silêncio.
Como o governo americano não dava nenhuma resposta oficial, começou a se espalhar certa apreensão. Algo estava acontecendo. “Esse silêncio já devia ser uma orientação da Casa Branca para interromper o diálogo”, diz um diplomata que estava envolvido nas negociações. “Na avaliação deles, devia haver uma questão política mais importante em jogo.” Havia mesmo. Hoje se sabe que, naquela altura, o lobby do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e seu parceiro, o empresário e influenciador Paulo Figueiredo, operava a todo vapor em Washington para envenenar as relações com o Brasil, na tentativa de salvar a pele do ex-presidente Jair Bolsonaro. A estratégia da dupla estava surtindo seus primeiros efeitos. E o silêncio continuou.
No início de julho, ainda sem resposta americana, a cúpula do Brics – o bloco inicialmente formado pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – transcorria sob uma calmaria contida no Rio de Janeiro. O comunicado final, redigido em termos deliberadamente acanhados, não gerou grandes embates. Na tarde de sábado, dia 5, em uma das salas do hotel Fairmont, em Copacabana – onde a delegação brasileira se hospedava –, um interlocutor do governo me disse que a baixa temperatura das discussões era intencional. O Palácio do Planalto não queria abrir flancos que pudessem gerar atritos com os Estados Unidos, sobretudo porque Trump se tornara um crítico feroz do bloco.
As energias estavam voltadas para garantir ampla participação internacional na conferência do clima que se realizaria em Belém, a COP30. Um ambiente belicoso no Brics poderia afastar convidados. Assim como a presidente do México, Claudia Sheinbaum, se ausentara do encontro no Rio para não enfurecer Trump, outras nações poderiam seguir o mesmo caminho em Belém. “Toda a preparação do Brics foi feita pensando em tirar de Trump qualquer argumento contra o Brics e contra o Brasil”, me disse outro interlocutor. “Fizemos uma agenda light, sobre inteligência artificial, saúde, meio ambiente. Parecia o Fórum de Davos. Fizemos até a defesa do livre-comércio!”, ironizou a fonte.
A despeito dos esforços, Trump publicou uma ameaça em sua rede Truth Social no dia seguinte. Anunciou que imporia uma tarifa adicional de 10% a qualquer país que se alinhasse “às políticas antiamericanas do Brics”. A declaração esquentou o noticiário de um evento até então morno, sobretudo em razão da ausência do presidente chinês Xi Jinping. Ainda assim, e apesar do silêncio americano sobre sua proposta, o Brasil não acreditava num ataque tarifário. Na manhã seguinte, 7 de julho, o assunto escalou: Trump voltou à carga – desta vez mirando o Brasil – e afirmou que estava acompanhando de perto a “CAÇA ÀS BRUXAS” contra Bolsonaro. À tarde, no encerramento da cúpula do Brics, Lula criticou as postagens numa entrevista coletiva. “Não acho uma coisa muito responsável e séria um presidente da república de um país do tamanho dos Estados Unidos ficar ameaçando o mundo através da internet. Não é correto, sabe? Ele precisa saber que o mundo mudou. Nós não queremos imperador. Nós somos países soberanos.” O tarifaço chegou dois dias depois.
A piauí acompanhou de perto a crise sem precedentes na história das relações entre Brasil e Estados Unidos. Antes, no período pré-golpe de 1964, os americanos interferiram na política brasileira para prestigiar os golpistas, mas as maquinações se deram quase sempre nas sombras. Em 1977, ocorreu uma crise similar à de hoje, mas estávamos em polos opostos. Naquela época, a democracia americana acusou a ditadura brasileira de violar os direitos humanos, o que provocou uma reação enérgica dos generais que comandavam o Brasil. Agora, pela primeira vez na história, os Estados Unidos – agindo quase sempre à luz do Sol – maquinaram contra um governo legitimamente eleito e uma democracia soberana.
Entre Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Nova York e Washington, a piauí reconstituiu a escalada de tensão, os encontros secretos, as reações indignadas, as falhas e acertos, os momentos de nervosismo e as pressões que, de todos os lados, mobilizaram o governo, a Justiça e o setor privado em torno de uma saída. O tarifaço nasceu, cresceu e feneceu, mas deixou lições sobre o modo de atuação do governo de Donald Trump e a disposição ilimitada da família Bolsonaro em sacrificar o país em nome de seus próprios interesses.
No dia 9 de julho, a embaixada brasileira em Washington estava meio esvaziada. Com as férias escolares, parte do corpo diplomático se ausentara, e a embaixadora Maria Luiza Viotti visitava seu primeiro neto que havia acabado de nascer na Califórnia. Em Brasília, mal passava das cinco da tarde quando, no terceiro andar do Palácio do Planalto, o assessor especial e ex-chanceler Celso Amorim foi informado sobre uma carta pública que Trump acabara de postar em sua rede, a Truth Social, decretando tarifa de 40% sobre todos os produtos brasileiros vendidos aos Estados Unidos. Somados aos 10% que já vigoravam desde abril, o Brasil passaria a enfrentar taxa de 50% sobre suas exportações – um míssil contra o comércio brasileiro.
Celso Amorim traduziu a carta às pressas e seguiu para o gabinete presidencial, a poucos passos dali, acompanhado do assessor adjunto, o embaixador Audo Faleiro. Quando entraram, os presentes – o ministro Fernando Haddad, o chanceler Mauro Vieira, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o advogado-geral da União, Jorge Messias, além de ministros palacianos – já sabiam do tarifaço. A motivação da carta deixara a turma atônita. Trump dizia que o tratamento dado a Bolsonaro, um “líder altamente respeitado”, era uma “vergonha internacional” e que o ex-presidente era vítima de uma “caça às bruxas” que devia “acabar IMEDIATAMENTE”. E afirmava que as tarifas eram um modo de tentar corrigir “esses déficits comerciais insustentáveis contra os Estados Unidos”, a despeito do fato público de que seu país acumula superávit de 90 bilhões de dólares nos últimos dezesseis anos de comércio com o Brasil.
Algumas decisões foram tomadas no gabinete presidencial naquela tarde, num jogo clássico da diplomacia. A primeira foi confirmar a veracidade da carta postada na rede social. Convocou-se então o embaixador americano interino em Brasília, Gabriel Escobar, que atestou de imediato a procedência. O segundo passo foi “devolver a carta”, um gesto simbólico que consistiu em recusar oficialmente seu recebimento. Em seguida, definiu-se que Lula se manifestaria ainda naquele dia, de modo que uma eventual demora não fosse percebida como medo ou indecisão. Em parte, a liturgia diplomática era teatro. O governo sabia que a carta postada nas redes sociais era verdadeira, mas queria seguir os ritos apropriados, para demonstrar superioridade institucional.
Até certo ponto. Como a carta não fora enviada diretamente ao governo, a resposta também saiu por meio das redes sociais, redigida por Faleiro e Laércio Portela, secretário de Imprensa. Nela, Lula disse que o Brasil era “um país soberano com instituições independentes” e que não aceitaria “ser tutelado por ninguém”. Bolsonaro, que àquela altura ainda estava livre para postar, escreveu à noite: “Quando os justos governam, o povo se alegra. Mas quando os perversos estão no poder, o povo geme”, citando Provérbios 29:2.
A outra decisão imediata foi a escalação da equipe. Alckmin seguiria à frente do diálogo com o Departamento de Comércio americano e com o setor privado brasileiro, enquanto Mauro Vieira se encarregaria dos contatos com o Departamento de Estado e a Casa Branca. Lula, por sua vez, assumiria o discurso perante o público, a imprensa internacional e, mais tarde, com os líderes de outros países também atingidos pela razia tarifária de Trump. Ocorre que os canais oficiais estavam obstruídos. O chefe do comércio não estava autorizado a avançar em qualquer negociação tarifária com o Brasil. E o chefe da diplomacia não estava interessado em fazê-lo. O Departamento de Estado, liderado por Marco Rubio, é povoado por elementos do mundo Maga, a sigla do nacional-trumpismo, e apostava no acirramento do conflito.
Em 14 de julho, cinco dias depois da carta-tarifa, um auxiliar de Rubio retomou o tema em uma conta oficial do órgão numa rede social: “Trump enviou uma carta impondo consequências há muito esperadas ao Supremo Tribunal de Moraes e ao governo Lula, em resposta aos ataques a Jair Bolsonaro, à liberdade de expressão e ao comércio dos Estados Unidos. Esses ataques são vergonhosos e desrespeitam as tradições democráticas do Brasil”, escreveu.
Na noite do dia 17, Trump publicou outra carta, desta vez endereçada a Bolsonaro e com uma ordem explícita: “Este julgamento deve terminar imediatamente!” Horas depois, Bolsonaro respondeu, também via redes sociais, dizendo que estava sendo julgado por um “crime inexistente”. Na manhã seguinte, ao ser alvo de uma nova operação de busca e apreensão, Bolsonaro passou a usar tornozeleira eletrônica e foi proibido de falar com o filho, usar as redes sociais e sair de casa durante a noite e nos fins de semana. Alexandre de Moraes fundamentou as medidas com base na necessidade de conter a incitação a intervenções externas no STF e no processo eleitoral.
Um diplomata brasileiro que estava em Washington naqueles dias contou que a decisão sobre o uso da tornozeleira acirrou os ânimos na Casa Branca de tal modo que a situação ficou “quase fora de controle”. Em retaliação, no mesmo dia, o Departamento de Estado anunciou o cancelamento dos vistos americanos do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e de todos os ministros do STF, à exceção dos publicamente simpáticos ao bolsonarismo: André Mendonça, Kassio Nunes Marques e Luiz Fux. Entre os cenários drásticos projetados pelo governo brasileiro naquele momento havia a hipótese de a embaixadora Maria Luiza Viotti ser declarada persona non grata nos Estados Unidos ou até mesmo o rompimento das relações diplomáticas.
Não era um exagero. Havia um precedente para motivar esse receio. Em março, durante um evento, o embaixador da África do Sul, Ebrahim Rasool, acusara Trump de mobilizar o “supremacismo” e “projetar a vitimização branca”. Pouco antes, o americano se insurgira contra uma nova lei sul-africana que permitia expropriar terras ociosas – o que afetaria os brancos, que compõem apenas 7% da população sul-africana, mas, em decorrência de quase meio século de apartheid, detêm dois terços das terras cultiváveis. Trump também estava irritado com a decisão da África do Sul de denunciar Israel ao Tribunal Penal Internacional, em Haia, pelo genocídio em Gaza – acusação que o Brasil apoiou. Declarado persona non grata, Rasool teve que deixar Washington em 72 horas. Como as razões que moviam Trump contra o Brasil eram tão aleatórias quanto as que colocaram a África do Sul na mira, o Itamaraty entendeu que seria prudente que a embaixada agisse com discrição máxima para não alimentar ainda mais o atrito.
No fim de julho, o chanceler Mauro Vieira continuava tentando abrir um canal com Marco Rubio. Os dois se conheciam desde a década de 2010, quando Vieira fora embaixador em Washington e Rubio era senador pela Flórida. Mas a situação só se deteriorava. No dia 24, um assessor de Rubio fez novo disparo em uma rede social contra Alexandre de Moraes, apontando-o como o “coração pulsante do complexo de perseguição e censura contra Jair Bolsonaro”. Dois dias depois, uma reportagem da Bloomberg indicava que a Casa Branca, além das tarifas, buscava instrumentos jurídicos para pressionar o Brasil – como enquadrar o país em normas de segurança nacional.
Aproveitando uma viagem a Nova York para participar de uma reunião da ONU sobre Gaza, Vieira mandou dizer ao Departamento de Estado que poderia ir à capital americana para um encontro com Rubio. Um assessor, encarregado de contatos com a Casa Branca, advertiu o chanceler de que as chances eram remotas. De fato, nada aconteceu. No dia 29, encerrado o encontro na ONU, Vieira estava a caminho do Aeroporto John F. Kennedy para pegar o voo das 18h30 de volta ao Brasil. De repente, recebeu um recado: as chances de falar com Rubio haviam aumentado. Mesmo diante da incerteza do encontro, Vieira resolveu arriscar. Abandonou o caminho para o JFK, correu para a estação no Centro de Manhattan e, por sorte, o trem para Washington estava duas horas atrasado – e, assim, conseguiu embarcar.
Tudo correu sob sigilo absoluto. Os americanos pediram discrição e informaram que a conversa não seria nem no Departamento de Estado, nem na Casa Branca, onde Rubio despacha com frequência desde que passou a acumular a função de chefe da diplomacia com a de conselheiro de segurança nacional. Os brasileiros, por seu turno, também queriam evitar o risco de que um vazamento pudesse mobilizar uma ofensiva contrária de Eduardo Bolsonaro. A reserva era tamanha que Vieira ficou escondido na embaixada brasileira em Washington. Uma comitiva de senadores brasileiros, que fora aos Estados Unidos tentar em vão abrir uma negociação, deu uma entrevista coletiva no prédio sem imaginar que o chanceler estava na sala ao lado, discretamente.
Depois de 21 dias sem qualquer diálogo, Rubio e Vieira finalmente se encontraram no dia 30. A conversa aconteceu no décimo andar do escritório de advocacia King & Spalding, que atende a Embraer, a fabricante brasileira de aeronaves, que com seus bons contatos na Flórida, base eleitoral de Rubio, ajudou a desbloquear o diálogo. Localizado num edifício da Avenida Pensilvânia com a Rua 17, a poucos passos da Casa Branca, o escritório abriga, no topo, uma sala de reuniões envidraçada, com vista panorâmica da cidade e da sede do governo. O encontro transcorreu em tom cordial. Vieira reiterou que não havia possibilidade de interferência política no trabalho do STF, que atuava de forma técnica e independente. Em contrapartida, Vieira se ofereceu para negociar eventuais impasses tarifários. Rubio ouviu com serenidade, mas não deu nenhum sinal de que haveria alguma mudança de rumo.
De fato, não houve. Até a ocorrência do encontro gerou atrito. Como a presença de Vieira em Washington acabou sendo descoberta pela imprensa, o chanceler decidiu se pronunciar publicamente na embaixada, mas o Departamento de Estado, valendo-se da ausência de registro fotográfico, ameaçou negar a reunião. Como a negativa deixaria o chanceler em maus lençóis, os diplomatas brasileiros insinuaram que tinham meios de apresentar provas do encontro. Era um blefe, mas funcionou. Em seguida, Vieira confirmou o encontro aos jornalistas e disse que o Brasil estava enfrentando uma “inaceitável e descabida ingerência na soberania nacional”.
O duelo sobre a divulgação do encontro foi antecedido por uma deterioração ainda mais expressiva da crise. Naquele mesmo dia, pouco antes da reunião Vieira-Rubio, a Casa Branca havia publicado a ordem executiva que colocava as tarifas em vigor e trazia uma novidade: a inclusão do ministro Alexandre de Moraes na Lei Magnitsky, criada para sancionar terroristas e violadores de direitos fundamentais – coisa que nunca acontecera antes contra um magistrado de um regime democrático. Para completar, Rubio postou uma ameaça no X: “Que esse seja um aviso para aqueles que atropelam os direitos fundamentais de seus compatriotas – as togas judiciais não podem protegê-los.”
Embora ciente da crescente animosidade, o Itamaraty considerou que a missão de Vieira fora um êxito. A barreira imposta pela família Bolsonaro contra o diálogo havia sido rompida e, depois de três semanas de impasse, Brasília voltara a falar – ainda que com cautela – com Washington. “Diplomacia não se faz pela imprensa”, disse um embaixador que participou da operação sigilosa do encontro e pediu anonimato por tratar-se de assunto confidencial. “É como pôquer: se você abre o jogo, engessa suas posições. Passa a ser cobrado pelo que propõe. A boa diplomacia se faz com discrição.” Mas logo deflagrou-se uma pergunta central: o que fazer?
No dia seguinte, 31 de julho, houve um jantar no Palácio da Alvorada. Estavam à mesa cinco ministros do STF, além do próprio Moraes: Gilmar Mendes, Cristiano Zanin, Flávio Dino, Edson Fachin e Luís Roberto Barroso, então presidente da Corte. Também estavam o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, o advogado-geral da União, Jorge Messias, e o procurador-geral Paulo Gonet. Surgiu a ideia de que o governo acionasse a Justiça americana para tentar derrubar a inclusão de Moraes na Magnitsky, mas o ministro descartou a proposta de imediato. Disse que contestar a sanção nos tribunais americanos equivalia a legitimar a perseguição promovida pela Casa Branca. Pediu apenas que o governo fizesse sua “defesa política”. Barroso avaliou que a linguagem mais inteligível para a Casa Branca de Trump era o lobby de empresas privadas, sobretudo num momento em que a diplomacia seguia com canais parcialmente obstruídos. Lula discordou. Preferia manter o enfrentamento no terreno diplomático. Em outras esferas de poder, o clima era igualmente dramático.
No dia 5 de agosto, o ex-deputado Rodrigo Maia, então presidente da Confederação Nacional das Instituições Financeiras (FIN), entidade que faz o lobby dos bancos, ofereceu um almoço em sua casa, em Brasília. Como a Magnitsky exige que os sancionados sejam impedidos de manter qualquer relação comercial ou contratual com empresas e cidadãos americanos, o simples fato de que o sistema financeiro global é profundamente interconectado colocou imediatamente as operações dos bancos brasileiros sob a mira dos Estados Unidos – o que poderia gerar uma crise de confiança de efeitos imprevisíveis. Maia convidou representantes de instituições bancárias, os ministros Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, além do procurador Paulo Gonet e do advogado-geral Jorge Messias.
A ideia era simples, ao menos em teoria: alinhar um plano de ação conjunta. Mas logo ficou evidente que os interesses das três partes – STF, governo e bancos – não coincidiam inteiramente. Embora preocupado com o ataque ao Supremo, o governo também sabia que uma turbulência bancária era um risco nacional. O STF, por sua vez, queria que a Lei Magnitsky, aplicada contra um de seus membros, fosse repelida com firmeza e rapidez, enquanto os bancos estavam empenhados em se blindar de uma crise potencialmente catastrófica.
Por sugestão de Maia, a FIN decidiu contratar três escritórios de lobby para defender seus interesses – uma consultoria no Brasil, a Barral M Jorge, e duas firmas nos Estados Unidos, o Holland & Knight, que faz advocacia e lobby, e o Arnold & Porter, que atua apenas no campo jurídico. Os três deveriam trabalhar em nome dos bancos, mas sem negligenciar os ministros do STF – o que, de novo, logo se revelou inviável. Para as instituições financeiras, o importante era se livrar do problema – ou seja, fechar as contas de Moraes e de qualquer outro nome que viesse a ser alcançado pelas sanções.
Visa e Mastercard, empresas americanas, estavam especialmente preocupadas. Nos Estados Unidos, onde ficam suas matrizes, a pena para o descumprimento da Magnitsky pode chegar a 30 anos de prisão. Por isso, elas rapidamente pediram aos bancos que cancelassem os cartões vinculados às contas de Moraes, num voluntarismo que agradou às instituições financeiras, que não desejavam virar portadoras das más notícias para o STF. O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, temendo que uma ofensiva contra os bancos abalasse a solidez da autoridade monetária, chegou a procurar ministros do STF, especialmente Gilmar Mendes e Alexandre Moraes. Explicou que, embora os bancos respondessem apenas à lei brasileira, uma ruptura nas operações de câmbio com os Estados Unidos seria fatal. Nenhum banco brasileiro, disse, sobreviveria a isso. Ele sugeriu ainda que os magistrados abrissem contas em cooperativas de crédito, menos vulneráveis às operações internacionais – uma proposta que os ministros receberam com indignação.
Até o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, que no início defendera que o Brasil não se curvasse a sanções ilegais, baixou o tom ao ser alertado que a ruptura do câmbio atingiria de frente a área de financiamento à exportação do próprio BNDES. “A Magnitsky não é sobre o ordenamento jurídico do Brasil. É sobre o ordenamento jurídico internacional. Os Estados Unidos têm esse poder, infelizmente. Eles controlam as operações em dólar”, afirmou um dos executivos de uma bandeira de cartões, que pediu para não ter seu nome divulgado por não ter licença para falar do assunto em público.
Moraes recebeu mal o aviso do cancelamento dos cartões. Nos bastidores da Corte, os ministros se sentiam sem respaldo. Em conversa reservada com um deles, ouvi que, naquela altura, estava claro que “o Supremo teria de se resolver sozinho para evitar uma violência”. Aos empresários, políticos e banqueiros que passaram pela Corte naqueles dias, a mensagem era direta: se um país estrangeiro pudesse interferir na vida de um juiz brasileiro, a soberania estaria comprometida em todos os níveis – inclusive o econômico. “Quero ver vocês ganharem dinheiro num país avacalhado”, alfinetou um dos magistrados a um visitante.
As críticas dos ministros não se estendiam a Lula, nem a Alckmin. A Corte reconhecia o empenho de ambos: o presidente divulgara notas duras quando os vistos dos ministros foram revogados e quando Moraes foi enquadrado na Magnitsky. Alckmin chegou a ir ao STF prestar solidariedade. “Mas, embaixo, o Banco do Brasil e o Banco Central estavam discutindo a normalização de tudo isso, contabilizando as perdas”, contou um magistrado. “Todos davam como premissa que os ministros ficariam sem conta bancária. Todos normalizando uma violência que nunca aconteceu no mundo”, disse ele, referindo-se ao fato de a sanção ter sido aplicada contra um indivíduo que não cometera crime algum, coisa inédita nos treze anos de existência da Lei Magnitsky.
A solução do STF começou a se desenhar no início de agosto, logo depois do anúncio da sanção. No intervalo de uma sessão, em conversa com colegas, Flávio Dino lembrou que estava sob sua relatoria uma ação sobre os limites da extraterritorialidade – ou seja: até que ponto um país pode fazer valer suas leis fora de suas fronteiras. O caso se referia a uma ação que os municípios mineiros afetados pelo desastre de Mariana propuseram na Justiça britânica, contra a inglesa BHP, sócia da Vale. Dino já havia se manifestado no caso, ao afirmar que uma decisão da Justiça britânica só podia ser aplicada no Brasil com autorização da Justiça brasileira. A ação estava adormecida, mas pelo menos sete ministros concordaram que Dino deveria retomá-la, agora que eles próprios estavam ameaçados por uma lei estrangeira. A repercussão era indireta, mas óbvia: os magistrados do STF também não estariam sujeitos a uma lei americana.
A decisão saiu às 11h57 de 18 de agosto. Dino não mencionou Moraes, nem Magnitsky, nem Estados Unidos, mas o endereço estava claro. Ele afirmou que a imposição de leis estrangeiras dentro do país constituía “ofensa à soberania nacional, à ordem pública e aos bons costumes, presumindo-se, portanto, a ineficácia de leis, atos e sentenças emanadas de país estrangeiro”. Em outro trecho, ainda listou os atos sujeitos à autorização prévia da Justiça brasileira – “transações, operações, cancelamentos de contratos, bloqueios de ativos e transferências para o exterior determinadas por Estado estrangeiro”. Eram todos pontos que tocavam diretamente na aplicação da Magnitsky. Mas o mercado financeiro só entendeu o alcance da decisão de Dino no dia seguinte – e a Bolsa de Valores desabou, o dólar disparou, o valor de mercado dos bancos recuou 46 bilhões de reais, com destaque para o Itaú, que perdeu 14 bilhões.
Os investidores temiam que a decisão levasse Washington a retaliar as instituições financeiras brasileiras, que estavam agora judicialmente autorizadas a ignorar as punições da Magnitsky e manter em funcionamento as contas dos magistrados. A queda nas ações, que materializava essa desconfiança, acendeu o alerta vermelho no setor. O choque se agravou quando, no mesmo dia do pânico na Bolsa, um relatório do BTG Pactual, revelado pela colunista Malu Gaspar, em O Globo, recomendava que as contas dos ministros do STF fossem encerradas unilateralmente de forma preventiva para evitar exposição dos bancos – mesmo que Moraes fosse o único sancionado até então. Mais uma vez, os magistrados ficaram indignados – por razões pessoais e pela subserviência a uma agressão estrangeira.
No mesmo dia da queda acionária, caso restasse alguma dúvida, Dino foi mais explícito. Emitiu outro despacho afirmando que sua decisão só confirmava os termos da Constituição e esclareceu que não se aplicava às cortes internacionais, como o Tribunal Penal Internacional, mas apenas a medidas unilaterais de países estrangeiros. A presidente do Banco do Brasil, Tarciana Medeiros, tentou mostrar anuência à decisão do STF sem provocar o governo americano ao dizer que o banco seguia a legislação brasileira e também “a dos vinte países em que atua”. O BB opera nos Estados Unidos, onde é dono do BB Americas Bank. A ambiguidade da frase agravou a instabilidade e Tarciana Medeiros não voltou a tocar no assunto.
Com o agravamento do quadro, o ex-deputado Rodrigo Maia voltou à ação. Procurou Gilmar Mendes, que também estava apreensivo com a dimensão que a crise poderia assumir. Aos colegas mais temerosos, Dino dizia que o movimento era especulativo, que o mercado logo se ajustaria e o Departamento do Tesouro não tinha condições operacionais de interferir diretamente num banco brasileiro. Era verdade, até os bancos concordavam com isso, mas eles também sabiam que o temor de sanções tinha efeito radioativo sobre as expectativas que regem as transações na Bolsa. Afinal, no mercado muitas vezes parecer sólido importa mais do que ser sólido.
Nos bastidores, havia pressão e desorientação. Enquanto a FIN se encarregava das articulações políticas, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) lidava com os aspectos técnicos. Em situações ordinárias de sanção – pela Magnitsky ou qualquer outro meio –, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (Ofac, na sigla em inglês), do Departamento do Tesouro, trabalha com dois objetivos claros. Primeiro, promover a “morte fiscal” do sancionado, ao congelar todos os seus ativos sob jurisdição americana e isolá-lo do sistema financeiro internacional. Segundo, garantir que empresas de outros países não criem brechas por meio das quais pessoas físicas e jurídicas dos Estados Unidos acabem, inadvertidamente, mantendo relações com o sancionado.
Em condições normais, não é uma situação tão complexa. Afinal, o respeito às determinações da Ofac é uma cláusula banal de contratos entre instituições financeiras do mundo todo, da Europa à China. No entanto, a alta voltagem política da crise, associada à imprecisão de certos trechos da legislação americana, assustou os bancos brasileiros, que passaram a temer que qualquer filigrana jurídica abrisse espaço para os americanos romperem seus contratos de crédito com as instituições nacionais – o que, basicamente, significaria a falência do sistema financeiro no Brasil. Neste ambiente, a depender do grau de escalada das tensões, os limites da catástrofe eram insondáveis. O caso do BB, uma instituição estatal vinculada a um governo sob ataque direto da Casa Branca, era especialmente sensível porque o BB Americas Bank estava sujeito a congelamento de ativos, multas e até intervenção regulatória.
Em setembro, a situação tornou-se ainda mais delicada. No dia 1º, a CNN Brasil informou que os Estados Unidos cogitavam aplicar sanções específicas ao Banco do Brasil, depois de vir à tona que, ao contrário de Visa e Mastercard, o banco mantinha ativo um cartão Elo em nome de Moraes – a bandeira é brasileira, criada por uma sociedade entre BB, Bradesco e Caixa, mas que inevitavelmente trafega por sistemas internacionais. No dia 3, a Folha de S.Paulo noticiou que os bancos brasileiros haviam recebido ofício da Ofac perguntando sobre as ações que estavam sendo tomadas para cumprir a Magnitsky. E, no dia seguinte, a Bloomberg revelou que o BB procurara ajuda jurídica nos Estados Unidos e até cogitara redirecionar suas operações em dólar no país para outras praças.
A piauí apurou que o Departamento de Estado, de fato, solicitou à Ofac que sancionasse o Banco do Brasil. Ao receber o pedido, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, barrou na hora. Bessent, um trumpista racional, temia que a medida tivesse um impacto sistêmico nos mercados emergentes, dado o seu ineditismo. Um técnico do Tesouro americano fez uma analogia para demonstrar a fragilidade do sistema: “O mercado financeiro é como uma creche cheia de crianças de 5 anos sem vacina. Se uma fica doente, todas ficam doentes.” O analista Thiago de Aragão, da Arko Advice, que atua em Washington e cuja clientela inclui empresas atingidas pelas tarifas, explicou o que estava em jogo: “A confiança num banco é baseada, entre outras coisas, na sua capacidade de controlar, precificar e transferir riscos. Se a Magnitsky vira uma ameaça real para bancos de países que discordam dos Estados Unidos, cria-se uma nova categoria de risco – e a precificação disso é muito elevada.”
No dia 11 de setembro, quando Bolsonaro foi condenado a 27 anos de prisão, a expectativa era de que a crise entraria em nova escalada. Em uma rede social, Marco Rubio disse que os Estados Unidos responderiam “de forma adequada a essa caça às bruxas”. Chegara a hora de acionar todos os instrumentos de influência. Um deles era Stephanie Connor, uma ex-servidora da Ofac que trabalha no Holland & Knight, o escritório de lobby contratado por Rodrigo Maia. Outro era Gregory Harrington, sócio do Arnold & Porter, que, além de atuar pelos bancos, por anos prestou serviços jurídicos para três órgãos brasileiros – a Advocacia-Geral da União, o Ministério da Fazenda e o Banco Central. Harrington é vizinho em Washington do subsecretário Christopher Landau, braço direito de Marco Rubio.
Harrington, bem como outros interlocutores, tentou explicar ao vizinho que, se o Tesouro americano ampliasse a lista das vítimas da Magnitsky, Bolsonaro corria o risco de ser transferido da prisão domiciliar para o presídio da Papuda, e a situação penal de Eduardo Bolsonaro se agravaria. A resposta veio curta: Trump doesn’t give a shit about Bolsonaro. A informação de que Trump não estava nem aí para o ex-presidente brasileiro foi acompanhada de uma explicação estratégica: o problema não era Bolsonaro, era o precedente. A condenação de Bolsonaro enviava ao mundo a mensagem de que líderes autocratas da direita que adotassem métodos golpistas podiam ser punidos – e isso enfraquecia a aliança internacional que Trump e o movimento Maga tentam construir.
Os interlocutores insistiam: os Estados Unidos podiam recorrer à cassação de vistos, por exemplo, mas não à Magnitsky, que fragilizava os bancos e os próprios americanos que investiam em ativos brasileiros. Também diziam que, se a lista de sancionados aumentasse, o Brasil seria forçado a retaliar com medidas comerciais mais duras, o que prejudicaria os exportadores americanos. O setor financeiro, cada vez mais alarmado, repassava suas apreensões a ministros do STF, sobretudo Gilmar, Barroso e Fachin, que assumiria o comando da Corte em outubro. Uma das novas preocupações era que a Amazon interrompesse o serviço de nuvem do qual todo o sistema bancário dependia – mesmo que a interrupção representasse perdas bilionárias à empresa de Jeff Bezos. O clima era frenético. A cada minuto, surgia um boato, uma ameaça velada, uma especulação sobre novas punições.
Para fortalecer a sustentação jurídica à decisão de Dino, ministros do STF e membros do governo passaram a dar mais atenção à hipótese de uma lei antissanções. A ideia, revelada ainda em agosto pela coluna Brasília em off, de Martha Beck, na Bloomberg, era inspirada no Estatuto de Bloqueio, da União Europeia, que impede empresas e cidadãos de acatar sanções impostas por países de fora do bloco. Semanas depois, Gilmar Mendes passou a defender publicamente o tema exasperando o setor financeiro, que queria uma saída rápida e discreta, sem embates legislativos. Além disso, o Congresso não aparentava entusiasmo em votar a proposta em regime de urgência porque a via como instrumento de proteção dos ministros do stf – anátema para a direita bolsonarista. Mas, se a situação era delicada para os bancos, não era melhor para as demais empresas brasileiras.
O ministro Fernando Haddad tinha uma reunião virtual com Scott Bessent, secretário do Tesouro, marcada para 13 de agosto. Pouco antes, Bessent cancelou o encontro e, em lugar do ministro, recebeu Eduardo Bolsonaro, com direito a foto para as redes sociais. Era um recado explícito do governo americano sobre o lado que queria prestigiar. O Ministério da Fazenda alertou então o empresariado nacional, que vinha reclamando da inação do governo, para que se movimentasse por conta própria. “A Fazenda vinha construindo uma relação com o Tesouro desde o começo do ano. O Eduardo quebrou essa dinâmica. Mas também mostrou para os empresários brasileiros quem estava ao lado deles e quem estava contra”, disse Mathias Alencastro, assessor especial de Haddad, ao relatar as conversas daquele período.
Sob comando do vice Geraldo Alckmin, o Ministério do Desenvolvimento e da Indústria, que concentrava a maior parte das conversas com o setor privado, foi na mesma linha. “Eles veem que a gente manda cartas, e às vezes não respondem. Marcamos reunião e a reunião não acontece. Quando acontece, é um pouco genérica, sem muitos efeitos… A gente viu que a coisa seria mais complexa”, conta Pedro Guerra, chefe de gabinete de Alckmin. “Mas o governo não ficou parado e estruturou algo para ajudar alguns setores”, diz Guerra, referindo-se ao Plano Brasil Soberano, que abriu linhas emergenciais de crédito e benefícios tributários às empresas afetadas, embora até hoje apenas 9 dos 30 bilhões oferecidos tenham sido contratados.
Os grupos que entraram em cena tinham estratégias e interesses distintos. Havia a turma de João Camargo, da Esfera, que já tinha um contato com lobistas próximos de Trump desde a vitória do republicano, em 2024. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) decidiu contratar os mesmos lobistas de Camargo, enquanto setores como celulose, carnes e a própria Embraer acionaram seus canais individuais, embora também participassem das conversas coordenadas pela CNI. O objetivo comum era chegar em Susie Wiles, a chefe de gabinete de Trump, considerada prática, influente e sensível ao custo econômico das tarifas. Era ela quem filtrava os pedidos, protegia o chefe e definia quem entrava – ou não – na sala de comando.
Camargo recorreu ao prefeito de Miami, Francis Suarez, nome relevante do Partido Republicano. Os dois se conhecem desde os anos 1990, quando Camargo começou a frequentar Miami depois de comprar um imóvel na cidade. Com a posse de Trump no início de 2025, Camargo procurou Suarez em nome de empresários brasileiros interessados em estabelecer uma ponte com a nova administração, pois tinham receio de que o governo Lula enfrentaria dificuldades de interlocução. Suarez e aliados apresentaram Camargo ao sócio de um dos escritórios de lobby mais fortes da Flórida: Brian Ballard, que também é uma figura influente em Washington desde o primeiro mandato de Trump. Susie Wiles, aliás, trabalhara na Ballard Partners.
Ainda antes do tarifaço, Ballard e Camargo haviam fechado um acordo: indicariam clientes um ao outro. Pelo menos seis empresas brasileiras toparam a jogada. O banqueiro André Esteves, do BTG Pactual, contratou Ballard para destravar as licenças regulatórias do banco que havia comprado nos Estados Unidos, o M.Y. Safra Bank. (As licenças ainda não foram liberadas.) Joesley Batista, dono da JBS, também considerou contratar o escritório de Ballard para acelerar a listagem de sua empresa na Bolsa de Nova York. (Lançou seus papéis em junho, mas sem a ajuda do lobista.) Em agosto, para piorar, o Politico, site de notícias baseado em Washington, revelou que Ballard fora escanteado da Casa Branca depois que uma de suas funcionárias induziu Trump a publicar uma mensagem favorável a um cliente seu. Quando descobriu que fora manipulado, Trump se irritou e declarou-o persona non grata.
Mesmo com tudo contra si, Ballard mostrou notável influência quando o tarifaço entrou em cena. No início de setembro, Camargo esteve em Washington para uma rodada de reuniões organizadas pelo escritório do lobista: encontrou Susie Wiles, parlamentares republicanos, interlocutores no Departamento do Tesouro e Mauricio Claver-Carone, então enviado especial de Trump para a América Latina. Ballard também colocou a CNI na mesa com Christopher Landau, o sub de Marco Rubio. Na reunião, Landau defendeu a posição de Trump, disse que os Estados Unidos prezavam a “liberdade de expressão” e pediu aos cerca de cinquenta empresários brasileiros presentes que fizessem lobby no Brasil para eliminar os entraves políticos que incomodavam Trump – movimento exatamente oposto ao que o governo brasileiro havia sugerido.
“Naquele momento era necessário baixar a poeira. A gente precisava se descolar do governo. Até então estávamos muito atrás do que o governo estava comunicando”, diz Rodrigo Santiago, da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), que participou da delegação. Marcos Antonio Matos, diretor-geral do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), um dos setores até então mais atingidos pelo tarifaço, também integrava o grupo e considerou uma vitória que o Brasil pudesse ao menos falar com o outro lado, já que o diálogo estava interditado. “O Departamento de Estado ficou quieto e nos ouviu por 45 minutos”, diz, recordando o sentimento de vitória.
Joesley Batista, que havia dispensado a intermediação do escritório de Ballard, encontrou seus próprios caminhos para abrir espaço na Casa Branca. A Pilgrim’s Pride, uma de suas empresas nos Estados Unidos, doara 5 milhões de dólares para a cerimônia de posse de Trump. Além disso, a JBS USA, que reúne todas as empresas americanas da família Batista, emprega 70 mil pessoas, o que é um ativo e tanto para negociar com um governo que assumira sob o mantra Jobs, jobs, jobs. Batista queria pedir isenção tarifária para a carne e a celulose, produtos que exporta para os Estados Unidos, e oferecer a Trump uma perspectiva mais favorável sobre o Brasil. Em Brasília, Lula sabia que o encontro ocorreria.
Numa tarde no início de setembro, Batista foi recebido na Casa Branca. Posou para uma foto com Trump e o presenteou com a biografia do seu pai, José Batista Sobrinho, conhecido como Zé Mineiro. Na conversa, defendeu o STF, disse que o apoio a Jair Bolsonaro no Brasil estava longe de ser majoritário e deu uma informação que desestabilizou o presidente americano: disse que o tarifaço havia impulsionado os índices de popularidade de Lula e, provavelmente, iriam catapultá-lo à reeleição. Era um efeito colateral que Trump não havia previsto – e, aparentemente, ninguém lhe informara.
Ainda assim, o governo brasileiro não recebeu o encontro como bote de salvação. Auxiliares de Lula estavam convencidos de que Batista seguira a lógica habitual: agendou a visita pensando primeiro nele, depois nele e, por fim, nele mesmo – embora admitissem que a conversa ajudara a distensionar o ambiente. A verdade é que dois fatos extraordinários sucederam. Trump anunciou uma lista de produtos isentos de tarifa – e a celulose estava lá. Dias depois, pela primeira vez desde a eleição de ambos, Lula e Trump se encontraram na Assembleia Geral da ONU. Em seu discurso, o americano fez elogios públicos ao brasileiro. A cronologia dos acontecimentos ajudou a disseminar a leitura de que Batista havia movido montanhas. A realidade era menos épica: ele foi esperto e teve sorte.
No caso da celulose, havia um lobby especialmente intenso da Kimberly-Clark e da Procter & Gamble, multinacionais americanas que dependem da celulose brasileira de fibra curta para produzir lenços umedecidos, papel higiênico, papel toalha e fraldas. No ano passado, o Brasil respondeu por 82% das importações americanas desse tipo de matéria-prima. A Suzano, sozinha, fornecia 55% da celulose usada nos Estados Unidos para produtos de higiene. A dependência americana era tamanha que a celulose logo entrou na lista de isenções e escapou da tarifa de 40% anunciada em julho. Em setembro, Trump enquadrou o produto no chamado “Anexo 2”, que também livrava a celulose da tarifa global de 10% – um benefício reservado a matérias-primas que os Estados Unidos não produzem.
Embora Batista seja dono de um império industrial nos Estados Unidos, a ofensiva contra os 10% iniciais foi comandada pelas multinacionais americanas. Elas tiveram reuniões com a Casa Branca e também com a embaixada brasileira. A Suzano concluiu logo no início que as tarifas tornariam inviável a importação americana e que faltaria papel nos Estados Unidos. A Kimberly-Clark chegou a projetar em seu balanço trimestral uma alta de 300 milhões de dólares nos custos em razão das tarifas. No Brasil, contudo, Batista colheu louros e, em alguns círculos de poder, gabou-se dos seus feitos. Em 25 de setembro, a Folha de S.Paulo foi o primeiro jornal a noticiar o encontro de Batista com Trump. Dias antes, numa conversa com um interlocutor bem relacionado de Brasília, o empresário disse que estava atuando para que o presidente americano e Lula apertassem as mãos na ONU e que iria a Nova York no período da Assembleia Geral para se certificar de que “nada de errado” aconteceria.
De fato, Batista apareceu em Nova York. Uma reportagem de Felipe Frazão publicada em O Estado de S. Paulo informou que, nessa mesma viagem, o empresário também havia tido um encontro com um enviado especial de Trump. Seu nome era Richard Grenell, personagem central para explicar os movimentos que resultaram no aperto de mãos e na “química” entre Trump e Lula nos bastidores da ONU.
Egresso do Departamento de Estado, Richard Grenell, de 59 anos, serviu na ONU, sob George W. Bush, e depois foi embaixador na Alemanha, durante o primeiro governo Trump. Saiu do posto esfolado por atritos: sua postura intervencionista desagradou o governo alemão, e sua aproximação com a AfD, o partido da extrema direita alemã que reúne até descendentes políticos do nazismo, gerou críticas públicas do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha. Abertamente gay, Grenell costuma dizer que tem orgulho de ser “um dos únicos republicanos LGBT” de alto escalão e frequentemente acusa os democratas de “monopolizarem a pauta identitária”.
Depois da vitória de Trump no ano passado, Grenell tentou se cacifar para o cargo de secretário de Estado, mas acabou preterido por Marco Rubio. A relação entre os dois azedou rapidamente. Grenell defendia uma saída negociada para a crise venezuelana – chegou a aparecer em fotos apertando a mão de Nicolás Maduro, gesto que enfureceu a ala latina do Partido Republicano –, enquanto Rubio insistia no uso da força para derrubar o regime. Trump acabou se alinhando ao viés do secretário, mas isso não reduziu o espaço de Grenell no governo. Pelo contrário: quando Trump começou a suspeitar de que talvez tivesse caído em uma armadilha retórica armada pelo bolsonarismo, encarregou Grenell de sondar o Brasil.
Tudo ocorreu de forma atropelada. Em 12 de setembro, o dia seguinte à condenação de Bolsonaro a 27 anos de cadeia, Grenell estava escalado para viajar ao Paraguai para participar de um evento da CPAC, a sigla que designa os encontros políticos da direita. Faria uma escala no Rio de Janeiro. Entrou em contato com o Itamaraty e pediu um encontro com o chanceler Mauro Vieira, que então se deslocou ao Rio para a conversa no dia 15. Quando procurou Vieira, Grenell também ligou para Celso Amorim, assessor especial de Lula. Os dois movimentos não estavam na agenda e foram revelados primeiro pelo Estadão. Nas conversas, Grenell relatou que Trump já tinha sido informado de que a questão do julgamento de Bolsonaro talvez não fosse exatamente o que eles imaginavam – e que essa percepção havia chegado à Casa Branca por meio de empresários brasileiros e americanos, o que dava créditos a Joesley Batista. Grenell também sondou a disposição de Lula para se reunir com Trump na ONU. Recebeu um sinal positivo.
A ideia do encontro, no entanto, empolgava mais o setor privado do que o governo. Parte da diplomacia temia que Lula ficasse exposto a algum constrangimento, dado o comportamento imprevisível de Trump. Os empresários, porém, estavam ávidos pela oportunidade: acreditavam que Lula teria condições de quebrar o gelo e desidratar a crise. Antes mesmo de Grenell sondar o Itamaraty, Susie Wiles – com quem Joesley Batista também se encontrou em sua ida aos Estados Unidos – já havia recebido proposta semelhante de lobistas contratados por empresas brasileiras. Wiles simpatizou com a ideia. Como interlocutores do setor privado duvidavam que a diplomacia topasse algo tão arriscado, resolveram encaminhar ao chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Ribeiro, o Marcola, um esboço da operação: o encontro ocorreria nos bastidores da Assembleia Geral da ONU, onde os dois se cruzariam quando Lula deixasse a tribuna e Trump se encaminhasse a ela. Duraria dez minutos, segundo o combinado com Wiles. O tradutor do presidente, Sérgio Ferreira, foi acionado; entregaram-lhe uma lista de pontos considerados cruciais para a conversa.
No fim, nada saiu conforme o roteiro – e, ainda assim, tudo funcionou. Trump se atrasou depois de enfrentar problemas numa escada rolante. Lula também demorou a retornar aos bastidores depois de fazer seu discurso. O tradutor acabou retido na cabine de tradução, e quem acompanhou Lula foi o chefe do cerimonial do Palácio do Planalto, o embaixador Fernando Igreja, que improvisou como intérprete. A verdade é que Lula jamais garantiu que seguiria qualquer roteiro. Enquanto o presidente discursava na tribuna da ONU, sua própria equipe não sabia se, ao terminar, Lula iria direto para o plenário ouvir os demais chefes de Estado, se entraria na antessala reservada aos presidentes ou, ainda, se Trump realmente estaria lá esperando – era plausível que o americano desistisse ou, então, se recolhesse em outra sala preparando-se para o seu próprio pronunciamento.
O fato é que Trump não apenas esperou como postou-se em frente de uma televisão para acompanhar a fala de Lula – uma imagem que contrasta, em conteúdo e estética, com o encontro entre Trump e Bolsonaro no mesmo local, em 2019. Na ocasião, Bolsonaro abriu o diálogo nos bastidores dizendo I love you, Trump, e recebeu em troca um constrangido Nice to see you. “Um momento baixo da nossa diplomacia”, relembra um embaixador.
Na tribuna, Trump começou atacando o Brasil. Afirmou que o país estava “indo mal” e só conseguiria se sair bem se trabalhasse em aliança com ele. “Sem nós, eles fracassarão”, disse. Mas, quando o teleprompter entrou em pane, Trump abandonou o texto preparado e passou a falar de improviso. Nesse momento, Trump elogiou Lula – e, sentado na plateia, um auxiliar do americano deixou transparecer uma surpresa genuína. Era Marco Rubio, o secretário de Estado, que não estava a par do encontro entre os dois presidentes, conforme havia sido arquitetado por seu rival, Richard Grenell. (Duas fontes da ONU ouvidas pela piauí disseram que a falha no teleprompter não foi logo corrigida porque, quando a equipe de Trump chegou à sala do equipamento, resolveu expulsar os servidores da ONU encarregados de operá-lo e ficou ali sozinha. Na hora da pane, os servidores já estavam longe demais para fazer o conserto.)
Durante os dias em que estava em Nova York, Grenell continuou exercendo seu papel de mestre de cerimônias da distensão, orquestrando encontros e calibrando mensagens pacificadoras. Teve mais dois encontros com autoridades brasileiras. Um com Celso Amorim, outro novamente com Mauro Vieira. As duas conversas acabaram se tornando uma preparação para o tão esperado telefonema entre Lula e Trump, que ocorreria no início de outubro. Reforçava o ambiente de pacificação um fato que ocorrera no dia que antecedeu o encontro na ONU: o Departamento do Tesouro incluiu na Lei Magnitsky a advogada Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes, e sua empresa o Instituto Lex.
Era um gesto de pacificação porque, no auge da turbulência, especulava-se que a lista dos novos alvos da Magnitsky poderia incluir ministros do Supremo, ministros de Estado, delegados da Polícia Federal, o procurador-geral da República e até bancos brasileiros. A inclusão da mulher de Moraes era um alívio para os demais atores da crise e mostrava que a Casa Branca buscava uma saída menos incendiária, mas deixou Moraes possesso – talvez mais indignado ainda do que quando seu próprio nome foi enquadrado na Magnitsky.
A advogada teve seus cartões Visa e Master cancelados, assim como ocorrera com o marido. Angustiada com a situação, ela chegou a procurar Gilmar Mendes em busca de orientação. O ministro, que transita com mais desenvoltura no meio bancário do que Moraes, tentou acalmá-la. Em busca de uma solução, o ministro Fernando Haddad foi acionado, assim como a presidente do Banco do Brasil, Tarciana Medeiros, e a diretora jurídica da instituição, Lucinéia Possar. A resposta da turma foi pouco auspiciosa. Na prática, não havia o que fazer. Moraes ficou furioso ao concluir que o instinto dominante não era proteger sua família de uma arbitrariedade, mas poupar os bancos de qualquer contratempo.
Naquele momento, Viviane de Moraes havia se tornado o alvo mais fácil. Sua inclusão na lista alimentava a sanha de vingança de uma ala dos aliados de Trump que enxergam no bolsonarismo um ativo estratégico para a extrema direita no Ocidente – e que se enfraquecia ante a retomada de contato com o governo brasileiro. A punição contra ela também atendia os anseios do Departamento de Estado, que, povoado pela ala mais radical do movimento Maga, ainda orbitava em torno da tese de vitimização de Bolsonaro e vinha pressionando o Tesouro pela aplicação de novas sanções desde agosto.
Apesar de tudo, Marco Rubio, embora seja muito mais ideológico que seu rival Richard Grenell, é visto como moderado em comparação com seus subordinados. Alguns deles foram indicações de Steve Bannon, talvez o ex-assessor de Trump mais próximo da família Bolsonaro. É o caso de Ricardo Pita, chefe do Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental, que esteve no Brasil em maio e visitou Jair Bolsonaro para ouvi-lo sobre as “ameaças à democracia brasileira”. Na Casa Branca, ainda que Susie Wiles seja moderada, seu adjunto é Stephen Miller, uma estrela do mundo Maga e responsável pela política anti-imigração do governo. Miller não foi uma escolha de Wiles, mas uma imposição de Trump. No nível mais alto de radicalismo está Sebastian Gorka, assessor para temas de contraterrorismo, que também dá expediente na Casa Branca. Gorka é húngaro e, segundo o jornal The Washington Post, é membro de um grupo de extrema direita na Hungria que, de acordo com o próprio Departamento de Estado, tem inclinações nazistas. Ele era um dos contatos de Eduardo Bolsonaro na Casa Branca.
“É uma bolha. Uma bolha muito pequena. E são poucas as pessoas que entram nessa bolha para influenciar o presidente”, diz Thomas Shannon, diplomata americano de carreira que foi embaixador dos Estados Unidos no Brasil entre 2010 e 2013. Em 2018, depois de trabalhar nos governos Obama e Trump, Shannon deixou a carreira diplomática. Hoje, é um dos principais nomes do escritório de advocacia Arnold & Porter, o mesmo que assessorou juridicamente o governo brasileiro e os bancos. Em Washington, Shannon é visto como um patrono discreto dos interesses brasileiros: alguém que tenta, sempre que possível, desfazer mal-entendidos antes que virem crises. Daí o peso de sua atuação desde o primeiro dia da turbulência tarifária.
Shannon atribui a Susie Wiles e Richard Grenell parte essencial da distensão. Segundo ele, Trump costuma despachar Grenell para situações nas quais acredita haver um ruído ou percepção equivocada. Sobre Wiles, Shannon é categórico: “Ela é uma excelente chefe de gabinete. O trabalho dela é criar condições para que Trump tenha sucesso”, disse, numa conversa telefônica que tivemos em outubro. Outro fator decisivo para o arrefecimento das tensões, na avaliação do diplomata, foi a percepção elementar de que “é impossível comprar uma xícara de café, comer um hambúrguer ou pegar um voo regional nos Estados Unidos sem, em alguma etapa, tocar em uma empresa brasileira”.
O café brasileiro domina o mercado americano desde que a população dos Estados Unidos abandonou o chá em reação à opressão britânica. Há produtores brasileiros exportando para os Estados Unidos há mais de um século. Antes do tarifaço, 32% do café consumido pelos americanos vinha do Brasil – de longe o maior fornecedor, seguido da Colômbia, com 18%. Embora as exportações brasileiras tenham somado 2 bilhões de dólares em 2024, a economia americana do café – que inclui cafeterias, redes de varejo, importadores, embalagens, logística, máquinas de torrefação – movimenta 343 bilhões por ano, o equivalente a 1,2% do PIB dos Estados Unidos. Ou seja, a cada 1 dólar de café que os americanos importam, agrega-se 43 dólares à sua economia.
Não surpreende que o tarifaço tenha provocado uma escalada imediata no preço do grão no mercado de commodities: era um atrito direto entre o maior produtor e o maior consumidor de café do mundo. Havia ainda um agravante logístico. Quem quisesse fazer estoque antes de as tarifas entrarem em vigor simplesmente não tinha meios de fazê-lo, explica Marcos Antonio Matos, o diretor-geral do Cecafé: “Quando tudo isso aconteceu, o Brasil estava terminando de colher a safra de 2025, e vínhamos de uma entressafra baixa. Não havia café para quem quisesse estocar.”
O efeito foi notável: as compras de café pelos Estados Unidos desabaram mais de 50% depois do tarifaço. Diante da dependência americana do café, surgiu a pergunta: por que o produto não entrou na lista de exceções anunciada em 30 de julho, como o suco de laranja? Uma parte da resposta está no improviso endêmico do governo Trump. Outra parte, na política doméstica. O lobby do café nos Estados Unidos é liderado quase exclusivamente pela Starbucks, cuja marca e cultura corporativa se alinham com o campo democrata. Executivos atuais e antigos da empresa fizeram doações para a campanha de Kamala Harris. No Congresso, os parlamentares que tradicionalmente defendem o setor são democratas, o que, na prática, tornou seus apelos irrelevantes diante de uma maioria republicana pouco disposta a flexibilizar o tarifaço. Um lobista me resumiu o clima com uma frase que circulava em Washington: “O lobby do café era visto como comunista.”
O caso do suco de laranja foi diferente. A dependência americana do Brasil é muito mais ampla: cerca de 56% do suco consumido nos Estados Unidos vem de São Paulo, Paraná e Minas Gerais. O grosso das exportações do produto parte do Porto de Santos e desembarca em Jacksonville, na Flórida. E é na Flórida, onde está o metro quadrado mais trumpista do país, que o suco é envasado. Duas empresas brasileiras controlam o mercado: Cutrale e Citrosuco, ao lado da filial brasileira da francesa Louis Dreyfus. As três fornecem para gigantes como a Coca-Cola e a Tropicana, marca da PepsiCo vendida para a empresa PAI Partners em 2021.
Além dessas conexões, a integração entre empresas brasileiras e americanas na Flórida é tal que chega a ser física. A fábrica da Cutrale, por exemplo, fica ao lado de uma fábrica da Coca-Cola. E a Cutrale envia o suco de laranja por um duto subterrâneo que desemboca diretamente na Coca-Cola, onde é envasado. As duas gigantes seriam atingidas em cheio se, de um dia para o outro, tivessem de pagar 40% de tarifa para manter o duto funcionando. Por isso, Coca-Cola e Cutrale foram decisivas para que o suco entrasse na lista de exceções. “Sem o suco brasileiro, eles não teriam de quem comprar. O nosso suco responde por cerca de 70% das importações deles nesse segmento. E eles, por sua vez, são 42% das nossas exportações. Seria inviável para ambos os lados”, diz Ibiapaba Netto, diretor-executivo da CitrusBR, entidade que representa as três companhias.
Diante desse quadro, a família Cutrale se mexeu rápido. Junto com a Coca-Cola, participou de pelo menos três reuniões na Casa Branca para demonstrar o tamanho do estrago caso o suco brasileiro fosse tarifado. As conversas, conduzidas pelos irmãos José Henrique e José Luís Cutrale Júnior, incluíram o histórico de investimentos das empresas brasileiras nos Estados Unidos, especialmente na Flórida, onde, aliás, elas permaneceram enquanto muitos setores industriais migraram para outras praças. A mensagem era clara: a medida puniria justamente quem apostou no país. Deu certo. O suco de laranja escapou da tarifa de 40%, mas caiu na tarifa global de 10%. Em meados de novembro, conseguiu escapar dessa também.
Embora o lobby do suco de laranja seja poderoso, nada se compara ao peso da Embraer, cuja presença nos Estados Unidos ultrapassa o comércio e avança sobre a política industrial-militar do país, além de empregar 3 mil pessoas em suas fábricas na Flórida. O lobby global da Embraer é comandado por um funcionário de carreira discreto e eficaz, José Serrador. Em Washington, quem opera o dia a dia com o governo é o americano Daniel Hickey, especialista em aviação, com trânsito no Capitólio e talento para identificar quem realmente decide em cada andar da capital americana.
Assim como a Cutrale, a Embraer acionou sua contraparte americana para fazer pressão – no caso, a American Airlines, principal compradora de suas aeronaves. Estava claro que, com as tarifas, a empresa americana veria seus custos operacionais subirem. Também funcionou. A Embraer entrou na primeira lista de exceções anunciada pela Casa Branca. Ainda assim, permanecia sujeita aos 10% da tarifa global, um peso especialmente danoso diante da disputa que trava com as fabricantes americanas e europeias, que foram isentas de tarifas. No segmento militar, a Embraer compete diretamente com a Lockheed Martin, fabricante do C-130J, o avião de transporte militar mais politicamente protegido dos Estados Unidos. O similar da Embraer, o C-390, vinha vencendo licitações na Europa – inclusive em países da Otan –, o que acendia alertas nos Estados Unidos. Além disso, a empresa brasileira quer vender seus cargueiros KC-390 para a Força Aérea americana, uma transação que dificilmente ocorrerá se os 10% forem mantidos. Ou seja: a tarifa não é apenas uma desvantagem comercial, mas também um entrave estratégico.
Nesse ambiente sensível, não interessava à Embraer se expor em defesa do Brasil num momento em que o diálogo diplomático estava obstruído. Por isso, a empresa atuou em sigilo para ajudar naquele primeiro encontro entre Mauro Vieira e Marco Rubio ocorrido em julho, no escritório King & Spalding. Em Brasília, o governo reconhece o peso dessa intervenção, mas não se ilude quanto às motivações. “O interesse brasileiro convergia com o interesse das melhores empresas do país. Mas eles não fizeram isso pelo Brasil; fizeram pela própria sobrevivência. O governo pensava no interesse nacional, inclusive por eles – exportadores com alto nível de agregação”, diz um interlocutor direto das negociações.
Mas, numa demonstração do caráter aleatório das tarifas, nem todas as grandes indústrias brasileiras com presença americana se deram bem. A WEG, uma gigante na área dos equipamentos elétricos, inaugurou fábricas, comprou empresas e criou toda uma cadeia industrial para finalizar a produção de suas máquinas nos Estados Unidos. No entanto, não foi excluída do tarifaço de 40% e da tarifa global de 10%. Além disso, a WEG ainda carregou o peso da tarifa de 50% sobre o cobre, insumo de sua produção.
André Roncaglia, o economista brasileiro que hoje é diretor executivo no Fundo Monetário Internacional (FMI), avalia que muitas tarifas ainda persistem porque seus efeitos sobre a economia dos Estados Unidos se mostraram menores do que se esperava. Numa conversa que tivemos em Washington, em outubro, Roncaglia ponderou que talvez as incertezas criadas pelas tarifas sejam mais prejudiciais à economia americana hoje do que o impacto real nos preços. É má notícia para empresas como a weg, que esperavam algum alívio quando Trump fosse atropelado por um aumento generalizado de preços, e não apenas dos alimentos. “Esse é um período de incerteza produzida deliberadamente. A incerteza é você não saber o que vai acontecer. Isso, para quem está investindo, para quem consome, é fundamental. O cidadão médio que vai comprar uma casa pensa se agora será o melhor momento. Sem saber quais setores serão tarifados, pode ser que o setor dele seja. E ele perde o emprego”, diz.
Entrar no The Ned é para poucos. A filial do clube privado londrino chegou a Washington há pouco mais de um ano e rapidamente se tornou um dos epicentros sociais da nova era Trump. Seus membros pagam 10 mil dólares no primeiro ano, e mais 5 mil de anuidade nos seguintes, para se acomodar nos bancos de veludo do bar e pedir um dry martini a 23 dólares – cerca de 120 reais. Ao redor, circulam estrelas da constelação Maga, lobistas, integrantes do governo e jornalistas.
Como ocorre em todo ambiente exclusivo, é preciso que haja espaço exclusivíssimo. The Ned cumpre a regra: sua área VIP é aberta apenas à categoria dos sócios fundadores, que pagam 100 mil dólares de taxa de adesão – coisa de meio milhão de reais – e 15 mil de anuidade. O sócio fundador tem direito a frequentar as unidades do clube em Nova York, Londres e Doha, jantar em um restaurante exclusivo dentro do próprio clube e participar de eventos exclusivos, temperados com um caviar exclusivo que não se encontra em nenhum outro lugar na capital americana – o Petrossian. A marca francesa trabalha com o raro esturjão beluga, que vem do Mar Cáspio, entre a Rússia e o Irã. (Apesar de sua localização eletrizante do ponto de vista geopolítico, o produto chega aos Estados Unidos sem risco de sanções.)
Em Washington, o clube ocupa três andares de um edifício neoclássico, destoando dos arranha-céus funcionais da Avenida Pensilvânia e Rua K, redutos tradicionais de poder ao redor da Casa Branca. Em um dos andares funciona um rooftop tomado por mesas e sofás ao ar livre, onde, à noite, ocorrem festas e shows reservados aos frequentadores. De dia, o terraço oferece uma vista cinematográfica da Casa Branca: é possível ver os dois helicópteros presidenciais pousando ou decolando para transportar Donald Trump.
O restaurante dos “fundadores” tem vista direta para o Departamento do Tesouro – e não é raro cruzar por ali com o próprio secretário Scott Bessent. No salão principal, o estilo art déco, os sofás Chesterfield de couro e as paredes em boiserie evocam clubes de cavalheiros do século passado, num flagrante sintoma dos tempos. A iluminação baixa reforça a atmosfera de confidencialidade, embora ninguém ali deseje exatamente passar despercebido. Fotos e filmagens não são permitidas, claro. À entrada, um funcionário cola um adesivo com o brasão do clube sobre a câmera dos celulares de todos os frequentadores. Até dos exclusivos.
Na hora do almoço e do happy hour, The Ned é o local ideal para abordar membros do governo Trump, mas a dinâmica é peculiar: todos parecem estar fora do expediente, mas ninguém está fora do expediente. A lista dos frequentadores inclui o secretário de Comércio, Howard Lutnick, e a chefe de gabinete, Susie Wiles. Os espaços são amplos, mas desenhados para abrigar pequenos grupos – mesas de duas cadeiras, sofás de dois lugares –, numa arquitetura que favorece conversas discretas, e não aglomerações.
Numa tarde de outubro, a piauí esteve no The Ned acompanhando um sócio brasileiro que pediu para não ser identificado. Ele conta que, no auge das tensões com os Estados Unidos, muitos dos interlocutores que o Brasil precisava alcançar e que só eram acessíveis por canais obstruídos em Washington, circulavam livremente por lá. No entanto, nenhuma autoridade brasileira estava presente – o que só reforçava o isolamento. Afinal, não é exatamente uma novidade que o governo Trump criou núcleos paralelos de articulação política, que tratam de assuntos de Estado em ambientes privados, criando uma perigosa zona cinzenta. Mas, no contexto da turbulência tarifária, The Ned funcionava como uma espécie de triagem informal dos temas relevantes que orbitavam a capital. Não circular pelo local era uma forma de manter-se distante do poder, numa hora crucial.
Dentro do próprio governo brasileiro há a percepção de que, nas palavras de autoridades, “falta Brasil em Washington”. A embaixada brasileira mantém – e sempre manteve – um perfil de diplomacia tradicional, regida por prudência extrema e respeito solene a protocolos, além de carecer, muitas vezes, de autorização política para arriscar-se em movimentos mais ousados. Não é parte da cultura do Itamaraty que seus embaixadores atuem como lobistas dos interesses brasileiros, embora seja exatamente esse o perfil de várias representações estrangeiras na capital americana. Para descrever essa cultura pouco permeável aos interesses comerciais, o ex-chanceler Luiz Felipe Lampreia costumava satirizar uma declaração que ouvia de seus antepassados diplomatas: “Não somos embaixadores de secos e molhados.” Pouca coisa mudou de lá para cá no Brasil, mas, em alguns países, a dinâmica é outra. “Os embaixadores do México e do Japão, por exemplo, moram no Congresso”, resumiu o sócio que me acompanhou ao The Ned.
O contraste é nítido quando se observa figuras como Peter Mandelson, embaixador do Reino Unido em Washington que não é diplomata de carreira e foi nomeado para a função justamente por isso. Mandelson foi indicado em razão de sua habilidade negociadora, uma qualidade considerada essencial diante da expectativa – amplamente confirmada – de que Trump voltaria a tumultuar o comércio global. Tornou-se um exemplo de embaixador-lobista, circulando entre parlamentares, think tanks e gabinetes estratégicos. (Mas o tino diplomático acabou por lhe fazer falta. Caiu em setembro passado, quando veio à tona seu envolvimento no caso Jeffrey Epstein, o bilionário que se suicidou na prisão enquanto esperava o julgamento por comandar uma rede de tráfico sexual envolvendo meninas menores de idade. Em entrevistas que fiz antes da queda de Mandelson, seu nome chegou a ser ventilado como uma possível ponte informal entre o Brasil e a Casa Branca de Trump.)
Em conversa com um dos diplomatas mais bem posicionados do Itamaraty, ouvi um diagnóstico cru: o Brasil estava sem interlocução porque, na prática, o governo Trump também não a oferecia. “Era todo mundo sub, do sub, do interino”, ironizou, numa referência ao esvaziamento de quadros experientes e à ascensão de indicados ideológicos que pouco conheciam a região da América Latina. Outro interlocutor brasileiro em Washington avalia que faltou senso de adaptação: “Os Estados Unidos mudaram, mas o Itamaraty segue fazendo a mesma coisa.” Em outras palavras, o momento requer outro tipo de diplomacia.
Alguns interlocutores americanos me disseram que até alertaram diplomatas brasileiros sobre a campanha de difamação que Eduardo Bolsonaro vinha promovendo no Capitólio – sem que o governo sequer tentasse se contrapor. A esses alertas, o Itamaraty respondia que nada havia para fazer, já que o Brasil era uma democracia que não perseguia seus opositores, de modo que Eduardo, como deputado legitimamente eleito, não seria contido em suas investidas, por mais antinacionais que fossem. Neste circuito, Lula também é criticado pela visita que fez a Washington no início de seu mandato, durante a qual reuniu-se apenas com a ala esquerda do Partido Democrata.
Em seus contatos com os republicanos, Eduardo apresentou a viagem de Lula como a expressão concreta de que o governo brasileiro era radicalizado. Um dos interlocutores que alertou a diplomacia afirma que a família Bolsonaro está há quase uma década construindo pontes com a direita americana, sem que haja qualquer contraponto, seja da esquerda brasileira em nome de seus interesses, seja da diplomacia em nome dos interesses nacionais. Com a volta de Trump ao poder, o Itamaraty se apressou, ainda em 2024, para mapear o novo cenário, mas a ofensiva chegou tarde. A família Bolsonaro já havia construído o muro de distorções que agora dominava a paisagem.
Para complicar, o setor privado também encolheu sua presença em Washington. Desde que o Brazil Industries Coalition (BIC) foi extinto por falta de verbas em 2018, o país praticamente parou de exercer a diplomacia empresarial em bloco. O BIC, sediado em Washington, reunia a Embraer, o Instituto Aço Brasil, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) e entidades que representam a indústria, como a Fiesp e a CNI. Segundo uma reportagem de O Globo publicada em maio do ano passado, as empresas desembolsavam entre 10 mil e 45 mil dólares por ano para manter o escritório, cujo custo anual era de 600 mil dólares. Durante o primeiro governo Trump, parte do trabalho para garantir a isenção nas tarifas sobre o aço brasileiro foi feito pelo BIC. Mas tanto a ApexBrasil, então esvaziada pelo governo Temer, quanto a Fiesp decidiram parar de pagar – e o escritório foi fechado. A União da Indústria de Cana-
de-Açúcar e Bioenergia (Única), que faz o lobby do etanol brasileiro nos Estados Unidos, um dos setores que mais suscita debates comerciais, também fechou sua base em Washington.
No terceiro setor, não foi diferente. Em abril passado, por falta de financiamento do governo americano ao think tank Wilson Center, o Brazil Institute fechou as portas, depois de, por décadas, funcionar como um dos principais polos de debate sobre o Brasil em Washington. A presidente do Brazil Institute, Bruna Santos, migrou para o think tank Inter-American Dialogue, onde recriou um organismo semelhante, o Brazil Program. A nova estrutura, porém, ainda opera com apoio tímido de empresas e entidades brasileiras instaladas nos Estados Unidos. “As empresas brasileiras não entendem o long game de Washington. Não se trata apenas de contratar um lobista. É preciso participar do debate de ideias”, diz Santos.
Depois daquele encontro nos bastidores da ONU, em setembro, quando aflorou a “química” entre Lula e Trump, as coisas finalmente se aceleraram. Os dois presidentes conversaram por telefone, os canais de interlocução foram reabertos, Mauro Vieira e Marco Rubio voltaram a se encontrar em Washington e ficou combinado que a primeira conversa presencial entre os dois chefes de Estado ocorreria durante uma cúpula de países do Sudeste Asiático, em Kuala Lumpur, capital da Malásia, no dia 26 de outubro. Em todas as etapas para acelerar o passo, a iniciativa coube aos Estados Unidos, um sinal de que ganhou tração a disposição americana de reconstruir as pontes.
Em Kuala Lumpur, Lula entregou a Trump um documento detalhando as vantagens comerciais americanas no Brasil, reafirmou a disposição para negociar temas estritamente tarifários e pediu a revogação da inclusão do casal Moraes na Lei Magnitsky. Depois do encontro dos presidentes, as conversas técnicas foram retomadas, mas o Departamento de Comércio insistia: só quem decidia sobre tarifas era o Departamento de Estado, um órgão essencialmente político. Em 4 de novembro, sete meses depois do silêncio do governo americano iniciado em maio, o Brasil enviou novamente uma proposta comercial, agora respondendo aos pontos levantados pelos Estados Unidos. No dia 12 de novembro, quando Vieira e Rubio voltaram a conversar durante uma cúpula em Niágara Falls, no Canadá, as coisas começaram a tomar forma. No dia seguinte, a convite de Rubio, os dois conversaram de novo, desta vez no Departamento de Estado, em Washington.
Nesta reunião, no dia 13 de novembro, Rubio antecipou a Vieira que os Estados Unidos – “como gesto de boa vontade” – tomariam uma decisão unilateral sobre as tarifas de 40%. Não detalhou a medida, quais produtos seriam alcançados, nem o prazo, mas pediu discrição absoluta sobre a novidade. Encerrada a reunião, Vieira telefonou para Lula, explicando o teor do encontro e recomendando sigilo total, sob pena de inflar expectativas. No dia seguinte, a Casa Branca anunciou o fim da tarifa global de 10% sobre café, suco de laranja, carne e outros itens agrícolas, numa tentativa de conter a escalada dos preços internos. Mas ainda não era esse o anúncio mais esperado. Seis dias depois, Trump revogou a tarifa de 40% sobre 240 itens agrícolas brasileiros. Restam, ainda, as taxas sobre os demais bens e insumos industriais – e, sobretudo, a delicada questão da inclusão do casal Moraes na Lei Magnitsky.
Como não se sabia a data em que a medida aconteceria, o governo brasileiro foi surpreendido pelo anúncio. Lula estava em um evento público em São Paulo e não tinha um discurso preparado sobre o assunto. Só se pronunciou três horas depois. “Não é tudo o que eu quero, não é tudo que o Brasil precisa, mas é uma coisa importante”, disse, num vídeo postado nas redes sociais, antes de embarcar para a cúpula do G20 na África do Sul. “Eu acho que o Trump deu um bom sinal. Nós precisamos estar preparados, porque ele está convidado a vir ao Brasil quando quiser e eu espero ser convidado para ir a Washington para a gente poder zerar qualquer celeuma comercial e política entre Brasil e Estados Unidos”, afirmou.
Ao longo de toda a crise, apoiado na denúncia de que a soberania brasileira estava sendo atacada por iniciativa da família Bolsonaro, Lula conseguiu ressuscitar sua taxa de popularidade. No Palácio do Planalto, há quem até hoje celebre o episódio como uma “crise providencial” do ponto de vista político. É cedo para saber se esse ganho de imagem resistirá até 2026, mas quem tentou faturar com a agressão trumpista terminou chamuscado. O governador Tarcísio de Freitas, por exemplo, deixou-se até fotografar vestindo o boné do Maga, mas, quando percebeu que virara patriota da pátria alheia, se arrependeu e corrigiu a rota. Eduardo Bolsonaro, que articulou o desastre em conjunto com o ex-jornalista Paulo Figueiredo, começou a crise carregando um nome que aparecia de vez em quando na lista de presidenciáveis. Terminou ateando fogo às próprias perspectivas – uma jornada cujos detalhes a piauí revelou na edição de setembro de 2025.
E seu grande objetivo imediato, livrar o pai da prisão, naufragou numa cela especial de 12 metros quadrados na Superintendência da Polícia Federal em Brasília, onde Bolsonaro começou a cumprir a pena de 27 anos de prisão por tentativa de golpe e outros crimes. Poucos dias antes, ele fora recolhido à cela, ainda em termos preventivos, porque tentou destruir a tornozeleira eletrônica. Assim que a prisão foi noticiada, Trump foi indagado sobre o episódio ao ser abordado por jornalistas em Washington. “Não sei de nada… Foi o que aconteceu?”, disse ele, comentando em seguida: “É uma pena.” Dias depois, o jornal The New York Times publicou uma análise sobre a crise sob o seguinte título: “Brasil desafia Trump e vence.”
A certa altura do conflito, quando os Estados Unidos abriram uma investigação – ainda vigente – para apurar supostas “práticas comerciais ilegais do Brasil”, um dos pontos listados no documento americano era o uso do Pix, descrito como uma “ameaça ao sistema bancário americano”. Quando a informação sobre a investigação do Pix chegou ao Palácio do Planalto, dois auxiliares de Lula – já atônitos com a dimensão política do tarifaço – ficaram incrédulos com o que acabavam de ouvir: afinal, os Estados Unidos estavam atacando uma rara unanimidade nacional. Era mais um presente político, um “bálsamo”, me contou um deles tempos depois. Naquele dia, sem combinar nada, em coro, ambos ironizaram: “Trump, guerreiro do povo brasileiro.”