despedida
Roberto Kaz Dez 2025 16h57
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Sob a ótica da barbárie, o assassinato de Mu’ath Abu Rukbeh foi apenas mais um entre os cerca de 68 mil cometidos pelo Estado de Israel na Faixa de Gaza. Em 10 de outubro passado, uma sexta-feira, o rapaz de 30 anos decidiu voltar ao que restara de sua casa em Jabalia, cidade de onde havia partido às pressas, dois meses antes, por causa de um bombardeio. Com a assinatura de mais um acordo de cessar-fogo entre Israel e Hamas – agora sob a bênção do presidente americano Donald Trump –, Rukbeh acreditava ter um mínimo de segurança para resgatar alguns itens pessoais.
Ele deixou a cidade de Deir al-Balah, em que estava morando, e pedalou por 20 km até se aproximar de sua casa. Foi, então, alvejado durante um ataque aéreo. Seu paradeiro ficou desconhecido por nove dias, devido à impossibilidade de civis alcançarem o local, que continuava ocupado por tanques de guerra. Parentes e amigos começaram a publicar fotos de Rukbeh nas redes sociais, na esperança de receber alguma notícia, que acabou chegando sob a forma de uma ligação para seu irmão, Abdelrahman Abo. Na chamada, um homem dizia ter coberto Rukbeh com um pedaço de papelão, depois de vê-lo ser atingido. Abo se dirigiu ao ponto indicado pelo informante, onde encontrou apenas a mochila e o boné do irmão, ambos com estilhaços. O corpo já não estava lá nem foi localizado depois. Rukbeh era casado e pai de dois filhos pequenos, de 2 e 3 anos.
Esse seria o fim da história, a se levar em conta o que virou regra para os que morrem, a cada dia, na Faixa de Gaza. Mas Rukbeh tinha um ofício que fez o caso alcançar repercussão internacional: era veterinário. Ele zelava por aqueles que não conseguem se cuidar num cenário de completa degradação. “A luta [de Rukbeh] era pela vida de cada ave machucada, de cada animal faminto e abandonado, de cada cachorro aterrorizado pelo caos da guerra”, noticiou a PBI Story, página de notícias no Facebook com sede em Ramallah, capital administrativa da Autoridade Palestina. “Ele virou um símbolo de compaixão num local sufocado pela crueldade.”
O perfil de Rukbeh no Instagram permite ter certa ideia do que é uma vida atravessada pela guerra. Em fevereiro de 2022, o veterinário postou um vídeo em que aparece de mãos dadas com sua mulher (ela trajava um enorme vestido de noiva). A postagem seguinte, de dezembro de 2024, mostra Jabalia em ruínas. “Essa é minha cidade”, escreveu Rukbeh. “Nem as árvores, nem as pedras, nem as pessoas foram poupadas da brutalidade da máquina de destruição israelense. Não há vestígios de vida aqui.”
Com a aniquilação de Jabalia, o veterinário e sua família passaram a viver em barracas nas cidades de Khan Yunis, Gaza e Deir al-Balah. Em maio de 2025, ele publicou um vídeo junto da mulher e dos dois filhos sobre uma charrete puxada por uma mula, numa rua enlameada onde havia inúmeros veículos repletos de refugiados. “Estamos migrando da montanha pela décima vez”, disse. Em 22 de julho, publicou mais duas fotos: na primeira, aparece rechonchudo; na segunda, bastante magro. “A fome comeu os nossos corpos”, lamentou. Foi sua última postagem.
Rukbeh se formou veterinário em 2019, na Universidade Zagazig, no Egito. Logo depois, voltou para Jabalia, onde exerceu a função de inspetor de alimentos. Vistoriava a qualidade do leite, do queijo e da carne em fazendas e matadouros. Em maio de 2023, inaugurou sua própria clínica, que seria bombardeada ainda naquele ano. Nos últimos tempos, o veterinário trabalhava no único abrigo para animais da Faixa de Gaza, o Sulala Animal Rescue.
Fundada em 2006 por Saeed Al-Err, a instituição ficava na cidade de Al Zahra, perto de Jabalia, até ser evacuada em 2023, devido aos bombardeios. Na impossibilidade de transportar todos os animais para a nova sede – improvisada em Nuseirat, um campo de refugiados –, Al-Err levou apenas os cachorros que não conseguiam caminhar e parte dos gatos. O antigo abrigo foi deixado com as portas abertas e vinte sacos de ração, que exibiam pequenos furos, para que os bichos pudessem comer e fugir ao longo dos dias seguintes.
Antes da guerra, o Sulala Animal Rescue cuidava de quinhentos animais. Hoje abriga 70 cachorros, 50 gatos e 2 mulas. “O número de bichos nas ruas da Faixa de Gaza agora é menor porque muitos morreram ou fugiram em razão dos ataques”, explicou Al-Err numa conversa pela internet mediada por Annelies Keuleers, belga que atua como porta-voz do abrigo e morou durante dois anos na Cisjordânia, território governado parcialmente pela Autoridade Palestina. A maioria dos animais sob proteção recebe atendimento por desnutrição, mas também há casos de bichos atingidos por tiros e bombas. Cavalos e mulas, convertidos em meios de transporte, vivem uma situação especialmente grave na região. “Estão esgotados, apanham muito, morrem de exaustão”, disse Keuleers.
Rukbeh já prestava serviços ao Sulala antes de outubro de 2023, quando começaram os ataques à Gaza. De início, atendia alguns bichos do abrigo em sua clínica. Depois, com a destruição dela, passou a trabalhar no próprio Sulala. Ganhava um valor fixo mensal, pago com doações que a instituição recebe via internet.
Às vezes, ele conversava pelo WhatsApp com Mariam Kamal, veterinária americana e muçulmana que criou a rede Animal Healthcare Workers Against Genocide. Numa mensagem de texto tornada pública pela médica, Rukbeh lamentava não ter conseguido reanimar um cachorro baleado. Em outra, relatava que bois, vacas, bezerros, coelhos e galinhas “haviam deixado de existir” em Gaza. “No início da guerra o Exército [israelense] destruiu a maioria das fazendas, matando parte das vacas leiteiras”, escreveu. “As que sobraram precisaram ser abatidas e transformadas em carne por falta de comida para alimentá-las.”
Um artigo publicado em agosto pela organização não governamental Euro-Mediterranean Human Rights Monitor informa que a Faixa de Gaza tinha 6,5 mil criações de galinha antes da guerra – 93% delas viraram pó. O texto afirma: “A destruição da riqueza animal coincide com a destruição de milhares de hectares de terras agrícolas, como parte de uma política deliberada para matar a população de fome, eliminar fontes de alimento e infligir severo sofrimento físico e psicológico aos palestinos.”