carta da argentina
Carolina Tarrio, de Buenos Aires Dez 2025 18h21
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No início de outubro, diante de uma sala lotada do Tribunal Oral Federal de Mar del Plata, na Argentina, Mariana Luz Oliva ergueu os braços, segurando um desenho, e disse:
– Quem fala aqui é a minha mãe. Eu sirvo apenas como ponte.
No desenho, feito a lápis, aparecem um homem e uma mulher sentados em cadeiras, separados por uma parede. Acima da cabeça dele, há um balão com palavrões e insultos; sobre a dela, que chora, há pássaros – um anseio por liberdade. O papel é da Base Naval de Mar del Plata e o desenho foi feito entre agosto e novembro de 1976. A autora é Laura Susana Martinelli, sequestrada aos 23 anos junto com o marido, Carlos Alberto Oliva, de 25 anos, por agentes da ditadura militar argentina. Mariana, filha do casal, tinha apenas 5 meses quando os pais desapareceram. Passaram-se mais de quarenta anos até que alguns desenhos, feitos por sua mãe no cativeiro, chegassem até ela – enviados pelo filho do sequestrador.
“Eu tinha 5 anos na época da ditadura”, diz Martín Azcurra, jornalista e ilustrador de 52 anos. “Já adulto, resolvi voltar à casa da minha família, que estava vazia, para viver ali com meu filho. Foi então que, no fundo de uma gaveta, encontramos um envelope com quatro desenhos, e uma breve descrição da autora e do marido. Algo, de algum modo, tinha impedido meu pai de destruí-los”, diz ele, que é membro do grupo Histórias Desobedientes – Familiares de Genocidas por Memória, Verdade e Justiça. Os outros três desenhos retratam cenas bem distintas, como um bebê em um berço e uma sereia com a citação de um conto.
Enquanto fala, Azcurra se remexe na cadeira. Sua respiração vai encurtando e o rosto endurece, ele pigarreia, visivelmente incomodado à medida que recupera a história. “Sem perguntar nada ao meu pai, comecei a procurar por Susana Martinelli”, diz. Descobriu que ela havia sido assassinada em 31 de dezembro de 1976, na cidade de Bahía Blanca, num suposto enfrentamento com forças da Armada e do Comando do Quinto Corpo do Exército – essa é a versão oficial. Carlos Oliva, o pai de Mariana, segue desaparecido. Também descobriu que eles tinham tido uma filha que se chamava Mariana.
“Eu me recuso a fazer parte do silêncio e do encobrimento que os militares mantêm até hoje, inclusive dentro de suas famílias”, afirma Azcurra. Seu pai, Héctor Raúl Azcurra, um suboficial da Inteligência, atuou na Marinha e integrou a Força-Tarefa 6, unidade que prestou serviços na Base Naval de Mar del Plata, até 1980. “Quando descobri a história de Suzana e Carlos, entendi imediatamente que precisava entregar os desenhos para Mariana”, diz Azcurra. “Mas também senti vergonha. Vergonha e medo. Porque, junto com o envelope, eu levaria uma frase difícil de dizer: sou filho do homem que sequestrou seus pais.” Azcurra então procurou o advogado Pablo Vassel, que a conhecia, e lhe entregou a pasta com os desenhos de Susana. Teve o cuidado de incluir seu telefone, caso Mariana quisesse contatá-lo.
“Foi no pátio da minha casa, sentada ao sol, que recebi a melhor mensagem de minha vida”, diz Mariana, designer gráfica, hoje com 49 anos. “O primeiro desenho que vi foi o de um bebê num berço. Levei alguns segundos para entender que esse bebê era eu, embora tenha reconhecido imediatamente a caligrafia e os traços da minha mãe, porque minha avó e minha tia guardaram outros escritos e desenhos dela”, conta. “Aquele bebê no berço era a minha mãe voltando e dizendo: ‘Eu estava pensando em você.’ Foi praticamente um milagre, uma garrafa lançada ao mar. Os repressores foram capazes de violentar, torturar e matar minha mãe, que estava em sua plenitude, estudando, trabalhando e militando por seu país. Mas não quebraram esse vínculo.”
Uma semana mais tarde, Mariana telefonou para Azcurra. E desse encontro improvável surgiu uma amizade que perdura até hoje. “Mariana foi um amor, muito compreensiva e receptiva. A reação das pessoas que foram vítimas da ditadura é sempre muito boa, muito mais do que os conflitos que ocorrem do outro lado, o da família”, assegura Azcurra. Assim como Mariana ficou anos na busca de pistas e informações que a levassem a reconstruir a história e os últimos momentos de seus pais, Azcurra também precisou de muito tempo para processar os fatos e a angústia que a atuação de seu pai lhe provocou.
“Não posso jamais comparar minha situação com a dor das vítimas, mas é também difícil. Até porque, ao contrário de outros filhos de repressores e genocidas que atuaram na ditadura e tiveram pais violentos, considero que o meu foi um bom pai”, diz. Ele se lembra de ser levado por Héctor, junto com seus irmãos, para visitar comunidades pobres. As villas, como se diz na Argentina. “Meu pai era carinhoso, amoroso, ele teve uma origem humilde e queria que compreendêssemos de onde vinha, como viviam as pessoas mais vulneráveis. Tinha gestos como acolher uma família que estava na rua em nossa garagem e lhes dar abrigo e comida. É muito difícil viver com essa contradição, de amar o seu pai e ao mesmo tempo saber que ele participou de sequestros ilegais, violações e tortura.”
Azcurra fez muitos anos de terapia. Inúmeras vezes confrontou o pai e passou anos sem vê-lo. Héctor, hoje com 88 anos, cumpre prisão perpétua em casa, com tornozeleira eletrônica. E é réu no processo, cujo julgamento ainda está em curso, movido por Mariana, outros familiares de desaparecidos e grupos de direitos humanos. Eles tentam identificar os responsáveis por crimes de lesa-humanidade cometidos na Subzona 15, uma área militar. São vinte acusados. “Só depois que meu pai foi julgado e preso, doze anos atrás, só depois que senti que a Justiça tinha sido feita, que o vi na cadeia, é que consegui separar um pouco as coisas: o que é familiar e pessoal, e o que é ético e político, e então reaver o lugar de filho”, diz Azcurra. Assim como outros filhos de repressores e genocidas, ele assegura que calar e ocultar não traz paz. Pelo contrário: o que promove pacificação e restauração é a Justiça.
“Feridas abertas, que não se expõem ao sol, vão supurando. O pus tem de sair por algum lugar”, diz Bibiana Marta Reibaldi, 69 anos, psicopedagoga e colega de Azcurra no grupo Histórias Desobedientes. Ela é filha de Julio Juan Reibaldi, que trabalhou por anos na Inteligência do Exército. Bibiana também percorreu um longo caminho até conectar as peças e entender quem era e como atuava seu pai. “Quando eu era pequena, ele fez várias viagens. Só bem mais tarde compreendi que ele foi treinado nos Estados Unidos, de onde me trouxe uma boneca dos Flintstones, que eu adorava”, lembra.
O pai de Bibiana foi membro da Escuela de las Américas, centro de treinamento fundado no Panamá, onde militares latino-americanos eram apresentados a técnicas de contrainsurgência, tortura, infiltração e espionagem. “Durante a ditadura, ele viajou várias vezes a São Paulo, ao Rio de Janeiro e a Lima, no Peru, onde com certeza buscou e identificou pessoas que depois foram sequestradas, torturadas e mortas”, diz Bibiana, cuja infância foi similar à de muitas crianças filhas de militares. Segundo ela, um ambiente muito fechado, em que se estuda em escolas católicas ou militares; se frequenta somente os clubes e ambientes de militares; se recebem poucas pessoas em casa, e a vida social se resume a encontrar outras famílias de militares.
Assim como ocorreu com vários colegas do grupo Histórias Desobedientes, somente ao entrar na faculdade pública, em 1974, Bibiana teve acesso aos fatos e começou a entender o que ocorria no país, que sofreria um golpe militar dois anos depois, em março de 1976. “Foi como sair de uma nuvem e finalmente aterrissar no planeta Terra”, diz. Mas isso deu início também a um longo período de suspeitas e embates: por que o seu pai, por exemplo, pedia que ela perguntasse por “Soler”, e não por Reibaldi, o sobrenome deles, quando telefonava para o seu trabalho? Por que ele andava tão nervoso e explosivo?
“Já no fim de 1974, minha faculdade foi fechada pela primeira vez. Estava tudo rodeado de policiais, armas, caminhões. Alguns colegas buscaram refúgio em um bar próximo, mas a polícia acabou entrando.” Ingenuamente, Bibiana pensou em pedir ajuda ao pai. Foi procurá-lo naquela mesma noite, no apartamento em que morava. Era um edifício com quitinetes, na Rua Viamonte, muito próximo ao lugar que abrigava o serviço de informações do Exército, onde ele trabalhava.
“Quando cheguei, ouvi que alguém lá dentro estava chorando. Então olhei pelo visor da porta e vi uma moça sentada de cócoras, sobre a cama, soluçando e falando, e um homem ao lado dela, que não era o meu pai. Fiquei assustadíssima, e fui embora. A partir daquele episódio, percebi que algo muito obscuro acontecia”, diz. Bibiana começou a questionar o pai, mas suas respostas foram evasivas. E isso foi gerando distância. “Era muito complexo, para mim, aceitar que eu gostava do meu pai e, ao mesmo tempo, sentia repúdio por tudo o que ele fazia. Quando fui acompanhá-lo para fazer alguns exames no hospital, após um problema cardíaco, já no fim da ditadura, talvez início da democracia, ele encontrou uns conhecidos que perguntaram efusivamente: ‘E aí, o que você anda fazendo?’ ‘Agora, me dedico a caçar subversivos’, ele respondeu. E eu não consegui reagir. Mesmo ele dizendo isso com todas as letras. Me senti congelada, quebrada por dentro, como se, aos pedaços, eu me esparramasse pelo chão”, lembra.
Com a redemocratização da Argentina, em 1983, uma comissão começou a recolher depoimentos de sobreviventes da repressão. Dois anos mais tarde, o país abriu um processo inédito contra as juntas militares que haviam governado durante a ditadura. Foram ouvidas 833 pessoas, entre elas vítimas que sobreviveram a sequestros e torturas em centros clandestinos. Em dezembro de 1985, cinco ex-comandantes foram condenados e quatro absolvidos.
A reação veio logo: em 1986, Raúl Alfonsín, o primeiro presidente eleito pelo voto popular depois da ditadura, sancionou a Lei do Ponto Final, que encerrava qualquer nova ação penal contra acusados de violações de direitos humanos, caso não fossem denunciados em até dois meses. Houve protestos massivos, mas a lei foi aprovada. No ano seguinte, veio a Lei da Obediência Devida, que isentava de culpa todos os militares de patente inferior a coronel, sob alegação de que apenas cumpriam ordens superiores. Já entre 1989 e 1990, o recém-eleito presidente Carlos Menem completou esse ciclo que tentou institucionalizar o esquecimento ao conceder um indulto a vários condenados e investigados, com o pretexto de uma “pacificação nacional”.
“Só que não houve pacificação. O que ocorreu foram vinte anos de impunidade para genocidas. A pacificação só ocorre com Justiça”, diz Bibiana. Apenas em 1998, a Assembleia Permanente pelos Direitos Humanos (APDH) apresentou à Justiça da cidade de La Plata, capital da província de Buenos Aires, uma ação inédita, que visava garantir o direito à verdade para as famílias dos desaparecidos e para a sociedade argentina. O tribunal aceitou o pedido e, em setembro daquele ano, começaram os chamados Julgamentos pela Verdade, realizados em várias cidades: La Plata, Bahía Blanca, Mar del Plata, Córdoba e Mendoza.
Embora não tivessem efeito penal, esses processos permitiram reconstruir o funcionamento do aparato repressivo montado durante a ditadura. Revelou-se que milhares de vítimas foram dopadas e atiradas ao Rio da Prata e ao mar, no que ficaram conhecidos como “voos da morte”. Alguns executores foram identificados. As informações coletadas serviram, anos depois, como base para novos julgamentos criminais coletivos, como o que move agora Mariana Oliva contra vinte acusados – entre eles, o pai de Azcurra.
O que viabilizou a virada foram duas leis promulgadas pelo presidente Néstor Kirchner, em 2003. Uma declarava a nulidade das leis do Ponto Final e da Obediência Devida, abrindo caminho para a reabertura dos processos e a restituição às vítimas do direito à verdade e à justiça. A outra, que incorporou à Constituição argentina a Convenção sobre a Imprescritibilidade dos Crimes de Guerra e dos Crimes contra a Humanidade, deflagrou a adoção de uma série de políticas de memória no país.
“Esses processos, que trouxeram os relatos de sobreviventes, nos deram a possibilidade de termos uma identidade. Naquele momento, soubemos com todas as letras o que tinha acontecido, e pudemos entender, desculpe o palavreado, a merda de onde vínhamos”, diz Bibiana. “Se havia alguma contradição interna e se o carinho que sentíamos por nossos pais batia de frente com os fragmentos que sabíamos deles, os julgamentos eliminaram as contradições.”
Julio Juan Reibaldi, o pai de Bibiana, morreu um ano antes, em 2002, impune. “Eu lhe pedi, até o último minuto, que contasse o que sabia. Queria poder ajudar a encontrar algum filho ou neto de desaparecidos, esclarecer fatos, mas ele nunca entregou um único dado. Acho que não se arrependeu, caso contrário, teria falado”, diz ela, com pesar. “Ele sabia que esse silêncio me provocava imensa dor. Que, para mim, teria sido reparador se ele confessasse seus crimes, mas ele se negou. Um único dia, após uma briga que teve com meu irmão, meu pai apareceu chorando em casa e me jurou nunca ter torturado ninguém. Eu não acreditei”, diz Bibiana.
A única coisa que a família conseguiu reaver, após a morte do pai, foi uma pasta, com o título “Para Incinerar”, que estava em um cofre no banco. Dentro da pasta, havia apenas comprovantes de pagamentos de Reibaldi, do ano 1983 em diante – um indício de que continuou trabalhando sob o regime democrático. A família entregou os papéis a organismos de direitos humanos. Àquela altura, segundo Bibiana, seu distanciamento com o pai era total: “Uma sensação de repúdio e estranheza absoluta.”
Além da pasta, a família teve acesso a microfilmes que registraram as diferentes patentes, cargos e atribuições ao longo da vida militar de Reibaldi. Até hoje, o grupo Histórias Desobedientes pede que esse material, guardado no nono andar do Ministério da Defesa, seja digitalizado e aberto ao público, já que pode ajudar a identificar quem agiu e onde. Mas o grupo ainda não obteve sucesso. E não será no governo do presidente Javier Milei que as coisas mudarão. Milei já questionou que os mortos e desaparecidos sob a ditadura tenham chegado a 30 mil e tem cortado verbas para iniciativas e lugares de memória. Sua vice, Victoria Villarruel, é filha de militares e fez visitas ao general Jorge Rafael Videla na prisão. O general, primeiro presidente da ditadura, foi condenado à prisão perpétua por crimes contra a humanidade e morreu na prisão em 2013*.
Os militares seguiram atuando até bem depois do final da ditadura. E seguem infiltrados em muitos lugares. Infelizmente, eles queimaram tudo o que havia sobre aquele tempo. Ou seja, muita informação só virá à tona se alguns decidirem falar, ou se seus familiares o fizerem”, diz Javier Vaca, 60 anos, professor de ciência política, também participante do grupo Histórias Desobedientes. Ele tem conhecimento de causa.
Seu pai, Omar Jesús Vaca, foi suboficial do Exército e integrou o Destacamento de Inteligência 121, de Rosario, onde era orquestrada toda a repressão da região durante a ditadura. O suboficial atuou ali entre 1968 e 1986, ano em que Javier Vaca começou a faculdade. “A universidade pública foi um mundo novo para mim. Em poucos meses, comecei a participar de um grupo social-democrata. E aí surgiram os primeiros enfrentamentos com meu pai. Um dia, estávamos assistindo à tevê, ele sentado na cabeceira, eu do lado”, lembra. No telejornal, falaram da Quinta de Funes, um sítio no qual funcionou um centro clandestino de repressão. “De repente, meu pai soltou: ‘Não vão encontrar nada ali. Já queimamos tudo.’” Foi a primeira vez que Javier se lembra de ter ficado impactado. Até então, ele pensava que seu pai fazia trabalhos burocráticos no destacamento.
“Mesmo assim, não associei essa fala dele com tortura ou genocídio”, diz. Javier rompeu com o pai alguns anos mais tarde, depois de uma discussão bastante violenta, em que ele dizia que “havia passado a vida toda perseguindo comunistas, socialistas e subversivos pelo bem da pátria e que Javier havia se tornado um deles”. “Eu respondi: ‘Esse é o seu castigo.’ E saí de casa. Só quando ele morreu, minha mãe me disse que foi o meu pai quem negociou o aluguel daquele sítio, a Quinta de Funes.”
Segundo Javier, nas casas de militares até se fala de política, mas as versões são sempre únicas. “Meus pais estavam certos de que havia terroristas e subversivos que iriam persegui-los. Eles experimentavam uma paranoia que começou a se instalar logo após a morte de Perón, em 1974, dois anos antes da ditadura. Existia uma cultura familiar de medo a um inimigo. Tanto que a minha mãe levava um .38 na bolsa. E era natural ter armas em casa. Quando você é criança, acha que toda família é assim, porque essa é a sua realidade”, diz.
A partir de 1974, sob um clima cada vez mais tenso, os pais de Javier começaram a dormir à base de calmantes, e havia muito controle, muita desconfiança de tudo e todos. “Quando a ditadura se instalou e recrudesceu, e começaram os sequestros, em 1976, 1977, eu também percebi que o meu pai, além das armas dele, uma .45 e uma 9 mm, começou a levar para casa escopetas com cano recortado, granadas, picanas. Eu brincava com uma picana, aos 10, 11 anos, como se fosse uma espada”, lembra. Picana é um instrumento que solta descargas elétricas e, nas sessões de tortura, geralmente é aplicado em partes sensíveis do corpo, como vagina ou testículos. “Meu pai também trazia para casa coisas de origem incerta: relógios, máquinas de escrever…” Mas ninguém fazia perguntas. Ele era um homem corpulento, bastante violento. Lutava boxe e proferia poucas palavras.
Javier prossegue seu relato: “Muitos de nós levamos décadas até entender e podermos nos posicionar. Fomos juntando pedacinhos de lembranças com documentos, com investigações por parte de grupos de direitos humanos. Uma espécie de jogo Tetris mental que vai se formando. Não tem um momento de Eureka!, em que você percebe tudo. Mas as cenas que você se lembra vão adquirindo um novo significado, vão sendo entendidas de outra forma. É um processo, ao final do qual, se tiver vontade de lembrar e encarar a realidade, você chega à conclusão: meu pai é um genocida.”
Javier recorda um episódio em que um vizinho, poucas casas para além da deles, foi sequestrado pela polícia durante a madrugada. As filhas desse vizinho eram suas amigas. “Naquela noite, o meu pai nem se mexeu. Hoje tenho certeza de que ele sabia, que estava informado e em acordo com a polícia. Caso contrário, ao ouvir gritos e disparos na madrugada, como todos ouvimos, ele jamais teria ficado quieto. Certamente teria pegado sua arma e ido averiguar o que acontecia.”
Javier também diz que as atividades de espionagem e infiltração continuaram no período democrático. Lembra que seu pai o levou, em 1987, quando já havia se aposentado, até o destacamento onde trabalhara. “Assim que chegamos, cumprimentei alguns colegas dele, e meu pai me apresentou a alguns oficiais mais jovens, da minha idade”, diz. Em determinado momento, o pai se afastou e Javier ficou conversando com um deles. “O papo parecia normal, mas, quando vi, esse militar estava me perguntando sobre uma professora da faculdade, da qual sabia o nome, e também sobre a bibliografia usada nessa disciplina, sobre os meus colegas de sala… Ele estava querendo extrair informações!”, conta. Javier imediatamente foi embora, o que provocou mais uma briga com o pai. Semanas mais tarde, ele chegou a ver na faculdade, circulando entre os alunos, um jovem que seu pai lhe apresentara na visita ao destacamento. Lembrava bem do sujeito porque ouviu dele uma piada idiota: “Seu pai é o Vaca e aqui está o bezerro.”
“Ali, no local em que ele trabalhava, havia cinquenta, sessenta pessoas. E muito poucos foram julgados e condenados. Meu pai mesmo morreu impune. O que aconteceu com todos?”, pergunta com indignação. Para Javier, depois do espanto e da vergonha, o que sobreveio foi a raiva: “Eu entendo ele ficar calado para manter o emprego que o ajudava a sustentar sua família. Mas por que não falou depois? Não denunciou?”
Para que a memória não se perca e a verdade continue vindo à tona, os membros do Histórias Desobedientes – como Martín, Bibiana e Javier – promovem encontros em escolas, dão palestras e atuam em diversas frentes educativas. O trabalho coletivo também permitiu aos membros do grupo sanar suas próprias feridas com a troca de lembranças e sentimentos, a percepção das similaridades entre suas histórias familiares. “Esses repressores, esses genocidas não provocaram dor apenas às famílias das quais sequestraram membros, destruindo-as. Eles também trouxeram muito dano às famílias que eles próprios formaram”, diz Bibiana.
Em 2017, ela encontrou outros familiares de repressores, que criaram o grupo Histórias Desobedientes. Em maio daquele ano, uma decisão da Corte Suprema de Justiça, tomada por juízes indicados pelo então presidente Mauricio Macri, abriu uma brecha para libertar, ou reduzir as penas, de mais de 750 militares e policiais envolvidos na repressão. “Houve um levante gigante contra essa decisão. As redes sociais explodiram, tanto que, pouco depois, o Congresso restringiu a medida. Por meio de redes sociais, vários de nós nos conectamos e fui convidada a participar de uma marcha no dia 3 de junho de 2017”, lembra Bibiana.
O local marcado para a concentração foi a esquina das ruas Riobamba e Rivadavia, em Buenos Aires, próximo ao Congresso, o mesmo local hoje usado por aposentados para protestar contra a supressão de direitos e benefícios operada pelo governo de Javier Milei. “Eu não sabia com quem ia me encontrar ou o que aconteceria. Havia algumas mulheres e logo chegou o Martín [Azcurra], com uma faixa que dizia: ‘Filhas e Filhos de Genocidas por Memória, Verdade e Justiça.’ Naquele momento, minhas pernas bambearam”, conta. Não era fácil marchar sob uma bandeira tão pesada. Mas foi o que fizeram. “Mesmo com vergonha e medo, foi importante assumir essa identidade e poder operar um corte. Poder dizer: ‘Eu sei de onde venho, mas eu não sou genocida.’”
A partir dali, outros encontros e movimentos aconteceram. De início, o grupo Histórias Desobedientes contou com acompanhamento psicológico. “Agora conseguimos falar com mais facilidade, mas nas primeiras vezes, não foi fácil. Não é fácil”, diz Azcurra. Todos asseguram que, juntos, passaram por uma enorme transformação pessoal, que de algum modo os ajudou a processar os acontecimentos. “Para sanarem completamente, além de manter vivas a memória, a verdade e a justiça, pensamos que é essencial modificar a formação militar e a da polícia. Não apenas alterando o currículo, como se tentou durante o governo de Cristina Kirchner”, diz Javier Vaca. “Os militares têm toda uma organização e uma cultura, que vem de anos. Eles se sentem superiores aos civis. Seguem achando que são salvadores da pátria e sendo treinados em uma rígida hierarquia que, em última instância, pode justificar ilegalidades, mortes, violações.”
De acordo com o grupo, incluir no currículo de policiais e militares algumas noções sobre direitos humanos é muito pouco. “Seria necessário que eles ouvissem as famílias de desaparecidos, que entendessem a disparidade existente entre a força e o poder do Estado e a [força e o poder] da sociedade civil, mesmo que se trate de organizações armadas. É crucial que compreendam o absurdo que foi um aparato de Estado com milhares de pessoas, como militares de diferentes patentes, policiais, pessoal de inteligência, médicos e juízes, ter sido inteiramente mobilizado para vigiar, caçar, sequestrar ilegalmente, torturar, violentar e matar”, diz Bibiana.
Recentemente, Histórias Desobedientes se uniu ao coletivo de advogados Mario Bosch, que combate crimes de lesa-humanidade, para se apresentar perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Eles vão atuar como amicus curiae (amigos da corte), emitindo pareceres para informar os magistrados em um caso que busca transformar o sequestro e assassinato do coronel Argentino del Valle Larrabure, pelo Exército Revolucionário do Povo (ERP), em crime de lesa-humanidade. Os líderes do ERP nunca admitiram o crime e alegam que o coronel se suicidou no cativeiro.
A própria vice-presidente Victoria Villarruel tem incentivado a reabertura de casos de ataques e crimes de grupos guerrilheiros. “Eles pretendem retomar o que ficou conhecido como ‘teoria dos dois demônios’, que prega uma equivalência entre a atuação de grupos armados e as ações do Estado”, diz Azcurra. É dentro dessa perspectiva que a família do coronel Larrabure busca que o seu sequestro e morte sejam considerados crime de lesa-humanidade, o que faria com que não prescrevesse.
“Acontece que não há equivalência entre a violência de Estado e ações ditas subversivas ou terroristas. O Estado tem todas as ferramentas para investigar, prender e punir crimes. O Estado não pode agir por vingança e se transformar, ele mesmo, em aparato terrorista, torturando, violentando e matando. Foi o que se fez com os sequestradores de Larrabure, que foram exterminados. E a mesma coisa [ocorreu] com tantas outras pessoas, tenham elas cometido crimes ou não. Isso aconteceu na Argentina e em toda a América Latina durante as ditaduras impostas na região”, diz Bibiana. Tanto que, a partir do Histórias Desobedientes argentino, outros familiares de repressores sentiram a necessidade de falar e se organizar, e novos grupos foram surgindo. Hoje, existem Histórias Desobedientes no Chile e no Uruguai.
No Brasil, alguns familiares de repressores tentaram formar um grupo. Caio Felipe Rezende, cineasta de 31 anos, é filho de um pai que, a partir de 1974, atuou no DOI-Codi em Fortaleza e na II Seção do Exército em Brasília. Ele se aproximou do Histórias Desobedientes em 2018, depois de assistir ao documentário O pacto de Adriana, da cineasta Lissette Orozco (disponível gratuitamente na plataforma Sesc Digital). Nele, a diretora narra a história da sua tia Adriana, que trabalhou na polícia secreta do ditador Augusto Pinochet, no Chile. Ao entrar em contato com Lissette, Rezende recebeu informações sobre os grupos de “desobedientes”. “Foi um alívio encontrar um lugar confortável para falar”, diz. “Porque, para quem tem uma história como essa, não falar é como viver com um garfo entalado na garganta. É de algum modo uma continuidade da violência que foi cometida lá atrás, pelo meu pai. E que se perpetua: o que eu vou dizer aos meus filhos, quando os tiver, sobre a atuação do meu pai, sobre quem foi o avô deles? Tenho certeza de que há muitas pessoas como nós espalhadas pelo Brasil. Pessoas com esse desespero por falar, mas que não têm coragem, que têm medo.”
Só que a ideia acabou não indo adiante. Hoje, os brasileiros estão incorporados nos grupos que já existem em outros países. “No Brasil, é muito difícil porque não houve responsabilização. Então, o que eu vou fazer? Denunciar o meu pai, algo que a Justiça não fez, nem o Ministério Público fez? Vou arcar individualmente com essa exposição?”, diz Rezende. “As portas aqui no Brasil estão mais que fechadas. Estão cimentadas. E, para abri-las, você vai se ferir”, diz ele.
Neste momento da história, quando o Brasil condena pela primeira vez os responsáveis por uma tentativa de golpe e a Argentina atravessa um governo que procura apagar o passado autoritário e brutal, Martín Azcurra considera de suma importância se manifestar: “Diante do negacionismo, do retrocesso, é essencial haver vozes públicas que digam que a única reconciliação possível é a da justiça. Que nossos pais precisam ser, sim, julgados e condenados pelos crimes que cometeram. Sem apaziguamento.” O propósito do Histórias Desobedientes é transformar a sociedade para que nunca mais o Estado seja responsável por crimes de lesa-humanidade. E para que não haja novas variantes do horror, seja contra as populações indígenas, seja contra os moradores de periferia, onde a polícia chega atirando.
Para Martín, assim como para Mariana – que ainda espera alcançar justiça para seus pais – Susana e Carlos, é essencial que se recupere o que aconteceu, e que cada participante seja responsabilizado por seus erros, para que não se volte a incorrer neles. “É preciso que se reconheça a atuação vexaminosa que diversos organismos do Estado, como as Forças Armadas Argentinas, tiveram durante a ditadura. Para que não só individualmente, mas também como sociedade, possamos obter uma cura”, diz Mariana. Foi por isso que, durante seu testemunho perante o Tribunal Oral Federal de Mar del Plata, além de transformar os desenhos de sua mãe em prova jurídica das ações hediondas de seus sequestradores, Mariana lançou também um pedido: “Venham a público, contem o que sabem.”
*Condenado à prisão perpétua em 2010, por crimes de lesa humanidade (sequestros, tortura e homicídios), Eduardo Kalinec, ex-delegado da Polícia Federal de 73 anos, conhecido como “Dr. K”, recebeu o benefício da liberdade condicional, em 22 de dezembro de 2025, depois uma apelação de seus advogados. Uma de suas filhas, Analía Kalinec, recebeu a notícia da soltura do pai com indignação. Em entrevistas a rádios argentinas, ela disse que, em todos os anos que ficou preso, o pai não conseguiu refletir a respeito dos seus crimes ou do dano que causou. “Dr. K” atuou em locais onde bebês foram roubados de suas famílias e dados em adoção e nunca revelou nada sobre o paradeiro das crianças, que seguem sendo procuradas. Junto com seus colegas do grupo Histórias Desobedientes, Analía divulgou uma nota, endossada por entidades argentinas e internacionais de defesa dos direitos humanos. “Os crimes de lesa humanidade não prescrevem, não admitem benefícios ordinários e não podem ser relativizados. Eduardo Kalinec nunca expressou arrependimento, não colaborou com a Justiça nem forneceu informações sobre o destino de suas vítimas. Liberar um repressor nessas condições não é um gesto de humanidade e sim uma mensagem de impunidade”, diz o comunicado.