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ESCAVO O PAPEL ATRÁS DE UMA FRASE OCULTA

Imagem Escavo o papel atrás de uma frase oculta

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MINERAÇÃO

Escavo o papel,
atrás de uma frase oculta.
Tento trazê-la à tona,
ela porém reluta.
Resiste a se entregar
nessa nossa disputa.
Depois de muito suor
consigo vencer a luta.
Arranco da folha o segredo
trancado em sua gruta.
Descubro então o conselho
destinado à minha escuta:
“Desista de aqui procurar
palavra fina ou bruta.
Nem tente escavar o papel,
não existe a frase oculta.”

SENTIMENTO DRUMMUNDO[1]

Minhas mãos tecem o rude trabalho:
capinar, semear, colher.
Os olhos lacrimejam, o coração transborda.
E nada espero de ninguém.

Olhos enevoados. Detrás do chapéu,
minha sombra cintila, brilhosamente negra.

Pouco importa a velhice:
a fome, na casa, na manhã,
se renova, a cada dia.

Meus dedos escavam o mundo
e ele pesa muito mais
do que o cabo de uma enxada.

ALÉM

O poema acaba aqui.
O que vem agora não é meu,
nem sei de quem seja.
Além de mim, com clareza,
a poesia passeia,
entre bruma e incerteza.
Seu banquete começa
depois que eu já tirei a mesa.
Desligo o som do poema.
Ele insiste, à revelia.
O poema por fim
avança à sua origem:
lança na cara da luz
o pólen da letra.
E vai, num voo feliz,
se transformando
em aprendiz de borboleta.

RETRATO A CORES, DE CORPO INTEIRO

Não olhe para esta cara,
que teve talvez beleza,
nem veja a boca entortada
pela pá da Natureza.
Se eu pudesse lhe pedir,
pediria, com certeza,
que primeiro você visse
lá no alto da cabeça
uma faixa colorida
de um incerto azul-turquesa,
coroa falsificada,
pano de toalha de mesa.
Examine bem seus pés:
seriam pés de princesa?
Pois então perderam o trono
sem chegar à realeza.
Não consegue perceber
nada além da correnteza
que derruba em ruga e cinza
tudo o que antes foi firmeza?
No fim, resta um rosto apenas:
frio, feito de dureza,
mesmo que a fumaça irônica,
espécie de sobremesa,
venha adoçar o retrato
numa névoa de leveza.

SONETILHO PÓS-ERÓTICO

O poeta ingere um ácido
para ver se assim se excita.
Seu corpo é bastante flácido,
mas rijo o seu verso fica.
Tamanha inspiração nasce do
que dentro o peito palpita.
Pretendia amor bem plácido,
mas, tenaz, o ciúme o pica.
Ele se julga absoluto,
é só fração decimal;
seu desejo está de luto,
vai erguido a meio pau.
“Em furada não me meto.
Vou ficar só no soneto.”

A CAPITOLINA[2]

Capitu, neste encontro derradeiro,
Apesar de eu já ter perdido a vida,
Aqui venho rever-te, bem-querida,
Trazer-te abraço e beijo companheiro.

Tens por mim teu afeto verdadeiro,
Bentinho foi a página mal lida,
Zombou de ti, por mim apetecida,
Fruto que eu sempre quis comer inteiro.

Lembro os gritos e os gozos arrancados
Na cama, quando o amor tornava unido
O que meu fim tornou tão separado.

Sou Escobar, teu homem preferido.
Morto, a simulação deixo de lado:
Declaro horror e ódio a teu marido.


[1]  A partir do poema Sentimento do mundo, de Carlos Drummond de Andrade.

[2]  A partir do poema A Carolina, de Machado de Assis.


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É poeta e crítico literário, membro da Academia Brasileira de Letras e professor emérito da UFRJ. Publicou, entre outros, Desdizer (poesia, Topbooks) e Papéis de prosa: Machado & mais (crítica, Editora Unesp)