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Thallys Braga Mar 2026 14h49
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A vida como Sandra Helena Morais Leite conhecia acabou numa segunda-feira de março de 1980. Ela e o irmão caçula, Cezar Morais Leite, acordaram bem cedo naquele dia para irem juntos à Universidade Federal do Pará (UFPA). Sandra, então com 20 anos, estudava medicina. Cezar, um ano mais novo, era aluno de matemática. Dirigindo o carro da mãe, ele primeiro deixou a irmã na aula de medicina tropical e depois seguiu para a aula de estudos de problemas brasileiros, em outro prédio do campus.
Antes das oito da manhã, alguns alunos escutaram um estampido. Depois, ouviram sirenes, que a cada minuto pareciam estar mais perto. Um amigo dos irmãos correu para a Faculdade de Medicina, ao encontro de Sandra. “Vem comigo, a gente tem que ir pro pronto-socorro”, avisou. Cezar estava lá, sangrando em cima de uma maca. Tinha levado um tiro nas costas, na altura do peito. “Quem atirou no mano?”, Sandra perguntou, mas ninguém conhecia o atirador.
Estagiária do pronto-socorro, ela sabia que o irmão não poderia ser atendido, pois aquele era o horário da troca do plantão. Os médicos da noite tinham ido embora, e os da tarde ainda não tinham começado o serviço. Cezar sangrou até morrer.
Quando a mãe deles, Helena Leite, chegou ao pronto-socorro, coube a Sandra lhe dar a notícia. “Foram coisas que me marcaram: não ter médico para atender o mano, e eu ser responsável por comunicar a morte dele para a minha mãe”, lembra.
Na tarde do mesmo dia, cerca de quinhentos jovens saíram em cortejo da universidade até a capela de um colégio tradicional de Belém, onde o estudante estava sendo velado. A cerimônia também atraiu adultos e idosos que conheciam o garoto e sua família. Todos queriam saber quem havia matado Cezinha, o DJ mais jovem da cidade, e as razões do crime. Os universitários tinham uma teoria: o tiro fora disparado por um agente da repressão militar infiltrado no campus da UFPA.
Soube-se, dias depois, que a arma que matou Cezar Leite pertencia ao policial federal Dalvo Monteiro de Castro Júnior. Ele alegou que estava no campus para assistir à aula de estudos de problemas brasileiros e atirou em Cezar por acidente: ao mexer na bolsa, acabou derrubando o revólver no chão, e a arma disparou contra o estudante.
Helena Leite desmaiou ao ver o corpo do filho. Sandra deixou o velório para levar a mãe ao hospital, onde ela ficaria internada por dezesseis dias. Do leito, Helena conseguia ouvir as manifestações do movimento estudantil que aconteciam nas ruas de Belém. “O reitor Aracy Amazonas Barreto veio tentar nos convencer de que a morte do mano tinha sido uma fatalidade”, diz Sandra. “Ele queria que a gente pedisse para os estudantes pararem de protestar. Em troca, a universidade me daria auxílio financeiro pelo resto da graduação de medicina. Eu não aceitei. E demorei algum tempo para entender que ele estava tentando intimidar a minha família.”
Ao deixar o hospital, Helena se recusou a voltar para casa. Não suportava a ideia de se sentar à mesa do café da manhã e ver vazia a cadeira que costumava ser ocupada pelo caçula. Ela e Sandra foram abrigadas por familiares, até conseguirem alugar uma casa perto do campus. “Nossa casa nunca ficou vazia”, diz Sandra. Os estudantes entravam e saíam dali durante todo o dia, para fazer companhia a Helena. Prometiam a ela que a morte de Cezar não ficaria impune.
Às vezes, Sandra voltava da faculdade e via a mãe de saída, acompanhada por outros jovens, para visitar o túmulo de Cezar. “Depois, fomos descobrir que alguns deles eram agentes infiltrados”, diz Sandra, com voz chorosa.
Mãe e filha seguiram a vida da maneira que puderam. Alguns dias eram mais difíceis que os outros. Em 1982, Sandra teve um menino, e a chegada do neto devolveu alguma alegria a Helena. Passaram-se mais três anos e a ditadura militar chegou ao fim, com a posse de José Sarney. A cada Dia das Mães, a casa era ocupada outra vez pelos velhos amigos de Cezar, agora homens barbados e com filhos, que levavam flores e chocolate para Helena.
Um dia, Helena foi visitar o túmulo e um funcionário do cemitério lhe comunicou que o corpo do seu filho seria removido em algumas semanas, por inadimplência. Ao contrário do que o reitor prometera na época do assassinato, a UFPA não pagara a sepultura de Cezar. Helena desmaiou outra vez ao receber a notícia da exumação. Bateu a cabeça e acabou internada com traumatismo craniano. “Quando a gente menos esperava, enfrentamos outro drama, outra decepção”, lamenta Sandra, que assumiu a dívida para garantir que o corpo do irmão permanecesse onde estava.
Depois que a presidente Dilma Rousseff sancionou a lei de criação da Comissão Nacional da Verdade, em 2011, Sandra peticionou para que o Estado admitisse a responsabilidade pela morte de Cezar e oferecesse alguma reparação. O pedido foi indeferido. A própria UFPA não reconheceu a ligação do assassinato do jovem com a ditadura militar. Por quatro décadas, a instituição corroborou o que disse o atirador: a morte do rapaz foi mero acidente, cometido por um aluno que por acaso era policial federal. Castro Júnior foi condenado a dois anos de prisão em 1986 por homicídio sem intenção de matar.
Cezar Morais Leite teria 65 anos hoje. A irmã dele tem 66, é ginecologista e ainda cuida da mãe, que comemorou o 91º aniversário em fevereiro. No fim do ano passado, a UFPA entrou em contato com elas para comunicar que vai conceder um diploma de graduação post mortem a Cezar. Agora, a universidade reconhece que o rapaz foi morto por um agente da repressão infiltrado no campus. Ainda assim, acredita-se que sua morte foi acidental, visto que Cezar não era ativo no movimento estudantil nem em algum grupo político. Não representava ameaça para ninguém. Outras instituições do país têm investigado as violências praticadas por agentes do Estado durante a ditadura contra alunos. A USP, por exemplo, já reconheceu mais de trinta casos.
No dia 10 deste mês de março, precisamente 46 anos depois de morrer, Cezar se tornará um matemático. A cerimônia deve ser realizada no campus da universidade, em Belém. “Não é um presente para nós, mas para o mano, um estudante universitário que perdeu a vida precocemente e teve os sonhos acadêmicos interrompidos”, diz a irmã.
Tanto Sandra quanto Helena sabem que no dia 10 receberão flores dos velhos amigos de Cezar, os homens que nos últimos quarenta anos têm sido irmãos e filhos para elas duas.