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Pedro Tavares Mar 2026 14h27
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Passava um pouco das nove da manhã do dia 8 de fevereiro, quando a portuguesa Teresa Pires Morgado deixou o restaurante do qual é proprietária no bairro do Canindé, em São Paulo, e foi até o Consulado Geral de Portugal, no Jardim América. Seu objetivo era votar no segundo turno da eleição para presidente de seu país de origem. “Eu amo política, voto nas eleições daqui e de lá”, disse Morgado, que tem 78 anos e mora no Brasil há 63 anos.
Naquele domingo, concorriam António José Seguro, do Partido Socialista (PS), e André Ventura, do Chega, legenda de extrema direita cujas bandeiras incluem o controle mais rigoroso da imigração, a redução da presença do Estado na economia e penas severas para criminosos. Era a primeira vez em quarenta anos que uma eleição presidencial portuguesa precisava de um segundo turno – ou de uma segunda volta, como dizem por lá.
Morgado pegou um pouco de fila no consulado, mas não se incomodou com isso. “Eles trabalharam bem, estava tudo organizado”, disse. Em torno de meio-dia, ela já estava de volta ao restaurante Cais do Porto, de cozinha portuguesa, para preparar o almoço. “A maioria dos meus clientes é Ventura”, ela contou. “Mas, quando estamos no comércio temos que ser neutros.” Ela preferiu não revelar à piauí seu voto na eleição portuguesa, mas falou de sua admiração por Jair Bolsonaro: “Ele fez um bom trabalho.”
Às 19h em Portugal (16h no Brasil), a votação foi encerrada e iniciou-se a contagem dos votos. Como indicavam as pesquisas, logo ficou claro que Seguro iria bater Ventura em Portugal por ampla margem. Por volta de 18 horas, Morgado recebeu uma mensagem de colegas que trabalham no consulado, dizendo que no Brasil, ao contrário de Portugal, quem tinha vencido fora o candidato da extrema direita: 4 269 votos contra 3 mil do candidato socialista.
Morgado atribuiu a vitória de Ventura no Brasil a um voto de protesto dos portugueses insatisfeitos com a política daqui. “Quando Ventura falou mal do Lula, conquistou muita gente no Brasil”, disse. “Ventura é muito radical, mas poderia mudar um pouquinho Portugal. O socialismo de lá ficou muito protetor de gente que não merece.”
Belém, capital do Pará, foi a cidade que registrou a maior vitória proporcional de Ventura: 73,89%. A piauí conversou com um eleitor paraense de 58 anos, brasileiro com dupla nacionalidade, que não quis revelar o seu voto, mas brincou: “Quem sabe eu não votei nulo?” No consulado de Belém, entretanto, não houve votos nulos. O consulado de Porto Alegre foi o único do país com resultado favorável ao candidato socialista: Seguro venceu com 53 votos, contra 45 de Ventura.
No fim da noite de domingo, foi confirmada em Portugal a vitória de Seguro, com 66,83% dos votos, contra 33,17% de Ventura. Como o voto não é obrigatório para os portugueses, a abstenção chegou a níveis alarmantes: 50% dos eleitores deixaram de comparecer às urnas. Coisa ainda pior ocorreu no Brasil: dos 303 mil portugueses e brasileiros com dupla cidadania aptos a votar aqui, apenas 7,3 mil (menos de 3%) o fizeram no segundo turno das presidenciais.
Antes de se tornar um líder da extrema direita portuguesa, André Ventura, de 43 anos, deu aulas de direito na Universidade Nova de Lisboa e foi comentarista esportivo no canal de tevê CMTV. O empresário português Artur Costa, que mora há mais de vinte anos no Brasil, se lembra de Ventura na tevê. “Ele defendia o Benfica, sua equipe. Até nisso, ele erra”, diz à piauí. Costa mora em Niterói, é torcedor do Sporting, rival do Benfica, e não conseguiu votar nessas eleições. “Geralmente eu recebia as cédulas pelo correio, mas desta vez não recebi”, conta (a Justiça Eleitoral portuguesa só oferece essa possibilidade nas eleições parlamentares).
Dos tempos de Ventura na tevê, Costa recorda de outra característica do político: “Eu já percebia que ele era um cara que mentia muito. Mas ele tem uma coisa: é dono de uma bela oratória.” Para o empresário, é uma contradição que tantos portugueses oriundos de famílias que vieram para o Brasil fugindo da longa ditadura de António Salazar (1933-74), apoiem Ventura, que afirma que haveria menos corrupção em Portugal se o país fosse governado por “mais Salazares”.
Costa avalia que o apelo exercido por Ventura em Portugal vem do fato de ele ser um político que toca nos problemas do dia a dia das pessoas de classe média, ao criticar os imigrantes e bater na tecla do nacionalismo. “Ele tenta recuperar aquele orgulho, um pouco até bobo”, afirma. “Mas diferente do Bolsonaro, que fala mal, o Ventura é intelectualmente muito mais evoluído.”
Depois da derrota, Ventura, bem ao contrário de Bolsonaro, telefonou para Seguro parabenizando-o pela vitória. Em um discurso, acrescentou que “o sucesso de António José Seguro à frente de Portugal será o sucesso de todos”. Também deixou um recado em relação ao futuro do Chega: “É justo dizer que os portugueses nos colocaram no caminho para governar este país.”
Antes da ascensão do Chega, a disputa política entre os votantes residentes no Brasil se dava tradicionalmente entre os eleitores do PS e os do Partido Social Democrata (PSD), refletindo a polaridade também presente em Portugal. “O que me parece que ocorreu agora é que houve uma movimentação de eleitores que votaram no Bolsonaro aqui no Brasil e alinharam esse voto no Ventura. Então esse alinhamento fez com que houvesse aqui uma polarização que já não passasse pelo PSD”, analisa o sociólogo Fernando Guimarães Rodrigues, diretor da Casa de Portugal de São Paulo, instituição de apoio, assistência e fomento cultural à comunidade portuguesa no estado.
Com o fim da ditadura de Salazar, Portugal adotou o sistema semipresidencialista, com o Executivo dividido entre o presidente e o primeiro-ministro. O atual primeiro-ministro, Luís Montenegro, líder da Aliança Democrática (AD), coalizão de centro-direita, chegou ao poder depois das eleições parlamentares de maio do ano passado, conquistando 91 dos 230 assentos no Parlamento. Sem maioria, a AD precisa do apoio de outros partidos. A grande surpresa do pleito foi o partido de Ventura, que conquistou o segundo maior número de cadeiras. Naquela ocasião, o Chega também foi o partido vencedor no Brasil, com 25,35% dos votos. “O voto no Ventura é um voto silencioso. Não é um voto de alguém que tenha orgulho de chegar na comunidade e dizer que votou nele. As pessoas que se manifestam na comunidade são aquelas que votaram no Seguro, que é o voto da moderação”, diz Rodrigues.
Foi o caso do jornalista, ensaísta e advogado mineiro Rogério Faria Tavares, de 54 anos, membro da Academia Mineira de Letras, que expôs sua alegria com a vitória de Seguro em uma publicação no Instagram. O jornalista votou no consulado de Belo Horizonte com sua mulher, que, como ele, tem cidadania portuguesa.
Mas Tavares está na contracorrente em Minas Gerais. No consulado português de Belo Horizonte, Ventura bateu Seguro por 130 votos contra 96. “Essa vitória do Ventura no Brasil precisa ser entendida como sintoma, pois mostra certa empolgação pelo tipo de discurso dele”, diz Tavares. “É chocante que esses portugueses que votaram em Ventura não entendam o que foi a vida deles no regime de Salazar.”
Ele comemora que a maioria do povo português não tenha caído na “conversa fiada de Ventura”, demonstrando amadurecimento político. “Esse era um voto muito fácil. De um lado, você tinha um candidato de… eu não falo nem de extrema direita, mas de extrema impostura, com um discurso construído com base em informações falsas. De outro lado, um candidato com uma trajetória muito longa na política portuguesa e um discurso de governar para todos.”
Tavares classifica Seguro como um admirável político old school. “Ele é do tempo em que os políticos respeitavam os cargos que ocupavam”, diz.